The Honey Badger – Love & Affection (parte 1)
ATENÇÃO! Essa fanfic é indicada para pessoas maiores de 18 anos. Não recomendamos a leitura, se você for menor de idade.
Sinopse: Precisando de uma mudança na vida, ela decide finalmente deixar o medo de lado e acompanhar uma temporada completa de Fórmula 1 ao lado de seu melhor amigo, o número 3 da Red Bull Racing. Depois de 24 anos de amizade, é esperado que nada mude entre eles, mas o destino tinha uma ideia diferente sobre o assunto. Agora eles vão precisar aprender a lidar com esses novos sentimentos sem acabar com a amizade e ainda competir pelo campeonato.
Prólogo
O carro deslizou quando seguiu pela estrada de terra e Harper precisou firmar as mãos no volante, especialmente pelo desnível da estrada. Ir para uma fazenda com carro esportivo não era a melhor coisa a se fazer, mas ela não tinha muita escolha.
Ela guiou o carro por cerca de seis quilômetros por entre os pastos esbranquiçados pelo fim de ano, sentindo o carro rebaixado reclamar com os buracos e pequenas subidas e ela só queria pegar o pescoço de Danny e sacudir. Não podia fazer isso com seu carro novo.
Ela respirou aliviada quando encontrou a grande casa no meio do pasto com diversos carros estacionados em volta do mesmo, mas o seu Renault RS01 amarelo foi o único a destoar dos outros. Estacionou em frente à entrada da casa e desligou o carro, ouvindo o som alto desligar junto e ela saiu do mesmo, puxando somente a chave da ignição consigo.
Subiu as escadas na pressa e tocou a campainha com força, ouvindo-a ecoar baixo do lado de fora e a menina franziu a testa. Ninguém apareceu para recebê-la e, se não fossem os diversos carros, poderia suspeitar que a casa estava vazia. Ela insistiu na campainha mais uma vez e notou a vibração das paredes, revirando os olhos. É óbvio que estaria uma balada ali dentro.
Ela tentou a maçaneta da porta de vidro e riu sarcasticamente quando a porta se abriu e todo o som alto saiu de lá de dentro, deixando-a levemente desorientada por alguns segundos. Empurrou a cortina para o lado e puxou a porta antes de seguir por dentro da casa. Passou por alguns cômodos, ouvindo a diferença de altura do som, até chegar na cozinha, encontrando os pais de Danny.
– Oi, gente! – Sua voz saiu falha, mas ela tocou o ombro de Grace.
– HARPER! – Sua voz saiu mais alta e riram juntas quando a mais velha a abraçou fortemente e a irmã de Danny sorria para ela, além de seu pai que mandava o restante do pessoal abaixar o volume, aliviando os ouvidos de todos.
– Ah, agora sim! – Ela suspirou. – Como você estão?
– Que saudades de você! – Grace a abraçou fortemente de novo, fazendo-a rir. – Você demorou para aparecer esse ano!
– Me desculpe, acabei estendendo minhas viagens, depois fui visitar minha avó… – Ela revirou os olhos.
– E como estão todos? – Grace acariciou seu rosto.
– Ah, tudo bem. – A mais nova ponderou com a cabeça. – Nada de novo.
– Você passa 10 meses fora e não tem nada de novo para contar? – Riram juntas e se afastou de Grace para abraçar Michelle.
– Alguém são para me salvar desse mundo! – Ela disse dramática e ambas gargalharam juntos.
– Ah, que saudades de vocês. – Harper suspirou. – Saudades dessa bagunça toda, confesso! – Ela sorriu.
– Você viaja mais do que o Daniel e não tem nada para contar? – Grace repetiu e Harper riu fracamente.
– Quanto ao trabalho, está tudo muito bem, mas fora isso, nada de novo. – A menina abraçou Joe, ficando levemente na ponta dos pés para alcançá-lo.
– Bom te ver, garota! – Ele falou perto de seu ouvido. – Parece que esse ano te fez bem. – Riram juntos. – Você está linda.
– Obrigada, Joe! – Sorriu. – E como ele está? – Ela se afastou do homem.
– Conseguiu acompanhar alguma coisa? – Joe perguntou.
– Só o resultado. Oitavo, né?! – Ela mordiscou o lábio inferior.
– Sim. Ele está um pouco chateado após sair de um terceiro lugar, mas… – Grace ponderou com a cabeça.
– Chateado? Essa bagunça toda é o Daniel chateado? – Eles riram juntos e a menina encontrou o bebê no berço.
– Forma de escape dele, você conhece a fera. – Michelle disse.
– Até demais. – Ela se aproximou do bebê loirinho. – Esse é o Isaac? – Ela disse surpresa.
– Para você ver! – Michelle se aproximou de ambos e Harper se abaixou para acariciar a bochecha do bebê.
– Oi, lindinho! – Ela sorriu para o mesmo que a olhava confuso. – Eu sou sua madrinha, lembra de mim? – Ela se inclinou para dar um beijinho na testa do menino.
– Você fica fora por um ano e perde todas as coisas boas. – Riram juntas. – Ele fez um ano agora no começo do mês. – Harper suspirou.
– Sinto por não estar aqui, mas prometo que tentarei compensar. Madrinha Harper trouxe presentes de vários lugares do mundo! – Ela fez careta para Isaac que lhe deu um sorrisinho. – Meu lindo!
– Você sempre fala isso. – Joe disse e Harper derrubou os ombros.
– Tentarei de verdade agora. – Ela segurou a mão de Joe. – Agora, onde está ele?
– Está lá no fundo. – Grace disse.
– Alguma namorada? – Ela perguntou.
– Não, finalmente terminaram! – Michelle disse.
– Uh, parece que praga de melhor amiga realmente funciona! – Harper falou animada, fazendo-os rirem.
– E o término veio da parte dele. – Michelle frisou e a menina ficou mais surpresa ainda.
– Eu vou falar com ele e depois eu preciso comer alguma coisa! – Ela disse sugestivamente.
– Cadê suas malas? – Joe perguntou.
– No carro, depois eu descarrego. Com o presentinho novo do Daniel, eu ainda não sei abrir o porta-malas. – Ela fez uma careta e todos riram enquanto ela seguia pelo outro cômodo, encontrando os quatro amigos de infância largados nos sofás, além do marido de Michelle.
– Uh, olha quem chegou! – Tom disse.
– Hum, Harper chegou, hora de ir embora, galera! – Blake disse, fazendo-a revirar os olhos.
– Agora a atenção do nosso Danny boy vai ficar totalmente para ela. – Michael comentou.
– Isso tudo é ciúme, Michael? – A menina apoiou as mãos na cintura e ele fez uma careta. – Onde ele está?
– Na academia. – Jason disse.
– Academia? – Ela perguntou confusa.
– Não pergunte! – Blake disse e Harper abanou a mão.
– Onde está Bruce? – Ela andou pela sala, batendo rapidamente nas mãos dos quatro que estavam jogados nos sofás e pufes.
– Não faz parte do grupo depois que ele tentou te pegar no ano passado. – Tom disse rindo, causando risada de outros.
– Danny? – Harper perguntou confusa.
– Quem você acha? – Ele respondeu rindo e Harper pressionou os lábios em aprovação e seguiu pela sala, andando por entre os corredores até chegar na porta da academia.
Harper a abriu devagar, receosa que Danny estivesse realmente sozinho e o encontrou pelo espelho. Ele fazia supino com os grandes headphones na orelha e provavelmente uma música bem alta. Mas não demorou muito para a feição séria de Danny se transformar em um sorriso quando ele a viu.
– AH, FINALMENTE! – Sua voz saiu alta demais quando ele soltou os pesos e se virou de frente para a garota.
– Sentiu tanta falta minha assim? – Ela perguntou, dando alguns passos para dentro da academia e ele a abraçou com força, tirando-a do chão.
– VOCÊ ESTÁ BRINCANDO? – Ele falou ainda alto e Harper passou os braços pelos seus ombros, erguendo as pernas quando ele a girou.
– Você pode parar de gritar. – Ela disse rindo, sentindo-o afundar o rosto em seu pescoço e ela aproveitou para puxar o fone de suas orelhas.
– Senti sua falta! – Ele disse, a colocando no chão e Harper sorriu, apoiando as mãos em seus ombros.
– Esse bigode é horrível. – Ela comentou.
– Você não me vê há um ano e essa é a primeira coisa que você fala? – Ele perguntou rindo e ela deu de ombros.
– É a primeira coisa que eu vi. – Ele pressionou os lábios em sua bochecha, fazendo-a sorrir e depois apoiou as mãos em seu pescoço. – Você demorou para voltar dessa vez.
– Desculpe. – Suspirou. – Prometo que tem um motivo, mas não vamos falar disso agora.
– Está tudo bem? – O olhar de Danny mudou.
– Sim, é coisa boa! – Sorriu, empurrando-o devagar pelos ombros. – E você? Achei que estava de férias, mas está aqui, levantando peso?
– Só passando o tempo. – Ele se afastou, se aproximando dos pesos novamente.
– Você não me engana, Danny! É pessoal ou profissional? – Perguntou, se aproximando do aparelho de supino e se sentou na mesa.
– Profissional. – Ele disse, levantando-os.
– Eu falei com sua irmã e…
– Ah, Jemma? Ah, não! – Ele riu sarcasticamente. – Você estava certa! Voltar com namoradinhas de infância não rola. – Ela riu fracamente, vendo-o guardar os pesos.
– De alguma forma, ela conseguiu ser mais chata do que na escola. – A menina deu de ombros e ele se sentou ao seu lado.
– Você estava certa. Você estava certa! Não precisa continuar. – Riram juntos.
– Bom! – Sorriu. – Obrigada pelo presentinho de Natal. – Ele virou o rosto surpreso.
– Você recebeu!
– É um pouco difícil ignorar um carro amarelo gigantesco, Danny. – Ela disse exageradamente, fazendo ambos rirem.
– Você gostou?
– Eu prefiro uma McLaren, mas é… – Ele sorriu. – É incrível. Você não precisava, sério.
– Sim, precisava. É meu jeito de dizer que sinto sua falta. – Ela apoiou a cabeça em seu ombro.
– Eu sei, mas você pode sempre mandar mensagem. – Ela disse.
– Eu sei, mas não é a mesma coisa. – Ele sussurrou.
– É… Eu sei.
– Vai ficar comigo até o começo da temporada?
– Sim… Talvez mais dessa vez. – Ela ergueu o rosto e ele a olhava surpreso.
– Mesmo?
– Eu tenho uma reunião antes da virada do ano, espero que esses dias a mais tenham valido à pena. – Falei.
– Então, tem um motivo por que demorou para aparecer dessa vez. – Ele disse e ela riu fracamente.
– É claro que sim! Não trabalharia por mais 20 dias à toa. – Ela disse rindo.
– Bom! – Ele disse firme e a menina pressionou os lábios em um sorriso, analisando seus traços e olhos castanhos.
– Eu odiei o bigode…
– Harp! – Ele disse e ela riu fracamente.
– O nariz com certeza precisa de uma plástica, mas parece que você está mais bonito esse ano, Danny! – Ela se levantou, vendo-o fazer uma careta.
– Eu sempre fui bonito, Harp! Mas até eu preciso admitir que você sempre foi a bonita da dupla.
– Com uma plástica, talvez… – Ela deu de ombros.
– Vou ficar com esse bigode agora de birra.
– Quem vai ficar feio é você! – Ela disse com obviedade no tom de voz. – Parece um gigolô ou um cafetão. – Ele entreabriu os lábios chocado, fazendo-a gargalhar.
– É por te conhecer e ser seu amigo há quase 24 anos que eu não vou fazer a mesma brincadeira contigo. – Ele a indicou com o dedo.
– Por quê? Não tenho o estilo para prostituta? – Gargalharam juntos.
– Não, você não tem! – Ele disse. – Ao menos espero que não. – Ela sorriu, negando com a cabeça.
– Ah, cara! Eu estou aqui há cinco minutos e já estamos falando besteiras. – Ela jogou a cabeça para trás.
– Nada de novo, Harp! – Ele esticou o pulso para ela e ambos deram um toquinho.
– Harp? – A menina virou o rosto, vendo Michelle na porta.
– Ei!
– Só avisando que Tom pegou suas chaves. – Ela arregalou os olhos.
– O QUÊ? NÃO MESMO! TOM! – Ela saiu correndo da academia e a risada de Danny foi atrás dela enquanto ela corria até a entrada da casa, encontrando Tom dentro de seu carro. – SAI DAÍ AGORA! – A menina disse firme.
– Nope! – Ele disse rindo e motor roncou forte.
– TOM! – Ela gritou mais alto e ele deu ré no carro, fazendo a poeira subir, sumindo de sua visão logo em seguida. – Ai, se ele bater meu carro novo!
– Relaxa, eu peço outro para Renault. – Danny falou atrás de si. – E deixo para ele pagar o seguro desse. – A menina riu fracamente, virando para o amigo.
– E vai precisar, porque é horrível chegar aqui com ele! – Ela deu um tapinha em seu ombro.
– Eu esqueci desse detalhe. – Ele fez uma careta. – Enfim, está com fome? – Ele virou o rosto para o lado.
– Sempre. – Ela deu de ombros e Danny esticou o braço, fazendo ambos entrelaçarem e seguiram novamente para dentro da casa.
Capítulo 1
Honey badger (ratel ou texugo-do-mel): “É para ser o animal mais destemido do reino animal. Quando você olha para ele, ele parece muito fofinho, mas assim que alguém cruza seu território de uma forma que ele não gosta, ele se transforma em um selvagem e vai atrás de qualquer coisa, ele muda muito rapidamente, mas ele é um cara bom.” – Ricciardo, 2014
Perth, Austrália, 1992
Grace olhou para os dois lados antes de atravessar a rua, dando alguns passos rápidos quando outro carro começou a se aproximar da faixa que estava. Ela ficou dividida por alguns instantes se ia para a área da escola do jardim de infância ou de ensino fundamental, mas optou pela primeira, já que era o primeiro dia de aula do seu filho mais novo.
O pátio do jardim de infância estava da mesma forma de quando ela chegou: cheio e bagunçado. Crianças corriam de um lado para o outro com mochilas maiores que suas costas e alguns pais conversavam em roda com outros colegas ou professores.
Fazia somente um ano que sua filha mais velha saiu daqui, mas ela se sentiu um tanto perdida enquanto caminhava para a sala do maternal. A professora de Daniel estava na porta, recepcionando os pais e se despedindo dos alunos que já foram.
– Mary? – A voz de Grace foi suave, mas fez a professora de seus 27 anos sorrir para ela.
– Grace! – Ela sorriu, se virando para dentro. – Daniel, sua mãe chegou.
– Como foi? – Ela perguntou, tirando os óculos escuros, vendo seu menino de cabelos cacheados pegar sua mochila e lancheira na pressa.
– Ah, foi ótimo, o Daniel é um garoto muito animado e participativo. – Mary disse. – Difícil falar isso para um garoto de nem três anos, mas ele é uma criança ótima.
– Ah, que bom! – Grace suspirou, pendurando os óculos no decote de sua blusa de frio.
– Oi, mamãe! – Ele disse, carregando mais peso do que devia, e ela se abaixou.
– Ah, meu filho! – Grace o ajudou a pegar a lancheira e o casaco, colocando o último no ombro. – Se divertiu?
– Uhum, é legal! – Ele disse dando um largo sorriso e sua mãe lhe afagou os cabelos antes de dar um beijo em sua bochecha.
– Meu menino mais lindo! – Ela disse antes de se levantar. – Isso é tudo, Mary? Posso ir embora?
– Na verdade… – Mary suspirou. – Aconteceu uma coisinha…
– Ah, o quê? – Grace suspirou, fechando os olhos levemente.
– Ele foi tentar brincar com uma menininha e, sei que foi na brincadeira, mas ela não gostou e… Como a ideia do jardim de infância é…
– Do que ele a chamou? – Grace perguntou suspirando, desviando o olhar para Daniel que parecia alheio à conversa das duas.
– Wandinha. – Mary disse.
– Wandinha? – Grace perguntou sem entender.
– É, a menina da Família Addams, sabe? – Grace franziu o rosto.
– A menina se veste igual ou…?
– Não, não, ela está de marias Chiquinha e o sobrenome dela é Addams. – Ela suspirou. – Foi totalmente na inocência, mas ela não sabe quem é, então acho que ela pensou que fosse ofensa…
– E aposto que ele riu muito disso. – Grace disse e Mary assentiu com a cabeça. – Me dá um minuto, por favor.
– A mãe da menina está conversando com a diretora, se quiser resolver isso antes que aumente.
– Claro! Claro! – Grace disse, puxando seu menino pela mão, afastando-os da porta, e ficou de cócoras na frente dele.
– Eu não fiz nada! – Ele disse e Grace suspirou.
– Não com intenção, eu sei disso. – Ela segurou-o pelo queixo. – Mas a menina ficou triste.
– Mas “A Família Addams” é um filme muito legal! – Ele disse, fazendo um bico e sua mãe sorriu.
– Eu sei, querido, mas nem todo mundo sabe o que é isso. Você tentou falar com ela depois? – Ela perguntou.
– Ela não quis falar comigo… – Ele disse baixo e Grace queria beijar as bochechas do filho que ficavam maiores com o beicinho que ele fazia.
– Vamos conversar com ela? – Grace disse. – Fazer uma amiguinha?
– Uhum! – Ele assentiu com a cabeça e ela se levantou, virando para Mary.
– Mary, onde ela está? – Grace perguntou, acariciando os cabelos de Daniel.
– Ela ‘tá ali! – Daniel disse e Grace procurou entre os baixinhos a pessoa que ele indicava e, pela descrição de Wandinha, a identificou.
A única semelhança da menina com a Wandinha era realmente as marias Chiquinha. O cabelo não era da mesma cor, a pele não era da mesma cor, os olhos não eram da mesma cor e ela com certeza não usava uma roupa completamente preta. Foi somente uma comparação infantil, já que eles tinham visto o filme esses dias. E pensando bem, comparar uma criança de três anos à Wandinha talvez fosse até de mal gosto.
– Vem cá! – Ela deu a mão para ele, vendo a menina de mão dada com uma moça de idade próxima a Grace.
– Ela não vai querer falar comigo! – Ele disse.
– Vai sim! Vem! – Grace disse, segurando firme a mão de Daniel e se virou rapidamente para a professora Mary para acenar.
– O que eu falo? – Ele perguntou.
– Pede desculpas, só isso. – Grace disse antes de tocar o braço da mais velha. – Com licença.
– Oi. – A mulher se virou e a menina se escondeu rapidamente atrás das pernas da mãe.
– Desculpa te incomodar, meu nome é Grace, fiquei sabendo que meu filho chateou sua filha hoje. – Ela disse.
– Ah, que isso! Foi só uma brincadeira de criança. – Ela disse.
– Mesmo assim, não podemos deixar isso acontecer. Será que o Daniel poderia falar com a…?
– Harper. – A mulher disse, passando as mãos nos cabelos da filha.
– Isso. – Grace sorriu, apoiando as mãos nos ombros de Daniel. – Filho…
– Harper… – A mulher disse a mesma forma.
– Me desculpa. – Daniel disse fofo. – Não queria te deixar triste. – Ele disse, fazendo um biquinho. – A Wandinha é de um filme, ela é legal. – Ele disse sorridente e a menina olhou receosa por trás das pernas da mãe antes de olhar para ele.
– Vai… – Sua mãe a encorajou.
– É…? – Ela perguntou.
– Sim! – Daniel disse rindo. – Ela é legal, ela é diferente… – Ele deu de ombros. – E tem o mesmo sobrenome que você! – Ele sorriu.
– Ela é de onde? – Harper perguntou.
– De um filme, chama “A Família Addams”, dá um pouco de susto, mas é legal. – Ele disse rapidamente.
– A gente pode ver, mamãe? – Harper perguntou.
– Por que você não vê com o Daniel? – Sua mãe sugeriu, acariciando os cabelos da menina.
– Posso? – Ela perguntou.
– Claro que sim, amor. – Ela falou sorrindo.
– Você quer? Você pode ir em casa e a mamãe aluga na locadora! – Ele disse sorrindo.
– ‘Tá bom! – Harper disse, dando um curto sorriso.
– Você me desculpa? – Daniel perguntou franzindo os olhos.
– Desculpo. – Ela disse fofa, fazendo o menino sorrir.
– Eu sou Daniel! – Ele esticou a mão para ela.
– Harper. – Ela fez o mesmo, apertando a mão do menino, fazendo sua mãe sorrir e se virar para a mulher.
– Eu sou Grace.
– Helena! – A mulher disse e ambas sorriram.
JANEIRO
Perth, Austrália, 2016
Harper
– WE-E-E-E-E ARE THE CHAMPIO-O-O-ONS, MY FRIE-E-E-END… – Franzi a testa com a cantoria dos caras. – WE-E-E-E-E-E KEEP ON FIGHTI-I-I-ING TO THE E-E-E-E-END!
– Eu preciso de álcool se eu for ter que aguentar isso. – Tio Joe falou e rimos juntos quando ele se afastou para dentro.
Virei o rosto para trás e Danny não estava mais sentado na porta da entrada. Girei os calcanhares para trás e observei a sala de estar, vendo Michelle amamentando Isaac* e sua mãe dormindo no sofá após a virada do ano.
– Harp! – Ergui o rosto para seu pai à mesa. – Lá dentro. – Ele disse e assenti com a cabeça.
Fui até a mesa junto de Joe e peguei dois potinhos, colocando um pouco do meu mousse de chocolate em cada um, espetei as colheres neles antes de dar a volta. Passei pelo corredor, seguindo para o quarto dos fundos e empurrei a porta com o quadril, vendo Danny jogado em sua cama com os olhos nas grandes portas de vidro que davam para o céu estrelado onde, vez ou outra, subia um fogo de artifício solitário ali.
– Posso entrar? – Perguntei e ele ergueu o rosto para mim.
– Você sempre pode. – Ele disse e entrei no quarto, fechando a porta em seguida. Deixei meus sapatos no chão, andando em sua direção e lhe estiquei um potinho antes de ajoelhar na cama e me arrastar até ele, me jogando ao seu lado. – É a sua mousse, né?!
– É, sim! – Falei e ele riu fracamente, erguendo o corpo na cama, apoiando as costas no encosto e fiz o mesmo.
– Minha mãe tenta copiar quando sinto sua falta, mas nada fica igual a sua. – Ele disse e ri fracamente, dando uma colherada e colocando na boca.
– É boa, vai. – Comentei e ele riu fracamente.
– Minha mãe não é chef de cozinha, Harp. Você é! – Ele encheu a boca de mousse, me fazendo rir.
– É, tem esse pequeno detalhe. – Sorri, tombando a cabeça para trás. – Por que você está se escondendo aqui?
– Eu acho que estou bêbado, mas não o suficiente para ficar ouvindo eles cantarem. – Rimos juntos.
– Eu sei que não é sobre isso. Normalmente você rege eles. – Ele gargalhou, jogando a cabeça para trás. – Você pode falar comigo, vai! Eu sei que a temporada não foi tão ruim assim. – Ele suspirou.
– Bem, pensando que somos em 20 pilotos, eu fiquei em oitavo. – Ele ponderou com a cabeça. – Poderia ser pior…
– Mas…? – Perguntei.
– Mas vir de terceiro e cair para oitavo me deixa meio pensativo. – Suspirei.
– Você escreveu algo no seu caderno? – Perguntei, virando o rosto para ele.
– Algumas coisas… – Ele fez uma careta, me fazendo rir. – Talvez você não entenda minha letra. – Suspirei, me aproximando mais dele, colando nossos braços.
– Você realmente precisa de uma plástica, mas sua letra é bonita. – Ele riu fracamente. – Como foi no geral? – Ele soltou um longo suspiro.
– Dois pódios, segundo e terceiro, não finalizei três circuitos, três posições sem pontos, e o resto foi mediano, 92 pontos. – Suspirei.
– Sinto muito, Danny. – Apoiei a tigela na parte de cima de sua cama e ele suspirou. – Ao menos ficou na parte de cima da tabela. – Ele riu fracamente.
– Sempre tentando ver o copo meio cheio, hein?!
– Ei, o otimista aqui deveria ser você, mas parece que estamos invertendo os papéis. – Ele colocou sua tigela ao seu lado também.
– E você? Como foram as coisas? Quantos países visitou dessa vez? – Suspirei.
– Eu fiquei muito na Oceania dessa vez. – Deslizei meu corpo na cama e me coloquei de bruços. – Eu amo a comida desse lado do mundo. – Ele riu fracamente.
– Distribuiu muitas estrelas por aí? – Sorri.
– 44. – Falei, suspirando, apoiando o queixo na mão. – Muitas coisas legais, diferentes… Você ia gostar.
– Seria bom se pudéssemos aproveitar o trabalho do outro, não? – Ele também deslizou seu corpo, se deitando na horizontal na cama, ficando em minha frente.
– Talvez possamos. – Falei com um curto sorriso.
– Talvez? – Ele se colocou de lado, apoiando a mão na cabeça.
– É, talvez eu consiga te acompanhar nessa próxima temporada. – Ele arregalou os olhos e entreabriu os lábios.
– Você não está brincando! – Ri com ele.
– Não, não estou! – Sorri. – O tempo médio de trabalho por ano é de 200 dias, mas eu trabalhei 220 dias esse ano e analisei mais de 600 lugares… – Ele sorriu em expectativa. – Com isso… Eles me deixaram fazer meu calendário do ano que vem. – Abri um sorriso.
– Ah, cara! – Ele tombou sua cabeça para trás dramaticamente. – Você vai me seguir?
– O que acha? – Falei rindo. – Pensei em começar na Austrália, depois ir para o Bahrein, China, Rússia e seguir meu grande amigo corredor pela primeira vez, já que não posso aproveitar a grana dele. – Ele gargalhou alto.
– Essa é a melhor novidade de todas, Harper! – Ele jogou a cabeça para trás com seu largo sorriso.
– Não sei como vamos fazer isso ainda, mas…
– Eu posso acompanhar o seu trabalho também. – Ele me ignorou e revirei os olhos.
– Você está mais interessado em comer que eu sei! – Empurrei-o pelo ombro, ouvindo sua gargalhada alta.
– Eu não disse nada. – Sorri. – Quem sabe não seja o estímulo necessário para eu voltar a ganhar?
– Se não for para você ser o primeiro colocado, eu nem vou! – Falei e o vi sorrir.
– Você não tem ideia como eu estou feliz em te ter lá comigo! – Ele me abraçou pela cintura, me fazendo rir quando ele me puxou para si.
– Vamos lembrar que eu não faço a mínima ideia como funciona um Grand Prix e…. – Ele gargalhou.
– Relaxa, também não faço a mínima ideia como você dá Estrelas Michelin para restaurantes sendo que Michelin é marca de pneu! – Gargalhei com ele, sentindo-o apertar minha barriga.
– E ainda precisamos lidar com aquele pequeno probleminha…
– Ah, não tem problema nenhum! – Ele apertou minha barriga. – A gente vai passar fácil por isso.
– Para, Danny! – Pedi, sentindo cócegas.
– Vai dar tudo certo! – Ele continuou me apertando e comecei a fugir de suas mãos, forçando-o a vir mais perto.
– PARA, DANNY! – Gargalhei. – DANIEL, PARA! – Ele me segurou pelas pernas, apertando minha barriga. – DANIEL, PARA! EU VOU VOMITAR! – Ele ficou de joelhos na cama, fazendo cócegas em minha barriga. – DANIEL! – Gritei, sentindo minha garganta doer e suas mãos descansaram em minha barriga.
– Calma, irritada. – Ele disse, se jogando para o lado. – É empolgante ouvir uma mulher gritar assim por mim, mas não precisa ser tão escandalosa. – Rimos juntos.
– Ah, a Jemma era escandalosa assim! – Gargalhei, passando a mão em minha barriga por baixo da blusa, vendo-a avermelhada.
– Há, há, há, engraçadinha! – Ele disse, me fazendo sorrir.
– O quê? Eu não estou mentindo! Dava para ouvir vocês transando há quilômetros de distância. – Gargalhei sozinha, vendo-o revirar os olhos. – Os caras concordam comigo.
– Eles são uns idiotas. – Ele disse.
– Seus amigos! – Suspirei. – Só estou aqui por você! – Dei de ombros.
– Bom mesmo! – Ele disse firme. – Não sei o que seria de mim sem esse mês contigo. – Suspirei.
– Você provavelmente não ganharia nada. – Fui honesta e ele gargalhou.
– Nem par ou ímpar. – Sorri, virando o rosto para ele, suspirando.
– Não sei o que seria de mim sem sua família, Danny. – Pressionei os lábios.
– Está tudo bem com as suas coisas? – Ele perguntou. – Sua avó?
– É! – Assenti freneticamente com a cabeça. – Ela está bem… – Dei de ombros.
– Minha mãe disse que você foi visitá-la antes de vir para cá. – Suspirei fortemente.
– Ela está bem… O problema é para quem fica. – Engoli em seco.
– Ela não lembrou de você? – Ele perguntou cuidadosamente.
– Ela pensou que eu era minha mãe… – Suspirei.
– E o que você fez? – Ele segurou minha mão.
– Eu fingi ser minha mãe. – Suspirei. – Ela esqueceu alguns minutos depois e pediu o travesseiro dela… – Ele pressionou os lábios.
– Me desculpe, Harp. – Assenti com a cabeça.
– Está ok… Já faz seis anos…
– Não é porque faz tanto tempo que para de doer… – Pressionei os olhos. – Você é da nossa família, você sabe disso, certo?
– Há 24 anos, Danny. – Ele sorriu, se deitando ao meu lado novamente. – Talvez eu devesse valorizá-los um pouco mais também. – Suspirei.
– O que está dizendo, Harp? Você valoriza nossa amizade e essa família sempre.
– Eu sei, mas essas viagens e…
– Não é como se eu ficasse muito tempo aqui também. – Rimos juntos.
– Não é sobre isso, Danny. – Virei meu corpo para ele, apoiando as mãos em seu peito. – Vocês me ajudaram tanto, me acolheram tanto e eu fico 10 meses por ano fora. 11 dessa vez. – Suspirei. – Você deveria ler o que eu escrevi no meu caderninho dessa vez.
– Por você não me conta? – Ele perguntou, passando a mão em meus cabelos e soltei um longo suspiro.
– Eu acho que eu estou fugindo daqui. – Comentei. – Esse trabalho, essa vida… É só uma forma de eu tentar esquecer tudo.
– Eu não sou terapeuta, Harp, mas uma tragédia aconteceu, é compreensível que você queira fugir disso. Te fez mal, te machucou…
– Eu sei, eu só… – Neguei com a cabeça, descansando a cabeça em seu peito. – Não acho que eu deva mais fazer isso.
– E o que você quer fazer? – Ele perguntou, acariciando minha cabeça.
– Eu não pensei direito nisso ainda, mas talvez seja meu último ano na Michelin, talvez seja hora de eu voltar para casa e ficar aqui.
– Agora que você finalmente pode fazer a temporada comigo, vai querer parar? – Abri um sorriso.
– Não é porque eu quero parar que eu não possa te acompanhar, talvez o grande Daniel Ricciardo precise de uma chef? – Ele abriu um largo sorriso e ergui o rosto.
– Si-i-i-im! – Ele disse animado. – Eu amo sua comida!
– Mas você vai ter que comer o que seu nutricionista passar, não vai rolar mousse todo dia. – Apertei seu nariz e ele fez careta.
– Uma vez por mês, pelo menos? – Ele perguntou e ri fracamente.
– Precisamos falar com Michael sobre isso. – Ele gargalhou. – Talvez quando você conseguir um pódio.
– Hum, uma vez a cada duas semanas? – Ele perguntou rindo.
– Gostaria de ver isso. – Suspirei. – Não é todo lugar do mundo que é fanático por Fórmula 1, então não é fácil te encontrar.
– Não perdeu muita coisa. – Ele disse rindo e sorri.
– Se é importante para você, é importante para mim, Danny. – Ele suspirou.
– 2016 vai ser nosso ano, Harp! Você vai descobrir o que quer fazer e eu vou conseguir um pódio de novo por você. – Sorri.
– Espero que esteja certo, Danny Ric. Espero que esteja certo. – Suspirei.
– Feliz ano novo, Harp. Feliz que esteja aqui.
– Feliz ano novo, Danny. – Suspirei.
*Isaac: sobrinho de Daniel, filho de sua irmã mais velha, Michelle. Na história ele também é afilhado de Daniel. Daniel possui um afilhado, filho da jornalista Natalie Pinkham, mas não será citado na história.
Daniel
Abri os olhos devagar, sentindo minha cabeça doer e tive dificuldades em girar o corpo, sentindo meu braço esquerdo adormecido. Levei os dedos para os olhos, coçando-os firmemente e virei o rosto para a direção do braço doendo. Harper dormia em cima dele e aquilo me fez sorrir. Fazia muito tempo que não nos encontrávamos. Vê-la somente um ou dois meses por ano era um saco, não tê-la acompanhando minhas conquistas ou não poder acompanhar as dela me irritava demais, mas talvez as coisas mudassem esse ano.
Sua mão estava apoiada em meu peito e o corpo inteiro virado em minha direção. Aquilo me lembrava de quando éramos menores e ela sempre dormia no meio de algum filme que tentávamos ver, apesar do nosso cansaço. Seja pelos seus estudos ou pela bagunça do meu fuso-horário interno.
Levei a mão até seu rosto, empurrando seus cabelos para trás e segurei sua cabeça para puxar meu braço devagar, evitando que ela acordasse. Estiquei o braço, dando uma movimentada nele para ver se parava de doer e dei um beijo em sua cabeça antes de me deslizar para fora da cama.
Não era só meu braço que estava levemente adormecido, meu corpo inteiro também estava. A cabeça doía provavelmente das cervejas que eu bebi e da comemoração sempre exagerada no dia anterior. Deslizei meu corpo para fora da cama, sentindo meu corpo bambear um pouco, a vista escurecer por alguns segundos, e apoiei a mão na parede para me recompor.
Fui até o banheiro, encostando a porta e fui direto para o sanitário, sentindo minha bexiga me incomodar. Dei a descarga ao terminar e segui para a pia, lavei as mãos antes de jogar água no rosto, lavando perto dos olhos, da boca e joguei água na nuca, deixando a água cair no rosto de volta. Ergui meu rosto, suspirando e passei as mãos nos cabelos, jogando-o para trás.
Puxei a toalha com força, apertando-a no rosto e na nuca e saí do banheiro. Fui direto para o closet, tirando a roupa que eu usava e troquei por uma regata e outro shorts antes de voltar para o quarto. A claridade me incomodava um pouco, mas o sol não entrava direto pelas janelas. Com o ar-condicionado ligado, meu quarto estava até que agradável.
Apoiei os braços na cabeceira da cama, vendo Harp dormindo na mesma posição e suspirei, virando o rosto para o lado, vendo que não passava das oito ainda. Talvez tivesse acordado um pouco cedo demais. Suspirei, girando o corpo pelo quarto e franzi os olhos ao ver a bolsa dela em uma das prateleiras do armário. Fui até ela e a abri, fuçando na mesma, encontrando seu caderno com a capa vinho, com suas iniciais e uma caneta presa no mesmo.
Voltei para a cama enquanto o folheava, procurando as anotações de 2015, desde fevereiro de 2015, na verdade. Me sentei ao seu lado, esticando as pernas na cama e encontrei a primeira anotação em março.
“Hey, there, hoje é 16 de março, ou 17, não sei que horas são. Eu estou em Guam, uma pequena ilha em… Lugar nenhum, na verdade. A comida aqui é boa, mas eu comi fajitas, vai entender… Mas não quero falar disso agora… Ontem foi a primeira corrida da temporada de Danny lá em casa. Eu queria muito vê-lo, mas… Meu coração simplesmente não deixa. Quando eu o vejo correr, eu… Talvez em outra oportunidade. Ele finalizou em sexto, mas a temporada só está começando, ele é incrível, espero que esse seja o ano dele.”
“24 de maio de 2015, falei com minha avó hoje, tive alguns minutos de esperança quando ela me chamou pelo meu nome no telefone, mas talvez tenha sido só uma confusão, pois depois ela disse que não tinha neta e desligou na minha cara. As moças da clínica não devem aguentar mais pedir desculpas, mas sei que não é culpa delas, nem da vó e nem minha. É só a vida, certo? A merda da vida! Ao menos hoje tem corrida do Danny em Mônaco, não consigo ver a corrida em si, mas talvez a parte de apresentação. Sei como ele adora aquele lugar e talvez possa finalmente uma posição melhor”.
“24 de maio de 2015: quinto lugar é melhor do que as outras posições, mas não perfeito”.
“21 de julho – Vim para França para resolver algumas coisas com a Michelin e descobri que o Danny está por aqui, mas em Nice, no funeral de Jules Bianchi*, amigo dele. Merda! Eu nem fiquei sabendo que ele faleceu e me pergunto os motivos de Danny não ter me contado sobre. Na verdade, sei muito bem os motivos de ele não ter me contado, mas achei que ele precisasse de um amigo. Eles eram muito amigos nas categorias mais baixas. Preferi ficar quieta sobre o fato, só espero que ele encontre formas para continuar. Apesar de tudo, ele está fazendo uma carreira brilhante e não pode parar”.
“26.07 – Hoje Danny ficou em terceiro. Cara! Finalmente um pódio! Ele estava muito feliz, até me deixou mais feliz com tudo o que tem acontecido. Voltei o contato com minha psicóloga na semana passada, fez seis anos da morte dos meus pais, parece que ela sabe que eu vou ligar para ela, está virando uma rotina. Falando em rotina, a minha não está muito melhor também, começo a duvidar que essa vida de viagens e distribuindo estrelas por aí valha alguma coisa. Parecia ser mais empolgante no começo”.
“13 de agosto. Recebi uma ligação da Grace, Dan está de férias em Perth, ela perguntou se eu não poderia fazer uma pausa e passar o tempo com eles. Eu até poderia, mas voltar só me dá menos vontade de retornar ao trabalho. Eles são minha família e eu amo ficar com eles. Trabalho está pesando de novo, mas não tenho outra escolha com meu contrato.”
“25 de agosto. Depois de quase dois anos, finalmente transei de novo. E ponto. Eu deveria estar feliz por ainda saber fazer isso, mas só de estar optando por escrever isso aqui e não dando atenção para sei lá o nome do cara, já deve imaginar como foi, né?! Ao menos não estou sozinha na noite desastrosa, Danny saiu da corrida na 21ª volta. Besties até nisso”.
“10 de outubro: conversei com meu chefe hoje sobre um alívio no meu calendário e ele me falou que como já estou entrando no meu quinto ano na Michelin, se eu trabalhar mais do que 200 dias no ano eu posso fazer meu calendário para o ano que vem. Imagina só? Eu ficar em Perth ou até criar coragem de finalmente acompanhar o Danny? Seria legal! Mas ele disse que é por melhor colocação, talvez só 200 dias não sejam o suficiente, preciso de mais, muito mais. Danny corre amanhã, preciso mandar mensagem para ele”.
“25 de outubro – hoje é GP dos EUA e sei o quanto Danny gosta de lá – e eu começo a odiar como minhas anotações são todas com base nele, mas acho que essa é a vida da melhor amiga de um corredor. Essa semana fui para França para prestar contas e parei na Itália para um rápido curso de massas e me lembrei como é ser uma chef de cozinha. Não é sobre sentar em mesas, comer e dar detalhes, é sobre cozinhar. E eu amo demais fazer isso! Não é certeza, especialmente pela grana que vem junto disso – que eu preciso – mas talvez meus dias na Michelin estejam contados”.
“30 de novembro: Ontem acabou a temporada da Fórmula 1 e Danny finalizou em oitavo. Muito abaixo dos nossos planos no fim do ano passado. Liguei para ele umas 20 vezes e ele não atendeu, Grace me disse que ele estava chateado demais com tudo. Imagino mesmo. Talvez tenha bebido até desmaiar. Mas ele é novo ainda e tem sempre o ano que vem. Quem sabe possa acompanhá-lo e dar uma força de perto? Decidi viajar até dia 27 de dezembro, vai ser difícil passar o Natal sozinha e não aguento mais ficar aqui, mas preciso dessa folga. Um mês pela frente ainda.”
“15 de dezembro – Está chegando! Está chegando! Está chegando!”
“27 de dezembro – Adeus… Onde eu estou mesmo? Olá, casa!”.
Suspirei ao ver o fim de suas anotações e fechei seu caderno. As anotações de Harper sempre foram cheias de altos e baixos pelos seus pais, por estar longe de nós e afins, mas ela sempre escrevia do seu trabalho com alegria e felicidade, agora parecia alguém decepcionada com tudo e querendo jogar a toalha. Essa não é a Harper que eu conheço. Tem muito mais coisa acontecendo e eu precisava ajudar minha amiga, da forma que fosse.
– Gostou das anotações? – Ergui o olhar, vendo-a se espreguiçar enquanto rolava na cama.
– Não muito. – Falei, deitando ao seu lado e ela suspirou, ajeitando sua roupa. – O que está acontecendo, Harp?
– Eu… – Ela suspirou. – Começou no meio do ano, mais ou menos. – Ela virou o rosto para mim. – Eu dormi com um cara…
– Eu li… – Ele fez uma careta. – Não preciso de detalhes.
– Nem foi bom o suficiente para eu te dar detalhes. – Rimos juntos e ela pegou um travesseiro, colocando atrás da cabeça. – Mas eu comecei a pensar sobre a vida. – Ela suspirou, olhando para cima. – Ficar viajando sem rumo, sem me apegar a nada ou a ninguém, sem ficar com minha família, com minha avó… – Ela virou o rosto para mim. – Eu sinto falta de cozinhar. – Sorri.
– Também sinto falta da sua comida. – Ela suspirou.
– Eu não sei, pensei em algumas opções com isso… Abrir um restaurante ou um food truck ou talvez até uma barraquinha na praia… – Sorri, rindo com ela. – Talvez seja melhor eu voltar para casa e ficar com vocês… Sua família, na verdade. – Sorri.
– Você pode trabalhar comigo, como falamos ontem… – Suspirei.
– Temos só um pequeno probleminha nisso, né? – Ela ergueu o rosto para mim.
– Você tem que passar por isso, Harp. De uma forma ou de outra.
– Não foi por falta de tentativa, Danny!
– Não, faz não sei quantos anos que a gente tentou, talvez agora que você queira me acompanhar, a gente tenha um pouco mais de sucesso.
– E o que você pretende fazer? Tratamento de choque? – Ela virou o rosto para mim.
– Se for preciso… – Olhei-a firme e sustentamos o olhar um do outro por alguns segundos.
– Eu não gosto disso…
– Eu sei, mas precisamos, pelo menos, fazer você usar o carro que eu te dei acima de 60 quilômetros por hora. – Ela riu fracamente.
– É meu máximo! – Ela jogou a cabeça para trás.
– Uma máquina daquela não pode caminhar, Harper.
– Você me deu ela com essa intenção, não? – Ela apoiou os antebraços na cama, me encarando.
– Talvez um carro mais potente te empolgasse em acelerar um pouco mais forte. – Ela deu um curto sorriso.
– Não foi dessa vez, amigo. – Ela assentiu com a cabeça.
– Então vai ser na base do tratamento de choque! – Levantei-me apressado.
– EI! EI! Aonde vai? – Ela perguntou rapidamente.
– Agora eu vou encontrar algo para gente comer, já que minha amiga cozinheira fica dormindo demais, depois a gente vai dar uma volta. – Desviei o rosto de Harper quando ela ficou em silêncio e abri a porta devagar, seguindo a passos lentos pela casa.
*Jules Bianchi: Ex-piloto de Fórmula 1 que faleceu em 2015, após meses em coma devido a um acidente no Circuito de Suzuka em outubro de 2014. Ele e Daniel se conheceram em 2007 na Eurocup Formula Renault 2.0 e competiram em várias categorias juntos até a Fórmula Um.
Harper
“CAN: terminei a corrida em 13º e não consegui dormir de noite. Conversei com a Harp por alguns minutos, já que ela está mais perto de casa e o fuso-horário deu certo, só ela sabe me animar. Pena que eu tentei fazer o mousse dela e quase explodi a cozinha, talvez eu não sirva para a parte alimentícia, só a de comer mesmo”.
“GBR: Hoje eu lembrei que tenho uma namorada… Tinha, na verdade. Harp sempre esteve certa sobre Jemma, desde a época da escola e, mais uma vez, eu não a ouvi. Ao menos dessa vez eu vi com meus próprios olhos ela dando em cima do Heimgartner. Ela tentou explicar algo, mas também não estava bem pelo resultado da corrida – ou a falta dele – e cortei o mal pela raiz. Nota mental: não falar mais de Jemma, sobre Jemma ou com Jemma na vida”.
“17 de julho: Acabei de receber a notícia que Jules faleceu… Eu… Eu honestamente não sei o que dizer. Depois de quase um ano do acidente, quase um ano sem notícias sobre ele, fui acordado por essa notícia. Maria não sabia o que falar para mim e me abraçou por mais de 10 minutos, eu acho. Eu sempre tive a consciência sobre o perigo do esporte, mas quando acontece perto de você, com alguém que você gosta tanto… Merda! Talvez eu tivesse esperança de que ele sairia do coma um dia e voltaria a correr e que poderíamos tomar uma cerveja juntos, mas… MERDA! Vamos para Nice para o funeral, muitos corredores disseram que vão, só espero conseguir me manter firme na frente dos pais dele. Eu preciso ligar para Harper, mas… Não é a melhor combinação.”
“HUN: Consegui um pódio hoje. 3º lugar. Não sei como consegui fazer isso, talvez pensar em Jules me deu forças para continuar. Como eu sinto falta dele. Minha família e equipe dizem para eu comemorar, já que faz tempo do meu último pódio, mas quando eu penso sobre o funeral de Jules… Merda! Eu só quero voltar a chorar de novo”
“Férias: Vim para casa nas férias e visitei o túmulo dos pais da Harper, queria que ela estivesse aqui. Acabei deixando um brinquedinho na garagem do seu apartamento, só espero realmente que ela sinta vontade de pisar um pouco mais fundo no acelerador e perca o medo por velocidade”.
“JPN: Não vamos comentar”.
“RUS: Vamos comentar menos ainda, eu vou dormir, dois fins de semana seguidos não dá”.
“EUA: Não falo com a Harper faz umas duas ou três semanas, mas quando eu corto a barba, é claro que ela ia mandar mensagem. Bad move, Harp. Bad move. Mas ela está certa sempre, talvez seja bom eu cortar antes da próxima corrida”.
“MEX: Algumas doses de tequila fazem milagre mesmo, acordei em um hotel com dois mulheres e eu acho que tinha uma terceira na sala. Só quero saber o que eu fiz e, por favor, que eu tenha usado camisinha”.
Me engasguei com a aveia, batendo no peito, deixando o caderno de Danny cair na mesa.
– Oh! Respira! – Ouvi a voz de Joe e suas mãos bateram nas minhas costas e puxei a respiração fortemente, tossindo algumas vezes.
– Eu estou bem! Eu estou bem! – Respirei fundo, pegando o copo e bebi um longo gole de suco. – Eu estou bem! – Soltei a respiração devagar.
– Pronto? – Joe perguntou e assenti com a cabeça.
– Sim, eu estou bem. – Suspirei, sentindo meus olhos cheios de lágrimas e suspirei.
– Bom dia, rapaziada! – Ouvi a voz de Daniel e ergui o olhar para a porta da frente. – Harp!
– Daniel. – Falei séria, revirando os olhos.
– Terminou de ler?
– Acho que depois do México eu prefiro parar! – Joguei o caderno em sua direção e ele o pegou quase no chão. – E depois fala de mim.
– Ah, qual é! – Ele gargalhou, se aproximando. – É legal!
– Para você! – Sacudi a cabeça. – Apesar da nossa amizade, Daniel, aprende, ainda existem limites entre nós!
– Ah, que isso, Harp! – Ele apoiou o braço em meu ombro. – A gente fica grudado, o que é um detalhe ou outro? – Ele me apertou com as duas mãos.
– Eu quase morri engasgada, mas ok. – Falei, sacudindo a cabeça e ele riu fracamente.
– Prometo que não tem nada mais, vai. – Ele devolveu o caderno e respirei o fundo. – O Brasil é legal.
– Eu sei, já estive lá! – Abri as últimas páginas do seu caderno, encontrando o escrito sobre o México.
– Vou me trocar para ajudar na fazenda e você vai comigo! – Ele apontou para mim e revirei os olhos, acenando com a mão.
– É claro que não podia faltar o passeio de trator anual dos Ricciardo. – Sussurrei, voltando minha atenção para o caderno.
“BRA: Encontrei Felipe hoje e ele me trouxe muitos brigadeiros e caipirinhas. Preciso lembrar de pedir para Harper fazer para mim, a receita parece simples, mas capaz de eu explodir a cozinha de novo.”
“ABU: A pior parte em ficar em oitavo lugar na classificação geral é ainda ficar atrás do meu companheiro de equipe por três pontos. Puta que pariu! ‘Tá bem, de oitavo para sétimo não faz tanta diferença, mas fico feliz por Massa completar em sexto, especialmente por pensar em se aposentar. Agora é seguir em frente e focar na próxima temporada.”
“Férias: Chego em casa e a Harper não está. Ligo para ela e ela me diz que vai ficar mais tempo dessa vez. Isso não estava nos nossos planos, espero que não tenha acontecido nada e que eu a veja antes do Natal”.
“Férias: Não vi”.
Suspirei, fechando o caderno. Prendi a caneta de Danny, afastei-o de mim e voltei a prestar atenção no meu mingau de aveia, finalizando em quatro colheradas. Empurrei a tigela para perto da pia, vendo tia Grace pegá-lo para mim.
– Pronta? – Assustei-me com a voz de Danny de novo e suspirei.
– É… – Falei, rindo fracamente.
– Ok, vamos lá! – Ele disse e pulei o banquinho, seguindo-o pela porta. – Estaremos lá fora! – Ele anunciou para seus pais e o segui para fora com ele, segurando a porta quando ele passou.
– O que você vai fazer antes? – Perguntei, me abaixando por alguns segundos para colocar os cadarços para dentro do tênis antes de descer os degraus da entrada da casa para segui-lo.
– Vem! – Ele me puxou pela mão e ri fracamente, abraçando-o pela cintura e ele passou o braço em meus ombros.
– Você não tem que começar a treinar de novo? – Perguntei.
– Dirigir um trator que não sai dos 30 por hora é um grande treino. – Gargalhamos juntos. – De paciência.
-Você deveria me deixar dirigir o trator e ir treinar. – Ele me apertou.
– Não mesmo… – Seguimos em direção ao celeiro, ouvindo os pés deslizarem pela terra. – Pelo menos não sem você.
– Danny… – Gemi.
– Nã-não! Você vai comigo! – Ele disse. – Eu falei com minha marketeira, você vai! – Ele me apertou com ele.
– Ah, cara! Por que eu fui abrir minha boca? – Suspirei.
– Mesmo se você não tivesse falado nada, Harp. Eu li seu caderno! Você precisa disso! Eu preciso disso! – Nos separamos para abrir o celeiro.
– Sinto muito pelo Jules, afinal. – Falei, pegando-o desprevenido. – É, eu li seu caderno também. – Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos. – Você deveria ter me ligado, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
– Eu sei, eu só… Acho que estava um pouco perdido. – Aproximei-me dele.
– Você deveria ter me ligado. – Falei firme. – Eu estava na França, poderia ter ido até você. – Passei a mão em seu braço. – Como eu não posso sofrer sozinha, você não pode também, ok?! – Ele assentiu com a cabeça e passei meus braços pelos seus ombros, abraçando-o apertado e suas mãos foram para minhas costas.
– Obrigado… – Ele sussurrou perto do meu ouvido e pressionei meus lábios em sua bochecha antes de nos afastar.
– Eu sempre estarei aqui por você, está bem? – Falei, olhando em seus olhos castanhos.
– Eu também. – Ele disse, também dando um beijo em minha bochecha, me fazendo sorrir. – Acho que é sobre isso que estava falando. Precisamos disso. – Assenti com a cabeça. – Dar mais valor à essa amizade e a importância dela para gente…
– Sim, talvez seja bom. – Ele sorriu e voltei para o outro lado da porta.
– Um ano sabático, que tal? Bem, nós dois estaremos trabalhando, mas ao menos estaremos nos apoiando nos momentos difíceis. – Sorri, travando a porta com a corrente antes de entrar no celeiro.
– Mas eu estou esperando você me sequestrar e me enfiar em um carro. – Falei, vendo-o seguir até o trator.
– Eu nunca faria isso, Harp! – Ele disse sério. – Eu vou ser gentil, prometo.
– Oh, cara! – Revirei os olhos. – Eu estou com o México na cabeça, então estou me perguntando se você foi gentil com elas. – Ele gargalhou alto.
– Cara! Esquece isso! – Gargalhamos juntos e coloquei as galochas.
– Eu não queria nem saber disso! A culpa é toda sua! – Ele apertou as mãos no rosto, me fazendo rir.
– Eu não lembro muito. – Vi seu rosto avermelhar e gargalhei.
– Você pode não se lembrar, mas eu tenho certeza de que, se elas ainda estavam no quarto, algo aconteceu depois! Você talvez só tenha deixado de fora, porque a confusão é mais legal do que contar.
– HARPER! – Ele gritou, me fazendo gargalhar.
– Você não me engana, Danny Ric! – Ele ligou o trator, fazendo o barulho nos incomodar. – Ah, seu filho da mãe! – Virei para trás, colocando as luvas antes de pegar o balde.
– EU JÁ VOLTO! – A voz dele ficou alta.
– ESPERA! – Gritei, me aproximando do trator, vendo-o inclinar o corpo para meu lado.
– O quê? – Ele perguntou.
– Eu só tenho um comentário. – Apoiei a mão no trator.
– Sobre…
– México! – Ele apertou o rosto e gargalhei. – Ei! Eu mereço isso!
– Talvez essa seja a desvantagem de ter uma melhor amiga!
– Ah, cala a boca. Você escreveu, então você achou a experiência interessante! – Ele pressionou os olhos com firmeza.
– Ah, cara! Manda! – Ele abriu um sorriso e dei de ombros. – O que você quer saber?
– Eu não quero saber nada, eu quero fazer um comentário! – Falei e ele suspirou.
– Desembucha! – Ele disse, respirando fundo.
– Eu sempre achei que você fosse mais o tipo romântico do que pegador. – Dei de ombros. – Vai ver me enganei! – Dei as costas, vendo-o revirar os olhos.
– Eu sei ser romântico, ok?! – Ouvi seu grito e gargalhei, dando um sorriso antes de seguir para a ração das galinhas.
Daniel
– Onde está Harper? – Perguntei, jogando a bola para Michael.
– Foi pegar o Isaac por mim. – Ouvi a voz de minha irmã e virei o rosto para Michelle, encontrando-a com o rosto escondido embaixo do chapéu enquanto deitada na espreguiçadeira.
– Ela está demorando. – Comentei baixo.
– Ela deve ter precisado trocá-lo também. – Ela comentou e assenti com a cabeça.
– Eu preciso comer algo. – Falei, sentindo o cheiro da carne vindo da churrasqueira.
– Olha quem está aqui! – Virei o rosto para porta, vendo Harper saindo de casa com Isaac em seu colo. – Lindinho, cheiroso e pronto para piscina! – Ela ajeitou o chapéu na cabeça dele, me fazendo sorrir.
– Ah, obrigada! – Michele sorriu.
– Me dá ele aqui! – Estiquei as mãos.
– Não, deixa ele comigo! – Harper disse, pressionando o nariz na bochecha de Isaac. – Ele está cheiroso.
– Vem para piscina também! – Falei, jogando um pouco de água em sua direção.
– Eu tenho que tirar esse vestido. – Ela disse, deixando seus chinelos perto de uma espreguiçadeira vazia.
– Me dá ele, você tira e entra. – Falei e ela suspirou.
– Posso, Mi? – Ela virou para minha irmã.
– Claro que pode! Vocês dois cuidam dele quase melhor do que eu e o Jason. – Ela disse.
– Cuidado com ele! – Harper disse firme e andei até a parte rasa da piscina, esticando as mãos para ela, e peguei Isaac, apoiando-o em meu peito.
– Cadê o gordo do padrinho? – Dei um beijo em sua bochecha. – Cadê? – Fiz cócegas em sua barriga, fazendo-o rir.
– Não faz ele rir, eu dei mamadeira para ele agora. – Harper pediu e ergui o rosto para ela, vendo-a se afastar alguns passos.
– Com um tio bobão desse, não tem como não fazer ele rir. – Disse, vendo-a puxar o vestido para cima…
Observei o corpo de Harper embaixo do biquini, perdendo alguns segundos ao observá-la ajeitar o biquini na região do quadril, depois subir para seus seios e arrumar o tecido em seu bumbum. As poucas tatuagens em seu corpo, inclusive as que dividíamos, pareceram sumir de sua pele enquanto eu a observava. Ela ergueu os braços, amarrando os cabelos em um rabo de cavalo e pressionei os lábios com o feito.
Desde quando a Harper é gostosa assim?
– UAU! OLHA ELA! – Me distraí com o grito de Michael.
– GATA! – Tom gritou.
– Não fala muito que o Daniel vai expulsar mais do grupo! – Blake disse e revirei os olhos.
– Há, há, há, engraçadinhos! – Revirei os olhos.
– Tenho pena quando a Harper trouxer um namorado para cá. – Grace disse e minha amiga riu fracamente.
– Quem não deve, não teme, mãe. – Falei, vendo Harper se sentar na beirada da piscina.
– Deve o quê, Daniel! Pelo amor de Deus. – Ela chutou água em minha direção.
– Cuidado com o Isaac. – Falei, abraçando-o apertado.
– Não estou querendo atingi-lo, quero atingir você! – Ela disse, impulsionando na piscina, afundando até o quadril. – Eu lidei bem duas vezes com a Jemma, você pode também!
– Não… – Gargalhei. – Você lidou bem uma vez.
– Ah, não me lembra daquela época! – Neguei com a cabeça. – Talvez eu não tenha sido justa, mas ela era uma filha da puta na escola.
– UOU! – Os meninos gritaram, me fazendo gargalhar.
– E depois ela cresceu e virou uma vadia! – Ela disse.
– Eu já falei que você tinha razão! – Falei.
– Ah, mas eu vou continuar dançando em cima de caixão fechado sobre isso. Lide com isso! – Ela disse, afundando o corpo na piscina, abaixando os cabelos e virei o rosto para minha mãe.
– Ela tem razão, sabe? – Ela comentou e Harper apareceu na superfície de novo.
– Me dá ele aqui! – Ela passou as mãos na ponta do rabo de cavalo, tirando o excesso de água e me peguei observando seus seios mais uma vez. – Quer parar de olhar? – Arregalei os olhos.
– O quê? – Ri fracamente e ela tirou Isaac de meu colo. – Eu não fiz nada.
– Uhum, é! Cala a boca e pega a boia dele. – Ela disse, jogando água em meu rosto e gargalhei, nadando até o outro lado da piscina, e Michael me jogou a boia de Isaac.
– Eu vi isso. – Ele disse.
– Cala a boca. – Falei rindo, voltando para perto de Harper, apoiando as duas mãos nas laterais da boia.
– Segura firme. – Harper disse e ela sentou Isaac na boia, fazendo-o gritar rindo. – Cadê meu afilhado mais lindo? – Ela passou as mãos nos cabelos loiros dele, abaixando o pequeno topete. – Gosta da boia? – Ela falou fofa com ele, se afundando até os ombros.
– Claro que ele gosta, tio Daniel que deu. – Falei e ela riu fracamente.
– Você é um idiota. – Ela disse rindo. – Mexe devagar. Não quero que ele vomite. – Ela disse, se afastando alguns passos de costas e mexi a boia devagar.
– Quer ir com a tia Harper? – Cochichei para ele, vendo-o bater as mãos na boia. – Olha a titia! – Empurrei-o devagar para perto de Harper, ouvindo-o rir e ela bateu as mãos em direção a ele.
– Cadê meu meninão? – Ela perguntou com voz infantil. – Cadê o homem mais lindo dessa família? – Ela disse.
– Ei! – Falei, ouvindo o pessoal gargalhar.
– Assim você acaba com o ego do Daniel, querida! – Grace disse.
– Não estou mentindo, o Isaac ganha de todos vocês! Até de você, Danny, desculpe. – Ela disse rindo.
– Ok, ele é fofo, mas eu ainda sou mais gato. – Falei, esticando os braços para cima em muques.
– Ridículo! – Ela jogou água em minha direção. – Ele começa te ganhando só pelo nariz. – Ouvi minha mãe gargalhar.
– Isso, ri mesmo, esse nariz é teu, dona Grace! – Falei e ela negou com a cabeça.
– E ainda assim você saiu o segundo mais bonito da família! – Minha mãe disse, me fazendo revirar os olhos e ouvi a risada de Isaac.
– Você está rindo, né? – Aproximei-me dele. – Você vai crescer e eu vou voltar a ser o mais bonito dessa família, você vai ver!
– Até um de vocês dois começarem a ter filhos. – Michelle disse, me fazendo rir.
– A Harper é da família, não é? – Meu pai disse.
– É, por quê? – Franzi a testa.
– Porque ela ganha de todos vocês! – Ele disse, fazendo Harper gargalhar.
– Ok, os membros de sobrenome Ricciardo são elegíveis ao cargo de pessoa mais bonita da família. – Falei e Harper gargalhou, negando com a cabeça.
– Lide com isso, Daniel! – Harper jogou água em mim, me fazendo rir.
– Os três são lindos, que tal isso? – Minha mãe disse. – Agora junta os três lindos para uma foto, vai. – Ela se aproximou com o celular.
– Mais uma para o hall da casa. – Alex gritou e Harper virou a boia de Isaac e me aproximei dela, passando a mão em sua cintura.
– Sorriam. – Ela apoiou a mão em meu ombro e sorri para a foto. – Lindos! – Ela disse sorrindo.
– Depois me manda, tia Grace! – Harper disse, afundando o corpo na piscina novamente. – Agora vem cá, meu meninão! – Ela puxou a boia de Isaac para si. – Vamos sair de perto desse feio aí! – Ela sussurrou.
– Harper Addams! – Chamei-a, fazendo-a rir.
– Ah, desculpe, eu não resisto! – Ela sorriu, inclinando o corpo para trás. – Agora tira esse bico da cara e vem brincar com ele, precisamos aproveitar antes da temporada começar. – Ela disse e deixei um sorriso se formar em meu rosto, deslizando o corpo na água para próximo deles.
– Deveríamos brincar de “pega bebê”. – Falei.
– Ah, claro. Aí ele vomita aqui e tem que esvaziar a piscina inteira. – Ela disse sarcasticamente, me fazendo rir.
– Ah, não. Tem tempo para o verão acabar ainda. – Comentei, vendo o sorriso em seu rosto.
Harper
Tirei a casca, jogando-a na panela fervente de água com açúcar e fechei-a novamente, suspirando com o cheiro. Coloquei as rodelas de limão dentro da coqueteleira e pressionei-as algumas vezes, extraindo o suco da mesma.
Peguei a garrafa de pinga brasileira e tirei o lacre da mesma, coloquei duas doses dentro da coqueteleira, acrescentei as duas colheres de açúcar e fechei a mesma, sacudindo algumas vezes, ouvindo o barulho do sacudir na mesma.
Abri-a novamente e fui até o freezer, pegando o copo e joguei o gelo dentro da mesma na pia antes de encher novamente com pedras de gelo e despejei todo o conteúdo no copo, vendo o líquido se misturar com o gelo. Coloquei um canudo na mesma, dando algumas mexidas, e acrescentei uma rodela de limão no canto do copo.
Peguei o copo e deslizei os pés para fora da casa de Daniel, sentindo a diferença de temperatura de dentro para fora e estiquei o copo em direção a ele, vendo-o abrir um largo sorriso e coloquei o copo em frente.
– Oh, você fez! – Ele disse animado.
– Não sei se ficou bom, não experimentei. – Falei, me sentando na cadeira livre ao lado de Grace e ele sugou pelo canudo um gole, soltando um suspiro logo em seguida.
– Oh, cara! Você é demais! – Ele disse, me fazendo rir.
– O mais difícil foi achar a tal da pinga, mas a receita é bem fácil. – Comentei, vendo-o esticar o copo para mim e segurei-o também pelo canudo, dando um gole no mesmo. O gosto amargo da pinga se misturava com o limão e o doce do açúcar, deixando aquilo bem agradável para os dias de calor. – Eu dei uma estrela um dia para um boteco por causa dessa bebida, sabia?
– Sério? – Michelle perguntou surpresa e estendi o copo para ela.
– Sim! – Falei rindo. – E com o pastel de bacalhau deles, uma delícia. – Relaxei o corpo na cadeira.
– Então você já se divertiu no Brasil, Harper! – Daniel disse, me fazendo rir.
– De todas as formas de interpretação da frase, meu amigo Daniel! – Falei, ouvindo-o rir fracamente.
– É bom ver você se divertindo. – Grace disse e dei um pequeno sorriso, pressionando os lábios.
– Tem bons e maus momentos. – Dei de ombros. – E depende do meu humor também. Se eu quero surtar ou se eu estou mais de saco cheio, com sorte cheguei no Brasil com bastante humor. – Eles riram.
– Daniel nos contou que está pensando em ir com ele nessa temporada. – Suspirei ao ouvir a voz de Grace.
– É… Pois é. – Pressionei os lábios.
– O quê, querida? – Ela disse e tombei o corpo para trás, soltando a respiração fortemente para cima. – Vai ser bom vocês dois passarem o ano juntos, vai fazer bem…
– Foi o que eu falei. – Daniel disse. – Faz uns 10 anos que não ficamos um ano inteiro juntos, vai ser bom tanto para mim quanto para ela.
– Eu sei, eu sei, mas não se empolguem tanto, tem um pequeno problema a levar em consideração ainda. – Falei.
– E eu vou te ajudar com isso. Bebe mais umas dessas que eu te levo hoje mesmo. – Daniel disse, me fazendo rir sarcasticamente.
– Uhum, claro, claro! – Falei, vendo-o sorrir para mim.
– Já conversamos sobre isso um milhão de vezes, Harper. Você precisa se deixar abrir e…
– O problema não é eu me abrir, tio Joe. Se fosse isso estava fácil. – Comentei, suspirando. – Meu problema é… – Ergui os olhos para Daniel. – Vocês sabem muito bem qual é. Não preciso falar com todas as letras. – Suspirei.
– Nós sabemos. – Michelle disse, bebendo mais um gole da caipirinha brasileira.
– É um medo meu, é algo que ficou, vamos ver o que vai rolar. – Dei de ombros. – Eu só preciso de tempo.
– Não temos muito, já avisando. – Daniel sorriu largamente e suspirei, jogando a bolinha de guardanapo nele.
– Por favor, Daniel, não quero a Harper também tendo um ataque cardíaco e nem outra crise. Está tudo indo muito bem. – Grace disse.
– Eu sei, mãe! Mas ela não vai melhorar com o poder da mente! Acredite, eu tentei. – Dei um curto sorriso, rindo fracamente.
– Ok, ok, chega! Vamos falar sobre a outra questão, então. – Grace disse.
– Que outra questão? – Foi minha vez de perguntar.
– Seu trabalho. – Tio Joe disse e suspirei. – O que está acontecendo? Você sempre gostou de lá.
– Não banca o pai, pai! – Daniel disse.
– Eu sou o pai dela! – Joe disse firme, olhando para Daniel. – Tenho um pedaço de papel que me coloca como responsável legal por ela. – Suspirei, passando a mão na testa. – Então, sim, eu me sinto no direito de saber o que está acontecendo com ela.
– Gente, por favor… – Michele disse e joguei a cabeça para cima, suspirando.
– Desculpe… – Daniel disse baixo, escondendo os lábios no copo e suspirei.
– Eu só estive pensando um pouco sobre a vida, sabe… – Dei de ombros. – Mudar um pouco as coisas mesmo, ficar mais tempo perto de vocês… – Suspirei. – Tentar algo novo… Sei lá. – Pressionei os lábios.
– Você sabe que sempre estaremos com você, não sabe? Sempre apoiando suas decisões? – Assenti a cabeça com tio Joe e o choro de Isaac me distraiu.
– Opa! – Jason falou.
– Eu vou! – Falei, empurrando a cadeira, querendo sair daquela conversa o mais rápido possível.
Voltei para dentro da casa, passando pelo corredor, seguindo o som do choro e entrei no quarto de Michelle. Encontrei o bebê chorando no berço e tirei meu afilhado de lá, apoiando-o em meu peito.
– Está tudo bem, amorzinho! – Dei um beijo sua cabeça, aproximando-me da poltrona no canto do quarto e me sentei no mesmo. – Madrinha está aqui.
Inclinei meu corpo para trás, ajeitando-o em meu peito e dei um beijo em sua cabeça, ninando-o devagar, ouvindo o choro reduzir aos poucos. Passei a ponta do dedo em seu rosto, acariciando-o devagar, sorrindo quando ele apertou a mão em meu peito.
– Meu amorzinho. – Suspirei, ouvindo dois toques na porta e encontrei Daniel. – Ei…
– O colinho da tia Harper é muito bom, né?! – Dei um curto sorriso.
– Parece que sim. – Suspirei. – Ele dorme como você. – Ele riu fracamente, entrando no quarto e se sentou no braço da poltrona em que estou.
– Acho que eu babo mais. – Ele comentou, apoiando a mão em meu ombro, deslizando o corpo para o meu lado.
– Eu ganho nessa competição. – Falei, ouvindo-o rir fracamente, dando um beijo em minha cabeça.
– Você quer conversar? – Ele perguntou.
– Não… – Falei, suspirando. – É sempre o mesmo assunto.
– Eles estão preocupados contigo. – Ele disse, passando a mão em meus cabelos.
– Eu sei… Eles sempre estão. – Neguei com a cabeça.
– Você não quer que eles se preocupem?
– Não é isso, Danny. É como seu pai disse, eles são meus guardiões legais para tudo o que precisar e vão ser pelo resto da vida. – Suspirei. – Eu só não quero lidar com isso agora. – Neguei com a cabeça.
– Vamos conversar depois? – Ele perguntou.
– É claro! – Ergui o rosto para ele, vendo-o sorrindo para mim e ele apertou meu nariz, me fazendo rir fracamente. – Não agora.
– Posso ficar contigo? – Ele perguntou.
– Sempre. – Falei e ele me abraçou forte, apoiando o queixo em minha cabeça e suspirei, olhando para Isaac dormindo em meu colo.
Daniel
– Vai, mais forte! – Michael me forçou e fechei os olhos com força, sentindo as mãos fecharem. – 10 segundos.
– Isso, garotão, trabalha esse pescoço grosso seu aí! – Abri os olhos, sentindo minha cabeça ser jogada para trás quando perdi a atenção.
– Oh! – Michael reclamou e vi Harper na porta. – Harper!
– O quê? Eu só fiz um comentário, não é minha culpa se ele perdeu o foco. – Ela deu de ombros.
– Quer falar comigo? – Me levantei da bola, tirando o aparelho da cabeça, passando as mãos nos cabelos.
– Sua mãe me pediu para pegar o bolo da sua irmã, mas é na cidade e eu não posso ir a 60 por hora na estrada. Queria saber se podia ir por mim. – Ela fez uma careta.
– Bolo? – Michael perguntou e virei o rosto para ele.
– É, bolo! – Falei sugestivamente. – Vamos comemorar o aniversário da Mi mais cedo por causa da temporada. – Arregalei os olhos e ele franziu os dele, entendendo finalmente.
– Ah, sim! Sim! Ela mencionou. – Ele bateu a mão na cabeça. – Eu estou avoado hoje.
– Sempre, né?! – Harper provocou, me fazendo rir.
– Eu já volto. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
– Continuamos na volta. – Ele mencionou.
– Por que você não vem conosco? – Sussurrei. – Talvez precise de ajuda.
– Claro! – Ele assentiu com a cabeça, largando o aparelho e dei a volta, afrouxando a camisa suada do corpo.
– Só vou trocar de blusa.
– Fica feliz que eu penso em tudo! – Harper jogou uma blusa em mim antes de sair pela porta e tirei a minha na pressa.
– O que vai fazer? – Mike perguntou enquanto me trocava.
– Tratamento de choque. Não sei se vai dar certo, mas preciso tentar. Não quero ela escondida no camarim enquanto eu corro. Ou pior, em crise de pânico sozinha no hotel. – Ele assentiu com a cabeça e segui pela porta, passando pela casa e encontrei Harper na sala com minha mãe. – Vem, Harp!
– O quê? – Ela perguntou confusa.
– Vem comigo! – Estiquei a mão e ela suspirou.
– Não inventa, Daniel.
– Eu não vou inventar nada, vem logo! – Chamei-a e ela suspirou.
– Abaixo dos 80, Daniel. – Ela disse sério.
– Você sabe que eu dirijo como uma lesma na rua. Não vou me desgastar para pegar um bolo, fala sério. – Falei e ela suspirou.
– Até mais tarde! – Ela disse para minha mãe que também me deu o olhar sugestivo e me senti cometendo algum tipo de crime.
Harper tem medo de velocidade desde que seus pais morreram há seis anos em um acidente de carro. E eu digo velocidade, pois ela não tem problemas em dirigir, o problema dela é quando o velocímetro passa de 60 km/h. O que é um pouco irônico pensando que eu atinjo velocidades acima de 360 km/h em alguns circuitos em linha reta, e é aí que começa o problema dela. Achamos que fosse um medo dela, mas a iminência do perigo na Fórmula 1 não te dá margem para erros, então nem me ver correndo ela consegue fazer sem ter uma crise de pânico.
Tentamos várias vezes quando ela começou a demonstrar as primeiras crises, mas ela sempre fugiu e os psicólogos que a atenderam não conseguiram destravar essa parte do psicológico dela. Minha carreira está em ascensão e eu quero muito minha amiga ao meu lado, então eu tenho uma ideia de que talvez a faça me odiar pelo resto da vida, mas é um bom jeito de começar.
Ela se distrai muito fácil com música, especialmente quando ela está dirigindo, tanto que já notei ela se aproximando dos 100 km/h quando ouve música, quando ela percebe isso, ela trava e reduz, mas enquanto ela está envolvida pela música, ela realmente consegue se soltar.
– Podemos ir no seu? Quero sentir ela. Só dirigi duas vezes. – Perguntei.
– Claro! – Ela disse tirando a chave do bolso e segurei a porta para ela passar.
– Vamos lá!
– Vai conosco? – Harp perguntou para Michael.
– É, não vou deixar os pombinhos sozinhos. – Eu e Harp reviramos os olhos com a brincadeira mais velha de todas e que eu ouço desde meus oito anos.
– Cala a boca. – Ela disse e abriu a porta de carona do carro, entrando no mesmo e fiz o mesmo do outro lado, observando Harp colocar o cinto de segurança e fiz o mesmo ajeitando o banco do carro de forma mais confortável.
– Só falta sentar em cima do volante! – Falei.
– Ah, cala a boca! – Ela disse rindo e puxei a porta.
– Vamos lá… – Suspirei, ajeitando o espelho, vendo Michael no banco de trás e suspirei.
– Posso ligar o som? – Perguntei.
– Minhas músicas! – Ela disse firme e ri fracamente.
– Coloca The Veronicas. – Falei, fingindo desânimo e ela riu fracamente.
A música If You Love Someone começou logo em seguida e depois de tantos anos e até ter a levado em alguns shows quando mais novos, até eu sabia cantar a maioria das músicas, mas aumentei o som e deixei-a aproveitar o passeio até a falsa confeitaria. O aniversário de Michelle era em fevereiro, poderíamos comemorar uns 15 dias antes, mas não vamos exagerar.
Enquanto ela cantava Hook Me Up a plenos pulmões, com a cabeça para trás e as mãos se movimentando no ritmo da música, eu segui para a pista que eu treino, nos arredores da pista de kart dos meus pais. Pena que ela é boa multitarefas, ao contrário de mim, e percebe quando algo está errado.
– O que estamos fazendo aqui, Daniel? – Ouvi sua voz, vendo-a abaixar o som e dei um tapinha em sua mão, aumentando o som de novo. – DANIEL!
– Relaxa, Harp! – Falei, tentando desviar sua mão do aparelho de som enquanto focava na rua.
– Daniel Joseph Ricciardo! – Ela disse forte e deixei-a abaixar o som enquanto eu freei.
– Harp… – Virei para ela.
– O que está fazendo? – Ela perguntou forte.
– Harp!
– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – Sua voz ficou mais alta e vi os olhos avermelhados.
– ME ESCUTA! – Gritei no mesmo tom. – Por favor, me escuta. – Segurei seu rosto. – Eu amo você, Harp! Você é a minha melhor amiga em anos, eu quero você perto de mim, mas você precisa perder esse medo! – Falei cada palavra firme, focando seu rosto em mim. – Você gostava disso, nos divertimos muito juntos, por favor… – Acariciei seu rosto com o polegar, vendo uma lágrima deslizar por ali. – Me deixa tentar do meu jeito.
– Eu não consigo…
– Você consegue! – Falei por cima dela, sentindo minha voz apertar também. – Eu quero você comigo esse ano. E eu não quero te ver sofrendo por isso ou fugindo como acontece há cinco anos. – A vi engolir em seco. – Por favor, me deixa tentar. Você precisa passar por isso. – Ela respirou fundo.
– Eu vou surtar, eu…
– Eu cuido de você! – Falei firme. – Por favor… – Suspirei. – Confia em mim.
– Eu sempre confio, Danny, mas não é isso, eu me lembro deles, eu me lembro do que houve e eu penso que algo ruim vai acontecer contigo e eu não posso te perder também… – Respirei fundo.
– Você confia em mim? – Perguntei firme e ela entendeu a seriedade da situação, olhando em meus olhos. A resposta demorou para vir, mas o suspiro deu minha resposta antes de confirmar.
– Sim… – Ela disse fracamente e puxei-a pela nuca, colando meus lábios em sua testa.
– Respira fundo. – Pedi e ela assentiu com a cabeça. – Cinco minutos, ok? – Pedi e ela tombou a cabeça para trás.
Virei o rosto para trás, vendo Michael assentindo com a cabeça e voltei a olhar para frente. Girei o volume do som novamente, ouvindo outra música da The Veronicas tocando e mudei algumas vezes, encontrando alguma mais agitada.
Guiei o carro para a parte externa da pista, focando no circuito redondo e não nas curvas da pista, especialmente por ela ter sido designada para karts, não carros com mais de 500 cavalos de potência e que chegam a 300 km/h, mas não pretendia chegar nem perto disso ainda ou perderia minha amiga e não seria nem de raiva, seria de ataque cardíaco mesmo.
Apoiei minha mão em cima da sua, apertando-a firme e senti suas duas mãos apertarem com firmeza. Meus pés foram para os dois pedais, apertei o freio com força e comecei a apertar o acelerador devagar também, começando a ouvir o barulho do motor. As mãos de Harper começaram a apertar a minha cada vez mais forte quando o barulho do motor fez a música silenciar por alguns minutos.
Quando eu tirei o pé do freio, os pneus cantaram e o carro começou a se movimentar, fazendo as unhas de Harper me apertarem e tentei continuar apertando-a, enquanto mantinha o volante firme e prestava atenção na pista.
O carro atingiu 135 km/h antes de eu desacelerar para a primeira curva e o velocímetro começou a aumentar progressivamente em linha reta. 145, 155, 165, 175. Quando estava para atingir o 180, ouvi um grito e não veio de Harper.
– DANIEL! – Ouvi a voz de Michael, me fazendo sair da pose de corredor e tirar o pé do acelerador, sentindo o carro reduzir a aceleração lentamente, mas de forma progressiva.
Quando o carro finalmente parou, minha mão direita estava amortecida, mas não me importei, só virei o rosto para Harper com pressa. Sua cabeça estava tombada para baixo, com os cabelos caindo no rosto e somente suas mãos apertando a minha e parte do meu braço.
– Harp… – Chamei-a baixo, mas ela não respondeu.
– Foi muito, cara. – Ouvi Michael e suspirei.
Forcei sua mão para soltar a minha e dei a volta no carro correndo, abrindo a porta de seu lado e abracei-a com força, inclinando seu corpo para trás. Suas mãos foram para as minhas costas e suspirei aliviado, ela ainda estava sã. Colei meus lábios em sua cabeça, dando rápidos beijos em seus cabelos e em sua testa antes de afastar meu rosto do dela, tirando os cabelos de seu rosto, finalmente vendo os olhos e bochechas avermelhadas pelas lágrimas acumuladas em seu rosto e deslizando em suas bochechas.
– Você foi incrível, Harp! Você foi incrível! – Repeti diversas vezes, ouvindo sua respiração acelerada. – Você foi muito corajosa. – Olhei para Michael por cima dos ombros e ele assentiu com a cabeça. – Está tudo bem.
– Me leva para casa? – Ela sussurrou.
– Sim, eu levo. – Assenti com a cabeça. – E vamos ficar no meu quarto, assistindo Shrek e comendo muita pipoca com chocolate. – Ela riu fracamente. – Você merece. – Ela assentiu com a cabeça, dando um pequeno sorriso.
– Eu acho que eu quero vomitar. – Ela disse e desviei para o lado, dando espaço para ela, puxando seus cabelos para trás enquanto ela inclinava o rosto para frente enquanto a ouvia golfar.
– Isso, deixa sair! – Dei um tapinha em suas costas, erguendo o rosto e respirando fundo. – Deixa sair…
*Michael Italiano: Personal trainer do Daniel. Eles são amigos desde 2001, mas Michael se tornou treinador dele somente em 2017, o que foi alterado na fanfic.
Capítulo 2
Duncraig, Austrália, 1993
Harper ouviu um barulho e levou as mãozinhas para a boca, tentando acalmar sua respiração acelerada. Os passos ficaram cada vez mais altos e ela viu, pelo buraco na madeira, Daniel entrar com os cabelos cacheados que estavam baixos pelo quanto ele já havia suado.
– HARPER? – Ele gritou e a menina apertou as mãos na boca com força, acompanhando-o andar para dentro devagar.
Quando Daniel já estava no meio do celeiro, ela se levantou de seu lugar e passou devagar pelo buraco na madeira, tentando fazer o mínimo de barulho possível no chão sujo de feno. Quando Daniel estava longe o suficiente, ela saiu correndo, chamando a atenção do amigo.
– HARPER! – Ele disse e ela saiu gargalhando pelo gramado na fazenda dos pais de Daniel, correndo por entre alguns animais e assustando algumas galinhas.
– Não me pega! – Ela brincou, fazendo seus cabelos voarem com o vento e os pés de tênis bateram no chão, erguendo um pouco de terra.
A meta de Harper era chegar na pilastra da entrada da casa, mas os pés deslizavam na terra e parecia que Daniel estava mais rápido do que ela. A risada do seu amigo ficou mais alta e ela tentou pegar mais fôlego para bater a mão na pilastra, tropeçando no primeiro degrau.
– Um, dois, três, Harper! – Ela falou animada, sendo empurrada para o lado quando Daniel a alcançou. – Ah! – Ela abraçou a pilastra quando seu corpo caiu para trás e Daniel gargalhou, caindo de joelhos no chão.
– Foi qua-a-a-se!
– Qua-a-a-a-a-ase! – Ela falou gargalhando e ele se sentou na entrada da casa, puxando a respiração com força. – Cansei. – Harper se sentou ao seu lado, deitando-se no chão em seguida.
– Você corre mais rápido do que eu. – Ele disse e ela riu fracamente.
– Hoje sim, mas ontem você ganhou! – Ela disse rindo. – Acho que estamos empatados.
– Já perdi a conta. – Ele disse apoiando os cotovelos nos joelhos.
– A gente começa do zero amanhã, que tal? – Ela se levantou.
– Combinado! – Ele falou animado e eles bateram as mãos com largos sorrisos nos rostos.
– DANIEL! HARPER! – A voz de Grace foi ouvida do lado de dentro e ambos viraram os pescoços com pressa para ela que logo abriu a porta da casa. – Ah, vocês estão aqui. – Ela sorriu, passando as mãos no avental. – Ah, não fica no chão! Está imundo! – Ela disse.
– Opa! – Harper fez uma careta.
– Para dentro, os dois! Vou dar banho para depois vocês comerem! – Ela disse. – A Helena me mata se eu entregar você assim, Harper! – A menina gargalhou, seguindo logo atrás de Daniel.
– É só sujeira, tia Grace! – A menina disse rindo enquanto os mais novos seguiam a mãe do menino.
– A gente pode ir na banheira, mamãe? – Daniel perguntou.
– Hum… Deixe-me pensar! – Grace fingiu pensar enquanto ia com eles até o quarto de Daniel, abrindo a porta para ambos entrarem.
– Vai, mamãe! De-e-e-ixa! – Ele disse e Grace riu fracamente. Seria muito mais fácil colocar ambos na banheira e deixar a sujeira sair naturalmente.
– Eu vou ligar a água para vocês.
– ISSO! – Ele comemorou.
– Não sentem na cama, vai sujar tudo! – Grace alertou antes de seguir para o banheiro.
O quarto de Daniel é ideal para um garoto de quatro anos, vários brinquedos espalhados, lençol de carrinhos e alguns pôsteres colados baixo na parede, muitos por influência do seu pai. A corrida faz parte do sangue de Daniel, então pôsteres de Ayrton Senna e Dale Earnhardt era só o começo disso. O pôster do Michael Jordan também estava junto, mas destoava de todo o resto.
– Crianças, podem vir! – Grace falou e ambos riram.
Daniel foi mais rápido que Harper, tirando a blusa e o short antes de correr até o banheiro com a mãe e Harper fez o mesmo mais devagar, mas deixou sua roupa dobrada – do seu jeito – em cima da cama do menino e deixou os tênis no canto, e não tudo jogado como ele. Ela foi para o banheiro, vendo Daniel entrando na banheira que ainda enchia, e Grace esticou a mão para ela.
– Vem! – Ela disse sorrindo e Harper tirou a calcinha antes de Grace ajudá-la a entrar na água fresca do lado de Daniel.
– Aqui, Harp! – Daniel lhe esticou um coala de borracha e ela sorriu, se sentando ao seu lado.
– Eu gosto dele. – Ela disse apertando o bichinho que fez um guincho e Daniel sorriu para ela.
– Eu quero o carro. – Ele se inclinou para pegar o carrinho de borracha e trazê-lo para sua frente.
– Deixa eu molhar vocês! – Grace disse, pegando o chuveirinho e molhando os cabelos cacheados de Daniel que caíram na cabeça com a água, e depois fez o mesmo com os cabelos de Harper, puxando o lacinho que os prendia. – Fiquem de molho um pouco, ok? Vou pegar as toalhas. – Ela disse e Harper assentiu com a cabeça.
– A gente devia ter ido na piscina. – Daniel disse. – Tá calor.
– A gente tá numa piscina, Danny! – Harper disse rindo, afundando o coala na água e ele riu.
– Uma maior! – Ele falou rindo e a menina sorriu.
– Amanhã você pode ir em casa. – Ela disse e ele abriu um largo sorriso, fazendo-a retribuir.
– Vou ver se a mamãe deixa! – Ele disse.
– Deixa sim, aí a gente pode ir na piscina! – Ela ri, jogando um fio de cabelo para trás.
– Eu posso levar minha boia de crocodilo. – Ele disse.
– Isso! – Ela falou feliz. – Aí a gente pode brincar na boia, eu posso pedir a bola para mamãe e a gente passa o dia todo lá!
– Isso! – Ele falou na mesma animação, fazendo Grace, que espiava na porta, dar um sorriso. Feliz pelo garoto ter feito uma amizade gostosa como aquela.
– Como vocês não começaram a se ensaboar ainda? – Ela falou, deixando as toalhas na pia e os dois riram. – Vai, pode começar pelo sabonete, Daniel, vou lavar o cabelo da Harper!
– Eu já sei, tia! – Ela disse rindo. – Só precisa pentear depois…
– Eu passo creme e penteio para você! – Ela disse, indo até o box, pegando seu creme de pentear.
– E o meu? – Daniel perguntou, levando as mãos à cabeça.
– O seu também! Preciso cuidar dos meus cachinhos! – Grace disse sorrindo, fazendo Harper rir.
– Eu gosto dos cachinhos! – Ela disse, levando a mão aos cabelos de Daniel.
– Gosta? – Ele falou, sacudindo a cabeça, fazendo água voar para os lados.
– Daniel! – Sua mãe o reprendeu, fazendo Harper fechar os olhos e gargalhar.
– Eu também sei fazer isso, ok?! – Harper jogou água nele.
– Não! – Ele disse rindo, fazendo o mesmo, fazendo ambos começarem uma pequena guerrinha na banheira.
– Parem! Parem! Parem! – A voz de Grace foi ouvida e obedecida, fazendo ambos rirem. – Vocês vão molhar todo o banheiro! – Ela colocou as mãos na cintura, fazendo-os rirem. – Ai, ai, ai, hein?!
– Desculpa, tia Grace! – Harper disse fazendo careta e Grace só conseguiu sorrir.
– Vai, agora vamos tomar banho, depois eu deixo vocês brincarem aqui! – Ela limpou a beirada da banheira com uma toalha antes de se sentar na ponta da mesma. – Dá o xampu, Harp! Vou começar por você! – Ela pediu e Harp se esticou para dar o vidro azul para Grace. – E você, mocinho, quero todo ensaboado. – Ela falou e Daniel riu, pegando o sabonete e começando a passar na barriga.
Perth, Austrália, 2016
Harper
Juntei os cabelos e cuspi de volta na pia, ligando a torneira mais uma vez. Coloquei a boca embaixo da água, enchendo-a, e bochechei algumas vezes antes de cuspir de volta. Coloquei a língua para fora e passei a escova com força na mesma algumas vezes, certificando-me que eu tirasse o gosto de vômito e repeti o movimento várias vezes até o hálito de menta ser a única coisa em minha garganta.
Desliguei a torneira, secando a escova na minha toalha e depois passei na boca, aproveitando para passar no rosto que eu havia lavado antes de começar a escovar os dentes. Olhei para meu reflexo no espelho e eu estava meio empalidecida ainda, mas a cara de susto havia sumido finalmente.
Eu sou louca em achar que Danny vai conseguir resolver isso, mas ao menos ele têm a coragem e cara de pau que eu não tenho, além de ser uma das poucas pessoas que eu realmente confiaria minha vida. Sendo bem honesta, eu confio minha vida em qualquer pessoa da família Ricciardo, mas não tenho certeza sobre a parte de um carro em movimento. Danny é muito bom, teve poucas batidas e nenhuma realmente séria, mas sérias o suficiente para me deixar em surto até ter alguma notícia dele.
Pendurei a toalha de novo e deixei minha escova de dentes ao lado da de Danny e segui para fora do banheiro, abrindo a porta. Danny virou o rosto para mim, transformando seu rosto sério em um largo sorriso e pressionei os lábios em um sorriso também.
– Eu tenho isso… – Ele ergueu o pote de pipoca. – E isso… – Ele indicou a TV e vi o logo da DreamWorks travado e sabia que ele tinha colocado Shrek.
Deslizei meu corpo até a cama, me sentando ao seu lado e ele passou o braço em meus ombros, me trazendo para perto de si. Inclinei minha cabeça para seu ombro, deixando meu corpo deslizar na cama e abracei-o pela cintura.
– Não tinha nenhum bolo da Mi, né?! – Sussurrei.
– Está ok, Harp. Você foi incrível! – Ele disse, dando um beijo em minha cabeça e suspirei.
– Por que eu não sinto assim? – Perguntei baixo.
– Isso é novo para você, mas vamos fazer isso funcionar, ok?! – Suspirei, apertando meus braços em seu corpo. – Um pouco por dia, será que você consegue?
– Eu acho que não…
– A pergunta foi retórica, você consegue! – Suspirei.
– Por que você pergunta, então? – Ele deu play no vídeo, jogando o controle de lado e pegou o balde de pipoca, colocando em suas pernas.
– Tentando ser legal. – Ri fracamente e coloquei a mão no balde, pegando algumas pipocas, levando até a boca, vendo o começo de Shrek 2.
– Você é um corredor de Fórmula 1, Danny. Você é legal…
– Você não acha isso. – Sorri.
– Você é um amigo incrível, Danny. – Suspirei. – E um grande corredor também, não é culpa sua que sua amiga é medrosa.
– Você não é medrosa, Harp…
– Eu sou!
– Você não é! – Ele falou firme. – Você passou por algo e criou um receio sobre isso. Agora a gente vai fazer esse medo sair. – Suspirei, incapacitada de enfrentar essa briga de novo.
– Eu te amo, Danny.
– Eu te amo também, Harp! – Ele deu um beijo em minha cabeça. – Pronta para me ver correr? – Ri fracamente.
– Primeiro eu vou, depois eu vejo se consigo assistir à corrida.
– Você vai assistir, você vai ficar lá comigo nos boxes até começar e quero que você seja a última pessoa que eu veja antes de correr e a primeira quando eu ganhar. – Ri fracamente.
– Você está exigindo muito, Danny!
– Não estou… – Ele suspirou. – Isso vai ser bom para mim e para você, você vai ver. – Pressionei os lábios, acompanhando as cenas do filme, passando todas as falas em minha cabeça.
– Você vai ganhar? – Ele riu fracamente.
– Esperamos que sim! – Sorri. – Está na hora de ganhar isso.
– Você tem 26 anos, Danny, espero te ver por muito tempo por aqui.
– Mas não vou parar, só vou continuar ganhando… – Rimos juntos.
– Contanto que você continue com essa sua energia, está tudo bem. – Suspirei.
– E é melhor você voltar a sua, não gosto dessa Harper depressiva. – Sorri.
– Vai melhorar, prometo…
– Vai sim! Shrek sempre melhora tudo. – Ri fracamente e ele indicou a TV. – Lá vai!
– “Ela está em lua-de-mel!” – Fiz a voz do lobo.
– “Lua-de-mel? E com quem?” – Danny fez a voz do príncipe Encantado, me fazendo rir e ergui a cabeça de seu ombro quando Accidentaly in Love começou a cantar.
– “So she said “what’s the problem, baby?” What’s the problem I don’t know, well maybe I’m in love, love, think about it every time, I think about it, can’t stop thinking ‘bout it! – Comecei a cantar a música baixo.
– How much longer will it take to cure this! Just to cure it cause I can’t ignore it if it’s love, love. Makes me want to turn around and face me but I don’t know nothing ‘bout love! – Danny começou a cantar alto, me fazendo rir.
– Come on, come on! Turn a little faster! Come on, come on! The world will follow after! Come on, come on! ‘Cause everybody’s after lo-o-o-ove. – Cantamos juntos, movimentando os ombros, minha voz aumentando conforme ele se empolgava.
– So I said I’m a snowball running, running down into the spring that’s coming all this love. Melting under blue skies, belting out sunlight, shimmering love. Well baby I surrender to the strawberry ice cream never ever end of all this love. Well I didn’t mean to do it, but there’s no escaping your love. – Daniel levantou, me fazendo gargalhar.
– These lines of lightning mean we’re never alone, never alone, no, no! – Ele fingiu um microfone em sua mão, começando a pular aos meus pés na cama. – Come on, come on! Move a little closer! Come on, come on! I want to hear you whisper! Come on, come on! Settle down inside my love! Oh! Oh! – Ele dançava no ritmo da música, fazendo minha gargalhada ecoar pelo quarto acima do som do filme. – Come on, come on! Jump a little higher! Come on, come on! If you feel a little lighter! Come on, come on! We were once upon a time in love!
– SENTA, DANIEL! – Gargalhei, jogando algumas pipocas nele e ele ajoelhou dramaticamente na cama.
– We’re accidentally in love! – Ele disse sério, me fazendo gargalhar mais alto, empurrando seu rosto para o lado, fazendo-o cair ao meu lado. – Accidentally in love, accidentally in love! – Ele gargalhou ao meu lado.
– Accidentally in love, accidentally in love! – Cantei baixo, vendo Shrek e Fiona na piscina do pântano.
– Opa, boa ideia! – Ele disse, virando o corpo e ouvi um pum a mais e não tinha vindo do filme.
– AI, DANIEL! – Peguei seu travesseiro, batendo nele, ouvindo sua gargalhada enquanto ele tentava desviar das batidas. – Ai, que nojo! – Ele gargalhava e fiz uma careta quando senti o cheiro. – Ai, Daniel! – Gemi, apertando o travesseiro no nariz, ouvindo-o gargalhar.
– Ah, dramática! – Ele se ajoelhou, bagunçando meus cabelos e desviei, empurrando-o pelo peito para trás.
– A gente já passou da idade disso, Daniel. – Fiz careta, vendo seu largo sorriso.
– Não é porque a gente cresceu que precisa acabar com as piadas. – Ele disse e joguei o travesseiro nele de novo antes de jogar os cabelos para trás.
– As piadas não, mas adoraria não sentir seu cheiro. – Ele gargalhou e neguei com a cabeça.
– Ai, patricinha! – Ele segurou minha cabeça, estalando um beijo em minha bochecha.
– Quando eu falo que gosto do seu perfume, eu disse outro tipo. – Empurrei-o novamente, vendo-o se sentar direito.
– Você não especificou, a culpa é toda sua. – Neguei com a cabeça.
– Ai, eu não mereço isso. – Ele sorriu e soltei um riso fraco.
– “Só estava cuidando do seu ninho de amor!”
– “Ah, sei, tipo, separar a correspondência, dar uma água para as plantas…”
– “Alimentar os peixes”. – Danny disse.
– “Eu não tenho nenhum peixe!” – Falei, ouvindo Danny rir.
– “Agora tem, esse daqui eu chamei de Shrek e o outro de Fiona, o Shrek é um maior safado.” – Gargalhei, jogando a cabeça para trás.
– A gente nota o quão inconveniente você é quando você decorou as falas do Burro.
– Há, há, há, engraçadinha! – Ele foi irônico e sorri. – Ao menos te fiz sorrir.
– Ah, esse showzinho de stripper aí foi perfeito! – Neguei com a cabeça, ouvindo-o rir.
– Tem mais de onde veio esse! – Ele se inclinou para pegar as pipocas e ri fracamente.
– Ah, não, eu deixo isso para suas namoradas no México! – Falei, gargalhando sozinha e o vi revirar os olhos. – Nós dois podemos fazer esse jogo, Danny! Manda ver!
– Ah, cara! – Ele pressionou o travesseiro no rosto, me fazendo rir e relaxei meu corpo na cama, voltando a ver para o filme.
Daniel
– Sim, recebi aqui, obrigado! – Falei, batucando na mesa.
– De nada! Me envia assim que possível e a gente se vê na semana que vem.
– Sim, sim, obrigado! – Falei antes de desligar o telefone, deixando-o de lado.
Coloquei para imprimir os papéis timbrados da RBR e dei uma volta ao redor do meu corpo na cadeira de rodinhas enquanto imprimia. Puxei os papéis da impressora quando terminou e uma caneta, deslizando para fora do escritório.
Suspirei ao sentir o cheiro adocicado de chocolate junto de carne e segui pela casa, ouvindo os poucos barulhos vindo da cozinha. Harper mexia nas panelas quando me aproximei. Ela desviou o olhar para um pano, limpando as mãos antes de passar o dedo em cima do chantili e colocar na boca, me fazendo rir.
– Eu vi isso! – Falei e ela olhou assustada para mim.
– Ah, é você! – Ela disse e sorri, me aproximando dela.
– O pessoal não chegou ainda? – Aproximei-me.
– Não, e a costela está quase pronta. – Ela apoiou as mãos no balcão e sorri.
– Eu sinto cheiro de chocolate. – Falei.
– Brownie. – Ela disse e suspirei.
– Oh, cara! Eu preciso perder peso, Harp! – Ela gargalhou.
– Você precisa voltar a correr, assim você consegue queimar as calorias mais rápido. – Sentei-me em um banco, rindo fracamente.
– Ah, cara, como eu vou passar uma temporada inteira contigo?
– Eu raramente cozinho nas minhas viagens, ok?! – Ela voltou a focar na panela e ri fracamente. – Eu preciso entregar 12 revisões por semana, pelo menos, eu só como fora. Raramente repito lugar. – Suspirei.
– Parece uma montanha-russa maior do que a minha. – Ela ponderou com a cabeça.
– Com comidas no 0800 e muitas coisas boas. – Ela deu de ombros. – Mas bares e restaurantes de hotel também contam.
– Deve ter algo legal no paddock. – Ela sorriu e coloquei os papéis à mesa.
– O que é isso? – Ela perguntou, colocando uma colher na panela antes de experimentar.
– Um contrato que você precisa assinar. – Ela arregalou os olhos.
– Por quê? – Ela jogou a colher na pia antes de se aproximar de mim.
– Liberar sua entrada em qualquer seção da RBR durante essa temporada. Qualquer seção! – Especifiquei. – Você pode andar no paddock, ficar comigo no vestiário, você vai ficar nos boxes durante a corrida…
– Danny… – Ela gemeu.
– Sem “Danny”. – Imitei sua voz. – Eu posso fingir sua assinatura, caso não se lembre.
– Sua letra é mais bonita que a minha, ninguém vai acreditar. – Ela me mostrou a língua e ri fracamente.
– Assina, Harp. Vamos nos divertir. – Estiquei-lhe a caneta e ela riu fracamente.
– Você vai ter que assinar algumas coisas também, você sabe disso, certo? – Ela me empurrou de leve com o quadril e desviei o banco para ela poder assinar as folhas.
– O quê? – Perguntei, vendo-a assinar um por um.
– Ninguém pode saber que eu sou revisora da Michelin*! – Ela disse firme.
– Eu sei disso, Harp! – Cruzei os braços.
– Mas você não pode nem mencionar isso. Imagino que você vá comigo em alguns lugares…
– O máximo que eu conseguir. – Ela virou o corpo, apoiando o quadril na bancada.
– Se alguém nos ver, somos só amigos almoçando. – Ela disse. – Ninguém pode saber, ninguém pode me marcar nos lugares. Eu preciso estar incógnita.
– Eu sei! – Falei firme, segurando seus ombros. – Você é Harp Addams e eu sou Danny Ric, como sempre foi desde aquela foto nossa pelados na banheira. – Ela gargalhou alto.
– Ah, cara, não acredito que sua mãe ainda deixa essa foto na sala de estar.
– É algo incrível para contar para meus sobrinhos. “Olhem, crianças, esse é o titio Daniel com a mamãe Harper”. – Ela riu fracamente.
– Por que “sobrinhos”? Não vai ter filhos, não? – Ela desviou de mim, ficando do outro lado da bancada.
– Provavelmente sim, mas imagino que você vai ter antes de mim. – Ela riu fracamente.
– Se depender das três mexicanas, talvez eu já tenha um sobrinho! – Ela piscou e tombei a cabeça para trás.
– Você não vai esquecer isso, não? – Falei alto e ela gargalhou.
– Talvez quando chegarmos no México! – Ela sorriu, desligando o fogão e neguei com a cabeça.
– Deveríamos falar da sua transa! – Falei e ela riu fracamente.
– Um cara, um quarto de hotel, uma vez em uma posição muito tradicional e eu nem cheguei lá. Eu preferia três caras, honestamente! – Ela deu de ombros e ri fracamente. – Tinha mais chance de eles saberem o que estavam fazendo.
– E você diz para mim sobre limites. – Ela deu de ombros.
– Você que perguntou. – Ela disse e sorri.
– Depois dá uma olhada no contrato direito, tá? – Falei. – Tem algumas questões de patrocinadores que, estando com a RBR, você não pode fazer.
– Como…? – Ela perguntou, sumindo atrás da bancada ao abrir o fogão.
– Ser vista andando em certos carros, beber certas bebidas… – Revirei os olhos.
– Mas eu não sou ninguém, Danny! – Ela tirou a grande assadeira do carro, colocando na bancada.
– Você é minha melhor amiga e eu te coloquei como minha assistente, então as pessoas vão te ver! – Falei.
– Assistente? – Ela franziu a testa. – E eu faço o quê? Seguro seu capacete? Faço sua cabeça caber nele? Ou melhor… Ajudo você a manter esse pescocinho em forma? – Revirei os olhos.
– Vai ser difícil! – Falei e ela gargalhou. – É só uma forma de explicar sua presença constante do paddock. – Ela suspirou, abrindo o papel alumínio e suspirei com o cheiro da costela.
– Me colocava como família que ficava mais fácil. – Dei de ombros.
– Não, não! Te colocar como parte da RBR fica mais fácil. – Indiquei e ela suspirou, dobrando os papéis.
– Não estou gostando de nada disso.
– Vai ser legal! Para de ser reclamona! – Falei, levando minha mão para os ossinhos que Harper tirava com facilidade da carne e senti um tapa em minha mão. – Ai!
– Está quente! – Ela disse e pressionei os lábios. – Por que você não vai colocando a mesa?
– Porque eu estou mais interessado em beliscar.
– Eu vou te beliscar! – Ela disse séria e revirei os olhos, seguindo para os armários. – Você me colocou como parte da RBR para te acompanhar sempre, certo?
– Uhum… – Falei, pegando os pratos dentro do armário.
– Que tanto você quer que acompanhe? – Ela perguntou.
– A competição inteira. – Falei. – A classificatória, os treinos, a corrida… – Dei de ombros. – Ir comigo nas prévias. – Ouvi sua bufada alta.
– Ai, Danny… – Ri fracamente, levando os pratos até a mesa.
– As prévias são legais, vai! Tem umas coisas interessantes. – Ela negou com a cabeça.
– Você sabe que eu não estou falando disso. – Ela tirou as luvas térmicas, jogando-as na bancada.
– Eu sei, Harp, mas estamos tendo avanço. – Distribuí os pratos na mesa. – Você não vê o velocímetro, mas já estamos chegando…
– Eu não quero saber! – Ela disse rapidamente. – Deixa eu pelo menos fingir que eu estou no meu lugar feliz.
– Ok, ok! – Dei de ombros e ela deu um sorriso, desviando o rosto para a panela novamente. – Mas vamos fazer isso funcionar!
– E quando é seu primeiro compromisso da temporada? – Ela perguntou.
– Semana que vem, dia 21, na Inglaterra. – Falei.
– Ok… – Ela pressionou os lábios.
– E você vai comigo!
– Ah, Daniel! – Ela jogou sua luva em mim, me fazendo gargalhar.
– Vamos lá, Wandinha!
– Eu te odeio! – Ela disse rindo e vi a porta se abrir.
– Estão de amor logo cedo vocês dois?! – Meu pai falou trazendo algumas sacolas para dentro e rimos juntos.
– Para não perder o costume. – Falei.
– São quase duas da tarde, mas tudo bem. Está pronto! – Harper disse.
– Ah, vamos comer que eu estou faminta! – Michelle disse e Harper foi em direção à minha irmã, pegando Isaac no colo.
– Deixa eu ficar com esse lindinho aqui! – Ele riu, esticando as mãos para nosso afilhado e ela estalou alguns beijos na bochecha dele, me fazendo sorrir.
*Revisora da Michelin: Pessoas completamente incógnitas responsáveis por viajar entre países e restaurantes de diversos lugares e avaliar os melhores restaurantes no mundo, oferecendo uma, duas ou três Estrelas Michelin, inserindo-os no Guia Michelin.
O Guia foi criado pela empresa de pneus Michelin, inicialmente, como guia para viajantes. Ele cresceu e se tornou a principal publicação para classificar melhores restaurantes e hotéis
Harper
– Daniel! Daniel! – Senti minha voz sair com força.
– Está ok! Está desacelerando. – Ouvi a voz de Danny e apertei minha mão no painel do carro.
Senti a mão de Danny apertar meu braço enquanto o movimento do carro desacelerava progressivamente e soltei a respiração forte pela boca. Senti minha mão afrouxar devagar quando o impulso da velocidade me relaxou no banco e abri meus olhos devagar, percebendo que estávamos no mesmo lugar de antes, e suspirei.
– Como está se sentindo? – Virei o rosto para Danny e assenti com a cabeça.
– Eu estou bem. – Engoli em seco, apoiando a cabeça no encosto e ele levou a mão para meu rosto, acariciando a bochecha com o polegar.
– Bom… – Ele sorriu e suspirei, sentindo os batimentos do meu coração voltar ao normal. – Respira…
– Eu estou bem. – Engoli em seco, olhando para os olhos cor-de-mel dele.
– Eu quero tentar algo diferente hoje… – Ele disse.
– O quê? – Perguntei e ele abaixou sua mão antes de sair do carro e suspirei, acompanhando seus movimentos até o porta-malas.
Suspirei e levei a mão até o peito. Respirei fundo algumas vezes, deixando meu corpo deslizar no assento do meu carro e virei o rosto para a porta quando Danny abriu e o vi segurando dois capacetes.
– A-a-a-a-a-ah! HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! – Minha gargalhada saiu mais alta, me fazendo forçar a mão no peito. – Ah, cara! Você só pode estar de zoação comigo.
– Não estou! – Ele disse sério.
– Ah, nem vem, Danny boy! Você não vai dar uma de piloto de Fórmula 1 comigo no carro. Muito menos com o meu carro! – Falei antes de gargalhar de novo.
– Não vou mesmo, aqui não tem espaço suficiente para ganhar a velocidade pedida e eu valorizo muito a minha vida e a sua. – Ele disse sério. – E não quero minha marqueteira na minha orelha por um acidente ridículo. – Ri fracamente.
– Então o quê? – Perguntei, virando os pés para fora do carro.
– Está na hora de você dirigir! – Ele me estendeu o capacete.
– Danny! Danny! Danny! – Falei rindo.
– Vamos, Harp! Vai ser legal! – Neguei com a cabeça.
– Por que eu preciso do capacete?
– Porque eu valorizo muito a sua vida e a minha. – Ele repetiu.
– Mas…
– E você vai passar dos 100. – Ele disse firme. – Com The Veronicas ou não! – Suspirei.
– Já falei que odeio capacetes? – Disse.
– Eu sei, aperta a cabeça, é desconfortável, mas serão só 10 minutos, não uma hora e meia. – Ele me esticou um e segurei-o com as mãos. – Levanta! – Ele disse e o fiz desanimada.
Abaixei o lacinho do rabo de cavalo e Danny segurou as alças do capacete em sua mão antes de enfiar em minha cabeça e fiz uma careta com o aperto do mesmo enquanto Danny ajeitava o capacete em meu queixo.
– Eu não vou respirar aqui dentro.
– Va-a-a-a-ai! – Ele disse alto, provavelmente irritado com minhas reclamações e abaixou a viseira antes de pegar o capacete em minha mão. – Agora vai! – Ele disse. – Para o volante.
– Eu deveria ter dado fim na nossa amizade lá atrás! – Falei, sentindo-o empurrar meu ombro. – Quando você me chamou de Wandinha.
– Mas está dramática, hein?! – Ele disse rindo e suspirei, sentindo-o empurrar minha cabeça para trás e entrei do lado do motorista do meu carro. – Não mexe no banco.
– Mas está longe para caramba! – Falei.
– Temos quase a mesma altura, Harper, está bom! – Ele disse e suspirei, sentindo-o puxar o cinto de segurança.
– Eu consigo colocar! – Falei.
– Quieta! – Ele disse e suspirei, vendo-o entrar com a cabeça no carro, sentindo um tranco quando ele puxou o cinto.
– Oh! – Falei, vendo-o sair do carro.
– Bom! – Ele disse.
– Você acha que eu vou… – Ele fechou a porta, me deixando falando sozinha e o vi abrir a outra porta, entrando já com o capacete. – O que você acha que eu vou fazer? – Falei e ele ajeitou seu cinto de segurança.
– Dirigir! – Ele disse, girando a chave do carro por mim. – Aperta o botão.
– Daniel…
– Aperta o botão! – Ele disse e apertei o freio antes de apertar o botão, ouvindo o motor. – Agora vamos, devagar. – Suspirei, soltando o freio devagar e substituindo pelo acelerador, sentindo o carro começar a andar. – Vai no sentimento.
Firmei minhas mãos no volante e tentei relaxar, andando como se eu saísse do meu apartamento dentro de Perth para a fazenda de Danny do lado de fora da cidade. O carro atingiu 60 por hora como acontece normalmente. Bem, na verdade, normalmente eu pararia aí, mas logo depois Danny ligou a música, aumentando o volume e reconheci a voz das minhas gêmeas australianas.
– Pisa! – Ele disse.
– Dan…
– Não quero ouvir! Pisa! – Ele disse firme e engoli em seco.
Minhas mãos firmaram no volante e senti algumas memórias voltarem em minha cabeça. A ligação, o hospital, Grace e Joe saindo da sala do legista e me dando aquele sorriso triste, os caixões pretos e o abraço de Danny.
– PISA, HARPER! – Ele gritou e meu pé afundou no acelerador, me fazendo ouvir o cantar dos pneus quando o carro sentiu a mudança de velocidade. – OLHA PARA FRENTE! – Ele disse firme e me forcei a seguir o que ele disse, girando o volante para sair da curva.
Senti meu corpo forçando cada vez mais no banco conforme a velocidade aumentava e minha barriga começou a revirar com o movimento. Eu consegui manter a constância por alguns segundos, depois eu simplesmente entrei em pânico quando desci meus olhos para o velocímetro e vi o número 142. Tirei o pé do acelerador e levei os dois pés no freio, impulsionando meu corpo para frente e minhas mãos apertaram o volante com mais força.
Senti uma mão em meu peito, me segurando quando o carro deu uma deslizada pelo asfalto antes de parar completamente. Meu corpo deu um rápido solavanco antes de voltar para trás, mas a mão de Danny pressionava meu peito para trás. Respirei fundo, sentindo minha respiração acelerada e soltei o cinto de segurança com pressa, empurrando a porta e briguei com a fivela do capacete antes de puxá-lo com força da cabeça e soltá-lo no chão.
– HARPER! HARPER! – Ouvi a voz de Danny e puxei a respiração fortemente, soltando-a com a mesma força. – Harper! – Ele apertou meus ombros, me forçando a olhar para ele. – HARPER! – Ele gritou mais uma vez e me sacudiu a ponto de focar em seus olhos pela abertura da viseira. – Olha para mim!
– Eu… – Suspirei. – Eu… – Ele me sacudiu de novo e sacudi a cabeça, piscando mais forte algumas vezes. – Eu…
– Me escuta? – Ele disse.
– Sim… – Suspirei e ele soltou meu ombro, tirando o capacete de sua cabeça, abaixando-o no chão.
– Olha para mim! Olha para mim! – Ele pediu, apoiando as mãos em minha cintura. – Respira! Respira! – Fazia o que ele pedia a cada vez que ele falava. – Respira…
– Você… – Engoli em seco. – Você…
– Pelo amor de Deus, Harper. Eu vou te dar um tapa na cara. – Ri fracamente, suspirando.
– Você… Você dirige na próxima vez, ok?! – Ele sorriu e me puxou para um abraço, me forçando a passar os braços pelos seus ombros.
– Nessa velocidade? – Ele perguntou e ri fracamente.
– Não… Vamos ser normais. – Suspirei. – Mas entendi seu ponto. – Me afastei devagar.
– Sim? – Ele perguntou animado, passando a mão em meu cabelo.
– Sim… – Suspirei. – Só não vamos fazer mais isso. Eu sei que te incomoda, mas deixa eu andar na velocidade permitida e você faz as loucuras com o carro, ok?! – Ele sorriu.
– Eu só quero que você supere esse medo. – Ele acariciou meu rosto. – E saiba que eu estou aqui contigo para o que você precisar. – Assenti com a cabeça.
– Eu sei. – Suspirei. – Mas agora chega de fazer testes, ok?! Acho que meu coração não aguenta muito. – Ele sorriu.
– Tudo bem… Mas acho que você está pronta. – Ri fracamente.
– Espero, honestamente. Agora já assinei o contrato. – Ele sorriu.
– Ei, mas tem um ponto positivo nisso tudo. – Ele se inclinou para pegar os capacetes.
– O quê? – Encostei o corpo no carro.
– Duas, na verdade! – Ele disse rindo.
– O quê? – Repeti.
– Você fica linda encostada no carro. – Revirei os olhos, rindo fracamente.
– Obrigada, e o que mais?
– Você não vomitou. – Ele disse e gargalhei, tombando a cabeça para trás.
– Uma vantagem. – Falei rindo.
– Duas! Você ainda está linda, Harp! – Neguei com a cabeça, rindo fracamente.
– Agradeço, mas eu sou a garota que gosta de ser levada para passear e não o contrário. – Estiquei a mão para ele. – E eu tenho um amigo corredor para tirar onda ainda! – Ele gargalhou.
– Bom ponto! – Ele disse rindo. – Vamos sair desse buraco! – Sorri.
– Vamos!
Daniel
– Bom dia, John! – Falei no interfone e ouvi o portão destravar. Empurrei o mesmo com as costas, passando pela portaria do prédio.
– Aceita alguma ajuda? – Vi John do outro lado abrir o portão interno para mim.
– Obrigado! – Falei, vendo-o fechar o portão. – Harper está?
– Sim, ela não saiu hoje! – Ele disse.
– Posso subir?
– Sim, vai lá! – Ele disse.
– Obrigado, John! Tenha um bom dia!
– Obrigado! – Ele respondeu e subi os degraus rapidamente, indo em direção ao prédio de Harper.
Entrei no prédio, vendo uma mulher sair do elevador e sorri para ela, piscando em seguida e ela riu fracamente, dando uma volta ao redor do corpo antes de sair pela porta. Sorri sozinho, entrando no elevador e soltei um dedo das sacolas que eu levava e apertei o último botão, esperando o elevador chegar.
– HARPER! – Chamei-a assim que o elevador abriu e me aproximei de sua porta, tentando pegar a chave de seu apartamento no bolso. – HARPER! – Tirei a chave do bolso, vendo a porta se abrir.
– Escandaloso! Eu tenho vizinhos! – Ela disse, entrando no apartamento e fechei a porta com o pé, seguindo-a pelo corredor e observei suas pernas no short curto e pés descalços e pressionei os lábios, rindo fracamente. – O quê? – Ela virou o rosto para mim antes de entrar no quarto.
– Nada! – Falei rapidamente, entrando logo atrás dela no quarto, vendo-a com duas malas abertas em cima de sua cama. – Pronta? – Deixei as sacolas em sua mesa.
– Ainda não, falta só algumas coisas. – Ela colocou uma pilha de roupas na mala. – Como vamos?
– De Qantas mesmo! – Falei, deitando na área livre da sua cama.
– Quando você vai me levar não tem nem um jatinho particular? – Gargalhei, jogando a cabeça para trás.
– Na Europa vai ter. – Passei a mão nos cabelos, sorrindo.
– Me dá um minuto. – Ela disse antes de sair do quarto e suspirei, erguendo o corpo na cama, vendo uma organização melhor do que a minha. – Vai ter espaço para lavar roupas, pegar mais coisas? – Ouvi sua voz mais alta.
– É! Normalmente tem um intervalo de 10 dias até o próximo circuito, alguns menos, mas no geral é isso. – Falei.
– E como funciona as coisas? Onde você fica? Onde eu vou ficar? – Ouvi sua voz mais perto quando ela entrou no quarto novamente.
– No geral ficamos em hotéis, já pedi quartos duplos para você ficar comigo. Só na Europa a gente fica em motorhomes dentro do circuito, mas aí eu vou te colocar em um hotel! – Falei, vendo-a colocar uma necessaire na cama.
– Por quê? – Ela disse rindo. – Me acha patricinha demais para um motorhome? – Ri fracamente, pegando um ursinho de pelúcia e jogando em sua direção, fazendo-a rir.
– Eu sou mauricinho demais para um motorhome! – Falei, ouvindo-a gargalhar. – Eu estou brincando, eles são confortáveis. Maiores do que seu apartamento.
– Há, há, há, engraçadinho! – Ela bateu em minha perna, me fazendo rir.
– Mas eu acho que você vai ficar mais confortável lá. – Ela assentiu com a cabeça.
– Você manda, Danny. – Ela fechou a primeira mala.
– Em Monaco eu tenho um apartamento, então eu prefiro ficar lá… – Sentei na cama, abaixando uma perna para o chão. – Podemos ficar lá.
– Em Monaco eu quero andar no seu iate! – Ela disse, me fazendo rir. – Você me promete isso desde o ano passado!
– Combinado! – Falei, vendo-a sorrir. – Não é um grande iate, mas…
– Ah, cala a boca, Danny! É um iate! – Ela disse rindo.
– Eu vou planejar algo bem legal para nós!
– E restaurantes legais, não se esquece disso, eu ainda preciso trabalhar. – Sorri, vendo-a colocar a primeira mala no chão.
– Combinado! – Sorri.
– Você tem seu apartamento na Itália ainda?
– Não! – Neguei com a cabeça. – Nem era um apartamento, Harp, era uma quitinete. – Ela riu comigo.
– Ah, vai saber! Poderia ter tido certa melhora. – Sorri, negando com a cabeça. – Não tem GP na França, né?!
– Não, por quê?
– Eu tenho um apartamento em Saint-Étienne. – Ela disse, se sentando do outro lado da cama. – Se precisar.
– Acho que nunca fui no seu apartamento lá. – Falei. – É perto de Monaco? – Perguntei, coçando a nuca.
– 650 quilômetros, mais ou menos. – Ela ponderou com a cabeça.
– Duas horas. – Falei rindo.
– A 350 quilômetros por hora! – Ela sorriu, me fazendo gargalhar. – Umas sete respeitando as normas de segurança. – Sorri.
– Podemos ficar na minha casa nos Estados Unidos. – Indiquei.
– Você ama o Austin, Danny, duvido que vá querer fugir para Los Angeles. – Ponderei com a cabeça.
– Talvez nas férias. – Ela sorriu. – Bem… – Dei de ombros, inclinando o corpo para pegar a sacola. – Te trouxe isso.
– O que é isso? – Ela perguntou quando soltei a sacola em sua frente.
– Uniforme da Red Bull. – Ela tirou uma camisa da mesma, tirando-a do saquinho antes de abri-la em sua frente, rindo fracamente. – Com meu número!
– Número 3… – Ela sorriu, abaixando a blusa no colo e virou o rosto para mim. – Isso está realmente acontecendo, Danny? – Sorri, assentindo com a cabeça.
– Sim! Depois de cinco anos, você vai ver uma corrida ao meu lado. – Ela riu fracamente.
– Metaforicamente, é claro! – Sorri.
– É claro! – Falei rindo.
– Eu estou com medo, honestamente. – Estiquei a mão até a sua, segurando-a.
– Vai dar certo, Harp. – Ela sorriu. – Não te vi vomitar três vezes à toa. – Rimos juntos.
– Pensando nesse ponto… – Ela sorriu. – Como é sua rotina lá? Não quero te atrapalhar.
– Quinta normalmente tem a parte de divulgação, vamos para algum lugar com a equipe, fazemos alguma coisa cultural ou local, depois tem reunião com a equipe, alinhar algumas coisas. Sexta tem os treinos, eu normalmente fico uns 15 minutos na pista, depois checando com a equipe o restante das coisas e fazendo treino pessoal, sábado é o terceiro treino e a classificação e começa a vir a pressão, o nervosismo, e domingo é a corrida. Começa o dia devagar, tomo café, vou para o paddock, dou uma última checada no carro, tem o desfile dos corredores, depois volto, faço alguns exercícios, me troco e começo a meditar até a hora da corrida. – Ela assentiu com a cabeça.
– Repetindo: não quero te atrapalhar. – Assenti com a cabeça.
– Não se preocupe. Vamos nos divertir um pouco, sim? – Ela pressionou os lábios, assentindo com a cabeça.
– Vamos! – Ela suspirou, deixando os ombros caírem. – Que horas vamos para o aeroporto? – Chequei o relógio.
– Temos umas três horas ainda. – Ponderei com a cabeça.
– Rola comer uma última besteira antes de começar sua dieta louca? – Rimos juntos.
– Definitivamente! – Falei. – Por quê?
– Eu tenho hambúrgueres de frango empanados, posso fritar e…
– O-o-o-o-oh, yeah! – Falei rindo. – GEE! GEE! GEE! OIH! OIH!
– Ai, parece um macaco fazendo isso! – Ela me bateu, me fazendo rir.
– Eu só amo fried chicken burger. – Abri um largo sorriso e ela riu fracamente.
– Eu sei! – Ela se levantou. – Vou só guardar aqui, depois vamos para lá. – Ela pegou a sacola, tirando todas as camisetas que trouxe para ela. – Eu tenho uma mala de sapatos também.
– Eu tenho menos mala, a RBR leva tudo. – Dei de ombros e ela riu fracamente. – Preciso só de algumas extras para as folgas, o restante eu fico de uniforme ou macacão.
– Deve ser muito quente! – Ela disse, ajeitando tudo na mala.
– No inverno é até gostoso, mas no calor é quente para caralho! – Ela sorriu, fechando a mala antes de fechar o zíper.
– Vamos fazer isso! – Ela suspirou e estiquei minha mão para ela, sentindo-a bater.
– Vamos lá, Wandinha! – Ela fez uma careta.
– Vamos lá, Honey Badger. – Dei-lhe uma feição séria antes de rirmos juntos.
Bath, Inglaterra
Harper
Minhas mãos tremiam um pouco e dificultavam até para fechar o zíper do casaco pesado. Acho que nervosismo e frio não combinavam, me sentia uma pedra de gelo. Puxei o zíper com força, fechando-o até em cima e peguei o gorro e enfiei na cabeça, com dificuldades de erguer os braços pelas camadas de roupa.
– Harp! Você está pronta? – Ouvi a voz de Danny se aproximar e andei até a porta, abrindo-a encontrando-o na frente da mesma.
Ele está com a mesma roupa do que eu, o casaco pesado, o gorro da Red Bull, mas por baixo dava para ver as calças do macacão e os braços presos em sua cintura, além dos sapatos específicos para automobilismo.
– Sapatos de balé! – Brinquei, dando um sorriso e ele revirou os olhos.
– Não são sapatos de…
– Só zoando com a sua cara! – Dei de ombros. – Você está bem, Danny, mas esse bigode… – Ele riu fracamente, me puxando pelos ombros.
– Você vai mudar de ideia, tenho certeza! – Rimos juntos e me segurei no batente da porta.
– Espera! Preciso pegar meu celular. – Falei, inclinando o corpo para dentro do quarto novamente, pegando meu celular em cima da mesa de cabeceira antes de seguir Danny de novo.
– Você está confortável? – Ele perguntou.
– Não muito. – Estiquei-lhe a mão e ele a pegou.
– Morreu e esqueceu de enterrar, foi? – Ele disse, me fazendo rir.
– Está frio! – Entrelacei o braço no dele, fazendo-o rir.
– É, mas não tanto assim! – Empurrei-o com o quadril, sorrindo.
– Vamos lá! – Falei firme. – O que você vai fazer exatamente? – Perguntei, soltando seu braço quando ele abriu a porta do quarto.
– Você vai ver! – Ele disse e suspirei.
– Mas não é uma corrida, é? – Perguntei, seguindo ao seu lado pelo corredor do hotel.
– Não, é teste de força. – Ele disse. – Uma das loucuras da Red Bull.
– E você vai me levar? – Perguntei rindo.
– Você prometeu me seguir em tudo… – Ele disse e suspirei.
– Ok, ok, me desculpa. – Entrei no elevador, me encostando na parede. Descemos para o térreo e uma van nos esperava na porta com uma mulher mais velha fora do mesmo.
– Ei, Maria! – Danny a cumprimentou.
– Ei, Daniel, como foram as férias? Pronto para voltar? – Ela perguntou.
– É claro! – Ele disse rindo.
– Então, essa é Harper? – Maria perguntou e dei um aceno com a mão.
– Sim! – Ele disse. – Maria, Harper. Harper, essa é Maria, minha marqueteira da RBR.
– Oi. – Falei, dando um sorriso sem graça e ela me analisou de cima a baixo.
– Você tem certeza de que são só amigos mesmo? – Ela perguntou e eu Danny tivemos a mesma reação de sempre, rir.
– Sim, só amigos. Eu a conheço desde antes dos meus três anos. – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Sim! – Falei rindo.
– Ok, vamos, não temos muito tempo! – Ela disse, abrindo espaço na frente da van e Danny indicou para eu entrar e veio logo atrás de mim. – Eu vou te passar o briefing até lá. – Ela disse, antes de entrar, puxando a porta.
Resumindo: eles colocariam oito jogadores de Rugby para competir com um carro de Fórmula 1 tipo um cabo de guerra. Eu não sabia se estava surpresa ou com medo. Eles seguiram para uma residência antiga para fora da cidade e pararam uns cinco quilômetros antes da casa, ao lado do pequeno carrinho de Daniel, onde tinha uma equipe com ele.
– Daniel, você fica aqui. – Maria disse. – O pessoal vai te explicar o que você vai fazer. – Ela disse e Danny olhou para mim. – Ela vai comigo. – Ela disse e nenhum de nós dois respondemos.
Ele saiu e a van seguiu em direção à residência, não demorando mais do que cinco minutos para chegar. Lá, consegui ver o time de Rugby esperando o que é que Danny fosse fazer lá atrás. Eles estavam em seus uniformes, mas não sei como não estavam tremendo de frio como eu.
– Harper, certo? – Ouvi sua voz.
– Sim. – Falei.
– Vamos te deixar perto da casa para você não aparecer no vídeo, mas você consegue ver. – Ela disse. – Principalmente ouvir. – Assenti com a cabeça.
– Não é minha primeira vez. – Falei, esfregando as mãos uma na outra.
– É verdade que você e Daniel são só amigos? – Ela perguntou.
– Sim, é sim. – Falei, erguendo o rosto para ela. – Nos conhecemos desde os três anos e eu o acompanhei desde o começo. Somos quase irmãos. – Dei de ombros.
– E por que nunca veio em algo dele? Digo… Se são como irmãos.
– Só… Motivos pessoais, trabalho, o de sempre. – Ela assentiu com a cabeça.
– Sim, sim… Mas são só amigos? – Ri fracamente.
– Não se preocupe, só amigos, dormindo em camas separadas e tudo. – Ela assentiu com a cabeça. – Não vou atrapalhar seu trabalho.
– Não me importo com quem ele namora, só gosto de saber para não ser pega de surpresa. – Assenti com a cabeça.
– Sim, entendo. – Falei pouco antes da van parar.
Saímos todos da van e ela me indicou a entrada da grande residência tradicional e me sentei na escadaria enquanto ela seguiu até o time de Rugby. Talvez ter vindo tivesse sido uma péssima ideia, estava frio e eu sentada gelando a bunda nos degraus esperando por alguma coisa.
Não sei quanto tempo demorou, mas eu logo ouvi o barulho característico do carro e me levantei. O barulho vinha de longe e conforme se aproximava, algumas memórias voltaram em minha cabeça. Karts quando éramos crianças, suas primeiras corridas, quando ele conseguiu seu primeiro contrato, sua primeira corrida profissional, torcer junto com a plateia… E nada. O acidente veio e eu fugi dessa vida.
O carro azul, vermelho e amarelo passou como um flash em minha visão enquanto entrava pela residência e engoli em seco, sentindo meu corpo travar por um momento. Desci uns degraus, encontrando o carro novamente quando ele apareceu por de trás da casa e o vi passar na frente da casa, fazendo a curva mais fechada. Dei um passo para trás, vendo-o entrar na pequena rua da entrada e engoli em seco quando ele passou a poucos metros da minha frente, me fazendo prender a respiração por alguns segundos e sentir os ouvidos doerem pelo som.
Ele voltou para onde estava o time de Rugby e eu sentei meu corpo para trás, sentindo a respiração pesada. Demorou mais do que alguns minutos para meu coração voltar ao normal. Eu acho, pelo menos. Com a quantidade de roupa que eu usava, não conseguia sentir meu coração.
O barulho parou um pouco enquanto Daniel gravava com o time, mas logo voltou quando o scrum – tipo de jogada que eles queriam fazer – começou. Eu não sabia como, mas oito jogadores de Rugby eram páreos para um carro de Fórmula Um. Quando Daniel conseguia empurrá-los, eles conseguiam se recuperar facilmente, fazendo só bastante fumaça subir. Passados uns quatro ou cinco minutos, o barulho parou, mas demorou mais alguns minutos para a fumaça dissipar.
Enquanto eles faziam outra parte da gravação, soltei um suspiro, sentindo um sorriso se formar em meus lábios quando uma lembrança minha, de Dan e dos meninos brincando de corridas de kart logo que Danny começou, apareceu. O barulho não era o mesmo e tinha muito menos coisa envolvida, é claro, mas eu gostava muito. Fazia-me feliz e lembro da minha risada se tornar muda pelas altas de Danny enquanto ele me passava com muita facilidade, mas ao menos conseguia ficar em segundo lugar.
Agíamos muito como crianças, principalmente quando juntava o grupo inteiro nas férias na casa de Danny, apesar de sabermos que sua preferência era sempre ficar comigo quando eu chegava, é só uma pena eu ter me ausentado tanto tempo por medo. Hoje é só uma prévia e sei que ele pode ir muito mais rápido do que isso, mas ao menos vieram as memórias certas à cabeça.
– Ei, Harp! – Ouvi-o e me levantei, vendo Danny vir em minha direção com o macacão completo de piloto e o capacete em sua cabeça.
– Ei… – Falei, mas quando ele tirou os protetores de ouvido, suspeitei que ele não tivesse ouvido.
– Como está? – Assenti com a cabeça. – Não era para eles te deixarem sozinha.
– Eu estou bem, Danny! – Pressionei os lábios em um sorriso.
– É? – Ele sorriu e ri fracamente.
– É. Meu coração saiu da boca por alguns segundos, mas estou bem. – Ele riu fracamente.
– É bom, vai! Sentir isso de novo. – Assenti com a cabeça.
– Sim, eu tive umas boas memórias. – Ela assentiu com a cabeça.
– Daniel! – Ele se virou e vi Maria ali.
– Vai trabalhar, Danny boy! – Falei e ele assentiu com a cabeça, se afastando novamente e ri fracamente, me sentando nos degraus novamente.
Daniel
– É assim sempre? – Ela ergueu o rosto e descansei o talher.
– O quê? – Ela perguntou, escondendo a boca com o guardanapo.
– Suas avaliações. – Perguntei baixo. – Fica esse silêncio mortal enquanto você come? – Ela riu fracamente.
– Normalmente estou sozinha, então sim. – Ri fracamente. – Mas não… – Ela negou com a cabeça. – Não estou trabalhando agora, só pensando sobre hoje… – Ela deu um curto sorriso. – Não sobre hoje, na verdade, sobre o passado. – Ergui a taça, dando um gole no vinho. – Senti saudades de ser criança de novo. – Sorri.
– Você ainda pode. – Falei e ela riu fracamente.
– Não, não dá. – Ela tombou o corpo para trás, se esticando na cadeira. – Está faltando muitas partes para isso funcionar. – Ela suspirou. – Minha mãe, meu pai, até você…
– A vida acabou nos levando em direção aos nossos sonhos, mas… – Ela suspirou.
– Nos separou no meio tempo. Não literal, mas eu sinto saudades de não ter tantos compromissos, de ficar papeando contigo o dia inteiro, até das intrigas de ensino médio, do começo da sua carreira. – Ela coçou a testa. – Me desculpe, eu estou emotiva.
– Você pode ser, sabe? – Ele disse rindo. – Está sendo para mim te ter aqui, imagino para você… – Ela sorriu.
– Você se lembra daquele tempo? – Ela deu um sorriso. – Não as brigas e picuinhas adolescente, só as boas partes… – Sorri. – Antes de você ser um corredor famoso, que deixa as mulheres gritando por você e que te deixou um pouco mais metido também. – Rimos juntos. – Na verdade, acho que você sempre foi metido, seu anuário diz isso. – Gargalhei.
– Ah, cara! Aquilo foi épico. – Falei e ela sorriu.
– “Hannah Montana disse que ninguém é perfeito, mas aqui estou eu”*. – Ela jogou a cabeça para trás, gargalhando alto e sorri.
– Amor próprio sempre! – Falei rindo.
– E você nem estava bonito quanto hoje, Danny! Aquilo foi um surto coletivo! – Rimos juntos.
– Eu era um idiota naquela época! – Falei rindo.
– Era? – Ela perguntou rindo.
– Era! – Falei firme e ela sorriu.
– Eu não concordo em nada com isso. – Ela disse rindo. – Você não mudou nada, Danny! Pelo menos não quando está em Perth, vai saber as merdas que você faz e eu não vejo.
– Eu escrevo no caderno. – Ela negou com a cabeça.
– Você não escreve tudo. Eu não escrevo tudo… – Ela suspirou. – Acho que não tenho paciência, na verdade. Eu deveria escrever uma Bíblia se eu escrevesse tudo o que eu penso ou sinto nas minhas viagens…
– Você está me preocupando, Harp. – Falei e ela soltou um longo suspiro, se empreguiçando na cadeira. – Fala comigo…
– Eu me sinto com 17 anos de novo. Quando você foi para Europa e eu entrei em faculdade, mas sem saber muito o que eu ia fazer. Eu estou um pouco perdida. – Ela pressionou os lábios.
– Com o que exatamente? – Ela suspirou.
– Uma vida mais calma. – Ela deu de ombros. – Eu vi Michelle, Jason e Isaac nas férias e ela é só alguns anos mais velha do que e eu estou bem longe de realizar qualquer uma dessas coisas.
– Você quer dizer…
– Se acalmar, ter uma vida mais normal. Casar, ter filhos… – Ela pegou sua taça, virando o restante do vinho para dentro. – Abrir um restaurante talvez. – Estiquei a mão sobre a mesa, procurando a sua e ela olhou para mim. – O quê?
– Eu não sei o que dizer, Harp. Honestamente. – Suspirei. – Mas você é jovem ainda, tem uma visão diferente da Michelle e menos pressão também. – Ela abaixou a taça à mesa novamente. – Eu acho que você está passando por algumas dúvidas depois de trabalhar mais do que devia ano passado. Mas se você realmente quiser ter uma vida mais normal, voltar para Perth ou até ficar em Monaco comigo durante o ano, eu vou te apoiar em qualquer decisão que queira, ok?! Até me dar sobrinhos. – Ela deu um sorriso. – E eu vou ter que aprovar o namorado, é claro.
– É claro! – Ela disse rindo.
– E eu apoio totalmente a ideia de um restaurante, viu?! – Falei. – Seria bom saber onde você está pelo menos. – Ela pressionou os lábios. – Saber que você está bem, saudável… Sem fugir de nós…
– É, acho que o problema está aí, fugir de vocês. – Ela suspirou. – Eu sou uma Ricciardo mesmo sem o sobrenome. – Assenti com a cabeça.
– Sim, e minha mãe já te trata como a filha mais nova, você sabe disso. Você aceitar finalmente o posto não vai mudar nada. – Ela riu fracamente.
– Vamos ver como vai ser esse ano, tenho muitos receios para passar ainda e teremos um longo ano. Mas eu quero uma mudança, Danny. – Ela pressionou os lábios. – Sabe… Quando eu vinha em um lugar novo, eu analisava cada canto, experimentava cada coisa do cardápio, checava se os guardanapos são de um tecido bom, agora… – Ela suspirou. – Só quero comer uma comida gostosa e dormir… – Assenti com a cabeça. – Eu não quero mais isso, eu sei. Quando começo a reclamar demais, quando começo a ver problema demais, é hora de mudar, eu sei… Não precisa ser um gênio para saber isso. – Neguei com a cabeça.
– Eu vou te ajudar com isso, Harp! – Sorrimos. – Vou te ajudar a descobrir o que você quer fazer e te dar alguns motivos para se empolgar, a começar com muito barulho, muitas corridas…
– Espero que tenha alguns caras envolvidos…
– Você pode conhecer algumas pessoas novas. Só não corredores, pelo amor de Deus. – Falei e ela gargalhou.
– Por que não? – Ela deu de ombros.
– Você odeia velocidade e você quer um corredor? – Ela riu fracamente.
– Eu não estou prometendo amor eterno, só… – Dei de ombros. – Uma boa noite de sono. – Ela piscou para mim e neguei com a cabeça.
– Ah, cara! Não, não, não! A relação dos corredores já é aquela pressão com a imprensa, imagina as notícias?
– Oh! Desacelera, Danny boy! – Ela disse rindo. – Eu cuido da parte romântica e você me ajuda em outras coisas. Combinado? – Assenti com a cabeça, rindo com ela.
– Combinado! – Falei rindo. – Pintar o cabelo de rosa é uma ideia boa? – Rimos juntos.
– Não acho que o problema está no cabelo. – Ela passou a mão nos fios, jogando-os para trás, fazendo-me rir.
– Acho que não, eu gosto! – Ela sorriu. – Mas podemos mudar com algumas ações. – Falei, erguendo a mão, procurando pelo garçom.
– Ah, o que vai fazer? – Ela suspirou e vi o garçom se aproximar.
– Sim… – Ele disse.
– Me traz quatro shots da sua melhor tequila, por favor.
– Claro, com licença. – O garçom disse, se retirando.
– Daniel! – Ela disse.
– Mudanças! – Falei firme, vendo-a negar com a cabeça.
– Eu não bebo tequila. Me dá dor de cabeça.
– Vai beber agora! – Falei firme, afastando um pouco o prato para o meio da mesa.
– A gente bebeu uma garrafa inteira de vinho, eu vou estar estragada amanhã. Você não tem simulador, não?
– Não! – Falei firme. – Relaxa aí, Harper! Só nós dois bebendo em um bar…
– Onde a dose de tequila custa 22 libras, mas sim. – Ela checou no cardápio e rimos juntos. – E nunca tivemos bons momentos bebendo em bares, você foi embora antes de termos idade para beber. – Ponderei com a cabeça.
– Acho que você tem mágoa disso até hoje. – Ela abriu um largo sorriso, rindo.
– Não, Danny! Sinto muito orgulho do que você conquistou e mal posso esperar para ver você realizando mais. – Sorri. – É só uma pena que seja uma corrida, mas… – Rimos juntos e vi o garçom trazer as quatro tequilas.
– Valeu! – Falei, empurrando duas doses para Harper. – Vamos!
– Foi assim que começou o que aconteceu no México? Eu gosto da minha sanidade. – Revirei os olhos. – Eu não acho que temos muitas opções para você agora…
– Beba, Harper! – Estiquei a primeira à frente e ela suspirou, fazendo o mesmo. – A uma boa temporada.
– E à nossa amizade. Porque isso com certeza vai afetar nossa amizade e não sei se de uma forma boa. – Ri fracamente.
– Quando foi a última vez que passamos um ano inteiro juntos? – Perguntei e ela respirou fundo.
– Dois mil e… – Ela pensou, fazendo algumas contas. – 2002? – Ela franziu a testa.
– Tudo isso? – Franzi a testa.
– É! – Ela deu de ombros. – Nosso ensino médio foi meio conturbado, caso não se lembre. – Assenti com a cabeça. – Brigamos muito.
– Queria não, mas aqui estamos. – Estiquei o shot novamente. – A novos recomeços, Harp.
– A novos recomeços, Danny boy! – Ela disse e tocamos os shots, virando para dentro.
*Anuário de Daniel: Segundo uma publicação do Reddit, essa é a frase que Daniel escolheu para colocar no seu anuário.
Capítulo 3
Duncraig, Austrália, 1994
– Ei, Grace… – Harper ergueu o rosto com a voz da sua mãe, desviando de pintar o desenho. – Sim, eu soube, como ele está? – Harper largou os desenhos, se levantando de sua pequena mesinha, seguindo a passos lentos até sua mãe.
– É o Danny, mamãe? – Ela perguntou e Helena passou a mão nos cabelos da filha, tirando a franja dos olhos. – Eu posso ver ele?
– Estamos só nós duas aqui. – Helena disse ao telefone. – Podemos dar uma volta, o que acha? – Ela suspirou. – Isso, vai ser uma ótima ideia. Ele vai se sentir melhor. Ela está agitada também, faz três dias que eles não se veem.
– Mã-ã-ãe! – Harper puxou a mão de sua mãe.
– Isso, chego em 20 minutos. – Helena disse antes de desligar.
– Mãe! – Harper a chamou.
– Oi, minha linda! – Ela se ajoelhou na frente da filha.
– Era o Danny? – Ela perguntou, fazendo um biquinho.
– Era a titia Grace. Ela chamou a gente para ir ao zoológico. – Ela disse.
– O Danny vai também? – Ela perguntou.
– Claro que vai, meu amor! – Ela ajeitou os cabelos da filha. – Ele está com saudades de você.
– Eu quero ver ele, mamãe! – Harper fez um biquinho.
– Vamos, vou te levar para lá! Vamos nos aquecer?
– Sim! – Harper disse animada, correndo para seu quarto.
Helena sorriu, seguindo com a filha até o quarto e ajudou-a a colocar uma calça mais quente e um suéter por cima da blusa de bichinhos que ela usava. O mês de maio havia acabado de começar, mas uma pequena frente fria atingiu a cidade de Duncraig, precisando de alguns casacos a mais para sair na rua. O que não era muito comum para eles no Oeste da Austrália, perto do Outback*.
– Vamos aquecer essas orelhas. – Helena falou ao colocar o gorro na cabeça da filha, apertando-o com firmeza. – Sente-se lá no sofá, vou pegar um casaco.
Helena foi para seu quarto, trocando os chinelos por botas e casacos antes de voltar, encontrando Harper sacudindo as pernas no sofá. A menina sorriu ao ver a mãe, levantando-se rapidamente e não demorou para ambas estarem dentro do carro.
Demorou um pouco mais do que de costume para eles chegarem ao zoológico. Duncraig é um dos subúrbios de Perth, então eles precisavam ir para Perth para qualquer programa diferenciado e isso demorava cerca de 20 minutos para atravessar um canto ao outro.
Quando as duas chegaram ao zoológico, Harper ficou animada no banco do carro ao ver os cabelos da Daniel pelo vidro do carro. Infelizmente o menino não estava com a mesma empolgação. No último dia primeiro, um de seus grandes ídolos havia falecido. Mesmo que ele ainda não soubesse muito sobre corridas e afins, seu pai o havia influenciado muito bem e era frequente o garoto acordar às três ou quatro da manhã para assistir corrida, além de falar que é isso que ele queria fazer na vida.
Grace notou uma diferença no humor do filho após a morte de Ayrton Senna*, ele não queria comer, não queria ver Harper e nem sair para brincar, medidas desesperadas precisavam ser tomadas. Daniel gostava e admirava a forma de correr do brasileiro, adorava as passagens, as manobras, tudo isso em uma velocidade altíssima. Joe havia feito uma influência enorme no menino, mas perder um ídolo dessa forma, na carreira que o garoto queria seguir? Parecia muito duro para um menino de quase cinco anos.
– Filha… – Helena se virou para Harper. – Dá um abraço bem forte nele, está bem?
– Por quê, mamãe? – Harper perguntou.
– Porque o Daniel está triste, amor. – Helena disse. – Só o abrace, está bem?
– Tá bem. – Ela disse e Helena saiu do carro, abrindo a porta, vendo a menina pular do carro, saindo correndo em direção a Daniel.
– Danny! – Harper disse e o menino até esboçou um curto sorriso ao ver a menina e Harper o abraçou fortemente, mesmo que sua mãe não tivesse pedido, sentia muitas saudades do amigo. Para ela, era como se fosse uma eternidade. – Saudade!
– Também senti. – O menino apoiou a cabeça no ombro da menina, com um pequeno bico nos lábios.
Enquanto eles davam seu longo abraço, Helena se aproximou de Grace e ambas também trocaram um forte abraço. Haviam se tornado amigas pelos seus filhos e, como donas de casa, acabavam dedicando o tempo completo para os filhos que só queriam saber de se divertir.
– Como ele está? – Helena perguntou.
– Melhorando um pouco, já comeu um pouco mais hoje, mas acho que ele está gostando de ser paparicado. – Helena sorriu, virando para sua filha e seu melhor amigo. – Achei que um passeio fosse fazê-lo se sentir melhor.
– Sim, claro! Mas acho que deve ter sido um pouco demais para Daniel. – Helena disse. – O homem morreu, Grace. – Helena falou mais baixo. – Um grande astro, e morreu fazendo algo que sonhava. Eu tenho medo de ver Fórmula Um por isso.
– Eu também morro de medo, fico pensando nas mães desses meninos*. – Grace passou as mãos nos braços, suspirando.
– E você quer ver o Daniel nisso? – Helena perguntou.
– Honestamente? Não, mas acho que no final das contas eu não vou poder controlar. – Ela deu de ombros. – E o Joe já correu um pouco, ele fez Daniel gostar disso. O que posso fazer? – Ela negou com a cabeça. – Esperar que ele tire isso da cabeça o mais rápido possível, mas e se não?
– Boa sorte. – Helena disse e Grace suspirou, arregalando os olhos antes de respirar fundo.
– Vamos entrar. – Grace disse. – Daniel! Harper! Vamos! – Ela disse e os amigos soltaram finalmente o abraço.
Harper esticou a mão para Daniel e ele a segurou, andando lado a lado logo atrás de suas mães. Grace e Helena se entreolharam, dando um sorriso entre si. As mães foram comprar o ingresso para o zoológico, liberando a entrada das crianças logo em seguida.
– A gente pode ver os coalas, mamãe? – Harper perguntou animada.
– Podemos! – Helena disse sorrindo.
– E os cangurus? – Daniel perguntou.
– Podemos também. – Grace disse sorrindo e parece que até Daniel tinha um sorriso melhor no rosto. – Nós vamos chegar lá.
– Olha as girafas, Danny! – Harper disse animada, apontando para os animais de pescoços longos.
– Vem, Harp! – Ele segurou a mão dela, saindo correndo e Grace sentiu um alívio em seu coração. Talvez encontrar a melhor amiga e um pouco de distração era tudo o que Daniel precisava para voltar o sorriso largo em seu rosto.
*Outback: é o nome coloquial para as áreas amplas, não povoadas e predominantemente áridas que compõem o interior e as costas remotas da Austrália, resumidamente, o deserto australiano.
*Morte do Senna: primeiro de maio de 1994 em Imola, Itália.
*No primeiro episódio da primeira temporada de F1: Drive to Survive da Netflix, Grace dá essa mesma declaração.
FEVEREIRO
Le Castellet, França, 2016
Harper
– Harper? – Parei de mordiscar a ponta do dedo e virei o rosto rapidamente para trás, encontrando Michael.
– Ei, Mike. – Suspirei, levantando-me das arquibancadas, vendo outro homem com ele.
– Você está bem? – Ele perguntou e suspirei.
– Sim… Eu acho. – Neguei com a cabeça, afundando as mãos nos bolsos do casaco pesado da Red Bull.
– Não é uma corrida, Harper, é só um treino. – Meu amigo e de Danny de infância* falou.
– O problema não é esse, Michael. E ainda é em pista molhada, não gosto. – Falei.
– Vai ser uma longa temporada. – Ele suspirou e neguei com a cabeça.
– Como ele está?
– Logo é a vez dele, mais alguns minutos. – Ele virou rapidamente. – Enfim, você se lembra do Glenn*? – Ele apontou para o homem atrás de si.
– Empresário do Danny, certo? – Estiquei a mão.
– Sim. – Ele apertou minha mão. – Já nos conhecemos, não?
– Sim, me lembro de você. – Falei e apertamos as mãos.
– Faz tempo que não te vejo. – Ele disse.
– Sim, tive uns problemas e… – Ponderei com a cabeça e ele assentiu com a cabeça.
– Sinto muito, Daniel me disse. – Pressionei os lábios, confirmando, e um silêncio estranho ficou entre nós.
– Então, você viaja com o Danny ou… – Perguntei.
– Ah, não. Eu acabo vindo para algumas situações mais críticas. Começo de temporada acaba sendo complicado, algumas questões contratuais, acabo ficando com ele.
– Ah, que ótimo. – Sorri, pressionando os lábios.
– E você? Finalmente decidiu acompanhá-lo? – Ele indicou o crachá em meu pescoço e ri fracamente.
– Estou precisando de uma mudança, talvez vá me ajudar. – Ele sorriu.
– Bem-vinda de volta, então. – Sorri.
– Obrigada. – Falei e Michael assentiu com a cabeça.
Sentei-me novamente, apertando as mãos dentro do casaco e observei o circuito Paul Ricard vazio. Hoje é dia de teste em pista molhada e o tempo estava nublado, mas sem chuva ainda, pelo menos não mais do que já havia chovido durante a noite toda. Além de Daniel, só Räikkönen testaria com a Ferrari também, mas Danny tinha o primeiro horário.
Como Michael disse, é só um teste, alguns minutos e pronto, mas a intenção era testar quanto os pneus aguentam em diversas situações, então eles teriam que correr como se fosse uma corrida e, apesar daquela brincadeira na Red Bull alguns dias atrás, sei que aquilo não era o ambiente ideal e que o carro não atingiu a velocidade esperada. Agora eu não tinha mesmo como fugir. Ao menos Daniel estava sozinho na pista.
– Ele está saindo. – Michael anunciou e respirei fundo.
Antes que eu conseguisse me mexer, ouvi o som do motor do carro aumentando cada vez mais alto e arqueei os ombros quando ele atingiu níveis altíssimos e o carro de Daniel passou com um raio para mim.
Levei meu corpo até a beirada, vendo os diversos fotógrafos parados abaixo de mim, na saída da garagem da RBR, e apertei as mãos no corrimão. O barulho foi ficando mais afastado até Danny sumir na primeira curva e me impossibilitar de vê-lo. Diferente da corrida, onde eu fiquei bastante nos boxes com Danny, eu não tinha nenhuma tela para ver o desempenho dele, não sabia como ele estava indo, muito menos sua velocidade, o que talvez seja bom, mas sabia que em menos de um minuto e meio, eu o veria de novo.
E foi o que aconteceu quando o barulho voltou a ficar alto e o carro de Danny passou em minha frente mais uma vez, fazendo-me apertar a mão no corrimão. O carro azul, vermelho e amarelo passou no grid de largada, aumentando a velocidade, tornando o barulho cada vez mais alto, fazendo-me mordiscar o lábio inferior, desviando o rosto em seguida.
Encare, Harper! Encare!
Tinha alguma coisa movimentando dentro de mim, talvez aquela tradicional vontade de vomitar, mas não podia agora. Eu tinha que encarar isso, não dava mais para fugir. Faz seis anos! Seis anos sem eles, mas seis anos sem também poder aproveitar essa oportunidade incrível que é ter Daniel fazendo sucesso na carreira que escolheu.
É loucura pensar em tudo o que ele passou para chegar aqui e tudo o que eu acompanhei até a morte dos meus pais. Depois descobri meu trauma e mesmo com vários médicos, psicólogos e psiquiatras, isso ainda ficou.
Não sei se a forma que Danny lidou com isso nas férias foi a melhor possível, mas eu estou aqui. Com as mãos doendo de tanto apertar o corrimão, sentindo meu pequeno almoço querer sair, mas vendo o carro de Danny passar diversas vezes em minha frente, exigindo ao máximo de seu carro.
Ao que não foi mais do que 15 minutos, o carro entrou na área dos boxes e vi Michael e Glenn aplaudindo, além de poucos apoiadores e respirei fundo, sentindo minhas mãos relaxarem devagar quando os mecânicos o ajudaram a entrar de ré na garagem. Fiz um curto sinal da cruz, sentindo os dedos doerem ao finalmente se mexerem e meu coração se acalmou aos poucos, me fazendo suspirar.
– Vai vomitar aí? – Virei para Michael.
– Não… Eu estou bem. – Suspirei, sentindo a saliva em excesso na boca e ele assentiu com a cabeça, dando um tapinha em meus ombros.
– Respira! – Ele disse e confirmei com a cabeça, suspirando, tombando a cabeça para frente, deixando a respiração sair devagar.
– EI, HARPER! – Ergui o rosto, procurando quem me chamou e encontrei Danny na frente do box com o macacão completo, o capacete na mão, puxando a balaclava da cabeça e dei um sorriso, sentindo aquele alívio passar pelo corpo.
– Ei, Danny! – Falei sorrindo.
– Você está bem? – Ele se aproximou, ficando mais embaixo de onde eu estava e notei os fotógrafos seguindo-o.
– Sim. – Dei um curto sorriso, esticando o polegar para baixo e ele fez o mesmo, erguendo para cima com as luvas, sorrindo.
– Bom! – Ele disse com seu largo sorriso e retribuí, sentindo meu rosto esquentar com a atenção dos fotógrafos.
– Vai trabalhar! – Falei e ele riu.
– Nos falamos depois! – Ele gritou e assenti com a cabeça, recuando meu corpo para trás, sentando-me nas arquibancadas de novo, fazendo-me suspirar.
*Michael Italiano: treinador de performance e desempenho do Daniel. Eles se conheceram aos 12 anos. Originalmente, Michael começou a trabalhar com Daniel no final de 2017.
*Glenn Beavis: ex-empresário de Daniel de 2012 até 2019. Hoje, Blake Friend, outro amigo de infância de Daniel citado na história, é seu empresário. Antes disso, Blake era visto como um assistente a partir de 2017.
Londres, Inglaterra
Daniel
– Ei, Daniil! – Falei.
– Daniel! – Ele falou empolgado e nossas mãos estralaram ao se tocarem. – Como foram as férias?
– Ótimas, como sempre! E contigo? – Ele disse.
– Muito boas também. – Ele sorriu e rimos juntos. – Pronto para recomeçar?
– Nasci pronto! Não aguento mais ficar dentro de casa. – Falei, ouvindo-o rir.
– Vamos nos arrumar, rapazes! – Ouvi a voz de Maria. – Coulthard* já entrou, vocês têm três minutos.
– A gente já se encontra. – Daniil disse e trocamos outro rápido aperto de mãos antes de sair do meu camarim.
Subi o macacão para os ombros, inclinando-os para ajeitar e ajeitei a roupa de baixo antes de puxar o zíper central para cima. Olhei-me no espelho, pressionando os lábios, e estava satisfeito. Já tinha usado esse macacão antes na sessão de fotos e na gravação, mas agora que havia reparado nos diversos touros em um tom mais claro no tecido.
– Hot! – Falei para o espelho, fechando a parte de cima do macacão.
– Dois minutos! – Ouvi a voz de Maria e me sentei na cadeira mais próxima para calçar os sapatos do novo kit da PUMA. Amarrei-os antes de me levantar novamente. Dei uma checada nos cabelos, passando a mão neles.
– Not hot! – Ponderei com a cabeça, deixando isso de lado.
– O vídeo começou, gente! – Maria falou mais alto.
– Estou pronto! Estou pronto! – Saí pela porta e Maria puxou minha gola.
– Está torta. – Bufei, ajeitando-a mais uma vez. – Vamos! Para o palco! – Ela disse e Kvyat saiu pela outra porta. – Vão! – Ela disse firme e subi as escadas, vendo o novo carro da Red Bull ali e outro organizador.
– Quando os mecânicos saírem de perto, vocês entram. – Ele disse.
– Ok. – Falei, respirando fundo, vendo os dançarinos fazerem a apresentação à frente da tela.
Meu carro estava um pouco atrás, pronto para ser empurrado para dentro. Tinha conseguido usá-lo pela primeira vez nos treinos de 15 dias atrás. Era uma máquina incrível para trabalhar, talvez eu estivesse criando expectativas cedo demais, mas talvez consiga o campeonato esse ano.
– Vão! Vão! – O organizador disse e eu e Kvyat seguimos por lados diferentes, entrando no palco, passando pela fumaça e jogo de luzes, e me coloquei na frente do carro, vendo os diversos celulares e câmeras em nossa direção.
– Apresentando o libré da equipe Red Bull Racing em parceria com a PUMA para 2016. Bem-vindos, Daniel Ricciardo e Daniil Kvyat. – A apresentadora disse e tentei dar meu melhor sorriso enquanto as pessoas tiravam fotos.
– Então, Daniel, temos um libré novo esse ano, como você se sente? – A apresentadora perguntou e as luzes se acenderam, me deixando ver melhor o público.
– É bom! Boa tarde, todo mundo. – Falei um tanto nervoso. – O carro está incrível, para nós, pilotos, o que importa é a performance na pista, mas parecer bonito é parte de tudo também, o kit está bonito, um kit mais funky, espero que isso apresente bons resultados para 2016.
– Como você se sentiu quando colocou ele?
– Me senti foda! – Falei rindo em seguida. – É incrível.
– Então, agora, Christian, estamos vendo um libré totalmente diferente desse ano, quais foram as intenções aqui? – Coulthard, ex-piloto da RBR, perguntou e franzi a testa, encontrando Harper no meio da plateia e ela deu um curto sorriso quando percebeu e fiz o mesmo, me contendo em acenar.
Ela disse que não saberia se conseguiria vir, já que precisava entregar uma revisão até o fim do dia, mas acho que ela tinha conseguido, e se escondia entre os convidados e alguns fãs ali no meio da plateia.
– Então, Daniel… – Virei meu rosto para apresentadora de novo. – Com a Austrália sendo a primeira corrida, isso deve ser um bom incentivo para você.
– É sim. – Falei rindo. – A questão é que é um longo tempo entre a última corrida de 2015 até Melbourne. É uma grande espera. Claro que estamos treinando e fazendo outras coisas fora da pista, mas, sabe, queremos correr, treinamos para correr, então, quando chega em Melbourne, não só por ser a primeira corrida da temporada e por ser meu lar, mas por fazer bastante tempo desde a última corrida. – Falei para ela. – Então sempre tem aquela motivação, empolgação, sentimentos, tem treino na semana que vem, mas poderíamos ir direto para Melbourne. – Falei rindo e ela concordou.
A apresentação durou mais alguns minutos e, após algumas fotos, pude voltar para dentro, colocar o kit do dia a dia antes de seguir para responder algumas perguntas dos repórteres que estavam lá, saindo de novo para o palco, mas dessa vez boa parte das pessoas já tinham saído, então estava mais confortável.
As perguntas foram calmas como sempre. Não tinha começado nem a pré-temporada, então não tinha nada para falar, era mais sobre o novo equipamento e as mudanças, mas sempre tinha aquela pergunta para pressionar sempre.
– Então, Daniel, uma última pergunta: onde você se vê no final da temporada 2016? Você se vê com o troféu de campeão mundial nas mãos?
– Hum… Eu adoraria dizer sim. Eu acredito que estou em um lugar para correr atrás disso, mas sabemos que tem muitas coisas envolvidas na F1… Eu não quero ser pessimista, mas temos um vão enorme para fechar entre outras equipes tipo Mercedes, então dizer agora que serei campeão esse ano, não tem muita margem por trás disso. Então vou esperar alguns pódios, voltar para a fileira de vencedores e ver onde isso nos coloca em novembro.
– Boa sorte! – Ele disse e assenti com a cabeça, vendo-o se afastar e suspirei, virando para Maria.
– Encerrado. – Ela disse e confirmei, apoiando-me na beirada do palco, passando as mãos no rosto.
– Cansado? – Ergui o rosto para Harper.
– Você veio! – Falei, puxando-a pelos braços para um abraço.
– Oh! O que foi? – Ela disse, apertando as mãos em minhas costas.
– Só cansado. – Falei, ouvindo sua risada abafada perto de meu ouvido.
– Podemos ir embora? – Ela perguntou e ergui meu rosto, abaixando minhas mãos.
– Acho que sim. – Passei a mão nos cabelos e ela se apoiou no palco ao meu lado. – O que achou? – Apontei para o casaco da Red Bull.
– Azul fica bem em você. – Ela disse, me fazendo sorrir. – Vamos ver se ajuda a ganhar corridas. – Rimos juntos e suspirei.
– Oh, cara! Nova temporada! Vamos ver o que vai acontecer. – Suspirei.
– Relaxa, Danny, temos umas semanas ainda, mas começar bem em casa acho que é obrigação. – Ela riu fracamente.
– Espero que esteja certa. Depois de 2014, é o que eu mais quero. – Bufei.
– Ainda não entendo que merda aconteceu contigo para te desclassificarem depois de ganhar em segundo… – Apertei as mãos no rosto.
– Ah, Harp, deixa para lá. Não vale a pena voltar isso. – Suspirei. – É difícil acompanhar todas as regras da FIA.
– Se muda tantos as regras, não vejo como isso é justo. – Dei de ombros. – Na verdade, já não acho justo os carros não terem o mesmo motor, aí sim eu queria ver se os primeiros lugares são realmente bons. – Dei um curto sorriso.
– Ela está certa, Daniel! – Ergui o rosto, vendo Christian* se aproximar. – Adoraria ver o que você faria com uma Mercedes ou uma Ferrari. – Ri fracamente.
– Acho que muito é do motorista, Chris. O motor ajuda, mas não é garantido, do contrário não teríamos ganhadores diferentes. – Falei e ele se aproximou, apoiando a mão em meu ombro.
– Quem é ela?
– Chris, essa é Harper Addams, minha melhor amiga de infância. – Falei. – Harper, esse é Christian Horner, chefe da Red Bull Racing. – Falei e ambos apertaram as mãos em minha frente.
– É um prazer te conhecer. – Ela disse com um sorriso no rosto.
– Então, você é a nova pessoa da minha equipe? – Ele perguntou e Harp riu fracamente.
– Não é minha culpa! – Ela deu de ombros.
– A convidei para passar um ano conosco, talvez seja a motivação que eu precise. – Ele riu fracamente.
– Eu sou uma pessoa cética, mas se diz que ajuda, eu acredito em tudo. – Christian sorriu. – Algum talento que eu preciso saber?
– Não sei se ajuda, mas eu sou uma chef profissional. – Ela disse rindo. – Sem restaurante, mas sim…
– A comida dela é boa? – Ele se virou para mim.
– A melhor! – Falei rindo.
– Bom! – Christian disse. – Vai ser um prazer te ter conosco, senhorita Addams. – Ela sorriu. – Nos vemos na segunda, Daniel!
– Até! – O cumprimentei, vendo-o seguir pelo salão.
– Podemos ir também. – Ela disse. – Eu realmente preciso de um banho e um antiácido. – Ela fez uma careta.
– Você está bem?
– Comi algo que não me fez bem. – Ela suspirou.
– Alguém não vai ganhar uma estrela. – Falei e ela riu fracamente.
– Não e eu talvez tenha uma noite de rainha. – Suspirei.
– Eu te empresto o cheirinho de ambiente. – Ela bateu a mão na testa.
– Ah, cara! Nem um mês contigo, até o final do ano eu vou ter virado um homem. – Franzi a testa.
– Espero que não, já tenho testosterona demais na minha vida. – Ela riu fracamente.
– Ah, vamos embora, preciso melhorar e aproveitar alguns restaurantes ingleses antes da viagem para Barcelona.
– Vamos! – Estiquei a mão.
– Sem mãos, muita imprensa aqui. – Ela disse, seguindo em frente.
– Eles vão ter que se acostumar que somos amigos, Harp! Você vai ficar comigo o ano inteiro! – Segui logo atrás dela, ouvindo-a rir.
– Até explicar que focinho de porco não é tomada, teríamos várias mulheres com o coração partido. – Ela falou sarcástica e ri fracamente.
– Ah, você está certa! Vai ser mais difícil para eu ter encontros casuais sem um relacionamento nas costas. – Ela gargalhou.
– Você não presta mesmo! – Ela me empurrou pelo ombro, fazendo-me gargalhar.
– Só entrei na sua, Harp! – Falei e ela seguiu à frente, gargalhando.
*David Coulthard: ex-piloto escocês da Red Bull Racing, o primeiro piloto da escuderia, possui dois pódios de 3º lugar. Hoje é um embaixador da Fórmula 1 e aparecia frequentemente com Daniel nos anos da Red Bull.
*Christian Horner: ex-piloto britânico de Fórmula 3, chefe de equipe da Red Bull Racing desde seu lançamento em 2005, onde a Red Bull comprou a antiga equipe da F1 da Jaguar.
Montmeló, Espanha
Harper
– Então, aqui fica cheio em dias de corrida. Cada escuderia tem seu prédio com refeitório, lugar para descanso, uma pequena área de treinamento… – Daniel falava enquanto andávamos pelo que parecia ser um largo estacionamento.
– E onde vocês ficam? – Perguntei, ajeitando os óculos de sol no rosto.
– Normalmente mais para ali. – Ele apontou um pouco distante dos caminhões. – Cada piloto tem um motorhome e ficamos aqui durante o fim de semana.
– É bom?
– É confortável. – Ele deu de ombros. – É quieto quando tudo acaba. – Rimos juntos. – Mas a maioria dos pilotos fica por aqui, boa parte da equipe, eu só não tenho muito saco de olhar na cara de ninguém depois do fim de semana. – Gargalhei. – Especialmente se eu tive uma péssima corrida.
– Achei que você fosse mais simpático, Danny boy. – Falei e ele riu fracamente.
– Você me conhece. – Ele suspirou.
– The honey badger! – Falei e ele assentiu com a cabeça.
– Ser simpático o tempo todo não é muito bom. – Ele disse. – Parece que você não pode ficar triste ou puto.
– Já vi todos os seus tipos. – Passei o braço pelos seus ombros, puxando-o para dentro e ele gargalhou. – Eles montam tudo na hora?
– Sim! – Ele disse, passando a mão em minha cintura. – É um verdadeiro circo. Desmonta aqui e monta 24 horas depois em outro lugar. – Ele deu de ombros. – Os prédios também, os motorhomes… Quando a gente chega aqui está tudo pronto. Hoje é só treino, então não tem nada, mas vamos chegar aqui em maio. – Ele disse, pensando um pouco.
– O calendário é meio estranho, certo? – Falei, dando um passo mais longo quando mudamos o piso, passando por uma passarela larga, até entrar em uma área com mais pessoas andando por ali.
– Como assim?
– Bem… Austrália, depois vamos para o Bahrein, voltamos para a China e Rússia, ok. Aí temos Espanha, Mônaco… Vai para o Canadá! – Ele gargalhou. – Para voltar para o Azerbaijão. Ah, é muita grana para gastar, vai.
– É a primeira vez que vamos correr no Azerbaijão, estou empolgado! – Ele disse. – Tem algum dessa leva que vai ser novidade para você? – Pensei um pouco.
– Muitos, na verdade. – Falei. – Minha área era mais a parte do Sul do mundo, então Azerbaijão, Bahrein, Hungria, Áustria, Singapura, Malásia, Emirados Árabes… – Ponderei com a cabeça. – Mônaco! – Ele riu fracamente.
– Não acredito que você nunca esteve em Mônaco.
– Vamos dizer que eu nunca tive dinheiro o suficiente para ser liberada a entrada. – Ele gargalhou. – Mas Rússia também. Nunca fui para Rússia.
– Então você viajou o mundo, mas… – Sorri.
– Te garanto que conheço mais países do que você. – Falei. – Muitos da América do Sul, muitos da África. – Ele sorriu.
– Você aprecia mais a cultura dos países do que eu, Harp!
– Além de eu ter mais tempo do que você, sua comida favorita é costela e hamburger e vamos dizer que todo mundo sabe fazer isso. – Falei, ouvindo-o rir.
– Menos eu! – Abri um largo sorriso.
– É, você queima água, Danny! – Pressionei os lábios e ele riu fracamente.
– Estou ferrado se eu me casar com alguém que goste de cozinhar.
– Oh, isso vai acontecer? – Perguntei surpresa.
– Sem graça! – Ele me empurrou, nos afastando, me fazendo gargalhar. – Quando eu estiver com uns 40, 45 anos, depois de ter ganho uns quatro, cinco campeonatos mundiais, é… – Neguei com a cabeça, gargalhando. – Mas ela não pode cozinhar melhor que você!
– Não que seja possível… – Ele gargalhou.
– Metida!
– Convívio demais com você! A essa hora era para eu estar bem longe daqui! Em algum país estranho perto de casa. – Rimos juntos.
– Aqui é mais legal, vai! – Ele passou os braços pelos meus ombros, me inclinando para trás e gargalhei.
– Talvez.
– Mas minha futura esposa não pode cozinhar melhor do que você! Ou vai ter muita treta. – Ri fracamente.
– Bem, você ama minha comida, Daniel!
– É por isso que eu sou seu amigo. Chef particular! – Gargalhamos juntos.
– É, claro! Porque aos três anos eu já era uma chef in-crí-vel! – Falei sarcasticamente, ouvindo-o gargalhar.
– É… Não dá nem para eu fugir dessa. – Ele me soltou, fazendo-me sorrir.
– Ao menos demos sorte, Daniel! – Falei, dando de ombros, e ele segurou a maçaneta da porta.
– Isso é loucura, certo? – Ele falou, mordiscando o lábio inferior e assenti com a cabeça. – Nós dois chegamos aonde queríamos, Harp.
– Sim, Danny! – Suspirei. – Eu estou um pouco perdida, mas se eu pensar no sonho que eu tive lá atrás… Eu realizei.
– Vamos encontrar outro para realizar. – Ele disse e assenti com a cabeça. – Vem, vamos mostrar a garagem. – Ele puxou a porta com força e entrei com ele. – Faz tempo que você não vem aqui, né?!
– O último foi quando você estava na HRT ainda, depois daquela crise, eu parei de vir. – Entrei em sua frente.
– Bem, tem umas diferenças entre as equipes. Uma enorme diferença. – Rimos juntos. – Mas é o mesmo labirinto! – Ele foi ao meu lado.
– E na Espanha você achou melhor eu ficar longe. – Comentei e ele ponderou com a cabeça.
– Ainda acho, mas hoje está mais calmo, meu horário é só mais tarde. – Ele disse e andamos pelo longo corredor. – A direita tem a garagem do Kvyat e a minha é a da esquerda. – Ele seguiu pelo lado com o número 3. – Aqui estão a aparelhagem para os mecânicos para corrida, na hora do pit stop. – Ele indicou os capacetes e saímos para a larga garagem, fazendo-me sorrir.
As cores e o logotipo da Red Bull estavam em todos os lugares, mas o que chamou mais atenção foi o carro no canto direito da garagem. Já tinha visto-o no lançamento há alguns dias, mas ele estava um pouco mais longe do que isso. O carro parecia brilhar ali enquanto os mecânicos mexiam nele. Dava para notar que faltava muitas coisas, inclusive um dos carros não estava lá ainda, e faltava alguns pneus.
– Ei, gente! – Danny disse, cumprimentando algumas pessoas.
– Oi, Daniel! – O pessoal falou e dei curtos acenos.
– Galera, essa é Harper, ela é minha amiga da vida! – Ele disse e pressionei os lábios, acenando. – Amiga mesmo, antes que perguntem! Nos conhecemos desde os três anos, crescemos juntos e tem até fotos pelados em banheira.
– Daniel! – O repreendi, ouvindo o pessoal rir.
– Com três anos! – Ele corrigiu e revirei os olhos.
– Você deveria ter parado no “só amigos mesmo”. – Falei, dando de ombros e os mecânicos assentiram com a cabeça. – Prazer em conhecê-los.
– Prazer! – Eles disseram e sorri.
– Ela vai ficar por aqui durante essa temporada. Ela é legal, eu prometo! – Gargalhei alto. – E ela cozinha muito bem!
– Isso é uma coisa boa! – Um mecânico falou, me fazendo rir.
– Harper, esse é Nigel, mecânico-chefe.
– Oi! – Sorri, esticando a mão.
– Oi! – Ele disse acenando. – Graxa! – Ele disse.
– Eu não ligo, eu estou em uma garagem, certo? – Falei e ele sorriu, apertando minha mão.
– Gostei dela! – Nigel disse, me fazendo rir e o homem mais velho continuou empurrando os pneus para fora.
– Daniel, chegou cedo! – Virei o rosto para trás, vendo outro homem chegar.
– Simon, ei! Só apresentando as coisas para Harper. – Ele indicou para mim. – Harper, essa é Simon Reenie*, meu engenheiro durante as corridas, classificatórias, práticas, entre outros. Simon, essa é Harper, minha amiga que eu te disse.
– Olá, Harper, tudo bem? – Ele disse e trocamos um rápido aperto de mão.
– Tudo bem. Prazer te conhecer. – Sorri.
– O prazer é meu. – Ele assentiu com a cabeça. – Você é mais como Daniel ou mais normal? – Ele perguntou, me fazendo rir e Daniel manter a feição séria.
– Mais normal, com toda certeza! – Falei, ouvindo-o rir.
– Engraçado, Simon! Bem engraçado! – Ele disse, me fazendo rir. – Mas ela é chata, eu sou legal, vamos continuar assim. – Revirei os olhos.
– É bom ter você aqui, Harper. Precisamos de toda ajuda necessária para fazer esse cara voltar a ganhar. – Ele deu um tapinha nos ombros de Daniel, me fazendo rir.
– O que precisar, eu estou aqui para ajudar. – Sorri.
– Kvyat chegando! – Virei o rosto para o lado.
– Vem, eles vão cuidar do Daniil, deixa eu te mostrar lá dentro enquanto isso. – Ele disse, indicando com a cabeça e o segui, segurando o casaco em minhas mãos mais perto para o corpo. – Aqui temos as partes técnicas. – Seguimos pelo longo corredor. – Sala de telemetria, rádios da equipe, sala de análise… – Ele foi indicando as salas, acenando para um ou outro que passava pelo meio do caminho. – Uma garagem interna com peças extras, do lado de lá tem a sala de pneus. – Ele indicou. – Aqui temos a sala da comunicação… – Ele apontou.
– Não lembro de isso ser tão grande! – Falei.
– As vantagens de uma escuderia grande. – Ele virou para mim ao falar e revirei os olhos.
– Apesar do seu ego enorme, eu estou feliz por você, Danny boy! – Baguncei seus cabelos.
– Não toca nos meus cachos, plebeia! – Ele disse e gargalhei, jogando a cabeça para trás.
– Cara de pau! – Empurrei-o, fazendo-o gargalhar.
– Vem! – Ele apoiou a mão em minhas costas. – Aqui é a área dos vestiários. Temos dois desses, um aqui e outro lá no motorhome que eu comentei lá fora. – Assenti com a cabeça. – Esse é mais para o momento da corrida mesmo, um macacão extra, capacetes, coisas para assinar, uma massagem ocasional. – Ele disse abrindo a porta e vi o espaço pequeno. – É bem pequeno.
– Bem pequeno! – Fixei.
– É, aqui temos algumas coisas. – Ele indicou os armários e as coisas. – Eu normalmente me preparo lá atrás, de lá eu sigo para os compromissos pré-corrida. – Assenti com a cabeça. – Aqui é mais pós-corrida e afins.
– É legal, Danny! – Falei, pegando uma imagem promocional em cima da mesa. – É engraçado ver você assim. – Falei, rindo fracamente, sacudindo o card. – Você está novinho aqui ainda. – Ele o puxou de minha mão, fazendo-me rir.
– Isso é do ano passado. Não tiramos as fotos desse ano ainda. – Gargalhei, encostando na parede.
– Meu modelo favorito! – Imitei a voz de sua mãe, fazendo-o revirar os olhos. – Espera! Espera! Deixe-me tirar uma foto. Vou enviar para tia Grace! – Puxei o celular do bolso de trás da calça.
– Harper! – Ele tentou pegar meu celular, me fazendo desviá-lo, gargalhando com o feito. – HARPER! – Ele falou mais alto.
*Simon Reenie: engenheiro de automobilismo da Red Bull Racing e engenheiro de Daniel do seu primeiro ao último dia na RRB. Daniel já deu uma declaração que a saída de Reenie da Fórmula 1 para trabalhar na fábrica, foi um dos fatores para ele mudar de equipe em 2018.
Londres, Inglaterra
Daniel
– Não sabia que gostava de UFC. – Falei, ouvindo-a rir fracamente.
– Eu não gosto! – Ela disse, me fazendo rir. – Foi uma experiência estranha, mas acho que não é para mim.
– Então, por quê? – Perguntei, colocando o casaco, fechando-o até em cima.
– Porque você gosta. – Ela disse rindo, dando de ombros, com as mãos afundadas no bolso do casaco. – É o que amigos fazem, não?
– Eu te amo! – Falei e ela riu fracamente, abrindo um largo sorriso.
– Talvez eu tenha tirado suas chances de se dar bem com aquela ruiva atrás da gente, mas fique à vontade para fazer o que quiser depois que eu for dormir. – Gargalhei alto.
– Por que você acha que eu transo com uma pessoa diferente cada noite? – Perguntei, puxando a chave do bolso.
– Você é um corredor de Fórmula 1, Daniel. Um famoso e muito bom. Segundo as críticas, o Rei das Ultrapassagens, o mais querido do paddock, e tem esse sorriso lindo e um jeito tonto. Não precisa de muito mais para as garotas quererem. – Ela deu de ombros, seguindo para um lado do carro e fui para o do motorista.
– Ok, ok, vamos precisar explicar umas coisas básicas aqui. – Abri o carro e entramos no mesmo. – Primeiro: eu não sou uma pessoa diferente contigo ou durante a temporada, eu sou o mesmo cara! Agradeço os elogios, mas não! Tenho encontros casuais de vez em quando sim, mas não é dessa forma. Não fico com qualquer pessoa, eu ainda valorizo a minha reputação. Então não dá para levar literalmente qualquer pessoa para casa. – Ela pressionou os lábios.
– Ok, bom saber.
– Segundo: eu namorei quatro vezes na minha vida. Duas vezes com a Jemma, da primeira vez ficamos três anos juntos, da segunda dois anos. Depois tive dois relacionamentos de uns seis a oito meses na época que morei na Itália e é isso. Apesar de você não acreditar, eu sou um cara romântico, eu gosto de me envolver em relacionamentos, mas não é com qualquer uma que dá para criar relacionamentos.
– Ok, próximo. – Ela assentiu com a cabeça e coloquei o cinto.
– Número três: eu não tenho ideia do que aconteceu no México. – Ela gargalhou. – Eu acordei, encontrei três mulheres no meu quarto e mandei uma mensagem discreta para o Michael vir me resgatar porque eu realmente não sabia o que fazer ali.
– Sério? Nada aconteceu depois? – Ela franziu a testa.
– Depois não. – Falei firme, ligando o carro, ouvindo o ronco do motor. – Eu ainda estava de camisinha, e ela estava cheia, então uma vez aconteceu… – Ela gargalhou, tombando a cabeça para trás. – Mas depois que eu estava consciente, não. – Dei um curto sorriso. – Eu sou um cara legal, Harper.
– Acho que a mídia te transformou em uma pessoa diferente até para mim. – Ela virou o rosto para mim.
– Não é sua culpa. Nos vemos dois meses durante o ano inteiro, tenho a sensação de que não te conheço tanto mais também. – Ela pressionou os lábios. – E eu não quero perder isso, por isso sempre insisti em vir. – Abaixei o freio de mão, dando ré, saindo da vaga da Arena O2.
– Desculpe pela má interpretação. – Neguei com a cabeça.
– Você não precisa se desculpar de nada, confesso que até gosto que você me ache esse todo poderoso. – Ela abriu um sorriso, gargalhando.
– Você é para mim. – Ela deu de ombros. – Você é muito bom, Danny! Merece toda essa atenção, com ou sem sexo. – Sorri, focando os olhos na saída do estacionamento.
– Você também merece, Harp! – Virei o rosto para o lado rapidamente, vendo-a sorrindo. – E isso diz mais sobre você do que de mim, sabia? – Ela riu fracamente.
– Por quê? – Ela perguntou.
– Eu não lembro de transar com três pessoas, mas lembro que você falar que gostaria. – Ela gargalhou alto, virando o rosto para outro lado. – Isso é incrível, senhorita Addams.
– Ah, Danny! – Ela disse rindo.
– Vamos! Fala comigo! Quem está no páreo? – Ela riu fracamente.
– Não tem ninguém no páreo, Danny. Eu só acho que nada em minha vida está dando certo. – Ela suspirou. – Uma loucura talvez seja o que eu preciso para me ajeitar. – Ela negou com a cabeça.
– Ou ganhar uma DST! – Falei, fazendo-a rir.
– É, talvez… – Ela suspirou. – Faz o teste e me conta! – Gargalhei alto, vendo-a sorrir antes de suspirar. – Vamos ver, eu tenho outros 10 meses pela frente. Se eu não conseguir mudar nada ou tiver alguma melhoria pessoal ou profissional, eu vou passar com um psiquiatra antes que eu fique louca.
– Ok, ok! Eu te amo, mas vamos desacelerar aí! E sou eu que estou pedindo isso. – Falei firme. – Você não está louca, você não está com problemas, você está perdida! Pensando sobre algumas coisas. – Falei firme, desviando o olhar dela para a rua. – E eu sou seu melhor amigo, então vou fazer o possível e o impossível para te ajudar. Nem que seja contando piadas ruins até você rir. – Ela deu um curto sorriso.
– O que não é difícil, sou formada em piadas ruins com você, Danny! – Sorri.
– Ao menos vamos nos divertir. – Entrei em uma rua, desacelerando o carro, me aproximando devagar do restaurante.
– Sempre nos divertimos. – Ela disse, abaixando a viseira do carro e se olhando no espelho. – Deus, olha essa cara! Parece que quem levou um soco foi eu!
– Você está dormindo bem? Eu te ouço andando por aí.
– Depende… – Ela suspirou. – Tem dias que durmo 10, 12 horas, agora tem dias que eu mal durmo três horas…
– Você pode dormir comigo, sabia? – Falei. – Como nos velhos tempos, que você deitava comigo quando estava triste… – Ela deu um curto sorriso.
– Obrigada, Danny, mas você precisa dormir muito bem, a temporada vai começar em poucos dias. – Ela disse e o valet abriu a porta para ela, me fazendo suspirar.
Abri a porta do carro, cumprimentando o valet e segui para a calçada, encontrando Harper me esperando nos primeiros degraus. Apoiei a mão em suas costas, entrando no restaurante e me aproximei do maitre.
– Boa noite. – Ele disse e vi outro ajudando Harper a tirar o casaco.
– Boa noite, mesa para dois, por favor. – Pedi, tirando meu casaco, ajeitando a camisa social pela gola e Harper fez o mesmo, entregando para o homem.
– Venham comigo, por favor. – Uma mulher disse e indiquei para Harper ir em minha frente e ela o fez, ajeitando a gola alta da blusa enquanto seguia a mulher. Ela nos colocou próximo da janela, no canto, e puxei a cadeira para Harp se sentar antes de me sentar no sofá próximo à parede.
– Aqui é bonito. – Harper disse, passando a mão nos cabelos, jogando-o para trás e dei uma olhada pelo local, reparando-o.
– É, falaram bem dele. Talvez seja bom o suficiente para Harper Addams. – Ela riu fracamente, negando com a cabeça.
– Boa noite, senhores, eu sou Anita, serei sua atendente do dia. – Ela entregou os cardápios. – Gostariam de pedir algo para beber?
– Que tal um vinho? – Perguntei para Harper e ela suspirou.
– Seu melhor tinto suave, por favor. – Ela pediu e sorri.
– Alguma entrada para começar? – Ela perguntou e indiquei Harper.
– O que você sugere? – Ela perguntou e estava começando a descobrir os padrões de Harper em seu trabalho. Talvez não fosse a intenção, mas Harper estava trabalhando hoje.
– Nossas especialidades são o ceviche de tilápia, o coquetel de camarão e a sopa de alho-poró com batatas. – Ela disse.
– Eu vou querer um de cada, por favor. – Harper disse sorrindo.
– Você, senhor?
– O camarão e a sopa, por favor. – Falei e ela assentiu com a cabeça, se afastando de nós. – Trabalhando, senhorita Harper? – Ela riu fracamente.
– Eu adorei o lugar, adorei a decoração, preciso aproveitar. – Ela deu de ombros, me fazendo sorrir. – Não quis o ceviche? Você gosta.
– Não sabemos o tamanho das porções e você não come tudo o que pede, aí eu vou comer o seu e o meu. – Ela riu fracamente, sorrindo.
– Cara de pau! – Ela falou.
– Com licença? – Virei o rosto para o lado. – Você é Daniel Ricciardo? Da Fórmula Um? – O garoto de uns 12 anos perguntou, fazendo meu rosto esquentar.
– Sim, sou eu! – Sorri.
– Pode tirar uma foto comigo? – Ele esticou o celular.
– É… Claro! – Sorri.
– Posso…? – Harper ofereceu.
– Obrigado! – Ele disse.
– Vem cá! – Chamei-o, me deslizando pelo sofá e apoiei a mão em seu ombro. Harper posicionou a câmera, tirando algumas fotos, sorrindo em seguida.
– Aqui! – Ela entregou o celular.
– Obrigado! – Ele disse.
– De nada! – Sorri, vendo-o sair correndo para longe da mesa, fazendo-me rir.
– Esse é meu amigo. – Ela disse e neguei a cabeça, sorrindo.
– Com licença. – O garçom se aproximou com a garrafa de vinho. – O que acham? – Ele me mostrou a garrafa.
– Para ela, ela é a entendida aqui. – Falei.
– Ai, idiota! – Ela disse para mim. – Está ótimo, obrigada. – Ela disse e o garçom abriu a garrafa, servindo as taças que estavam na mesa antes de descansar a garrafa. – Vamos ver se é bom. – Ela disse, agindo como uma verdadeira sommelier ao observar o vinho, sentir o cheiro, até o primeiro gole. – Eles começaram bem. – Ela sorriu, descansando a taça e dei um gole.
– Bom mesmo. – Falei e logo as entradas chegaram à mesa com vários tipos de pratos. – Obrigado.
– Obrigada. – Eu e Harper falamos juntos, vendo-o se afastar.
– Bon appétit, Harp. – Falei e ela sorriu, pegando o guardanapo e fiz o mesmo. – Não vai testar os garçons hoje? – Ela riu fracamente.
– Isso não é procedimento padrão, você sabe, né?! – Ri fracamente.
– Sim, mas é legal! – Falei, ela olhou em volta e vi seu guardanapo ir casualmente para o chão.
– E começa a contagem. – Falei e ela pegou a sopa antes, movimentando a mesma.
– Com licença, senhorita. Seu guardanapo caiu, aqui está um novo kit para você. – Um garçom falou, colocando na mesa, fazendo-me sorrir.
– Ah, obrigada, eu não vi. – Ela deu um sorriso antes do cara se afastar e ri fracamente.
– Você é uma ótima atriz, Harper.
– Obrigada. – Ela piscou, me fazendo rir fracamente. – Eles estão muito bons, se a comida for boa, meu coração para. – Ela pegou a colher e mexeu um pouco na sopa antes de levar à boca, suspirando. – Ok, ok… – Ela respirou fundo. – Agora eu estou oficialmente trabalhando. – Ri fracamente, fazendo o mesmo que ela, suspirando.
– Ok, isso é bom! – Falei e ela sorriu.
– Não é? – Ela sorriu, me fazendo rir.
MARÇO
Montmeló, Espanha
Harper
“Não me deixem preocupados, agora são dois para eu me preocupar”.
“Relaxa, tia Grace, estamos na Espanha, em alguns dias estaremos em Melbourne, nos vemos lá”. – Enviei, suspirando.
“Já estou com saudades de vocês”. – Ela disse e ouvi o barulho da porta.
Ergui os olhos do celular quando Danny saiu do banheiro e acabei dando uma leve arregalada nos olhos ao ver seu peito nu e a parte de baixo coberta somente pela segunda pele da Red Bull, deixando a área do quadril bem demarcada e parte da cueca aparecendo por cima da mesma.
É sempre estranho ver Daniel assim. Pelo trabalho, sempre pensava nele como alguém muito magro, mas esquecia que isso pedia muita força, então ele sempre estava perfeitamente em forma, e não só o grosso pescoço. Ele tem os braços fortes e um peito liso com um tanquinho pouco demarcado, sem mencionar as pernas torneadas e o volume na área da virilha.
Merda!
Meu amigo é gato. Isso eu não posso negar.
– Está tudo bem? – Ele perguntou e ergui os olhos para seu rosto rapidamente.
– Sim, ok. Sua mãe disse oi. – Falei, indicando o celular, guardando-o no bolso de novo.
– Ela vai te encher o saco agora. – Ele disse, me fazendo rir e o vi se aproximar das roupas em cima da mesa.
– Ela já me enche o saco. – Comentei, apoiando os braços no encosto do sofá. – Ela me manda mensagem todo dia. – Ele pegou a blusa da segunda pele, esticando os braços para colocá-la e observei seu abdome sumir por baixo do tecido branco.
– Não é exatamente surpresa. – Ele disse.
– Não, não é! Eu sei disso! – Suspirei, vendo-o desenrolar o macacão de corrida em minha frente. – Agradeço muito, porque meu trabalho pode ser meio entediante, mas às vezes ela tenta preencher um buraco que não precisa…
– Vou ser bem honesta contigo… – Ele se sentou ao meu lado. – Ela odeia te ver viajando sozinha. – Suspirei.
– Eu sei. – Comentei e ele começou a colocar o macacão, ajeitando-o no quadril antes de se sentar novamente.
– Então, por que você faz isso? – Ele perguntou, virando o rosto para mim e suspirei.
– Agora eu não sei de mais nada. – Dei de ombros, deslizando o corpo pelo sofá. – Mas acho que no começo foi tudo sobre o prestígio. – Passei a mão na ponta do rabo de cavalo. – Eu tenho um emprego que ninguém pode saber o que eu faço e eu dou o prêmio mais importante e mais almejado da culinária. – Ele sorriu.
– E agora? – Perguntei.
– Agora… – Suspirei. – Agora eu sinto falta do primeiro ano da faculdade onde eu cozinhava tudo todo dia. – Ele sorriu, se levantando.
– Você poderia abrir algo seu, Harper. – Ele disse, colocando a parte de cima do macacão.
– Eu não sei, já pensei nisso várias vezes, mas penso se eu não sou nova demais, se vão me valorizar e…
– É claro que eles vão! – Ele disse firme, ajeitando a segunda pele dentro do macacão. – Você é minha melhor amiga, então sou muito imparcial, mas você é a melhor cozinheira da vida, Harper. – Dei um curto sorriso. – Tudo o que você faz é incrível.
– Aí você entra em outro caso, eu gosto de muitas coisas na culinária, tenho nem ideia de que tipo de restaurante eu abriria. – Ele começou a calçar os sapatos.
– Italiana, é claro! – Rimos juntos. – Para valer! – Suspirei.
– Eu não sei… É difícil pensar nisso, honestamente.
– Se o problema for dinheiro, eu te ajudo, não precisa nem pedir. – Ele puxou o zíper.
– Não é dinheiro, Danny. – Neguei com a cabeça. – Meus pais me deixaram uma herança muito generosa, meu emprego paga o suficiente para isso, é só… Voltamos em estar perdida e afins…
– Vamos trabalhar nisso, ok?! – Ele esticou as mãos para mim e me levantei. – Você e eu contra o mundo. – Sorri.
– Vamos começar com “contra o paddock”, depois crescemos. – Fechei o botão em seu pescoço, alisando seus ombros. – Você está bonito, Danny!
– Obrigado, Harp!
– Não acredito que vá tirar as fotos oficiais com esse bigode horrível, mas não dá para ser perfeito. – Ele riu fracamente, passando o braço em meu pescoço, bagunçando meus cabelos. – Ah, Daniel! – Empurrei-o, ouvindo-o rir.
– Daniel! – Ouvi algumas batidas na porta. – Vamos!
– Vamos! – Empurrei-o levemente e fui até a porta, abrindo-a, encontrando Maria.
– Ah, você está aqui.
– Ajudando a Cinderela a se arrumar. – Falei, saindo do camarim.
– Eu estou aqui! – Daniel saiu logo atrás com seu capacete em mãos.
– Vamos! Depois você tem uma entrevista e sessão de fotos com a Fox. – Saímos pelo corredor antes de passar pela porta de fora.
– Vamos lá! – Ele disse, colocando-se ao meu lado, e seguimos Maria.
– Esse é o seu precioso? – Indiquei o capacete e ele me entregou.
– Esse é do ano passado, o novo não está pronto ainda. – Passei a mão no mesmo, dando um curto sorriso.
– Eu sei que isso protege sua vida, e evita você ficar mais idiota… – Maria gargalhou à nossa frente, me fazendo sorrir. – Mas é estranho que essa coisa feia aqui seja objeto de desejo para muitas pessoas. – Ele riu fracamente, puxando o capacete de minha mão, me fazendo rir.
– Não fala mal do capacete! – Sorri.
– Ah, nunca! – Ergui as mãos em rendição, vendo-o sorrir.
– Fiquem quietos. – Maria disse antes de abrir a porta e segui logo atrás dela.
O grande galpão estava bem cheio com outros pilotos, assessores e poucos acompanhantes. Três estúdios estavam montados nos cantos do galpão e me senti levemente incomodada quando alguns olhares se viraram para gente. Talvez para o Daniel, mas me senti incomodada.
– GEE! GEE! GEE! R-R-RAH! – Daniel gritou e apertei a mão no rosto.
– Ele é sempre assim? – Perguntei para Maria.
– Até demais! – Ela disse, suspirando.
– Tem alguém aqui que você gostaria que eu conhecesse? – Perguntei para Danny.
– Tem um pessoal legal, mas eu não sei. – Ele disse.
– A Fox está livre, Daniel, vamos começar aqui. – Maria disse e seguimos logo atrás dela.
– Daniel! – Alguém o chamou e virei o rosto.
– Felipe! – Daniel disse e reconheci Felipe Massa* abraçando Danny. – Bom te ver, cara!
– Você também! Como foram as férias? – Virei para Maria.
– Ele é legal? – Sussurrei para ela.
– Ele é. – Ela assentiu com a cabeça. – Um dos poucos honestamente legais. – Confirmei com a cabeça.
– Bom saber. – Comentei. – Não quero ninguém apagando a felicidade dele.
– Bem-vindo a Fórmula Um! – Ela disse sarcasticamente e suspirei, virando para trás, vendo Daniel com outro piloto e reconheci, Daniil Kvyat*, companheiro de equipe de Daniel.
– Harper, vem cá! – Ele me chamou e suspirei, engolindo em seco antes de seguir até eles. – Quero apresentar você para umas pessoas. – Dei um curto sorriso. – Essa é Harper Addams, ela é minha melhor amiga desde sempre. Ela finalmente decidiu me acompanhar nessa temporada.
– Oi, prazer em conhecê-los.
– Eu sou Felipe. – O brasileiro disse, me dando um rápido abraço. – Você é famosa! Ele fala muito sobre você! – Rimos juntos.
– Ah, mesmo, Daniel? – Virei para ele sorrindo.
– Especialmente sobre sua comida. – Rimos juntos.
– Agora está explicado. – Falei sorrindo antes de apertar a mão de Daniil que a tinha esticado.
– Prazer em te conhecer.
– O prazer é meu! – Falei sorrindo.
– Entende sobre Fórmula 1, Harper? – Felipe perguntou.
– Somos amigos desde os três anos, ela estava comigo em cada decisão no começo da minha carreira. – Daniel disse e dei um curto sorriso.
– É. – Falei. – Eu fiquei um pouco ausente nesses anos pelo trabalho, eu viajo muito, então nem sempre pude aproveitar.
– Ah, sim, agora tirou umas férias? – Ele perguntou e ponderei a cabeça.
– É, um ano sabático ou algo assim. Daniel está comendo mal, talvez com minha comida ele melhore. – Eles riram juntos.
– Vamos, Daniel! – Maria o chamou e ri fracamente.
– Nos vemos por aí! – Felipe disse.
– Claro! Temos os testes ainda, tem bastante para chegar na Austrália. – Danny disse e acenei para eles.
– Até mais. – Falei e eles acenaram para mim e Daniel passou o braço em meu ombro, seguindo pelo local comigo. – Eles são legais? – Perguntei mais baixo, virando o rosto para checar se os dois já tinham saído.
– Sim! Massa é um amigo próximo, agora Daniil é mais quieto. Não sei se tem a ver com nacionalidades, mas…
– Se for sobre nacionalidades, eu sou tudo, menos australiana! – Comentei, ouvindo-o rir quando chegamos perto de Maria.
– Daniel, James Wigney. James, esse é Daniel.
– Como está? – Daniel abriu um largo sorriso e me afastei alguns passos, me sentando em um dos bancos em volta do estúdio improvisado montado enquanto Daniel conversava com o cara.
– Deixem-no bonito, ok?! – Ouvi Maria e Daniel virou para mim por alguns segundos e sorri, dando uma piscadela para ele. Ele retribuiu, se colocando na área de fotos, passando as mãos nos cachos enquanto o fotógrafo lhe dava instruções.
*Felipe Massa: ex-piloto brasileiro de Fórmula 1, aposentado da categoria em 2017. Ele e Daniel são grandes amigos.
*Daniil Kvyat: piloto russo, foi companheiro de equipe de Daniel entre 2015 e parte de 2016.
Daniel
Curva cinco, volta para quarta marcha, freia, abusa do apex e deixa o carro deslizar um pouco.
Passa pela curva sete, raspa na zebra, o carro começa a patinar e me leva para a zebra novamente.
Curva nove, pequena ladeira, sétima marcha, acelera mais forte.
Curva 10, curva apertada, manter a cabeça firme no HANS*.
12, apex duplo, deslizar com mais rapidez, focar na última chicane.
Última curva, deslizar reto, deixar a velocidade aumentar o máximo possível na reta de grid de largada para refazer novamente o circuito.
– Vamos terminar, Daniel. – Ouvi a voz do meu engenheiro. – Box agora.
Refiz o caminho uma última vez antes de entrar no pit lane. Desacelerei, me aproximando do box da Red Bull até parar. Os mecânicos me ajudaram a guiar o carro para dentro da garagem de ré e mantive o pé no freio por mais alguns segundos, antes de desligar o carro. Destravei o volante, puxando-o e soltei os cintos, sentindo meus músculos darem uma pequena relaxada antes de eu me impulsionar para cima, contraindo os joelhos para sair do carro. Coloquei um pé na parte de cima do carro antes de colocar o outro no chão.
Ergui a viseira e virei o rosto para o lado, encontrando Harper com o mesmo fone dos mecânicos e engenheiros em sua cabeça e um curto sorriso nos lábios. Estiquei o polegar em sua direção e ela retribuiu, assentindo com a cabeça.
Simon soltou meu capacete do HANS e puxou-o para trás, tirando-o de meus ombros. Puxei o capacete da cabeça, depois a balaclava antes de puxar os fones da orelha e tirei o protetor bucal. Movimentei o pescoço lado a lado, relaxando o corpo antes de virar para Simon.
– Como foi? – Perguntei.
– Mesma constância da semana passada. – Simon disse. – Achamos que você pode aproveitar o DRS na curva nove e ganhar três segundos.
– É? – Falei empolgado.
– Não é garantido, mas vale a tentativa, especialmente que você pode aproveitar a linha reta para ultrapassagens.
– Ok, tentamos amanhã.
– Sentiu algum balanço no carro? Algo sacudindo?
– Nada comparado com semana passada. – Disse, apoiando o capacete no braço e puxando a luva com a outra mão.
– Nós ajustamos as asas, trocamos os freios e a suspensão, é para reduzir o sacudir do carro, especialmente no encontro com as zebras.
– Estava perfeito, gostei do novo motor. – Falei e eles riram.
– Vai estar perfeito para daqui duas semanas. – Christian disse e assenti com a cabeça.
– Daniel! – Ouvi a voz de Maria e ela bateu a mão no relógio e suspirei.
– Eu quero falar sobre a roda dianteira esquerda depois disso. – Falei com Simon.
– Muito alta? – Simon perguntou.
– Em algumas situações sim. Não sei se é desregulagem ou só impressão, mas nas partes mais altas dá uma compensação quando desço da zebra.
– Daniel! – Maria me chamou novamente.
– Espera! – Pedi.
– Vai lá, faz suas coisas, depois volta aqui. – Simon disse e confirmei com a cabeça.
– Até logo! – Falei e ele assentiu com a cabeça. – O quê? – Virei para Maria.
– Imprensa, agora! – Ela disse e suspirei, seguindo com ela e virei para Harper, chamando-a com a cabeça e ela se mexeu antes de eu virar de costas novamente.
– Preciso de dois minutos. – Pedi para Maria.
– Dois minutos! – Ela disse e suspirei.
– Só vou guardar as coisas. – Falei, dando uma rápida olhada para trás, vendo Harper nos seguindo.
– Dois minutos. – Ela repetiu e suspirei, atravessei os caminhos dos corredores da garagem antes de empurrar a porta do meu vestiário, colocando o capacete na mesa. Harper entrou e empurrei a porta com o pé, vendo-a se encostar na parede.
– Como você está? – Perguntei e ela tirou o fone da orelha, abaixando-o para seu pescoço.
– Essas coisas machucam. – Ela disse e ri fracamente, virando para ela.
– Tente ficar com esses fones enfiados na orelha, a balaclava e o capacete.
– Eu prefiro um chapéu de chef. – Ela disse e ri fracamente. – Quantas voltas você deu? – Ela perguntou, dando um passo em minha direção e pegando uma toalha atrás de mim antes de passar em meu rosto.
– 120… Algo assim. – Falei, sentindo-a deslizar os dedos devagar pela lateral do meu rosto até meus cabelos.
– É muito! Agora entendo você sair sem sua alma de uma corrida. – Ela disse e observei seus olhos escuros analisando os lugares que ela passava a toalha.
– Está tudo bem, Harp. Quero saber como você está. – Segurei seu braço, abaixando-o devagar e ela suspirou.
– É mais fácil olhar quando é só você na pista. – Ela pressionou os lábios. – Ninguém pode te atrapalhar e o tempo está bom para você bater sozinho. – Sorri, apoiando a mão em sua nuca e pressionei meus lábios em sua testa.
– Você está bem? – Perguntei mais firme.
– Sim, eu estou bem! – Ela deu um curto sorriso.
– Ótimo, da próxima vez eu te coloco dentro do carro. – Ela gargalhou.
– Ah, claro! Mal cabe você, vai me caber também! – Sorri, pegando o boné atrás de mim, colocando-o na cabeça.
– Ok, em cima dele! – Falei.
– Claro, melhor ainda. Não sei se morro de medo ou atropelada, vai ser lindo. – Ri fracamente, virando para ela.
– Eu estou brincando, Harper! Relaxa. – Ela sorriu e ouvi algumas batidas na porta.
– DANIEL! – Ouvi Maria.
– JÁ VAI! – Gritei. – Ela é bem insistente, não?
– Ela faz você se tornar responsável… – Ela deu dois tapinhas em meus ombros. – Eu gosto disso. – Ela deu de ombros, abrindo a porta. – Vai!
Revirei os olhos e segui com Maria. Harper passou rapidamente na área de comunicadores para deixar o seu e colocou o boné da Red Bull igual o meu e de Maria antes de nos seguir para fora da garagem, saindo por trás, seguindo até a área da imprensa.
– Eles vão perguntar sobre o treino, o carro, sua empolgação no começo da temporada, especialmente sendo na Austrália, tente ser o mais sucinto e rápido sobre isso, ok?!
– Ok, não se preocupe. Quero acabar isso logo para comer algo. – Falei, notando alguns fotógrafos andando ao nosso lado, tirando algumas fotos.
– E precisamos voltar amanhã as quatro da manhã para gravarmos o teaser da nova temporada.
– Ah, esqueci disso! – Tombei a cabeça para trás, suspirando.
– Vai ser uma longa noite, Daniel! – Maria disse, me fazendo suspirar.
– Ei, gente, eu encontro vocês depois. – Ouvi Harper e virei o rosto para trás.
– O quê? Por quê? – Perguntei, indicando-a.
– Ligação importante. – Ela indicou o celular. – Nos falamos depois. – Ela colocou-o na orelha e se afastou, voltando para trás.
– Ok, te vejo depois… – Falei, virando para frente de novo.
– Vamos! Você tem que comer, fazer a reunião com a equipe e descansar para fazer tudo de novo amanhã. – Maria disse.
– Eu sei! Eu sei! Você disse isso ontem, na semana passada e na temporada passada! – Virei para ela, dando um sorriso.
– E ainda assim você enrola, não? – Ela comentou e rimos juntos, entrando na área da imprensa e suspirei.
– Vamos lá. – Sussurrei, respirando fundo. – Hey, hey! – Falei, cumprimentando o pessoal, ouvindo os cliques mais fortes e pesados. – Vamos começar isso! – Falei sorrindo.
*HANS: ou headrest, é o protetor de cabeça que mantém o capacete preso. É comum ver os pilotos com ele nos ombros após o fim de uma corrida.
*DRS: Drag Reduction System, é a asa traseira do carro que abre, permitindo a passagem do ar, fazendo que o carro vá mais rápido.
Capítulo 4
Duncraig, Austrália, 1995
Os pés de Harper batiam tão fortes quanto uma bateria no banco do carro e as mãos pareciam tentar acompanhar o ritmo frenético do batuque no grande embrulho de presente que ela carregava em seu colo. Apesar de tudo o que acontecia dentro do carro, ela parecia alheia à tudo, acompanhando as casas que passavam em seu olhar.
– Mamãe! – Ela chamou.
– O que foi, meu amor? – Helena falou do banco da frente, desviando o olhar para a menina que usava a maria-chiquinha que era sua marca registrada.
– Será que o Danny vai gostar do presente? – Helena sorriu, virando o rosto para Alexander ao seu lado.
– Claro que vai, meu amor! Ele vai amar! – Seu pai disse, dando um sorriso para a menina pelo espelho.
Após a breve pergunta, que já havia sido feita várias vezes nos dias que antecediam o aniversário de seis anos de seu melhor amigo, os três ficaram quietos, fazendo o som das pernas e mãos de Harper voltar a bater em ansiedade no banco do carro e no embrulho de presente até chegar na casa dentro da cidade da família Ricciardo.
– CHEGAMOS! – Harper deu um grito animado, assustando seus pais que caíram na gargalhada logo em seguida, procurando uma vaga para estacionar na rua, o mais próximo do local da festa.
Dentro da casa número três, Daniel estava emburrado e entediado. Fazer aniversário dia primeiro de julho nunca era legal porque todos seus amigos de escola estavam aproveitando as férias viajando e ele já estava cansado de suas avós, tias e tias-avós apertarem suas bochechas e brincar com seus cachinhos. Só tinha uma pessoa no mundo que podia fazer isso e apertar seu nariz, e essa pessoa era Harper. Ok, Harper e sua mãe.
Aniversários existem para serem legais, mas a comemoração dos seus seis anos estava tão animada quanto a comemoração dos cinco e dos quatro. A diferença é que Harper não estava ali e aquilo o deixava emburrado. Ela disse que viria.
– Vamos logo! – Harper disse, soltando o cinto de segurança na pressa e seu pai desceu do carro, abrindo a porta ao seu lado e ela deslizou do carro alto, fazendo seu vestido subir e ela puxar a caixa do presente do banco do carro.
– Calma aí, mocinha! – Helena disse. – Deixa eu arrumar você! – Ela se abaixou na frente da filha.
– Deixa eu ir, mamãe! – Ela disse.
– Calma! – Ela passou as mãos nas tranças de Harper, ajeitando os lacinhos de flores na ponta de cada uma delas. – Deixa eu olhar para você…
– Mãe-e-e! – Harper reclamou.
– Ok, ok. Está linda! – Ela deu um beijo na bochecha da filha. – Agora vai!
Harper não esperou mais nada e saiu correndo em direção à casa da família Ricciardo, e ficou na ponta dos pés para tocar a campainha diversas vezes. Helena e Alexander se aproximaram da filha a tempo de Grace abrir a porta.
– Ah, finalmente chegaram! – Grace falou, se abaixando para abraçar Harper.
– Eu demorei para sair do trabalho, desculpa. – Alexander disse.
– Daniel já está irritado.
– Cadê ele? – A voz de Harper subiu acima dos adultos.
– Lá dentro, vai lá! – Grace disse e Harper desviou das pernas de Grace, saindo correndo para dentro da casa, se surpreendo com vários familiares de Daniel ali.
Ela conhecia muito dos parentes de Daniel pela frequência que passava na casa dele, principalmente os avós de Danny e Michelle, mas agora ela não estava com vontade nenhuma de ser simpática com todos. Depois de parabenizar seu amigo, talvez ela fosse falar com o restante do pessoal.
Logo que o primeiro susto passou, ela começou a andar por entre os móveis e as pessoas da parte de dentro da casa a procura de seu melhor amigo. Quando ela o encontrou, emburrado em uma das banquetas da cozinha, ela abriu um largo sorriso e correu em direção a ele.
– DANNY! – Sua voz saiu mais alta que a voz das pessoas e o menino ergueu os olhos.
– HARP! – Ele pulou da bancada, caindo de joelhos e correu em direção à ela, dando um forte abraço que só não foi mais apertado pela grande caixa de presente entre eles.
– Feliz aniversário, Danny! – Ela disse, animada, com o queixo apoiado no ombro de seu amigo.
– Você demorou! – Ele disse, fazendo um pequeno bico e ela deu um curto sorriso.
– A culpa foi do papai! – Ela disse, apontando para trás, não necessariamente apontando na direção de Alexander que ainda entrava na casa. – Eu queria ter vindo antes, mas não deu.
– Mas você tá aqui agora. – Ele disse, abrindo o largo sorriso que estava sumido desde o começo da festa.
– Eu trouxe um presente para você! – Ela empurrou a grande caixa para o peito de Daniel.
– Uau! É grande! – Ele disse, animado e ela sorriu.
– Eu que escolhi! – Ela falou. – Tomara que goste!
– Vou gostar! – Ele disse, sorrindo, se sentando no chão entre a divisão da sala de estar com a cozinha, sob os olhares das tias e avós que observavam a emoção crescente do garoto pela presença da menina.
– Ele vai abrir? – Joe cochichou para Grace de longe.
– É o presente da Harper, quer tentar falar para ele que só pode abrir depois? – Grace sussurrou para o marido.
– É… Acho que não. – Ele disse.
– UAU! – Danny gritou, animado. – É um autorama do Senna! – Harper sorriu, batendo as mãos animadas. – MÃE, A GENTE PODE MONTAR?
– Agora, filho? – Grace disse.
– Deixa, querida! Ele está animado. – A avó materna de Daniel sussurrou. – Ele finalmente se empolgou.
– Alex, me ajuda nessa? – Joe perguntou.
– Eu acabei de chegar, cara! – Alex disse, fazendo Helena e Grace rirem. – Não ganho nem uma cerveja antes?
– Uma Coca-Cola, no máximo! – Joe disse, rindo, se aproximando das crianças. – Culpe eles.
– Pai! Ajuda a gente! – Daniel disse, abrindo a caixa, animado.
– Vamos lá para fora! Os dois! – Joe disse, indicando a porta que dava para fora. – Vamos fazer na mesa lá de fora.
– Isso! – Danny falou, animado. – Vem, Harp! – Ele puxou a amiga pela mão, fazendo as sandálias da menina e os tênis do garoto baterem fortemente pelo chão. Joe se inclinou para pegar a caixa do brinquedo meio aberto no chão e ele e Alexander riram juntos.
– Sobra sempre para gente, já percebeu isso? – Joe disse.
– Claro que já! – Alex disse, rindo, seguindo com as crianças para fora, dando rápidos acenos para os parentes da família Ricciardo. – E já percebeu que vocês poderiam ter literalmente convidado só a Harper para festa que para o Daniel daria na mesma, não?
– Mas é claro que sim! – Joe disse, rindo. – Meus pais vieram da Itália* para isso e o Daniel está mais interessado na Harper. – Alex gargalhou.
– Aposto que teria economizado bastante.
– Muito! – Joe disse, rindo.
– PAI, VEM LOGO! – Daniel disse antes de ajudar Harper a subir no banco alto.
– Estou indo! Estou indo! – Ele apoiou a caixa na mesa. – Deixa eu ver isso aqui. – Joe abriu a caixa, espalhando as peças pela mesa.
– O que estão montando? – Michelle apareceu perto deles, apoiando o braço na mesa.
– Olha o que a Harper me deu! – Daniel falou, animado.
– Uau! É demais, maninho! – Michelle disse, sorrindo.
– A gente pode correr todo mundo junto. – Danny disse, feliz.
– Eu não sei brincar disso. – Harper disse.
– Eu te ensino. – Ele sorriu, fazendo os outros três sorrirem também para ambos.
– Bem, vamos ver como eu monto isso. – Joe desviou o olhar para o manual de instruções, deixando os dois animados sacudirem as pernas embaixo da mesa, empolgado com o presente novo de Daniel.
*O pai de Daniel, Joe Ricciardo, é italiano, ele nasceu na cidade de Ficarra, no sul do país.
MARÇO
Melbourne, Austrália, 2016 – Terça-feira
Harper
– Uau! The Crown Towers! – Falei ao sair da van.
– Nossa casa pelos próximos dias. – Daniel disse ao meu lado, colocando a mochila nas costas.
– Muito bom, Red Bull! – Falei, rindo.
– Vem! – Maria disse e segui logo atrás dela. – Daniel! – Ela indicou os fãs acumulados do lado de fora das grades de contenção.
– Ei, galera! – Ele disse, animado, indo para os fãs e ri fracamente, seguindo com Maria, Michael, Simon, Christian e a equipe de Kvyat, companheiro de Danny, com seu marketeiro, seu engenheiro, seu treinador e um assistente. Agora não sabia se era igual eu era para Daniel ou era realmente alguém que o ajudava mais.
Estamos em Melbourne. Apesar de ser uma cidade há quase 3500 quilômetros de Perth, estávamos em casa, no nosso país, com a nossa cultura, além das temperaturas altas, então era bom depois de passar frio na Inglaterra e na Espanha. E o melhor de tudo isso, era saber que eu não teria que encarar a primeira corrida do Daniel sozinha, sabia que o restante dos Ricciardo estariam lá.
Maria e o marketeiro de Kvyat cuidaram da parte de check-in antes de distribuir as chaves. Christian foi o primeiro a sumir com o engenheiro de Daniel e de Kvyat. Agora a equipe de Kvyat e nós ficamos esperando os dois pilotos passarem pelas portas do hotel.
– É estranho. – Comentei alto.
– O quê? – Michael perguntou e suspirei.
– Eu não… Eu não conheço esse Danny famoso, né?! – Ele riu fracamente.
– Você conhece o Danny, Harper. Não o Daniel Ricciardo ou Danny Ric. – Suspirei.
– E tem uma diferença? – Perguntei.
– Eu não vejo. – Ele disse. – Ele só nos deixa sozinhos um pouco para dar atenção aos fãs, mas dá para se acostumar.
– E ele tem bastante fãs? – Perguntei.
– Sim! – Ele disse, rindo e assenti com a cabeça, pressionando os lábios. – Se acostume com isso.
– Eu não disse nada. – Dei de ombros.
– Eu sei, mas sua cara diz tudo. – Engoli em seco.
– O que você quer dizer com isso? – Virei o rosto para ele.
– Da mesma forma que ele não gosta de te dividir, você também não gosta. – Revirei os olhos.
– Não viaja, Michael! – Virei de costas, apoiando o ombro em uma pilastra ali perto.
– Eu não conheço vocês há… 23 anos. – Ele deu de ombros. – Mas eu conheço há 13. – Suspirei. – E depois de um tempo é fácil entender que ninguém se mete na amizade de vocês.
– Mas eu não falei nada! – Falei, rindo.
– Não, mas esse lábio pressionado diz que você não está gostando de algo.
– Ah, cala a boca, Michael. – Revirei os olhos.
– Primeiro circuito e vocês já estão se matando? – Ouvi a voz de Danny e virei para trás.
– Só para não perder o costume. – Falei, dando de ombros.
– Vem, vamos subir! – Maria disse e me desencostei da pilastra, seguindo logo atrás do pessoal. – Quero passar o briefing para vocês.
Nós quatro entramos em um elevador e ele seguiu para o último andar do hotel. Não era muita novidade eu ficar em hotéis bons quando fazia minhas viagens pela Michelin, mas realmente não era esse nível de hotel.
– Daniel… – Ela entregou uma chave para ele. – Michael. – Ela entregou outra antes de sair do elevador.
– Comigo. – Danny disse e segui logo atrás dele.
– São três horas, tem um tempo para você descansar. – Maria começou a falar com Daniel e eu e Michael seguimos logo atrás. – As sete horas uma van vem te buscar para irmos à festa da Tag Heuer, tiraremos algumas fotos, você vai conversar com alguns poderosos, interagir com as pessoas, nada demais. – Daniel abriu a porta do quarto e entrou logo seguida de Maria, Michael e fui por último.
Uau!
Foi a única reação que eu tive ao entrar no quarto. Não era simplesmente um quarto, era uma suíte inteira. Na entrada tinha uma sala relativamente grande com uma janela inteiriça para Southbank e o rio Yarra, a região do hotel.
– Daniel e Harper do lado direito, eu e Michael do lado esquerdo. – Ela disse e assenti com a cabeça, curiosa com o que tivesse do lado direito.
– Posso levar Harper para a festa? – Daniel perguntou e virei o rosto de volta para a conversa.
– É melhor não. – Ela disse na lata e pressionei os lábios, surpresa pela honestidade.
– É uma festa, Maria, qual é! – Danny disse.
– Eu não tenho nada contra você, Harper…
– Eu não disse nada. – Falei, erguendo as mãos e virando de costas para o corredor do lado direito.
– Já saiu fotos de vocês dois juntos, a imprensa está começando a falar e é só tempo de ligar os pontos.
– Mas somos só amigos! Nós vamos em festas juntos em Perth. – Ouvi a voz de Daniel e suspirei, encontrando dois quartos divididos por uma porta.
– Outro dia! A festa pós-corrida, mas essa não. Você vai a trabalho, vai de uniforme, por favor. – Maria disse e comparei rapidamente o tamanho dos dois quartos, percebendo que eram meio iguais e entrei no primeiro.
Desliguei minha cabeça da conversa acalorada dos dois, repensando se eu ter vindo era realmente uma boa ideia. Não pela questão geral, mas por atrapalhá-lo em seus compromissos. Tenho uma ideia da quantidade de dinheiro que anda nesses lugares só pela quantidade de patrocínios nos uniformes e o hotel em que estávamos hospedados, mas sei que comigo Danny queria agir como se estivéssemos em Perth. Talvez até eu quisesse isso, mas sabemos que não era a questão em si.
– Desculpe por isso. – Virei o rosto para trás, vendo Daniel.
– Ah, aquilo? Ah, não! Não se preocupe. – Abanei a mão, tirando a mochila das costas, colocando-a na cama. – Você está trabalhando, Danny, a viagem foi longa, talvez eu fique aqui ou saia para encontrar um restaurante interessante e trabalhar um pouco, eu não sei…
– Posso ir contigo. – Michael apareceu logo atrás.
– É, claro! – Virei para Danny. – Viu?! Ficaremos bem. – Sorri e ele suspirou.
– Mas por que as pessoas não entendem que homens e mulheres podem sim ser amigos? – Ele resmungou e ri fracamente.
– Talvez eles não possam. – Michael disse, dando de costas e revirei os olhos.
– Relaxa, Danny. Eu vou ficar bem. – Dei de ombros, me sentando na cama. – Estamos na Straya*, estou em casa. – Suspirei e ele assentiu com a cabeça.
– Me avisa onde vocês estarão, posso encontrar vocês depois. – Assenti com a cabeça.
– Claro. – Dei um curto sorriso.
– Eu vou tomar um banho e deitar um pouco, ok?! Se precisar de algo…
– Eu sei, eu sei! – Sorri. – Vou fazer o mesmo, aproveitar o tempo para ajeitar o cabelo. – Ele sorriu.
– Você está sempre linda, Harp. – Ele bateu a mão na porta e ri fracamente.
– Daniel! – Ouvi a voz de Maria. – Briefing!
– Ah, fala! – Ele disse, parando no meio do corredor à minha frente, até que ela apareceu na mesma direção.
– Festa hoje. Amanhã cedo nós vamos para o Albert Park que você tem uma campanha com a World Run sobre a maratona de Melbourne, você vai dar umas entrevistas também, depois vamos pegar o helicóptero e vamos para o circuito de Sandown para encontrar com Jamie Whincup, da RBR que corre pela categoria Supercars. Na quinta-feira, você vai para Albert Park fazer o tradicional midia day, tem a primeira coletiva da temporada, depois no fim do dia você e o Kvyat vão em um evento de divulgação da parceria da Red Bull com a Aston Martin, além de um encontro com os fãs. Treino na sexta, classificatória no sábado, corrida no domingo.
– Aí então você larga do meu pé. – Danny disse, brincando, mas sabia que o tom escondia uma grande verdade.
– Até o Bahrein. Mas depende muito do seu desempenho. – Ela disse, sorrindo. – Eu vou ajeitar outras coisas. Sete horas, Daniel.
– Sim, sim! – Ele disse, abanando a mão.
– Boa noite, Harper.
– Boa noite. – Falei fracamente, vendo-a sair. – Fim de semana corrido. – Falei para Danny.
– É… – Ele suspirou. – Você está bem?
– Sim, eu estou bem! – Falei, rindo fracamente. – Olha esse quarto, essa vista, essa cama! – Ele deu um curto sorriso.
– Eu sei quando não está bem. E você não está bem agora.
– Eu só não quero atrapalhar, Danny. – Suspirei. – Sério! – Assenti com a cabeça. – Não precisa me incluir em tudo, não precisa se preocupar comigo. Eu vou aos treinos, eu vou às classificatórias, eu vou à corrida. Sobre o restante, vamos ver como as coisas vão ser. Vivemos bem 10 meses longe do outro. Agora você não quer ficar grudado comigo 24 horas por dia, né?! – Ele riu fracamente.
– Só quero você bem. – Sorri.
– Eu estou. Só pelo fato de estar com você e Michael e saber que eu vou ver sua mãe no sábado, vou poder segurar o Isaac, já me deixa mais feliz do que eu estaria se estivesse em… – Pensei por um momento. – Madagascar agora. – Ele riu fracamente.
– É, também acho. – Ele sorriu.
– Vai descansar, depois se arruma que eu vou falar o quão feio está esse bigode. – Ele riu fracamente.
– Ah, Harper! – Ele abanou a mão, seguindo para o outro quarto e sorri, chutando os pés para os sapatos saírem, antes de virar o corpo na cama, em direção à janela larga, me fazendo suspirar.
*Straya: expressão para “Austrália”, muito usada pelos australianos.
Quarta-feira
Daniel
– Ah, cara, eu estou cansado. – Comentei, encostando na parede do elevador.
– Nem só de carros rápidos se vive, Daniel! – Maria disse e suspirei, coçando a cabeça.
– Às vezes somos só nós mesmos. – Falei e ela riu fracamente.
– É, realmente! – Ela disse.
– Tenho mais algum compromisso hoje? – Perguntei.
– Não, só se cuidar, não fazer nenhuma loucura e estar pronto amanhã cedo para o treino. – Assenti com a cabeça.
– Eu vou acordar por volta das seis, sete, fazer meu treino aqui no hotel e te espero às 10? – Falei, vendo o elevador se abrir novamente.
– Sim, vai ter um brinquedinho para você lá embaixo. – Ela disse e ri fracamente, saindo do elevador.
– Assim que é bom! – Sorri, seguindo até a suíte, batendo o cartão na porta.
– Daniel… – Maria me chamou.
– O quê? – Perguntei e ela puxou a porta de volta, travando-a.
– Só quero que você saiba que eu não tenho nada contra a Harper, ok?!
– Eu sei, Maria. É seu trabalho. – Falei.
– Ela está se comportando mais do que seus amigos que costumam vir, mas… – Ela suspirou. – Ela é uma mulher e eles já viram vocês em alguns restaurantes, na luta em Londres, então os boatos começam assim.
– Somos só amigos, Maria. E outra, se fôssemos namorados, qual seria o problema? Tivemos a Jemma por dois anos… – Ela suspirou.
– Não teria problema nenhum, eu sei, mas a expectativa em cima de você fica maior, achar que está se distraindo, perde uma corrida e o povo cai matando em cima… Além da atenção a ela. Os fãs não sabem ser fã só do corredor, eles seguem namoradas, esposas, filhos, familiares… – Ela negou com a cabeça. – É uma atenção que precisa estar preparada para receber. E você me contou a questão dela, acho que antes de colocá-la dentro de uma montanha-russa, é preciso que ela se encontre, não acha? – Suspirei, dando um curto aceno de cabeça. – Eu não vejo problema nenhum entre vocês, a amizade de vocês é muito bonita, de verdade. Vocês são cuidadosos um com o outro e é uma amizade linda de ver. Tão linda que uma foto mal interpretada, um beijo no rosto, mãos dadas e afins, pode causar uma atenção que, como você mesmo disse, não tem nada.
– Entendi, entendi. – Suspirei. – Mas se for preciso dar uma declaração sobre isso, eu dou, porque eu realmente a quero comigo, curtindo tudo o que essa carreira pode oferecer. Ela está passando por uns momentos difíceis, precisando se encontrar e se achando a pessoa mais perdida do mundo. – Pressionei os lábios. – E a Harper não é assim, ela é a melhor pessoa do mundo, ela é bonita, inteligente, tem uma carreira incrível e sempre me faz sorrir. Se possível, me dá umas brechas… – Dei de ombros. – Coloca ela como assistente, mas a coloque comigo, com Michael, no paddock, na garagem… Só deixe-a perto, deixa ela se distrair um pouco. – Maria confirmou com a cabeça.
– Eu vou ver o que eu posso fazer, Daniel. – Confirmei com a cabeça, batendo o cartão na porta novamente, entrando nele.
A sala estava vazia e virando o rosto para os corredores, somente a luz do quarto de Harper estava acesa. Meu relógio de pulso marcava 20:21, o sol começava a se pôr agora e fazia os raios solares entrar pela larga janela da suíte.
– Boa noite, Daniel. – Ouvi Maria.
– Boa noite. – Respondi, dando um curto aceno de mão e segui pelo outro corredor, andando devagar até a porta de Harper, colocando a cabeça para dentro, encontrando-a sentada na cama.
Ela usava um pijama de short e camiseta regata rosa, o computador estava entre suas pernas, uma delas dobrada embaixo do corpo e outra esticada ao lado do computador. Os cabelos estavam molhados, ela usava seus óculos de leitura, e de seu outro lado tinha vários pratos com pequenas porções de comida. Por algum motivo aquilo me fez sorrir.
– Hey, Harp! – Falei e ela parou de digitar, virando o rosto para mim.
– Ei, apareceu! – Ela falou, abrindo um sorriso. – Uau!
– O quê? – Falei, tirando os óculos de sol.
– Ah, droga! Eram os óculos! – Ela riu fracamente. – Dá uma aliviada nesse look.
– Há, há, há, engraçadinha! – Falei, andando para dentro de seu quarto, fazendo-a rir. – Ia me desculpar por não te ver desde ontem, mas acho que não merece mais.
– Eu gostei disso, me dá aqui! – Ela esticou a mão e lhe entreguei os óculos e ela pulou para fora da cama, trocando os óculos e seguindo para perto do espelho.
– É daquela marca inglesa que eu te dei no Natal. – Comentei, me sentando na cama e roubei um bolinho dos pratos.
– Eu gostei. – Ela virou o rosto para mim, fazendo uma careta.
– Ficou bem em você. – Sorri, mordendo o bolinho e suspirei.
– Posso ficar?
– Não! – Falei, ouvindo-a rir.
– Chato. – Ela disse.
– Isso é bom! – Comentei, colocando a outra parte na boca.
– Eu sei! – Ela disse, empolgada, voltando a se sentar ao meu lado. – Eu pedi pelo iFood e é uma delícia! – Ela suspirou. – Eu estou escrevendo uma revisão, mas vou ter que ir lá, preciso ver como é isso quentinho.
– Eu não me conformo por você não comer tudo isso em cinco minutos. – Peguei outro, fazendo-a rir e desci os olhos para suas pernas descobertas pelo short curto, se acumulando em suas coxas.
– Eu aprecio uma comida, não engulo. – Suspirei. – E você chega literalmente morto de fome, essa é a diferença.
– Mesmo assim! Isso é uma delícia! – Ela sorriu.
– É, deu para aproveitar a noite.
– Sinto por isso. – Falei.
– Pelo quê? Você estava trabalhando, Danny. Deixa disso. – Ela abanou a mão.
– Mesmo assim, não foi só a festa. Quando eu cheguei ontem você já estava dormindo e eu saí antes de você acordar. Foram 24 horas ou mais. – Ela negou com a cabeça.
– Danny, relaxa! – Ela disse firme. – Eu estou bem. Você não se preocupa comigo assim nem quando estou do outro lado do mundo, vai surtar agora que eu estou literalmente no quarto ao lado? – Suspirei.
– Isso foi antes de eu falar contigo nas férias. – Ela apoiou a mão em meu ombro, virando o corpo em minha direção.
– Eu estou bem, Danny! – Ela disse firme. – Posso não ter estado contigo nesses últimos anos, mas eu sei como funciona seu trabalho, sei dessa correria que é, não se preocupe comigo, ok?! Amanhã eu vou contigo, vou ver como funciona sua rotina, vou conhecer seus amigos gatos… – Ri fracamente. – Eu estou bem.
– Você me promete que vai dizer se não estiver? – Perguntei.
– Meu caderno ainda está aqui e você pode pegar sempre que quiser. – Assenti com a cabeça.
– Mas fala comigo também.
– Eu vou. – Ela disse, pressionando os lábios.
– Você tem alguma coisa para fazer?
– Só vou terminar essa revisão e talvez ver algo no Netflix, amanhã começa cedo, né?!
– Eu treino por umas duas horas cedo, faço ioga, alongamento, você pode dormir enquanto isso, mas saímos umas nove. – Falei.
– Ok, vejo o que eu faço. – Ela sorriu. – Como foi seu dia?
– Ah, foi legal, é bom ser o centro das atenções. – Ela negou com a cabeça.
– Delicado, Daniel. Delicado! – Ela disse e rimos juntos. – Achei que tia Grace tinha te ensinado a ser humilde.
– Nah! – Dei de ombros e me levantei. – Não menti! – Ela sorriu.
– Bem vi você na coletiva, todo solto. Até demais. – Ela disse e sorri.
– Faz parte do trabalho! – Falei.
– Não vejo o Hamilton sorrindo para deus e o mundo.
– É por isso que eu sou mais legal! – Dei de ombros. – Eu vou tomar banho e já volto.
– Ok, vai lá. – Ela disse. – Quer que eu peça algo para você comer ou foi só surto?
– Pode pedir! – Falei. – Mais desse aí! – Indiquei e ela riu fracamente.
– Ok. – Ela se sentou novamente. – Os outros são bons também, menos aquele escuro ali, tem pistache.
– Ainda bem que eu não fui naquele! – Falei e ela riu fracamente.
– Ah, sem pistaches para você! Ainda tenho pesadelos pela última vez. Aquela maldita Jemma… – Ela sussurrou, me fazendo rir.
– Eu logo volto! – Falei.
– Eu estarei aqui! – Ela disse.
– Onde está Michael? – Perguntei.
– Não tenho ideia. – Ela disse, rindo e neguei com a cabeça.
– Depois você tira conclusões erradas de mim. – Ela ergueu as mãos em rendição.
– E você acha que toda risada minha tem pensamentos errados sobre vocês, você conhece o Michael mais do que eu, deve saber onde ele está e se está com alguém. – Ri fracamente.
– Dessa vez você me pegou, Harper. – Ela sorriu.
– Lide com isso, Daniel! – Ela disse, sorrindo, esticando os óculos escuros para mim e peguei-os antes de seguir para meu quarto.
Quinta-feira
Harper
Abri os olhos devagar, sentindo os raios solares atingirem em cheio minhas írises e pressionei-o mais algumas vezes antes de apreciar a vista de Melbourne pela janela. Suspirei, me levantando devagar e percebi que estava sozinha na cama. Além da falta de Danny, os pratos haviam sido tirados, a televisão estava desligada e uma coberta fina estava em cima de mim.
Joguei os cabelos para trás, coçando o olho e me sentei na beirada da cama, suspirando. Meus olhos demoraram um pouco para se acostumar com a vista, só depois que eu me levantei e fui até o banheiro. Fui direto para o chuveiro, deixando a água morna cair em meu corpo, me mantendo embalada na preguiça por alguns minutos até eu pegar o sabonete.
Por ter lavado os cabelos na noite anterior, terminei o banho de forma mais rápida. Saí do banheiro enrolada na toalha e escovei os dentes e ajeitei os cabelos em um rabo de cavalo antes de voltar para o quarto. Optei por um short jeans e a blusa do uniforme da Red Bull, sabendo que acompanharia o treino logo mais. Deixei o All-Star no canto da cama e calcei os chinelos antes de sair do quarto.
O cheiro de comida atingiu meu nariz e segui pelo corredor até a grande sala de estar. Quando cheguei lá, Danny e Michael faziam algum tipo de alongamento ou meditação enquanto deitados nos colchonetes. Identifiquei a mesa posta do café da manhã e atravessei a sala em silêncio, fazendo um rápido carinho nos cachinhos de Danny quando passei por ele, vendo-o abrir um dos olhos.
– Bom dia. – Ele disse, sorrindo.
– Bom dia. – Sorri, seguindo até a mesa, me sentando lá.
– Pronta para ficar entediada? – Ele perguntou e ri fracamente.
– Por que entediada? Achei que fosse animado, emocionante…
– Eu tenho muitas entrevistas, reuniões, acaba sendo poucos os horários que realmente fico na pista. – Ele disse.
– Não se preocupe. – Falei. – Faz seus exercícios aí, depois conversamos.
– Você deveria fazer alguns também. – Ouvi a voz de Michael.
– Eu sei, tenho que voltar. – Comentei. – Mas estou agindo como se eu estivesse de férias, aí bagunça um pouco. – Dei de ombros, pegando duas torradas e colocando em meu prato.
– Eu tenho materiais extras, posso fazer um treino para você. – Michael disse.
– Só se o Danny pagar. – Falei, dando de ombros e Danny gargalhou.
– Pago, né?! Fazer o quê? – Sorri, me esticando para pegar a geleia de morango no meio da mesa.
Tomei meu café da manhã devagar, observando o treino que Michael fazia com Daniel, inicialmente o relaxamento, depois eles passaram para os de fortalecimento com o GS Harness* e a faixa elástica. Danny tinha literalmente uma cara de paisagem nesses exercícios, mas Michael mostrava a força que era deixar o corpo de Danny pronto para as forças de cinco ou seis G que uma corrida pedia.
– Ei, Harp. – Ele apareceu ao meu lado, com o suor deslizando pelo seu rosto.
– Ei. – Falei e ele se abaixou para dar um beijo em minha cabeça.
– Você está pronta? – Ele perguntou.
– Sim, só falta escovar os dentes e passar uma maquiagem. – Ela disse.
– Eu vou tomar um banho, logo saímos.
– Tudo bem. – Sorri e ele seguiu pelo corredor, foi quando Michael se jogou no banco ao meu lado.
– Como você está? – Ele perguntou, pegando um pedaço de queijo.
– Tudo bem e você? – Falei.
– Eu estou bem. Eu quis dizer sobre você e… – Ele deu de ombros.
– Não estava pensando sobre isso até agora, obrigada. – Dei um sorriso sarcástico e ele pressionou os lábios.
– Desculpe. – Ele falou e neguei com a cabeça.
– É como todo mundo disse: preciso perder esse trauma. Então, como algumas pessoas dizem: se estiver com medo, vai com medo mesmo. – Dei de ombros, empurrando a cadeira. – Eu vou terminar de me arrumar.
– Ok. – Ele disse e me levantei.
Segui de volta pelo corredor, espiando dentro do quarto do lado, encontrando Danny descendo a calça jeans pelo corpo seminu e pressionei os lábios pelas costas nuas e musculosas dele. Shit! Por que eu estou olhando para ele? Pior! Por que eu estou olhando para ele e achando gostoso?
Desviei o rosto para meu quarto, encostando a porta e voltei para o banheiro. Escovei os dentes antes de começar a fazer minha maquiagem. Não sabia como seria o clima, se teria contato com outras pessoas, então me mantive em uma maquiagem leve com uma sombra de tons terrosos e um batom rosado de leve.
– Começou a chover! – Ouvi a voz de Michael e engoli em seco.
– Ótimo. – Suspirei sarcasticamente, saindo do banheiro e virei o rosto para a larga janela do quarto, vendo o tempo fechado.
Chuva era literalmente a pior coisa que podia acontecer agora no meu processo de calma. Chuva tornava as coisas um pouco pior e foi assim que aconteceu alguns dos piores acidentes da Fórmula 1, Nikki Lauda, Ayrton Senna, e não posso esquecer de Jules Bianchi, amigo do Danny que faleceu ano passado depois de nove meses em coma.
– Respira, Harper. Respira! – Falei devagar, fechando os olhos e tentado manter a respiração. – O ar ruim sai, o bom entra… – Soltei o ar devagar, me fazendo respirar fundo de novo.
– Isso, respira! – Ouvi a voz de Danny atrás de mim e virei o rosto, encontrando-o mais próximo. – É só um pouco de água, logo melhora. – Ele me abraçou pela cintura, apoiando o queixo em meu ombro.
– Não tente tornar essa situação melhor. – Pedi, apertando sua mão e senti sua mão deslizar pela minha barriga, fazendo-a se contrair e ele se encostou na parede à minha frente com o uniforme do dia a dia da RBR.
– Eu tento! Quero você bem! – Ele disse, rindo e percebi seu novo corte de barba.
– Você conseguiu ficar mais feio. – Falei e ele riu fracamente.
– Quem sabe assim eu te distraio? – Ele disse e sorri.
– É… – Pressionei os lábios.
– Vamos! Pega suas coisas e vamos sair desse buraco.
– Sim, chefe! – Falei, rindo. – Mas posso continuar dizendo como esse corte de barbicha estranho e o bigode não te valorizaram? – Ele revirou os olhos. – E digo isso com todo amor no meu coração.
– Isso vai te deixar melhor? – Ele perguntou.
– Sim! – Falei, rindo.
– Então pode! – Ele deu as costas, me fazendo rir.
Segui pelo quarto e peguei a pequena mochila ali do lado e chequei rapidamente se tinha o que acho necessário para passar o dia inteiro na pista. Coloquei-a nas costas antes de seguir para fora do quarto. Danny e Michael nos esperavam e segui com eles para fora do quarto. Descemos pelo elevador e um Renault esportivo igual ao meu estava na porta do hotel.
– Assim que é bom! – Danny disse, animado e cumprimentei o segurança com um aceno de cabeça.
Deixei que Danny e Michael fossem nos bancos da frente e me escondi no de trás enquanto eles faziam algumas gracinhas para os celulares. O caminho até Albert Park era bem curto, coisa de três quilômetros, então não foi preciso aguentar por muito tempo a cantoria desafinada de Danny. Mas quando nos aproximamos da entrada do circuito, alguns fãs obrigaram o carro a desacelerar.
Eu vinha pouco para Melbourne, fiz faculdade em Sydney, então sempre que eu encontrava com os amigos, era sempre do lado Leste da Austrália, raramente eu ia para o Sul, mas já tendo vindo para cá, foi difícil reconhecer o parque no meio do circuito montado. Infelizmente agora eu estava preocupada com a chuva contínua que caía.
– Vamos para a garagem e fazer sua preparação. – Michael disse logo que saí do carro, sentindo alguns pingos leves em minha cabeça.
– Já vou! – Danny disse, seguindo em direção aos fãs que gritavam seu nome e olhei rapidamente para ele antes de seguir com Michael.
Foi realmente difícil, em um primeiro momento, não ficar surpresa e maravilhada com tudo. Estive em alguns circuitos em minha vida, especialmente na época da Fórmula BMW e na Fórmula 3, até o começo da Fórmula 1 pela HRT, mas o esporte havia evoluído bastante em cinco anos, ou eu que não tinha prestado muita atenção, mas dava para sentir a importância emanando pelo local.
Especialmente quando chegamos na larga rua com os motorhomes de apoio de cada escuderia que Danny me apresentou quando estivemos na Espanha, agora realmente montado para o GP com tudo. Aquilo me deu saudades de quando eu realmente acompanhava Danny no começo da sua carreira quando eu podia, talvez cinco anos tivesse sido muito tempo longe.
A diferença é que agora eu sabia um pouco mais sobre o esporte, apesar do meu afastamento natural, então fiquei surpresa em ver outros corredores famosos como Hamilton*, Button*, Vettel* e Rosberg* andando com suas equipes ali.
– Isso é demais! – Falei, rindo.
– Você se acostuma depois de um tempo. – Michael disse. – Isso que é só o primeiro dia. – Ri fracamente.
– Espero que essa empolgação fique na hora da corrida e o outro lado não ataque. – Falei, sentindo meu corpo inclinar para frente quando Daniel pulou em nossas costas. – Ah, caramba! – Falei, inclinando meu rosto para o outro lado.
– Essa doeu, cara! – Michael reclamou, me fazendo rir.
– O que está achando, Harp? – Danny perguntou.
– É bem legal, Danny! – Suspirei. – De verdade.
– É assim que se fala! – Ele me sacudiu empolgado, me fazendo rir.
– Fala, Daniel! – Virei o rosto para o chamado, vendo Christian, chefe de Daniel, e outro homem muito lindo passando apressados por nós.
– Oi, gente! – Ele respondeu e sorri.
– Quem é? – Perguntei.
– O Christian. – Danny disse como se fosse óbvio.
– Ele eu sei, o outro! – Falei firme.
– Ah, Toto Wolff*, chefe da Mercedes. – Ele disse.
– Uau, ele é gato! – Falei, rindo e ele revirou os olhos.
– Ah, cara, quando você disse que ia observar os caras, eu achei que estivesse falando dos corredores, não dos caras que são 15, 20 anos mais velhos do que você! – Ele reclamou, me fazendo rir.
– Eu só estou fazendo um comentário. Relaxa! – Ri fracamente. – Além de que não seria nada mal se ele…
– HARPER! – Ele me repreendeu, fazendo Michael gargalhar e eu também. – Ele é velho demais, qual é!
– Levando em conta que a esposa dele é 10 anos mais nova do que ele, acho que ele gosta de alguém mais nova. – Michael cochichou para nós.
– Viu?! – Falei para Daniel, dando de ombros. – Dizer que ele é casado me faz recuar mais do que a diferença de idade, mas ele continua sendo gato. – Pressionei os lábios, andando um pouco mais à sua frente.
– Ah, cara! Falta muito para o fim da temporada? – Ele falou dramaticamente, me fazendo rir.
– Pode reclamar, mas não vou perder a chance de falar o quanto você insistiu para que eu viesse. – Falei, rindo com Michael.
*GS Harness: Um dos aparelhos principais dos corredores, usado para fortalecimento do pescoço para aguentar as altas forças G do carro.
*Lewis Hamilton: piloto britânico da Mercedes, 37 anos, piloto com mais vitórias na Fórmula 1. Ele e Daniel são amigos mais discretos.
*Jenson Button: ex-piloto britânico, 42 anos, campeão mundial em 2009. Possui um ar piadista como Daniel. Constantemente são vistos correndo de kart juntos.
*Sebastian Vettel: piloto alemão, 34 anos, ex-colega da equipe de Daniel em 2014, na história dirige pela Ferrari, ganhou 4 títulos consecutivos pela Red Bull. Ele e Daniel são amigos.
*Nico Rosberg: ex-piloto alemão, 36 anos. Era colega de equipe de Hamilton até sua aposentadoria. A amizade dele com Daniel é mais discreta, mas já teve situações de eles dividirem jatinhos juntos e recentemente Danny esteve no podcast de Nico.
*Toto Wolff: austríaco, 50 anos, atual chefe de equipe da Mercedes, foi piloto em outras categorias. Além de ser lindo, é muito carismático.
Sexta-feira
Daniel
Suspirei antes de me impulsionar para cima e pisei em cima do carro antes de pular para fora. Simon me cumprimentou com um rápido abraço e um largo sorriso antes de eu me livrar do capacete e da balaclava.
– Muito bom, Daniel! – Meu engenheiro disse e abri um sorriso ouvindo os aplausos do pessoal em volta. – É só o primeiro treino, mas você foi muito bem! Conseguimos fazer alguns ajustes, inclusive sobre a nossa estratégia de pneus, mas 1:30.875 é um tempo perfeito.
– Quem está na frente?
– Hamilton com 1:29.725 e Kvyat com 1:30.146.
– Merda! Preciso melhorar isso.
– É só o primeiro, amanhã tem mais, relaxa. Dá uma respirada, temos a reunião mais tarde, aí conversamos sobre as estratégias para amanhã. – Ele disse.
– Não acho que vai chover no domingo, dá para manter com os médios. – Falei.
– Vamos ver como vai estar amanhã antes! E principalmente no sábado. – Ele disse, batendo em minhas costas e Christian esticou a mão para mim.
– Bom trabalho, garoto! – Ele disse. – Vamos melhorar esses números para ver o show da primeira fileira.
– Seria sensacional fazer isso em casa! – Falei, rindo e vi Michael esticando a mão.
– É o jeito perfeito de começar a temporada! – Ele disse, rindo e entreguei o capacete para Michael.
– Vamos fazer isso! – Falei, animado.
– Te espero lá na casa da árvore*! – Ele disse.
– Claro, já estou indo. – Passei a manga na testa.
– Se hidrata. – Michael me esticou a garrafa e a peguei, colocando o sugador na boca, puxando alguns goles fortes para a boca. – Bom treino.
– Obrigado! – Suspirei após engolir. – É bom estar de volta.
– Vejo uma pole em casa? – Michael perguntou e gargalhei.
– Ah, cara! Eu quero muito. Minha primeira e em casa? Seria demais! – Falei, rindo. – Acho que já passou da hora. – Comentei, franzindo a testa e dei uma olhada rapidamente para trás. – Onde está Harper? – Ele suspirou.
– Ela entrou depois que o Rosberg bateu. – Ele pressionou os olhos e arregalei os olhos.
– ROSBERG BATEU? – Perguntei um tanto mais alto, empurrando a garrafa em cima dele antes de correr para o vestiário.
– Ele está bem! Daniel! – Ele me chamou e empurrei a porta com força, assustando Harper ali dentro.
– Caralho! – Ela disse, se levantando, apressada, colocando a mão no peito.
– Desculpe. – Suspirei, percebendo seus olhos avermelhados. – Você chorou.
– Eu estou bem! – Ela disse, irritada, dando as costas, se sentando na cadeira em que estava antes e virei o rosto para trás, fazendo uma indicação para Michael e ele me entregou o capacete antes de fechar a porta.
– Harp…
– Eu estou bem! – Ela disse no mesmo tom, apertando a mão no rosto e deixei o capacete em cima da mesa antes de me aproximar dela.
– Olha para mim. – Pedi, me ajoelhando em sua frente e apoiei as mãos em seu colo.
– Danny, por favor. – Seu tom de voz abaixou e apertei minhas mãos em sua cintura.
– Vamos, Harp… Olha para mim…
– Isso é ridículo, Danny. – Ela disse, deixando suas mãos caírem em seu colo e dei um curto sorriso.
– Nunca é ridículo quando é você. – Falei, tirando uma mecha de cabelo que escapou de seu rabo de cavalo.
– É! Isso não vai dar certo! – Ela suspirou e me levantei, puxando as luvas com força das mãos.
– Você está aqui, já está dando certo.
– Mas você não pode ficar preocupado comigo toda vez que isso acontece. – Ela pressionou os lábios e segurei seu rosto.
– Ele está bem, os mecânicos devem trabalhar um pouco a noite, mas está tudo bem. – Falei, passando os polegares em sua bochecha. – Todo nosso uniforme, tudo é bem protegido para termos o mínimo de impacto possível.
– Eu tenho medo, Danny. – Ela disse.
– O perigo continua se você estiver aqui ou não, Harp. E se algo acontecer, eu vou amar ter você ao meu lado. – Ela negou com a cabeça.
– Eu não quero que nada aconteça contigo. – Ela falou com a voz fina.
– Nada vai acontecer comigo, Harp. E nada aconteceu com Nico também. – Ela respirou fundo, soltando a respiração pela boca. – Respira! Respira!
– Eu estou respirando. – Ela disse, tombando a cabeça para trás.
– E não fica irritada, vamos! – Ela suspirou.
– Você não pode ficar em volta de mim, Danny! As pessoas vão começar a perguntar do seu sumiço e eu não quero você distraído. Estava indo bem até eu ouvir do Rosberg.
– Respira! – Pedi, ouvindo sua respiração forte antes de soltar o ar perto de meu rosto. – Ninguém falou sobre você, Michael segurou até o último segundo e eu estou no meu intervalo. E, me desculpe, mas eu sempre vou me preocupar contigo, ok?! A diferença é que agora eu vou ver seus surtos e tentar controlá-los.
– Você não precisa…
– Eu preciso! – Falei firme, colocando minhas pernas entre as suas. – E não vou ver você assim e deixar rolar. Viva com isso. – Ela suspirou.
– Eu vou melhorar… – Ela disse fracamente e abracei-a, apertando seu rosto em meu peito. – Eu só preciso de mais tempo.
– Temos um ano inteiro. – Falei, ouvindo-a suspirar.
– Eu adoro seus abraços, mas você está pingando suor, Danny.
– Oh, desculpe! – Falei, me afastando dela e a vi esfregar o rosto. – Eu vou trocar de roupa. – Abri o macacão no zíper do centro e puxei as mangas, deixando-as caírem até a cintura.
– Como você foi?
– Terceiro na classificação do dia.
– Isso é bom, certo? – Ela perguntou, passando as mãos no rosto.
– É, é bom, seria melhor ainda se eu passar o Kvyat. – Comentei, apoiando as costas na parede.
– Desacelera, Danny. – Ela disse. – É só o primeiro dia, o primeiro GP. Relaxa.
– Ah, não consigo! – Falei e ela deu um curto sorriso e ouvi duas batidas na porta, vendo-a se abrir e vi Michael.
– Desculpe, mas Christian está te chamando.
– Já estou indo. – Falei e ele fechou a porta de novo.
– Vai trabalhar, Danny. – Ela disse.
– Eu tenho uma reunião agora, na casa da árvore, o escritório aqui atrás… – Ela assentiu com a cabeça. – Você pode vir, sabe?
– Eu não entendo nada dessa parte técnica e estratégica, Danny. – Ela disse.
– Pode começar a entender… – Ela deu um curto sorriso. – Ou sair pela rua e encontrar alguém para te divertir. – Ela riu fracamente.
– Se eu for ficar aqui o ano inteiro, é melhor eu começar a entender. – Abri um largo sorriso.
– Vamos! – Estiquei a mão para ela, sentindo-a pegar e puxei-a para cima para ela se levantar.
*Casa da árvore: além do motorhome de apoio, as equipes costumam ter um prédio exclusivo para reuniões e partes técnicas, normalmente fica à frente do motorhome da equipe no paddock, mas cada equipe pode ter uma configuração diferente.
Harper
Fiz um nó com a ponta da blusa e me olhei no espelho de corpo inteiro, tombando a cabeça para o lado com a roupa, mas a pouca pele aparecendo entre a calça jeans e a camiseta de botões me incomodou. Desfiz o nó, bufando quando ficou a marca do nó e dei umas batidinhas no local para tentar desamassar. Juntei a blusa nas costas, deixando-a justa e enfiei a parte de trás para dentro da calça, deixando-a melhor.
Caminhei pelo quarto e calcei os sapatos de salto azuis do mesmo tom da blusa. Apoiei a mão no armário para ajeitar na parte de trás nos pés e voltei a me olhar no espelho. Sorri com o que vi e dei uma passada de dedos nos cabelos escovados, jogando-os para frente e suspirei, relaxando os ombros. Talvez uma saída seja o que eu preciso para dar uma relaxada nesse primeiro fim de semana corrido.
Peguei minha bolsa, apoiando-a no ombro e desliguei a luz do quarto e puxei a porta antes de sair. Chequei se Danny estava no quarto, mas estava fechado da mesma forma. Caminhei até a sala e o encontrei girando em um dos pufes da sala. Ele sorriu quando me viu, se levantando, animado.
Danny fica muito bonito no azul escuro da Red Bull, mas parece que ele ficava melhor com roupas mais claras, especialmente por causa do bronzeado frequente em sua pele, então a calça jeans, camiseta branca, camisa social azul clara aberta junto do Vans branco deixavam-no bem bonito.
– Você está linda, Harper! – Ele disse, me esticando a mão e segurei a dele, sentindo-o me rodar ao redor do corpo. – Só está mais alta do que eu. – Ele pressionou os lábios, me fazendo rir.
– Não é minha culpa se somos só dois ou três centímetros de diferença. – Falei.
– Três e meio! – Ele frisou, me fazendo rir.
– Tonto! – Passei a mão em seus cabelos, ajeitando-os para trás. – Você só precisa começar a usar roupas do seu tamanho.
– Eu não gosto de roupas apertadas, ok?!
– Mas adora uma calça skinny, né?! – Falei e ele entreabriu os lábios pensando no que poderia dizer antes de fechá-los. – Foi o que eu imaginei.
– Vamos, eles já estão nos esperando.
– Claro! Michael não vai? – Perguntei.
– Não, ele disse que é só algo da família…
– Ah, claro, imagino que família inclua mais de 20 anos de amizade, 13 é pouco, né?! – Ele deu de ombros.
– Acho que tinha outros planos. – Ele disse.
– Espero que sim. – Segui até a porta. – E sua marketeira?
– Saiu também ou se trancou no quarto. – Ele deu de ombros.
– Não é estranho ficar no mesmo quarto que sua marketeira? – Perguntei, saindo na sua frente.
– Um pouco, mas não é em todo lugar, na Europa não, por exemplo.
– Ficar em um motorhome com ela não deve ser nada fácil. – Comentei, apertando o botão do elevador.
– Alguém morre antes das classificatórias. – Rimos juntos e ele parou ao meu lado.
– Provavelmente você! – Falei e ele jogou a cabeça para trás.
– Previsível demais. – Ele sorriu e dei um passo para dentro do elevador, me encostando na parede quando ele fechou.
– Eles vão nos encontrar lá? – Perguntei.
– Sim… – Ele suspirou. – O restaurante é legal, vai trabalhar hoje? – Ele perguntou.
– Não. Apesar da minha curiosidade, estou com minha família hoje. – Ele sorriu.
– Gosto de saber disso. – Ele apoiou seu ombro no meu e suspirei.
– A vida nos colocou juntos por um motivo, provavelmente sabia que eu precisaria de vocês…
– Independente, é bom. – Ele sorriu no espelho da frente e retribuí, ouvindo a porta do elevador se abrir.
– Vamos. – Ele disse e saímos no estacionamento do hotel.
Caminhamos lado a lado pelo local até chegarmos no carro que a Red Bull tinha oferecido para nós. Danny abriu o carro à distância e depois a porta para que eu entrasse. Ele seguiu para o outro lado e me ajeitei no carro, puxando o cinto de segurança.
– Vamos! – Ele disse, ligando o carro e suspirei, ouvindo uma música do Alexisonfire, uma das bandas favoritas de Danny, tocando.
Só conseguimos ouvir a primeira música, já que nosso destino ficava literalmente do outro lado do rio Yarra, nas Rialto Towers. Vue De Monde é um dos restaurantes mais caros e bem avaliados de Melbourne. Além de ele ser bastante escondido por ficar no 55º andar das Rialto Towers. É um restaurante perfeito para ser avaliado, mas é muito difícil conseguir vaga em cima da hora, normalmente a lista de espera passa de seis meses, e minhas viagens nunca tinham essa preparação com antecedência. Mas sendo Daniel Ricciardo, um dos australianos mais bem sucedidos, acho que era mais fácil.
O valet do prédio abriu a porta quando Danny parou e apoiei minha mão na porta ao sair de lá. Me senti estranha por um momento, como uma celebridade, na verdade. É uma das torres mais corporativas e importantes de uma das maiores cidades do país, chegando em um Renault esportivo com Daniel Ricciardo dirigindo, foi como se os olhares e os holofotes se virassem para nós.
– Bem-vindo ao Rialto Towers, senhorita. – O homem disse e sorri, vendo Danny aparecer ao meu lado.
– Obrigada! – Sorri e Danny esticou o braço para mim.
Fiquei receosa por alguns segundos, com medo de ter algum fotógrafo por perto, mas ignorei os pensamentos externos e pensei que somos só Danny e Harp, amigos desde 1992, e segurei seu braço. Caminhamos para dentro do prédio mais alto e nos indicaram um dos elevadores, segurando-o para entrarmos.
– 55º andar, por favor. – Danny disse para a mulher dentro dele e sorri, apoiando as costas na parede, mas não deu para eu respirar, pois o elevador subiu muito rápido, abrindo a porta logo em seguida.
Danny manteve o braço no meu e saí com ele, acenando com a cabeça para a mulher quando saímos. O andar do Vue De Monde era inteiramente preto com detalhes em dourado e luzes que deixavam o local mais aconchegante. Tinha uma longa fila na porta e os olhares se viraram para nós novamente, me fazendo engolir em seco.
Não tive coragem de abrir a boca para falar nada, eu estava travada e sabia que eu estava ferrada. Na verdade, ele, eu só era sua acompanhante em um dos lugares mais badalados da cidade com o corredor mais famoso do país, mas ainda era uma situação bem estranha. Eu sou a amiga dele, gente! Não me olhem assim.
– Reserva para Ricciardo. – Danny disse, me tirando de minha crise interna e a mulher bonita abriu um largo sorriso.
– Me acompanhem, por favor. – Ela disse e o braço de Danny me puxou de novo, acompanhando a mulher.
– Eu estou ficando enjoada. – Comentei baixo para Danny.
– Por quê? Você está bem? – Ele perguntou rapidamente, virando o rosto para mim.
– É assim sair com você na civilização? – Perguntei, engolindo em seco.
– Desculpe por isso. – Ele disse.
– Não vai dar problema para você? – Cochichei.
– Eu lido com isso depois. – Ele disse e suspirei.
– Você deveria ao menos não andar colado em mim…
– Para eles não faz diferença. – Ele pressionou os lábios e ponderei com a cabeça. – Vamos nos divertir um pouco. – Ele disse e virei o rosto para o caminho novamente, sorrindo ao encontrar tia Grace, tio Joe, Michelle, Jason e o carrinho de Isaac.
– Ah, eles chegaram! – Ouvi a voz de Grace e eu e Danny fomos para lados diferentes.
– Oi, gente! – Falei, sorrindo, abraçando Jason primeiro, depois Michelle.
– Ai, que delícia te ver em março! – Michelle me abraçou fortemente, me fazendo rir.
– Ah, nem fala! – Suspirei.
– Como estão as coisas? Relaxando?
– Alongando minhas férias ao máximo! – Rimos juntos.
– Você está bem? – Ela segurou meu ombro.
– Sim, está tudo bem! – Sorri.
– Querida! – Virei para tia Grace, abrindo um sorriso e abracei-a. – Como é bom ver você!
– Ah, nem fala! – Apertei-a fortemente.
– Como estão as coisas? – Ela falou em meu ouvido.
– Está tudo bem, indo devagar. – Ela sorriu.
– Como está a ansiedade?
– Ela ataca de vez em quando, mas está tudo bem. – Ela acariciou meu rosto e sorri.
– Você está mais linda. – Ri fracamente.
– Mais relaxada, talvez. – Ela assentiu com a cabeça.
– Bom, muito bom! – Sorri, erguendo o olhar para Joe e sorri, abraçando-o em seguida.
– Bom ver vocês dois juntos e você sorrindo! – Ele disse, me fazendo rir e apertei-o fortemente.
– Bom ver vocês também. – Sorri, passando por Joe e vi Danny com Isaac no colo.
– Olha a madrinha ali! – Ele apontou para mim.
– Oi, meu lindinho! – Falei para Isaac, vendo-o sorrir.
– Oi, gatinha! – Danny disse, sorrindo e revirei os olhos.
– Ricciardo mais bonito, depois você! – Peguei Isaac. – Como está meu lindinho? – Pressionei os lábios na bochecha de Isaac, fazendo-o rir. – Agora você lembra de mim, né?! – Limpei a bochecha de Isaac suja de batom. – Titia te sujou. – Limpei seu rosto, e Isaac me abraçou, apoiando a cabeça em meu ombro. – Ah, meu amorzinho! – Pressionei os lábios, apoiando minha cabeça na dele. – Te amo, meu amor. – Danny sorriu para mim.
– Vocês dois querem um momento a sós? – Ele perguntou e ri fracamente.
– Isso é ciúmes. – Falei.
– Eu ainda sou o tio mais legal! – Ele sussurrou.
– Mas ele ainda gosta do meu colo. – Lhe mostrei a língua.
– Aí até eu, né?! – Ele deu de ombros, me fazendo rir.
– Vem, crianças! Sentem-se, vamos comer! – Grace disse e Danny puxou a cadeira para mim e firmei minhas mãos em Isaac antes de sentar e Danny se jogou na cadeira ao lado de sua mãe.
– O que pediram? – Danny perguntou e apoiei minha cabeça na de Isaac, passando a mão nos cabelos loirinhos dele.
Daniel
– Nos vemos amanhã? – Perguntei para minha mãe.
– Nós estaremos lá, provavelmente no Paddock Club. – Ela disse.
– Talvez seja bom vocês estarem lá… – Comentei, dando uma olhada em volta, encontrando Harper com minha irmã.
– Ela não está bem? – Minha mãe entendeu o recado.
– Mais ou menos… – Ponderei com a cabeça. – Ela fica bem, mas ainda tem algumas coisas. – Suspirei. – O Rosberg bateu no treino, algo simples, e ela teve uma crise. – Minha mãe assentiu com a cabeça.
– Estaremos lá… – Ela assentiu com a cabeça. – Mas você sabe que depois só nos encontraremos provavelmente em Monaco, não é?
– Eu sei, mas ao menos no primeiro, sabe? Ela sofre sozinha e eu não quero isso. – Suspirei, passando a mão nos cabelos. – E eu não tenho como saber tudo…
– E você nem pode se preocupar com isso no meio da corrida, filho. – Meu pai disse firme.
– Eu sei, pai, mas me sinto responsável…
– Você não precisa se sentir responsável por nada. – Ele falou com firmeza. – Nada do que aconteceu é responsabilidade de nenhum de vocês dois, vocês só podem cuidar um do outro, mas uma coisa de cada vez. – Suspirei. – Você foque no seu trabalho e depois ou antes, ajude-a, ok?! Porque ela também quer te ajudar, não atrapalhar, ela sabe disso.
– Eu sei, mas…
– Danny! – Virei o rosto na pressa, encontrando Harper abraçando Isaac. – Meia-noite.
– Porra! – Falei baixo.
– Toque de recolher? – Meu pai perguntou.
– É! – Suspirei. – E eu já estou atrasado. – Eles riram e minha mãe me abraçou apertado.
– Vai lá, a gente se encontra amanhã! – Dei um beijo em sua bochecha, sentindo outro em retribuição.
– Vamos sim! – Minha mãe sorriu.
– Se cuidem, ok?! – Abracei meu pai.
– Pode deixar, mãe! – Falei, rindo.
– Não foque cem por cento nisso, mas cuida dela. – Meu pai pediu e assenti com a cabeça, suspirando.
– Pode deixar. – Sorri, dando dois tapinhas em seu ombro.
– Vai lá! – Sorri, me aproximando de Harper, que dava vários beijinhos em Isaac.
– Sabe… Você não pode levá-lo conosco. – Falei e ela fez um pequeno bico em minha direção, me fazendo sorrir. – Vamos, você tem o melhor Ricciardo de companhia.
– Até parece! – Ela disse, sorrindo e dei um beijo na cabeça de Isaac que dormia calmamente em seu colo.
– Boa noite, meu menino! – Falei, vendo Harper sorrindo para mim e dei um beijo na bochecha dela. – Vamos sair desse buraco.
– Vamos. – Ela disse e sorri para minha irmã.
– Nos vemos amanhã?
– Acho que só consigo ir domingo. – Ela disse e abracei-a, dando um beijo em sua cabeça.
– Tudo bem, mas vá! – Falei.
– Pode deixar! Se cuidem, hein?! – Ela falou, apontando para mim e para Harper e assenti com a cabeça.
– Pode deixar! – Harper disse, entregando Isaac para ela e minha mão estalou na de Jason.
– Nos falamos depois. – Ele disse e confirmei com a cabeça.
– Vocês estão no Crown? – Jason perguntou.
– Sim, três minutos daqui! – Falei, abanando a mão.
– Sim, sim! Vocês chegam logo! – Virei o rosto, vendo minha Harper e minha mãe se abraçando.
– Nos vemos amanhã ou no domingo, mas apareçam lá! – Falei.
– Pode deixar, maninho! – Michelle disse e abracei-a de lado, dando um beijo em sua cabeça e virei para Harper.
– Vamos? – Perguntei para ela.
– Sim… – Ela disse, confirmando com a cabeça. – Vamos lá!
– Até amanhã, gente! – Falei, acenando e esticando a mão para Harper.
– Tchau! – Ela disse antes de apoiar a mão em meu braço, entrelaçando-os e sorri, dando um último aceno antes de seguir pelo restaurante.
Algumas pessoas nos olharam, mas eu simplesmente ignorei, como eu sempre fazia. As pessoas viam coisas onde não tinham, então precisava fazê-las se acostumar com isso. Foto com Harper é o que não falta no meu Instagram e comigo no seu, e sempre deixando claro os anos de amizade. Fevereiro sempre rola uma inundação de fotos nossas para comemorar os anos de amizade, já que foi quando nos conhecemos em 1992.
Imagino que os fãs estavam acostumados com isso, agora eles precisavam se acostumar com ela me acompanhando nos lugares, assim como se acostumaram com Michael. Ela é minha amiga mais antiga, minha melhor amiga e estou há anos tentando trazê-la comigo, espero não ter mais problema.
– Se divertiu? – Perguntei para ela quando entramos no elevador.
– É, é sempre bom. – Ela sorriu. – Deu para relaxar.
– Pronta para amanhã? – Perguntei.
– Você está? – Ela virou o rosto para mim.
– Sim! – Sorri. – Empolgado para pegar uma boa classificação em casa.
– Uma pole? – Ela perguntou.
– Esperamos que sim. – Sorri e ela assentiu com a cabeça.
Dei um aceno para a mulher no elevador e segui com Harper para fora do prédio. Estava mais vazio de quando chegamos, mas a iluminação pareceu mais forte. Entreguei meu bilhete para o valet, mas não demorou mais do que um minuto para o carro aparecer em nossa frente. Abri a porta para Harper e ela sorriu antes de entrar. Dei a volta e entrei ao seu lado, não demorando para sair dali.
Chegamos ao hotel em três ou quatro minutos e logo estava com o carro estacionado na garagem, sem problemas e sem precisar atrasar mais meu horário com Maria para atender aos fãs. Eu e Harper seguimos pela garagem até chegar no elevador e aguardamos alguns minutos até ele chegar.
– Você está cansada? – Perguntei.
– Espero que sim. – Ela disse. – Assim eu durmo rápido e não fico pensando besteira sobre amanhã. – Ela seguiu para dentro do elevador e fui logo atrás dela.
– Vai dar tudo certo. – Ela assentiu com a cabeça.
Seguimos em silêncio até o andar e entrei na ponta dos pés no quarto, vendo a sala principal ser iluminada somente pela luz externa. Harper tirou os saltos dos pés e entrou na ponta também, caminhando pelo corredor.
– Eu consigo te ouvir, Daniel! – Franzi os olhos com a voz de Maria e Harper olhou para trás, fazendo uma careta.
– 12 minutos atrasado, eu sei! – Falei um pouco mais alto, suspirando. – Mas eu estava com minha família, estou sóbrio e vou direto para cama.
– Espero que vá mesmo, vou saber se não for. – Ela disse e fiz uma careta, fechando a porta sem tanto cuidado.
– Boa noite. – Falei, caminhando pelo corredor.
– Boa noite! – Ela disse. – Boa noite, Harper!
– Boa noite. – Harper disse na porta de seu quarto e suspirei, andando até ela. – É melhor você dormir.
– É, só vou me arrumar. – Falei.
– Eu também. – Ela disse, dando dois toques no batente da porta.
– Já venho te dar boa noite. – Falei.
– Ok. – Ela sorriu, seguindo para dentro do quarto.
Fiz o mesmo, encostando a porta um pouco e tirei a roupa que eu usava, seguindo direto para o banheiro. Perdi alguns minutos ali antes de seguir para a pia e perdi mais alguns minutos cuidando dos dentes. Voltei para o quarto, pegando uma bermuda de pijama e fucei no fundo da mala para encontrar uma regata, vestindo-a também.
Fui até minha calça jeans e procurei o celular e a carteira nos bolsos, deixando-os em cima da cama e peguei dois travesseiros, colocando-os embaixo do braço. Peguei meu celular, procurando pelo despertador e conferi que amanhã era outro dia para estar acordado as seis da manhã e começar finalmente a correr.
Saí do quarto, passando devagar pelo corredor e empurrei a porta do quarto de Harper, dando dois toques, vendo-a aparecer no quarto com o pijama que tinha visto ontem e uma toalha em suas mãos.
– O que está fazendo? – Ela pressionou a toalha no rosto, deslizando pela linha do seu cabelo.
– Eu vou dormir contigo. – Dei um curto sorriso, jogando os travesseiros na cama.
– Não precisa, Danny! Qual é! – Ela voltou para o banheiro.
– Você está nervosa, eu provavelmente não vou dormir rápido de empolgação, podemos ficar conversando. – Puxei a coberta, enrolando-a no pé da cama.
– Eu me mexo para caramba para dormir, Danny. Isso se eu dormir, você precisa descansar. – Ela disse, voltando para o quarto, fechando a porta do banheiro.
– Eu vou dormir, relaxa. – Falei. – Direita ou esquerda?
– Danny! – Ela me repreendeu.
– Direita ou esquerda?! – Perguntei novamente e ela suspirou.
– Na janela. – Ela indicou para o lado direito e me joguei na cama, vendo-a revirar os olhos.
Ela foi até a janela, fechando o blecaute e me peguei observando suas pernas pelo short curto mais uma vez, com a mesma tatuagem de uma rosa dos ventos que eu tenho no calcanhar direito, mas na parte de trás de sua coxa esquerda. A parte estranha é que agora eu me peguei checando sua bunda devido a quão curto era os shorts e abanei a cabeça.
Preciso parar de fazer isso, cara! É Harper!
– Se você roncar, eu te sufoco com o travesseiro. – Ela soltou os cabelos da piranha que os prendia, fazendo seus cabelos ondulados caírem em seu peito, antes de se deitar ao meu lado.
– Depende do meu cansaço. – Falei e ela apertou o botão do ar-condicionado antes de puxar o lençol para cima de seu corpo e me senti obrigado a fazer o mesmo e ajeitar meus travesseiros em seguida.
– Minha promessa é independente do seu cansaço. – Ela disse, virando o corpo para mim, colocando um braço embaixo do travesseiro.
– Você é má, Harper Addams. – Falei, virando para ela, apoiando o braço da mesma forma.
– Sabe quem também era má? – Ela disse e franzi a testa.
– Quem? – Perguntei, franzindo a testa.
– Wandinha Addams. – Ela bateu a outra mão na parede, desligando a luz e revirei os olhos.
– Inteligente, Harper! Inteligente! – Falei e ela riu fracamente.
– Boa noite, Danny. – Ela suspirou.
– Boa noite, Harp. – Falei e ela fechou os olhos.
Ela fez um sinal da cruz, fazendo uma reza em silêncio e me coloquei em oração também. O pedido é sempre o mesmo: segurança e um bom resultado para amanhã e domingo. Mas dessa vez, olhando Harper rezar com os olhos tão pressionados, só consegui pedir para ela ficar bem e que essa dor fosse embora o mais rápido possível para que ela pudesse aproveitar de verdade a competição.
Capítulo 5
Duncraig, Austrália, 1996
– Mais rápido, Danny, mais rápido! – A voz de Harper ecoou pela rua, fazendo a risada de ambos ecoarem pelo local e Daniel pedalou mais rápido, enquanto Harper apertou as mãos em seus ombros, em pé na parte de trás de sua bicicleta.
– Se segura! – Ele disse, impulsionando a bicicleta para cima, passando pela calçada, fazendo as mãos de Harper apertarem com mais força nos ombros do amigo.
Os pés de Daniel pedalaram a bicicleta com bastante força, fazendo os cabelos longos, escuros e ondulados de Harper voarem contra o vento e as mãos dela apertarem os ombros de Daniel com mais força, tentando manter o equilíbrio das pernas nos apoios laterais da bicicleta dele enquanto ele andava a toda velocidade pela rua em frente à casa do menino.
– Danny, para! – Harper falou mais rápido quando notou a cãibra em suas pernas, mas o instinto de velocidade de Daniel o fez ir mais rápido. – Danny, tá doendo! – Ela reclamou, as pernas travando no apoio. – DANNY! – Ela apertou as mãos nos ombros dele e foi como se ele destravasse, fazendo-o apertar a mão no freio.
Sua mão atingiu o freio direito, fazendo com que só a roda da frente travasse e a bicicleta os jogou para frente, fazendo o menino tombar para o lado junto da bicicleta, mas Harper caiu um pouco mais à frente, batendo a cabeça na quina da calçada.
– HARPER! – Ele gritou, empurrando a bicicleta de cima dele e correu em direção à ela, vendo a grande mancha de sangue que se formou em sua testa. – HARPER!
– Danny… – A fala fraca denunciava que ela o ouvia, mas a pose estranha o deixava preocupado.
– Harper! Harper! – Ele começou a falar apressado, as lágrimas já deslizando em suas bochechas.
– Tá doendo… – Ela falou fracamente.
– Eu vou chamar a mãe! – Ele anunciou, se levantando correndo ao lado da menina e se localizou por alguns segundos, saindo correndo desesperado rua abaixo. – MÃ-Ã-Ã-Ã-Ã-Ã-Ã-ÃE! – A voz de Daniel ecoou muito alta pela rua, fazendo os pés de Daniel baterem com força no chão. – MÃ-Ã-Ã-Ã-Ã-Ã-Ã-ÃE! – A garganta de Daniel estava pegando fogo, mas ele sentiu um alívio quando seus pais e os pais de Harper apareceram na frente da casa deles.
– O que foi, filho?! – Grace perguntou, assustada e o menino respirou fundo.
– A Harp, mãe! – Ele indicou para longe. – Eu caí e ela se machucou! – Ela falou, apressado. – Me ajuda! Ela tá sangrando!
A voz de Daniel mal saiu e ele voltou correndo em direção à Harper. Alexander e Joe se entreolharam e foram correndo atrás do menino enquanto as mães vinham logo atrás. Alex passou por Daniel, deslizando os pés na grama ao chegar perto da menina.
– Filha! Filha! – Alexander segurou a menina, passando a mão na grande mancha de sangue que agora molhava até os cabelos dela. – Filha, você me ouve? – Ele deu dois tapinhas no rosto da filha.
– Tá doendo. – Ela disse fracamente.
– Me dá um pano, alguma coisa para eu parar esse sangue. – Alex pediu e Daniel não pensou duas vezes ao tirar sua blusa, e entregar para o tio Alex. A blusa branca de Daniel automaticamente ficou vermelha, deixando o menino surpreso com a quantidade de sangue que saía do local.
– Harp! – Danny falou, nervoso e as mãos de Helena abraçaram o garoto pelos ombros. – Harp…
– Tá tudo bem, Danny! – Helena falou, se abaixando até a altura do garoto e ele passou as mãos nos olhos.
– Não mexe nela, Alex, ela pode ter quebrado algo. – Grace disse.
– Eu vou ver se o Andrew está aqui. – Joe disse sobre o vizinho médico da rua e saiu correndo até o outro lado.
– O que dói, meu amor? – Alex perguntou baixo. – A cabeça?
– E o braço… – Ela falou baixo e Alex até sorriu, aliviado pela menina estar lúcida.
– Me desculpe, Harp! – Danny falou baixo, as lágrimas deslizando nas bochechas. – Me desculpe.
– O que aconteceu, amorzinho? – Helena perguntou.
– Eu ia rápido e ela gritou, eu perdi o controle e a gente caiu. – Ele disse.
– Estou aqui! Estou aqui! – Andrew apareceu com a roupa social de quando ia para o hospital de Perth.
– Tio, ajuda a Harper! – Daniel falou, desesperado.
– Harper, é o tio Andrew. Me escuta? – Ele falou ao lado de Alex. – Com licença, Alexander. – Ele se colocou do outro lado de Harper.
– Uhum… – Ela disse fracamente.
– O que dói?
– O braço e a cabeça, ela disse. – Alex respondeu pela filha.
– Levanta ela devagar e vamos trazê-la aqui para casa. – Ele disse e Alexander o fez, fazendo a menina gemer de dor.
– Ai! – Ela reclamou quando o braço caiu ao lado do corpo.
– Acho que ela quebrou o braço. – Andrew anunciou, amparando o braço da menina. – Vamos levá-la para o hospital, é melhor.
– E a cabeça? – Helena perguntou, preocupada.
– Parece que é só um corte, mas vemos melhor quando chegar lá! – Ele disse.
– Vem no nosso carro. – Helena disse, soltando as mãos de Daniel e o menino correu em direção à Harper.
– Harper! Harper! Fala comigo! Me desculpe! – Grace apertou os ombros de menino.
– Vamos no hospital, filho! – Grace disse firme. – Ela vai ficar bem.
Enquanto Andrew, Alex e Helena seguiam para o carro dos Addams, Grace, Joe e Daniel, seguiam para a garagem dos Ricciardo para seguir logo atrás dele até o hospital dentro de Perth. A menina foi prontamente atendida assim que chegaram e levaram-na para dentro, deixando os pais aflitos na sala de espera.
Daniel se sentia confuso, ele havia causado o acidente e se sentia culpado pelo que estava acontecendo com Harper. Por mais que os Addams não o culpassem pelo acidente, infantil, como toda criança sofre um dia, ele se culpava e se sentia a pior pessoa do mundo por isso. Então, quando entrou no hospital, se sentou em um canto, quietinho, abraçado ao casaco que seu pai colocou em seus ombros para esconder o tronco nu do menino.
Helena estava dividida. Ela estava preocupada com a filha, a cabeça sangrando lhe preocupava demais, mas não queria o menino preocupado com isso. Essas coisas aconteciam e eram preocupantes, mas um menino de sete anos não podia se martirizar por isso. Especialmente com sua amiga que ele amava tanto.
– Danny… – Helena se abaixou à frente do menino.
– Eu não fiz por mal…
– Eu sei, querido! – Ela passou a mão no rosto do menino, tentando secar algumas lágrimas das bochechas dele. – Não fique assim, ela vai ficar bem e vocês vão poder brincar de novo. Só não fica assim, ok? – O garoto assentiu com a cabeça rapidamente.
– Me desculpa…
– Você não precisa pedir desculpa de nada, meu amor. – Helena deu um sorriso. – Está tudo bem.
– Alexander… – Andrew saiu novamente, fazendo Helena se levantar.
– Alguma notícia? – Helena perguntou, aflita.
– Ela está bem, quebrou o braço direito, mas, fora isso, tudo bem. – Ele disse. – Fizemos uma tomografia na cabeça, mas foi só um corte, a linha do cabelo é sensível, igual o supercílio, demos quatro pontos.
– Ela está acordada? – Alex perguntou.
– Sim, está terminando de engessar o braço agora, vocês podem vê-la. – Ele indicou o corredor.
– Vão, nós esperamos aqui! – Grace disse.
– Vem com a gente, Danny! – Helena disse, esticando a mão para o menino e ele se levantou apressado.
A mãozinha de Danny fechou na de Helena e os três seguiram pelo corredor, passando por algumas portas do hospital, até a área de atendimento. O alívio dos três foi grande ao ver a menina na larga maca com um curativo na cabeça, além de um homem engessando o braço da menina do ombro ao pulso.
– O pessoal vai poder desenhar? – Harper perguntou, animada.
– Vai sim, mas precisa esperar umas horas para ele secar completamente. – A médica disse.
– Harp! – Danny disse, animado.
– Danny! – Ela sorriu para o amigo e ele correu do lado contrário da médica, subindo na maca alta ali, se ajoelhando ao lado da menina.
– Me desculpe! Me desculpe! Me desculpe! – Ele pediu rapidamente.
– Eu tô bem, Danny. – Ela sorriu. – Tá tudo bem.
– Mas me desculpa também. – Ele pediu. – Não queria te fazer mal.
– Desculpo. – Ela disse e ele sorriu, dando um beijo na bochecha dela.
– Ela vai precisar ficar em observação essa noite, só para garantirmos que não tem nada de errado, vamos dar antibióticos para tratar qualquer infecção e ela está tomando anti-inflamatório para dor, ambos devem continuar em casa, mas foi só um susto. – Andrew falou para Helena.
– Podemos ficar com ela?
– Sim, vamos transferi-la para um quarto, só terminar aqui. – Ele disse e Helena e Alex assentiram com a cabeça.
Helena ergueu os olhos para o quarto novamente e agora Daniel estava abraçado a Harper, deitado ao seu lado na cama, observando atentamente ao que a médica fazia no braço de Harper. Helena deixou um curto sorriso escapar nos lábios antes de entrar no quarto e se aproximar de sua menina.
– Como está a minha menina? – Ela perguntou.
– Tô bem, mamãe! – Helena sorriu, checando de perto o curativo na cabeça dela.
– Não aprontem mais assim, ok?! Os dois. – Ela disse, séria.
– Nunca mais, tia. – Danny disse.
– Tá bem, mamãe! – Harper disse e desceu a cabeça para o ombro do amigo, observando a médica terminar de fechar o gesso.
Melbourne, Austrália, 2016 – Sábado
Harper
Meus olhos se abriram sozinhos pela milésima vez naquela noite, mas dessa vez a escuridão não me incomodou, já que uma fresta da janela iluminava um pouco o quarto. Virei o rosto para o lado, esticando a mão para o celular e vi que era 5:46. Uma hora a mais do que antes. O nervosismo estava me atingindo desde que Danny capotou ao meu lado por volta das duas da madrugada.
Virei o rosto para o lado, encontrando-o ao meu lado com o rosto afundado no travesseiro, os lábios entreabertos e parte dos cachos de seu topete caindo em seus olhos e suspirei. Ele literalmente parecia um anjo dormindo… E que tipo de comparação é essa, Harper? Deus! Deve ser o sono! Não é possível! Danny é fofinho comigo sim, mas longe de ser um anjo, isso em vários aspectos.
Virei o rosto para cima novamente, sacudindo a cabeça e pensei nas possibilidades da classificatória hoje. Eu não podia surtar, eu não podia ficar ansiosa, eu não podia atrapalhar Danny, eu não podia deixar meu medo ser maior hoje. Era só o começo de uma grande temporada para mim e para Danny. Não podia preocupá-lo de jeito nenhum, muito menos surtar no meio de sua equipe. Precisava ser igual na Michelin, incógnita.
Dei um pulo na cama ao ouvir o despertador ao meu lado e Danny resmungou, se movimentando na cama e suspirei. 5:50, hora dele acordar. Ele errou a batida da mão algumas vezes até o barulho finalmente se silenciar e seu corpo se mexeu na cama ao meu lado. Virei o rosto para o lado, encontrando-o apertando as mãos no rosto e soltando um longo bocejo em seguida antes de perceber que eu o observava.
– Você está acordada… – Ele disse, com os olhos entreabertos de sono.
– Sim… – Suspirei. – Não dormi muito bem. – Ele deu um curto sorriso.
– Vai dar tudo certo, Harp. – Ele se virou em minha direção.
– Espero que sim. – Suspirei, passando a mão em seu rosto, jogando os cabelos para trás. – Só arrasa, ok?! – Ele sorriu.
– Você vai poder dizer isso para mim ao meu lado hoje. – Ele pressionou os lábios em minha bochecha, me fazendo franzir a testa, mas antes que eu pudesse empurrá-lo, ele se levantou, apressado, apertando o botão da luz.
– Ah, muito rápido. – Puxei a coberta acima do rosto.
– Rise and shine, Harp! Lesg-o-o-o-o!* – Ele disse, animado e suspirei, sentindo-o puxar a coberta.
– Você dormiu menos de quatro horas, como está animado assim? – Virei de bruços, afundando o rosto entre os dois travesseiros.
– É dia de classificatória, Harp! É dia do honey badger colocar as garrinhas de fora.
– Uau. Ele vai me morder de fofura. – Falei sarcasticamente, erguendo a cabeça por alguns segundos, antes de afundar de novo.
– Vamos, Harper! – Ele puxou meus pés.
– AH! – Gritei, sentindo-o parar com meus joelhos para fora. – Daniel! – Reclamei.
– Vamos, vamos! – Ele disse, animado e suspirei. – Saímos às oito!
– OITO? – Ergui meu corpo, virando o rosto para ele. – Eu posso dormir por pelo menos mais uma hora.
– Como se estivesse dormindo antes, né?! – Suspirei, erguendo o rosto para ele, vendo-o sorrir. – Vai voltar a dormir quando eu sair daqui? – Ele perguntou.
– Talvez… – Suspirei, empurrando meu corpo para cima, me levantando e ajeitando o decote da camisa regata do pijama para esconder um pouco mais.
– Nos vemos lá fora. – Ele falou, seguindo para fora e fechou a porta ao passar, me fazendo suspirar.
Joguei meu corpo na cama novamente, sentindo o peso da noite mal dormida nas minhas costas e fechei os olhos por mais alguns minutos, mas não consegui voltar dormir. Não dormi a noite toda, agora que não dormiria mesmo.
Empurrei meu corpo para cima e fui para o banheiro, diretamente para o banho. Talvez um pouco de água gelada no corpo seja o suficiente para me fazer acordar e aguentar até o fim do dia. Deixei água cair em meu corpo quando me acostumei com a temperatura e acabei enrolando um pouco no banho para lavar e desembaraçar meus cabelos.
Saí enrolada na toalha e coloquei uma calcinha antes de voltar para o banheiro. Penteei mais uma vez os cabelos antes de ligar o secador e perdi alguns minutos para secar eles, vendo as ondas espetarem pela quentura do secador. Ao terminar, voltei para o quarto e chequei o horário e ainda tinha tempo para fazer uma chapinha nos cabelos.
Adoro os poucos cachos em meus cabelos, mas era como se o cabelo alisado me desse um pouco mais de poder e vontade de encarar o dia. Larguei a chapinha em cima da cama para esfriar e andei pelo quarto para trocar de roupa. A calça skinny escura já estava separada junto de uma camiseta limpa da Red Bull e o sutiã do conjunto.
Suspirei, me olhando no espelho ao terminar de me vestir e ajeitei a barra da blusa, dando um curto sorriso com a visão. Voltei para o banheiro, escovando os dentes antes de fazer uma maquiagem leve em meu rosto só com corretivo, para esconder algumas marquinhas, lápis e máscara pretos e deixei o batom para depois do café da manhã.
Observei o All-Star azul e o sapato de salto da mesma cor, mas optei pelos meus chinelos para tomar café. O cheiro de comida gordurosa atingiu meu nariz e aquilo me deixou levemente enjoada, mas esperava comer ao menos algo, só pela sessão de treinos ontem percebi como os horários são bagunçados ali.
– Ah, decidiu aparecer! – Ouvi a voz de Danny. – Já ia ver se não tinha dormido de novo.
– Só estava cuidando de mim um pouco. – Falei e ele ergueu o rosto para mim.
– Uau! Eu gosto da Harper de cabelo liso! – Ri fracamente, me sentando à mesa. – Gosto do seu cabelo natural também, mas…
– Eu entendi! – Falei, rindo. – Eu me preocupei em me arrumar.
– É! – Ele disse firme e notei-o já com a blusa da Red Bull.
– Não treinou hoje? – Perguntei.
– Já até acabei. – Ele disse, rindo, esticando a geleia de morango para perto de mim e dei um sorriso em agradecimento, pegando duas torradas do prato central. – Logo saímos.
– Só vou comer isso e já termino de me arrumar. – Falei.
– Café? – Ele ofereceu.
– Sim, por favor. – Falei e ele pegou minha xícara. – Ao menos estou bonita para encontrar seus colegas.
– Oh, merda! Eu estou ferrado! – Ele disse e sorri.
– Não, Danny. Eu não vou fazer nada. – Neguei com a cabeça, passando geleia na torrada. – Foca na classificação.
– E como você vai ficar? – Ele perguntou.
– Eu sei me virar. – Sustentei o olhar por alguns segundos antes de morder a torrada, passando o dedo no canto da boca, limpando a geleia que acumulou.
– Espero que sim… – Ele disse.
– Ela estará comigo. – Vi Michael voltando para a sala. – Bom dia.
– Bom dia. – Falei, sorrindo.
– Somos uma equipe, todos vamos ficar bem, mas o foco aqui é você, Daniel. – Michael disse, sério. – Cuida da pista, cuidamos do resto. – Danny virou o rosto para mim e assenti com a cabeça.
– Finja que eu não estou aqui e faça o que faz de melhor. – Ele assentiu com a cabeça.
– Vamos fazer juntos, ok?! – Ele disse e dei um curto aceno de cabeça em confirmação, mas eu não estava tão certa nisso.
*Lesgo! – Danny diz isso várias vezes, seria “let’s go”, mas para deixar o som igual, será citado frequentemente como “lesgo”
Daniel
Meu olhar acompanhava Harper pelo espelho no banco de trás, ela estava quieta desde que saímos do hotel. Esperava que desse tudo certo, tanto hoje e, principalmente, amanhã. Michael ficaria de olho nela para mim, mas todos tinham razão, eu não conseguia focar em várias coisas ao mesmo tempo, por mais que eu quisesse.
Chegamos na entrada privativa em Albert Park e saí do carro. Alguns torcedores acumulados nas grades gritaram por mim e fui em direção à eles para distribuir alguns autógrafos e tirar algumas fotos. Perdi Harper e Michael de vista por alguns minutos até sair de perto dos fãs e sorri ao encontrá-los me esperando logo após a catraca. Eles voltaram a andar e segui logo atrás deles.
– Vamos passar os compromissos: você tem 30 minutos para chegar na garagem e fazer os compromissos iniciais, depois uma hora até o treino. – Michael falava e assentia com a cabeça. – Você vai para reunião com a equipe, almoço, depois voltamos para o treino, para estar pronto às três.
– Tudo certo. – Falei, suspirando. – E depois outra reunião?
– Sim! Mas até sete horas você está livre. – Michael disse.
– Livre para ir ao hotel e ter uma ótima noite de sono. – Ouvi a voz de Maria e ri fracamente. – Bom dia, senhores.
– Alguém acordou de bom humor. – Falei.
– Espero que você também. – Trocamos um rápido cumprimento. – Já sabe dos seus compromissos?
– Sim, já! – Falei. – Está tudo certo. – Tem algo a mais que queira?
– Só as entrevistas de sempre, depois do treino e depois da classificatória, mas pensamos nisso quando chegar lá. – Ela disse. – Agora, vamos para a garagem.
– DANIEL! – Virei o rosto, encontrando Seb e Fernando se aproximando.
– Ei, caras! – Desviei do meu caminho para cumprimentar meu ex-companheiro de equipe, agora da Ferrari, e Alonso* da McLaren.
– Pronto para voltar? – Cumprimentei Seb.
– Já estava na hora! – Falei, rindo, passando para Fernando.
– Boa sorte em casa, Danny boy. – Alonso disse. – Espero que se saia bem.
– Atrás de você, aposto! – Brinquei e rimos juntos.
– Então… – Ele movimentou a cabeça e rimos juntos.
– Vejo que está acompanhado, Daniel. – Seb indicou o queixo para atrás de mim e desviei o rosto, encontrando Harper segurando os cabelos pelo vento.
– Boa escolha, Danny boy! – Fernando disse, me empurrando pelo ombro de leve e ri fracamente.
– Ah, não. Não é isso. – Neguei com a cabeça. – Ela é minha amiga da vida. Nos conhecemos desde pequenos. – Cocei a cabeça. – Ela vai me acompanhar esse ano.
– Você está me dizendo que são só amigos? – Fernando disse, me fazendo rir.
– Sim, só amigos. Melhores amigos, na verdade.
– Com aquele corpo? – Fernando continuou, me abraçando pelos ombros e indicou-a de forma discreta.
– É, só amigos. Desde os três anos. – Frisei.
– Bem que dizem que homem é idiota mesmo. – Ele deu dois tapinhas em meus ombros. – Mas já que você não quer, me passa o número dela?
– Ah, cara! Não! – Apertei as mãos nos olhos. – Não faça isso, por favor. Você não a merece. – Ele gargalhou, dando um tapa em meus ombros.
– Não se preocupe, Danny boy. Muito nova para mim. – Neguei com a cabeça.
– É, mas alguém ficou bem desesperado só com a chance de isso acontecer. – Seb disse e neguei com a cabeça.
– É sempre difícil quando um de nós começa a namorar porque somos como irmãos, mas eu preferiria que não fosse alguém que trabalhe comigo.
– Faz sentido… – Fernando disse. – Mas você vai perder alguém assim? Você é estúpido demais, Danny boy! – Ele deu uns tapinhas em minhas costas.
– Danny, let’s go! – Virei para Maria, Michael e Harper.
– Deixa eu só… HARP! – Chamei-a, fazendo-a focar em mim. – Vem cá! – Ela suspirou antes de vir em minha direção.
– Precisamos ir, Danny! – Ela disse, deixando um curto sorriso aparecer em seus lábios.
– Só quero te apresentar um pessoal. – Indiquei. – Seb Vettel e Nando Alonso. Essa é Harper, minha amiga de infância.
– Oi, tudo bem? – Ela disse com as bochechas enrugadas e sabia que estava com vergonha.
– É um prazer te conhecer. – Alonso disse, cumprimentando-a com dois beijos e queria matar esse espanhol de sangue quente.
– O prazer é meu. Vocês são ótimos. – Ela sorriu.
– Obrigado! – Eles falaram juntos.
– Passando um tempo com nosso Danny boy? – Pressionei os lábios com a fala de Seb e me sentia como uma criança, quando a diferença é só de dois anos.
– Sim, tirando um ano sabático do trabalho, aproveitando um pouco as vantagens. – Ela riu fracamente.
– O que você faz? – Fernando perguntou.
– Eu sou chef profissional. – Ela disse e notei seu sorriso ao falar essas palavras.
– Oh, isso é legal. – Fernando disse e revirei os olhos.
– Ela tem a melhor comida do mundo. – Falei e Harper virou para mim desanimada, ela odiava ser o centro das atenções com desconhecidos.
– Talvez possamos comer no seu restaurante um dia. – Seb disse.
– É, claro. Quando eu abrir um… – Ela disse, nos fazendo rir.
– Vamos resolver isso até o fim do ano, vou ser o patrocinador disso. – Ela negou com a cabeça.
– É, quem sabe? – Ela deu de ombros.
– DANIEL! – Maria gritou, me assustando.
– Estou indo! – Falei, virando para o pessoal novamente. – Eu tenho que ir.
– Provavelmente a gente também. – Fernando disse e cumprimentei-os rapidamente.
– A gente se vê! – Falei.
– Prazer em te conhecer, Harper! – Fernando disse.
– Prazer em conhecê-los também. – Ela sorriu. – Boa sorte.
– Obrigado! – Eles disseram e segui com Harper para o outro lado, vendo Michael voltar a nos acompanhar.
– Eles parecem legais. – Ela disse e revirei os olhos por baixo dos óculos de sol.
– Sim, eles são. – Bufei em seguida. – Vamos lá! – Puxei seu braço, seguindo em direção ao QG da Red Bull.
*Fernando Alonso: piloto espanhol, 40 anos, campeão mundial de 2005 e 2006. Ele e Danny são vistos frequentemente juntos no paddock e zoando um com o outro. Atualmente dirige pela Alpine.
Harper
Danny fazia alguns treinos de reflexo com Michael no fundo da garagem enquanto o restante da equipe terminava de fazer os últimos ajustes no seu carro. O treino havia sido bom… Pelo menos foi o que a equipe dele comentou sobre. No treino de ontem, por causa da chuva que caía, Danny acabou deslizando para a caixa de areia na curva 12, mas conseguiu recuperar a direção sem atingir a barreira, me deixando bastante aliviada, porque o coração chegou à boca.
No treino de hoje de manhã, Danny foi muito bem também, mas o suíço Grosjean* da Haas, e o indonésio Haryanto* da Manor, não tiveram a mesma sorte. Eles colidiram no pit lane e não conseguiram continuar com o treino e não sabia se conseguiriam fazer a classificação.
Do lado de Danny, apesar da calma aos fazer seus alongamentos e testes de reflexo, tudo estava pronto para a classificatória daqui menos de 10 minutos. Enquanto todos estavam ocupados, eu tentava não me machucar. Não tinha o costume de roer unhas, mas já tinha mordido bastante a ponta do meu dedo e o lábio inferior para saber que mais um pouco eu realmente conseguiria tirar sangue dali.
Por conseguir ouvir tudo o que os engenheiros estavam falando, eu abaixei o som do fone e estava conseguindo me desligar de tudo. Ia dar tudo certo, eu sei. Não tinha por que me preocupar. Danny também sabia o que acontecia comigo quando acontecia algo perigoso nessas corridas, então ele também não faria nada imprudente.
Ao menos que não fosse culpa dele, é claro.
– Harper? – Virei o rosto para Maria, abaixando o fone para os ombros e passei a mão na calça, secando da baba acumulada no dedo.
– Oi! – Falei um tanto assustada.
– Oh, você está bem? – Ela perguntou.
– Sim, sim… Sim! – Falei rapidamente, sacudindo a cabeça.
– Os pais do Daniel chegaram. – Ela indicou atrás e relaxei os ombros ao ver Grace e Joe abraçando Danny e deslizei meu corpo do banco, seguindo em direção a eles.
– Ah, aqui está você! – Grace disse ao me ver e ela me abraçou fortemente.
– Ah, que bom que estão aqui! – Falei em seu ouvido.
– Como você está? – Ela perguntou e percebi o olhar de Danny em mim com os fones na orelha.
– Eu estou bem. – Dei um curto sorriso, desviando dos olhos de Danny.
– Oi, querida! – Joe me abraçou e sorri, trocando dois rápidos beijos na bochecha.
– Daniel… – Virei o rosto, vendo Christian chamar Danny. – Dois minutos.
– Vamos lá! – Danny disse, tirando os fones da orelha e o iPod do bolso, entregando para Michael.
Ele subiu o macacão, escondendo a segunda pele embaixo dele e puxou o zíper central antes de fechar o velcro de cima. Ele fez um discreto sinal da cruz antes de erguer os olhos para mim. Sustentamos o olhar por alguns segundos e ele acabou com nossa distância, se colocando em minha frente.
– Como você está? – Ele perguntou.
– Eu estou bem, Danny. – Falei firme. – Foca em si mesmo e faça seu trabalho. – Segurei seu rosto com as mãos. – Eu estarei aqui quando acabar. – Dei um curto sorriso e dei um beijo em sua bochecha. – Arrasa, ok?!
– Não vai me chamar de “tigrão”? – Rimos juntos.
– Eu não tenho ideia de onde surgiu isso, mas… – Suspirei, rindo. – Arrasa, tigrão. – Rimos juntos. – É ridículo, vai.
– O que você prefere? Um tigre ou um texugo? – Ele perguntou e rimos juntos.
– Eu prefiro meu amigo arrasando lá. – Ele assentiu com a cabeça e me puxou pelo pescoço para beijar minha testa.
– Eu vou! – Ele disse, assentindo com a cabeça antes de seguir para perto do seu carro.
Engoli em seco, suspirando e senti um abraço em minhas costas e Grace me abraçava, me fazendo sorrir. Subi os fones de volta para minhas orelhas e passei o braço pelos ombros dela, me apoiando no bar no fundo da garagem enquanto via Danny trocando algumas palavras com seu engenheiro. Alguma coisa saía pelos fones, mas eu ainda estava desligada.
Danny ajeitou as joelheiras antes de entrar no carro e foi minha vez de fazer um sinal da cruz. O sorriso dele era largo como sempre, e eu sou feliz por poder vê-lo realizando esse sonho, é por isso que estou aqui. Só esperava que tudo desse certo.
Danny colocou o protetor bucal, a balaclava, depois o capacete e as luvas por fim. Tinha um alívio ao saber que toda sua roupa era a prova de fogo, mas por algum motivo isso não me fazia relaxar. O engenheiro e outras pessoas da equipe se aproximaram para terminar de ajeitar o carro e seu cinto de segurança, e eu sabia que era isso.
O contador da classificatória chegava perto do zero e foi quando ouvi o motor dos outros carros e alguns passando pelo pit lane em minha frente. Kvyat, parceiro de equipe de Danny, saiu antes e não demorou 10 segundos para Danny sair atrás e suspirei.
– Vem, querida. – Grace disse, indicando uma das televisões e segui para perto dela, subindo em outro banco, respirando fundo. O único problema de acompanhar estando no lugar, era esse, eu via pelas televisões.
A classificatória acontecia em três etapas*. A primeira com todos os 22 corredores, com 16 minutos, cada piloto mais lento sendo eliminado de 90 em 90 segundos após os primeiros sete minutos. Na segunda, com os 15 restantes, 15 minutos de corrida e depois de seis minutos, os mais lentos seriam eliminados a cada 90 segundos, sobrando oito carros. E por último, os oito carros têm 14 minutos para correr, depois dos primeiros cinco minutos, os pilotos mais lentos também são eliminados a cada 90 minutos, os últimos dois disputam a pole nos segundos finais.
Confuso, se me perguntar.
Na primeira corrida, Danny conseguiu passar sem problemas. Já os pilotos da Manor, Wehrlein* e Haryanto – que conseguiu arrumar o carro a tempo – foram os primeiros eliminados. Depois os dois da Haas, Gutierrez* e Grosjean. Em seguida Kvyat não conseguiu reduzir de 1:28 e ocupou um dos espaços vazios da garagem. Para finalizar a Q1*, os dois pilotos da Sauber, Nasr* e Ericsson* finalizaram eliminados.
Kvyat voltou bravo com o formato de classificatória e ouvi Danny comentar o mesmo quando voltou para o box antes da Q2. Danny também conseguiu um dos melhores tempos para seguir para a Q3, mas os dois pilotos da Renault, Magnussen* e Palmer*, os dois da McLaren, Button e Alonso, Bottas* da Williams e os dois da Force India, Hulkenberg* e Perez*, ficaram de fora.
Chegando para a Q3, os nervos em volta da garagem estavam bem fortes, mas Danny foi o primeiro a ser eliminado, me fazendo suspirar. Não sabia se era decepção ou alívio. Ao menos agora sabia que ele só entraria no carro amanhã.
– Não gostei dessas regras, é confuso! Todo mundo estava perdido! – Ouvi a voz de Danny quando ele parou em frente ao box e o ajudaram a entrar com o carro de ré.
– Também achamos, vamos entrar com pedido com a FIA.
– Eu tinha cinco minutos ainda! Que merda! – Ele reclamou, saindo do carro e fiz mais um sinal da cruz em agradecimento por ele estar bem.
– Esperamos que eles alterem no próximo. – Christian disse e Danny suspirou. – Mas é oitavo, é um bom começo.
– Podia ser melhor se eu tivesse tempo. – Danny disse, tirando o capacete e puxando a balaclava logo em seguida e vi seu rosto pingando de suor.
– Vai pesar, falaremos sobre isso na reunião. – Simon disse mais baixo, talvez como forma de abafar para algumas câmeras ali perto. Danny suspirou e virou o corpo pelos lados, um pouco perdido, até me achar.
– Ei! – Ele abriu um largo sorriso, bagunçando os cabelos.
– Ei… – Sorri, acenando com os dedos.
– Já volto. – Ele disse e assenti com a cabeça, vendo-o sair pela entrada do box e suspirei, virando o corpo no banco.
– Acho que eu aceito uma tequila agora. – Suspirei.
– Você não bebe tequila. – Grace disse.
– Agora eu bebo, pelo jeito. – Suspirei, seguindo até o bar que divide as duas garagens.
*Romaing Grosjean: piloto franco-suíço, 35 anos. Se aposentou da Fórmula 1 após um grave acidente no circuito do Bahrein em novembro de 2020. Atualmente corre pela categoria IndyCar pela Andretti Autosport.
*Rio Haryanto: primeiro piloto indonésio a competir na F1, 29 anos. Saiu da categoria em 2016 e foi para outras categorias.
*A F1 tentou fazer essa forma de classificatória no começo da temporada de 2016, mas acabou não dando certo e mudando no meio da temporada para os moldes atuais.
*Pascal Wehrlein: piloto alemão, 27 anos. Saiu da categoria em 2017, atualmente corre pela Fórmula E.
*Esteban Gutiérrez: piloto mexicano, 30 anos. Saiu da categoria no final de 2016, seguindo para Fórmula Indy e até E-sports. Teve certa proximidade com Daniel.
*Q1, Q2 e Q3: qualifying 1, 2 e 3 é a classificatória 1, 2 e 3 que acontece no sábado que define o grid de largada do domingo.
*Felipe Nasr: piloto brasileiro, 29 anos, esperança que não deu frutos do Brasil na F1. Saiu da categoria em 2016 e correu na Fórmula E em algumas oportunidades.
*Marcus Ericsson: piloto sueco, 31 anos. Correu na Fórmula 1 até 2018, ficou um ano como piloto reserva até seguir para a categoria IndyCar.
*Kevin Magnussen: piloto dinamarquês, 29 anos. Ficou na categoria até 2020, depois seguiu para IndyCar. Voltou para F1 em 2022.
*Jolyon Palmer: piloto britânico, 31 anos. Ficou na Fórmula 1 até 2017, depois se tornou comentarista do esporte. Atualmente trabalha diretamente para a F1 como comentarista.
*Valtteri Bottas: piloto finlandês, 31 anos. Piloto até 2021 pela Mercedes, agora pilota pela Alfa Romeo. Ele e Daniel possuem uma proximidade discreta, ambos correram nas categorias júniores juntos.
*Nico Hülkenberg: piloto alemão, 34 anos. Foi piloto principal até 2019, quando foi companheiro de equipe de Daniel, hoje é piloto de testes da Aston Martin F1. Participou da IndyCar também.
*Sergio Pérez: piloto mexicano, 32 anos. Piloto da Red Bull Racing após passar pela Racing Point, Force India, McLaren e Sauber.
Domingo
Daniel
Dei um pulo na cama ao achar que fosse cair e tentei me localizar onde eu estava, apoiando as mãos no colchão e erguendo o corpo. Suspirei ao me encontrar no meu quarto e estiquei a mão até o celular na mesa de cabeceira e vi que era 2:34, ainda tinha umas três horas de sono.
Suspirei, ajeitando meu corpo mais para dentro da cama e virei o rosto para outro lado, afundando o rosto no travesseiro de novo, franzindo os olhos ao perceber que estava sozinho. Ergui o corpo novamente, mais rápido dessa vez e dei uma rápida olhada em volta, procurando por Harper. Ela estava aqui quando fomos dormir.
Sentei na cama, apertando as mãos nos olhos antes de subir para os cabelos e desviei a cabeça para a porta do banheiro fechada, mas a luz estava apagada. Me levantei, abrindo a porta do quarto e encontrei tudo apagado. A porta do quarto de Harper estava aberta, mas ela não estava aqui.
Neguei com a cabeça, coçando a cabeça e andei pelo quarto a passos lentos, tomando cuidado para não fazer barulho. O que eu menos quero é acordar Maria. Caminhei devagar até a larga sala que era iluminada somente pela lua e luzes externas. Meus olhos passaram pelo local, mas segui pelo corredor dos outros dois quartos.
– Danny… – Voltei alguns passos, encontrando Harper sentada no chão, perto de uma das pilastras, sendo iluminada parcialmente. – Eu estou aqui.
– Ei… – Falei, me aproximando dela e apoiei a mão na parede antes de me sentar ao lado dela. –O que está fazendo perdida aqui?
– Só não consegui dormir. – Ela deu de ombros e passei um braço em seus ombros, puxando-a para perto de mim e ela tombou a cabeça em meu ombro. – Você deveria estar dormindo.
– Eu estou bem. – Falei.
– Você sempre diz isso. – Ela disse, suspirando.
– Você também e eu sei que mente. – Falei, apoiando minha cabeça na sua, ouvindo-a suspirar.
– Eu estou bem, eu prometo. De verdade. – Ela disse firme, apoiando a mão em meu joelho e levei minha mão até a sua.
– Você não está dormindo, Harp. Faz dois dias…
– Que você saiba… – Ela virou o rosto para mim e suspirei.
– Harp… – Falei e ela negou com a cabeça.
– Você sabe que eu não faço de propósito. – Ela disse. – É meu subconsciente ou sei lá…
– Espero que passe depois de amanhã… São 21 corridas, Harp…
– Vamos passar a primeira antes, pode ser? – Ela pediu e suspirei, entrelaçando nossos dedos.
– Sim… – Suspirei. – Mas eu não quero ver você assim…
– Você que acordou…
– Harp… – A repreendi.
– Desculpe… – Ela suspirou.
– Vamos voltar para cama… – Pedi. – Amanhã é exaustivo em vários sentidos, você precisa descansar.
– Eu sei, eu só não consigo desligar…
– Eu faço um chazinho para você, vai te ajudar…
– Não se preocupe, Danny, sério! – Ela pediu, suspirando. – Eu não posso ter alguém cuidando de mim sempre.
– Qual o problema em ter? – Perguntei e ela suspirou.
– Eu… – Ela suspirou. – Eu vou ficar dependente. – Ela riu fracamente.
– Bom, mais tempo conosco!
– É sério, Danny! – Ela disse.
– É assim que funciona uma amizade, Harp. – Falei. – Às vezes você precisa mais de mim, depois eu preciso mais de você. Um precisa compensar o outro. – Falei.
– O lado fraco sou sempre eu, Danny. – Ela disse.
– Não. Foi eu na época da escola…
– Nha, aquilo é coisa de criança, Danny, é diferente…
– Não importa, naquela época era o fim do mundo para nós… – Ela suspirou. – Vem, deixa eu te cuidar de você…
– Se você perder a corrida amanhã por causa de sono… – Me levantei.
– Não se preocupe, é a Red Bull Racing, Harp. Tem bastante energético para me deixar acordado. – Estiquei as mãos para ela, ouvindo-a rir.
– Espero compensar o sono depois da corrida. – Ela segurou minhas mãos e puxei-a para cima.
– Espero também. Desse jeito você vai virar um zumbi logo mais. – Ela deu um curto sorriso e puxei-a para perto antes de entrar no corredor. – E você fica chata quando tem sono.
– O problema é que eu não tenho sono, é como se eu tivesse acabado de acordar. – Ela suspirou.
– Eu canto para você dormir. – Rimos juntos.
– Ah, por favor, não! – Sorri, puxando-a até meu quarto novamente. – Eu prometo que me comporto.
– Não, não, agora eu faço questão. – Ela riu fracamente e fechei a porta novamente.
– Eu estou bem, de verdade! – Ela disse, sorrindo.
– Vai deitando, só vou mijar.
– Ok. – Ela disse e segui até o banheiro.
Passei pelo vaso sanitário, depois fui para a pia, passando água no rosto e na nuca, respirando fundo. Harper tinha razão, precisava dormir mais um pouco mais para enfrentar tudo isso. Voltei para o quarto, encontrando Harper deitada na cama virada para a parede e me deslizei ao seu lado, puxando o lençol para cima do corpo.
– Vamos dormir? – Comentei, me deslizando para perto dela e abracei-a pela cintura.
– Danny…
– Eu disse que vou te ajudar a dormir, nem se for te prender na cama. – Ela riu fracamente e encostei o peito em suas costas, parando a mão em sua barriga.
– Você não…
– Sim, preciso! Agora fica quieta e dorme. – Ela riu fracamente, apoiando a mão em cima dela.
– Você também. – Ele disse e nossos dedos se entrelaçaram, me fazendo suspirar. – Você me ouviu, Danny?
– O quê? – Perguntei perdido.
– Você também! Fica quieto e dorme! – Ri fracamente.
– Eu vou, não se preocupe. – Suspirei, fechando os olhos, me sentindo incrivelmente calmo, como se não tivesse nenhum problema no mundo.
Talvez não tivesse mesmo, é a Harper.
Harper
Eu estava me sentindo perdida de verdade. Acho que nunca vi tanta gente assim na minha vida. E eu vivi em Sydney por quatro anos da minha vida e fui em muitos shows e festivais quando mais nova. Acho que muito mudou desde a última corrida que eu vim de Danny. Tem uma grande diferença entre equipes.
A garagem da Red Bull estava apinhada de gente, da mesma forma que as outras nove garagens também estavam. Tinha muitos uniformizados da Red Bull que eu não tinha visto em nenhum dos outros dias, além da família de Danny e de Kvyat do outro lado. O pit lane estava cheio de imprensa e famosos, já tinha visto o ator Arnold Schwarzenegger sendo entrevistado por Mark Weber e David Coulthard, dois ex-pilotos da RBR.
Também vi o campeão Niki Lauda* andando por aí com Helmut Marko*, chefe da área de Fórmula Um da Red Bull. Danny já tinha me falado sobre ele, um cão, segundo meu amigo. Fala que Marko não é exatamente o chefe ideal e já reclamou para mim de suas ações invasivas até demais, especialmente quando tem um péssimo desempenho. Fiquei feliz por estar fingindo que não existo no fundo da garagem.
O dia começou normal, apesar do meu claro cansaço. Consegui dormir um pouco depois que Danny me abraçou, eu não sei o poder que ele tem, mas ele me deixa calma, ou talvez fosse meu medo de acordá-lo, porque ele sim precisava dormir e precisava estar bem alerto para a corrida daqui a pouco.
Nessa bagunça toda, acabei conhecendo Pierre Gasly*, piloto reserva da Red Bull, de somente 20 anos. O garoto era meio calado, uma diferença relevante entre nós, mas ao menos tinha outra pessoa perdida dentro da garagem além de mim.
Danny estava dentro do seu vestiário, mas logo voltaria para a foto em grupo e o início dos protocolos. Sei da importância desse momento de meditação dos pilotos, então encontrei um canto aqui e fiquei, vendo o pessoal indo e voltando para dentro da garagem. A última vez que eu levantei daqui foi para ir ao banheiro.
– Harp… – Virei o rosto, sorrindo com Michelle.
– Ei, vocês chegaram! – Pulei do banquinho, abraçando-a fortemente.
– Como você está? – Ela perguntou e abracei Jason, fazendo caretas para o meu afilhado.
– Oi, meu amor! – Fiz cócegas em sua barriga, ouvindo-o rir e ele esticou as mãos para mim, me fazendo pegá-lo no colo. – Ah, meu lindo! – Estalei alguns beijos em sua bochecha.
– Harper! – Virei para Michelle.
– Oi! – Falei, assustada.
– Como você está? – Ela perguntou.
– Sim, eu estou bem. Ainda estou bem! – Dei um curto sorriso, sentindo as mãos de Isaac em meu peito enquanto ele olhava tudo em volta.
– Cadê meus pais? – Ela perguntou.
– Devem ter entrado com Danny, eu honestamente não sei. Me perdi por alguns minutos. – Dei de ombros, me apoiando na bancada de novo. – Eles devem estar logo aqui. – Indiquei o relógio em regressiva na parede que marcava o tempo faltante para os momentos. – E meu meninão? – Beijei Isaac, ouvindo-o rir.
– Ele acordou animado hoje. Louco para ver o padrinho correr. – Michelle disse.
– Ao menos alguém está. – Suspirei, vendo Danny passar ao meu lado com Michael e seus pais.
– Mi! – Ele sorriu ao ver sua irmã e seu cunhado, e Michelle foi rápido abraçá-lo, enquanto isso Isaac deu gritinhos animado, me fazendo sorrir.
– Meu barulhento. – Falei, rindo. – Vai ficar duas horas preso com a madrinha! – Fiz cócegas em sua barriga, ouvindo-o rir e notei alguns olhares sobre a gente, divididos entre maus olhares e sorrisos e fiz uma careta. – Acho que precisamos ficar quietos, meu amor.
– Vai ser interessante ouvir os gritinhos dele pelo rádio. – Sorri para Danny, vendo-o com a segunda pele aparecendo devido ao macacão solto na cintura, além dos óculos escuros e do boné em sua cabeça.
– Desculpe a bagunça, mas ele me distrai. – Pressionei um beijo em Isaac, vendo-o fazer careta e Danny riu.
– Eu não me importo. – Ele fez carinho na barriga de Isaac, tocando minha mão e deu um beijo na outra bochecha dele. – Preciso aproveitar esse carinha aqui.
– Faça um bom trabalho hoje, não faça nada imprudente e eu peço para a Mi deixá-lo ficar conosco essa noite. – Falei.
– Combinado. – Ele disse, rindo.
– VAMOS, DANIEL! – Ouvi o grito, desviando o rosto das pessoas e vi Jeson Button chamando Danny com a mão.
– Eu tenho que ir, mas eu volto logo após a parada antes de…
– Eu sei, eu sei! – Assenti com a cabeça. – Eu vou lá para perto quando vocês estiverem desfilando.
– Você sabe que não…
– Estou tirando uma com a sua cara, barbicha! – Falei e ele riu fracamente. – Agora vai! – Disse e ele sorriu, dando um beijo em minha cabeça antes de seguir para fora da garagem. – Vamos lá ver o padrinho? – Falei com Isaac. – Posso, Mi?
– Claro! Eu vou contigo! Mãe? Pai? Jay?
– A gente espera aqui! – Tia Grace disse e assenti com a cabeça antes de seguir com Mi.
Passei pela garagem, desviando das pessoas até sair para o lado de fora, abaixando os óculos escuros com o feito por causa do sol das duas da tarde. O pit lane estava lotado, mas segurei firme Isaac em meu colo e segui até a grade, desviando da área de análises da RBR. Estamos mais no meio do grid, então era difícil ver, mas os pilotos estavam se unindo no começo do grid para a foto em grupo.
Atrás deles, estavam os carros que os levariam para o tradicional desfile de pilotos pelo circuito. Eram carros conversíveis tradicionais, exatamente para esse tipo de coisa. Parece que não mudaram tanto quanto nos anos que eu vinha.
– Como foi a noite de ontem? – Virei para Mi.
– Como assim? – Perguntei.
– Você dormiu bem? Como está o nervosismo? – Suspirei.
– Eu não sei, honestamente. É incrível, de verdade, estar aqui, estou tentando ao máximo deixar os momentos bons sobrepor os maus, mas à noite muda totalmente, não durmo direito à dois dias…
– Harp…
– Eu estou bem, Mi. Eu prometo. Na verdade, eu estou melhor do que em todas as vezes, eu estou aqui. – Ela deu um curto sorriso.
– É, Harp! E você é uma vencedora por isso. – Sorri, sentindo-a me abraçar pela cintura.
– Já que eu sou uma vencedora, posso ficar com o prêmio deles? – Indiquei a pista e ela riu comigo.
– Se o Danny ganhar, a gente pode tentar fazer um acordo com ele. – Mi disse, me fazendo gargalhar.
– Combinado! – Sorri, apoiando minha cabeça na dela.
*Niki Lauda: ex-piloto austríaco, falecido em 2019. Possui três títulos mundiais na categoria. Famoso pelo acidente no GP da Alemanha em 1976, quando seu carro incendiou, mas ele sobreviveu, somente com algumas sequelas. Esse drama é retratado no filme Rush – No Limite da Emoção.
*Helmut Marko: ex-piloto austríaco, ficando somente dois anos na categoria, já que ficou cego de um olho após uma pedra bater em seu visor. Hoje ele é o chefão da área de Fórmula 1 da Red Bull, sendo o principal responsável por quem está na equipe hoje e quem entra nas categorias juniores.
*Pierre Gasly: piloto francês, 26 anos. Foi piloto de teste e reserva da Red Bull durante as temporadas 2015 e 2016. Em 2017 subiu para a equipe B da Red Bull, a Toro Rosso – assim como Daniel começou. Em 2020 a equipe mudou o nome para AlphaTauri e ele continua com eles.
Daniel
Observei Harper de longe com Isaac e minha família e aquilo me fez sorrir como sempre. Quando éramos mais novos, nós éramos as crianças, não tinha pessoas mais novas que a gente, mas agora é incrível vê-la com ele e mais incrível ainda poder dividir esse trabalho de padrinho com ela. Fiquei feliz demais pela escolha de Michelle. Ao menos divido o maior amor do mundo com minha melhor amiga, não com uma amiga estranha de Michelle ou com as irmãs estranhas de Jason.
– Dan… – Michael indicou e parei a corda no meio do caminho, sentindo-a bater em minhas canelas e juntei as duas pontas, enrolando a corda antes de entregar a Michael. – Como está se sentindo? – Ele me entregou a garrafa de Red Bull e coloquei o canudo na boca, sugando mais alguns goles.
– Eu estou bem! – Falei, assentindo com a cabeça. – Vamos arrasar!
– É assim que se fala! – Ele me entregou meu iPod. – Se prepare. Cinco minutos.
– Ok. – Falei, assentindo com a cabeça e segui em direção à minha família.
– Está na hora? – Meu pai perguntou.
– Sim. – Falei, suspirando. – Vai começar a formação do grid.
– Boa sorte, filho. – Meu pai me abraçou e senti dois tapinhas em minhas costas.
– Obrigado. – Falei, passando pela minha mãe, sentindo um beijo dela em minha bochecha.
– Boa corrida, meu filho. – Ela sorriu.
– Obrigada, gente! – Abracei Michelle de lado. – Espero vê-los no pódio.
– Nós também, não vim até aqui à toa. – Harper disse e sorri.
– Vai comigo até o carro? – Pedi.
– Claro. – Ela assentiu com a cabeça, entregando Isaac para Mi. – Vou furar alguns pneus. – Ela brincou e rimos juntos quando ela passou ao meu lado.
– Eu queria que você fosse até o grid comigo. – Comentei, me aproximando do carro.
– Posso ir do outro lado da grade. – Ela disse e sorri.
– É? – Perguntei.
– É. – Ela assentiu com a cabeça com um sorriso nos lábios.
– Você está me surpreendendo, Harp.
– Ai, Danny! – Ela negou com a cabeça e sorri.
– Vamos, Wandinha. – Brinquei e ela seguiu ao meu lado para fora da garagem. Maria estava na entrada e começou a andar conosco.
O pit lane estava mais vazio do que na hora da parada dos pilotos, mas agora os engenheiros de todas as equipes levavam os materiais para a preparação no grid. Subi o zíper do macacão e fechei o botão no pescoço, caminhando pelo pit lane.
– Eu sou o oitavo, é do lado direito, perto da grade, me encontra lá quando acabar aqui, ok?! – Falei para Harp e ela assentiu com a cabeça.
– Claro, mas foca no que você precisa fazer. Faça seu trabalho direito e eu torço. – Sorri.
– Combinado. – Passei o braço pelos seus ombros e dei um beijo em sua cabeça. – Nos falamos em duas horas.
– Boa corrida. – Ela disse e assenti com a cabeça, abaixando a mão de seu ombro. – Faça o que faz de melhor.
– Pode deixar. – Sorrimos e segui alguns passos para trás, acenando antes de seguir para o meio das pessoas.
Como sempre, teve uma rápida apresentação dos pilotos antes do hino nacional. Era diferente quando estou em casa, porque faz sentido cantar o hino e existe algo mais profundo tocando dentro de mim. Que seja mais uma temporada incrível e que dê tudo certo hoje e nas outras corridas.
Quando os protocolos terminaram, com a passagem dos Roulettes e um FA18 da Força Aérea e coloquei meu iPod na orelha de novo, dando play na mesma playlist que eu estava ouvindo para treino e segui ao lado de Maria pelo grid até meu carro, fugindo dos possíveis repórteres. Sendo na Austrália e os repórteres da F1 serem Weber e Coulthard, ex-pilotos da RBR, tinha certo favoritismo.
Encontrei minha equipe cuidando do carro e cumprimentei Simon, dando dois toques no meu capacete e vi Harper em uma das aberturas da grade, apoiado com os braços e o corpo inclinado para frente, observando o caos no grid. Seu olhar voltou para mim e sorri, vendo-a abaixar os óculos escuros até o nariz e dar uma piscada antes de ajeitar os óculos para cima e ri fracamente.
Pisei na parte de fora da pista e me abaixei de cócoras, começando meus alongamentos. Deixei a música me levar para um momento mais calmo e relaxante, antes da agitação de alguns minutos.
Fiquei 10 minutos naquela posição antes de me levantar, tirando o iPod da orelha, enrolando o fio no aparelho antes de virar para Harper que mantinha a posição, mas acompanhava meus movimentos por baixo dos óculos. Lhe estiquei meu iPod e ela o pegou.
– Cuida para mim, por favor. – Pedi e ela assentiu com a cabeça.
– Pode deixar. – Ela falou e tirei os óculos, entregando-a também e ela colocou na gola de sua camiseta. – Isso eu vou pegar para mim. – Sorri.
– Eu pego de volta de novo. – Falei, rindo.
– Arrasa, tigrão. – Ela disse e sorri.
– Por você. – Pisquei, vendo-a sorrir e dei a volta, me colocando em frente do carro, peguei os fones do meu engenheiro, passando pela boca antes de colocar nas orelhas*.
Coloquei um pé para dentro antes do outro e me ajeitei no cockpit, colocando os ombros para dentro e me inclinando para trás, encaixando meu corpo no banco. Um dos assistentes me deu o HANS, depois o protetor bucal, a balaclava, depois o capacete e me ajudou a prender um no outro. Coloquei as luvas e outra pessoa me ajudou com os cintos de segurança, me fazendo grunhir com o impacto em minha virilha.
Isso é incrivelmente desconfortável.
Suspirei, pegando o volante e o encaixei, fazendo rápidos testes nos botões e na marcha, vendo as luzes acenderem. Fechei os olhos por alguns segundos, respirando fundo. Virei o rosto para o lado novamente, vendo Harper na mesma posição pelo espaço na viseira e dei um curto sorriso.
– Checagem de rádio, Daniel. – Ouvi.
– Alto e claro. – Respondi.
– Bom! 30 segundos. – Simon disse.
– Vamos lá, caras! – Falei, suspirando, vendo os engenheiros começarem a sair com pressa da pista e fechei a viseira.
– 20 segundos. – Meus olhos subiram para as três luzes vermelhas e soltei a respiração devagar. – 10 segundos.
– Boa sorte, Daniel! – Ouvi Christian.
– Obrigado, cara. – Falei, suspirando e comecei a acelerar enquanto as luzes apagavam uma por uma. Quando a última apagou, saímos para a volta da apresentação.
Saí com movimentos de zigue-zague para começar o aquecimento dos pneus, sempre mantendo minha posição no grid, dando a primeira volta até o grid de largada novamente, vendo o espaço vazio, agora que todos saíram. Me coloquei em meu lugar e olhei para as luzes verdes junto das amarelas, indicando atenção.
– Daniel, outra volta de apresentação, Kvyat com problemas técnicos. – Simon me falou e os carros logo saíram novamente, me fazendo suspirar. Esse era um péssimo jeito de começar a corrida: não começando.
Já até imaginava como seria a reunião depois daqui, Helmut estaria puto, o que deixaria Christian puto e o resto do pessoal também. Além de que esse abandono de Kvyat antes do começo da corrida não era nada bom para o campeonato de construtores, mas pensaria nisso depois.
Quando voltei para o grid de largada, ainda tiravam o carro de Kvyat da pista, mas as luzes desligadas indicavam que seria a largada para valer agora. Me coloquei no meu lugar e esperei a primeira luz vermelha aparecer para pisar no acelerador, mantendo o pé no freio.
Segunda luz…
Terceira luz…
Quarta luz…
Quinta luz…
– Pega eles, garota. – Sussurrei antes de soltar o pé do freio.
*Eles fazem isso para o fone, feito de silicone, criar um vácuo na orelha e não ter chances de cair.
Capítulo 6
Duncraig, Austrália, 1997
– Falei para mamãe que a gente podia comer pizza amanhã. – Harper disse, caminhando para fora da sala.
– Uh, seria legal! – Danny disse, animado, pulando na frente da amiga. – Festa?
– Não sei quantas pessoas precisam ter para ser considerado uma festa. – Ela pensou, fazendo as marias Chiquinha tombar para o lado com o movimento da cabeça.
– Você, seu pai, sua mãe, eu, pai, mãe, Mi?
– Sim, a Mi sim! – Harper sorriu, animada. – Vovó também, ela veio de Sydney. – A menina abriu um largo sorriso.
– Vai chamar alguém da sala? – Danny perguntou mais baixo, começando a andar de costas, segurando a mochila pelos ombros.
– Minha mãe falou para eu chamar, mas eu não quero. – Ela fez uma careta. – Só ficou o pessoal chato. – Ela suspirou.
– Talvez a gente deveria ir para escola de Perth também. – Danny disse e Harper suspirou.
– Ai, não sei… – Ela jogou a cabeça para trás, sentindo o sol do pátio em seus olhos. – É longe de tudo, a Bella disse que demora uma hora e meia de van até lá… – Danny fez uma careta.
– A gente pode esperar chegar na quinta série. – Ele falou.
– Eu acho. – Ela deu de ombros. – E não tem por que eu chamar mais gente, eu sempre gosto de ficar contigo mesmo, Danny. – Ele sorriu. – Mais gente lá só atrapalha.
Antes que Danny pudesse falar algo, o garoto tropeçou para trás, fazendo-o cair de bunda e mochila no chão. A risada de alguns garotos foi ouvida e Harper virou o rosto raivosa para eles. Seus olhos ficaram vermelhos e as narinas inflaram como nunca.
– HENRY, SEU IDIOTA! – Ela gritou com o chefe do grupinho da terceira série.
– Uh, machuquei seu namorado, foi? – Ele disse debochando, se levantando, passando por cima de Daniel ainda no chão.
Henry era alto demais para um garoto da terceira série, mas isso porque ele deveria estar na quarta, ou talvez até na quinta, segundo boatos, mas parece que, mesmo com a falta de crescimento da Harper aos quase oito anos, ela não tinha medo de encarar o garoto.
– Você não pode fazer isso com as pessoas só porque é maior do que elas! – Ela disse, irritada, batendo o pé no chão.
– Opa, parece que eu já fiz. – Ele deu de ombros, esbarrando o ombro na menina, fazendo-a tombar para o lado e saiu pelo pátio da escola.
Harper costumava ser uma menina calma, mas não tinha nenhuma paciência para estupidezes assim, mesmo que a desculpa fosse a idade dos envolvidos. Não era a primeira vez que Henry fazia isso com Daniel, mas todas as vezes ela deixou para lá, mas agora não. O sangue da menina ferveu e ela deixou sua mochila no chão antes de correr em direção à Henry que saía de perto com seus amigos.
– HARPER! – Ela ainda ouviu a voz de Daniel antes de pular nas costas do valentão, fazendo-o se desequilibrar e cair com tudo no chão com ela em cima dele.
– Você… Não… Pode… Fazer… Isso… Com… As… Pessoas! – Ela falava pausadamente, enquanto batia de punhos fechados em qualquer parte de Henry que seu corpo atingia. – Você… É… Um… Idiota… E… Vai… Pagar!
Uma rodinha de crianças se formou em volta das pessoas e Daniel levantou surpreso com o feito de sua amiga. Ele bateu a areia da roupa e pegou a mochila rosa de Harper do chão. Ele sabia que deveria fazer algo para ajudá-la, mas ele estava incrivelmente surpreso em saber que sua amiga com problemas de crescimento estava dando uma surra no valentão da escola.
– BRIGA! BRIGA! BRIGA!
– Ah, meu Deus! – A professora da segunda série passou correndo por Daniel, passando pelo grupinho que circundava o grupo e encontrou Henry tentando se proteger com as mãos, ao menos o grandão não tentou revidar em Harper. – Harper! Harper! – A professora puxou a menina pela cintura, vendo-a ainda socar o ar algumas vezes. – Chega! Chega! Chega! – Ela gritou algumas vezes, colocando a menina no chão, apoiando as mãos nos ombros dela. – Para sala da direção agora!
– Mas a culpa não foi minha, ele que derrubou o Danny! – Ela tentou explicar.
– Para diretoria, os dois, agora! – Ela corrigiu, falando mais devagar. – E sem bater mais! – Ela suspirou e Harper ajeitou as marias Chiquinha nos ombros antes de seguir em direção à porta da escola, encontrando Daniel na frente dela.
– Harper, isso…
– Nos falamos depois. – Ela disse.
– Foi demais! – Ele disse, rindo, abraçando-a de lado e ela deu um sorriso. – Obrigado.
– Não precisa agradecer. – Ela deu de ombros.
– Harper Addams, para dentro, agora! – Ela ouviu a voz da professora de novo e soltou o amigo, dando um aceno de mão antes de seguir para dentro.
Henry passou por Daniel com o rosto avermelhado e o mais novo deu um sorriso, rindo em seguida do que tinha acontecido. Harper talvez perderia a excursão de fim de ano por isso, mas talvez Henry finalmente pararia de encher o saco dos dois.
Danny percebeu a mochila de Harper em sua mão, então seguiu para dentro da escola, andando até a sala da diretoria, ficando um tanto longe enquanto Harper e Henry ficavam na sala de espera. Assim que eles entraram na sala, Danny ocupou o espaço na sala de espera, só fazendo a secretária da diretora olhar para ele, mas qualquer um sabia que onde Harper estava, Daniel estava atrás, ou vice-versa.
Danny não ouvia o que era conversado lá dentro, mas fazia bastante tempo que estavam lá. Foi quando tia Helena passou pela porta da diretoria que ele sabia que tinha sido mais sério que o esperado e talvez não quisesse estar ali agora.
– Oi, eu sou Helena, minha filha Harp… – O olhar de Helena chegou em Danny e ele deu um sorriso desconfortável, diferente de todos os seus sorrisos famosos. – Danny, o que aconteceu?
– Eu estou bem, tia Helena, é a Harp que está lá dentro. – Ele fez uma careta.
– O que ela aprontou?
– Ela foi me defender e… – Sua voz se calou quando a porta da diretora se abriu e Harper, Henry e a diretora saíram de lá de dentro.
– Senhora Addams. – A diretora disse. – Bom que conseguiu vir.
– Desculpe a demora, eu estava no mercado. – Ela disse e a diretora assentiu.
– A senhora Gordon não conseguiu vir? – A diretora perguntou ao que a secretária só negou com a cabeça. – Muito bem. Você pode ir, Henry, vou ligar pessoalmente para sua mãe mais tarde. – O garoto sabia que estava em apuros, então só aceitou e saiu o mais rápido possível dali. – Agora, senhora Addams…
– O que aconteceu? – Helena perguntou, vendo os cabelos de Harper bagunçados, além do claro suor escorrendo pela sua testa.
– Ele machucou Danny. – Foi o que ela disse e Daniel manteve o sorriso de orgulho para a amiga.
– E ela bateu no Henry. – A diretora disse.
– Harper…
– Nem vem! – A garota disse, irritada. – Todo dia o Henry puxa meu cabelo, puxa os cachinhos do Danny, derruba a gente e nossas coisas e ninguém faz nada, então eu fiz! – Ela cruzou os braços. – Pode me expulsar e fazer o que quiser, mas se ninguém defende a gente, eu vou defender. – Helena estava surpresa pela reação da filha, mas muito orgulhosa por ela se impor desse jeito.
– Mas essa não é a forma de resolver as coisas. – A diretora disse.
– O que Harper disse é verdade? – Ela perguntou para a diretora que ergueu o olhar para Helena, suspirando.
– É sim! – A voz de Danny foi ouvida e a diretora revirou os olhos para o menino.
– Sim, é verdade, mas…
– Mas nada! – Helena disse. – Não sou a favor de violência, mas se esse garoto acha que pode implicar com as crianças só por ser maior do que elas, ele precisa ser controlado. Eu fui chamada aqui porque minha filha seria expulsa pelo que fez, e ele? Se não é a primeira vez, por que ele não foi expulso? – Ela olhou fixo para a diretora, acariciando os cabelos de Harper.
– O que ele fez não é nada comparado com o que a Harper fez… São coisas de criança e…
– Com licença. – Os quatro viraram o rosto para a mulher que entrava na área da direção. – Eu sou Amelia Gordon, me chamaram aqui por causa do meu filho.
– Eu entendi agora… – Helena disse ao reconhecer a primeira-dama de Duncraig entrar. Uma cidade tão pequena tinha algumas péssimas tradições a seguir ainda e tratar os poucos governantes como deuses, por serem os maiores investidores da cidade, ainda era uma delas. E Helena odiava por isso. – Agora entendi tudo, senhora diretora. – Helena deu um sorrisinho que deixou as crianças confusas.
– Senhora Addams, isso…
– Poupe seu fôlego. – Helena disse, rindo, tentando não deixar o sarcasmo muito evidente. – Acho que depois disso, podemos ir, certo? Acredito que tudo está resolvido. – Ela olhou sério para a diretora, desviando o olhar para a senhora Gordon. – Certo?
– É, certo! – A diretora disse e Helena deu um aceno de cabeça para senhora Gordon.
– Tenham um bom dia. Vamos, Harper, Daniel. Eu te levo para casa, querido! – Ela esticou a mão para o menino também.
– Eles ainda têm educação física hoje. – A diretora disse.
– Hoje não. Não mais! – Helena disse, puxando as duas crianças para fora da sala da direção, evitando bufar de raiva.
– O que aconteceu, mamãe? Eu não tô encrencada? – Harper perguntou, pegando sua mochila com Danny.
– Não, meu amor, não está. – Ela disse, fazendo carinho no ombro da filha. – Mas vocês dois vão se mudar para escola de Perth no ano que vem, não quero nem saber. – Ela disse, irritada e Harper e Daniel se olharam entre as pernas de Helena, confusos, mas preferiram não dizer nada.
Melbourne, Austrália, 2016 – Domingo
Harper
Eu olhava para aquelas diversas pessoas no grid e parecia que algo borbulhava dentro de mim. Faltava poucos segundos para o começo da corrida e eu esperava não pagar nenhum mico na frente de ninguém, muito menos vomitar na garagem. Talvez não devesse ter comido aqueles hambúrgueres que Danny comeu. Às vezes esqueço que o estômago dele é um triturador, não tão delicado quanto o meu.
Observei-o se levantar de cócoras após bons minutos nessa posição e ele tirou os fones da orelha, enrolando os fios no aparelho antes de se aproximar de mim novamente. Ele esticou para mim e peguei-o, guardando no bolso de trás da calça.
– Cuida para mim, por favor. – Assenti com a cabeça.
– Pode deixar. – Ele tirou os óculos e me entregou também, o qual coloquei na gola da camiseta. – Isso eu vou pegar para mim. – Falei.
– Eu pego de volta de novo. – Ele disse, rindo, me fazendo acompanhá-lo por poucos segundos antes de suspirar.
– Arrasa, tigrão. – Repeti as mensagens que eu o mandava antes das corridas e ele piscou para mim.
– Por você. – Ri fracamente, vendo-o se virar e conversar com seu engenheiro, colando os fones na orelha.
Danny deu uma rápida alongada nos braços, fazendo o macacão esticar em seu corpo, antes de entrar no cockpit. Fiz um sinal da cruz discreto e suspirei, pressionando os lábios. O rosto de Danny sumiu por dentro do capacete antes de ele colocar as luvas por último.
Arrasa, Danny!
Engoli em seco quando ele virou o rosto em minha direção novamente e dei um curto sorriso, apesar de não saber se ele havia visto. Suas mãos apertaram o volante e vi os engenheiros descerem o carro, tirarem as proteções de pneu e saírem rapidamente da pista.
Dei uma olhada em volta rapidamente e achei que estava na hora de sair correndo do meio do pit lane também. Passei pelo canto, procurando o ponto da Red Bull e achei o pit wall, seguindo para dentro da garagem. A equipe de mecânicos para o pit stop já estava pronta, ocupando algumas cadeiras e segui atrás deles, indo para o fundo da garagem, encontrando a família de Danny novamente.
– Aí está ela! – Joe disse e dei um aceno de cabeça.
– Ei, gente! – Sorri, me sentando no banco que ele liberou para mim.
– Pronta? – Grace perguntou e assenti com a cabeça, suspirando.
– Vamos lá. – Ergui os fones para a orelha, apoiando um braço na bancada.
– Boa sorte, Daniel! – Ouvi a voz de Christian pelo rádio.
– Obrigado, cara. – Danny respondeu e vi, pelo portão da garagem, os carros começarem a sair, me fazendo suspirar fundo.
Os engenheiros no grid começaram a andar rapidamente pelo pit lane e para dentro da garagem, então desviei o olhar para uma das várias televisões. Senti alguém segurar minha mão e vi Michelle, me fazendo sorrir.
– Onde está Isaac? – Perguntei.
– Dormindo. – Ela disse e assenti com a cabeça.
– É Kvyat! – Ouvi falarem na garagem e ergui o olhar para a TV novamente, vendo um dos carros da Red Bull parados no fim do grid.
– Merda! – Não reconheci a outra voz no rádio, mas os engenheiros que mal tinham chegado, saíram para resolver isso. Na imagem mostrava os marshals* ajudando Kvyat a sair do carro.
– Daniel, outra volta de apresentação, Kvyat com problemas técnicos.
O clima esquentou um pouco dentro da garagem por esse pequeno problema, mas os carros saíram para outra volta de apresentação. Aquilo só estava adiando o inadiável. Começa logo!
O companheiro de equipe de Danny apareceu na garagem logo em seguida e o pessoal começou a abrir espaço para fazer o carro caber de volta na garagem, já que tudo estava pronto para acompanhar a corrida e só precisar sair daqui para um pit stop.
Não sabia dizer se eles pegariam o carro reserva para tentar seguir com a corrida, mas ignorei tudo quando vi as luzes vermelhas começarem a acender uma a uma. A mão de Mi me apertou com mais forma e entrelacei nossos dedos, suspirando. Outra mão tocou meu ombro e Grace me abraçou de lado, me dando vontade de chorar com esse apoio dessa família incrível.
– Pega eles, garota! – Danny disse.
Quando as cinco luzes se apagaram, o barulho do motor dos carros ficou mais alto e os carros largaram com aquela tradicional bagunça de sempre. Demorou para meu corpo relaxar, porque também demorou para os carros separarem entre si, mas fiquei aliviada quando nenhum carro bateu.
Demorou quase até a terceira volta para eu descobrir a posição de Danny, ele acabou caindo para nono, sendo passado por Hulkenberg da Force India, provavelmente na bagunça da largada. Mordi meu dedo livre, apoiando a cabeça na de Grace, suspirando.
A vantagem de ver as corridas de dentro da garagem, era que tinha muito mais câmeras do que na televisão, inclusive o onboard de Danny. Era interessante por alguns minutos, depois acabava se tornando um tanto enjoativo em vários sentidos. Era como estar em uma montanha-russa, mas por uma hora e meia.
Na quinta volta, Danny recuperou o oitavo lugar ao passar Hulkenberg pela direita, fazendo o pessoal na garagem vibrar e só consegui dar um curto sorriso em comemoração. Um pódio em casa seria ótimo depois de 2014, quando ele classificou e finalizou a corrida em segundo lugar e, depois da corrida, foi desclassificado por exceder o limite por hora da taxa de fluxo de combustível. Não entendo sobre esses detalhes, mas me parece conversa fiada.
Lembro como isso o deixou irritado e afetado, mas ele ainda conseguiu sair por cima – como sempre – e terminar o campeonato em terceiro*, sua melhor colocação até hoje. Esperava que esse ano fosse bom assim, ou melhor.
Na décima volta, outra animação da torcida e dos mecânicos na garagem, Danny passou Massa, ficando em sexto e sabia que eu tinha perdido a ultrapassagem de outra pessoa, mas isso era bom demais para Danny! Ele estava ganhando espaço e ainda faltava 47 voltas.
– Pneus macios. Box, Daniel. Box! – Ouvi o engenheiro falar e tirei um lado do fone. Eu estava totalmente alheia ao que acontecia à minha volta e às decisões do engenheiro e do chefe de equipe.
– Entendido. – Danny disse com a voz cansada.
O carro de Danny não demorou mais do que um minuto para aparecer na frente da garagem, antes de sair mais rápido ainda, não dando tempo nem de respirar. Danny saiu do pit stop em décimo, mas recuperou o nono lugar antes de chegar na volta 14. Na décima quinta, ele passou Jenson Button, voltando para oitavo novamente.
– Isso, Danny! – Comemorei e senti que meu corpo estava se acostumando com a situação. Espero que continue assim.
Enquanto a televisão mostrava a briga de Hamilton com Rosberg, ambos da Mercedes, pelo primeiro lugar, a câmera que eu via mudou para carro que saiu pela caixa da areia em uma curva. Senti um aperto rápido, mas o carro não havia batido na barreira, talvez só um deslize. Meu alívio passou quando a câmera mudou de ângulo, mostrando outro carro destruído na barreira.
– Quem é?! – Perguntei rápido.
– Está ok, Harper! – Grace me abraçou com mais força. – Eles estão bem, saíram andando. – Ela falava, mas a imagem de um dos carros totalmente destruído não me deixava confortável.
– Não é o Danny! – Mi disse. – Respira! Respira! – Minha boca entreabriu com a respiração e meu corpo gelou quando mostrou o replay do acidente.
Alonso encostou em Gutierrez, fazendo uma das rodas do espanhol sair e o carro de ambos saírem pela caixa de areia, mas pela força da batida, o carro de Alonso girou 360 graus, batendo com tudo na lateral, como se fosse uma bola de tênis.
– Ah não, ah não! – Senti a respiração começar a sair mais forte, fazendo meu peito doer e as lágrimas embaçaram meu olhar.
– Harper! Respira! Respira! – Grace disse, me forçando a olhar para ela, mas não conseguia.
Puxei o fone com força de minha cabeça, alheia ao que estavam falando e deslizei do banco, saindo correndo pelo corredor interno da garagem, me apoiando na primeira parede escondida que encontrei e apertei a mão no peito, sentindo meu coração bater forte demais. Meu corpo deslizou para o chão e apertei as mãos nos olhos, sentindo as lágrimas inundarem-nos.
– Harper! Harper! – Grace e Michelle apareceram em minha frente.
– Respira, Harp. Está tudo bem! Eles estão bem! – Mi falava, passando a mão em minhas pernas.
– Está tudo bem, amor! Alonso está bem! Ele está voltando aqui. – Soltei a respiração com força. – Respira! Respira!
Sabia que as falas de Grace eram inúteis, pois não era a primeira vez que isso acontecia. A última que eu vi, infelizmente, foi com uma batida de Danny, mas já fazia cinco anos e ele também saiu bem, mas meu corpo não entendia. Então eu precisava deixar a crise passar, não tinha como parar agora.
– Harper! – Danny apareceu embaçado em minha visão e seu corpo foi para o chão.
– Danny… – Falei fracamente. – O que está fazendo aqui? – Ele me abraçou fortemente.
– Bandeira vermelha. Eu tive que vir! – Ele disse e suspirei, fechando os olhos entre seus braços.
*F1 marshalls: são os seguranças que ficam em volta da pista, prontos para ajudar em algum tipo de acidente ou abandono.
*Na temporada 2014, sua estreia na Red Bull, Danny terminou o campeonato em 3º lugar atrás de Hamilton e Rosberg com 238 pontos.
Daniel
– Daniel, bandeira vermelha, box agora. Box! – Simon falou.
– O que aconteceu? – Perguntei, mantendo os olhos focados na pista.
– Alonso e Gutierrez bateram, muitos destroços na pista. – Engoli em seco.
– Como eles estão? – Perguntei apressado.
– O carro do Alonso deu perda total, mas ambos estão bem, andando e já voltando para garagem. – Suspirei.
– Entendido. – Falei, engolindo em seco. – Chequem Harper.
– O quê? – Ele perguntou.
– Chequem minha amiga, por favor. – Falei, seguindo o safety car de volta até o pit lane, vendo a bagunça dos engenheiros e mecânicos.
Parei o carro não tão longe da nossa garagem, estando em quarto lugar. Tirei o volante do carro, colocando-o em cima e impulsionei meu corpo para cima, saindo do carro, encontrando minha equipe chegando.
– Daniel! – Simon me chamou. – Como está? – Ele perguntou.
– Como está minha amiga? – Perguntei firme, tirando o capacete da cabeça.
– Eu não a vi. – Me afastei alguns minutos. – Aonde vai?
– Eu preciso de dois minutos.
– Por que isso é importante? – Ele perguntou e puxei a balaclava da cabeça.
– Dois minutos. – Pedi, enfiando a balaclava dentro do capacete e corri por entre as pessoas até chegar na garagem da Red Bull.
– Daniel! – Ouvi a voz de Christian.
– Dois minutos! – Pedi firme, entrando apressado na garagem, não encontrando minha família onde eles estavam antes. – Onde está Harper? – Perguntei aleatoriamente, passando para a parte de dentro da garagem, encontrando minha família acumulada ali com Harper que estava no chão aos prantos.
– Ah, merda! Harper! – Deixei o capacete no chão, enquanto me abaixava ao seu lado.
– Danny… – Ela disse, surpresa. – O que está fazendo aqui? – Abracei-a fortemente, apoiando a mão em sua cabeça, apertando-a contra meu peito.
– Está tudo bem! Está tudo bem! – Falava agitadamente. – Respira! Respira! – Pedi.
– Você precisa focar na corrida, Danny. – Ela disse.
– Eu vou, mas precisava ver como você está. – Falei, afastando seu rosto de meu corpo devagar, enquanto passei as mãos em seu rosto. – Olha para mim! Está tudo bem! – Falei firme. – Fernando está bem. Esteban está bem. Eu estou bem! Não deixe os pesadelos voltarem de novo. – Passei meu dedo próximo a seus olhos, secando as lágrimas, vendo seu nariz puxar a respiração com força e os lábios entreabertos.
– Daniel… – Ouvi uma voz e suspirei.
– Respira! Respira! – Ela soltava a respiração devagar em um pequeno bico. – Respira… – Ela assentiu com a cabeça. – Melhor? – Ela assentiu com a cabeça e fiz o mesmo, dando um beijo em sua testa. – Eu preciso voltar, mas está tudo bem. – Falei firme e ela assentiu com a cabeça. Virei o rosto para meus pais. – Fiquem de olho nela. – Pedi baixo.
– Vá trabalhar! – Meu pai rosnou para mim e assenti com a cabeça, verdadeiramente dividido em não largar a corrida para ficar com Harper.
– Daniel! – Virei o rosto, encontrando Christian.
– Estou pronto! – Falei, seguindo ao seu lado.
– O que está acontecendo? – Ele perguntou. – Os caras precisam de você.
– Ela precisava mais de mim agora. – Falei, lhe entregando o capacete para recolocar a balaclava.
– Daniel! – Ele me repreendeu.
– Longa história! – Abanei a mão, andando de volta ao carro.
– Vamos falar sobre isso depois, entendido? – Ele disse e assenti com a cabeça, pegando o capacete novamente. – Agora volta sua bunda para lá, estamos em quarto e com um piloto só. Consiga nosso pódio! – Ele disse.
– É para já! – Falei, rindo, me aproximando no carro.
Entrei no cockpit novamente, fazendo o mesmo ritual de antes, me arrumando para a retomada da corrida. Estando em quarto lugar, seria mais difícil ainda, precisava contar um pouco com a boa sorte, como Kimi* abandonando a corrida por fogo escapando da saída de ar.
Na vigésima sexta volta, consegui ultrapassar Verstappen, da escuderia irmã da Red Bull, a Toro Rosso, onde eu apareci em 2012. Se continuar assim, já tinha ao menos um pódio, mas tinha metade da corrida ainda. E minha curiosidade para saber se a crise de ansiedade de Harper tinha passado, só fazia a corrida parecer mais longa ainda.
Na trigésima sexta volta, consegui passar Hamilton, ficando em segundo lugar, mas o britânico não deu trégua, colando em mim em toda oportunidade possível. Precisava abusar da vantagem de RBR nas curvas, porque na reta a Mercedes ganha a batalha fácil demais.
– Não abusa do macio. – Ouvi a voz de Simon. – Não vai aguentar.
– Ele está colado em mim, temos que fazer algo. – Falei firme. – Qual o tempo dele?
– Menos de um décimo atrás de você. Zero ponto seis. – Bufei, apertando as mãos com mais força no volante. – Zero ponto cinco.
Cabeça livre, Daniel. Cabeça livre.
O granulamento* dos pneus começou a deixar o carro um pouco mais instável e sabia que não aguentaria até o fim da corrida com eles. Sem surpresa, Hamilton me passou novamente na curva oito. Merda!
As coisas ficaram piores quando um sacolejar me assustou e eu bufei mais forte, apertando o volante para evitar uma possível virada.
– Puncture*. – Falei.
– Rodou? – Simon perguntou.
– Não, firme ainda. Não estourou, mas está puxando para o lado esquerdo. – Falei.
– Box agora. Box. Confirmar.
– Entendido. – Falei, desviando para a direita, entrando no pit lane assim que chegou.
O pit stop foi feito com rapidez e acelerei para sair dali o mais rápido possível, conseguindo sair antes do outro carro aparecer à minha lateral e sorri com a nova estabilidade do carro.
– P5, Daniel. P5. – Simon disse. – Massa a meio segundo de você.
– Vamos, garota! – Falei, fazendo minha caçada a Massa.
Demorou mais três voltas para que eu conseguisse finalmente alcançar meu amigo brasileiro. Agora faltam três para eu passar.
– A torcida está indo ao delírio com você. – Ri fracamente.
– Let’s go, aussie, aussie! – Falei, animado. – Quem está na minha frente? – Perguntei.
– Vettel P3. 15 segundos de você. – Merda, é muito! – E Massa está dois segundos de você.
Droga! Precisava primeiro distanciar de Massa para conseguir alcançar Vettel.
Meu pé afundou no acelerador, mantive firme as mãos no volante enquanto mudava a marcha pelos botões atrás dele para fazer o carro ganhar mais aderência na pista, mas Vettel estava mais longe que o planejado. Eu precisava pressionar muito mais forte.
– Daniel, essa volta foi a mais rápida da corrida. – Simon disse.
– MESMO? – Falei, animado.
– Sim. 1:29.420. – Ele disse e os ruídos da garagem saíram pelo fone.
– Isso!
– Continue pressionando. Massa a 12 segundos de você. – Ele disse.
– E Seb? – Perguntei do meu ex-companheiro de equipe.
– 18 segundos. – Simon respondeu.
– Vamos, garota! Vamos, garota! – Falei, tentando forçar um pouco mais do carro, sentindo os movimentos do carro me pressionar para baixo.
– Daniel, reduzimos de novo. 1:28:997.
– ARGH! ISSO! HÁ HÁ HÁ! – Falei, animado. – Quantas voltas eu tenho?
– Sete! – Ele respondeu.
Apesar de reduzir o tempo de Seb para 15, depois para 14, eu não tinha mais voltas e nem forças para continuar. Eu já estava fervendo dentro do carro! Os músculos estavam contraídos e prontos para relaxar o mais rápido possível.
– Essa foi a bandeira quadriculada, Daniel. P4.
– Droga. – Sussurrei.
– Foi um ótimo começo! – Ele disse. – Rosberg, Hamilton, Vettel, você, Massa, Grosjean, Hulkenberg, Bottas, Sainz*, Verstappen*, Palmer, Magnussen, Perez, Button, Nasr e Wehrlein.
– Parabéns, Daniel! – Ouvi a voz de Christian. – Sei que não foi perfeito, mas foi muito bom.
– Obrigado, caras. Foi muito poderoso, foi divertido, foi uma boa corrida, isso é certeza.
– Parabéns! – Simon disse e aproveitei algumas voltas para cumprimentar os fãs nas arquibancadas.
*Kimi Räikkönen: ex-piloto finlandês, 42 anos, se aposentou no final de 2021. Campeão mundial de 2007. Danny diz que no começo da sua carreira Kimi fez uma brincadeira de mal gosto com ele que o fez desafiá-lo muitas vezes na pista.
*Granning ou granulamento é o desgaste dos pneus, fazendo deixar pedaço na pista e desestabilizar o carro.
*Puncture: expressão para quando o pneu fura ou estoura na corrida.
*Carlos Sainz: piloto espanhol, iniciou sua carreira na equipe B da Red Bull, a Toro Rosso. Hoje dirige pela Ferrari.
*Max Verstappen: Piloto neerlandês, 24 anos, iniciou sua carreira na equipe B da Red Bull, a Toro Rosso. Hoje está na equipe principal e é campeão mundial de 2021. Foi companheiro de equipe do Daniel de 2016 a 2018 após a saída de Kvyat.
Harper
– Ei, Harp! – Ergui o rosto, vendo Michelle na porta. – Terminou.
– Como ele foi? – Perguntei, engolindo em seco.
– Quarto lugar. – Ela disse e dei um sorriso. – E volta mais rápida. – Sorri.
– Ele merece. – Suspirei.
– Vem! O pessoal está comemorando. – Engoli em seco.
– Não acho que tenho cara para aparecer lá depois de…
– Besteira! – Ela disse, entrando no vestiário de Danny e se sentou ao meu lado.
– Não, Mi! O Danny saiu do carro e veio me ver. Isso não pode acontecer. – Neguei com a cabeça. – Eu não superei isso, não posso ficar tendo crise de ansiedade e preocupando o Danny ou deixar o pessoal que não tem nada a ver com isso preocupado.
– Sabíamos que seria difícil, Harp, mas podemos tentar de novo. – Suspirei.
– Não. Talvez eu deva ficar aqui na Austrália e mudo meus planos com a Michelin e fico pela Oceania. – Suspirei, vendo a porta abrir novamente, revelando Danny completamente suado, com os cabelos abaixados e o capacete na mão.
– Harp…
– Não! – Falei firme.
– O quê? – Ele perguntou, apoiando o capacete na mesa.
– Não fala nada! – Pedi e Michelle se levantou ao meu lado.
– Eu vou deixar vocês conversarem.
– Mi… – Pedi e ela negou com a cabeça, antes de seguir para fora do vestiário e suspirei quando a porta se fechou. – Não fala nada, por favor. – Pedi, erguendo o olhar para Danny.
– Eu quero saber como você está. – Ele se ajoelhou em minha frente, segurando minhas mãos.
– Danny…
– Harp! – Ele falou firme.
– Não podemos fazer isso, Danny! – Suspirei. – Você está trabalhando! Merda! Você não pode me colocar em primeiro aqui.
– Eu sempre vou te colocar em primeiro, Harp. Depois de todos esses anos, você ainda insiste nisso?!
– Não aqui, Danny! – Suspirei. – Não aqui! Não quando milhões de euros está em jogo. Não quando tem uma equipe de 50 pessoas contando contigo lá fora. – Suspirei. – Não com seis milhões euros de salário* anual que dá uma pressão gigantesca.
– Harp! Foca! – Ele apertou minhas mãos. – Está tudo bem! Eu tive um bom resultado! Nando e o Esteban estão bem. Não tem problema nenhum.
– Tem, Danny! – Falei sério, suspirando em seguida. – É melhor eu ficar por aqui pelo res…
– Não! Não! Não! – Ele se levantou, apressado. – Prometemos fazer isso juntos. Não pode deixar um acidente mudar isso.
– Como vamos fazer isso, Daniel? – Ergui o olhar para ele. – E se tiver um acidente em cada corrida? E se tiver um acidente em cada classificatória? E se você se acidentar? – Perguntei, aumentando meu tom de voz.
– A gente vai lidar com isso! – Ele aumentou seu tom também. – Da mesma forma que fizemos em todos esses anos. – Ele suspirou. – Você já fugiu demais, Harper! Se eu deixar você ir embora e voltar para Perth, o que você vai fazer? – Ele perguntou. – Você consegue me garantir que vai ficar bem? – Franzi a testa.
– O que está falando? – Perguntei fracamente.
– Não é só sobre hoje, Harp! Você precisa disso. Eu preciso de você. Eu não posso deixar você voltar para Perth se você não ficar bem. – Ele suspirou. – Sim, tivemos uma batida hoje. Sim, você se lembrou de 2009, mas você está aqui! – Ele segurou minhas mãos novamente, se aproximando de mim. – Não esperava que você magicamente superasse quase sete anos de trauma. – Ele suspirou, se abaixando de cócoras na minha frente. – Não esperava uma batida daquele jeito também, mas aconteceu… – Ele negou com a cabeça. – Por favor. Não desista no primeiro dia.
Observei o rosto pingando suor de Danny, os cachos abaixados por causa do suor e do capacete, além da marca do fio do fone descendo como uma moldura em seu rosto, mas mesmo com todo cansaço, Danny tinha aquele mesmo sorriso esperançoso no rosto. Minha mão foi para a testa dele, secando um pouco do suor na linha do cabelo antes de secar em minha calça jeans.
– Eu não sei o que fazer. – Suspirei. – Eu não vou ter sua família em toda corrida, eu não posso surtar na frente da sua equipe, eu…
– Vamos dar um jeito. – Ele apertou minhas mãos novamente. – Juntos. Como fizemos em todas as oportunidades. – Engoli em seco.
– Eu não tenho mais certeza, Danny…
– Eu tenho! – Ele sorriu. – Eu estou feliz por estar comigo. Veja quanto nos divertimos e ainda é março…
– Ainda é março. – Suspirei e ele apertou a mão na minha.
– Vamos fazer isso juntos, por favor. – Ele se levantou antes de se sentar ao meu lado, segurando minha mão e levando para seu colo. – Um dia de cada vez, pode ser? – Suspirei, apoiando minha cabeça em seu ombro, sentindo o suado de seu corpo na roupa.
– Pode… – Falei fracamente e ele beijou minha cabeça.
– Só vamos ter que ser honestos com minha equipe, pode ser? – Ele disse. – Você pode confiar neles, de verdade. Maria é durona, mas ela é confiável. Christian, Simon e os mecânicos também.
– Eu não quero atrapalhar… – Falei baixo.
– Não é questão de atrapalhar, Harp. – Falei. – Você é uma contratada da Red Bull, cuidamos dos outros. – Suspirei.
– Parece muito para uma equipe de Fórmula Um.
– Um pouco… – Ele assumiu. – Mas funciona e estou com eles há oito anos para confiar. – Suspirei, erguendo o rosto para ele.
– Isso não vai te dar problema, né?! Sua posição no final da corrida…
– Não, Harp! Eu tenho mais três anos de contrato, ninguém me viu, foi como se eu tivesse entrado para mijar. – Pressionei os lábios e ele tirou o cabelo de meu rosto. – Está tudo bem. E Nando e Esteban também… – Ela assentiu com a cabeça. – Está tudo bem.
– Ok… – Assenti com a cabeça. – Eu estou com dor de cabeça agora pelo choro, mas vejo depois…
– Não faça isso de novo, por favor. Ver você chorando daquele jeito… – Engoli em seco. – Doeu em mim.
– Desculpe… – Ele negou com a cabeça.
– Não precisa se desculpar. – Ele disse. – Só não me assusta de novo.
– Vou tentar. – Passei as costas da mão no nariz.
– E você vai ficar comigo. – Ele disse e suspirei.
– Falamos disso depois. – Pedi e ele assentiu com a cabeça. – Você não tem algum compromisso pós-corrida ou..?
– Eu tenho que dar umas entrevistas, mas eles devem estar com o pessoal no pódio ainda.
– Parabéns pela corrida. Foi quase.
– Qua-a-a-ase! – Ele me imitou quando criança, me fazendo rir. – Só temos uma parte ruim nisso, tá?
– O quê? – Ele suspirou.
– Christian quer falar comigo sobre o que houve e… – Franzi os lábios.
– Pede desculpas para ele. – Ele negou com a cabeça.
– Não tem que pedir desculpas, eu só quero saber se eu posso contar o motivo.
– Eu não tenho problema com as pessoas saberem, Danny. – Falei. – Na verdade, seria péssimo se vazar que a melhor amiga de Daniel Ricciardo tem medo de assistir corridas… – Ele sorriu. – Mas não tenho problema nenhum com isso. – Ele assentiu com a cabeça.
– Combinado. – Ele me abraçou pela cintura. – Vamos relaxar um pouco. – Apoiei a cabeça em seu ombro novamente. – Você é a única pessoa que não tem nojo do meu estado.
– Eu não tenho escolha quando você é o único que me acalma desse jeito. – Falei, ouvindo-o rir.
*Média de salário de Daniel em 2016. Pode ter variação de bônus e informações desencontradas.
Daniel
– Vamos! Preciso tirar essa roupa e tomar um banho! – Falei, me levantando e puxei-a pelas mãos. – E vamos melhorar esse rosto também. – Dei uma olhada em volta, pegando meus óculos escuros e cobri os olhos avermelhados de Harper. – Perfeito! – Ela deu um curto sorriso, passando as mãos nos cabelos presos.
– A gente vai falar com o pessoal agora? – Ela perguntou.
– Ah, não, eles estão preocupados com o pós-corrida. Agora a gente vai para o prédio de trás, eu vou falar com a imprensa no meio do caminho, reunião pós-corrida, tomar banho e jantar. Pode ser?
– É, claro! Estou atrás de você. – Ela disse e abracei-a pelos ombros, dando um rápido beijo em sua testa antes de nos separar novamente. – E estou com fome também.
– Você pode pegar qualquer coisa que quiser lá no prédio. – Falei, pegando o boné da Red Bull e coloquei na cabeça antes de abrir a porta.
– Wow! – Harper disse e virei o rosto para porta, vendo minha família acumulada ali. – Oi.
– Está tudo bem? – Minha mãe perguntou.
– É! Ela está pronta para a próxima! – Virei para Harper e ela pressionou os lábios, me fazendo sorrir. – Vocês podem ir para o prédio de trás, eu vou falar com a imprensa e Harper vai comigo. – Falei e minha mãe me deu “o olhar”. – Está tudo bem, é sério. Dê um tempinho para gente!
– Nos encontramos lá, então. – Minha mãe disse, revirando os olhos antes de se virar.
– Ah, vamos ficar com o Isaac essa noite. – Falei e Mi virou para mim.
– Mamãe e papai terão a noite de folga? – Jason perguntou, rindo e dei de ombros.
– Aproveita. – Falei, vendo eles saírem e virei para Harper. – Vamos.
– É melhor você… – Ele indicou a porta e me virei, vendo Maria.
– Oh, ei! – Falei.
– Está tudo bem aí? – Ela perguntou, espiando dentro do vestiário.
– Sim, tudo certo e tudo resolvido! Podemos ir?
– Sim, por favor! – Ela disse, indicando o caminho e fiz o mesmo com a cabeça para Harper, seguindo atrás dela e Harper veio ao meu lado. – Christian marcou uma reunião após a reunião de engenharia. – Maria anunciou.
– Outra? – Perguntei.
– Para falar sobre… O que quer que aconteceu hoje. – Ela disse.
– Isso foi minha culpa, Maria, eu não tive intenções de…
– Você não tem culpa de nada, Harp. Xi! – Falei firme. – Eu escolhi isso, mas sim, vamos resolver isso mais tarde. – Falei para Maria. – Está tudo bem, prometo.
– Daniel, Daniel! – Ela falou, suspirando e dei um sorriso sarcástico.
Dei alguns acenos para pessoal da minha equipe, distribuindo alguns tapinhas nos mecânicos e Christian indicou seus olhos com o dedo indicador e o médio antes de virá-los para mim e fiz positivos com as mãos. Parte de mim sabia que eu não deveria ter feito isso, não era o momento, mas eu arrastei Harper para cá, então eu sou responsável por ela, não importa o que falem.
– Vai! – Ela indicou a entrada do quadrado onde fica a imprensa e virei para trás, vendo Harper assentir com a cabeça e seguir um pouco mais à frente, na rua do paddock.
Suspirei e segui a fila atrás de Palmer para falar com os repórteres. Nos cumprimentamos rapidamente e ele me parabenizou antes de começar minhas entrevistas com 12 dos 15 repórteres presentes ali. O assunto foi o de sempre sobre a corrida, meu desempenho em casa e o povo lembrando sobre a desclassificação de 2014, nada de novo. Depois disso, Maria me tirou do meio deles, passamos pela divisão do paddock e encontrei Harper do outro lado.
– Esperou muito? – Perguntei.
– Não, está tudo bem. – Ela disse andando ao meu lado.
– Ah, droga! – Maria disse e virei para ela.
– O quê?
– Sky Sports. – Ela indicou à frente e vi os três repórteres da emissora australiana literalmente no meio do paddock. – Eu os odeio! – Ela suspirou.
– Eu vou, falo com eles por dois minutos e entro no prédio, ok?! – Falei. – Eles são legais! – Dei de ombros.
– Dois minutos! – Maria disse firme.
– Te encontro lá. – Harper indicou o motorhome da RBR no meio do paddock e assenti com a cabeça.
Segui de encontro a eles, desviando de várias pessoas que andavam pelo paddock. Isso parecia bar depois do expediente, todo mundo só estava lá, mas ninguém realmente fazia alguma coisa. Maria me indicou o produtor da emissora e passei por ele para pegar o microfone antes de colar nos três apresentadores que faziam o programa pós-corrida.
– Estamos aqui com o garoto local que está correndo para chegar em nós. Ótima corrida.
– É! E aí, galera? – Falei.
– Como você está?
– Estou bem! Percebo que o fim de semana foi corrido quando não falei com nenhum de vocês três. – Comentei. – Foi corrido, então, gooday.
– Você deve estar feliz com a performance que conseguiu fazer hoje. Foi uma corrida difícil para todo mundo. – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Sim, estou muito feliz, estava falando sobre ficar no pódio em casa, mas estou genuinamente feliz. Quarto é ótimo, não perfeito, mas estou mais feliz pelo ritmo que conseguimos manter. Não deu para acompanhar o ritmo da Ferrari e da Mercedes, mas conseguir isso na primeira corrida, excedeu expectativas. – Falei.
– O que te agradou e o que não te agradou com o desenvolvimento do carro? – O outro perguntou.
– Nos demos muito bem com o gerenciamento de pneus. Essa é a primeira caixa que quero marcar. Também conseguir manter um ritmo bom e pressionar do pneu para um bom ritmo, sem desestabilizar. – Falei. – Passamos carros bem rápidos hoje: Williams, Toro Rosso, Force India, abusamos bastante de unidade de energia e sabemos que isso só vai melhorar após algumas corridas. – Finalizei.
– Sabemos que precisa correr para reunião de equipe, mas o que acha que pode atingir, levando em conta essa primeira corrida?
– Acho que podemos focar em mais corridas duras, esperamos que venha mais cedo do que mais tarde, até Montreal talvez, queremos distribuir um pouco de champanhe. – Eles riram.
– Obrigado, Daniel, por falar conosco.
– Obrigado, caras! – Falei, devolvendo o microfone para o produtor antes de seguir a passos rápidos pelo paddock, vendo Harper na entrada do prédio da Red Bull e passei pela divisão.
– Boa corrida, Danny boy! – Virei o rosto para o lado, encontrando Alonso na divisão entre os dois prédios.
– Ah, cara! Você não morre mais! – Falei, me aproximando dele. – Péssima expressão agora, eu sei. – Nossas mãos estalaram.
– Não mais! – Ele disse, rindo, me abraçando por entre a divisória.
– Como você está? – Dei dois tapinhas em seus ombros.
– Eu estou bem, sem um arranhão. – Ele sorriu.
– Continua bonitão. – Rimos juntos e virei para trás, vendo Harper com as mãos apertadas em frente ao rosto. – Um segundo, por favor.
– Claro! – Ele disse.
– Harp! – Chamei-a com a mão. – Vem cá! – Falei e ela seguiu em minha direção. – Por favor, fala para ela que você está bem.
– Eu estou bem, Danny girl! – Ela riu fracamente.
– Está tudo bem mesmo? – Harper perguntou, parando ao meu lado.
– Sim, eu estou bem! – Alonso disse, relaxado, soltando o macacão no corpo. – Só o carro, mas resolvemos isso depois…
– Eu fiquei tão assustada. – Harper apertou as mãos no rosto.
– Eu estou bem. Vamos fazer alguns exames mais tarde para ver a parte interna, mas visualmente não tem nada. Obrigado por se preocupar. – Ele sorriu para Harper e ela retribuiu, me fazendo revirar os olhos.
– Nos encontramos depois? – Falei para Fernando.
– Sim, vai lá, Danny boy! – Nossas mãos se estalaram novamente, se transformando em um abraço antes de ele abraçar Harper. – Se cuidem!
– Você também! – Harper disse, sorrindo e passei a mão em suas costas, guiando-a para dentro, sentindo a mudança de temperatura pelo ar-condicionado.
– Ah, você não vai ficar caidinha pelo Alonso, vai? – Perguntei.
– O quê? – Ela disse, rindo, andando em minha frente. – Ele é bonito. – Ela deu de ombros.
– Ah, qual é! – Tombei a cabeça para trás. – Ele era um dos meus ídolos.
– E ele está muito mais bonito hoje! – Ela sorriu e revirei os olhos. – Ah, Daniel, eu reclamava de você com a Jemma, mas você é pior do que eu. – Ela negou com a cabeça. – Eu só sorri para ele e você já está pensando que vai acontecer alguma coisa. – Sua risada foi alta.
– Eu tentando mostrar para você que ele está bem e você flertando com ele.
– Eu só sorri! – Ela falou mais alto, gargalhando em seguida. – Deus! Você é terrível! – Rimos juntos.
– Vai dizer que se não tivesse chance você não aproveitaria? – Perguntei.
– É claro que sim! – Ela falou, rindo. – Mas aposto que você também. – Franzi a testa, ponderando com a cabeça em seguida.
– É… Você está certa! – Falei, fazendo-a rir.
– Deus! Você é muito enciumado. Estou ferrada quando eu namorar. – Ela negou com a cabeça, se aproximando da cantina.
– Eu vou para minha reunião, te chamo quando for sua vez de participar.
– Eu vou pegar algo para comer e ficar com sua família. – Ela disse, indicando meus pais do outro lado da parede de vidro.
– Até mais! – Falei.
– Até! – Ela respondeu.
– Não flerta com mais ninguém! – Falei alto.
– Daniel! – Ela me repreendeu, me fazendo gargalhar.
*Gooday: expressão para bom dia usada no “inglês australiano”.
Harper
– Eles são legais. – Falei.
– Eu te falei! – Ele me passou as batatas fritas e peguei. – Eles vão te ajudar, você só precisa deixar. – Deixei a vasilha na cama antes de colocar duas batatas na boca.
– Eu só não sei o que esperar, Danny. – Suspirei. – Eu não consigo controlar, pode vir calmo ou pode vir como veio hoje… Volta aqui! – Puxei Isaac de volta para o meio da cama, fazendo a risada dele ecoar pelo quarto. – Já ia aprontar, né?! – Peguei-o no colo, ouvindo-o rir
– Vem cá! – Danny o colocou no meio da cama. – Fica! – Ele disse firme. – Fica!
– Ele não é um cachorro, Danny. – Falei, rindo, comendo outras batatas e entregando a vasilha para ele. – Pode acabar!
– Acho que estou mais cansado do que ele! – Ele disse, suspirando.
– Eu estou um desastre. Hoje foi muito pesado para mim… – Falei, vendo-o acabar com as batatas.
– Precisamos coloca-lo para dormir. – Danny disse, suspirando.
– Você vai ter que dormir aqui para o deixarmos entre nós dois, todas as camas são altas.
– Eu durmo. – Ele disse. – Não estou com coragem de levantar. – Rimos juntos.
– Eu vou pegar a mamadeira dele e esquentar, arruma a cama, por favor. – Pedi.
– Sim, eu vou tentar. – Ele disse e deslizei meu corpo da cama, passando por cima de suas pernas antes de pular no chão.
– Eu podia ter te dado licença. – Ele disse e ri fracamente.
– Logo volto. – Ajeitei os shorts no bumbum antes de sair do quarto.
– A madrinha é gata, né?! – Ouvi a voz de Danny, me fazendo sorrir e segui até a pequena copa que tinha no quarto.
Peguei a mamadeira que Michelle tinha dado e coloquei para esquentar por alguns segundos. Fiz o teste da temperatura no braço antes de secar o local no corpo. Peguei um paninho na bolsa de Isaac antes de voltar para o quarto, encontrando ambos da mesma forma de antes, mas agora Isaac estava deitado na barriga de Danny.
– Conseguiu acalmá-lo? – Perguntei.
– Somos parceiros de soneca, isso precisa funcionar. – Ele disse, passando a mão nas costas de Isaac e voltei a subir na cama, entregando a mamadeira para Danny.
– Mamá! – Isaac disse, animado e peguei as vasilhas e caixas de nosso delivery e levei tudo para o lixo.
– Você aguenta aí rapidinho? Vou escovar os dentes. – Falei.
– Claro! – Ele disse e entrei no banheiro, colocando pasta na escova e depois em minha boca, começando a escovar os dentes.
Parei na porta entre o banheiro e o quarto e vi Danny se ajeitar apoiado na cabeceira da cama e segurou Isaac em seu colo, que já sugava o líquido da mamadeira. Aquilo me fez sorrir o suficiente para eu derrubar pasta em minha blusa, me fazendo entrar de volta no banheiro. Terminei de escovas os dentes direito, limpar o ponto de pasta na blusa, mas só ficou uma mancha de água entre os seios.
Voltei para o quarto e Danny estava da mesma forma, mas agora fazia carinho nos cabelos loiros de Isaac e sorri. Fechei a porta do quarto e do banheiro antes de seguir para a cortina e fechei-as, deixando somente uma fresta de luz entrar antes de voltar para cama, me sentando.
– Ele está terminando. – Ele disse e fiz carinho no pé gordinho de Isaac.
– Ele está tão grande. – Suspirei, me apoiando na cabeceira também.
– Nas férias ele vai estar com um ano e meio. – Ele falou e suspirei.
– Dois no fim do ano. – Falei, coçando a cabeça. – É por essas e outras que estou repensando o que fazer. Eu não quero ser aquelas madrinhas que são só pelo posto, mas não curtem o afilhado.
– Não é sua escolha, Harp. Isso é normal…
– Até pode ser, para você também pela sua carreira, mas não quero mais. – Acariciei os cabelos de Isaac. – Depois de tanto sonhar em conhecer o mundo, e realizar isso, acho que agora eu quero me aquietar. – Ele sorriu com os lábios fechados e deixou um beijo em minha cabeça.
– Vamos fazer isso funcionar. – Ele disse e assenti com a cabeça, vendo o líquido sumir da mamadeira de Isaac. – Agora só faltam 20 corridas. – Ri fracamente.
– E eu mal sobrevivi à primeira. – Ele negou com a cabeça.
– Vai passar. – Ele disse. – Até o fim da temporada, você vai estar soltinha. – Ri fracamente.
– Espero que sim! – Suspirei, vendo Isaac soltar a mamadeira da boca. – Acabou. – Falei.
– Você vai ninando ele? Eu vou escovar os dentes.
– Claro! – Falei, endireitando o corpo e peguei Isaac, apoiando-o em meu peito. – Vem com a madrinha, meu lindinho! – Falei.
– Soninho. – Ele disse e sorri.
– Vamos dormir, meu amor. – Dei um beijo em sua cabeça.
– Mamãe? – Suspirei.
– Mamãe logo vem, meu amor. – Era besteira, mas odiava mentir para ele. – Dorme que ela chega mais rápido. – Ouvi o baixo arroto sair de sua garganta e estava pronto para virá-lo. – Vamos deitar aqui!
Girei o corpo de Isaac na cama, apoiando sua cabeça no travesseiro baixinho e peguei o ursinho de pelúcia em forma de honey badger de Danny e Isaac o abraçou. Puxei o lençol para cima dele, acariciando a cabeça dele.
– Dorme bem, meu lindo. – Observando Isaac ali, sonolento calminho assim, só conseguia pensar que eu queria um para mim.
– Estou atrapalhando os pombinhos? – Danny voltou e ri fracamente.
– Não, só estou olhando para ele. – Ele se deitou na cama do outro lado de Isaac. – Eu quero um para mim. – Fiz um pequeno bico.
– Um bebê? – Ele perguntou.
– Sim… – Fiz um bico.
– Se quiser, podemos fazer um agora… – Rimos juntos e neguei com a cabeça.
– Não acho que nós termos um bebê seja a solução para meus problemas, Daniel! – Ele gargalhou alto, colocando a mão na boca ao olhar para Isaac.
– Oh, merda! Talvez não! – Ele tinha um largo sorriso nos lábios, deixando suas covinhas em evidência. – Seria legal por 10 minutos, então…
– Estranho para o resto da vida! – Falei e ele jogou a cabeça para trás.
– Ah, cara! – Ele negou com a cabeça. – Mas entendi, Harp. E eu dou maior apoio se você quiser, de verdade. – Sorri.
– Obrigada, Danny. – Suspirei. – Mas acho melhor eu me encontrar antes de colocar um filho no mundo. – Ele virou o rosto para mim, erguendo um pouco o corpo por causa de Isaac.
– Uma coisa de cada vez, mas a gente chega lá. – Sorri, assentindo com a cabeça.
– Sim! – Relaxei meu corpo na cama. – Como é a programação amanhã? – Perguntei.
– Eu durmo até acordar, depois tenho relaxamento, massagem, sauna, piscina, depois eu estou livre. Volto a treinar na terça. – Ele disse.
– E sobre a viagem? – Perguntei.
– Eu tenho um evento em Byron Bay no sábado dia 25, depois dia 28 vamos para o Bahrein.
– Hum, Byron Bay é praia… – Suspirei. – Poderia relaxar, pegar um bronzeado e avaliar alguns restaurantes. – Pensei.
– Só vai dar para fazer isso se você for comigo. – Ele disse. – Do contrário, meus pais voltam para Perth amanhã. – Ri fracamente.
– Me chantageando, Daniel? – Perguntei.
– É claro! – Rimos juntos e suspirei após um tempo.
– Ok, eu vou tentar mais uma vez, mas…
– ISSO! – Ele gritou, animado e olhei para Isaac.
– Fica quieto! – Pedi firme. – Mas tem algumas condições.
– Sem condições! – Ele disse. – Você anda pelas minhas regras, Harp! Essa é a condição.
– Já falei que te odeio? – Ele riu fracamente.
– Algumas vezes, mas não ligo mais. – Ri fracamente, ouvindo seu bocejo.
– Vamos dormir, Danny. – Falei.
– Vamos! – Ele bocejou novamente, atiçando em mim.
– Ah, droga. Boa noite.
– Boa noite, Harp! – Ele disse e trocamos um rápido olhar entre Isaac. – Dorme bem. – Ele sussurrou.
– Você também. – Falei, fechando os olhos.
Daniel
Abri os olhos, sentindo meu corpo dolorido e sabia que era resultado da corrida. Mas podia ser também dividir a cama com um garoto de 14 meses que gosta de chutar. Virei meu corpo para o lado, encontrando a cama vazia e aproveitei para me espreguiçar à vontade, esticando meu corpo.
Após enrolar um tempo, criei vergonha para me levantar. Fui ao banheiro, depois lavei o rosto, jogando bastante água antes de secar com a toalha. Voltei para o quarto, vendo as coisas de Harper e abri a porta antes de sair. Andei pelo corredor e encontrei Michael na antessala.
– Oi, galera! – Falei, espreguiçando.
– Bom dia, Bela Adormecida. – Ele disse.
– Cadê a Harper? – Bocejei mais uma vez.
– Foi almoçar com seus pais. – Ela disse.
– Que horas são? – Perguntei.
– Quase três da tarde. – Arregalei os olhos.
– Merda! Dormi demais. – Ri sozinho.
– Harper disse que o Isaac atrapalhou o sono um pouco. – Suspirei.
– Um pouco. – Passei a mão no pescoço, estalando-o.
– Fiquei te esperando para gente começar a trabalhar.
– Vamos lá. – Falei.
– Não quer comer? – Ele perguntou.
– Manda mensagem para Harper, pede para ela trazer algo para mim. – Pedi. – Ela sabe o que eu gosto.
– Ok, vai se preparando. – Ele disse e suspirei, seguindo pelo corredor até o quarto.
Puxei a camiseta pela gola, jogando no canto do quarto e depois a bermuda. Subi na cama e me deitei de bruços na mesma, fechando os olhos, abraçando um travesseiro. Ouvi Michael entrar no carro e organizar suas coisas.
– Harper respondeu que só vai esperar sua comida sair para vir. – Ele disse.
– Obrigado. Sabe aonde eles foram? – Perguntei.
– Acho que foram em um restaurante de comida italiana.
– Bo-o-om! Perfeito para começar o dia! – Falei, rindo e ouvi o barulho da arminha de massagem.
– Vamos lá! – Ele disse antes de apoiar a arma em meu corpo, fazendo o objeto vibrar sobre minhas costas e soltei um gemido.
– Uh! Merda! – Suspirei.
No começo, a arma de massagem era uma tortura, mas com o passar do tempo e outros exercícios de relaxamento que Michael fazia, o corpo começava a entender que era para relaxar, quase me fazendo dormir.
– Danny! – Entreabri os olhos, virando a cabeça para o lado.
– Eles chegaram. – Michael disse.
– No quarto! – Falei um pouco mais alto, virando o pescoço para o lado da porta. Não demorou muito para Harper aparecer com Isaac no colo.
– Que recepção! – Ela disse, rindo. – Seu tio está pelado, Isaac. – Meu sobrinho riu e pressionei os lábios em um sorriso. – Boa tarde, dorminhoco.
– Boa tarde. – Falei e ela riu fracamente.
– Trouxe pesto para você com filé mignon. – Sorri.
– As vantagens de ter uma amiga chef é que ela valoriza comida boa. – Ela deu de ombros, piscando.
– Vai demorar aí? – Ela perguntou.
– Aqui não, depois ele vai para sauna. – Michael disse.
– Uh, sexy! – Ela disse. rindo. – O voo dos seus pais é às seis, não quer se despedir deles? Eu os levo no aeroporto. – Ela disse.
– Você vai levá-los no aeroporto? – Perguntei, gemendo em seguida quando Michael atingiu minha lombar. – Ah, caralho!
– E dizem que piloto de Fórmula Um não sofre. – Ela falou.
– É… – Gemi, vendo-a sorrir. – Você vai voltar? Ou vou ter que te resgatar em Perth de novo? – Ela riu fracamente antes de colocar Isaac no chão.
– Vai lá com a mamãe. – Os pezinhos do meu sobrinho foram ouvidos antes de Harper entrar no quarto e se abaixar o meu lado. – Não se preocupe, eu volto. – Ela disse, séria.
– Mesmo, mesmo? – Perguntei, franzindo o rosto com a dor na lateral de meu corpo.
– Mesmo, sofredor. – Ela deu um curto sorriso, afagando meu cabelo. – Eu prometi, não? – Sorri.
– É, você prometeu. – Falei, olhando em seus olhos.
– Eu vou ficar. Para valer. – Ela deu um curto sorriso e aquilo me fez sorrir também, dando um formigar em meu peito. – Não demora, a comida vai esfriar. – Ela disse antes de se levantar e acompanhei-a sair do quarto.
Soltei um suspiro, sentindo o corpo relaxar quando Michael desligou a arma de massagem e movimentei meu pescoço para o outro lado quando ele começou a travar. Michael apareceu na minha visão e abaixou o rosto para me olhar.
– O quê? – Perguntei.
– Eu que pergunto, não para de sorrir. – Ele falou e percebi meus lábios ainda erguidos pelo sorriso e ri fracamente.
– Ela vai ficar. – Ele riu.
– É, eu sei. – Ele disse e suspirei.
Ela vai ficar.
Capítulo 7
Perth, Austrália, 1998
– VAI, DANNY! – Harper gritou quando o kart do menino passou pela sua frente pela sexta vez, fazendo-a pular, animada.
Era a primeira corrida oficial de kart do menino. No fim do ano passado, Grace deixou Joe finalmente levar o menino para andar de kart e ele ficou completamente apaixonado! Não queria fazer mais nada e só pensava em correr, correr, correr. Até o desempenho nele na escola havia piorado com isso, não que fosse bom, mas ao menos ficava na média.
Grace, apesar de estar celebrando a corrida e feliz por ver Harper gritando pelo amigo abraçada à grade, tinha a cabeça longe dali. Sua cabeça foi para o futuro, dali 10 anos ou menos. Daniel é apaixonado por corrida desde criança, foi em alguns GPs de Fórmula Um com Joe durante a infância, como também acompanhou a Fórmula Ford da Austrália Ocidental.
Joe correu um pouco nos anos 80. Como namorada, Grace achava incrivelmente sexy e se divertiu um pouco, mas agora, pensando em seu filho, seu medo era muito maior. Ela sabe que estava indo longe demais, o menino só estava no kart há seis meses e o mundo da Fórmula Um é bastante restrito, mas não tinha mais como fugir da paixão do filho. E dessa vez nem podia culpar Joe. Um amigo levou para Joe ajudar a consertar e Danny acabou vendo.
– VAI, DANNY! – O grito de Harper tirou Grace de seus pensamentos e a menina pulou, animada, rindo sozinha. – Falta quanto para acabar?
– Duas voltas! – Joe disse.
– Acaba logo-o-o-o-o! – Ela disse, nervosa.
Duas voltas em uma corrida de nem 50 metros de kart não era nada comparado com uma pista de Fórmula Um, mas a excitação que crescia no peito de Harper não era muito normal. Na verdade, a amizade desses dois era tudo, menos normal.
– VAI! VAI! VAI! – Grace se levantou aos gritos de Joe que silenciaram os de Harper, e o kart azul de Danny passou pela linha de chegada.
– ISSO! – Harper gritou.
– Vamos lá! – Joe disse e ele e Harper saíram correndo para perto do carro número três*.
O número, apesar de ser igual da casa deles e de Dale Earnhardt, piloto da NASCAR, que Danny adora, por influência de seu pai, é pura coincidência. Foi a própria escolinha de kart que deu esse número para ele, então ele só aceitou. Não achou que o número fosse fazer diferença na hora da escolha, só queria correr.
– DANNY! – Harper abraçou o amigo assim que ele saiu do carro.
– VOCÊ VIU?! EU GANHEI! – O sorriso largo de Daniel era maior do que nos outros dias.
– FOI DEMAIS! – Ela disse, animada, abraçando o amigo, fazendo o capacete e a cabeça dela se baterem, mas ela não se importava.
– Parabéns, filho! – Joe abraçou o menino, enquanto outras pessoas juntavam-se em uma roda entre os corredores.
– Você tem que receber seu prêmio! – Harper disse, animada.
– Si-i-im! – Ele puxou o capacete de seu rosto, fazendo os cachinhos aparecerem por baixo e Joe o pegou.
– Filho! – Grace finalmente chegou perto do filho.
– Mamãe! – Ele disse, sorrindo, abraçando-a pela cintura.
– Parabéns, meu filho! – Ela beijou os cabelos do filho.
– ‘Brigado, mamãe! – Ele disse, sorridente.
– Daniel! – Um dos organizadores do kart o chamou.
– Eu vou lá! – Ele pegou o capacete de seu pai antes de sair correndo.
– Vamos lá perto! – Joe disse e os quatro seguiram para perto do pódio do local, vendo os três vencedores se arrumarem atrás do pódio e os familiares e outros corredores acumulados em meio-círculo.
– Em terceiro lugar, Gary Morrison! – O pessoal aplaudiu.
– Eu não consigo ver! – Harper reclamou.
– Vem cá! – Joe disse, pegando a menina pela cintura e colocando-a em seus ombros. – Está melhor?
– Sim! – Ela disse, feliz.
– Em segundo lugar, Matt Andrews! – O menino subiu no pódio, fazendo os aplausos soarem. – Em primeiro lugar, Daniel Ricciardo!
– VAI, DANNY! – Harper gritou, aplaudindo Danny que subiu no palco com o sorriso de orelha à orelha.
O organizador entregou o pequeno prêmio para cada um, depois uma garrafa de Coca-Cola serviu como champanhe para eles brincarem por alguns segundos. Harper gritava tão animada como se fosse a Fórmula Um de verdade, igual quando Joe os levou para ver no começo do ano em Melbourne. As duas crianças aproveitaram tanto que voltaram para o hotel desmaiados de cansaço.
– Olha, pai! – Danny se aproximou da família após receber seu troféu. – É lindo! – Ele disse.
– Sorria, filho! – Grace disse e Danny segurou o prêmio com as duas mãos, além da faixa em seu peito, dando um sorriso para mãe que tirou uma foto do menino. – Pronto!
– Parabéns, Danny! – Harp disse, sorrindo, abraçando o amigo.
– Obrigado, Harp! – Ele disse, abobado.
– Você foi demais! – Ela disse, rindo e ele suspirou, olhando para o prêmio.
– É isso que eu quero fazer, Harp. Ser corredor. – Ele disse, fazendo a mãe arregalar os olhos.
– Eu posso te acompanhar e torcer por você? – Harp perguntou.
– É claro que sim! – Ele disse, sorrindo. – Vou precisar da minha amiga ao meu lado.
– Combinado! – Ela disse, rindo e eles sorriram, olhando para o prêmio na mão dele, sem ideias do que o futuro aguardava.
MARÇO
Manana, Bahrein, 2016
Harper
Movimentei meu corpo devagar, puxando a coberta mais para cima, sentindo-a escorregar de meus pés e suspirei. Entreabri os olhos devagar, vendo o avião a meia luz e vi Danny se inclinar para ajeitar a coberta nos meus pés e dei um curto sorriso. Ele se ajeitou na sua cadeira de novo antes de virar para mim.
– Ei, você acordou. – Ele disse.
– Ei. – Suspirei e ele ajeitou a coberta em meu pescoço.
– Te acordei? Você estava dormindo tão gostoso. – Ri fracamente.
– Não, eu estou bem… – Suspirei, tombando a cabeça para o lado, escondendo a boca com a coberta para eu bocejar. – Você não dormiu?
– Não tanto quanto você. – Ele disse.
– É o remédio para enjoo. – Falei, rindo fracamente, virando meu corpo para ele.
– Essa coisa é muito forte, você vai ficar grogue até amanhã. – Ele disse.
– 16 horas de voo, Danny! – Falei, manhosa. – Não aguento, não. – Suspirei.
– Você quer comer algo?
– Quanto tempo para chegar? – Perguntei.
– Deixa eu ver… – Ele mudou a tela dele. – Estamos passando por Omã.
– Oh, merda! Omã! – Falei, chocada. – Nunca pensei em vir para esse lado do mundo! – Ele sorriu. – Omã, Emirados Árabes, Catar… Uau!
– Bom ter você aqui, Harp. – Sorri, apoiando minha cabeça em seu ombro e ele fez o mesmo, cegando meus olhos.
– Eu estou cega! – Reclamei e ele ergueu a cabeça de volta, passando a mão nos cabelos. – Você precisa cortar esse cabelo.
– Está longo, certo? – Ele comentou.
– Sim… E não de um jeito bom. Está bagunçado… – Passei a mão no topete que formava para frente. – Parece um espanador cacheado. – Ele gargalhou, me fazendo sorrir. – Cala a boca! Deve ter gente dormindo. – Comentei.
– Oh, eu odeio econômica. – Ele disse e foi minha vez de gargalhar.
– Primeira classe da Emirates, é! – Joguei minha cabeça para trás. – “Econômica”. – Fiz aspas com os dedos e ele abriu um largo sorriso. – Ah, cara! É difícil ter amigo milionário. – Ele gargalhou comigo.
– Você também não ganha mal, Harper. – Ele disse e ri fracamente.
– É confortável… – Dei de ombros. – Mas meu holerite não vem com tantos zeros igual o seu. – Ele gargalhou.
– E eu preciso melhorar ainda. – Neguei com a cabeça.
– Encontre um bônus para sua amiga abrir um restaurante. – Falei, rindo.
– Se você realmente decidir abrir um restaurante, eu vou investir nisso. – Ele disse, sério. – Para valer. – Dei um curto sorriso, tombando a cabeça para o lado. – Sem “mas”, eu amo sua comida, eu amo você, eu amo suas ideias, se você bater o martelo e falar que quer, eu vou te ajudar em todo percurso. Já ajudei os caras com várias coisas, o Michael com a academia dele, o Jason com o escritório dele, para você é um sim certeiro.
– Obrigada, Danny. – Suspirei. – Mas eu não sei ainda, honestamente. – Ponderei com a cabeça. – A ideia é incrível, de verdade, mas eu preciso ponderar, não dá para decidir na empolgação. Um restaurante… Um bom restaurante, à altura de uma chef de cozinha, não é barato e o trabalho é… – Suspirei. – 24 horas por dia, desde a parte administrativa, equipe, até chegar à cozinha de verdade. – Ele assentiu com a cabeça.
– Mas você estaria em casa. Aposto que cansaria menos. – Dei um curto sorriso.
– É! Eu reduziria muitas viagens. – Ele sorriu. – Mas vamos mudar de assunto, eu ainda tenho contrato de um ano com a Michelin, muito pode acontecer até dezembro. – Ele assentiu com a cabeça.
– Nem fala! – Ele suspirou. – Empolgada por Bahrein?
– Mais pelo país do que pela corrida.
– Você sempre gostou de viajar por aí. – Ele disse, rindo.
– E você nunca se preocupou, mas aqui estamos. – Sorrimos juntos.
– É… – Ele tombou a cabeça para o outro lado, suspirando. – É estranho… De um jeito estranho, na verdade. – Ele suspirou.
– O quê? – Ajeitei minha cabeça na poltrona.
– Eu nunca percebi, mas sou diferente perto de você. – Ele disse.
– De uma forma boa ou ruim?
– Boa! Sempre boa! – Ele sorriu. – Eu brinco muito, mas no meio disso, eu continuo na brincadeira, mas contigo sinto que sou mais honesto comigo mesmo. – Suspirei.
– Você é mais dramático. – Falei.
– Eu não sou dramático. – Ele falou de forma dramática e rimos juntos.
– Não dessa forma, mais emocional, talvez. – Suspirei. – Eu não esperava você sair do seu carro e ir me resgatar, Danny. Você cruzou uma linha tão… Tão perigosa ao ir até mim…
– No momento em que o Simon me falou do acidente, eu pensei em você. – Ele suspirou. – Pensei em como te encontrei depois do meu acidente em Silverstone.
– Aquele foi feio… – Comentei.
– Mais para você do que para mim. – Ele disse. – Simon estranhou a pergunta, mas eu precisava saber…
– Você ainda é o único que me acalma nesses momentos. – Ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos e tombei a cabeça em seu ombro. – Mas você não pode fazer isso. – Observei os longos dedos de Danny entre os meus.
– Já falamos sobre isso, Harp. – Ele disse firme. – Não dá para separar. Desista! – Suspirei. – Mas agora a equipe sabe, vamos esperar que seja melhor na próxima.
– Vamos esperar que não tenha mais acidentes, por favor. – Ele riu fracamente.
– Espero também. – Ele disse, rindo.
– Apesar de tudo, eu gosto de ver o Danny emotivo. – Rimos juntos. – É diferente daquele idiota nos vídeos engraçados da RBR.
– Eu posso ser os dois. – Ele disse, me fazendo rir.
– Ah, bem sei! – Rimos juntos.
ABRIL
Sexta-feira
Daniel
– Não sabia que a empresa de karts* estava indo tão bem. – Harper comentou e virei o rosto para ela. – Achava que estava… Você sabe…
– Meu pai acabou tomando as rédeas da situação… – Falei. – Entrar nas competições de kart acabou vindo de forma natural por causa de mim.
– Isso é muito bom, Danny. – Ela sorriu, me fazendo retribuir. – Fazendo nome em outras áreas.
– Você sabe que sempre gostei de outras coisas, né?! É difícil focar só em uma. – Rimos juntos.
– Sim, eu sei, esse interesse levou a quebrar o pulso em 2011. – Sorri.
– Ah, cara! Aquilo não foi muito esperto. – Falei.
– Você acha? – Rimos juntos. – E você ainda inventa de aprontar coisa pior.
– Só nas férias agora. – Falei. – Se der alguma coisa errado, tem tempo de sarar.
– Não se você quebrar seu pescoço. – Ela disse e revirei os olhos, fazendo-a rir.
– Você sempre foi medrosa com essas coisas.
– Pessimista. – Ela constatou. – E tive razão com algumas coisas.
– Mais do que eu gostaria. – Falei, fazendo-a sorrir.
– Mas é legal ver as crianças competindo no kart…
– É uma competição que está crescendo, além daquele garoto, temos mais quatro que usam nossos karts. – Falei. – E entra na parte do patrocínio.
– Uau! Isso é legal! Talvez você possa ter uma equipe de F1 em algum momento. – Sorri.
– Não seria nada mal! – Falei, rindo e ela sorriu.
– Quanto tempo para o segundo treino? – Ela perguntou.
– Duas horas, levando em conta que eu vou entrar no meio. – Falei.
– Ok, porque eu realmente preciso comer algo. – Ela disse.
– Podemos sair para jantar depois…
– Claro… – Ela assentiu com a cabeça. – Mas eu não aguento ficar sem comer até lá… – Gargalhei com ela. – E agora eu quero comida, nada extravagante.
– Você pode comer o que quiser no paddock. – Falei.
– Eu vou para lá mesmo. – Sorri, desviando da rua para olhar para ela, vendo-a virada para a janela.
Dirigi em direção ao circuito do Bahrein. Tínhamos passado na área da equipe de karts, onde os karts da empresa da minha família estavam com cinco corredores para o campeonato de karts. Era legal ver o pessoal começando onde eu comecei, então era legal dizer oi, ver como as coisas estavam andando e ter um feedback dos próprios corredores.
Liberaram nossa entrada no circuito e estacionei na entrada principal das equipes, vendo alguns fãs do lado de fora das grades. Saí do carro, pegando minha mochila e Harper saiu do outro lado. Indiquei os fãs com a cabeça e ela sacudiu seu crachá.
– Eu te encontro. – Falei e ela assentiu com a cabeça, ajeitando o boné da Red Bull em cima de seus cabelos ondulados soltos e sorri, acompanhando-a com o olhar até passar pelas catracas.
– Danny! Danny! – Fui em direção aos fãs, sorrindo e distribuindo alguns autógrafos e tirando algumas selfies antes de seguir pelo mesmo caminho de Harper.
O paddock estava mais vazio do que o costume. Dia de treino sempre tinha aquela compensada, além de que cada equipe fazia um horário diferente. Kvyat seria o primeiro a treinar hoje, então a equipe estava toda focada nele agora, chegar cedo não seria tão bom.
Atravessei pelo paddock, procurando por Harper em qualquer uma das barraquinhas de comida ali em volta enquanto seguia em direção ao prédio da Red Bull. O dia estava começando a escurecer, deixando o céu arroxeado e o frio começava a aparecer. É sempre assim nesse canto do mundo.
– DANNY! – Tomei um susto ao ouvir e virei o rosto para o lado, procurando o chamado. – Aqui em cima! – Ergui o rosto, encontrando Harper no terraço do prédio da Red Bull e franzi a testa.
– O que você…
– SOBE AQUI! – Ela disse, animada, me chamando pela mão.
– Lá vai. – Ri fracamente, seguindo para dentro do prédio, vendo alguns mecânicos e engenheiros. – Ei, galera!
– Fala, Daniel! – Eles acenaram de volta e fui em direção às escadas, subindo o primeiro lance, depois fiquei levemente perdido em como Harper tinha chegado no terraço, mas encontrei uma porta aleatória e abri, encontrando-o.
– O que está fazendo aqui?
– OLHA ESSE CÉU! – Ela falou, animada, esticando os braços e olhei para o céu. Apesar do roxo em cima, o céu tinha uma coloração alaranjada até chegar no horizonte. – Ah, meu Deus! – Sorri com a felicidade de Harper.
– É bem bonito. – Me aproximei dela, vendo o largo sorriso em seu rosto.
– Tira uma foto minha! – Ela tirou o celular do bolso na empolgação e deixou a mochila cair ao seu lado, enquanto isso deu alguns passos para trás.
– Sorria! – Falei, mas nem precisava, pois o sorriso largo de Harper dizia tudo. Ela girou o corpo, virando de costas para mim e apertei o botão mais algumas vezes. – Ótimo! – Falei.
– Agora vem cá! – Ela disse, me chamando. Andei até ela e ela me abraçou pelos ombros. – Tira uma selfie! – Ela apoiou a cabeça na minha e virei a câmera frontal, sorrindo da mesma forma que ela. Apertei o botão algumas vezes, vendo-a fazer uma careta pela câmera e acompanhei-a, ouvindo sua risada em seguida. – Ah, cara, eu adorei aqui!
– Espere até a corrida no domingo. – Falei, vendo-a se apoiar na beirada. – É estranho, mas é lindo.
– É bonito assim, imagina mais tarde… – Me apoiei na beirada, vendo-a sorrir para o horizonte, me fazendo sorrir também. Aquela sensação estranha passou pelo meu peito de novo e levei a mão até o local, estranhando.
– DANNY BOY! – Virei o rosto para baixo, vendo Alonso lá embaixo.
– Ei, Nando! – Falei, apoiando na beirada igual Harper. – Como você está?
– A FIA rejeitou o exame médico. – Ele disse e fiz uma careta.
– Por quê? – Perguntei mais alto.
– Uma costela quebrada e estou com ar na parte interna do tórax. – Minha careta aumentou.
– Está fora? – Perguntei.
– Sim. – Ele disse. – Talvez até na China, vamos ver.
– Sinto em ouvir isso, mas você está bem?
– Todo enfaixado, mas bem! – Ele disse, rindo. – Você vai para o FP2*?
– Sim, logo desço! – Falei.
– A gente se vê! – Ele disse. – Oi, Harper!
– Oi-i-i! – Harper disse alongado e ri fracamente, vendo-a virar o rosto para mim. – Eu só disse oi.
– Não falei nada. – Dei de ombros, voltando em direção à porta.
– Você não precisa falar nada para eu te entender, senhor Daniel! – Ela correu em minha direção, pulando em minhas costas, me fazendo rir.
– “Oi, Alonso, você quer um pouco de mousse?” – Afinei a voz, fazendo-a gargalhar.
– Você ficaria muito enciumado se eu fizesse isso, né?! – Ela gargalhou, seguindo logo atrás de mim.
– Você não dá mousse para outros caras, Harper. Isso é regra. – Abri a porta, deixando-a seguir em minha frente.
– Se for para conquistar alguém, por que não? – Ela deu de ombros e fechei o sorriso.
– Isso é maldade, Harp! – Falei, vendo-a gargalhar.
– Pena que ele não vai participar da próxima corrida. – Ela falou.
– É, então, não sei se é rápido colar costelas, cara! – Comentei.
– Espero que seja, ele é legal. – Harper deu de ombros, descendo alguns degraus à minha frente.
– Ah, você está aí! – Virei o rosto para Maria no térreo. – Eu te liguei três vezes.
– Desculpe, acabou atrasando lá no kart. – Falei, vendo Harper fazer careta e virei de costas para Maria, a fazendo cara antes de descer os últimos degraus.
– Vamos! Você precisa se arrumar.
– Sim, claro! – Falei.
– Eu te encontro depois. – Harper disse. – Bom treino!
– Obrigado. – Sorri, mandando um beijo para ela antes de seguir com Maria para fora do prédio.
*Daniel possui uma fábrica de karts, a Ricciardo Karts, e boatos é que a empresa era anteriormente de seu pai e hoje é comandada por ambos.
*FP2: free practice 2 ou treino livre. Durante sexta e sábado de manhã (ou quinta e sábado em Mônaco), os pilotos possuem 90 ou 60 minutos de treino.
Sábado
Harper
A loucura dentro do paddock era a mesma de duas semanas atrás. Danny fazia seu aquecimento de pescoço junto de Michael, os engenheiros e mecânicos terminavam os últimos detalhes no carro e eu sentia vontade de roer unhas, o que é impossível, já que eu não tenho unha para roer. Hábito pego desde a faculdade de gastronomia.
A vantagem é que estávamos chegando perto das seis da tarde de novo e o céu está com aquela mesma mistura de laranja com arroxeado de ontem e eu estava apaixonada por ela, me colocando o mais próximo possível da entrada da garagem para ver e aproveitar um pouco mais disso.
Agora entendia o surto das pessoas por corridas à noite.
– Lesgo-o-o, baby-y-y! – Virei o rosto para Daniel aparecendo na garagem e dei um rápido aceno para ele, vendo-o piscar em minha direção.
Entrei de fininho na garagem novamente, vendo Daniel subir o macacão para os ombros e me aproximei de Michael. Trocamos um rápido toquinho de punhos e cruzei os braços, observando o ritual de Danny. Ele trocou algumas palavras tanto com seu engenheiro, como com o chefe de equipe, depois fez alguns rápidos alongamentos de braço antes de ajeitar as joelheiras.
Meu rosto virou para o relógio na parede e tinha menos de 10 minutos para o começo das classificatórias. Mesmo após as reclamações do estilo das classificatórias há duas semanas, a FIA decidiu por manter igual. Danny teve uma reunião com eles e os outros corredores após o almoço, mas nada foi alterado.
– Harper… – Michael me cutucou e virei para ele. – Danny. – Mudei meu olhar e Danny acenava para mim.
– Vamos fazer um bom show, ok?! – Ele disse e estiquei o polegar para ele.
– Let’s go! – Falei, vendo-o piscar para mim. – Arrasa, tigrão!
– UOU! – Os mecânicos falaram, me fazendo rir e Danny abriu um largo sorriso.
– Você explica a piada depois! – Falei, vendo-o colocar os fones na orelha.
– Alimentando o ego do rapaz? – Christian perguntou e ri com ele.
– Garantindo minha permanência por mais um tempo. – Brinquei, vendo-o rir.
– Vamos lá, caras! – Christian disse.
– Checagem de rádio, Daniel.
– Go get’em tiger! – Ri fracamente com Danny, me sentando perto de uma das telas, vendo Michael fazer o mesmo.
A contagem regressiva não demorou para chegar a zero e fiz um rápido sinal da cruz quando os mecânicos tiraram os protetores térmicos dos pneus do carro de Danny e o ronco do motor me incomodou por alguns segundos antes do carro sair da garagem.
– Vamos lá! – Michael disse e assenti com a cabeça.
– Vamos lá! – Suspirei, mordiscando meu lábio inferior.
Na Q1, Danny conseguiu manter sua permanência ao fazer 1:31:403, o terceiro melhor tempo, atrás somente da dupla da Mercedes. Já Nasr, Haryanto, Palmer, Magnussen, Perez, Ericsson e Wehrlein não conseguiram tempo o suficiente para seguir para a segunda parte da classificatória.
Na Q2, Danny piorou para quinto melhor tempo com 1:31:122, ainda se mantendo para a última parte da prova, mas com uma volta mais lenta do que antes. Nessa parte, seu companheiro de equipe Kvyat foi o primeiro a ser eliminado, em seguida veio Button, Gutierrez, Vandoorne* – que substituía Alonso – Sainz, Verstappen e Grosjean.
Já na última parte das classificatórias, Danny acabou ficando com o quinto tempo de 1:30:854, à frente de Hulkenberg, Massa e Bottas, mas atrás de Raikkonen, Vettel, Rosberg e Hamilton. Eram três posições melhor do que na Austrália, era um avanço, mas a equipe continuava infeliz com o formato da classificatória.
Até eu estava insatisfeita com esse formato, na verdade. Perdeu totalmente a graça de acompanhar as classificatórias. Era quase como um bingo, entediante e sem graça. A equipe de corredores parecia pedir por uma mudança, mas ela não estava para vir tão cedo.
Danny voltou para a garagem com um sorriso no rosto, ele estava satisfeito com seu trabalho, era dentro do top cinco, então isso o deixava bastante confortável. Ele sorriu para mim quando tirou a balaclava e pisquei de volta.
Ele saiu da garagem para fazer a pesagem e aproveitei para deixar os fones perto da sala de telemetria, dando alguns acenos para os mecânicos. Depois de duas semanas e alguns surtos, estava começando a me enturmar, ficar colada em Danny ajudava um pouco. Parceira, assistente, alguns ainda duvidavam que somos só amigos, mas é isso aí.
Danny me encontrou na entrada de seu vestiário e sorrimos juntos antes de eu passar meus braços em seus ombros, abraçando-o fortemente e estalei um beijo em sua bochecha suada, rindo quando a marca do meu batom ficou em sua bochecha, me fazendo rir.
– Desculpe! – Falei, rindo, passando o polegar nela.
– Deixa! Deixa! – Ele disse e rimos juntos antes de ele abrir a porta de seu vestiário. – Entra aí! – Fiz o que ele falou e me ajeitei perto da porta, vendo-o se jogar no pequeno sofá, colocando as pernas em cima do móvel. – Ah, cara!
– Feliz? – Perguntei, impulsionando para cima da mesa, me sentando nela.
– Um pouco mais. – Ele disse, rindo. – Agora preciso de uma pole.
– Vai vir, apressado. – Baguncei seus cabelos suados. – Relaxa.
– Você ficou bem? – Ele ergueu o rosto, me olhando.
– Sim, ninguém bateu. – Dei um curto sorriso, vendo-o rir. – Parabéns, Danny.
– Obrigado. – Ele suspirou, soltando a respiração para cima. – Vamos lá, Harper!
– Vamos lá… – Fiz carinho em sua cabeça, vendo-o fechar os olhos em relaxamento.
– Eu tenho que falar com a imprensa, tenho uma reunião, mas podíamos sair para comer, certo?
– Sim, por favor! – Falei, rindo. – Eu estou com fome. Michael deixa você escapar da sua dieta?
– Alguma ideia? – Ele perguntou.
– Tem algumas barraquinhas famosas em países árabes, queria dar uma volta por elas, se possível…
– É, claro! – Ele disse.
– Será que não vai dar problema para ti? – Perguntei.
– Não, eu vou sem a paramentação da Red Bull que dá tudo certo. – Ele disse.
– Danie-e-el! – Virei o rosto para porta, vendo-a se abrir, revelando Maria. – Vamos!
– Vamos! – Ele disse, se levantando e minha mão deslizou de sua cabeça. – Guarda esses carinhos para depois.
– Ah, folgado! – Chutei sua perna, fazendo-o rir. Ele pegou o boné da Red Bull antes de sumir pela porta, dando lugar a Michael.
– Quer esperar no paddock? – Ele perguntou.
– Sim! – Pulei da mesa. – Não quero esperar aqui, está quente!
– Vamos! – Ele disse e segui logo atrás dele.
*Stoffel Vandoorne: piloto belga, 29 anos. Entrou para o programa júnior da McLaren em 2013, entrou na Fórmula 1 em 2016 ao substituir Alonso na corrida do Bahrein, ficou com o lugar de Button em 2017 e 2018. Hoje está na categoria IndyCar.
Daniel
– Machboos. – O vendedor disse para Harper.
– Isso! – Harper disse.
– Você sabe o que tem aí? – Perguntei para Harper.
– Não! – Ela disse, sorrindo, voltando a olhar para o atendente.
– Ah, cara! – Falei e ela virou para mim.
– A graça é não saber! – Ela sorriu.
– Para você! – Falei firme. – Eu sou alérgico a algumas coisas.
– Ah, merda! Esqueci! – Ela disse, virando para o cara. – Tem pistache?
– Nozes?
– É. – Harper disse.
– Não! Sem nozes. Arroz e cordeiro. – Ele disse, colocando o primeiro prato na bancada.
– Leite? Ou queijo? – Ela perguntou novamente.
– Não, arroz e cordeiro. – Ele repetiu.
– Obrigada! – Harper disse, virando para mim. – Não quero te matar, Danny boy! – Rimos juntos.
– Espero que não! Tenho uma corrida amanhã! – Abaixei o boné, fazendo-a rir.
– Quanto é? – Ela perguntou.
– Um dinar*! – O vendedor disse e Harper deu o dinheiro para ele.
– Um dinar? – Perguntei, confuso. – Isso é super barato.
– Uns dois dólares por porção. – Harper deu de ombros.
– Mahyawa? – O moço ofereceu.
– O que é? – Harp perguntou.
– Pimenta, muita pimenta!
– Sim! – Ela disse e o homem colocou algumas gotas no de Harper.
– Não para mim. – Falei, pegando meu prato, andando alguns passos para frente.
– Obrigada! – Harper disse. – Shukran! – Ela juntou as mãos em agradecimento antes de fazer uma flexão com a cabeça, fazendo o vendedor abrir um largo sorriso. Harper pegou seu prato e seguiu comigo.
– O que disse ao final para ele? – Perguntei.
– Eu agradeci em árabe. – Ela deu de ombros e arregalei os olhos.
– Você fala árabe? – Ela gargalhou.
– Não, mas sei palavras básicas em quase todos os idiomas gerais. – Ela deu de ombros. – Vantagens da Michelin.
– Cara! – Neguei com a cabeça. – Você é uma nerd.
– Na minha área, sim. – Ela deu de ombros.
– Oh, merda, o cara não deu colher.
– Você não come com colher, Danny. – Ela disse. – Você tem dedos.
– Não vou comer com a mão.
– Faça como eles, plebeu. – Ela pegou um punhadinho de arroz com a mão antes de colocar na boca. – Oh, cara! Isso é bom. – Ela suspirou, forçando o corpo para baixo antes de pular rindo. – Isso merece uma estrela com toda certeza.
– Esse cara tem uma estrela? – Perguntei, surpreso.
– Duas, na verdade. – Ela disse, rindo.
– Não brinca?!
– Não! – Ela sorriu e imitei-a, colocando um pouco de comida na boca com as mãos.
– Oh. – Suspirei.
– Não é?! – Ela falou, animada, me fazendo suspirar.
– Merda! Como eles fazem isso? – Perguntei, vendo-a sorrir.
– Quando você está mais focado na comida do que no lugar, você cai em umas coisas interessantes assim. – Ela deu de ombros, colocando mais um pouco na boa.
– Duas estrelas, cara. É loucura. – Suspirei.
– A maioria desses lugares são cheios de estrelas. – Ela indicou com a mão um lugar e virei o rosto, vendo a placa vermelha com uma estrela da Michelin. – E ali. – Ela mostrou outro com três.
– Uau! Isso é louco! – Falei, sorrindo.
– É, mas é legal, é o maior prêmio da minha área. – Ela deu de ombros.
– E você nunca pensou em trocar de lado? – Perguntei, comendo mais um pouco.
– Muito, na verdade. – Ela sorriu ao virar para mim. – Mas não é fácil…
– Você sabe a teoria, você oferece esse prêmio para as pessoas, é quase pegar um atalho. – Ela sorriu.
– Você está certo, mas não é simples assim. – Ela deu de ombros. – Volta ao que falamos no voo, é muito trabalho e dedicação.
– Você pode abrir uma barraquinha. – Ela riu fracamente.
– Ainda é muito trabalho e dedicação, Danny. – Ela suspirou. – Essas receitas desse lado do mundo costumam vir de gerações com toques novos, a gastronomia bareinita pega influências árabes, persas, indianas, balúchi, africana e europeia, e ainda assim é uma incógnita. – Sorri com ela.
– Adoro ouvir você falar assim. – Falei e ela riu fracamente, me empurrando com o quadril e ri fracamente. – Mas não tenho ideia do que é comida balúchi. – Ela gargalhou comigo.
– Baluchistão é uma região do Paquistão. – Ela sorriu.
– Ah, cara, você é um mapa-múndi ambulante. – Ela negou com a cabeça.
– Eu só… – Ela deu de ombros. – Eu precisei estudar muito para chegar aqui. Era assim que eu me distraía depois da morte dos meus pais quando você não estava comigo. – Pressionei os lábios.
– Sinto muito, Harp. – Falei e ela negou com a cabeça.
– Veio a calhar para alguma coisa, a Michelin me viu. – Ela deu de ombros e assenti com a cabeça. – Eu sou uma das melhores revisoras da Oceania, se não a melhor. – Ela sorriu.
– E ainda assim você quer sair. – Comentei e coloquei um pouco mais de comida na boca.
– É incrível saber a teoria, incrível falar para você e para os outros, saber coisas que poucas pessoas sabem… – Ela ponderou com a cabeça, comendo mais um pouco também. – Mas é muito melhor quando você faz. – Ela sorriu.
– Tem espaço para comida balochi no seu restaurante? – Perguntei.
– Balúchi! – Ela disse, rindo e abanei a mão. – Talvez tenha. Não usamos muito o arroz em nossa cultura e eu acho uma troca muito boa para a batata. Não te deixa igualmente estufado ou cheio, por que não? – Ela deu de ombros.
– Eu adoro um risoto. – Ela sorriu.
– Cultura italiana enraizada, Danny. Algumas coisas não mudam. – Ela deu de ombros.
– Sabe, estou com saudades da sua comida. – Falei e ela riu fracamente.
– Você costumava ficar um ano sem minha comida, agora sente falta em nem dois meses? – Sorri.
– Eu ficava sem sua comida, mas sempre tive saudades, ok?! – Ela sorriu.
– Talvez possamos dar um jeito. – Ela deu de ombros. – Quando vamos embora?
– Amanhã à noite mesmo, tenho algumas gravações de marketing na Inglaterra.
– Na base da RBR? – Ela perguntou.
– Sim, em Milton Keynes, é meio entediante, mas ao menos sai um pouco dessa loucura. – Ela deu de ombros.
– Eu estou querendo voltar para Perth, Danny, acho que sabemos que gosto um pouco de calmaria. – Ela disse.
– Sim, está certa. – Sorri, virando o rosto para ela e notei alguns flashes vindo de um pouco mais longe. Fotógrafos. – Merda. – Comentei baixo.
– O quê? – Ela virou o rosto.
– Não vira! – Pedi, fazendo-a virar. – Fotógrafos.
– Paparazzi?
– É… Pode dizer que sim. – Suspirei. – Me desculpe por isso. – Ela negou com a cabeça.
– Não se preocupe, Danny. Eu não sairia contigo se não estivesse acostumada.
– Eu sei, mas aposto que vão vir com aquele papo de namorados de novo e… – Ela negou com a cabeça.
– Não é como se nos incomodasse, Danny. – Ela deu de ombros. – É só chato que eles vão vender algo que não é verdade, mas quem é seu fã, sabe…
– Eu sei, mas eles só são chatos para caralho mesmo. – Ela gargalhou e sorri, rindo com ela. – Vamos andar por ali, talvez consigamos nos esconder um pouco. – Inclinei a cabeça para o outro lado e ela seguiu comigo.
– Já está tarde também, você precisa dormir bem para amanhã.
– A corrida é só a noite, o fuso-horário fica bagunçado, não tenho tanta pressa para chegar no hotel e ficar vendo televisão.
– Mas você ainda tem que acordar cedo para treinar…
– Está tudo bem, Harp. – Falei. – Vamos nos divertir um pouco. – Ela sorriu, assentindo com a cabeça e desviou o olhar para sua comida novamente e fiz o mesmo.
*Dinar: moeda do Bahrein.
Domingo
Harper
Fiquei até aliviada quando Danny se livrou daquele boné para colocar a balaclava e o capacete para o começo da corrida. O cabelo dele tinha crescido muito nos últimos dias e deixava o boné até levemente alto por causa dos cachos. Ao invés de estar ao lado dele, hoje eu já estava acomodada no banco alto dentro da garagem com todos os mecânicos em suas posições.
Danny começando em quinto, me deixaria do outro lado, só tinha a opção de estar dentro da pista, então nos despedimos antes do hino. Ele me deu um forte abraço e deixei sua bochecha mais uma vez marcada com meu batom antes de nos separarmos. Ele deu aquele olhar para Michael que já tinha colado em mim.
– Cheque de rádio, Daniel. – Ouvi Simon.
– Belo pôr do sol, certo, caras? – Ele disse e aquilo me fez sorrir.
– 30 segundos até a volta de apresentação. – Simon disse. Fiz um discreto sinal da cruz, dando um beijo em meu dedo indicador ao final disso.
– Vamos lá, Harper! – Michael disse, me abraçando pelo ombro e suspirei, assentindo com a cabeça.
– 20 segundos. – Ouvi a voz novamente e virei meu rosto para a televisão, esperando as luzes verdes intercaladas de início.
Quando elas apagaram, eu fechei meus olhos por alguns segundos, abrindo em seguida e vendo a massa de engenheiros e mecânicos andarem pelo pit lane, trazendo todas as coisas de volta para a garagem.
Rosberg teve um pequeno problema com o carro ao sair, mas conseguiu acompanhar a volta de apresentação. Já Vettel, ex-companheiro de equipe de Danny, teve algum problema técnico com seu carro e abandonou a corrida antes mesmo de começar. Danny tinha tudo para ganhar uma posição na largada, já que Vettel ocupava o terceiro lugar do grid e agora estava vazio.
Após as cinco luzes vermelhas acenderem e se apagarem simultaneamente, a corrida começou e só sabia pedir para nada dar errado, nem com Danny e nem com ninguém. Como esperado, Danny teve uma ótima largada e subiu para quarto lugar facilmente, mas Bottas encostou em Hamilton e tirou pedaços do carro logo na primeira curva.
– Acho que encostou em mim. – Danny falou e Michael me apertou com mais força. – Acho que tirou minha asa dianteira direita.
– Sente algo diferente do carro? – Simon perguntou.
– Não por enquanto. – Ele disse.
– Nos avise para preparar. – Christian falou por cima de Simon.
Rosberg, Massa e Bottas ocupavam os primeiros três lugares antes de Danny, mas logo atrás dele vinha Raikkonen, Grosjean, Hamilton, Gutierrez, Verstappen e Button. Ele precisava fazer isso funcionar nas 57 voltas. Agora ele tinha mais tempo do que na Austrália para chegar no pódio.
Na sétima volta, Danny foi ultrapassado por Raikkonen e foi ficando para trás por outros.
– Perdendo aderência. Precisa trocar. – Danny disse.
– Box agora! Confirmar.
– Entendido! – Danny disse e não demorou muito para que ele aparecesse em frente à garagem e fizeram a troca do bico de Danny.
Ele acabou saindo do pit stop na décima sétima posição, me deixando frustrada, mas já tinha recuperado até a décima segunda antes da décima volta. Ainda tinha esperança. Muitos pilotos não fizeram o pit ainda, então ele ganharia essas posições mais à frente.
Não havia percebido, mas além de Vettel, Jolyon Palmer abandonou a corrida antes de começar por problemas de hidráulica, já Jenson Button da McLaren abandonou a corrida por problemas de motor na sexta volta e Gutierrez por problemas de freio na décima volta.
Na décima terceira volta, após passar novamente Raikkonen e Massa, Danny estava novamente em quarto, deixando o povo dentro da garagem animado. Apesar daquele pequeno incidente no começo da corrida, tudo estava indo bem.
Danny estava correndo contra Kvyat, seu companheiro de equipe, pelo terceiro lugar, isso deixava todo mundo dentro da garagem animado, eu só queria que Danny o passasse e fui a primeira a gritar quando Danny chegou em terceiro lugar.
– ISSO! – Falei comemorando com a mão fechada em pulso.
– Muito bem, Daniel! – Simon disse e suspirei.
– Vamos lá, caras! – Danny disse e apertei minhas mãos novamente.
Tinha algo estranho sobre Fórmula Um, é como assistir filmes de terror, talvez. Você não quer assistir porque tem medo do que pode acontecer, em compensação você quer ver para saber o que vai acontecer. Acho que era por isso que eu não assistia quando estava longe, sabia que não conseguia distrair.
Uma tonta, talvez. Pensando em toda experiência que tive até agora, além dos ótimos momentos que estou passando com meu melhor amigo e Michael. Coitado, Michael odeia quando falo dele como o segundo amigo, sendo que ele também foi levemente chutado por Danny quando ele namorou Jemma no ensino médio e nossa amizade aumentou aí. Danny voltou a falar comigo por culpa, com Michael foi por causa dos treinos.
Danny acabou caindo para quarto na vigésima segunda volta, quando Hamilton o passou. Na vigésima quarta volta, Grosjean tentou ultrapassá-lo e não conseguiu fazer da primeira vez, mas conseguiu da segunda, se afastando de Danny.
– Ele está desacelerando. – Comentei baixo.
– Daniel, algum problema? – Simon perguntou como se tivesse me ouvido.
– Preciso mudar os pneus, não sei o que está acontecendo. – Ele falou.
– Box, Daniel. Agora!
– Entendido. – Danny disse, fazendo os mecânicos começarem a correr e Danny apareceu em minha visão rapidamente antes de ser liberado, saindo em décimo lugar.
– Hora de pressionar, Daniel! – Simon disse.
As palavras de Simon fizeram efeito rápido demais em Danny, ele ultrapassou Ericsson e Bottas, ficando em oitavo na vigésima sétima volta. Agora ele teria que correr contra Kvyat de novo, deixando a expectativa nos dois lados da garagem. Tinha um segundo entre eles, mas o DRS estava ativo. Ele abusou disso, reduzindo para menos de meio segundo a diferença entre os dois antes de Danny ultrapassá-lo.
– Isso! – Comemorei mais contida.
Agora Danny estava em quinto lugar, da mesma forma que começou a corrida, e meia corrida para terminar. Na trigésima volta, Danny passou por Massa, se colocando em quarto lugar. Na volta seguinte, Carlos Sainz da Toro Rosso foi o quinto piloto a abandonar a corrida por algum problema de colisão.
Algo que me surpreendeu enquanto Danny tentava suas ultrapassagens para dentro do pódio novamente, era Verstappen da Toro Rosso e Kvyat da Red Bull. Na teoria, a Toro Rosso é a equipe B da Red Bull, e o corredor da Toro Rosso estava tendo um melhor desempenho do que Kvyat. Merda! Talvez eu devesse fugir da reunião pós-corrida de hoje.
Perto da quadragésima volta, Danny estava há quase 50 segundos atrás de Kimi, e Grosjean estava a quase um minuto dele. Ele estava completamente sozinho, seria um final de corrida difícil para ele.
Sem muitos acontecimentos para Danny, ele foi aparecer na quadragésima terceira volta, no último pit stop da corrida, eu acho. Ele saiu do pit na quinta posição, há um minuto de Verstappen. Quando chegaram na quadragésima sétima volta, a diferença deles reduziu para dois centésimos, mas Verstappen liberou a passagem quando entrou para o pit stop.
Faltando cinco voltas para terminar, Danny tinha mais de um minuto de distância de Hamilton, ultrapassá-lo seria um problema de novo, ainda mais ao final da corrida quando sabia que o cansaço já tinha o atingido. Apesar de menos voltas, a pista era suficientemente longa. A vantagem é que Grosjean, que ocupava a quinta posição, estava há um minuto e 15 segundos de Danny.
Depois de 57 voltas, por mais que Danny tivesse tentado, ele acabou ficando em quarto lugar novamente. Rosberg, Raikkonen e Hamilton entraram no pódio, dobradinha da Mercedes mais uma vez naquela temporada. Me assustei com os fogos estourando no céu e abaixei o fone de minhas orelhas, vendo os fogos na imagem pela televisão.
É… Corrida à noite tem suas vantagens, mas eu estava moída. A essa hora em Melbourne, na semana passada, eu já estava de pijama, brincando com Isaac e Danny enquanto esperávamos nossa comida. E ainda viajaríamos para Inglaterra hoje. Meu Deus! Meu cronograma é louco, mas nem tanto.
– Acho que começamos bem. – Virei para Michael.
– Melhor do que na primeira corrida, eu diria. – Ele disse. – Você está bem?
– Sim, eu estou bem. – Suspirei.
– Eles vão sair direto para as entrevistas, se quiser encontrá-lo. – Ele disse.
– No paddock? – Perguntei.
– Sim! – Ele disse.
– Nos vemos depois. – Falei, pulando do banco e segui correndo pela garagem, deixando o fone na estação antes de seguir para fora da garagem. Saí no paddock iluminado do Bahrein, sentindo meus All-Star travarem na mudança de piso.
Olhei rapidamente em volta, andando pelo local e encontrei a área da imprensa, vendo alguns corredores ainda ali. Procurei Danny pelo macacão, mas não o encontrei ainda. Dei outra olhada em volta, encontrando-o com alguns repórteres e reconheci Mark Webber no meio deles. Sky Sports Austrália, certeza.
Me mantive um pouco afastada até ele finalizar a entrevista. Quando terminou, como sempre, ele parecia perdido para onde ir, mas ao menos ele conseguiu me ver. Acenei com a mão, vendo seu sorriso de longe e ele andou rápido em minha direção, a roupa completa da corrida ainda. Corri atrás dele, abraçando-o pelos ombros quando nos encontramos, sentindo o tecido suado.
– Harp! – Ele apertou as mãos em minha cintura, me fazendo sorrir.
– Parabéns pela corrida. – Falei, sentindo-o me girar pelo local, nos fazendo rir.
– Ah, foi quase de novo.
– Mas foi bom! – Apoiei as mãos em seu peito quando ele me colocou no chão novamente. – Foi muito bem!
– Você ficou bem? – Ele segurou meu rosto.
– Eu estou muito bem! – Sorri e ele pressionou os lábios em minha testa. – Apesar daquele começo, deu tudo certo.
– Bom saber disso. – Ele me abraçou pelos ombros, apoiando a cabeça na minha. – Pronta para ir embora? – Ele perguntou.
– Outra viagem longa? Claro! – Fui sarcástica, ouvindo-o rir.
– Venha, venha com o príncipe da Austrália. – Franzi a testa.
– Que merda?! – Ele gargalhou.
– O pessoal louco da Sky Sports. – Ele passou a mão em meus ombros. – Mas gostei, então venha comigo, plebeia! – Gargalhei com ele, abraçando-o pela cintura.
– Eu vou a qualquer lugar contigo, contanto que eu possa dormir no caminho. – Ele riu fracamente.
– Vamos lá, Harp. Eu te coloco na cama. – Ri fracamente, sorrindo em seguida.
Milton Keynes, Inglaterra
Daniel
– Chegamos, garotos. – Christian falou e apertei as mãos nos olhos, respirando fundo. – Descansem, nos encontramos amanhã às quatro.
– Pode deixar. – Daniil falou antes de mim.
– A gente se vê. – Falei e Christian foi o primeiro a sair da van e senti uma mão em meu ombro, virei para Michael.
– Harper dormiu de novo. – Ele disse e inclinei meu rosto para o banco da frente, vendo Harper com os olhos fechados, dormindo calmamente com a cabeça apoiada no encosto e sorri. – Acordo ela?
– É o efeito do remédio, ela vai dormir por mais umas 12 horas direto. – Suspirei.
– O que fazemos? – Ele perguntou.
– Daniel? – Virei para Maria na porta. – Vamos!
– Já vou. – Falei, virando para Michael. – Pega minhas coisas, por favor. Eu vou leva-la. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
Soltei o cinto e ajeitei a mochila nas costas antes de deslizar para o banco da frente onde estava Harper. Soltei seu cinto de segurança e pensei rapidamente como a tiraria da van sem bater a cabeça dela ou sem derrubá-la… E cair no processo, é claro.
Passei os braços dela pelos seus ombros e puxei-a um pouco mais para frente do banco. Passei o braço embaixo de seus joelhos e depois outro em suas costas antes de puxá-la um pouco para cima, colando seu corpo contra o meu.
– Cuidado com a cabeça. – Michael disse e saí de ré da van, sentindo-o conter minhas costas pela mochila.
– Hum, o que está… – Senti as mãos de Harper me apertarem.
– Sou eu, Harp. O Danny. – Falei para ela, dando um beijo em sua cabeça. – Chegamos.
– Eu consigo andar… – Ela disse, sonolenta.
– Desse jeito você vai desmaiar antes do segundo passo. – Falei, rindo e ela deu um sorriso, mas já estava dormindo novamente.
– Me guia. – Falei para Michael.
– Ela capota fácil assim? – Maria perguntou ao meu lado.
– Ela costuma enjoar fácil em movimento, então ela toma remédio para enjoo, só que ele a derruba por umas 24 horas. – Falei, rindo fracamente, desviando da porta do prédio da fábrica quando ele abriu.
– Pelo menos deu tudo certo na corrida hoje. – Maria falou.
– Sim, tenho esperança de ela deixar o medo passar até o meio da temporada. – Falei, vendo Maria chamar o elevador. – Boa noite! – Acenei para o segurança de plantão da madrugada.
– Boa noite. – Ele respondeu com um aceno.
– Uma pena o que houve… – Maria comentou.
– Sim. – Suspirei. – Até hoje eu não me conformo de não estar perto dela nisso…
– Você ajudou como pôde, Daniel. – Michael disse. – Você foi correndo para Perth…
– Mas eu não estava com ela. – Finalizei, entrando no elevador quando ele abriu.
– Vocês dois precisam parar de tentar compensar uma conta que não é de vocês. – Michael disse firme. – Ela estava em Sydney, você estava na Itália, não foi culpa de vocês e nem dos pais dela. Aconteceu! – Ele disse, bravo. – Chega!
– Mas eu podia ter ajudado mais, ter ajudado com o trauma e…
– Você não tinha como ajudar nisso, Daniel. – Michael disse. – Tanto que vocês não sabiam do trauma até seu acidente. – Suspirei, vendo o elevador se abrir novamente.
– Abre para mim. – Pedi, cansado daquele assunto novamente e Maria foi à frente, seguindo até uma das portas e abriu-a.
Não sabia de quem era o quarto, mas entrei e fui até a cama de casal, colocando Harper devagar nele, tirando seus cabelos do rosto antes de virar para o outro lado, vendo o pessoal na porta novamente.
– Que horas é amanhã?
– Às quatro na sala do simulador. – Maria disse, me entregando duas chaves. – O quarto dela e o seu do lado. – Coloquei as duas chaves no bolso da calça jeans.
– Eu encontro vocês lá. – Falei.
– Tem comida no armário e na geladeira, se quiser. – Ela disse, com os lábios pressionados.
– Obrigado. – Falei e ela assentiu a cabeça antes de se afastar com um aceno para o quarto no fim do corredor e Michael apertou meus ombros.
– Não pensa mais besteira, ok?! – Ele disse, sério. – Eu estou aqui do lado se precisar de alguma coisa. – Ele me entregou as duas malas, minha e de Harp.
– Obrigado. – Falei. – Eu vou ficar aqui, esse remédio é forte demais, vou ficar de olho nela. – Ele assentiu com a cabeça.
– Boa noite. – Ele disse e dei um curto sorriso, fechando a porta quando ele sumiu da minha vista.
Entrei no quarto novamente, arrastando as duas malas para fora do corredor e vi Harper dormindo na cama literalmente desmaiada. Soltei um suspiro e me aproximei dela. Sentei na beirada da cama, perto de seus pés e soltei os cadarços de seu All-Star, antes de puxá-los para fora de seus pés.
Me levantei novamente, puxando a coberta do outro lado da cama, abrindo o máximo possível e voltei para o outro lado da cama para pegar Harper e colocá-la embaixo das cobertas. Puxei a coberta para cima dela e joguei seus cabelos para trás, dando um beijo em sua testa.
– Boa noite, Harp. – Falei baixo, acariciando seu rosto, analisando os traços dele e suspirei mais uma vez.
Voltei para minhas coisas e deitei minha mala no chão para pegar algumas coisas e fui para o banheiro. São quatro da manhã, mas eu preciso de um banho. Entrei embaixo da água morna, deixando meu corpo relaxar por alguns minutos. Sair do calor do Bahrein e voltar para o frio da Inglaterra em menos de 24 horas não era fácil, só precisava manter minhas vitaminas em dia para não baixar a imunidade.
Saí do banho, me secando com a toalha e vesti uma calça de moletom e uma camiseta larga. Voltei para o quarto, encontrando Harper da mesma forma e ri fracamente. É incrível como isso a derruba de verdade.
Pensei um pouco se estava com fome, mas tinha comido no avião pouco antes do pouso. Harper que deveria estar faminta, já que não comeu em nenhuma das duas refeições, mas seu sono era forte demais, nem adiantaria eu acordá-la agora, ela dormiria em poucos segundos.
Deitei ao seu lado na cama, colocando as pernas para dentro das cobertas e deslizei o corpo para baixo. Virei meu corpo em direção à Harper e chequei-a por mais alguns segundos, sorrindo mais uma vez com sua serenidade ao dormir. Acariciei sua bochecha com o polegar, passando pelos seus lábios e meu peito apertou mais uma vez, me deixando confuso. Isso estava acontecendo com frequência, precisava dar uma checada antes que piorasse.
– Boa noite, Harp. – Dei um beijo em sua bochecha, ajeitando meu corpo na cama. – Estou aqui se precisar de alguma coisa. – Falei antes de desligar a luz.
Capítulo 8
Perth, Austrália, 1999
– Lá vem eles! – Helena disse quando os karts passaram novamente em frente a eles, fazendo os rostos dela e de Grace virarem com o movimento deles.
– É Harper no preto? – Grace perguntou.
– Parece que sim! – Helena disse, rindo.
– Ah, o Danny vai ficar muito bravo. – Grace disse, gargalhando com a amiga, quando os karts sumiram pelo túnel.
– Como ele está indo? – Helena aproveitou o assunto.
– Está bem até. – Grace suspirou. – Estou tentando usar como barganha. – Helena riu.
– Como assim?
– Ah, pela escola. Eles entraram na quinta série, estavam superanimados, mas as notas dele nunca foram tão baixas. Estou usando chantagem como moeda de troca. – Helena sorriu no meio da risada, da mesma forma que a filha.
– E como está indo? – Helena perguntou.
– A semana de provas está chegando, né?! Vamos ver. – Grace suspirou. – E Harper? Como está indo?
– Sete, oito, mas ela frequenta o plantão de dúvidas à tarde. – Grace suspirou novamente.
– O Danny deveria frequentar o plantão de dúvidas. – Ela resmungou, fazendo a amiga rir.
– Pensa bem, Grace, se a carreira de corrida de Daniel der certo um dia, talvez ele nem precise do básico da escola. – Helena brincou, rindo.
– Talvez não, mas quantas pessoas têm sucesso nesse mundo, Helly? – Helena suspirou. – Em todas as categorias do mundo, NASCAR, Fórmula Um, Fórmula Ford, até Kart, quantos por categoria acabam tendo sucesso?
– Uns 20 por categoria. – Helena suspirou e Grace assentiu com a cabeça antes de olhar para os karts passando novamente e Harper continuava à frente de Daniel.
– É pouco, tenho medo de ele se frustrar. – Grace apoiou as mãos na grade à sua frente.
– Apesar de não querermos isso para nossos filhos, frustração faz parte da vida, e ele vai aprender a lidar com ela, não dando certo ou dando. – Helena disse. – É uma corrida e só um ganha.
– Você está certa. – Grace disse, suspirando.
– Vamos lá na frente, falta só uma volta. – Helena disse, apoiando as mãos nas costas da amiga e ambas andaram pela lateral da arquibancada, se aproximando da entrada.
Não demorou muito para que os cinco karts aparecessem novamente e, dessa vez, uma pessoa segurava uma bandeira quadriculada, abanando-a para eles. Os quatro karts pararam perto da área do pódio e as mães foram para perto dos filhos e maridos.
– EU VENCI! – Harper falou, empolgada ao seu livrar do capacete, fazendo seus cabelos deslizarem pelos ombros. – Eu venci! – Ela falou, surpresa e os cabelos de Daniel apareceram por baixo do capacete. A falta do sorriso em seu rosto mostrava que o tempo havia fechado para ele.
– Parabéns, filha! – Helena falou, abraçando a menina, enquanto Alex, Joe e Michelle saíam de seus karts. Grace se aproximou de seu menino, passando as mãos em seus cabelos.
– Não vai parabenizar a Harper? – Ela perguntou baixo, ajeitando os cachos do menino.
– Não… – Ele falou com um bico nos lábios.
– Como não? Perder também faz parte da diversão. – Ela deu um beijo em sua bochecha. – Se você quiser ser um corredor de verdade, você precisa aprender a perder também. – Ele suspirou. – E ela é sua amiga, não?
– É… – Ele disse fracamente.
– Então dá um sorriso para mãe e vai lá, é aniversário dela. – Ele deu um sorriso não tão largo quanto a mãe estava acostumada, mas foi em direção à Harper que era abraçada por seu pai.
– Minha mocinha, me venceu! – Alex era dramático, fazendo-a rir.
– É só uma corrida, pai! – Ela disse, rindo, com seu rosto amassado contra o corpo do pai.
– Parabéns, Harp! – Danny disse e Michelle sorriu ao lado dele, passando as mãos nos cabelos do irmão.
– ‘Brigada, Danny! – Harper disse e Danny a abraçou apertado, fazendo Grace sorrir.
– Você pode correr comigo. – Ele disse e ela riu.
– Acho que é melhor só você correr. – Ela disse, sorrindo. – Cansa muito. – Ela passou a mão na testa suada.
– Mas você gostou, não?
– Gostei sim! É divertido! – Ela sorriu.
– Vocês precisam subir no pódio, gente! – Joe disse.
– Isso! Vem, Harper! – Danny disse, puxando a mão dela e ambos foram junto de Michelle para o pódio. – Fala, pai!
– Em terceiro lugar, Michelle Ricciardo. – Joe imitou a voz de um locutor e a menina três anos mais velha que Daniel subiu no pódio, com o rosto vermelho de vergonha.
– Ai, pai! – Ela reclamou, rindo.
– Entra na brincadeira, filha! – Joe disse. – Em segundo lugar, Daniel Ricciardo. – Daniel subiu mais empolgado, fingindo uma comemoração digna de final de campeonato, pulando e Harper gargalhou ao seu lado, enquanto os pais aplaudiam. – Em primeiro lugar, novata na categoria, Harper Addams!
– Uhul! – Os pais gritaram, animados, aplaudindo e Danny deu a mão para amiga subir na parte mais alta do pódio.
– Os vencedores do Grand Prix do aniversário da Harper. – Joe disse, fazendo os pais gargalharem e aplaudirem.
– Cadê o refrigerante, pai? – Danny perguntou.
– Não vamos fazer bagunça aqui, não! – Joe disse.
– Ah! – Danny fez careta.
– Juntem para a foto, gente! – Helena disse, pegando sua câmera e Michelle e Daniel subiram no degrau mais alto com Harper e ela os abraçou por trás. – Digam “xis”.
– Xi-i-is! – Os três falaram antes de Helena estourar o flash.
– Pronto! – Ela sorriu. – Agora vamos cortar o bolo!
– Isso, bolo! – Harper deu um pulo para o chão novamente.
– Vamos lá! – Helena disse e os sete andaram para a parte coberta em volta da pista e eles colocaram os capacetes na mesa antes de seguir para perto da mesa arrumada com decoração de As Meninas Superpoderosas.
Helena foi até a geladeira, pegando o bolo decorado da filha e levou até a mesa principal, colocando na frente dela. Ela espetou as velas de número 10 antes de acender com o fósforo.
– Danny, Mi, vão com a Harper! – Helena disse e ambos se colocaram junto dela. – Vamos lá? Parabéns para você…
– Nesta data querida… – Os outros começaram a cantar com a mãe. – Muitas felicidades, muitos anos de vida! E para Harper nada? Tudo! – Danny gritou, animado. – Então como é que é? É! É pique! É pique! É pique! É pique! É pique! É hora! É hora! É hora! É hora! É hora! Rá-tim-bum! Harper! Harper! – O pessoal aplaudiu no ritmo da música.
– Assopra a vela e faz um pedido, filha! – Helena disse e a menina fingiu pensar por alguns segundos antes de fechar os olhos com força e assoprar a vela.
Que ela sempre tenha seu amigo e sua família ao seu lado, para sempre. Não importa o que houver.
– O que pediu, filha? – Helena perguntou.
– É segredo, mamãe! – Harper disse, rindo. – Mas parece que já se realizou. – Ela deu de ombros e Helena sorriu, como se soubesse o que era.
– Corta o bolo, Harp! Está com uma cara boa! – Daniel disse, fazendo Grace rir e ela sabia que seu pequeno podia não gostar de perder, mas talvez soubesse.
Milton Keynes, Inglaterra, 2016
Harper
– Isso é uma péssima ideia! – Cantarolei.
– Não é uma péssima ideia, para de ser pessimista! – Blake* disse e folheei a revista.
– O cabelo do Danny é cacheado, não é fácil cuidar. – Falei novamente.
– Harper, eu te amo, mas cala a boca! – Danny disse e revirei os olhos.
– Me ouve, meu cabelo que não é tão encaracolado e já é difícil de cortar, agora o seu…
– HARPER! – Danny me repreendeu e passei a língua levemente no dedo, virando a página da revista.
– Me escuta, Danny… – Falei suspirando.
– JÁ ESTÁ ACABANDO. – Blake gritou e ergui o olhar para Michael.
– Você confia nisso? – Perguntei e ele riu fracamente.
– Eu confio em você. – Ele disse, me fazendo dar de ombros em sinal de vencimento e suspirei.
– Só mais um corte e… – Blake disse.
– Vai dar muito ruim… – Falei novamente.
– VOCÊ QUE NÃO QUIS VIR CORTAR. – Danny gritou.
– EU NÃO SEI CORTAR CABELO. – Gritei de volta. – E nem o Blake. – Neguei com a cabeça.
– Terminei! Para de drama! – Blake disse e abaixei a revista em meu colo. – O que acha?
– QUE PORRA É ESSA?* – Ouvi a voz de Danny e corri para a porta com Michael, entrando no quarto e arregalei meus olhos antes de ouvir a risada de Michael.
É claro que eu estava certa. Os cabelos de Danny estavam longos demais antes, mas agora eles estavam… Estranhos? Oh, Deus! Blake tinha raspado as laterais mais baixas do cabelo de Danny, deixando um topete longo e cacheado no centro da cabeça dele, quase como um corte tijelinha cacheado. Eu não tinha reação, mas estava muito feio. Enquanto isso, Michael já tinha caído no chão de tanto rir.
– Eu te avisei! – Falei, dando de costas para ele e andando pelo quarto.
– O que eu faço? – Danny perguntou, saindo do quarto atrás de mim.
– Parece… Parece… – Michael não conseguia falar enquanto gargalhava.
– Harper! – Daniel me chamou e fui até a mesa de cabeceira do quarto, mexendo nos papéis ali. – Eu não posso aparecer assim.
– Está estiloso, cara! – Blake disse e encontrei o papel da recepção.
– ESTILOSO? ESTÁ HORRÍVEL! – Danny gritou e peguei o telefone, discando para a recepção. – Harper! – Virei para ele.
– A ideia é raspar. – Michael disse.
– EU VOU PARECER UM ET! HARPER! – Ele gritou para mim e sacudi as mãos para ele. – O que está fazendo?
– Cala a boca! – Falei, tampando o outro ouvido com a mão.
– Recepção.
– Oi, boa tarde. Eu queria saber se o cabeleireiro está livre. – Perguntei e Danny arregalou os olhos.
– Eu vou checar, um minuto, por favor. – A recepção disse e apoiei a mão no bocal.
– Não vou deixar você sair assim. – Falei para Danny. – Ainda tenho uma reputação a zelar.
– Sim, ele está livre. – O recepcionista disse.
– Ele poderia vir até o quarto 63 corrigir uma cagada que meu amigo fez? – Perguntei.
– Vou pedir para ele subir. – Ele disse, rindo.
– Obrigada! – Disse, antes de desligar o telefone. – Eu vou salvar sua vida.
– Já falei que te amo? – Danny disse.
– Não vai me mandar calar a boca de novo? – O provoquei.
– Nunca mais. – Ele disse e revirei os olhos, andando de volta à poltrona que eu estava e me sentei, pegando a revista novamente.
– E limpa aquele quarto, a camareira não precisa cuidar daquela bagunça. – Falei, revirando os olhos, rindo fracamente ao olhar novamente para os cabelos de Danny. – Antes estava melhor.
– Não ria. – Ele pediu, escondendo o rosto.
– Estou tentando, mas está difícil! – Falei, desviando o olhar.
Não demorou mais do que 15 minutos para baterem no quarto e indiquei-a para Daniel. Ele revirou os olhos e deslizou os pés até a porta, a abrindo devagar, espiando quem era antes de abrir completamente.
– Meu amigo, o que fizeram no seu cabelo? – O cabeleireiro falou e ri junto de Michael.
– Eu tenho um voo em três horas, consegue fazer um milagre? – Danny perguntou e o homem entrou no quarto.
– Não sei sobre um milagre, mas talvez consertar essa… Obra de arte? – Gargalhei alto.
– Valeu. – Blake falou, ofendido e revirei os olhos.
– Era melhor você ter ficado na Austrália. – Falei, dando de ombros.
– Há, há, há! – Blake disse sarcasticamente.
– Eu vou terminar de arrumar as coisas enquanto vocês consertam aí. – Falei, me levantando. – Suas coisas estão prontas? – Perguntei para Danny.
– Sim, só falta isso… – Ele tirou os chinelos dos pés, me entregando.
– Boa sorte. – Falei antes de seguir para dentro do quarto que dividíamos.
Terminei de fechar minha mala, colocando uma roupa mais confortável para enfrentar mais 12 horas de voo até Pequim, depois mais três horas de trem até Xangai. Meu corpo estava cansado desse calendário maluco da Fórmula Um e só estávamos indo para a terceira corrida da temporada. A vantagem é que tínhamos uns 10 dias entre um circuito e outro, então dava para eu descansar. Em compensação, precisava fazer mais do que três refeições do dia fora para manter minha média semanal com a Michelin. Com isso eu estava cansada, com o paladar misturado e estufada.
Passei para as coisas de Danny quando fechei, colocando seu chinelo no meio das coisas antes de também fechar sua mala, colocando-a no chão. Fiz uma rápida checagem no ambiente antes de levar tudo para a antessala, vendo que Michael e Blake tinham saído para terminar de arrumar suas coisas também.
– O que acha? – Ouvi o cabeleireiro e respirei fundo, franzindo a testa. – Não está perfeito, mas…
– Oh, cara. Você salvou minha vida. – Danny riu. – Dá para viver com isso.
– Seu cabelo é cacheado, cara. Não tenta fazer isso de novo, vai ficar ruim. – Danny riu.
– Aprendi minha lição.
– Danny, como ficou? – Perguntei do lado de fora.
– Pode entrar, Harp. Desastre contido. – Ele disse, rindo e fui até a porta, apoiando a mão no batente antes de olhar para dentro.
Danny virou o rosto para mim quando apareci e senti meu coração dar uma batida em falso, fazendo meu peito pressionar como se tivesse sido torcido. O desastre foi muito bem contido, o cabeleireiro conseguiu fazer um falso degradê com o que sobrou, deixando uma linha completa até a barba. Ele também tirou um pouco dos cachos de Danny atrás, deixando quase como um moicano. Danny está lindo! De todos as tentativas de cabelo e barba, no meio da bagunça, ele tinha acertado no meio do erro.
– Harp? – Sacudi a cabeça.
– Uau! – Falei, engolindo em seco, pensando no que falar.
– Está bom? – Ele perguntou novamente.
– Está perfeito… – Falei em um suspiro. – Melhor do que antes, é claro.
– Obrigado, Harp. – Ele disse, dando um curto sorriso e engoli em seco, pressionando os lábios. – Obrigado, cara! – Ele bateu na mão do cabeleireiro e pressionei os lábios.
– Eu… – Sacudi a cabeça. – Eu vou te esperar lá fora. – Falei, saindo com pressa do quarto, sentindo meu corpo bater contra o batente antes de eu sair.
*Esse corte de cabelo no Danny foi originalmente feito pelo marido da jornalista Natalie Pinkham, que vem a ser mãe do afilhado do Daniel. Todos no paddock acabaram comentado sobre aqui e aqui.
*Blake Friend: apesar de citado na história de que Blake é um dos amigos de infância, eles só se conheceram quando Daniel já estava na Red Bull (sem data correta). Na história ele é citado só como amigo de Daniel, mas ele se tornou empresário de Daniel quando ele foi para a Renault, logo após a demissão de Glenn.
Xangai, China
Daniel
– Obrigado. – Agradeci quando a comissária colocou a bandeja em minha frente e a chinesa deu um sorriso antes de se retirar.
Tirei a proteção da embalagem, revelando meu almoço. Dei um curto suspiro com a comida tradicional chinesa e peguei os hashis, separando-os antes de pegar um pouco de comida e colocar na boca.
– Hum, isso é bom. – Suspirei, erguendo o rosto. – O que acha, Harp? – Virei para ela, vendo-a dormindo ainda e suspirei.
– Ela dorme demais, não? – Blake disse e ri fracamente.
– Eu vou esconder o remédio dela um dia, não dá nem para aproveitar a viagem. – Bufei, sacudindo a cabeça em seguida.
– Como estão as coisas com ela aqui? – Ele perguntou.
– Estão boas… Tivemos um problema na primeira corrida com o acidente do Alonso, mas deu tudo certo no Bahrein, espero que continue assim. – Olhei para Harper novamente.
– E como estão vocês dois? – Ergui o rosto para ele, franzindo a testa.
– Como assim?
– Ah, você sabe, vocês não ficavam juntos por tanto tempo desde… Sei lá! Antes do ensino médio. – Ele disse, rindo.
– As coisas estão bem, qual é… É Harper! – Falei, rindo fracamente. – Somos melhores amigos, nada muda conosco.
– Ah, vai saber. – Ele riu. – A Harper mudou, cara… – Virei para ela novamente. – E não dizendo isso para te irritar… Ela virou um mulherão.
– Eu vejo isso. – Falei, rindo. – É difícil não ver, na verdade. – Ri fracamente.
– Cuidado no caminho que você entra, Blake. Você vai ser expulso do grupo. – Michael disse, nos fazendo rir.
– Não, Bruce fez na maldade, cara. – Falei. – Ele estava bêbado, ele estava pressionando ela, ele fez na maldade, de verdade.
– Mas vamos ser realistas, se qualquer um tivesse algum interesse real, você não ia deixar também. – Joguei a cabeça para trás.
– Ah, cara! – Suspirei. – É difícil pensar nessa possibilidade. – Fiz uma careta. – Eu não sei, ela é como uma irmã para mim, não consigo deixar qualquer um chegar perto dela.
– Você não fala que a Michelle está gostosa, Daniel! – Michael disse e pressionei os lábios. – É diferente, vai. Olha para ela… – Virei o rosto para Harper novamente. – Você cuida dela como se ela fosse quebrar a qualquer momento. Isso em qualquer situação. – Suspirei.
– Eu não sei, é algo forte. Eu a amo, ela é minha melhor amiga, passamos por muita coisa juntos para eu simplesmente deixar para lá. – Dei de ombros. – Não sei… É a Harper.
– Não é possível que nunca tenha acontecido algo entre vocês. – Blake disse, rindo.
– Uma vez. – Comentei.
– Mesmo? – Michael falou, surpreso, se ajeitando na poltrona do trem.
– É, cara, meu primeiro beijo, lembra? – Virei para ele.
– Oh, verdade! – Blake disse, rindo. – Oh, cara! Verdade!
– É, mas não foi nada, qual é! Não foi grande coisa. – Ri de nervoso.
– Parece que foi. – Rimos juntos.
– Éramos crianças, foi meu primeiro beijo, foi o primeiro dela também, é claro que foi estranho! – Rimos juntos. – Mas nada que afetou nossa amizade.
– Cara! O primeiro beijo da vida de vocês foi entre vocês, não é possível que seja só amizade. – Blake disse e revirei os olhos.
– Eles dormem muito juntos. – Michael disse.
– Oh!
– Ah, cala a boca! – Chutei Michael à distância. – Nós só conversamos e dormimos, qual é! – Senti meu rosto esquentar.
– Você nunca acordou excitado, não? – Blake disse.
– Ah, cara! Ok, chega! Chega! – Inclinei meu corpo e dei um soco em seu braço.
– Ah! – Ele reclamou.
– Cala a boca! Sério! Somos amigos, não é assim.
– Eu não estou duvidando disso, só dizendo que somos homens! Essas coisas acontecem. – Blake disse.
– Cala a boca, sério! – Sacudi a cabeça. – Cala a boca e come. – Eles gargalharam e neguei com a cabeça, voltando a focar em minha comida.
As risadas dos dois cessaram depois de alguns segundos e neguei com a cabeça, enchendo a boca de yakissoba. Ergui meu rosto devagar para Harper, tentando observá-la de forma discreta e ela dormia calmamente. As pernas em cima da poltrona e o rosto virado para a janela do trem que corria a 300 km/h. Dei um sorriso, pressionando os lábios e pensei no que Blake disse, tentando repassar todos os nossos anos juntos.
Muita coisa aconteceu desde que nos conhecemos, mas tirando nosso beijo, ou selinho, porque não passou daquilo, não tivemos mais nada nesse sentido. Tá, eu já dei uma espiada em suas pernas, seus seios e bunda quando estávamos mais perto, mas não desse jeito…
Pelo menos eu acho que não.
Mas todo mundo falando isso me faz pensar se eu não estava passando os sinais errados.
Quarta-feira
Harper
– Não se preocupe com isso, tenho algumas coisas na manga, a começar com um restaurante italiano. – Falei.
– Um restaurante italiano na China? – Meu revisor falou.
– Por que não? A beleza da culinária é encontrar coisas interessantes nos mais estranhos lugares, não? – Falei, vendo a porta se abrir e vi Michael colocar a cabeça para dentro.
– Você está certa! Mas eu quero algo mais regional, pode ser? – Chamei Michael com a mão.
– Claro! Não se preocupe, vou compensar as faltas do Bahrein. – Falei, suspirando.
– Esperamos! Suas revisões sempre foram impecáveis. – Suspirei.
– Sim, eu sei, vou compensar isso. – Cocei a testa. – Como foi com os que eu enviei?
– Muito bons, como sempre. Já aprovamos 17 dos que enviou. O de Londres, então. Um ótimo achado. – Sorri.
– Dica de um amigo. – Falei.
– Muito bom mesmo! Nos falamos na semana que vem? – Ele perguntou.
– Sim, claro! – Joguei os cabelos para trás. – Mando os relatórios dessa semana até segunda. Obrigada!
– Obrigada, bom trabalho! – Ele disse e desliguei a ligação do Skype, abaixando a tela do notebook e virei para Michael na porta.
– Ei! – Falei.
– Ei! Daniel vai sair com os outros pilotos, então somos só nós e Blake. Queria saber se você quer fazer alguma coisa. – Ele deu de ombros.
– Eu tenho que trabalhar. – Fiz uma careta. – Vou jantar em um restaurante aqui perto.
– Podemos ir contigo? – Ele perguntou.
– Até podem, mas vocês sabem que…
– Sabemos, Harper! Manter a discrição, não comentar nada sobre você ser da Michelin e agir como se estivéssemos só jantando. Já faz cinco anos. – Michael disse e assenti com a cabeça.
– Ok, saímos as oito, pode ser? Eu tenho reserva.
– Combinado! – Ele disse. – Vou avisar Blake.
– Ah, Michael! – O chamei e ele parou o passo. – Uma garrafa de vinho, no máximo. Não quero ninguém bêbado comigo.
– Vou avisar Blake. – Ele disse, fazendo uma careta e rimos juntos antes de ele sair pela porta. – Oh! Calma aí, cara! – Ele disse e Danny entrou no quarto.
– O que acha? – Ele esticou os braços como se me mostrasse algo e desci os olhos para a calça skinny preta e a camisa laranja de botões, além do tradicional Vans. Ele estava lindo e tradicional Ricciardo. Dei um curto sorriso e pigarrei, virando para o lado.
– Você vai sair com os caras ou vai em um encontro? – Perguntei.
– Só sair com os caras. – Ele disse. – Mas também não preciso estar largado, né?! – Ele disse e empurrei o notebook para longe de mim e me levantei da cama. – O que acha?
– Muito garotinho de escola. – Comentei, me aproximando dele e abri o primeiro botão de sua blusa, vendo a camisa branca por baixo. – Abre isso. – Falei, me afastando alguns passos e ele puxou as laterais da blusa, fazendo os botões abrirem. – Sem arrebentar a blusa no meio do caminho, de preferência. – Ele riu e ajeitou a gola da blusa.
– Melhor? – Dei um curto sorriso, tombando a cabeça para o lado, fingindo pensar. – Harp!
– Está ótimo, Danny! – Sorri, me sentando na cama novamente, erguendo uma perna. – Vai conquistar todos os pilotos.
– Harper! – Ele me repreendeu, me fazendo rir. – Você não se importa de eu ir?
– Ah, Daniel, pelo amor de Deus! É claro que não! – Abanei a mão, abrindo o notebook de novo. – Não nascemos colados, você pode se divertir com os caras. A gente se encontra depois. – Dei de ombros. – Eu preciso sair para trabalhar. Tem um restaurante aqui na área que é do interesse da empresa, então os caras vão comigo. Só espero que o Blake não fique bêbado…
– Ele sabe como é importante a discrição do seu trabalho. – Assenti com a cabeça. – Ele não faria nada para te prejudicar.
– Acho melhor ficar sem álcool hoje. – Ele sorriu, se sentando ao meu lado.
– A gente se fala na volta? – Ele perguntou.
– É claro! Provavelmente eu estarei dormindo quando você voltar, ainda tem um pouco do remédio aqui. – Ele assentiu com a cabeça.
– Tenta não tomar tanto mais desse remédio. – Ele pediu. – Especialmente quando chegarmos na Europa que as viagens são menores. – Assenti com a cabeça, sentindo-o segurar minha mão. – Eu te distraio para você não enjoar. – Ri fracamente, vendo-o olhar para nossos dedos e senti um formigar.
– Eu vou tentar. – Assenti com a cabeça, puxando minha mão devagar, engolindo em seco.
– Me manda mensagem se precisar de algo. – Ele se levantou rapidamente. – Eu estarei aqui perto.
– Não se preocupe, eu tenho Blake, Michael e Maria se precisar de algo. – Falei. – Vai se divertir, ok?!
– Você também. – Ele disse. – Estou no celular.
– Eu sei, Daniel. Relaxa! Vai! – Falei rindo e ele acenou com a mão, mandando um beijo antes da porta se fechar.
Soltei um suspiro, tombando o corpo para trás e apertei uma mão com a outra, sentindo o formigar entre elas. Levei as mãos perto da boca e senti a cabeça funcionar rápido demais. Eu já tinha sentido isso antes, aos 13 anos. Éramos crianças naquela época, foi meu primeiro beijo, então é compreensivo aquele mix de emoções, mas e agora? Nada mudou, ainda somos Danny e Harp, não?
Merda! O que será que está acontecendo? E por que parece exatamente como daquela vez?
Daniel
– Eu não acho que eu deveria comer mais, mas isso está demais. – Nico falou, me fazendo rir.
– Eu perdi as contas. – Nando disse, puxando mais um pedaço da pizza. – Estamos na China, desde quando a pizza é boa?
– A Harper gostaria muito disso aqui. – Falei, rindo.
– Ela trabalha com comida, certo? – Seb perguntou.
– Sim, trabalha. – Assenti com a cabeça.
– O que ela faz? – Nico perguntou.
– Hum, vamos dizer que cuida da parte de qualidade dos restaurantes do mundo. – Ponderei com a cabeça, indeciso se poderia contar.
– Harper é a garota que está contigo? – Lewis perguntou e mordi a pizza, puxando o queijo derretido para minha boca.
– Sim, ela é minha amiga! – Falei, abanando a mão.
– Bom saber disso! – Ele disse e ergui o olhar para ele, confuso. – O quê? Eu tenho olhos. Ela é bonita!
– Eu disse a mesma coisa. – Nando deu de ombros.
– Ah, caras, cala a boca, por favor. – Apertei a mão na cabeça, negando com a cabeça. – Não… Não falem isso dela.
– Por que não? Quem sabe algum de nós possa ser seu cunhado? – Nando disse, batendo em minhas costas e senti algo apertar em minha barriga, um tipo de enjoo.
– Ah, não mesmo. – Falei, rindo de nervoso. – Nem brinca com isso.
– Tem certeza de que são só amigos mesmo? – Seb perguntou, franzindo a testa.
– Sim, só amigos. – Falei, rindo.
– Fala sério, Danny boy, você está se mordendo de ciúmes. Pode contar! – Lewis disse e ri fracamente.
– Não tem nada, caras. A gente só não tem um histórico bom com namorados um do outro, só isso. – Dei de ombros, mordendo um grande pedaço de pizza. – Somos amigos desde os três anos, passamos por muitas coisas juntos, é normal… – Dei de ombros.
– Olha, não duvidando de nada, mas se eu tivesse uma amiga de infância como a sua, nunca que ela seria só amiga. – Nando disse, dando dois tapinhas em minhas costas.
– Eu não a vi, tem fotos? – Nico perguntou, fazendo o pessoal gargalhar.
– Olha lá, Britney! Você é casado!
– Não a pedi em casamento, mas olhar não tira pedaço, pô! – Ele falou, fazendo os caras gargalharem.
– Ah, cara…
– Tem algo aí, Danny boy! – Nando disse. – Esse ciúme todo não é normal.
– É sim! – Minha voz saiu mais esganiçada. – Minha com ela e dela comigo! Desde sempre! – Dei de ombros.
– Qual é! Estamos só nós aqui, cara. – Seb disse. – Vai dizer que você nunca deu uma olhada diferente pelo corpo dela? Sentiu uma palpitação no coração quando ela sorriu? Um desconforto estranho entre as pernas…? – Os caras gargalharam, mas minha cabeça foi longe, me lembrando das várias palpitações estranhas que eu sentia no coração. – Hein?!
– Ah, cara! Isso não é nada! Isso é normal, isso… – Eles riram e ergui meu olhar para eles, olhando para atrás de Lewis e vi Harper entrando no restaurante com Michael e Blake.
Ela estava com uma calça jeans escura justa no corpo, uma blusa branca e um casaco cor caramelo por cima, além de estar quase da altura de Michael, então ela finalmente tinha colocado os saltos mais altos para sair. Os cabelos estavam soltos e naturais, do jeito que eu mais gostava. O olhar dela se virou para mim, me encontrando, e ela parou no meio do caminho, surpresa. Dei um sorriso e ela deu um aceno discreto.
– Daniel! – Virei para o lado, vendo Nando. – Acordou, foi?
– Sonhando acordado, garoto? – Nico perguntou. – E depois diz que não tem nada. – Os caras riram.
– Na verdade, Harper está ali! – Indiquei com a cabeça e os quatro nada discretos, além de outros em volta, viraram o rosto para Harper, fazendo-a se surpreender com a atenção repentina. – Obrigado por serem discretos. – Falei sarcasticamente.
– Não tem chance de você ser só amigo dela. – Nico disse, sério, gargalhando em seguida.
– Licença! – Pedi, me levantando e eles gargalharam.
– VAI, DANNY BOY! – Eles gritaram.
– NÃO VAI NOS APRESENTAR? – Nico gritou e corri até meus amigos.
– Ei, Danny. – Harper disse, tirando o casaco.
– Você sabia que eu viria aqui? – Perguntei, apoiando a mão em suas costas e trocados dois rápidos beijos.
– Não, eu tinha uma dica da empresa, fiz reserva logo que eu decidi te acompanhar. – Ela apoiou o braço em meus ombros.
– Você vai amar a pizza, já comi uns 20 pedaços. – Ela riu fracamente.
– Daniel…
– O quê? É bom! – Acenei para Michael e Blake.
– Se eu soubesse que você estava aqui, viria outro dia, me senti um tanto intimidada… – Ri fracamente.
– Me desculpe sobre eles, eles… – Virei em direção à larga mesa, vendo quase todo mundo virado para nós com largos sorrisos. – Eles são idiotas. – Ela riu fracamente.
– Não se preocupe. – Ela deslizou a mão para fora de meus ombros. – Vai se divertir. Nos falamos depois. – Ela sorriu e desci a mão de sua cintura.
– Talvez possamos ir embora juntos… – Falei.
– É, claro! – Ela assentiu com a cabeça. – Estarei aqui. – Sorri, dando um beijo em sua bochecha, fazendo-a rir. – Vai! – Ela me empurrou pelos ombros, me fazendo rir.
Observei-a se sentar à mesa com Michael e Blake e me aproximei da mesa dos caras novamente, vendo-os me acompanharem com o olhar e eu suspirei, esperando qual seria a zoação da vez, antes de me sentar.
– Só amigos, hum? – Lewis disse e revirei os olhos.
– Ah, cara!
– Falando sério, Danny boy… – Nando disse, me abraçando pelos ombros. – Se vocês são realmente só amigos, eu sou uma mulher. – Os caras gargalharam. – Nunca que isso é só amizade, especialmente com aquela pegada que você deu na cintura dela. – Pressionei as mãos na cabeça.
– Ah, cara, eu odeio vocês. – Falei, ouvindo eles rirem.
– É sua vida, sua amizade, mas concordo com o Nando. Você está perdendo tempo de, pelo menos, se divertir. – Seb disse, me fazendo rir.
– Há quanto tempo são amigos? – Nico perguntou.
– 20… Quase 24 anos. – Falei, vendo eles arregalarem os olhos.
– É… – Lewis disse, rindo. – Não acho que dá para se divertir em uma situação dessa. – Cocei a cabeça, encarando as costas de Harper, sentindo minha barriga borbulhar.
– Podemos mudar de assunto? Por favor? – Suspirei.
– Da próxima vez que quiserem o Danny quieto, falem da amiga dele. – Seb disse, rindo.
– “Amiga”, hum? – Nando disse e abaixei a cabeça na mesa, ouvindo as risadas deles.
Quinta-feira
Harper
– Foi um tanto decepcionante. – Falei.
– Ah, qual é! – Danny falou, dramático. – A pizza era uma delícia!
– Não dizendo que não era, mas teve outros pontos no restaurante que eu precisei negar. – Dei de ombros, cruzando os braços.
– Ah, cara! Fiquei decepcionado agora! – Ele disse do lado de dentro, me fazendo rir. – Falei super que você ia gostar e…
– Foi um ótimo lugar para jantar, não um lugar para estar no guia. – Falei, checando o horário e sorri para Nigel quando ele passou por mim. – Podemos ir de novo, mas acho que você comeu o suficiente.
– É, eu não me senti muito bem depois. – Ele comentou.
– Quando eu cheguei, você disse que já tinha comido uns 20 pedaços, depois disso deve ter piorado. – Falei.
– Depois disso, eu me enchi de comer, porque eles só sabiam falar de você. – Senti meu rosto esquentar, me fazendo rir de nervoso.
– Eles falaram de mim? – Perguntei, empolgada.
– NÃO COMEÇA! – Ele gritou, me fazendo rir e vi a porta se abrir. – Não começa, Harper Elizabeth, Addams! – Virei o rosto para o lado, vendo-o sair com o uniforme. – Eu vou proibir qualquer coisa que…
Sua voz foi sumindo enquanto ele falava e eu deslizava os olhos pelo seu corpo. O macacão já estava erguido em seus ombros, mas o zíper ainda estava aberto, mostrando a segunda pele branca por baixo. Os cabelos estavam bagunçados naquele novo corte de cabelo, mas isso o deixava muito bonito, dava um ar diferente para ele, como eu nunca tinha visto antes.
– Harper! – Ele estalou o dedo em frente ao meu rosto.
– Oi! – Sacudi a cabeça.
– Está tudo bem? – Ele franziu a testa.
– Sim, sim, desculpe. – Ri fracamente. – Ainda não estou muito certa sobre o cabelo.
– É o que tem para hoje. – Ele passou as mãos nos cabelos, seguindo pela garagem.
– Mas acho que está melhor do que antes. – Corri andar ao seu lado. – Sua cabeça parece menor. – Ele gargalhou.
– É para isso que os amigos servem, não? – Ele abriu a geladeira e pegou uma lata de Red Bull, me entregando.
– Tudo para fazer você se sentir melhor. – Falei sarcasticamente junto de um sorriso e ele virou para pegar outra lata.
– “Traga a Harper junto, vai ser uma ótima ideia!” – Ele falou sarcástico, me fazendo rir.
– Isso não é para você? – Perguntei.
– Não, para você.
– Por que eu preciso de energético agora? Está chovendo e está frio! – Falei, chocada. – Um chá viria melhor a calhar.
– Para você ficar mais legal. – Ele disse e arregalei os olhos.
– Eu sou legal! – Andei logo atrás dele. – O pessoal concorda, certo?
– SIM! – Ouvi a voz de dois ou três mecânicos e dei de ombros.
– E eu juro que eu nem chantageei eles com comida para falar isso. – Eles gargalharam e sorri para os mecânicos. – Obrigado… – Sussurrei e Nigel sorriu para mim, fazendo o sinal de OK com as mãos.
– Eu esqueço que você é uma pessoa mais delicada com comida. – Ele me zoou e revirei os olhos.
– Eu não sou delicada, eu só aprecio boa comida. – Dei de ombros, mas abri a lata de Red Bull em um estalo e virei um largo gole para dentro.
– YEAH! – Ele gritou e sacudi a cabeça quando engoli.
– Isso vai me dar dor de cabeça daqui duas horas. – Suspirei, empurrando a lata para ele e passei as costas da mão na boca.
– Relaxa, eu cuido de você. – Ele deu um sorriso com os lábios pressionados e revirei os olhos.
– Você não tem algum lugar para ir, não? – Perguntei, empurrando-o pelo ombro.
– É, ele tem. – Virei para Kvyat ao lado. – A Merida vai demorar muito aí? – O russo perguntou e gargalhei, colocando a mão na boca.
– Já gostei de você! – Estiquei a mão e ele bateu.
– Sempre um prazer. – O russo tinha um sotaque difícil de entender, mas até ele sabia fazer piadas com Danny. – Max e Carlos estão lá fora.
– A gente se encontra depois, eu vou me esconder lá no paddock. – Andei logo atrás deles.
– Vem conhecer o pessoal, você está ficando meio famosa. – Ele me puxou pelo braço.
– Você que está falando de mim para todo mundo. – Puxei o braço de volta e ele me segurou pelos dois braços. – Tenho até medo do que está falando para o pessoal. – Ele me puxou, me fazendo rir quando os tênis deslizaram na mudança de piso da garagem para o pit lane.
– Opa! – Ele me segurou com mais força, arregalando os olhos para mim.
– Eu estou bem! – Ajeitei meu corpo, olhando para suas mãos apertando meu braço e vi as veias saltadas em sua mão. – Está ok… – Ele me soltou devagar e pressionei os lábios em um sorriso. – O máximo que ia acontecer era eu dar de bunda no chão, nada demais. – Dei de ombros e ele sorriu.
– As mocinhas vão ficar conversando ou… – Virei o rosto para os dois corredores da Toro Rosso que chegavam. Não sabia quem era Max e quem era Carlos, mas já tinha visto alguns vídeos de Danny onde ambos estavam.
– Ei, caras! – Danny disse, virando para os dois e eles se cumprimentaram.
– Vamos?
– Ei, gatinha! Qual seu nome? – O menos cabeludo falou e pressionei os lábios.
– Cara! Ela é minha amiga! – Danny disse, dando um tapa em seu ombro.
– Melhor ainda! – Ele sorriu. – Eu sou Max.
– E eu estou saindo. – Ri fracamente, ouvindo Danny e Kvyat gargalharem. – Até mais tarde, meninos! – Pressionei os lábios.
– Até mais, Harp! – Danny gritou e neguei com a cabeça, voltando para dentro da garagem, rindo sozinha.
– O quê? – Maria perguntou ao olhar para mim.
– Homens. – Falei, dando de ombros. – Eu vou subir para o Paddock Club para tirar umas fotos enquanto o Danny anda pelo circuito, tudo bem?
– À vontade, te chamo se precisar. – Ela disse e sorri.
– Até mais. – Acenei, seguindo rapidamente para dentro da garagem.
Daniel
– Está com uma pressão mais forte no começo. Mas a diferença de velocidade complica na escolha de pneus. A gente sai de 330 para 60 quilômetros, é um espaço pequeno. – Falei.
– Não dá cinco segundos e já tem um apex* tardio. O understeering* é inevitável nas três primeiras curvas por causa da inclinação da pista. – Andrew disse.
– Sim, precisa ver como vai estar as condições para o treino amanhã. – Falei.
– A previsão é de chuva o fim de semana inteiro, estamos lidando com isso. – Brad disse.
– Depois da terceira curva, dá para compensar as ultrapassagens aí. – Falei.
– Tudo vai depender das classificatórias. – Andrew disse.
– Amanhã conseguimos os dados dos treinos e dá para ter uma reunião com mais informações. – Andrew disse.
– Vão descansar, meninos. Começamos cedo amanhã. – Simon disse.
– Obrigado, caras. – Falei e os três se levantaram.
– Até mais. – Eles disseram e bati na mão deles, vendo-os seguirem para dentro do prédio da RBR.
Suspirei, tombando a cabeça para trás e cruzei os braços. A chuva fina e constante que caía aqui em Xangai bagunçou um pouco nossa estratégia, mas eu gostava de um pouco de chuva, talvez venha ser uma vantagem inesperada para o domingo, contanto que passemos ilesos nos treinos de amanhã e sábado.
Ouvi uma risada alta e virei o rosto para trás, me levantando do banco. Apoiei meus braços na separação, encontrando a risada vindo de Harper. Pressionei os lábios ao notar que ela estava conversando com Alonso.
– Fala sério. – Bufei, negando com a cabeça.
Ela tinha um largo sorriso no rosto enquanto mordiscava alguma coisa e Nando falava algo muito empolgante para ela, fazendo sua risada ecoar pelo paddock. Senti algo estranho subir pela minha garganta, dando um gosto estranho, mas não era vômito, era outra coisa que eu não conseguia identificar.
Eu quero muito socar Nando.
Abanei a cabeça, abaixando-a em meus braços para ver se a sensação melhorava, mas parece que desceu para o estômago e foi aí que senti vontade de vomitar. Que porra está acontecendo? Caralho!
Ergui o olhar novamente, não encontrando mais os dois em minha direção e suspirei, aliviado. Não deve ter sido nada, eles só devem ter se encontrado lá embaixo, certo? Ela precisa viver também, certo?
Não com o Fernando. Ele é quase 10 anos mais velho do que ela. É estranho! Ele é um cara legal, está solteiro tem um tempo, não tem filhos.. Ou será que o problema não é o Nando? Ninguém nunca vai ser bom para Harper. Ninguém.
– Ei, Danny.
– PORRA! – Me assustei, erguendo o rosto e me virei rápido.
– Oh, calma! Está devendo para alguém, é? – Harper saiu para a sacada, segurando um pote e colocando algo na boca.
– Desculpe, você me assustou. – Falei, passando o braço na testa e ela franziu a testa.
– Está tudo bem? Você está pálido como um papel. – Ela deixou seu potinho na mesa e veio em minha direção.
– O quê? É, estou bem… – Ela segurou meu rosto com as duas mãos, tocando minha testa e pressionando o polegar embaixo do queixo. – Harper!
– Só vendo se não está com febre. – Ela olhou em meus olhos e encarei-a de volta, me sentindo intimidado antes de desviar o olhar.
– Eu estou bem! Eu estou bem! – Abaixei suas mãos.
– Ah, ok… – Ela deu de ombros, andando até um banco e pegando o potinho antes de erguer os pés na mesinha.
– O que está comendo? – Perguntei, vendo-a colocar mais uma bolinha na boca.
– Tangyuan. – Ela disse, mastigando.
– O que é isso? – Franzi a testa, me sentando no outro banco.
– Um bolinho doce feito à base de feijão. Quer?
– Parece estranho. – Falei e ela deu de ombros.
– Sobra mais para mim. – Ela disse antes de colocar outro na boca e sorri quando suas bochechas encheram com o bolinho. – Como estão seus compromissos para hoje?
– Eu tenho que voltar para garagem para dar uma última checada no carro, mas por enquanto é só. – Ela assentiu com a cabeça.
– Eu preciso jantar em algum lugar diferente hoje. – Ela disse. – Sei que você não come tantas coisas do lado de cá, então posso ir sozinha.
– Não! – Falei rapidamente. – Eu vou contigo sim. Eu me viro. – Ela deu um sorriso.
– Combinado. – Ela sorriu.
– A não ser que prefira o Alonso contigo… – Falei, vendo-a erguer seus olhos para mim.
– Daniel…
– Eu vi vocês dois conversando. – Falei e ela gargalhou.
– Ah, cara, você é ridículo! – Ela negou com a cabeça, olhando para mim de novo. – O quê?
– Nada! Nada! – Falei rapidamente, erguendo os braços. – Mas eu gostaria de saber se algo assim acontecer com um colega de trabalho.
– Ah, não acredito. – Ela abaixou os pés, se levantando.
– Aonde você vai?
– Sair daqui! – Ela disse rapidamente. – Não posso conversar com mais ninguém, não? Você que insistiu que eu viesse, mas não pensou que eu seria uma boneca atrás de você, né?!
– Harp… – Suspirei, me levantando com ela.
– “Harp”, nada! – Ela disse mais alto. – A gente se esbarrou e ele me perguntou o que eu achei da pizza, depois eu perguntei se vocês ficaram falando de mim o resto da noite. Foi só! – Suspirei.
– Harp! – Me aproximei dela e ela puxou o braço.
– Não! – Ela disse firme. – Achei graça no começo, mas se for continuar desse jeito, era melhor eu ter feito minha turnê sozinha, assim não precisava passar recibo toda hora. – Ela suspirou, puxando a porta de correr.
– Aonde vai? – Perguntei.
– Para o hotel, trabalhar, não sei. Para algum lugar que você não analise o que eu estou fazendo. – Ela se afastou, me fazendo suspirar e passar a mão na testa.
– Está tudo bem aqui, cara? – Michael passou pela porta. – Eu ouvi os gritos…
– Não, não está. – Suspirei forte. – E não tenho a mínima ideia do que acabou de acontecer aqui. – Neguei com a cabeça.
*Apex: é o ponto que o carro precisa virar para fazer a curva perfeita. Apex tardio é quando ele atrasa um pouco e precisa compensar com frenagem.
*Understeering: em termos simples, understeer é quando o carro sai muito de frente na curva. Já o oversteer é quando ele sai de bunda, dando aquela tradicional puxada no volante quando o carro faz uma curva em alta velocidade.
Capítulo 9
Perth, Austrália, 2000
– Oh, meu Deus! – A voz de Harper saiu do surto para algo fofo.
– Para de se mexer! – Daniel disse, tentando fazer a câmera focar.
– Não dá, ele é fofo demais! – Harper abraçou o coala mais próximo ao corpo, dando um beijo na cabeça do animal.
– Eu vou tirar! – Danny disse. – Três, dois, um… – Harper tentou dar um largo sorriso no meio de sua feição fofa. – Pronto.
– Posso levá-lo para casa? – Harper disse para a cuidadora do zoológico, entregando o animal.
– Ele é fofo, não? – A mulher disse e Harper fez um carinho na cabeça do animal.
– Eu volto para te pegar, lindinho! – Harper disse.
– Vem logo, Harper, tem gente na fila! – Daniel disse e Harper se afastou rapidamente da mulher, pegando a câmera da mão de Danny.
– Vai! Vai! – Ela disse, se colocando na área de fotos.
– Agora me apressa, né?! – Ele disse, rindo e se aproximou da mulher. – Oi, não me morde! – Ele falou para o coala, fazendo Harper rir.
– Só porque o canguru te mordeu, não quer dizer que todo animal vai te morder. – Harper disse e a cuidadora do zoológico ajudou a colocar o coala sonolento no peito de Daniel.
– Não achava que o canguru fosse me morder. – Daniel resmungou.
– O cara falou para você fazer um punhadinho com a mão, você quis logo dar no dedo, é óbvio que ele ia te morder. – Harper deu de ombros, fazendo as outras pessoas da fila rirem.
– Tira a foto logo! – O menino disse, emburrado e Harper colocou o olho no buraco da câmera antes de tirar a foto. – Ah, ele fez cocô em mim!
– Quê? – Harper olhou para ele, ouvindo a fila gargalhar.
– Ah, qual é! Hoje tá difícil! – Ele disse enquanto a cuidadora tirava o animal de seu colo e Daniel sacudia a mão.
– Eca! – Harper disse, se afastando dele.
– Agora tem nojo, né?! – Ele correu atrás dela.
– Obrigada, moça! – Harper gritou antes de descer correndo a rampa da área de coalas.
– Volta aqui, Harper!
– Não! – Ela gritou, rindo, ouvindo os passos do garoto atrás dela.
– Vem cá!
– Se livra disso! – Ela gritou, rindo, girando por uma pilastra de madeira.
– Espera! Banheiro. – Ele disse, correndo para outro lado e a menina parou, rindo.
O garoto sumiu pelo corredor do banheiro e Harper foi para a entrada da atração dos coalas para pegar a mochila preta dele e a roxa dela, colocando as suas nas costas antes de voltar para onde estava com Danny. Não demorou muito para ele aparecer com seus cabelos cacheados para cima.
– Tudo certo? – Ela perguntou e ele sacudiu a mão molhada perto dela. – Ai, para!
– Eu nunca mais venho no zoológico, sério! – Ele disse firme.
– Ah, qual é, Danny, não foi tão mal! – Ela estendeu a mochila para ele.
– O canguru me mordeu, o coala fez cocô em mim, pelo menos a girafa mordeu sua trança, não eu. – Harper gargalhou enquanto ele colocava a mochila nas costas.
– Eles gostaram de você, poxa. – Ela deu de ombros. – Mas não é como se você tivesse muita escolha, a gente precisa entregar o trabalho sobre isso.
– Ah, que horas são? – Ele perguntou e a menina olhou em um relógio na parede.
– 14:53.
– A gente tem até as quatro para entregar isso, não é melhor…
– Claro! Vamos na praça de alimentação, a gente almoça e faz. – Ela disse.
– Lesgo-o-o-o! – Ele disse, animado e ambos saíram correndo pelas ruas do zoológico.
Quando eles se aproximaram da praça de alimentação, eles se sentaram em uma das diversas mesas de madeira ali e Danny pegou o dinheiro de ambos e foi até a lanchonete pegar comida para eles. Enquanto isso, Harper pegou seu caderno de “Os 101 Dálmatas”, abrindo em uma folha vazia e escrevendo o título do trabalho e os nomes de ambos.
– Eu pedi picles no seu. – Danny voltou com uma bandeja, colocando no meio da mesa e nela continha dois cachorros-quentes com vários condimentos australianos, além de dois copos de refrigerante e dois sacos de batata chips.
– Obrigado. – Ela disse, pegando o copo do refrigerante e dando um gole nele. – O dinheiro deu?
– Sim, sobrou uns 18 dólares ainda. – Ele disse enquanto ela escrevia “Dia no Zoológico” além dos nomes e sobrenomes de ambos. – E você escreveu meu sobrenome errado de novo… – Danny cantarolou ao ver o papel.
– Ah, droga! – Ela disse, irritada, pegando a borracha e passando com força no papel.
– Não sei qual a dificuldade…
– A dificuldade é que seu nome possui dois “Cs” e um “I” no meio do caminho. Qual o sentido de ter essas duas letras se a gente não fala elas? – Harper perguntou, irritada.
– Na Itália eles falam. – Ele deu de ombros, vendo-a escrever o “Ricciardo” corretamente agora. – Agora sim!
– Vou começar a te chamar de “Ritchiardo” agora. É assim, não?
– No italiano é, mas aqui ninguém fala assim. – Ele gargalhou. – Mas está tudo certo, já esqueci alguns “Ds” do seu nome também.
– No trabalho de inglês ainda. – Ela gargalhou, fazendo-o sorrir.
– Ninguém faz milagre. – Ele deu de ombros.
– Ah, “Ritchiardo”, “Ritchiardo”, de quem foi a ideia de falar “Ricardo”? – Ela o zoou, fazendo-o rir e entregou a folha para ele. – Você escreva, sua letra é mais bonita.
– “Como foi meu dia no zoológico? Um canguru me mordeu, o coala fez cocô na minha mão e a girafa tentou comer o cabelo da Harper… Fora isso, foi demais!” – Ele falou sarcasticamente, fazendo-a rir.
– Eu não poderia fazer melhor. – Ela deu de ombros, pegando o cachorro-quente e dando uma mordida.
– Quantas linhas precisa ter nisso? – Ele perguntou.
– 20. – Ela suspirou.
– Será que rola aumentar a letra? – Ele perguntou, rindo.
– Talvez… – Eles sorriram juntos e ele espirrou forte. – Saúde!
– Oh, caramba! – Ele disse e Harper lhe esticou um guardanapo.
– Alergia? – Ela perguntou.
– Pólen*. – Ele suspirou, erguendo os olhos para cima.
– Achei que tinha passado.
– Não… – Ele disse passando o guardanapo nos olhos que lacrimejavam. – Tem muito aqui!
– Seu antialérgico está aí? – Ela perguntou.
– Não, nem trouxe, é forte demais, eu ia ficar largado. – Ela concordou com a cabeça antes de ele espirrar novamente. – Ah, caramba! – Ele suspirou.
– Quer que eu ligue para sua mãe? – Harper perguntou.
– Não, é só rinite, está tudo bem. – Ele disse e ela assentiu com a cabeça.
– Se tiver algo que eu possa fazer para te ajudar…
– Valeu, Harp, está tudo bem. Logo passa. – Ele disse suspirando. – Só quero parar de chorar.
– Logo passa! – Ela o imitou, fazendo ambos rirem.
*Daniel tem rinite atacada por pólen, como mostrado em um vídeo da McLaren na corrida de Silverstone em 2021.
Sexta-feira
Harper
Fazia muitas horas que eu estava acordada, mas não tive coragem de sair da cama e nem do quarto depois do que teve no fim da tarde de ontem. Eu ouvi Danny se levantando, depois Michael e Blake, então alguém veio espiar se eu estava dormindo – o qual coloquei minhas aulas de atuação no ensino médio para jogo ao fingir que estava dormindo – e fazia pouco mais de uma hora que o quarto estava vazio novamente.
Acabei vindo para o hotel depois da crise ridícula de ciúmes de Danny. Que merda aconteceu? O que ele estava pensando? Não posso mais conversar com ninguém, não? Não me importa há quantos anos somos amigos, ele não tem direito de ficar tendo essas crises de ciúmes por algo que nem existe! Não é minha culpa se os colegas de trabalho dele são lindos, simpáticos e parecem gostar de mim.
Ele até veio atrás de mim quando chegou, mas também fingi que estava dormindo. Ele se sentou ao meu lado na cama, fez carinho em minha cabeça, pediu desculpas e saiu. Isso fez meu coração apertar de uma forma estranha e algumas lágrimas escaparam de meus olhos. Já brigamos antes, mas isso nunca tinha acontecido comigo. Tinha algo acontecendo e podia sentir isso pelos sinais de meu corpo.
Parece que eu estou mais perdida agora do que antes de vir com ele.
Fui criar coragem para me levantar da cama quase meio-dia, tinha medo de eles estarem quietos na antessala me esperando, então esperei que a coletiva pós-FP1 começasse para me levantar. Também estava com fome, os tangyuan haviam sido a última coisa que eu comi antes de me esconder aqui.
Pior que eu sei que tenho que ir no paddock, ainda sou contratada da Red Bull e ainda preciso comparecer ao meu “trabalho”. Talvez essa ideia de Danny tinha sido um tanto louca demais, mas ninguém esperava que ele fosse agir como um amigo ciumento e possessivo, né?!
Isso me faz pensar se eu tinha agido como a amiga ciumenta e possessiva nas duas vezes que ele namorou a Jemma. Mas acho que nunca fui ciumenta assim. Nunca gostei dela e ele bem sabia disso, por causa de uns problemas na escola. Talvez desse um pouco de tratamento de silêncio ou fingia que ela não estava lá, mas não fazia esse drama todo com algo que não existia. Nos afastamos da primeira vez por culpa dele, mas da segunda vez eu engoli o orgulho, apostando na felicidade do meu amigo, e foi isso. A vantagem do último ano é que eu o via menos, então passava pouco tempo com eles.
Agora… Parece que passar tanto tempo assim com Danny estavam bagunçando um pouco as coisas.
Consegui sair do hotel depois de tomar banho e me arrumar com o tradicional uniforme da Red Bull. O tempo em Xangai estava fechado com bastante nuvens, então coloquei a calça jeans junto da blusa e o casaco do Red Bull, além do All-Star de guerra. Como eles já tinham ido, peguei um táxi para o circuito, mas demorou quase uma hora para chegar devido à distância do Four Seasons até o circuito. Ainda bem que tinha alguns renminbi* na carteira.
Chegando ao circuito, o paddock estava vazio e, pelo barulho, imaginei que estivesse acontecendo o FP2, então segui em direção a garagem da RBR, respirando fundo antes de passar pela entrada traseira. O pessoal estava todo concentrado nas televisões distribuídas pela garagem. Pelo contador em regressiva, tinha menos de 15 minutos para o treino acabar.
– Alguém resolveu aparecer. – Virei para o lado, vendo Maria.
– Ei. – Falei, desviando o olhar para televisão.
– Tudo bem? – Ela perguntou e virei o rosto.
– Tudo ótimo. – Falei, cruzando os braços.
– Está tudo bem entre você e o Daniel? – Ela perguntou e suspirei.
– Se você precisa perguntar, imagino que saiba a resposta. – Virei para ela, dando um sorriso sarcástico.
– Ele não estava bem ontem e nem hoje pela manhã…
– Ao menos não fui a única. – Falei, rindo fracamente.
– Você não está entendendo as consequências que isso pode causar, não é?! – Ela falou e ergui a sobrancelha.
– Ele foi mal no treino hoje pela manhã? – Perguntei.
– Quarto melhor tempo e quinto agora. – Ri fracamente.
– Ele bateu? – Perguntei.
– Não…
– Então, por que você está fazendo esse tipo de pergunta para mim? – Virei para ela, encarando-a. – Quem fez merda foi ele. Ele que cuide de suas responsabilidades. – Desencostei da parede, andando em direção a Michael, me encostando na bancada de telemetria.
– Ei, Bela Adormecida. – Ele disse, me abraçando pelos ombros.
– Ei, Mike. – Suspirei.
– Como está? – Ele perguntou.
– Eu estou bem. – Suspirei.
– Posso perguntar sobre ontem? – Engoli em seco.
– Até pode, mas confesso que não tenho a mínima ideia do que aconteceu. – Neguei com a cabeça. – Ele nunca agiu assim.
– Ele também não entendeu o que houve. – Suspirei. – Talvez ele não esteja bem…
– Algo aconteceu? – Virei para Michael.
– Não que eu saiba. – Ele deu de ombros. – Ele não comentou nada. – Ele virou para mim. – De verdade! Vocês já tiveram brigas, mas nada assim… – Engoli em seco.
– Você acha que é caso de eu ir embora e…
– Pelo amor, Harper. Também não é para tanto! – Ele revirou os olhos. – Deve ser só a proximidade que vocês não estão acostumados. Até eu e ele temos algumas brigas de vez em quando. – Ele disse.
– Mas a gente fica colado nas férias… – Minha voz sumiu com o barulho do carro e Michael aproximou o rosto de meu ouvido.
– Mas nunca 24 horas por dia, sete dias por semana, 30 dias no mês. – Suspirei, vendo-o se afastar e apertei os dedos na orelha quando um carro parou em frente à garagem e vi a equipe de Kvyat sair para trazer o carro para dentro. – Ele está chegando, e quer ver você. – Suspirei.
– Como ele ficou? – Mordi meu lábio inferior.
– Você sabe como ele fica quando te chateia. – Ele deu de ombros. – Acho que ele ficou no seu quarto umas duas horas de madrugada, não sei se dormiu lá ou se dormiu no geral… – Suspirei.
– Modo Daniel chateado ativado. – Falei antes de levar os dedos aos ouvidos, apertando-os quando o segundo carro da Red Bull apareceu na garagem e suspirei. É agora!
Os mecânicos trouxeram o carro para dentro de ré e pressionei os lábios ao ver Danny se livrar do volante, da parte de cima do carro, depois deslizar os ombros para fora do carro, e pular para fora dele. Ele se livrou do HANS, entregando para um dos engenheiros e se virou em minha direção.
Eu mal conseguia ver pela fresta da viseira, mas meu corpo travou pelos seus movimentos. Ele puxou o capacete da cabeça e logo depois a balaclava, fazendo seus cabelos suados deslizarem pela sua cabeça. Meus olhos foram diretos para seus lábios entreabertos e precisei pressionar meus lábios uns no outro, engolindo em seco. Ele puxou os fones das orelhas e deu um curto sorriso para mim antes de virar para seu engenheiro.
Meu corpo estava estranho, aquela sensação estranha na boca do estômago tinha voltado e eu me sentia perdida. Que diabos estava acontecendo comigo? Por que diabos eu estava olhando para boca de Danny e achando aquilo extremamente sexy? E essa sensação estranha na barriga? Essa vontade de vomitar misturada com um borbulhamento estranho? Deus!
– Eu vou esperar no paddock. – Cochichei para Michael, deslizando meu corpo para fora da garagem, sentindo a respiração sair mais forte.
*Renminbi é a moeda chinesa.
Daniel
– Só seja legal com ela, por favor. – Blake disse.
– Não fala besteira. – Michael disse em seguida.
– Caras, eu sei o que fazer! – Falei firme. – Isso é entre mim e ela.
– Ok, mas acho que você deveria saber que ela mencionou sobre ir embora e… – Bufei para cima.
– Ela não vai embora! Está decidido já! – Falei firme.
– Talvez até seja melhor ela ir embora, se vocês dois continuarem de graça. – Virei para Maria, que olhava desanimada para mim.
– Meus problemas pessoais resolvo eu, Maria. Se um dia afetar meu desempenho, aí você pode falar algo. – Suspirei, passando as mãos nos cabelos. – Agora eu gostaria que vocês me deixassem resolver isso sozinho. – Virei para eles. – Posso? – Coloquei o boné em minha cabeça.
– À vontade! – Maria disse, erguendo os braços.
– A gente se encontra depois. – Michael deu dois tapinhas em minhas costas e ele e Blake seguiram para o outro lado.
Suspirei antes de sair pelo paddock, vendo-o um pouco mais cheio agora no final dos treinos de sexta-feira. Atravessei pelo mesmo até chegar no motorhome da RBR e entrei devagar, procurando por Harper. Passei por algumas pessoas, dando rápidos cumprimentos, entrando na área do restaurante.
Sorri ao encontrá-la em uma mesa no canto da cantina e pressionei os lábios, andando rapidamente em sua direção. Ela ergueu o rosto quando me aproximei e parei em diagonal à mesa, vendo-a dar um curto sorriso com os lábios pressionados. Ela deixou os talheres em seu prato antes de se levantar.
– Me desculpe… – Falei e ela me abraçou fortemente, me fazendo suspirar e passei meus braços pela sua cintura, apoiando o queixo em seu ombro. – Me desculpe, eu fui um idiota.
– Xi… – Ela pediu, próximo a meu ouvido e fechei os olhos, aproveitando seu abraço.
– Eu preciso dizer… Eu não sei o que aconteceu, eu fui um completo idiota. – Ela afrouxou os braços, mantendo-os em meus ombros e pude olhar em seus olhos. – Eu passei dos limites.
– Um pouco… – Ela disse e suspirei, segurando seu rosto. – Não somos assim, Danny.
– Eu sei, não somos. – Suspirei, olhando em seus olhos. – Me desculpe, de verdade. Se você quiser namorar Nando ou qualquer outro piloto, eu deixo… – Senti um gosto ruim na boca com aquelas palavras, mas ela gargalhou, dando um tapinha em meu ombro.
– Eu não quero, Danny! – Ela negou com a cabeça. – É esse o problema. – Suspirei.
– Vamos sentar… – Falei, indicando a mesa e me sentei na cadeira à sua frente.
– Eu quero uma agitação na minha vida, mas não assim. – Ela suspirou, apoiando as mãos na mesa. – Se for para ter só uma noite divertida, não preciso afetar sua amizade com ninguém daqui de dentro. – Segurei sua mão na mesa. – Mas também não dá para eu fechar os olhos e fingir que não estou aqui…
– Eu sei, eu sei… – Suspirei. – Me desculpe! Eu sei que fiz merda. Não vou fazer isso de novo, prometo. – Ela assentiu com a cabeça.
– E a culpa é toda sua. – Arregalei os olhos.
– Minha?
– É! Você que fica falando de mim para os seus amigos, aí dá nisso. – Ri fracamente.
– Não é minha culpa que eu tenho uma amiga incrível. – Ela sorriu.
– Não mesmo. – Rimos juntos e entrelacei nossos dedos, engolindo em seco com a sensação estranha. – Eu só… Me desculpe, de verdade.
– Está tudo bem. – Ela disse e assenti com a cabeça, suspirando. – Acho que já passamos por coisas piores para nossa amizade acabar agora.
– Estamos juntos pelo resto da vida. – Ela sorriu.
– Espero que sim. – Ela suspirou. – Eu te amo, Danny, você não é… – A voz de Harper sumiu com a batida mais forte em meu peito, meus olhos passaram dos seus para seu nariz, depois seus lábios se movendo e engoli em seco. Que mer… – Danny? – Ela estalou os dedos em minha frente.
– Desculpe. – Sacudi a cabeça. – Ouvindo zumbindo. – Ela assentiu com a cabeça pela desculpa plausível.
– Como foram os treinos? – Ela soltou minhas mãos, fazendo meu corpo murchar na cadeira.
– Foi ok. – Falei, vendo-a voltar a comer o macarrão. – Quarto melhor tempo de manhã, quinto melhor tempo de agora, vamos ver como vão ser as classificatórias amanhã. – Dei de ombros.
– E os outros? – Ela perguntou.
– Massa e Lewis rodaram, Rosbeg deixou o treino por causa da unidade de energia, Gutierrez teve problemas nos freios…
– Nossa, dia de azar, é?!
– Chuva! – Falei, suspirando. – E o Magnussen quebrou a suspenção e bateu.
– Ele está bem? – Ela perguntou rapidamente.
– Sim, está tudo bem. – Falei, usando as mãos para acalmá-la.
– Você tem mais algum compromisso? – Ela perguntou.
– Não, estou livre. Só falta me trocar. – Abri o botão do macacão. – Já fiz entrevista, reunião, estou livre. – Ela assentiu com a cabeça. – Podemos sair mais tarde, se você quiser…
– Acho que com esse tempo, prefiro ficar vendo nosso filme. – Sorri, assentindo com a cabeça.
– Vou poder cantar para você? – Brinquei e ela riu fracamente.
– Precisa mesmo? – Ela fez uma careta fofa e sorri com ela.
– Precisa. – Falei e ela riu fracamente. – Tudo para fazer você se sentir bem.
– Eu estou bem. Prometo! – Sorri com ela.
– Bom saber. – Suspirei. – Se eu for um idiota de novo, pode me bater, tá? Mas não me dá tratamento de silêncio.
– Oh, agora eu gostei! – Ela abriu um largo sorriso. – Você prefere um soco de mão fechada no rosto ou um chute lá embaixo? – Fiz uma careta.
– Ah, cara! Também não precisa abusar, né?! – Falei, fazendo-a gargalhar. – Eu preciso dos dois para conquistar as mulheres. – Sua risada ficou mais alta.
– Não sabia que precisava do seu pênis para conquistar alguém, mas, ei, eu não namoro há anos, vai ver as coisas atualizaram e eu não estou sabendo. – Gargalhamos juntos e ela sorriu em seguida. – Vamos esperar que eu não precise escolher, pode ser?
– Sim. – Sorri. – Combinado. – Sorri, vendo-a desviar para seu prato novamente.
Sábado
Harper
– Começou! – Ouvi a voz de Simon.
– Daniel! A contagem começou. – Falei, batendo algumas vezes na porta do banheiro antes de ele abrir novamente.
– Desculpe! Emergência. – Ele disse, puxando o zíper central do macacão e levei minhas mãos para o velcro no topo e ele ergueu o rosto para eu fechar.
– Agora vai! – Empurrei-o pelo ombro.
– Não ganho um abraço? – Ele disse, rindo.
– Ah, um abraço! – Abracei-o rapidamente, ouvindo-o rir. – Agora vai! – Empurrei-o pelo corredor e ele foi a passos rápidos para a garagem. – E boa sorte. – Suspirei a última parte.
– Bandeira vermelha! – Ouvi e franzi a testa, seguindo rapidamente até a garagem, me juntando aos meninos.
– O que aconteceu? – Perguntei.
– Wehrlein perdeu o controle. – Blake disse e pressionei os lábios. Pista molhada. O tempo estava igual ontem, uma chuva fina, mas frequente, que caía desde cedo. Outros deslizes e derrapadas aconteceram no treino. Esperava que desse tudo certo para Danny.
Olhei para ele, vendo-o trocar duas palavras com seu engenheiro antes de seguir para dentro do cockpit. Mordi meu lábio inferior ao observar seu corpo com o macacão de classificação da Red Bull, em um azul escuro sem os desenhos mais claros e Danny sumiu dentro do carro. Lhe foi passado a balaclava, protetor bucal, capacete e luvas antes de ele encaixar o volante. Brad o ajudou com o cinto e Danny estava pronto.
O relógio estava parado em 14:38. Tinha passado menos de dois minutos da Q1 até isso acontecer. Ao menos o piloto não se machucou, só relou na lateral e o carro deu problema, provavelmente na unidade de energia. Tive minha experiência com Danny há alguns anos, mas nunca estive envolvida nas reuniões e afins, agora era bom ter esse conhecimento.
Durante a bandeira vermelha, Danny e os engenheiros aproveitaram para fazer os últimos ajustes no carro. Ele precisa estar perfeito. Fazia muito tempo do último pódio dele, um segundo lugar em Singapura, talvez isso o motivasse. Ao menos eles alteraram a forma de classificatória e os carros não seriam mais eliminados durante a classificatória, todos fariam dois tempos e os piores tempos seriam eliminados.
Demorou mais de 15 minutos para que terminassem de limpar o vazamento de óleo da pista, mas quando liberaram novamente, Gutierrez foi o primeiro a sair da garagem, depois Button e Alonso.
Danny foi sair da garagem faltando seis minutos para a Q1 terminar, junto de Raikkonen. E ele só conseguiu computar seu primeiro tempo dois minutos depois, mantendo o padrão do FP1 com o quarto melhor tempo de 1:37:672. Kvyat pegou o terceiro com 1:37:719. Danny voltou para os boxes depois disso para esperar os últimos segundos da Q1 acabar. Com isso, ele acabou caindo para sexto na classificatória. Haryanto, Palmer, Gutierrez e Magnussen, além de Hamilton e Wehrlein que não conseguiram computar tempos, foram eliminados na primeira fase.
Para a Q2, Danny saiu faltando uns oito minutos para acabar e conseguiu o segundo melhor tempo de cara com 1:36:815, me fazendo comemorar com aplausos junto do pessoal dentro da garagem. Danny acabou voltando para a garagem nos minutos finais, caindo para quarto lugar da segunda classificação.
Faltando pouco mais de um minuto e meio para finalizar, Hulkenberg acabou perdendo sua roda dianteira esquerda e tivemos outra bandeira vermelha. Confesso que essa era a parte que mais me irritava no esporte. É importante para a segurança deles, mas era só uma roda, não precisa de bandeira vermelha. Por faltar pouco mais de um minuto, eles encerraram a Q2 mais cedo, então Nasr, Ericsson, Grosjean, Button, Alonso e Massa, ficaram de fora da Q3.
Rosberg, Bottas e Perez foram os primeiros a serem liberados para a Q3, Danny foi logo atrás, já começando a fazer sua volta, ficando em segundo lugar de cara, logo atrás de Rosberg, com 1:36:423. Pena que logo Raikkonen veio e pegou o primeiro lugar de Rosberg, colocando Danny em terceiro.
Os minutos finais começaram a ficar apertados. Bottas conseguiu passar o tempo de Danny, depois Rosberg pegou o de Raikkonen, mas Danny conseguiu melhorar seu tempo também, jogando-o para segundo lugar.
– ISSO! – Gritei, animada, aplaudindo junto de sua equipe.
– Segundo! – Ouvi a voz animada de Danny. – Eu tenho muita carta na manga, galera! – Sorri com suas palavras, acompanhando o carro dele seguir para a parte dos melhores classificados até a garagem da FIA no começo do pit lane.
É um bom começo para uma corrida sensacional amanhã! Que Deus me ouça e que Danny esteja empolgado.
Os repórteres foram atrás de Christian no pit wall e comentaram sobre o corte de cabelo de Danny. Na verdade, estavam comentando sobre esse cabelo desde que ele chegou aqui. Christian comentou que falou para Danny que, se ele ganhar, vai ter que manter esse cabelo pelo resto do ano e que Grace o mataria por isso. Por que todo mundo estava odiando o cabelo? Estava ruim antes, agora ele está gato para caralho!
Fui eu quem disse isso?
É, foi… Eu estou ferrada!
Os mecânicos arrumaram a área do Kvyat e dei um aceno para ele quando ele passou enquanto esperava as informações da coletiva em umas das televisões. Não sabia se podia ir lá, mas como nenhum mecânico foi, nem Michael, eu fiquei aqui esperando, como se eu realmente fosse uma trabalhadora da Red Bull.
– Daniel, você teve que se esforçar no final, sua segunda vez na primeira fila aqui na China, de onde isso veio? – Sorri com a pergunta do repórter.
– Não tenho certeza. – Danny disse, rindo. – Para ser honesto, não acho que começamos na melhor posição hoje, com o balanceamento do carro, não parecia que seria uma boa corrida, mas na Q3 acabamos encontrando mais velocidade. Os pneus super macios são difíceis de controlar, ele fica macio demais conforme a volta vai acontecendo, mas comigo repassando para os engenheiros e eles fazendo as melhorias na pressão e na asa dianteira… É muito incrível, não esperávamos isso hoje.
Sorri com Danny na imagem, me fazendo suspirar. Cara, ele está gato! Danny está muito gato. QUE MERDA ESTÁ ACONTECENDO COMIGO? Eu não podia estar com uma queda em Danny? Podia? Isso já aconteceu antes, há uns 13 anos, mas tinha toda questão do nosso primeiro beijo e afins, e ele nem era tão bonito quanto antes, mas…
– O que está acontecendo comigo? – Minha voz saiu baixa.
– O quê? – Virei para Michael. – Está tudo bem? Parece que viu um fantasma.
– Acho que eu vi. – Suspirei. – Eu vou dar uma lavada no rosto, já volto.
– Ok, vai… – Sua voz ficou perdida quando saí correndo pelos corredores da garagem.
Domingo
Daniel
Ouvi meu despertador tocar e inclinei meu corpo para desligar. Fazia alguns minutos que eu estava acordado, acabamos não dormindo muito tarde. Harper tinha que terminar algumas revisões e se trancou no quarto. Eu não podia beber e nem comer muito por causa da corrida hoje, então acabei perdendo algum tempo vendo alguma coisa no Netflix antes de dormir com a televisão ligada.
Saí da cama e fui para o banheiro com a preguiça de sempre, mas um banho gelado me acordou com mais rapidez. Saí do box com a toalha enrolada na cintura e me encarei no espelho, bagunçando os cabelos, vendo algumas gotas pararem no espelho e ri fracamente. Todo mundo estava falando do cabelo, minha mãe já tinha me xingado para caramba, o pessoal da equipe fazia apostas se me daria sorte ou não, mas parece que Harper tinha gostado, então talvez eu deixasse assim até crescer mais um pouco.
Escovei os dentes, sequei o corpo e os cabelos antes de voltar para o quarto. Passei desodorante, depois meu La Baie 19*, coloquei uma boxer, uma bermuda de tactel e uma camiseta larga. Pendurei a toalha de volta no banheiro e calcei os chinelos pelo meio do caminho antes de sair do quarto, vendo que tudo estava quieto ainda.
Suspirei, dando uma olhada pelas frestas das portas e vi luz saindo pela de Harper, então abri a porta devagar e pressionei os lábios quando vi que era só a cortina que estava aberta. Entrei devagar, encostando a porta devagar e me aproximei da cama, vendo a luz bater em seu rosto e puxei a cortina, observando o dia ensolarado lá embaixo e sabia que seria uma bagunça pela estratégia de ontem. Teríamos que mudar tudo.
Voltei para perto da cama e me sentei na beirada. Ela estava virada para mim, com uma mão embaixo do travesseiro e a outra ao lado do corpo. Meus olhos passaram pelo seu corpo, pela camiseta larga preta e o moletom vermelho, levei a mão até seu rosto, acariciando devagar sua bochecha com as costas do indicador.
Não era a primeira vez que eu vinha aqui logo que acordava ou que ficava observando-a dormir, isso me dava uma calma estranha. Era uma sensação gostosa, mas eu me sentia verdadeiramente perdido com tudo. É Harper. Por que meu coração está querendo sair do peito quando ela sorri ou ri? O que está acontecendo comigo? Eu não conheço esse caminho que eu estou entrando, ele é escuro, cheio de buracos e eu provavelmente estou com um conjunto de pneus ferrados.
Eu não posso estar apai…
Eu não posso…
Eu…
Merda!
Puxei a respiração fortemente, sentindo aquele tradicional cheiro de baunilha* e dei um curto sorriso. Baunilha sempre foi um dos meus cheiros favoritos, depois do cheiro de gasolina e pneu queimado, e sabia que isso vinha do perfume de Harper. Ela o usava desde o ensino médio e, por termos passado alguns anos afastados na escola, acabou se tornando o meu cheiro favorito, além de tudo o que passamos juntos. Mas estar sentindo o que é que eu estou sentindo por ela, parece fazer esse cheio ser o melhor do mundo.
Me assustei com o barulho de seu despertador e pulei da cama, vendo Harper se mexer e olhei um tanto desesperado em volta sem saber para onde ir e minha cabeça funcionou bem mais devagar enquanto ela se girava na cama e tateava a mesa de cabeceira até desligar o barulho. Eu teria que ser o idiota de sempre.
Eu estou ferrado.
– VAMOS LEVANTAR! – Gritei, pulando ao seu lado.
– Ah, merda! Danny! – Ela se assustou, puxando a coberta para cima.
– VAMOS ACORDAR! É DIA DE CORRIDA!
– AH, DANNY! – Ela falou mais alto, puxando a coberta até a cabeça.
– VAMOS LEVANTAR! – Comecei a fazer cócegas em seu corpo.
– DANNY! – Ela gritou no meio das risadas, tentando brigar contra minhas mãos e as mexia com pressa em sua barriga. – DANIEL! PARA! – Ela pulava na cama, puxando minhas mãos e procurava outro lugar para fazer cócegas. – DANIEL! – Suas risadas ficaram mais como gritos e parei antes que ela começasse a soluçar.
– Ok, parei! Dramática. – Falei, relaxando meu corpo na cama. – Quando eu… – Parei minha frase no meio do caminho. Por algum motivo eu não consegui fazer a piada de mulheres gritando pelo meu nome e, por outro motivo, eu queria ouvi-la gritando meu nome de outra forma.
Que merda está acontecendo, Daniel? MERDA!
– Ah, Danny, o que está fazendo aqui? – Harper disse com a voz sonolenta, virando para meu lado, cobrindo o rosto com a coberta. – Não se acorda ninguém assim.
– Achei que você poderia se empolgar um pouco, está ensolarado lá fora. – Falei aleatório, sentindo minha cabeça ferver com o pensamento que passou pela cabeça agora.
– Ah, que legal! – Ela disse, sonolenta, apoiando a cabeça em minha coxa e meu corpo travou. – Me dá mais uns minutos.
– Por quê? Você não colocou o despertador, não? – Minha voz saiu mais rápida que o normal.
– Coloquei, mas acho que foi cedo demais. – Ela disse baixo e engoli em seco. – Você já treinou?
– Ainda não. – Falei, sentindo minha mão descer para sua cabeça.
– Michael quer que eu faça alguma coisa, mas é domingo… – Ela suspirou. – Eu mereço um descanso. – Sorri.
– É… Você merece. – Passei a mão entre seus cabelos, tirando as mechas de seu rosto. – Eu fico mais um pouquinho contigo, tá?
– Uhum… – Ela resmungou e suspirei.
– Eu estou ferrado. – Sussurrei.
*Perfume que Daniel disse que leva em viagens, ele disso nisso em um vídeo da GQ Sports.
*Daniel disse em dos “Red Bull on the Sofa” que um de seus cheiros favoritos é baunilha.
Harper
– Tenta abusar do lado direito. – Falei, sentindo Danny colocar o boné em minha cabeça.
– Eu vou. – Ele disse e me entregou seu iPod. – A pista está um pouco molhada ainda, mas logo seca.
– Está muito quente. – Falei, colocando seu iPod no bolso de trás da calça. – Boa sorte, ok?!
– Como se fala? – Ele brincou e ri fracamente.
– Arrasa, tigrão. – Falei, sentindo minhas bochechas esquentarem por isso, mas ele sorriu.
– Eu vou… – Ele me abraçou fortemente e suspirei, deixando minhas mãos descerem pelas suas costas. – Te vejo na linha de chegada.
– Espero mesmo. – Falei, me afastando dele devagar. – Agora vai! – Empurrei-o de leve, me afastando para o gramado.
Danny foi para dentro do cockpit, começando a colocar o fone do rádio e o protetor bucal, depois seguiu para a tradicional balaclava, capacete e luvas. Me afastei alguns passos para não atrapalhar seus engenheiros e os carros foram sendo ligados um a um, deixando minhas orelhas zumbindo por alguns segundos.
– Checagem de rádio. – Ouvi Simon.
– Sim, tudo ok. Parece um belo dia para correr, não acham? – Ri fracamente.
– Vamos lá, garoto! – Simon disse e suspirei.
As luzes da volta de apresentação se apagaram e segui rapidamente com os engenheiros de volta para a garagem, vendo o restante dos mecânicos empurrarem as coisas para dentro. Me aproximei de Michael e Blake, arranjando um canto perto do bar e dei um toquinho de punho em Michael e outro em Blake.
– Pronto? – Michael perguntou.
– Sim, vamos lá! – Suspirei, cruzando os braços, olhando para a televisão mais próxima, vendo os carros se alinharem no grid e as luzes já se acendiam uma a uma. Aproveitei os segundos para fazer um sinal da cruz.
Quando as luzes se apagaram e os carros largaram, uma gritaria gigante começou na garagem, porque Danny conseguiu sair à frente de Rosberg e pegar a liderança de cara, mas uma batida entre as duas Ferrari fez os gritos se tornarem apreensão, mas os carros seguiram para a segunda e terceira curva e, pelo jeito, os carros estavam bem, pois nenhuma bandeira foi sinalizada. A empolgação da equipe era maior ao perceber que Kvyat estava em terceiro lugar.
– Vamos, garotos! – Suspirei, apertando minha mão.
Kimi, Hamilton e Grosjean precisaram voltar para os pits para trocar a asa dianteira devido à bagunça, não sabia que Lewis e Romain estavam no meio da bagunça, mas todos estavam de volta à pista.
Depois de três voltas, Danny continuava liderando, mas tinha um pequeno problema sobre liderar uma corrida, você só conseguia mudar de posição se fosse ficar para trás, e Rosberg parecia vir com pressa, ficando a meio segundo atrás de Danny. Era muito apertado.
Como se alguém realmente ouvisse meus pensamentos, Rosberg aproveitou o DRS habilitado e ultrapassou Danny pela direita com muita facilidade. E antes de alguém falar algo no rádio, vi o pneu de Danny literalmente sair voando pelos ares.
– Merda! – Suspirei, apertando a mão de Michael ao meu lado.
– Gente… – Danny falou no rádio enquanto Kvyat o passava. – Perdi um pneu.
– Box agora, Daniel! Box! – Suspirei.
– Que merda! – Sussurrei, acompanhando Danny em direção aos boxes.
Eles fizeram a troca e Danny saiu com pressa do pit stop. Quando ele voltou para a pista, ele estava em décimo oitavo. Que merda! Para piorar tudo, o safety car foi liberado segundos depois, então vários carros voltaram para os boxes para fazer a troca de pneus. Danny agora voltava com pneus macios.
Enquanto o safety car estava na pista, os replays foram passados na televisão e mostraram a batida de Vettel em Kimi, depois Nasr em Hamilton. Nada como um começo tumultuado de corrida para esquentar minha cabeça. Danny conseguiu uma posição pela ida aos boxes de vários carros, mas o clima dentro da garagem não era do mais amigável.
Minha cabeça seguiu para hoje de manhã quando eu acordei e me vi deitada na coxa de Danny. De início fiquei confusa de onde eu estava, mas reconheci a tatuagem do barco com a frase “no regrets, only memories” e levantei correndo da cama em susto. Ele também tinha adormecido de novo depois da crise de cócegas logo cedo.
Isso já aconteceu antes, mas, por algum motivo, eu me senti incomodada, como se fosse algo proibido. Como se fosse algo com um significado diferente. Como se eu quisesse que tivesse um significado diferente. Minha cabeça estava fervendo muito. Eu não podia gostar de Danny. Isso não podia acontecer com a gente. Com uma amizade tão longa quanto a nossa, não tem futuro um relacionamento.
Relacionamento? Oh, meu Deus! Eu já estou pensando em ficar com Danny, namorar e… MEU DEUS! Cala a boca, Harper! Fica quieta, pensamento da Harper! Por favor! Não dificulta as coisas mais do que já estão.
Eu só não entendia por que isso nunca tinha acontecido antes, somos amigos há tantos anos e mesmo com todos os altos e baixos, todas as investidas de nossos familiares de fazer isso acontecer, nunca aconteceu. E VAI ACONTECER JUSTO AGORA? Não, não, não!
O safety car saiu da pista somente na décima volta, mas Danny conseguiu ultrapassar Magnussen e Ericssen em literalmente dois segundos. Depois ele passou Hulkemberg e Palmer, ficando em décimo terceiro lugar.
Merda! Danny é talentoso para caramba.
Na décima terceira volta, ele passou Hamilton, Gutierrez e ficou com o décimo primeiro lugar. Enquanto Danny tentava cortar todos os pilotos e tentar recuperar o primeiro lugar, Kvyat havia passado Massa e ocupava o segundo lugar agora. Ao menos alguém estava tendo um bom dia.
Danny subiu para décimo na décima quinta volta, agora ele já estava dentro da zona de pontuação, mas ele merecia o pódio, especialmente depois daquele começo incrível. Na décima sétima volta, ele ultrapassou Hamilton – novamente – e Alonso foi para os pits, abrindo espaço para Danny chegar em oitavo. Vettel foi para o pit stop e ele chegou em sétimo. Perez saiu e ele foi para sexto, mantendo a briga contra Hamilton pela posição.
Na vigésima volta, Danny veio para o pit stop para troca de pneus e saiu em décimo sexto lugar. Caralho! Agora é correr para recuperar o tempo perdido, mas tinha dois terços de corrida ainda para finalizar. Duas voltas depois, ele já brigava pelo décimo lugar contra Sainz, Alonso e Kimi, deixando-os para trás.
Depois de algumas passagens, ele estava em oitavo, logo atrás de Bottas, mantendo posição. Na vigésima sétima volta, ele passou Button pela direita e caiu para sétimo. Na vigésima nona volta, com auxílio do DRS, ele passou Perez. Com a mudança de câmera nas televisões, lá pela trigésima segunda volta, ele já estava em quinto.
Após um deslize de Vettel, Danny estava de volta em segundo lugar, mas foi bem na mesma volta que ele fez seu terceiro pit stop, voltando para corrida em nono. Faltava pouco menos de 20 voltas e muita coisa podia acontecer aqui em Xangai. Talvez agora ele aguentasse até o fim da corrida sem parar.
Na quadragésima primeira volta, ele apareceu em sétimo, competindo contra Bottas pelo sexto lugar, aumentando a distância após passar. Talvez o pódio estivesse em aberto ainda e tenha esperança para ele conseguir o pódio que tínhamos esperança por ele largar em segundo lugar.
Na batalha pelo quarto lugar, estava Danny, Hamilton e Massa. Danny conseguiu fazer um movimento para ultrapassar Hamilton e ficou a meio segundo de Massa, enquanto Lewis continuava a meio segundo dele. Com sorte, a ultrapassagem dele em cima de Massa foi mais rápida do que Lewis nele.
– ISSO! – O pessoal comemorou, animado.
Estávamos em quarto com 12 voltas restantes. À frente dele, só Kvyat, Vettel e Rosberg. Apesar de tentar reduzir a distância dele para Kvyat, Danny não conseguiu e acabou finalizando uma corrida que tinha tudo para ser perfeito, em quarto lugar novamente. O quase foi qua-a-ase de novo. Mas dessa vez não era um quase legal, se não fosse o pneu furado na terceira volta, aposto que o final seria totalmente diferente.
Enquanto os mecânicos da Red Bull saíram correndo em direção ao pit wall para comemorar com Kvyat e depois em direção ao pódio em cima do box da FIA, abaixei o fone em minha orelha e segui por trás da garagem, saindo pela rua do paddock e fui correndo na direção do box da FIA. Era a terceira corrida e terceira vez que Danny batia na trave. Ele deveria estar muito bravo, especialmente pela estratégia errada usada no começo da corrida.
Ele foi o primeiro a sair do box da FIA abraçado ao capacete e cabisbaixo. Suspirei, sentindo meu peito apertar e desviei de algumas pessoas, acelerando o passo, vendo-o erguer o rosto com o barulho dos meus pés no chão e dei um curto sorriso antes de pular em seus ombros, abraçando-o apertado.
– Harp… – Ele suspirou, apertando meu corpo com os braços e seu capacete apertou em minha bunda. – Eu estou bem… Eu estou…
– Você não precisa ficar bem. – Apoiei minha cabeça na dele, ficando levemente na ponta dos pés. – Só saiba que estou aqui, ok?!
– É muito bom ter você aqui. – Ele sussurrou, apoiando a cabeça em meu ombro.
– Você fez algo incrível em terminar em quarto, Danny, de verdade. – Suspirei.
– Mas podia ter terminado em primeiro. – Ele se afastou devagar e passei as mãos em seu rosto, limpando um pouco do suor. – Seria minha melhor corrida em muito tempo… – Assenti com a cabeça.
– Podemos sempre tentar na próxima vez. – Dei um curto sorriso e ele assentiu com a cabeça, me abraçando pelo ombro e colando os lábios em minha testa, me fazendo suspirar. – Eu estou aqui, ok?!
– Eu sei! Até quando não estava. – Acariciei seu rosto, vendo seus olhos mais baixos.
– Me dá um sorriso. – Ele riu fracamente, dando um sorriso. – Assim que eu gosto. – Ele riu, me apertando mais perto de si.
– Daniel… – Virei o rosto, vendo Massa se aproximar. – Desculpe, cara! – Danny me soltou quando eles se cumprimentaram. – Vai dar certo na próxima vez.
– Obrigado, cara! – Danny falou e suspirei.
– Bom te ver, Harper. – Sorri.
– Bom te ver também. – Trocamos dois rápidos beijos.
– A gente se vê! – Ele disse, dando dois tapinhas nos ombros de Daniel.
– Até mais! – Ele disse.
– Eu tenho que fazer entrevistas… – Danny disse.
– Ei, cara! – Virei para o lado, tentando parecer calma ao lado de Lewis Hamilton. – Desculpe pelo que houve! – Eles se abraçaram.
– Obrigado. Está ok! – Danny disse, recebendo dois tapinhas nas costas. – Esta é Harper.
– Prazer te conhecer de verdade. – Ele me abraçou de lado e trocamos dois rápidos beijos.
– O prazer é meu. – Sorri e ele assentiu antes de sair. – Oh, meu Deus! – Falei, rindo.
– Você vai explodir. – Danny disse.
– Me desculpe, já conversamos sobre isso, mas é…
– É, eu sei, é o Hamilton. – Ele abanou a mão, me abraçando pelos ombros. – Agora vamos lá, eu preciso fazer umas entrevistas. – Ele suspirou. – Ao menos Kvyat pegou um pódio.
– É, o pessoal está feliz. – Suspirei.
– Acho que o último dele foi junto do meu na Hungria.
– Bom, agora ele conseguiu o dele de novo, falta o seu. – Falei e ele suspirou.
– Aqui vamos nós. – Ele disse e vi Maria no meio do paddock, me fazendo tirar o braço da cintura de Danny.
Daniel
– Ele me chamou de torpedo! – Gargalhei.
– Como assim? – Tombei a cabeça para trás.
– No incidente no começo da corrida, ele chegou “você veio como se fosse um torpedo”. – Gargalhamos juntos.
– E o que você respondeu? – Perguntei.
– Que era corrida, ele queria que eu fosse devagar? – Rimos juntos. – Pena que você teve o acidente.
– Podia ser pior, cara. Real! – Balancei a cabeça.
– Eu sinto muito…
– Não, cara. – Falei para Dani. – Consegui recuperar, podia ser pior. Eu estou feliz por você, de verdade.
– Obrigado, cara! – Ele disse. – Precisamos fazer mais pelo campeonato de construtores.
– Nem fala! – Suspirei, passando as mãos molhadas no rosto. – Mas sempre tropeçamos no começo, a gente recupera logo.
– Esperamos! – Ele disse. – Ao menos você ainda está em terceiro lugar no campeonato, é legal…
– Sim! É! Tropeçando, mas estamos indo. – Rimos juntos.
– Daniil, precisamos de você. – O assessor dele apareceu na porta.
– Ok, estou indo. – Dani assentiu. – A gente se fala depois.
– É, claro! – Falei e demos um rápido toque antes de ele se levantar da banheira e sair.
Suspirei, tombando a cabeça para trás e abaixei o rosto na água, sentindo-o esquentar por alguns segundos antes de subir para a superfície novamente. Apoiei a cabeça na quina da banheira e fechei os olhos. Não demorou muito tempo até eu ouvir a porta se abrir e virei o rosto para o lado, vendo Harper sair, abraçada ao casaco.
– Hora de sair! – Ela disse, me esticando uma toalha.
– Já? – Perguntei.
– Está muito frio, você vai se resfriar! – Ela disse e ri fracamente.
– Valeu aí, mamãe! – Disse e ela riu. – Me dá só mais uns minutos. – Suspirei.
– É sério, Danny! Vai ficar mais frio e pior para você sair dessa água quente. – Ela sacudiu a toalha.
– Ok, ok, eu vou. – Suspirei, soltando a respiração antes de me levantar da banheira.
– Eu não preciso ver isso. – Ela disse, se virando de costas e ri fracamente.
– Eu estou de cueca! – Falei, sentindo o vento frio que ela falou.
– E eu não preciso ver isso. – Ela esticou a toalha para trás e peguei de sua mão. – Limites, lembra?
– É, claro, eu deveria acrescentar o seu pijama curto nos limites? – Falei, secando o rosto e esperei pela sua resposta.
– É diferente… – Ela disse rapidamente e gargalhei. – Eu te espero lá dentro.
Ri fracamente quando ela seguiu para dentro do prédio e saí da banheira, terminando de me secar do lado de fora. Enrolei a toalha na cintura antes de calçar os chinelos e empurrei a porta para dentro, entrando no segundo andar do motorhome da RBR. Empurrei a porta do meu vestiário, encontrando Harper, Michael e Blake ali.
– É, limites! – Harper disse, tombando a cabeça para trás e colocando uma almofada em seu rosto.
– Você tem o prazer de ver o cara mais bonito do mundo e… – As risadas de Michael e Blake ficaram mais altas e dei um sorriso.
– Eu prefiro ficar quieta. – Ela disse e peguei minha roupa na mesa antes de seguir para o banheiro.
Terminei de me secar direito e coloquei uma cueca limpa antes de trocar por jeans e camiseta. Deixei a toalha pendurada ali e dei uma rápida olhada no espelho, ajeitando os cabelos, antes de sair e encontrar os três da mesma forma.
– Você tem mais o que fazer? – Michael perguntou.
– Não, é isso. – Fui até minha mochila.
– Eu vou descer com as coisas. – Michael disse.
– Eu te ajudo. – Blake disse e peguei meu celular, abrindo as mensagens rapidamente.
– Eu vou ficar aqui. – Harper disse com a almofada no rosto e dei um toquinho em seu pé, vendo-a abaixar os pés e me sentei no espaço vazio e ela ergueu os pés novamente em meu colo.
Entrei nas mensagens, vendo algumas mensagens de meus pais, minha irmã, alguns colegas de profissão, observações de Maria e Christian e vi um link na mensagem de Massa. Abri e estava escrito “mensagem para você. Aceita?”. Entrei no Instagram e era um vídeo de seu filho andando de crazy kart na sacada da casa dele, e aquilo me fez sorrir.
– Ei, Ricciardo, eu desafio você a correr, estou esperando! – Ri fracamente, sorrindo e Harper se levantou ao meu lado, olhando meu celular.
– Esse é o filho do Massa? – Ela perguntou.
– Sim, somos quase vizinhos, eu amo esse garoto. – Ela riu fracamente.
– Ele é fofo! – Ela disse e subi para o escrito na legenda “Ei, @danielricciardo, alguém está te desafiando para a corrida de Crazy Kart dele. Vai aceitar essa, cara? #FelipinhoVSRicciardo”
– Ah, cara, isso é demais. – Sorri. – Você fala um pouco de brasileiro, não? – Virei para Harper.
– É português, mas sim, um pouco… – Ela tombou com a cabeça para o lado.
– Como eu falo que aceito o desafio? – Ela sorriu.
– Você pode começar com “ei, Felipinho”.
– Ino?
– Inho! – Ela disse firme. – É NH.
– Felipino…
– Inho.
– Felipinho. – Falei devagar.
– Isso. – Ela sorriu. – Você pode falar “aceito o seu desafio”. – Ela dizia com naturalidade.
– Aceito o seu desafio… – Falei devagar.
– Fala para fora, parece que está engolindo as palavras.
– Aceito o teu desafio. – Falei.
– E é isso. Você falou “Hey, Felipinho, I accept your challenge”. – Ela voltou para inglês.
– E como eu digo que amanhã estou lá?
– Pode ser “amanhã estou aí”. – Ela disse devagar.
– Amanhã tô aí.
– Estou…
– Amanhã estô aí. – Ela fez uma careta.
– Não está perfeito, mas saiu. – Ela deu de ombros.
– Ok, espera um pouco. – Abri a câmera, vendo-a se afastar para outro lado e coloquei na câmera frontal, respirando fundo. – Não ri. – Pedi.
– Vai logo! – Ela disse, rindo e suspirei, apertando o botão de começar a gravar.
– Ei, Felipinho… – Falei devagar. – Aceito o seu desafio… Amanhã tô aí. – Falei sério e ergui o braço, contraindo-o antes de abrir um sorriso e parei de gravar.
Abri a conversa do Massa novamente e anexei o vídeo antes de escrever: “manda para ele: ‘estou cansado de levar bullying do filho do Massa, a quantidade de besteiras que ele fala já saiu do controle. Eu aceito seu desafio e vou levar toda força que eu tiver”, anexei um fogo no final e enviei.
– Vocês brincam bastante? – Harp perguntou.
– A gente divide a garagem, então toda vez eu entro e tem adesivos no meu carro, aí eu colo no deles, ele bate na porta de casa e sai correndo… Coisa boba. – Ela sorriu.
– É fofo. Você sempre teve jeito com criança. – Ela deu de ombros.
– Eu tenho a mesma mentalidade que eles. – Ela gargalhou, tombando a cabeça em meu ombro e vi Massa responder.
“Aceita mesmo? Vou para casa na folga, marcamos um almoço e fazemos uma criança feliz”. – Sorri.
– Ei, Harp, que tal irmos para Mônaco no fim dessa semana? Eu tenho uma folga… – Virei para ela.
– Mesmo? – Ela ergueu o rosto com pressa.
– É… Podemos aproveitar um pouco da cidade antes da correria do GP. – Falei.
– De verdade? – Ela se levantou, animada. – Eu posso entrar em Mônaco? – Rimos juntos.
– Acho que ser revisora da Michelin já te torna metida o suficiente, então tá liberado. – Gargalhamos juntos.
– Eu topo de olhos fechados. – Ela disse, sorridente. – Você só provavelmente vai ter que pagar tudo, mas quem se importa? Amigos são para essas coisas, não? – Gargalhei com ela, jogando uma almofada nela, fazendo-a rir.
– Eu vou combinar com Felipe. – Falei, desviando o rosto para o celular de novo.
“Sim, para valer. Pode ser sexta? Devo ir para Londres para fazer trabalho no SIM*.”
“Perfeito, vou mostrar o vídeo para ele” – Massa respondeu e sorri, erguendo o rosto para Harper.
– Eu vou para Mônaco! Eu vou para Mônaco! – Ela começou a dançar no meio do vestiário, me fazendo abrir um largo sorriso, e algo que me dizia que não é pela dança ridícula, tinha algo a mais.
*SIM: simulador. Os pilotos passam muito tempo nele quando estão em pré-temporada ou fora das pistas.
Capítulo 10
Perth, Austrália, 2001
Harper se sentia um tanto estranha enquanto seu pai a levava para a escola. As férias de verão na sua avó em Sydney haviam sido estranhas, muito aconteceu em pouco tempo. Era para ser só dois meses curtindo a maior cidade da Austrália, que ela sempre adorou de paixão, mas tudo bagunçou de uma forma inacreditável.
A começar pela sua primeira menstruação, poucos dias antes do Natal, ela acordou assustada com um sangramento em sua calcinha. Normal para uma menina de 12 anos, mas ela não se sentia nada confortável em como isso acabou mudando seu corpo. Além dos pelos pubianos e do novo cuidado excessivo todo mês, ela notou um crescimento em seus seios, fazendo sua mãe levá-la para um passeio nada confortável no shopping para comprar seu primeiro sutiã.
Depois disso, ela notou como suas blusas começaram a ficar curtas quando ela espichou alguns centímetros, e as nada agradáveis espinhas começaram a surgir em seu rosto, junto como cabelo mais ondulado. Ao menos isso ficou mais bonito. O problema é que, além de se sentir perdida com toda mudança corporal, ela se sentia um monstro.
Então, chegar na escola depois de passar por tantas transformações em pouco tempo, era como encarar o primeiro dia de aula novamente. Ela queria chorar de raiva, mas sabia o quanto seus pais estavam tentando animá-la com as mudanças naturais da vida. Mas ela sabia que não era tão animador assim, ela apostava que Danny não tinha mudado em nada e esperava que aquela história de “os meninos amadurecem mais devagar”, fosse mentira. Ela não podia ser o Patinho Feio sozinha.
– Chegamos, filha. – Alexander falou e ela suspirou.
– Eu preciso ir mesmo, pai? – Ela tentou mais uma vez, apesar da voz quase chorando nem ser mentira. Ela estava há um passo de chorar.
– Vai dar tudo certo, criança! Papai vem te buscar e vamos tomar um sorvete bem gostoso, pode ser? – Ela deu um aceno de cabeça. – Agora, vem! – Ele esticou os braços para ela e a menina soltou o cinto de segurança antes de dar um abraço em seu pai. – Eu te amo e você está linda.
– Obrigada, pai! – Ela suspirou, se ajeitando novamente em sua poltrona, pegando a mochila no chão.
– Arrasa, meu amor! – Ele disse e ela assentiu com a cabeça antes de empurrar a porta.
Ela ajeitou as alças da mochila que sua avó havia lhe dado antes de abraçar o fichário perto do peito. Os cabelos soltos e levemente armados ajudavam a esconder um pouco de seu rosto enquanto ela andava cabisbaixa para dentro da escola, observando outras pessoas entrando correndo em sua frente.
Ela passou pela entrada da escola e ergueu o olhar ao ver as diversas crianças entrando correndo ali. O primeiro dia de aula era sempre bagunçado, ainda mais dos alunos da sexta série que não eram mais os novatos e nem estavam pertos de se formar.
Ela encontrou a placa que dizia sexta série e respirou fundo várias vezes antes de entrar na sala. Pela visão periférica, ela sabia que vários alunos estavam ali, mas como não tinha mapa de sala ainda, ela seguiu para a cadeira mais ao fundo que conseguiu e se escondeu ali. Abriu o fichário, pegou uma das suas várias canetas em gel e começou a preencher as informações de aula.
Sua cabeça baixa não permitiu que ela visse a chegada de seu amigo. Tirando mais cachos na cabeça e o corpo mais bronzeado, Daniel não tinha mudado nada durante as férias. A estatura deixava Harper mais alta do que ele, e o sorriso largo ainda era o mesmo com os dentinhos tortos, mas nem uma espinha esse menino tinha ainda.
Apesar das tentativas de se esconder, Daniel enxergou Harper muito bem. Telepatia de melhores amigos, ele usaria como desculpa. Ele não notou nenhuma mudança de cara, então se aproximou na pressa, colocando sua mochila na cadeira na frente dela, para reservar o lugar.
– Agora somos legais e sentamos no fundo? – Ele falou e ela ergueu o rosto devagar. – Uau! – Ele disse ao notar o rosto da menina.
– Não fala nada, por favor. – Ela inclinou o corpo na cadeira, fazendo o corpo descer mais.
– Por que não? Uau, Harp! Você tá linda! – Ele disse, sorridente.
– Mesmo? – Ela perguntou, incerta.
– Uhum! – Ele disse exageradamente. – Uau! As férias te fizeram bem. Eu quebrei um dente. – Ele deu de ombros e a menina abriu um largo sorriso.
– Você só está dizendo isso porque eu sou sua amiga. – Ela disse.
– Nem é! Você sempre foi bonita e eu nunca disse nada. – Ele se sentou na cadeira e ela assentiu com a cabeça.
– Obrigada… – Ela suspirou.
– O que aconteceu? – Ele perguntou e ela suspirou, bufando ao pensar como responderia isso.
– É coisa de menina. – Ela deu de ombros.
– Eu sou seu melhor amigo, eu posso saber. – Ele disse.
– É coisa de menina, acredite, você não vai querer saber. – Ela suspirou. – Puberdade, sabe?
– Ah… – Ele disse como se já tivesse ouvido a palavra e não tinha empolgação nenhuma de chegar lá. – Pelo menos te fez bem.
– Diz isso para minhas cólicas. – Ela suspirou, abaixando a cabeça na mesa de novo. – Mas e suas férias? Como foram?
– Tudo certo. – Ele deu de ombros. – Papai me levou para andar de kart algumas vezes, mas senti sua falta para gente brincar.
– Eu também! – Ela suspirou.
– E como foi em Sydney? Legal?
– Sim, foi legal! – Ela ponderou. – Tirando… – Ela deixou a frase no meio do caminho.
– Você soube que Dale morreu? – Danny disse.
– Dale? Em Dale Earnhardt*? – Ela perguntou, surpresa.
– É… Semana passada em Daytona. – O menino suspirou.
– Ah, não! Sinto muito, Danny! – Ela apoiou a mão no ombro do menino. – Sei o quanto gostava dele. Ele bateu?
– Sim… – Ele suspirou. – Foi na última volta… Faltava pouco para ele pegar pódio com o filho dele. – O garoto fez um bico. – Foi quase igual o Senna…
– Sinto muito, Danny. De verdade. – Harper estava sentida, como não tinha sabido disso? Como não ligou para o menino ontem para saber? Como tia Grace ou tio Joe não avisaram?
– É o segundo piloto que eu gosto que morre, por que isso acontece? – A garota não tinha resposta.
– É um esporte perigoso, Danny…
– Mas eles são profissionais, Harp, não deveria ser assim…
– Sinto muito, de verdade. – Ela suspirou. – Se tiver algo que eu possa fazer para você… A gente pode fazer alguma coisa.
– Lembra daquele filme que a gente viu? Do ogro que vai salvar a mocinha? – Ele comentou.
– Sim. – Ela disse.
– Estreou, a gente pode ver. – Ele disse. – Posso pedir para a mamãe levar a gente.
– Meu pai quer me levar para tomar sorvete. Você pode ir com a gente. – Ela disse.
– Vai ser legal. Mas o que deu para o seu pai te levar para tomar sorvete na segunda-feira? – Ele perguntou, confuso, fazendo-a rir.
– Eu tô meio para baixo por causa dessas mudanças, ele está tentando me animar. – Ela deu de ombros, fazendo-o rir.
– Fica mais para baixo, vai saber o que a gente vai ganhar! – Ele disse, fazendo-a rir. Todo mundo sabia que onde ela estava, ele estava atrás.
– Combinado! – Ela disse.
– Agora sorria, você está bonita, Harp! – Ele disse e ela assentiu com a cabeça. – Se eu já sou bonito, imagina quando passar por isso, então. – A garota conteve o riso, dando um sorriso para o amigo enquanto a professora de geografia entrava na sala.
– Bom dia, alunos! Como foram as férias? – Ela disse, colocando os diversos materiais na mesa.
*Dale Earnhardt: piloto estadunidense que competiu na NASCAR. Daniel é declaradamente um grande fã dele e da competição. O piloto morreu aos 49 anos em um acidente em sua última corrida.
Mônaco, 2016
Harper
É a primeira vez em muito tempo que eu não dormia em uma viagem.
Ok, não vamos exagerar. Eu ainda estava com um pouco do efeito do remédio por ir até Paris de Xangai, depois até Nice. Danny ficou meio solitário durante essas 15 horas, mas depois que entramos no trem para Mônaco, cara! Eu estou realmente surtando.
Sabe uma daquelas coisas que você pensa que é impossível de acontecer? Eu me sentia assim com Mônaco. É a cidade-estado mais famosa do mundo, onde vivem os ricos e famosos e que você precisa ter, segundo estudos, 100 mil euros em uma conta local só para viver lá, sem poder mexer. QUEM TEM ESSE TANTO DE DINHEIRO DANDO SOPA?
Daniel tem esse tanto de dinheiro… Além de vários outros corredores de Fórmula 1.
Agora, pensando em alguém normal como eu… Deus! Eu tenho uma vida confortável pela Michelin, meus pais me deixaram uma ótima pensão e algumas heranças, mas meu salário não sai de quatro dígitos. Tenho a sorte da empresa pagar boa parte como viagens e afins, mas não é nada parecido com os seis milhões de euros que Danny faz por ano na Red Bull. Se você tirar três zeros, talvez chegue perto do meu salário.
Ao menos o meu é mensal.
Agora voltando para Mônaco… Cara, isso é loucura, mesmo com Danny tendo moradia aqui. É difícil explicar como eu vejo o Danny, é quase como se ele tivesse duas vidas para mim. A vida que passa as férias comigo em Perth, como se ainda estivéssemos na escola, e a vida de corredor de Fórmula 1, ganhando milhões de euros ao ano e curtindo mais do que uma estrela do rock. Ver essas duas pessoas se fundindo em uma só ainda era bagunçado para mim.
E poder fazer parte dessa bagunça toda era incrível. Me sentia bem idiota por todos os anos que me mantive longe por um medo que eu não conseguia controlar. Tudo bem que eu sou uma pessoa normal e não gosto de ficar dependendo dos outros e nem do dinheiro de Danny, mas eu poderia ter ido em algumas corridas e não ter ficado aumentando esse trauma sozinha durante anos.
Ai, se arrependimento matasse.
– Está tudo bem? – Virei para Danny.
– Sim, está. – Dei um curto sorriso. – Só pensando…
– Algo para dividir? – Ele segurou minha mão e pressionei os lábios, sentindo meu coração apertar mais forte.
– Só estou pensando o quanto fui estúpida em afastar essa parte da sua vida de mim. – Ele sorriu.
– Nem chegamos e já está emotiva? – Rimos juntos.
– Só pensando mesmo… – Suspirei e ele passou o braço em meu ombro, me puxando para mais perto de si.
– Eu nunca mais vou deixar você ficar afastada de mim por aquele motivo, Harp. – Apoiei a cabeça em seu ombro, sentindo-o acariciar minhas costas. – Não é tão ruim, vai…
– Não, não é… – Suspirei.
– Tivemos o problema com Alonso, mas ei… – Ri fracamente.
– Espero que não tenha nada assim mais… – Suspirei. – Nem com Alonso, você ou ninguém…
– Espero também. – Ele disse. – Uma bandeira vermelha demora demais, dá mais vontade de ir no banheiro. – Rimos juntos.
– Próxima parada, Mônaco. – Ouvi o autofalante.
– Chegamos. – Ele disse e ergui a cabeça de seu ombro. – Só não fique decepcionada, ok?!
– Por que eu me decepcionaria com Mônaco? – Perguntei, rindo.
– Mônaco em fim de semana de GP é uma coisa, fora disso, é totalmente diferente. – Ele disse. – É confortável… – Sorri. – É onde eu me sinto mais perto de casa.
– E agora eu estou aqui. Agora vai parecer como Perth de novo. – Ele abriu um largo sorriso.
– É, algo assim. – Ele disse, rindo. – Bom ter você aqui, Harp. – Pisquei para ele, fazendo-o desviar o rosto e senti o trem desacelerar. – Levanta, pega sua mochila! – Ele disse e me levantei, mantendo os pés firmes no chão e entramos na estação de trem de Mônaco.
Peguei minha mochila, colocando nas costas enquanto Danny fazia o mesmo e segui pelo corredor até a porta recém-aberta. Danny apareceu ao meu lado, ajeitando um boné na cabeça e ele passou a mão em meu ombro para me guiar pela estação.
– Não é para ter muita gente, mas vamos sair daqui logo. – Ele pediu.
– Claro, claro! – Falei, seguindo com ele e subimos pela escada rolante.
Danny seguiu a palavra “sortir” e minha visão ficou escura por alguns segundos antes de sairmos da estação. Meu corpo travou assim que saí e pude respirar o ar puro novamente. Olhei pelas laterais, vendo os tradicionais prédios de Mônaco, os carros pequenos e as Vespas e, à minha frente, podia ver uma parte do mar, além de vários iates atracados no porto. Eu simplesmente não pensei e atravessei a rua.
– HARPER! – Danny gritou e apoiei minhas mãos na grade, olhando para o inclinado lá embaixo até o porto, me fazendo sorrir e senti a mão de Danny nas minhas costas. – Pelo amor de Deus, Harper! Não faz isso. – Gargalhei ao seu lado.
– Desculpe! – Virei para ele. – É lindo, Danny! – Ele riu fracamente, apoiando a mão no peito.
– Agradeço, mas meu coração parou por um segundo. – Rimos juntos.
– Você dirige carros que passam de 350 quilômetros por hora e seu coração parou porque eu atravessei a rua sem olhar? – Ele me abraçou, me fazendo rir.
– Essas Vespas são perigosas, cara! Eles acham que todo dia é dia de GP. – Rimos juntos.
– Eu vou ter mais cuidado, papai! – Ele sorriu.
– Vamos embora! – Ele disse.
– Como vamos? – Perguntei.
– O apartamento é literalmente dois quilômetros daqui, qual é, estamos em Mônaco. – Ponderei com a cabeça. – Como está sua mochila?
– Mais leve do que a sua. – Falei, rindo.
– Quer andar? Assim já conhece mais da cidade. Porque você não vai conseguir conhecer quando voltarmos para o GP.
– Não tem problema para você? – Virei, empolgada.
– Todo mundo que mora aqui é mais famoso ou interessante do que eu, vamos lá! – Rimos juntos.
– Vamos…
Eu literalmente só segui Danny, mas eu acabei ficando para trás em vários momentos para tirar fotos dos lugares e ver lugares conhecidos. Não passamos pelo litoral, nem pelo famoso Casino de Monte Carlo e Hôtel de Paris, mas Mônaco inteira é um museu a céu aberto e dava para reconhecer muitas coisas que via na TV.
– Essa é a rua de casa. – Ele disse, entrando em uma rua curvada com milhares de apartamentos próximos um do outro.
– Uau! – Falei.
– É pequeno e mora muita gente aqui. – Ele disse. – Muito piloto ou ex-piloto também. – Olhei para cima, vendo que tinha uns 12 andares. – É quase um condomínio, daqui até o fim da rua é esse mesmo prédio. – Ele disse. – Na parte de trás fica o porto que, na teoria, já pertence à França.
– Isso nem vai bagunçar minha cabeça. – Falei, sacudindo a cabeça.
– Vamos entrar! – Ele disse e segui logo atrás dele. – Tente não se perder.
– Impossível. – Falei, vendo os diversos corredores para os diversos lados. – Merda! Isso não foi nada planejado, né?!
– É, algo assim. – Ele disse, rindo, seguindo para o lado esquerdo.
– Posso fazer uma pergunta indesejada? – Segui com ele.
– Manda!
– Quanto você paga para viver aqui? – Perguntei, vendo-o parar em um elevador e apertar o botão.
– Hum… Dois milhões*. – Ele disse e arregalei os olhos.
– Sua fazenda em Perth custa menos. – Falei e ele me empurrou para dentro do elevador quando ele abriu. – E é do tamanho desse quarteirão inteiro. – Ele me ignorou. – É pelo glamour, vai!
– Não é só pelo glamour. – Ele disse. – Aqui é perto de todos os circuitos europeus, dos treinos, da fábrica, do centro da Red Bull, o clima é bom quase todo ano, é parecido com o tempo australiano e é a cidade da Fórmula 1…
– E não tem imposto, vai! – Dei um sorriso para ele. – Seus milhões ficam inteiros.
– É… Isso ajuda muito! – Gargalhamos juntos e ele saiu de costas pelo corredor.
– Até eu que sou mais tonta! – Segui logo atrás dele e ele abriu uma porta.
– Bem-vindo a meu canto de verdade, Harp. – Ele disse e fui logo atrás dele, entrando em um pequeno hall. – Não fique abismada pelo pé direito alto e a larga sala de estar.
– E você reclama do meu apartamento em Perth! – Falei, rindo e ele me empurrou pelos ombros para fechar a porta.
– Aqui do lado esquerdo tem a cozinha com lavanderia… – Ele me mostrou o pequeno cômodo que mal cabia uma pessoa com móveis em U.
– Não tem janelas, Daniel. – Falei firme.
– Você odiaria cozinhar nela, eu sei. – Ele me puxou de volta, me guiando pela sala.
– Como você cozinha aqui?
– Eu não cozinho! – Ele disse, sério. – Essa é a sala de TV. – O espaço era maior com um sofá de couro preto espaçoso, uma mesa de centro, uma televisão larga em cima do rack, uma mesa redonda com quatro cadeiras, um varal de roupas no canto da sala, além de uma estante com vários troféus e capacetes. – Ali tem uma sacada onde eu deixo algumas coisas de exercícios.
– É um apartamento universitário, Danny. Olha a zona! – Falei, rindo, me aproximando da porta para a sacada, vendo a rua de onde chegamos de um lado e o oceano do outro. O apartamento dele ficava de lado.
– Fico feliz que gostou. – Ele disse, sarcástico, me fazendo rir.
– Não disse que não gostei, mas é pequeno. Te garanto que não paguei dois milhões pelo meu apartamento. – Falei, rindo e ele me empurrou para o outro lado, voltando à entrada principal.
– Do lado de cá fica meu quarto. Aqui tem um quarto de bagunça. – Ele apontou para o pequeno quartinho. – Aqui temos o banheiro. – Ele empurrou a porta do banheiro convencional. – Um closet… – Ele indicou a porta da esquerda com outro cômodo pequeno. – E meu quarto. – Ele indicou a mão, tirando a mochila das costas.
A cama de casal ficava no canto direito entre duas mesas de cabeceira e do lado esquerdo tinha um armário, além de várias malas que mostravam a bagunça dele. À frente tinha outra sacada coberta, com uma mesa e seis cadeiras.
– E ali tem uma sacada. – Ele abriu a porta, saindo para a sacada e fui até ela, sentindo o vento.
– Que andar estamos? – Perguntei.
– 11. – Ele disse e voltei para dentro.
– É fofo, Danny. – Falei, deixando minha mochila ao lado da sua na beirada da cama. – Está uma bagunça, mas é fofo… Pequena para o valor que se paga, mas acho que bom para um homem solteiro e para o que você precisa. – Dei um sorriso.
– Você não odiou? – Ri fracamente.
– É claro que não! – Dei de ombros. – É confortável. – Imitei suas palavras, vendo-o sorrir.
– Bom que gostou. – Ele coçou a nuca. – Vamos ficar aqui pelos próximos dois dias e pelos dias de corrida. – Assenti com a cabeça, cobrindo a boca para bocejar.
– Vamos ver se vai abafar o som das festas.
– Talvez abafe, mas estaremos nas festas também, então não tem motivo. – Rimos juntos. – Bom, como está seu sono?
– Acho que tem um pouco do remédio aqui ainda para fazer efeito. – Suspirei, coçando os olhos.
– Por que você não tira uma soneca? – Ele foi até a cama, tirando algumas camisetas em cima dela. – Eu dou uma geral no apartamento e saímos para jantar. Eu escolhi um lugar especial para uma guia da Estrela Michelin. – Rimos juntos. – Mas você não vai trabalhar hoje, quero que se divirta. – Ele disse fofo e sorri, assentindo com a cabeça.
– Combinado. – Pressionei os lábios um no outro. – Eu só preciso ir ao banheiro.
– Fica à vontade. Mi casa es su casa. – Sorri.
– Gracias, Daniel! – Suspirei. – Acho que já vou tomar banho, assim durmo mais fresca.
– Pode fechar a porta do quarto e ficar à vontade. Ainda tem umas horas para sairmos. – Ele seguiu em direção à porta e mordi meu lábio inferior.
– Ok. – Ele puxou a porta. – Ei, Danny… – Ele abriu a porta com pressa. – Que tipo de roupa se usa para um jantar em Mônaco? – Ele riu fracamente.
– Só seja você mesma, Harp. – Ele disse fofo e assenti com a cabeça, vendo-o puxar a porta e mordi meu lábio inferior fortemente.
Voltei para dentro do quarto, seguindo até a sacada novamente e entreabri uma fresta para deixar o vento entrar. Apoiei o rosto no batente da porta e suspirei, dando um pequeno sorriso. Meu coração batia forte, mas apesar de toda bagunça em meu coração, eu estou feliz agora. Eu me sinto bem.
Espero que tudo continue assim.
*Todas as informações citadas monetárias nessa cena foram feitas com base de pesquisas na internet.
Daniel
– Você deveria ver a cor do céu agora. – Comentei, abotoando a blusa. – Está bom para você surtar.
– Estou terminando! – Ela gritou do banheiro e me encarei no espelho dentro do closet.
A camisa de festa grafite com alguns desenhos florais meio alaranjados não era nem novidade junto da calça jeans e os Vans nos pés. Passei as mãos nos cabelos e ponderei com a cabeça. Estava bom, melhor que as roupas da Red Bull. Ouvi a porta do banheiro ser aberta e inclinei a cabeça para o lado para ver Harper sair dela e entreabri os lábios, surpreso.
Ela usava um vestido longo azul marinho com algumas grandes flores rosadas espalhadas nele. O decote do vestido era profundo por causa das alças finas e uma perna aparecia pela fenda do lado esquerdo do vestido. Nos pés ela usava uma sandália baixa, os cabelos estavam soltos nos ombros e ela tinha uma maquiagem leve no rosto.
– Uau! – Acabei deixando escapar.
– O que acha? – Ela fez uma careta, mordiscando o lábio inferior antes de dar uma volta ao redor do corpo e notei o vestido baixo nas costas.
– Você está linda… – Falei, engolindo em seco pela forma embasbacada que eu falei.
– Ideal para um jantar em Mônaco?
– Você está perfeita. – Soltei em um sorriso e suas bochechas enrugaram com o elogio.
– Obrigada… – Ela desviou o rosto, seguindo pelo quarto e coloquei minha cabeça para fora para acompanhá-la pegar o colar e engoli em seco.
Harper está gostosa!
Ela sempre foi linda, ficou gostosa com o tempo e eu sempre acabava observando, mas não a ponto de constatar isso conscientemente. Não a ponto de querer colocar minhas mãos embaixo de seu vestido e pressioná-la na parede. PORRA! Eu estou ferrado!
Na verdade, eu estou MUITO ferrado!
– Que céu lindo! – Ela falou e sacudi a cabeça, saindo do quarto, observando o vento sacudir um pouco a barra do seu vestido.
– Sabia que ia gostar. – Peguei minha carteira, colocando no bolso de trás da calça e peguei o celular, colocando no outro.
– Fico imaginando isso em dia de corrida. – Ela comentou, colocando um colar.
– Você vai ver em um mês. – Falei e ela virou o rosto para mim.
– Agora entendo o que fala do tempo. Está bem gostoso. – Sorri.
– É… – Passei o olhar pelo seu rosto.
– Está tudo bem? – Ela perguntou e sacudi a cabeça, passando a mão no cabelo.
– Sim, sim! Só te esperando. – Falei.
– Um minuto! – Ela se virou novamente, me fazendo sentir o cheiro do perfume de baunilha e flores e suspirei.
Respirei fundo, erguendo os olhos para cima e tentei tirar esses pensamentos bagunçados da minha cabeça. Eu não podia fazer isso agora. Eu não conseguia fazer isso agora. Sabe o quão ferrado é isso? É quase me colocar dentro de um liquidificador.
– Coloca para mim? – Ela se virou com uma pulseira e abaixei os braços, segurando as duas pontas da pulseira dourada com um pingente em formato de prisma que era de seus pais e tive um pouco de dificuldade em fechar por causa das mãos tremendo. – Vai dar muito certo você dirigir dessa forma. – Ri fracamente.
– É pequeno demais. – Falei, fechando e girando o pingente para cima. – Pronto.
– Podemos ir. – Ela pegou uma pequena bolsa, passando pelo seu braço e era como se eu visse seus movimentos em câmera lenta.
– Vamos… – Indiquei com a cabeça e segui à frente, erguendo os olhos para cima. Jesus, me ajuda!
– Como vamos? Andando? – Ela perguntou.
– Não, tenho outra forma. – Falei, puxando a porta quando ela passou e ela chamou o elevador.
– Algum carro esportivo que eu preciso saber? – Rimos juntos e apertei o botão do primeiro estacionamento.
– Você vai ver. – Falei, encostando na parede e ela sorriu.
– Me sinto uma criança quando você fica escondendo essas coisas de mim. – Ri fracamente.
– Tem que ter alguma vantagem em nossas vidas serem diferentes. – Dei de ombros, fazendo-a rir, se virando para o espelho e suspirei.
A porta do elevador se abriu e saímos juntos no estacionamento. Andei pelo local, procurando minha Vespa e esperava que tivesse gasolina, porque não andava com ela desde o fim do ano passado. Ou antes.
– Uma Vespa?! – Harper perguntou, surpresa. – Você tem uma Vespa? – Ela pulou, animada.
– Eu tenho! – Falei, rindo, girando a chave, vendo o hodômetro subir. – Mônaco é pequena, tirar o carro da garagem é maior trampo. – Ela sorriu.
– Oh, agora fiquei empolgada!
– Deixa eu… – Abri o banco, pegando dois capacetes e entreguei um para ela. Coloquei o meu, ajeitando no queixo e virei para ela que ajeitava o seu também. – Tudo certo? – Chequei o fecho em seu queixo, vendo-a pressionar os lábios em um sorriso. Mordisquei meu lábio inferior e desviei o olhar para montar na Vespa e a liguei, apoiando os pés no chão. – Sobe aí.
– Espera que tem bastante pano aqui. – Ela disse, rindo e observei-a juntar a barra de seu vestido antes de apoiar a mão em meu ombro e eu senti a compensação na Vespa. Meu corpo travou com a proximidade dela, mas me travou mais ainda quando ela passou as mãos em minha barriga. – Eu estou pronta!
– Va-vamos… – Falei, acelerando um pouco.
– Você tem carteira para isso, não? – Ela disse perto de meu ouvido e ri fracamente.
– Talvez… – Brinquei, acelerando devagar antes de colocar os dois pés dentro da Vespa e seguir para fora do estacionamento.
O pôr do sol em Mônaco era um dos mais bonitos que eu já vi, especialmente pelo clima mais limpo e por não ter prédios tão altos que o cobrem, mas não deu para eu aproveitar tanto, minha cabeça só estava nas mãos de Harper em minha cintura e sentia meu corpo mais contraído do que normalmente.
Saí da rua do meu apartamento, passando pelo Rosário da Princesa Grace, depois passei pela Avenida des Papalins até cair na Avenida Albert II, passando por dentro do túnel embaixo do Palácio Real até cair na Route de la Piscine, beirando o Porto Hercule.
– Na rua de trás ficam os boxes na corrida. – Falei um pouco mais alto para Harper.
– E onde estão? – Ela perguntou.
– Montam só no dia. – Falei.
– Isso é loucura! – Ela disse, rindo e entrei na Avenida J.F. Kennedy, passando pelo Iate Clube, caindo no Boulevard Louis II, continuando à beirar do Mar da Ligúria à direita até cair na avenida Princesa Grace no Hotel e Resort de Monte Carlo.
– Chegamos. – Falei para Harper, entrando no recuo do hotel e parando logo à frente de um valet.
– Boa noite. – Um homem disse e Harper saiu da Vespa e saí logo em seguida, tirando o capacete da cabeça.
– Você passou em lugares incríveis. – Ela disse, fazendo o mesmo e sacudindo os cabelos.
– Achei que seria legal turistar um pouco contigo. – Ela sorriu.
– É demais! – Ela suspirou, entregando seu capacete para o valet.
– Vem comigo. – Falei, fazendo o mesmo e ele me entregou um ticket. – Eu tinha duas opções para te levar, aqui, ou em outro restaurante que fica dentro do Hôtel de Paris… – Acenei para algumas pessoas enquanto entrávamos no resort. – Esse restaurante aqui tem uma estrela Michelin, comparado com o outro que tem três, mas esse tem uma vista mais bonita. E eu sei o quanto adora vistas.
– Onde você me levasse eu ia amar, Danny! – Ela disse, rindo e parei na porta do restaurante.
– Boa noite, reserva para Ricciardo. – Falei para o homem na porta que conferiu na lista.
– Venha comigo, por favor. – Ele disse e indiquei à frente para Harper, vendo-a seguir com o homem.
O Blue Bay é um restaurante relativamente mais novo em Mônaco, possui uma decoração mais atual e sofisticada, além do largo terraço para a Baía de Roquebrune, onde pedi nossa mesa. O maitre puxou a cadeira de Harper para ela se sentar e me sentei à sua frente, dando um aceno de cabeça para o homem que se retirou.
– Aqui é lindo, Danny. – Ela suspirou, observando o local e um garçom trouxe dois tablets, estendendo em nossa direção. – Merci. – Ela disse e dei um aceno de cabeça.
– Sabia que ia gostar. – Falei, vendo-a deslizar o dedo pela tela.
– Chef Marcel Ravin. – Ela ponderou com a cabeça. – Francês, é claro!
– Não quero que você trabalhe hoje, ok?! – Falei firme e ela ergueu os olhos delineados para mim.
– Não estou trabalhando, é só inevitável não deixar meus conhecimentos virem à tona de vez em quando. – Ela sorriu.
– É estranho ouvir você falar dos chefs como se fossem estrelas…
– São para mim. – Ela deu de ombros. – É o mesmo que andar pelo paddock e encontrar Nikki Lauda ou Alain Prost. – Ela deu um curto sorriso. – Só que são poucos na minha profissão que tem o reconhecimento mundial, como vocês.
– Imagina? Chef Harper Addams? – Brinquei, fazendo-a abrir um largo sorriso.
– Seria legal… – Ela suspirou. – Eu ia gostar de algo assim, com uma vista bonita e um lugar que fosse sofisticado, mas confortável o suficiente para a pessoa vir de sandália rasteira. – Ela disse, observando o horizonte.
– Você pode fazer isso, Harp. E não é a primeira vez que digo. – Ela virou o rosto para mim, assentindo com a cabeça.
– Eu sei, mas montar um restaurante desse nível, não é simplesmente decidir, são muitos detalhes para levar em conta.
– Excuse moi. – O garçom retornou. – Com os cumprimentos do chef. – Ele deixou duas taças de champanhe além de um aperitivo.
– Merci. – Harper disse. – Viu? – Ela virou para mim. – Não sei se eles sabem quem você é, mas eles provavelmente assumiram que somos um casal, então trouxeram uma taça de champanhe… – Ela pegou a taça, sentindo o aroma da bebida antes de dar um pequeno gole. – Uma bebida levemente adocicada para abrir o paladar. – Ela disse. – O tipo de bebida que combina com essa cidade, com esse pôr do sol e com um casal de namorados… – Ela disse, rindo e sorri. Por algum motivo não tive vontade de mudar essa brincadeira dela.
– E o que é isso?
– Isso é amuse bouche. – Ela disse e olhei confuso para ela. – Um tipo de aperitivo de uma mordida só. – Ela pegou um deles com a ponta dos dedos, colocando inteiro na boca. – Isso é uma tortinha de anchovas. – Ela disse e peguei o mesmo que ela, colocando na boca. – Sinta a mistura de texturas. – Ela dizia movimentando as mãos e tentava acompanhar o que ela dizia. – O crocante da massa com o macio da mistura de anchovas…
– Eu não sou fã de peixe, mas isso é gostoso. – Ela riu fracamente.
– E isso é… – Ela colocou o outro na boca. – Como um bom francês, ele tem foie gras no cardápio. – Ela riu fracamente. – E tem uma geleia de tomate em cima.
– Eu me surpreendo com seu paladar. – Falei.
– Mastiga, não engula. – Ela disse olhando para mim. – Aproveita o momento, porque acaba muito rápido. – Assenti com a cabeça. – Sinto um tom de cacau também.
– Chocolate, hum? – Comentei.
– Amargo, mas sim. – Ela disse e reconheci, assentindo com a cabeça.
– É diferente quando você está trabalhando ou se divertindo? – Perguntei, observando seus olhos.
– Sempre. – Ela suspirou. – Com amigos… Com você, eu estou misturando minhas duas coisas favoritas do mundo. – Sorri.
– Eu me sinto dessa forma quando te vejo roendo as unhas no fundo da garagem. – Rimos juntos.
– Eu não roo unhas! – Ela sorriu. – Nem tenho unhas para roer, na verdade. – Ela observou as unhas sem esmalte. – Regra um na faculdade de gastronomia.
– Regra um dentro do paddock. – Mostrei minhas unhas curtas e rimos juntos.
– Ao menos temos algo em comum. – Ela sorriu.
– Muito mais do que só isso, Harp. – Falei, pegando minha taça. – Rola um brinde?
– A quê? – Ela fez o mesmo.
– Para eu não falar uma lista de motivos, posso só dizer: a nós. – Suspirei. – Ao que é que a vida está reservando para nós… – Ela assentiu com a cabeça.
– A nós, Danny. – Tocamos nossas taças de leve e ela deu um gole e me peguei observando na mudança da feição em seu rosto quando ela realmente apreciava uma comida.
– A nós… Enchanté. – Suspirei, dando um curto gole.
Harper
– Acho que perdi as contas de quantos pratos eles trouxeram. – Danny disse, me fazendo rir.
– Eles possuem um pequeno aperitivo antes do prato. É uma boa ideia para a pessoa poder experimentar ao máximo os pratos. – Falei. – São porções relativamente boas, mas não o suficiente para você se sentir completamente cheio. – Coloquei mais um pouco do carbonara de abóbora na boca, dando meu suspiro número um milhão, seja pela comida, pelo local ou por Danny.
– Você me disse o que era, mas eu esqueci. – Ele falou.
– Espaguete a carbonara de abóbora verde com trufa negra, queijo parmesão, presunto ibérico e especiarias. – Falei. – Aí do lado tem bacalhau com espuma de pimenta vermelha e pão de mandioca picante.
– Eu vou deixar você escolher o que eu for comer sempre. – Sorri.
– Você tem suas restrições, mas ir sem preconceito é um ótimo começo. – Ele ergueu o rosto enquanto mastigava.
– Eu nunca pediria algo assim, de verdade. – Sorri.
– Como eu sempre disse: tem algo diferente entre comer e apreciar.
– Mas você está sempre apreciando. – Ele disse. – Seja um McDonald’s ou uma comida assim. – Suspirei.
– Eu fui forçada a procurar sempre pelo melhor nos últimos cinco anos, Danny. – Dei de ombros. – Mas sabemos que não é sempre e nem todo mundo que pode deixar 140 euros em um jantar de quatro pratos como esse com frequência. – Suspirei. – Por isso que valorizar a comida, agradecer por ela, apreciar os gostos, sabores e texturas, é primordial para mim. – Mordisquei meu lábio inferior. – É como se os momentos mais importantes da vida pessoal estivessem aqui, em volta de uma mesa.
– Você fala como se estivesse apaixonada… – Ele comentou.
– Eu estou! – Falei rapidamente, engolindo em seco. – Eu digo… – Ri fracamente. – Eu amo uma boa comida, mas aqui… – Suspirei. – Não é só a comida. É diferente do que comemos no Bahrein, por exemplo. Lá tinha uma história por trás, uma combinação de sabores mediterrâneos, várias coisas desconhecidas, agora aqui… – Ergui os olhos para os seus, observando seus olhos castanhos esverdeados e engoli em seco. – Eles não vendem um prato de comida, eles vendem o local, o momento, a sensação do local, o sentimento entre nós… É diferente. – Ele sorriu. – Ah, merda!
– O quê? – Ele perguntou, rindo.
– Eu sou perfeita para a Michelin. – Falei baixo. – Eu sou uma revisora completa. – Suspirei.
– Eu gosto de te ouvir falar, apesar de não entender nada. – Rimos juntos.
– Eu fui moldada para isso, praticamente. De pensar que comecei minha carreira porque gostava de cozinhar.
– E sua comida ainda é a minha favorita. – Tombei a cabeça para o lado.
– Você está dizendo isso porque é meu amigo. – Falei. – Olha isso. É impossível dizer isso.
– Você também pode fazer isso, Harp. – Ele falou. – Você sempre faz comida para um batalhão, é difícil cuidar de detalhes quando você cozinha para 12 pessoas. – Sorri.
– Eu sinto saudade de criar. – Fiz uma careta, fechando um olho e ele sorriu.
– Um restaurante em City Beach? – Ele mencionou a praia perto de casa. – Na Challenger Parade?
– Ah, cara! – Abri um largo sorriso, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.
– Uma vista boa, um clima perfeito em boa parte do ano, sem muitos turistas… – Minha cabeça foi para longe. – Uma mistura de comida italiana com australiana? – Levei a mão ao rosto, pressionando os lábios. – Ou mais perto do Parque do Jubileu?
– Você vai me fazer chorar assim. – Olhei para ele que sorria.
– Por quê? – Ele segurou minha mão em cima da mesa.
– Porque é perfeito… – Suspirei. – É perfeito de verdade. – Ele entrelaçou nossos dedos.
– Eu posso te ajudar a fazer isso acontecer, Harp. Você só tem que me dizer. – Ele suspirou.
– Minha cabeça está uma bagunça, não consigo fazer nenhuma decisão agora, mas parece perfeito. – Mordisquei meu lábio inferior. – Mas pode ser efeito dessa comida sensacional. – Ele riu comigo.
– Eu posso te lembrar no café da manhã de novo. – Ele disse e suspirei.
– Por favor… – Pedi, abrindo um sorriso logo em seguida. – Me deu vontade de passar no mercado, comprar algumas coisas e fazer teste naquela sua cozinha minúscula. – Ele gargalhou.
– Não fala mal da cozinha! – Ele pediu e soltei sua mão devagar, apesar de gostar do contato e voltei a atenção à minha comida.
– Se eu passar mais do que uma semana naquele apartamento, te garanto que eu transformo a sacada da sala em uma cozinha melhor do que a que você tem. – Falei e ele riu, cortando mais um pedaço de peixe.
– Eu não duvido. – Ele disse, rindo. – Mas eu mal cozinho lá, de verdade. Só o básico.
– Você não pode nunca queimar nada naquela cozinha, o cheiro não tem para onde sair. – Rimos juntos.
– Bife e batata é meio fácil de acertar.
– Comida de universitário. – O zombei e ele me encarou.
– Harper, Harper! – Ri com ele.
– Nós brincamos sobre eu ser sua chef, mas você come muita coisa boa. – Falei. – Comida de qualidade. Eu comi risoto de Portobello, fala sério!
– O que é Portobello? – Ele perguntou, rindo.
– Cogumelo. – Gargalhamos juntos. – É um tipo de cogumelo marrom.
– Viu? Você é muito mais sofisticada do que eu. – Ri fracamente.
– Você é um corredor de Fórmula Um comendo risoto de Portobello dentro do paddock na China. – Falei, rindo. – Não tem como ser mais sofisticado do que isso. – Ele gargalhou, jogando a cabeça para trás.
– Ok, ok, eu concordo com isso, mas ainda é diferente! O primeiro tipo de comida que vem na minha cabeça quando eu penso é um hamburguer com bacon e queijo cheddar, não… – Ele pensou. – Risoto de Ponte Belo e…
– Portobello! – Falei, gargalhando.
– Viu?! Entende? – Rimos juntos.
– Mas você pode comer um hamburguer com bacon e queijo cheddar e ser uma alimentação diferenciada. Tudo depende dos ingredientes usados e, mais do que isso, depende do momento. – Sorri. – Não dá para comer esse tipo de comida sempre, às vezes queremos uma refeição de quatro pratos sofisticada com uma ótima garrafa de Chateau La Calisse, mas tem momentos que só queremos um hamburguer bem engordurado sentados no sofá de pijama e meias, assistindo NASCAR ou Mountain Bike. – Ele sorriu.
– Eu sou esse cara e você é a do Portobello. – Sorri.
– Nós dois podemos ser ambos, Danny. Depende do momento. – Dei de ombros, vendo-o sorrir.
– É uma boa combinação. – Ele assentiu com a cabeça, pressionando os lábios em um sorriso e engoli em seco.
– É… É sim. – Sustentei o olhar por alguns segundos, ficando levemente incomodada quando ele fez o mesmo e desviei o olhar para meu prato, dando uma última garfada no espaguete. – Eu quero sobremesa agora. – Passei o guardanapo na boca, ouvindo-o rir.
Daniel
– Meus elogios ao chef. – Harper disse, sorrindo. – Foi um prazer.
– O prazer é nosso. – O garçom disse e entreguei a conta para ele.
Me levantei logo após Harper, vendo o garçom se retirar e ela se aproximou da beirada que dava para dentro do resort e mordisquei meu lábio inferior. Fazia muito tempo que eu não tive um jantar tão gostoso quanto esse, inclusive com ela. Era como se uma chave tivesse mudado e ela tivesse se transformado em uma pessoa totalmente diferente para mim. Tirei meu celular do bolso, abrindo a câmera e tirei algumas fotos dela de costas.
– Harp… – Chamei-a e ela virou o rosto para mim, o qual tirei outras fotos.
– Danny… – Ela falou, rindo.
– Sorria! – Falei, vendo-a se virar para mim, apoiando o quadril na bancada e sorriu para mim. Acabei sorrindo com ela enquanto tirava algumas fotos.
– Chega! – Ela disse, rindo, esticando a mão em minha direção e apertei mais algumas vezes antes de desviar a mão dela, gargalhando junto. – Para!
– Uma juntos, vai. – Falei, chamando-a com o braço e ela me abraçou, apoiando a outra mão em meu peito e virei a câmera, tirando uma foto nossa e depois pressionei meus lábios em sua cabeça para tirar mais algumas, fechando os olhos por alguns segundos.
– Chega! – Ela disse, rindo, se afastando de mim e tirei meu braço de seu ombro. – Vamos embora. – Ela seguiu à minha frente.
– Nem vem! – Falei, seguindo logo atrás dela. – Não vou deixar você dormir de novo.
– Não dizendo isso, mas a não ser que tenha alguma festa agora, não acho que tenha muito o que fazer aqui. – Andei ao seu lado, apoiando a mão na base de suas costas.
– Não tem muito o que fazer aqui, mas estamos em Mônaco. A gente arranja o que fazer. – Guiei-a para fora do restaurante, seguindo pelo resort.
– Vai finalmente me levar para andar no seu iate? – Ela perguntou e ri fracamente.
– Eu esqueci de pedir para preparar, quando voltar aqui eu levo, prometo! – Falei.
– Vai dizer que o iate está igual seu apartamento? – Ela perguntou, me fazendo fechar a cara e ela riu disso.
– Não nessa forma, digo sobre ter um piloto para levar você para dar uma volta, coisas assim.
– Ah, entendi! – Ela disse, rindo e entreguei o ticket para o maitre. – Mas nem precisa de nada, só quero ter o prazer de entrar em um iate mesmo e tirar umas fotos para tirar com a sua cara. – Gargalhei, negando com a cabeça.
– Eu preparando um puta passeio e você quer só “tirar umas fotos”. – Afinei a voz e ela me deu um soco no braço. – Ah! – Rimos juntos.
– Ah, não sei! Não faço parte dessa nata, Danny! – Rimos juntos.
– Depois desse jantar, você me mostrou que faz. E de uma bem mais restrita do que a minha. – Ela sorriu.
– Fazer uma competição de quem é mais metido, chefs de cozinha ou pilotos de Fórmula Um! – Ela brincou e eu pressionei os lábios.
– Ah, cara! Agora você chegou numa competição boa! – Rimos juntos. – Se levarmos em consideração eu e você… Pilotos são mais metidos.
– Ah, com toda certeza! – Ela gargalhou.
– Mas vocês falam mais chique! – Falei rapidamente.
– Ah, claro! Apex, chicane, puncture! – Ela disse, gargalhando. – Fala que o pneu furou e está tudo certo! – Gargalhei alto. – Eles vão entender.
– Eles vão entender. – Falei rindo e vi o valet me entregar a chave.
– Aqui, senhor.
– Obrigado! – Falei, andando para perto da Vespa e peguei um capacete da mão do valet, entregando para Harper. – Vamos dar uma volta.
– Eu deveria ter vindo de calça. – Ela comentou, colocando o capacete.
– Não, você está bonita assim. – Falei e ela ergueu o rosto, dando um curto sorriso.
– Obrigada. – Ela juntou a barra do vestido de novo e subi na Vespa, ligando-a novamente e o farol dessa vez. Ela subiu na garupa, me abraçando pela cintura e dei um sorriso enquanto colocava o capacete. – Vai devagar, acabei de comer.
– Ela só vai a 120 quilômetros por hora! – Falei, virando o rosto para trás.
– Ah. – Ri fracamente.
– Vamos sair desse buraco. – Falei, acelerando a Vespa e ouvi Harper rir atrás de mim.
Segui de volta para Fontvieille de forma devagar. Eu estava simplesmente amando esse dia, não queria que acabasse tão cedo. Eu estava confuso com todos meus sentimentos, mas ver Harper de outra forma estava me deixando feliz demais. Sei que isso implicava em diversas coisas, pensando em quantos anos somos amigos, mas eu queria descobrir mais e ver onde isso ia dar.
– Você não disse que a gente não ia para casa? – Ela perguntou quando passei pela rua de casa.
– Mas não vamos ainda, aqui é mais vazio. – Falei, atravessando a fronteira para França e passei pela Avenida Port de Cap’Ail, vendo alguns iates perdidos por ali.
Segui por entre a pequena rua do píer até chegar ao final dela, tendo o porto com alguns iates do lado esquerdo e mar do lado direito, sendo separado somente pela rua e uma mureta de pedras. Fui até o final dela, parando a Vespa e desliguei-a, sentindo Harper me soltar e descer antes de mim.
– Isso é incrível! – Ela disse, aparecendo em minha visão quando ela se aproximou da murada e sorri com o vento sacudindo seus cabelos e seu vestido. Tirei o capacete, parei a Vespa e segui logo atrás dela.
– É um lugar legalzinho. – Falei, rindo.
– Eu entendo por que você gosta daqui. – Ela disse, virando para mim e apoiando o quadril na murada. – É como férias sempre…
– Tem um sentimento bom, né?! – Falei.
– Tem… – Ela suspirou, apoiando as mãos na murada e apoiei as mãos em suas coxas, ajudando-a a subir e ela sorriu. – Obrigada.
– Quando precisar. – Falei, me apoiando ao seu lado.
– É como… – Ela apoiou as mãos em seu colo para evitar que o vestido voasse. – Como se pudéssemos ficar aqui e fingir que o resto do mundo não existe.
– É, algo assim. – Suspirei, observando seus pés sacudirem embaixo. – Isso fora de GP. – Ergui o rosto para ela.
– Não dá nem para imaginar uma cidade… Do que eu chamo? Cidade? País? – Rimos juntos.
– Do que você quiser. – Sorri.
– Ah, enfim, não dá para imaginar uma cidade calma assim naquela loucura. – Ela disse, sorrindo.
– É outra cidade. – Falei. – Muda completamente. Mas a vantagem é que depois que acaba, eu vou para o apartamento e durmo na minha cama. – Dei de ombros. – Os hotéis são ótimos, os motorhomes não são ruins, mas dormir na minha cama…
– Seu próprio chuveiro! – Ela disse, tombando o corpo para o meu lado, me fazendo rir. – Eu não posso nem dizer muito sobre cama. A sua cama na fazenda é mais a minha cama do que a minha cama no apartamento. – Sorri, sentindo-a apoiar a cabeça na minha.
– E você tem um quarto na fazenda. – Rimos juntos.
– Virou o quarto do Isaac agora. – Ela disse, me fazendo rir.
– Ah, cara, sinto falta desse carinha. – Falei.
– Eu também. – Ela suspirou, erguendo o rosto.
– Mas agora você vai ter um restaurante incrível, em Perth, City Beach… – Me coloquei em sua frente, fazendo-a rir.
– Não fala isso! – Ela tombou a cabeça para trás. – Tem muita coisa para acontecer antes do restaurante em si.
– Como o quê? Comprar um espaço, montar, abrir… – Ela riu, apoiando as mãos em meus ombros.
– Quem dera! – Ela riu fracamente. – Preciso voltar a fazer cursos mais específicos, eu estou há cinco anos sem fazer algo grandioso. – Assenti com a cabeça. – Depois comprar um terreno, fazer o projeto, ter todas as especificações para uma área comercial, de alimentação e de acessibilidade, depois construir, criar o cardápio, conseguir alvará de funcionamento, licença para bebidas alcóolicas…
– É, porque precisamos de álcool! – Rimos juntos e minhas mãos foram para sua cintura.
– Depois de tudo pronto, montar a parte mobiliária do restaurante, pratos, talheres, copos, contratar equipe, treinar equipe, treinar forma de atendimento e de serviço. Depois de tudo isso, aí a gente abre. – Arregalei os olhos.
– Ok, eu cansei só de ouvir. – Ela sorriu. – Mas como as pessoas abrem restaurante tão rápido?
– Apoio externo? – Ela deu de ombros. – Possuem sócios? Franquia? – Ela ponderou com a cabeça. – Tudo bem, seria meu primeiro restaurante, eu quero cuidar de cada detalhe, então isso demora um pouco mais.
– Eu quero ser seu sócio. – Falei sério. – Para valer.
– Ok, podemos falar sobre isso. – Ela abaixou as mãos para a murada novamente. – Eu não sei, eu sou muito egoísta para essas coisas.
– Eu só quero comer. – Ergui as mãos, fazendo-a rir. – Eu te dou o dinheiro e você entra com a mão de obra. É o que plebeus fazem, não?
– Idiota! – Ela me chutou na coxa e levei as mãos à minha virilha, me fazendo rir.
– Por pouco, Harper! – Ela gargalhou.
– Ah, qual é! Você nem ia sentir. – Ela abanou a mão.
– Há, há, há, engraçadinha! – Falei, ouvindo-a rir.
– Eu lembrei daquela vez na escola que eu chutei sem querer! – Ela gargalhou.
– Ah, cara! Eu lembro daquele dia. Foi algo tipo assim, não? – Falei e ela sorriu.
– Sim, eu ia te chutar para te mostrar algo e acabei acertando o pequeno Daniel. – Ela gargalhou.
– Não vi graça nenhuma! – Falei, cruzando os braços.
– Eu imagino o quanto deve doer, porque, não sei se sabe disso, mas eu já levei um taco de cricket nos seios… – Gargalhei alto. – E dói muito!
– Como isso? Quando? – Perdi as forças com a risada, deslizando meu corpo no chão.
– Eu joguei bastante no ensino médio…
– Eu sei, mas estávamos afastados naquela época. – Falei, apoiando as mãos no chão e erguendo o olhar par ela.
– É! Eu não me lembro o que houve, foi em um dos jogos, mas eu levei uma bonita e doeu. – Ela disse, rindo. – Eu fiquei no chão por uns 10 minutos.
– Eu ficaria também. – Falei, rindo.
– Eu vou tentar não fazer mais no impulso, mas quando eu vi, já foi! – Ela gargalhou alto.
– Ah, cara! Estou ferrado. – Falei, rindo e ela sorriu.
– Não seja tão dramático! – Ela ameaçou me chutar de novo, me fazendo rir pela distância e sorri quando o vento ergueu seu vestido de novo.
– Você parou de jogar cricket, certo?
– Eu parei na faculdade. – Ela ponderou com a cabeça. – A LCB era completamente diferente de uma faculdade normal.
– Você era boa. Eu era um desastre. – Ela riu fracamente.
– Você era bom em esportes individuais. – Ela suspirou. – E no futebol, mas sozinho.
– Eu não passava para ninguém. – Falei, rindo.
– Exato. – Ela sorriu. – Desastre total. – Rimos juntos.
– Ninguém faz milagre, vai! – Dei de ombros, vendo-a olhar em volta.
– Danny…
– O quê?
– Eu sei que estamos no país mais rico do mundo, mas é ok ficarmos de boa aqui a essa hora? – Ri fracamente.
– É, é sim. – Sorri e ela assentiu com a cabeça. – O país mais seguro do mundo.
– E sem impostos. – Ela disse, me fazendo rir.
– E sem impostos. – Sorri.
– E onde encontro sorvete no país mais seguro do mundo? – Ela pressionou os lábios em uma careta.
– Depois de quatro pratos e uma sobremesa, você quer sorvete? – Ela deu de ombros e ponderei com a cabeça. – É… Por que não? – Falei, rindo, me levantando e ela pulou da murada. – Não tenho ideia de onde vamos encontrar uma sorveteria agora, mas qualquer coisa tem sempre o mercado 24 horas. – Ela riu fracamente.
– Está ótimo para mim. – Ela seguiu na minha frente e passei o braço em seus ombros, trazendo-a mais para perto.
Harper
– Ok, eu preciso dizer que aquele foi literalmente o melhor sorvete que eu tomei na vida. – Tirei o capacete da cabeça, entregando para Danny. – Eu não sei se posso dar estrela Michelin para uma sorveteria, mas aquela merece. – Sacudi os cabelos, vendo-o rir.
– Eu adoro ver você realmente apaixonada pelas comidas, de verdade. – Ele disse, fazendo o mesmo e guardando os capacetes embaixo do banco.
– Já tivemos essa conversa mais cedo. – Abanei a mão, dando uma volta ao redor do corpo.
– Eu sei, mas gosto de te ouvir falar sobre isso. Acho que você se sente bem com isso. – Ele seguiu comigo e fomos em direção ao elevador.
– Eu sinto. – Mordisquei meu lábio inferior, suspirando. – Mas hoje o dia foi excepcional, Danny. Obrigada, para valer. – Ele sorriu, se virando para mim.
– Foi bom, né?! – Assenti com a cabeça, suspirando. – Podemos fazer isso com mais frequência.
– Tem espaço para mim nesse seu micro apartamento? – Brinquei, sentindo-o me puxar pelo ombro, me fazendo rir.
– Não fala mal do apartamento. – Ele apertou o botão do andar e me livrei de seu braço. – Ou não vai ter lugar para você!
– Isso quer dizer que tem lugar para mim? – Abri um largo sorriso e ele se virou para mim, ponderando com a cabeça.
– Se você não falar mal do apartamento, talvez tenha. – Ele disse e rimos juntos.
– Combinado! – Empurrei-o com o quadril quando o elevador abriu e entrei primeiro.
– Mas, falando sério agora, você pode vir para cá, ficar aqui… Nosso ponto de encontro não precisa ser só Perth. – Ele cruzou os braços e mordisquei o lábio inferior, observando-o pelo espelho.
– Ano que vem vai ser diferente, Danny. Muita coisa vai mudar. – Suspirei.
– Estamos em abril ainda, Harp. Não precisa deixar só para o ano que vem. – Ele disse. – Ainda tem muito o que acontecer aqui… – Assenti com a cabeça.
– Eu sei, só… Vamos fazer o que programamos, pode ser? – Virei de frente para ele. – Eu vou te acompanhar nessa temporada, em dezembro eu bato o martelo sobre todas as outras coisas… – O elevador parou e ele saiu de costas.
– Tudo bem, mas repito: estamos em abril ainda, tem muito até o fim do ano. Não precisa deixar a vida passar por causa desse prazo.
– Não estou deixando a vida passar… – Segui logo atrás dele. – Eu estou aqui em Mônaco, contigo, tendo um dos melhores dias da minha vida. – Ele sorriu.
– Um dos melhores dias da sua vida? – Ele perguntou, pegando a chave.
– É. – Mordisquei meu lábio inferior. – Acho que muitos dias da minha vida tem você de coadjuvante. – Ele abriu a porta, me deixando entrar em sua frente.
– Agradeço pela valorização, mas nunca estou como coadjuvante. Nunca! – Gargalhei, ouvindo a porta fechar e seguimos em direção ao seu quarto.
– É minha vida! Você nunca vai ser principal na minha vida, Daniel! – Rimos juntos.
– Você é principal na minha vida. – Ergui meu rosto para ele, vendo-o apoiar o corpo no batente da porta. – Você é, talvez, a mulher mais importante da minha vida. – Mordisquei meu lábio inferior. – Não deixa minha mãe e nem a Mi ouvir isso. – Sorri.
– Você me entendeu. – Falei. – Você é importante na minha vida. – Suspirei. – Você é o homem mais importante da minha vida, na verdade. – Ele sorriu. – E eu posso dizer isso sem medo de alguém ouvir.
– Ah, vai que o tio Alex joga um raio na nossa cabeça. – Rimos juntos e me aproximei dele, apoiando as mãos em seus ombros.
– Ele nunca faria isso. – Suspirei. – Você é bom demais para mim. – Abracei-o apertado, sentindo suas mãos apertarem minhas costas. – Tenho certeza de que ele está feliz por sua filha ter uma família incrível cuidando dela. – Arrepiei quando ele beijou meu ombro, me fazendo morder meu lábio inferior.
– Aposto que eles estão felizes pela mulher que se tornou, Harp! – Ele sussurrou. – E por tudo. – Afastei meu rosto devagar, sentindo-o descer as mãos para minha lombar.
– Eles adorariam te ver correr. – Mordisquei meus lábios, olhando em seus olhos.
– Eles adorariam ver muita coisa. – Ele suspirou e me senti intimidada pela proximidade, sentindo sua respiração em meu rosto e tentei colocar minha cabeça em ordem, pigarreando.
– Isso está ficando um pouco depressivo. – Empurrei seu corpo levemente, sentindo suas mãos deslizarem de leve pela minha bunda até a coxa e desviei meu olhar do dele. – Eu vou usar o banheiro rapidinho.
– Claro… – Ele disse e dei de costas, sentindo meu coração bater forte e peguei minha mochila na beirada da cama antes de correr me esconder no banheiro.
Tranquei a porta e me sentei no vaso sanitário, respirando fundo, abanando as mãos em meu rosto para ver se esse surto passasse. O que está acontecendo comigo? Eu não posso estar apaixonada por Danny. Isso não pode estar acontecendo. É louco, é estranho e é fadado ao fracasso. Somos amigos há 24 anos. 24 anos. Não tem como um relacionamento desses funcionar. E mesmo se for uma amizade colorida, sempre dá fracasso no final.
E eu não estou pronta para ficar sem esse homem na minha vida. Sem essa família na minha vida. Ainda mais dividindo o apadrinhamento de Isaac com ele. Isso é fodido! Isso é fodido! Isso não pode estar acontecendo! Isso não pode estar acontecendo.
Apertei as mãos nos olhos, soltando a respiração com força pela boca e abaixei a cabeça entre as pernas. Puxando e soltando a respiração diversas vezes. Levantei do vaso, abrindo a torneira com força e joguei bastante água em meu rosto, respirando fundo e vi a maquiagem borrar quando esfreguei os olhos e olhei o reflexo pelo espelho.
Pensando pelo outro lado, é incrível como não aconteceu antes. Danny sempre foi a melhor pessoa da vida. Sempre um amigo carinhoso, amoroso, que fazia eu me sentir bem quando eu não estava. Entendia minhas crises de surto, dor, luto ou até de ciúmes, sem fazer escândalos e nunca gritou comigo, se não fosse para eu me sentir bem.
Merda! Isso é fodido!
Tentei tirar isso da minha cabeça enquanto lavava o rosto para tirar a maquiagem e escovava os dentes, mas minha cabeça parecia uma bigorna de tão pesada que estava. Peguei minha mochila, procurando pelo meu pijama e franzi a testa quando não o achei de cara. Tirei os vestidos, a sacola de lingerie e a necessaire, procurando mais fundo e não estava lá.
Tombei minha cabeça para trás, tentando lembrar de quando montei a mochila para não trazer as duas malas da China e fiz uma careta. Eu coloquei os pijamas na mala de roupa suja para Michael mandar lavar para mim. Merda. E eu nem trouxe shortinhos, só vestidos para curtir os dias. E dormir de calça jeans estava fora de cogitação.
– Danny? – Chamei-o.
– Fala! – Ele gritou de volta e abri a porta do banheiro, vendo-o colocar a cabeça para fora do closet com um short e uma camiseta regata larga de seu pijama.
– Tem alguma roupa que você possa me emprestar para eu dormir? Deixei os pijamas na mala para lavar. – Ele riu fracamente.
– Claro, Harp! – Ele sorriu, entrando no closet de volta e suspirei, ouvindo-o abrir e fechar algumas gavetas antes de aparecer de novo. – Vê o que acha! – Ele me entregou duas roupas e sorri.
– Obrigada. – Falei, antes de entrar novamente no banheiro.
Apoiei as roupas na pia e vi um short de tactel azul escuro e uma de suas diversas camisetas pretas super largas. Não entendo o prazer de Danny em usar roupas muito largas. Ele é lindo e estava mais lindo ainda hoje, mas essas roupas escondem um pouco de seus atributos… Ai, Deus! Estou ferrada.
Tirei o vestido, colocando a roupa e me senti criança quando colocava a roupa de meu pai. Ao menos a roupa tinha o cheiro do perfume de Danny e eu amo o La Baie 19 dele. É um cheiro que acompanha minha vida antes de eu estar derretendo por ele. Ai, inferno! Meus planos para esse ano não eram me apaixonar, muito menos por Danny! Essa parte estava legal na minha vida, Moço Aí de Cima, quando falei que queria mudanças, não quis dizer isso.
– Deu certo? – Danny perguntou.
– Si-sim! – Falei rapidamente, ajeitando minhas coisas de volta na mochila, com exceção do vestido que eu tinha tirado. – Já saio.
– Sem pressa. – Ele disse.
Fiz minhas necessidades e dei uma ajeitada nos cabelos, me olhando no espelho. Eu nunca me importei sobre isso, mas agora eu queria estar bonita para ele e essa é a pior coisa de todas! Ah, meu Deus! Eu estou ferrada! Eu estou ferrada! Saí logo em seguida e encontrei Danny sentado na cama, fazendo malabarismos com três bolas.
– Está livre para você. – Falei, deixando minha mochila no canto novamente.
– Ficou ótimo em você! – Ele disse e pressionei os lábios.
– Você usa roupas muito largas! – Estiquei a blusa nos lados, fazendo-o rir enquanto se levantava.
– Roupa de dormir é para ser confortável, melhor ainda se for sem nada. – Ele passou por mim e pressionei os lábios antes de ouvir a porta se fechar.
Dormir sem roupas com meu melhor amigo? Por que isso parecia incrivelmente interessante agora? Em outras situações eu sentiria nojo disso, mas agora… Merda!
Estiquei o vestido da noite na poltrona perto do armário e calcei os chinelos, olhando para a cama que Danny havia arrumado e senti meu corpo travar por alguns segundos. Iríamos dormir juntos? É isso mesmo? Eu me ferraria mais ainda hoje? Ah, droga! Pior que nem tinha como sair dessa, porque é algo que a gente faz com frequência, inclusive dormir abraçados, mas não quando meu coração parece uma batedeira perto dele.
Ele vai notar, certeza! Eu estou ferrada.
Sacudi a cabeça, colocando os cabelos atrás das orelhas e peguei meus remédios antes de sair do quarto. Fui até a cozinha e tomei os remédios com um pouco de água, tomando outro copo logo em seguida antes de voltar para o quarto, encontrando Danny fechando a porta do banheiro.
– Tudo certo? – Ele perguntou.
– Sim, só fui tomar meus remédios.
– Preciso tomar minhas vitaminas também, pode se ajeitando do lado que preferir, eu logo volto. – Ele falou, coçando a nuca e engoli em seco.
– Hum… Tem certeza de que não quer que eu durma no sofá? – Mordisquei meu lábio inferior e ele virou o rosto para mim de novo. – Digo, o dia foi longo hoje, você deve estar cansado.
– Não… Não! Não é a primeira vez que dividimos a cama, Harp. Não vai ser a última. – Ele deu um curto sorriso. – E está quente, aqui tem ar-condicionado, vamos ficar mais confortáveis. – Ele abanou a mão, saindo do quarto e tive vontade de gritar “puta que pariu” o mais alto possível, mas me contive.
– “É algo normal, vai dar tudo certo”. – Sussurrei debochadamente antes de seguir até a sacada, puxando a cortina para fechar. – Eu estou ferrada.
Neguei com a cabeça, me sentando de um lado da cama e tentei limpar a cabeça para fazer minha oração noturna. Por algum motivo, eu incluí um pouco de claridade nessa bagunça que estava minha cabeça. Que pudesse me guiar para um caminho que eu descubra se é realmente amor ou só uma paixonite boba de uma mulher carente de 26 anos.
– Tudo certo aqui! – Danny voltou para o quarto, fechando a porta e o vi fechar a porta do banheiro e do closet antes de aparecer no quarto. – Vamos ligar isso, aqui fica meio quente pela manhã. – Ele pegou o controle, ligando o ar-condicionado.
– Como está a programação amanhã? – Perguntei, tentando manter a calma enquanto ele se sentava do outro lado da cama.
– Combinei com o Felipe a uma da tarde. – Ele disse, virando o corpo para dentro da cama. – Podemos tomar café da manhã no Hôtel de Paris ou dormir até mais tarde.
– Sim, claro! Seria legal! – Sorri, me deitando e ele fez o mesmo.
– Quer que coloque despertador? – Ele perguntou, ajeitando o travesseiro.
– Que horas são? – Perguntei.
– Uma e pouco. – Ele disse.
– Não é como se dormíssemos muito, Danny. Ficamos velhos. – Rimos juntos.
– Se você ainda estiver com remédio, você capota.
– Eu acho que não, acordei sozinha a tarde. – Ele assentiu com a cabeça.
– A gente vê quando acordar, então. – Ele disse. – Se dormir, a gente toma no sábado antes de ir embora.
– O voo para Rússia vai ser chato, não vai? – Perguntei, fazendo uma careta.
– Vai… – Ele suspirou. – Conexão noturna na Turquia. – Suspirei. – Isso sem contar a ida para Milão.
– Ao menos vamos passar na Itália, eu gosto de lá. – Comentei, virando o rosto para ele, percebendo que ele me olhava.
– Vamos para lá em setembro. – Sorri. – Mas vamos chegar em Sóchi quebrados.
– Você que me perdoe, mas eu vou tomar meu remédio sim. – Ele sorriu.
– Acho que para esse até eu vou tomar. – Ele disse e rimos juntos.
– É melhor dormirmos, amanhã vai ser outro dia cheio. – Comentei e ele assentiu com a cabeça antes de erguer a mão e bater no disjuntor.
– Boa noite, Harp.
– Boa noite, Danny! – Falei, mordendo meu lábio inferior e virei meu corpo para a parede, sentindo-o se mexer na cama e relaxei quando ele não se aproximou.
Agora eu precisava relaxar e conseguir dormir. Só isso.
Daniel
Franzi os olhos, sentindo um aperto forte na área da virilha e estava com vontade mijar. Que caralho! Eu não tinha ideia de que horas eram, mas meu corpo ainda estava cansado, eu não queria levantar agora, vai ser difícil voltar a dormir de novo.
Tentei ignorar esse aperto entre as pernas, mas a vontade foi mais forte, me obrigando a abrir os olhos. O quarto estava levemente claro por uma fresta da cortina e encontrei os olhos de Harper fechados em minha direção. Ela dormia calmamente, com o cabelo caindo na bochecha e um braço em volta do travesseiro e outro caído em sua barriga.
Aquilo me fez sorrir e notei que minha mão estava apoiada em sua cintura, mantendo nossa proximidade e suspirei. Meu indicador foi em direção a sua bochecha, tirando o cabelo e sorri com seus lábios levemente abertos e a respiração saindo por eles. Eu só queria beijá-la, da mesma forma que eu quis beijá-la e abraçá-la várias vezes ontem.
Tinha sido realmente um dia perfeito, sair para jantar com ela, vê-la falando de forma apaixonada sobre sua carreira, perceber detalhes que passavam despercebidos durante os anos de amizade. É quase como se não tivesse muita coisa acontecendo em nossas vidas, quase como se pudéssemos ficar trancados nesse apartamento para sempre, só curtindo a presença um do outro.
Deus, como eu gostaria de algo assim.
Eu sei que não é fácil. Nossa amizade é muito longa e íntima para simplesmente fazer essa mudança. Não posso fazer nada na empolgação, por mais que eu quisesse apertar minhas mãos em suas coxas e beijá-la, eu preciso analisar meus sentimentos muito bem antes de fazer qualquer coisa, pois pode não ter volta.
Meus lábios foram para sua testa, dando um leve beijo ali e me lembrei da vontade de fazer xixi. Virei meu corpo na cama, afastando do calor do seu corpo e levei a mão até meu pênis, sentindo-o duro e me assustei ao olhar e perceber a ereção em meu corpo.
– Merda! – Olhei rapidamente em volta quando a voz saiu mais alta e Harper ainda dormia e tentei me levantar devagar, deslizando meu corpo da cama e caí de joelhos. – MERDA! – Me levantei apressado, correndo em direção ao banheiro e bati a porta, encostando nela.
Olhei para baixo, vendo a ereção em evidência pelo short e senti minha respiração apressada. QUE MERDA! O QUE ESTÁ ACONTECENDO? ISSO NUNCA ACONTECEU ANTES! ISSO NÃO PODE ACONTECER.
– Danny? – Ouvi a voz de Harp e meu corpo gelou. – Está tudo bem?
– Si-sim! – Falei rapidamente, trancando a porta. – Emergência! – Sacudi a cabeça. – Número dois! – Bufei.
Você não fala isso para a garota que você está gostando, cara! Porra! SEU IDIOTA!
Olhei para ereção novamente, respirando fundo e precisava de uma forma para relaxar isso sem… A forma tradicional.
Fechei os olhos, tentando pensar em coisas broxantes como calcinha bege, mal hálito, minha ex, mulher com bigode ou com braço peludo, mas nada disso realmente veio a minha cabeça. Em compensação, a cena de ontem, quando apertei minhas mãos em suas pernas para ajudá-la a sentar na murada veio em minha cabeça, e veio rápido demais. O polegar apertou a pele que aparecia dentro da fenda e a aproximação quando ela me abraçou.
Cara, eu deveria ter beijado ela ali mesmo! Era o momento perfeito! O lugar perfeito! Não tenho a mínima ideia do que faria depois disso, mas merda! Teria sido perfeito.
Olhei para os shorts novamente, ainda vendo a ereção e bufei. Eu vou ter que ir pelo modo tradicional e espero que alguém lá em cima me perdoe por isso. Seja Deus ou tio Alexander.
Pensar no pai dela? Não?
A ereção permanecia lá e respirei fundo. Passei as mãos pelo elástico da bermuda, deslizando-a pelas pernas junto com a cueca e encontrei minha ereção firme, me fazendo suspirar. Isso era loucura. Isso não podia acontecer! Isso é errado. Ela é minha melhor amiga. Eu com certeza vou para o inferno depois de hoje.
Deslizei a mão pelo meu pênis, soltando a respiração pela boca e fechei os olhos, mantendo um movimento devagar em meu pênis e apertei a outra mão no box, deixando minha cabeça ir longe.
Os últimos dias vieram em minha mente e só consegui pensar no sorriso de Harper, nos lábios entreabertos, seus olhos me encarando de perto, suas mãos em minha nuca e como eu queria suas pernas ao redor de meu corpo, seus lábios colados nos meus e minhas mãos entre seus cabelos enquanto a pressionava contra a parede.
A mão foi deslizando com mais rapidez, fazendo a respiração acelerar com os movimentos e soltava a respiração devagar pela boca, evitando ao máximo fazer barulho. O calor começou a subir pelo meu corpo e soltei o box, puxando a blusa pelo pescoço, jogando-a no chão.
O sorriso de Harper veio em minha cabeça de novo, além da intensidade e animação que falávamos sobre as coisas da sua carreira. Sua emoção com a ideia de um restante em City Beach e o largo sorriso que ela deu com a ideia, fazendo o meu só se alargar.
Meu corpo começou a pressionar na base da virilha e comecei a agilizar mais os movimentos, aumentando o atrito em minha pele e apertei a mão livre em meu pescoço, fechando-a ali. Soltei a respiração com força, pressionando os olhos.
O abraço de ontem veio em minha cabeça, quase como se eu sentisse seus braços ao redor de meu corpo e minha mão deslizando pelas suas costas, depois em sua bunda antes de passar rapidamente pelas suas coxas. Como eu queria fechar minhas mãos ali e erguer sua perna para minha cintura…
– Porra… – Suspirei, sentindo meu corpo relaxar com o gozo e soltei a respiração devagar pela boca.
Meu corpo relaxou aos poucos, enquanto eu ainda deslizava a mão úmida pela extensão de meu pênis e fui sentindo meu corpo normalizando aos poucos. Ergui meu rosto para o espelho, tendo meu reflexo quase de corpo inteiro ali e me senti um idiota.
Que merda tinha acontecido aqui?
Eu tinha acabado de me masturbar pensando na minha melhor amiga?
Merda! Eu estou ferrado.
Desencostei meu corpo da porta e fui até o vaso sanitário, abrindo-o devagar e apertei a descarga com força, enrolando alguns segundos antes de soltar e bater a tampa com força. Que idiota!
Aproveitei o corpo suado e o estado e segui direto para o banho, talvez alguns minutos fizessem eu esquecer um pouco de tudo, colocar a mente para pensar direito e não ter outra ideia estúpida de me masturbar pensando na minha melhor amiga.
Isso não se faz, cara.
Seu sorriso veio em minha cabeça novamente e abri os olhos, vendo as gotas caírem de meus olhos, nariz e queixo e suspirei. Eu desisto! Eu estou ferrado.
Terminei de tomar o banho com a cabeça fervendo e puxei a toalha com força do box, enrolando-a na cintura antes de sair do mesmo. Me sequei melhor do lado de fora e peguei minhas roupas no chão, respirando fundo.
Você consegue fazer isso. Você consegue!
– Harp?
– Oi! – Ela respondeu. – Está tudo bem?
– Sim, está! Eu tomei banho e preciso ir para o closet.
– Ok… – Ela disse e abri a porta do banheiro, segurando na junção da toalha antes de atravessar o curto corredor até o closet e me trancar lá dentro.
Passei desodorante e retoquei o perfume antes de virar para o armário. Peguei uma cueca limpa e coloquei uma bermuda e outra camiseta larga antes de jogar a cueca no cesto e dobrar o pijama, colocando no canto. Passei a toalha nos cabelos, tirando o excesso e me olhei no espelho dali.
– Você consegue, cara. Você é bonito, gostoso. Não é seu primeiro rodeio, cara. – Suspirei.
Por que eu sentia que era? Acho que eu estou mais nervoso agora do que no nosso primeiro beijo.
Empurrei a porta do closet de novo, voltando para o banheiro para deixar a toalha e aproveitei para escovar os dentes antes de voltar para o quarto, encontrando Harper deitada na cama olhando para a parede do outro lado e sorri com suas coxas contraídas pelas pernas dobradas e nunca gostei tanto dos meus shorts de pijama como agora.
– Você pode olhar agora. – Falei e ela virou o corpo na cama, se sentando devagar.
– Está tudo bem mesmo? – Ela cruzou as pernas e me sentei na beirada da cama.
– Sim, está tudo bem. – Suspirei. – Só tive uma dor de barriga.
– Será que foi o sorvete? Não lembro de você pedir sem lactose. – Minha cabeça pensou rápido e seria a desculpa perfeita, apesar de ter tomado remédio antes de ir para o restaurante.
– Sim, acho que foi sim! – Suspirei. – Quando a natureza chama… – Ela riu fracamente, me batendo com o travesseiro. – Ai.
– Isso é nojento! – Ela disse, rindo.
– Todo mundo faz, Harper. Até você! Te chama várias vezes por causa dessas comidas estranhas que você experimenta. Inclusive falou que ia virar flor uns dias atrás. – Ela abriu um largo sorriso.
– É, você tem razão. – Ela riu fracamente. – Mas eu me assustei, você gritou e a porta bateu com força. – Cocei a nuca, nervoso.
– Eu acabei batendo o pé na quina e a porta foi consequência. – Ela assentiu com a cabeça e dei um curto sorriso. – Dormiu bem? – Mudei de assunto.
– Sim, dormi sim. – Ela deu um curto sorriso, passando as mãos nos cabelos bagunçados, jogando-os para trás. – Você?
– Sim, é bom dormir na minha cama. – Ela assentiu com a cabeça.
– Não te atrapalhei? – Ela comentou.
– Não, nunca! – Disse, sorrindo.
– O banheiro está habitável? Pensei em tomar banho também. – Ela disse.
– Sim, sim… – Ri nervoso. – Está sim. – Abanei a mão. – Que horas são?
– 8:52. – Ela disse, rindo.
– Não quer dormir? – Perguntei. – O dia vai ser cheio.
– Não, estou bem. – Ela deu de ombros.
– Podemos ir ao Hôtel de Paris… – Ela abriu um largo sorriso.
– Sim, por favor! – Ela disse, rindo e sorri.
– Vai tomar seu banho, logo saímos. – Falei.
– Ok… – Ela pressionou os lábios, rindo sozinha antes de se levantar e acompanhei suas pernas em direção ao banheiro antes de fechar a porta, abrindo-a segundos depois. – Esqueci a mochila. – Ela a pegou no pé da cama antes de fechar novamente e fiquei rindo sozinho no meio da cama.
Capítulo 11
Perth, Austrália, 2001
O clima no carro estava tenso. Danny estava se sentindo pequeno, como se o automóvel fosse gigante para ele, já Joe tentava manter a calma para não estourar com o menino e se arrepender minutos depois. Danny sabia que tinha errado e se sentia muito culpado por isso. Ele talvez preferisse que Joe falasse várias besteiras e o xingasse do que esse silêncio, mas pelo silêncio ele sabia que algo estava muito errado.
Quando o carro embicou na garagem dos Ricciardo, Danny esperou alguns segundos para seu pai falar alguma coisa, mas Joe não disse nada. Então Danny pegou sua mochila, ajeitando em um braço antes de abrir a porta.
– Desculpe, pai. – Ele falou em um sussurro antes de sair, fechando a porta em seguida.
Joe saiu logo atrás, a cabeça fervendo por tantas coisas que ele podia dizer ou não, mas só seguiu atrás do garoto, fechando o carro e colocando a chave na porta para que o menino pudesse entrar. Grace notou a presença dos dois, abrindo um largo sorriso, enquanto secava as mãos no avental em sua cintura.
– Então, como foi lá? – Ela falou, animada.
– Oi, mãe. – O sorriso de Grace sumiu com a voz apática do menino e a feição avermelhada de Joe. – Posso ir para o meu quarto?
– Mas o que…
– Pode! – Joe disse rapidamente e Daniel não esperou outro aviso antes de sair correndo pelo corredor de casa.
– O que aconteceu? – Grace perguntou, surpresa, e Joe soltou toda respiração que estava entalada no carro, enquanto passava a mão na testa.
– Ele foi péssimo no treino hoje. – Ele disse. – Ele não estava presente, Grace! Parecia que ele estava em outra realidade. Ele ficou em décimo sétimo hoje, de 18 corredores. Não tem como eu pedir licença no trabalho para levá-los nos testes se ele não tenta pelo menos lutar pelo primeiro lugar. Não temos condições de pagar isso.
– Calma, Joe, vai ver aconteceu alguma coisa e ele está chateado. – Grace disse, abraçando o marido pela cintura.
– Se ele quer seguir carreira nisso, ele precisa estar bem em todo momento, amor. Ele sabe o quão difícil é para nós pagar. Cada pneu novo, cada batida, cada uniforme, cada capacete, é difícil para nós e meu chefe está sendo compreensivo, mas até quando? Não posso pedir outro adiantamento, especialmente com ele assim, não dando resultados.
– Calma, amor! – Ela deu um beijo em sua bochecha. – Dê um tempo para ele se recuperar, vai ver aconteceu algo na escola também e ele não nos disse. – Ele suspirou. – Você não estourou com ele, estourou?
– Não, mas foi por pouco. – Ele suspirou.
– Deixa ele descansar, amanhã conversamos com ele melhor. – Grace deu um rápido selinho em seus lábios.
– Eu vou tomar banho. – Ele suspirou.
– Michele foi no cinema com a Alicia, somos só nós para janta. – Grace anunciou.
– Combinado. – Ele disse, seguindo por dentro do corredor.
Antes de seguir para o quarto dos fundos, Joe notou o fio do telefone da sala de televisão esticado no meio do corredor, entrando no quarto de Danny e suspirou. Sabia que o garoto tinha consciência de como fracassou hoje quando isso acontecia. Talvez uma boa e longa conversa com Harper seja o que ele precisava.
Dentro do quarto, Danny estava sentado no chão, com as costas encostadas na cama, a ponto de só ser possível ver os cachos em sua cabeça se alguém entrasse. Seus dedos já tinham discado o conhecido número de Harper e agora ele esperava que Helena passasse o telefone para a menina.
– Danny! – Ela disse, animada.
– Oi, Harp! – Ele suspirou, coçando o olho.
– Como foi lá? – Ela perguntou, animada, se jogando na cama.
– Não foi… – Ele suspirou.
– Como assim? – Ela perguntou e as lágrimas do menino escaparam pela bochecha.
– Foi muito ruim, Harp. – Ele fungou forte. – Eu fui muito mal.
– Ah, mas essas coisas acontecem, Danny. Não dá para ser bom todo dia. – Ela tentou animar o menino.
– Eu sei, mas o papai tá bravo. – Ele passou as mãos nos olhos. – Ele não falou comigo o caminho inteiro de volta.
– Ah, Danny… – Ela suspirou. – Isso acontece, de verdade. Papai vive dando esses gelos comigo por causa da escola.
– Não acho que é assim, Harp. Acho que acabou para mim…
– Como assim? – Ela perguntou, surpresa.
– Acho que ele não vai deixar eu correr mais. – Ele engoliu em seco ao pensar na possibilidade. – Ele não está falando comigo, ele vive falando de como tudo é caro nesse mundo… – Ele suspirou e Harper estava perdida do que fazer nessa situação. Era difícil ver o amigo triste.
– Você quer que eu vá aí? – Ela sugeriu.
– Está tudo estranho aqui, melhor não. – Ele suspirou e ela pressionou os lábios.
– Não pensa assim, Danny. As coisas vão melhorar, você vai ver. Esteja atento no próximo treino e mostre para o seu pai que você quer muito isso. – Ele pressionou os lábios. – Vai ver você só estava desligado hoje…
– Eu não sei por que também. Não aconteceu nada… – Ele suspirou.
– Tem dias que a gente só não está bem. – Ela disse. – Vai ver você só precisa de um tempo para você…
– Ele não vai aceitar essa desculpa.
– Ele não precisa aceitar essa desculpa, Danny. Se não aconteceu nada e você está bem, aconteceu… – Ela disse com simplicidade. – Não ache que a corrida está perdida, ok?! Ainda tem muita coisa pela frente… – Ele suspirou. – Eu ainda quero ver meu amigo correndo como Coulthard, Schumacher e outros… – Ele sorriu.
– Você sabe…
– É claro que eu sei, Danny! Eu sou sua amiga, se você gosta de alguma coisa, eu também gosto. – Ela disse, fazendo o garoto sorrir. – E a gente vai fazer dar certo, ok?! Nem que a gente precise vender tortas na porta da escola.
– Não sabemos cozinhar, Harp. – Ele disse.
– Ainda! – Ela disse, rindo. – Se for para ajudar sua carreira a decolar, a gente dá um jeito. – Ele sorriu. – Mas não desista.
– Obrigado por isso… – Ele deu um curto sorriso.
– Eu estou aqui para o que você precisar, Danny. – Ela sorriu, girando o corpo na cama. – Somos amigos, Danny! Para sempre.
– Para sempre. – Ele sorriu também.
– Já decidiu que categoria quer correr? – Ela perguntou.
– Acho que sim. – Ele disse, rindo.
– É? Qual? – Ela perguntou, animada.
– Fórmula Um! – Ele disse, sorrindo. – É a mais rápida, é a mais legal, a mais empolgante. – Ela riu em meio a um sorriso.
– É muito rápido. – Ela disse.
– Por isso que é a mais legal! – Ele disse rindo. – E eu vou chegar lá, Harper! Eu vou entrar na mesma lista de Jack Brabham e Alan Jones e vou ser um piloto de Fórmula Um australiano! Nem se for a última coisa que eu faça.
– Ok, vamos reduzir no drama… – Eles riram juntos. – Mas eu confio em você, Danny. E eu vou te apoiar no que você precisar. Nem que eu precise vender torta na porta da escola. – Ele riu.
– A gente tá rindo, mas talvez eu precise fazer algo para ajudar. – Ele suspirou. – Mas não sei o que.
– Barraca de limonada? – Ela falou em dúvida e ele riu fracamente.
– É… Talvez. – Ele suspirou. – Eu ainda tenho que encarar uma conversa com meu pai. – Ele coçou os olhos.
– Vai dar certo. Pode não ser fácil, mas fala para ele o que você sentiu e que você quer continuar. Ele vai entender. – Ele suspirou. – Depois disso você pode vir aqui em casa e a gente pode ver Shrek enquanto come pipoca. – Ele sorriu.
– É uma ideia muito boa. – Ele jogou a cabeça para trás. – Eu te ligo depois, pode ser?
– Claro! Eu tô fazendo lição de casa. – Ela disse.
– Se ficar tudo bem, eu falo que preciso pegar minha lição e passo aí mais tarde.
– Tudo bem, eu vou estar aqui. – Ela falou.
– ‘Brigado, Harp. Tava precisando disso.
– Relaxa, Danny! Eu vou estar aqui para sempre. – Ele sorriu.
– Eu também. – Ele sorriu. – Tchau!
– Tchau!* – Ela disse antes de desligar o telefone.
Danny colocou o telefone no gancho de novo e suspirou, dando um curto sorriso antes de subir na cama, se jogando nela. Harper sempre o fazia se sentir bem e estava feliz por isso. Joe também. Sabia que não deveria espionar seu filho, mas ouvir ele falar que estava com medo de perder tudo, o motivava a encontrar forças para ajudá-lo, não importa o quão cansado estivesse e o quão pesado eram os gastos, mas confiava em Daniel para fazer isso acontecer, mesmo com todos os sacrifícios.
*Daniel disse no podcast do Nico Rosberg que aconteceu algo similar a isso um dia e ele teve uma conversa dessa com um de seus amigos.
Mônaco, 2016
Harper
Abri o forno e puxei a torta de lá de dentro, suspirando com o cheiro de pêssego e coloquei-a na bancada, sorrindo com o resultado. Tirei as luvas das mãos, colocando-a em seu lugar. Abaixei meu corpo na altura da bancada para observar a massa dourada e me assustei quando Danny apareceu na porta.
– O cheiro está uma delícia! – Ele disse e me levantei, virando para ele, vendo-o abotoar a camisa xadrez por cima da camiseta preta.
– Está pronta. – Dei um curto sorriso, observando as calças pretas e o sapatênis cinza. – Não toca, eu vou colocar minha roupa.
– Só um pedacinho! – Ele tentou entrar na cozinha e apoiei a mão em seu peito, empurrando para trás.
– Está quente e não vou levar a torta com um pedaço faltando. – Falei, puxando a porta em seguida.
– Por favorzinho… – Ele fez um bico que normalmente eu não cairia, mas dessa vez eu logo cairia.
– Não! – Falei firme. – Eu vou me trocar e você fica longe da cozinha! – Empurrei seu peito até o outro lado da antessala antes de desviar para entrar no seu quarto.
– Pelo menos você vai parar de falar mal da cozinha. – Ele disse e ri fracamente, entrando no quarto, pegando meu vestido branco.
– É boa o suficiente para eu fazer uma torta… E só! – Falei firme, ouvindo-o rir e fui em direção ao banheiro. – Não toca na torta!
– Ok, ok! – Ele ergueu as mãos e dei um olhar mais firme nele antes de entrar no banheiro.
Fechei a porta e me livrei do short e blusa de Danny que tinha colocado depois do banho. Me aproximei do espelho, fazendo uma maquiagem mais leve somente com lápis de olho, máscara e um batom rosado. Está bem quente e não aguentaria ficar sei lá quantas horas de base e maquiagem completa no rosto.
Quando terminei, renovei o desodorante e o perfume, fui ao banheiro mais uma vez e coloquei o vestido ombro a ombro branco com algumas flores alaranjadas, com uma fenda também na perna esquerda. Penteei os cabelos e fiz um rabo de cavalo baixo, ajeitando os fiozinhos rebeldes com um pouco de laquê. Sorri com o resultado e ajeitei a área do busto, puxando o vestido um pouco mais para baixo.
Juntei minhas coisas na necessaire novamente e deixei-a no canto da pia antes de sair do banheiro. Andei pelo quarto, observando Danny jogado na poltrona e ele tirou os olhos do celular para virar para mim e fui até a cama, calçando as mesmas rasteirinhas de ontem e de hoje de manhã.
Andei até o closet de Danny, ajeitando a roupa mais uma vez, ajeitando os seios melhor no busto antes de sair do quarto. Danny olhava para mim com os olhos arregalados e pressionei os lábios em um curto sorriso.
– Estou bem? – Perguntei.
– Si-im. – Ele falou alongado, rindo em seguida. – Você está ótima. – Assenti com a cabeça.
– Obrigada. – Suspirei, pegando meu celular na mesa. – Pode levar? – Estiquei para ele. – Não tenho bolsos.
– Claro. – Ele disse, pegando o celular, fazendo nossas mãos tocarem rapidamente e meu corpo se arrepiou de uma forma estranha.
– Eu vou… Eu vou ajeitar a torta. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
Dei a volta, andando pelo apartamento até voltar para a cozinha e vi que a torta estava intacta. Abri algumas gavetas, procurando alguma coisa que eu pudesse levar e ao menos Grace havia equipado essa cozinha com alguns panos de prato. Abri a geladeira, pegando o chantili batido com pedacinhos de hortelã e coloquei devagar em cima da torta, formando uma camada fina, mas fofa em cima dela e sorri com o resultado. Peguei as folhinhas que sobraram de hortelã e ajeitei em cima dela.
– Está bonito. – Ouvi a voz de Danny e virei para ele, sorrindo. – Você tem jeito para essas coisas.
– É bom inventar de vez em quando. – Suspirei, passando a língua na colher de chantili. – Quer finalizar?
– Sim! – Ele falou animado demais e lhe entreguei a colher junto com a tigela.
Ajeitei a torta em cima do pano de prato e fiz uma trouxinha com ele, amarrando-o em cima da torta, colocando um palito de dente no meio da torta, para manter o pano levemente erguido, ao menos até chegar lá.
– Podemos ir. – Falei, virando para Danny que tinha o bigode sujo de chantili e aquilo me fez rir.
– O quê? – Ele perguntou, colocando a colher na boca mais uma vez.
– Está tudo branco, Danny! – Sorri.
– Onde? – Ele jogou as coisas na pia.
– No bigode. – Falei, indicando com a mão e ele levou a língua ao bigode. – Passa a mão! – Falei rindo.
– Onde? – Ele passou as mãos nas laterais e ri fracamente.
– Espera aí! – Falei, me aproximando dele e apoiei uma mão em seu ombro antes de passar a outra entre seu nariz e lábios, tocando-os levemente e me afastei em seguida. – Pronto. – Falei, rindo fracamente.
– Estou bonito de novo. – Revirei os olhos, colocando o dedo embaixo da água para limpar e peguei a torta.
– Vamos logo, narcisista. Vamos chegar atrasados. – Falei.
– É literalmente só atravessar o prédio. – Ele disse e ri fracamente.
– Vamos! – Falei firme e ele indicou a mão para eu passar.
Esperei alguns segundos para ele abrir a porta e saí à sua frente. Logo estávamos dentro do elevador e andando pela área térrea do condomínio. Literalmente atravessamos para o outro lado antes de entrar em outro elevador, mas dessa vez subimos somente até o primeiro andar. Logo saímos em um hall um pouco maior que do Danny com somente duas portas e ele tocou uma campainha.
– Eu estou bem para isso? – Perguntei, virando para Danny.
– Você está linda, Harp. – Ele disse, dando um curto sorriso e assenti com a cabeça, vendo a porta se abrir, e Felipe Massa aparecer do outro lado.
– Ei, cara! Que bom que veio. – Ele disse em inglês e a mão dele estalou com a de Danny e eles se abraçaram.
– Agradeço o convite. – Danny disse. – Se lembra da Harper?
– Claro! É um prazer que pode vir. – Inclinei em direção ao mais baixo e trocamos dois rápidos beijos.
– O prazer é meu. – Sorri. – Eu trouxe uma torta.
– Ah, obrigado. Não precisava. – Ele pegou-a e pude relaxar os braços ao redor do corpo.
– Só aproveita! – Danny deu dois tapinhas nos ombros dele.
– Entra aqui. – Ele nos chamou com a mão e Danny fechou a porta antes de apoiar a mão em minhas costas e me guiou junto de Massa. – Olha quem está aqui. – Sorri ao ver a esposa de Felipe, outro homem e seu filho.
– Oi, oi. – Danny disse.
– Amor, você se lembra do Daniel. Essa é Harper.
– Sua namorada? – A mulher disse e até eu fiquei em dúvidas do que responder nessa situação.
– Amiga… – Falei fracamente. – Só amiga.
– Somos melhores amigos desde criança. – Danny disse e a mulher veio em minha direção.
– Me desculpe… – Ela fez uma careta. – Vocês parecem um casal. – Ri fracamente.
– Não se preocupe. Não é a primeira vez. – Nos abraçamos rapidamente.
– Eu sou Raffa. – Ela sorriu.
– Prazer te conhecer. – Falei, rindo e ouvi a risada da criança, enquanto Danny o colocava em seus ombros.
– Esse é meu irmão Eduardo. – Felipe disse e estiquei a mão para cumprimentá-lo.
– Prazer conhecê-lo. – Sorri.
– E meu filho Felipinho! – Ele disse e o menino desdentado sorriu para mim, acenando com a mão enquanto Danny o virava de cabeça para baixo.
– Olá, tudo bem? – Falei em português, dando um sorriso.
– Você fala português? – Raffa perguntou, surpresa.
– Um pouco. – Falei novamente, vendo-a rir. – O suficiente para não passar fome e nem ser enganada. – Voltei ao inglês, ouvindo-a rir.
– Ah, isso é ótimo! Podemos fofocar longe dos homens depois. – Sorri, assentindo com a cabeça.
– Carinha, essa é Harper. Minha melhor amiga. – Danny virou o garoto de uns sete anos, que usava um macacão da Williams, em minha direção e sorri.
– Oi, Harper! – Ele acenou e sorri, passando as mãos nos cabelos tigelinha dele.
– Oi, tudo bem? – Sorri.
– Tudo bem! – Ele sorriu. – Você é bonita.
– E você é um cara de pau! – Felipe falou, nos fazendo rir.
– Obrigada. – Sorri.
– Vem comer, gente! – Raffa disse.
– Eles trouxeram uma torta. – Felipe disse e Danny colocou o menino o chão.
– Ah, mesmo? Não precisava. – Raffa disse e Danny me olhou, sorrindo. – Ah, está linda.
– Harper é chef profissional. – Danny disse e revirei os olhos.
– Mesmo? Isso é demais! – Raffa disse e Danny puxou uma cadeira para mim.
– É… – Sorri sem graça, apoiando a mão no braço de Danny antes de me sentar, ajeitando o vestido.
– Você tem um restaurante?
– Não…
– Ainda não! – Danny disse mais rápido do que eu, se sentando ao meu lado e ri fracamente.
– Planejando um. – Sorri. – Eu trabalho na parte de revisão de restaurantes.
– Crítica de jornais ou algo mais como o guia Michelin? – Felipe perguntou e fiquei surpresa com a informação.
– No guia Michelin, na verdade. – Falei, rindo.
– Uau, mesmo? – Felipe perguntou, surpreso.
– Sim, desde que eu finalizei a graduação praticamente. – Falei, rindo fracamente. – Como sabe do guia? Normalmente os amigos do Danny não são tão antenados assim. – Meu amigo riu ao meu lado.
– Eu estou pensando em abrir um restaurante tem alguns anos. – Ele disse.
– Ah, isso é legal! – Sorri.
– Sim, tenho alguns amigos na área e gosto bastante de comer bem, ir em restaurantes estrelados acabou sendo uma coleção. – Sorri.
– Nós fomos no Blue Bay ontem e eu amei demais. – Falei.
– É uma delícia lá! – Felipe disse.
– Agora fiquei nervosa, vou servir minha comida para uma revisora do guia. – Raffa disse, trazendo um refratário para mesa e ri fracamente.
– Não se preocupe com isso, eu estou de folga hoje. – Falei, sorrindo e eles riram.
– É difícil entrar na Michelin nessa posição? Digo, é algo tão prestigiado. – Felipe disse.
– Precisa ter muito mais conhecimentos sobre a parte técnica da comida, eu fui iniciada no fim da faculdade mesmo, depois é experiência… – Dei de ombros. – Tanto que estava comentando com Danny que sinto falta de criar. Realmente colocar a mão na massa, sujar as mãos e afins.
– Ano que vem vocês vão ter que ir para Austrália no restaurante dela. – Danny disse e dei um tapinha em seu ombro, rindo fracamente.
– São planos, quem sabe? – Sorri.
– Espero que gostem da minha comida, queria comprar algo, mas Felipinho insistiu. – Ela disse e sorri. – É strogonoff. – Ela sorriu.
– Está com uma cara boa. – Danny disse.
– Posso servir? – Ela ofereceu.
– Sim, por favor. – Falei, virando rapidamente para Danny, vendo-o sorrir.
Daniel
– Amor, vou levar Harper para conhecer lá fora. – Raffa disse e Harper acenou de leve com a mão antes de seguir a esposa de Felipe e acompanhei-a de costas.
– Aceita um uísque, Daniel? – Virei para Felipe, precisando pensar alguns segundos antes de responder.
– Sim! Acho que uma dose não vai ser mal. – Ele riu fracamente.
– Bernie* diria para gente não dirigir alcoolizado, mas acho que não tem problema de você cair da sacada aqui! – Ele disse, se aproximando do pequeno bar e virei meu rosto para a porta que seguia para sacada e vi Harper apoiada na marquise e seu vestido voava para trás, mostrando suas pernas. – Ok, desembucha.
– O quê? – Virei para Felipe novamente, vendo-o esticar o copo na minha direção.
– Desembucha! – Ele disse, rindo, se sentando no sofá em minha frente. – Você não tirou os olhos dela. E não é um olhar de amigos.
– Ah, cara. – Suspirei, dando um gole no uísque.
– O que aconteceu? – Puxei a respiração fortemente.
– Eu não sei, honestamente. – Virei o rosto para Harper novamente. – Algo mudou…
– Uou! – Ele disse, rindo. – Você está brincando!?
– Queria! – Ri fracamente, apoiando o copo no braço da poltrona. – Mas algo aconteceu e… – Suspirei. – Eu comecei a vê-la de forma diferente e está uma bagunça. – Mordi meu lábio inferior.
– Quando começou? – Ele perguntou.
– Na China, eu acho. – Suspirei. – Ela estava falando com Alonso e eu tive uma crise de ciúmes muito estranha. – Ele gargalhou alto. – Sempre tivemos ciúmes um do outro, mas algo normal, sabe? Não querer dividir a atenção, mas não desse jeito. Eu surtei de verdade.
– Há quanto tempo são amigos? – O irmão de Felipe perguntou.
– 24 anos. – Suspirei.
– Merda! – Ele disse surpreso. – Você está ferrado!
– Eu sei! – Passei a mão no rosto, até os cabelos. – Eu estou percebendo coisas que eu nunca liguei antes e querendo fazer coisas que nunca quis antes.
– Como o quê? – Felipe perguntou, com um sorriso no rosto.
– Beijá-la. – Falei, ouvindo ambos gargalharem e senti meu rosto esquentar. – Não ria, eu sei que estou ferrado. – Virei o rosto para trás rapidamente.
– Elas estão lá fora com Felipinho. – Felipe disse e suspirei.
– Eu acordei com uma ereção hoje… – Eles gargalharam.
– Por causa dela? – Felipe perguntou, rindo.
– Sim! – Ri com eles. – Sempre dormimos juntos, mas nunca aconteceu nada. Até hoje… – Ele gargalhou alto. – Ah, merda! – Suspirei. – E ontem ainda, foi perfeito. Saímos para jantar, depois andamos no píer aqui, fomos tomar sorvete e eu estava completamente presente, prestando atenção em tudo o que ela falava, acompanhando seus movimentos, olhando sua boca… – Tombei a cabeça para trás. – Porra! – Ele gargalhou.
– Eu não quero colocar palavras na sua boca, mas isso está me parecendo amor, Daniel. – Felipe disse.
– Ah, merda! – Suspirei, virando o resto do uísque na boca, ouvindo-o gargalhar. – Eu já pensei nessa situação, mas não dá, cara.
– Por que não? – Ele disse, rindo. – É perfeito, cara!
– Como isso é perfeito? – Estiquei o corpo para colocar o copo na mesa de centro.
– Aposto que é a mulher que você mais conhece no mundo, você sabe o que ela gosta, o que ela não gosta, dá para encurtar bastante coisa. – Suspirei.
– Aí que tá, parece que eu não a conheço nada. – Cocei a cabeça, ouvindo ambos rirem. – É tão louco.
– Vai ver você só está prestando mais atenção. – Felipe disse.
– E ela? – Eduardo perguntou.
– Como assim? – Ouvi umas risadas e virei para trás, vendo Harper colocando Felipinho de cabeça para baixo, fazendo o garoto gargalhar e sorri.
– Ela está na mesma sintonia que você?
– Eu não tenho ideia. – Suspirei. – Às vezes eu acho que ela me dá uns olhares diferentes, mas penso se não é algo de sempre que eu só estou prestando mais atenção agora.
– Ela não agiu de forma diferente? – Felipe perguntou.
– Não percebi. E se agiu, ela sempre escondeu as coisas muito bem de mim. – Ri fracamente. – Ah, cara, para. Não me dê esperanças. – Eles gargalharam.
– Está difícil assim? – Suspirei.
– Eu sofri ontem… – Rimos juntos. – Eu quase a beijei várias vezes ontem…
– Por que não? – Eduardo perguntou, rindo.
– São 24 anos de amizade, não é fácil. – Suspirei, virando para trás novamente. – E se eu beijá-la e ela não estiver sentindo o mesmo? – Neguei com a cabeça. – São 24 anos de amizade jogados no lixo.
– E se ela estiver sentindo o mesmo? – Felipe perguntou.
– Eu vou precisar de mais sinais do que isso. Não posso arriscar perder tudo por um achismo. – Eles riram fracamente.
– Ela é muito importante para você, certo? – Felipe perguntou.
– Muito… – Suspirei. – Não posso perdê-la. – Neguei com a cabeça.
– E nesses anos todos, nunca aconteceu nada entre vocês? – Eduardo perguntou.
– Nada! – Falei, rindo.
– Tipo, nunca?
– Bem… No geral, não, mas… – Ponderei com a cabeça. – Meu primeiro beijo foi com ela. – Falei rindo e eles gargalharam. – Mas éramos crianças e um idiota desafiou a gente naquelas brincadeirinhas de verdade ou desafio, e foi só!
– E não teve nenhum sentimento naquela época? Nenhum nervosismo?
– Nada, nada! – Ri fracamente. – Foi estranho por sermos amigos, mas é isso.
– Isso é loucura e estranho. – Felipe falou.
– Depois disso a gente se afastou um pouco, entramos naquela idade chata da adolescência, eu comecei minha carreira, ela foi para Sydney fazer faculdade, as coisas ficaram bagunçadas. – Ponderei com a cabeça.
– E nesses anos todos, vocês nunca sentiram nada? – Ri fracamente.
– Ela trabalha na Michelin, então ela viaja tanto quanto eu, nos encontramos praticamente em dezembro e janeiro, e somos amigos… Agora que as coisas ficaram bagunçadas.
– Está explicado, então. – Felipe disse, rindo.
– Como assim? – Franzi a testa.
– Ela está te acompanhando desde os treinos?
– Sim, sim, saímos da Austrália juntos e ela está indo comigo em qualquer lugar. – Suspirei. – É um acordo, ela me acompanha e eu a acompanho nos restaurantes para ela trabalhar também.
– Ah, cara! – Ele gargalhou. – É isso! Talvez você gostasse dela antes, mas nunca ficou tempo o suficiente para deixar esses sentimentos virem à tona. – Eles riram. – Agora vocês estão juntos nos GPs, treinos, viagens, jantares dela, dormindo juntos, você se apaixonou.
– Não usa essa palavra. – Falei rindo, virando o rosto para trás novamente, vendo Harper e Raffa conversando em uma mesa. – Eu não tenho certeza de nada ainda. Espero que não seja nada. – Suspirei.
– Você vai ficar o ano inteiro com ela, cara! Isso só vai piorar. – Ele disse, fazendo seu irmão gargalhar e pressionei os lábios.
– Amigos normalmente se ajudam, cara, não vai me afundar mais ainda. – Ele riu.
– Eu estou te ajudando, cara! Você não tem noção do sorriso que está na sua cara enquanto fala dela. – Rimos juntos. – Ela está mexendo com você…
– Demais… – Suspirei, pressionando os lábios. – Ah, merda! Eu estou ferrado.
– Até quando vão ficar aqui em Mônaco? – Ele perguntou.
– Até amanhã. Depois vamos para Rússia, uma viagem meio chata e longa.
– É cedo, cara! Fica mais um pouco aí, tem meu aniversário na segunda-feira, depois vamos juntos para lá. – Suspirei.
– Você quer me torturar, né?! – Eles riram. – Meu apartamento é pequeno, cara, estamos dividindo a cama, ela está usando esses vestidos abertos em qualquer lugar que vamos… – Eles gargalharam mais alto. – Eu não chego vivo na Rússia assim.
– Mônaco é especial, talvez te ajude a descobrir o que está acontecendo de verdade. – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Espero também. – Pressionei os lábios.
– Papai! Papai! – Virei o rosto, vendo Felipinho se aproximar e Harper e Raffa olhavam em nossa direção.
– Fala, garoto! – Felipe começou a falar em português e não entendi as palavras de seu filho que falava rápido e em outro idioma. – Uhum, vamos sim! – Ele disse. – Daniel! – Virei para ele. – Vamos lá?
– Vamos! – Falei, me levantando. – Eu vou ganhar de você agora! – Indiquei o menino, fazendo-o rir.
– Não vai! – Ele gargalhou.
– Vamos lá, me mostre seu carro! – Falei e ele correu para o quintal e fui logo atrás, vendo Harper e Raffa se levantando quando o garoto chegou até elas.
*Bernie Ecclestone é um empresário, dirigente esportivo e ex-piloto britânico de 91 anos. Em várias propagandas da F1, é usado “Bernie says think before you drive/drink”.
Harper
– Amor, vou mostrar lá fora para Harper. – Raffa disse quando me levantei e dei um aceno rápido para Danny, seguindo a esposa de Massa.
– Eu vou te mostrar meu carrinho, Harper! – O menino disse em português e sorri, sentindo-o segurar minha mão e andei ao seu lado, saindo para a sacada da casa dos Massa e vendo o píer em que eu e Danny ficamos até tarde da noite conversando ontem.
– Uau, vocês têm uma vista. – Comentei.
– Sim, eu gosto muito daqui. Da calmaria que isso dá. – Raffa disse e caminhei com Felipinho.
– Notei isso. – Suspirei. – Quase dá vontade de ficar aqui. – Ela sorriu.
– Por que não fica? – Raffa disse.
– Não tenho dinheiro para morar em Mônaco, Raffa. – Ri fracamente. – Meu emprego é muito bom, mas não o suficiente para viver aqui.
– Você pode ficar com o Daniel, dá para notar que são próximos. – Ri fracamente.
– Não sei, as coisas estão um pouco bagunçadas entre nós. – Suspirei.
– Mesmo? Achei vocês tão próximos. – Ela sorriu.
– Harper! Harper! – A voz de Felipinho saiu bagunçada e o vi andando no seu crazy kart pela sacada, me fazendo sorrir.
– Uau! – Fingi surpresa. – Esse é seu carro?
– É! – Ele disse, animado, estacionando ao meu lado e ri fracamente.
– Você vai ganhar do Danny com ele?
– Vou! – Ele disse, animado, saindo do carro.
– O Danny nem cabe em um carro desses. – Falei, rindo. – Você vai ganhar muito fácil dele! – Ele sorriu.
– Eu vou ser mais rápido. – Ele pulou, animado.
– Aposto que vai! – Sorri. – Posso te contar um segredo?
– Conta! – Ele disse e me abaixei para ficar da sua altura.
– O Danny é muito ruim do lado de fora da pista. – Pisquei, ouvindo-o rir.
– Oh! Isso é importante! – Ele disse, rindo. – Posso usar de vantagem.
– Com toda certeza. Não conta para ele que eu te contei. – Coloquei o dedo na boca fingindo silêncio.
– Combinado! – Ele disse, animado.
– E sabe o que mais? – Peguei-o no colo, ouvindo-o rir.
– O quê? – Ele apoiou as mãos em meus ombros.
– A gente ama crianças! – Girei meu corpo, segurando-o firme e ouvi sua gargalhada pelo local e abaixei-o, colocando-o de cabeça para baixo, ouvindo-o rir. – A gente tem um afilhado, sabia?
– É mesmo? – O ergui novamente, rindo com ele.
– Sim! Mas ele é pequenininho ainda. – O coloquei no chão. – Mas ele é bochechudo igual você. – Apertei as bochechas dele, fazendo-o rir.
– Mesmo? – Raffa perguntou.
– Sim, a irmã dele tem um filho e nos escolheu para batizar. – Sorri.
– Ah, isso é fofo! – Ela sorriu. – E vocês lidam bem com isso?
– Até demais! Nós dois ficamos 10 meses fora, então a gente monopoliza bastante quando vem, dá uma folga para minha comadre. – Falei, rindo fracamente.
– Filho, por que você não vai treinar? Logo chamamos o papai e o Daniel para virem correr. – Raffa disse.
– Tá bom! – Ele disse, animado, correndo até seu carrinho.
– Senta, Harper! – Raffa disse e ajeitei o vestido antes de me sentar em uma das cadeiras em volta da mesa de vidro. – Você e o Daniel são bem próximos, não?
– Desde antes dos três anos. – Falei.
– Uau! Isso é muito tempo.
– 24 anos. – Ri fracamente.
– Eu sei que vocês devem estar cansados de ouvir isso, mas é só amizade mesmo? – Ri fracamente.
– Olha, se você me perguntasse isso no mês passado, eu falaria sim, com toda certeza, mas agora eu não sei mais. – Suspirei, mordiscando meu lábio inferior, feliz pelo barulho do carro de Felipinho.
– Mesmo? – Ela perguntou, surpresa.
– Sim. – Neguei com a cabeça. – Eu não sei o que está acontecendo, desde que ele cortou o cabelo, meu coração começou a palpitar e achar ele bonito de verdade, sabe? Gato! – Ela riu fracamente. – Ontem fomos jantar, tudo foi muito perfeito. Parecia um encontro, mas não é a primeira vez que a gente faz isso. – Suspirei. – Sempre dormimos juntos, no sentido literal da palavra, mas ontem eu me senti nervosa por isso.
– Você está se apaixonando por ele, Harper. – Engoli em seco.
– Isso não pode acontecer. – Falei, rindo de nervoso.
– Por que não?
– E se ele não sentir o mesmo? E se tudo for loucura da minha cabeça? Faz muito tempo que eu não namoro, Raffa, a gente fica meio carente. – Ela riu fracamente.
– Eu não entendo muito de relacionamentos, mas eu e Felipe nos conhecemos com 20 anos e vivemos por uns dois anos como amigos antes de começar um relacionamento. Não é tanto tempo quanto vocês, mas entendo um pouco do que é ter medo de dar o primeiro passo e a pessoa não retribuir.
– Eu penso nisso… – Suspirei. – São 24 anos de amizade, Raffa, eu tenho muito medo de dar errado. – Engoli em seco. – E eu não estou envolvida só com Danny, a família dele é a minha família. Nossos pais foram amigos desde que nós nos tornamos amigos e os pais dele me acolheram quando meus pais faleceram. Se algo der errado, não é só perder Danny, é perder tudo.
– Não acho que seria perder tudo, ele cuida de você como um gavião, Harper. Você dá um passo, ele dá outro atrás…
– Mas isso desde sempre, não é muito novidade. Sempre fomos muito colados, na época do Ensino Médio nos afastamos um pouco por briguinhas de adolescente, mas no geral, sempre foi assim. – Suspirei.
– E nunca rolou nada entre vocês?
– Nada! – Falei firme. – Bem, uma vez nos beijamos, mas era aquelas brincadeiras de verdade ou desafio, então nem conto. – Ela riu fracamente.
– E não deu em nada ali?
– Eu tive dúvidas se eu gostava dele naquela época, mas tinha sido meu primeiro beijo, eu estava confusa. – Ela riu fracamente.
– E atualmente? Ele não mudou nada? Está agindo da mesma forma?
– Hum… – Ponderei com a cabeça. – Eu acho que ele está mais tenso ultimamente. Para tudo, sabe? Ele sempre foi meio louquinho, mas parece que ele está pensando mais. – Ponderei com a cabeça. – Ontem ele preparou o jantar perfeito, me levou para o píer, não são coisas que eu imaginava o Danny fazendo… Uma hora até tive a impressão de que ele ia me beijar, mas não… – Neguei com a cabeça e ela sorriu. – Estou confusa, de verdade. Ou estou vendo sinais onde não tem.
– Vai ver ele está sentindo o mesmo e está com os mesmos medos que você. Já que são amigos há tanto tempo. – Suspirei.
– É tão estranho isso acontecer só agora, sabe? Passamos por tanta coisa juntos e esse sentimento cresceu só agora. – Apertei minhas mãos uma na outra.
– Talvez faltasse um pouco de aproximação entre vocês. Um tempo realmente sozinhos para deixar esses sentimentos aflorarem.
– Talvez. – Mordisquei meu lábio inferior. – O que faria se estivesse no meu lugar?
– Eu não estou na sua pele e imagino que deva ser muito difícil, mas pensando no pouco que eu conheço o Daniel, ele é uma ótima pessoa e gosta muito de você. Sei que o medo de perder a amizade é grande, mas acho que vale analisar um pouco mais os movimentos dele antes de investir. Talvez você se surpreenda de forma positiva. – Ri fracamente. – Ou eu posso pedir para Felipe sondar do outro lado e te dar informações privilegiadas. – Gargalhei com ela.
– Ah, eu ia gostar de saber o que ele pensa. – Rimos juntos.
– Me dá seu número antes de você ir embora. – Ela piscou, me fazendo rir.
– Mamãe! Tá na hora, não tá?! – Felipinho falou.
– Vai chamar seu pai! – Ela falou e o garoto saiu correndo para dentro, me fazendo sorrir.
– Ele parece ser um ótimo menino. – Falei.
– Ele é! Um pouco tímido para fazer amigos, mas é. – Ela disse e virei o rosto, vendo os homens se levantando lá dentro. – Vou agradecer muito o Daniel por fazer isso por ele. O Felipinho o adora.
– Danny é um crianção, de verdade. – Ri fracamente. – E isso desde sempre, ele não cresceu. – Ela sorriu. – Mas acho que esse é um dos motivos de eu gostar dele. – Suspirei, me levantando ao ver os homens vindo para fora. – A gente tem um equilíbrio bom, eu sou mais séria e ele é assim desde sempre. – Suspirei.
– Par perfeito! – Raffa disse, me fazendo rir fracamente.
– Talvez. – Suspirei, vendo Danny vir sorrindo em minha direção.
– O que as mulheres estavam falando? – Ri fracamente.
– Eu vendi todas as suas fraquezas para o Felipinho. – Falei e ele arregalou os olhos, chocado.
– Oh, não! – Ele fingiu choque. – O que ele ofereceu em troca?
– Nada, ele é só fofo mesmo. – Dei de ombros.
– Mas eu também sou fofo. – Ele colocou as mãos no rosto, sorrindo e rimos juntos.
– Com um intervalo de 20 anos, mas ok. – Abanei a mão e ele me abraçou, dando um beijo em minha testa e sorri, vendo Raffa piscar em minha direção.
– Ok, como vamos fazer isso? – Ele perguntou, se virando para Felipe.
– Vem comigo, vamos organizar isso. – Felipe disse e Danny deixou mais um beijo em minha cabeça antes de seguir Felipe.
– Viu?! – Raffa disse e ri fracamente.
– Para! – Pedi, rindo.
– Vem, vamos sentar aqui! – Ela disse e fui até ela na mesa que estávamos antes.
– Danny, meu celular! – Pedi e ele colocou a mão no bolso antes de me entregar e corri para perto de Raffa.
Demorou alguns minutos, mas logo Danny e Felipinho apareceram com o mesmo crazy kart de Felipinho, além dos capacetes na cabeça, e Danny realmente quase não cabia no kart, me fazendo rir. Felipe ia fazer transmissão disso, então eu, Raffa e Eduardo, ficamos escondidas aqui fora. Eles dariam algumas voltas na parte coberta da sacada, próximo à porta e adorava como Danny realmente levava isso a sério.
– Eu vou começar a transmitir. – Felipe disse e ri fracamente, apoiando os braços na mesa. – Estamos ao vivo para o campeonato mundial de crazy kart! Do meu lado esquerdo, Felipinho Massa…
– Eh! – Aplaudimos o menino, me fazendo rir.
– E do lado direito, Daniel Ricciardo. – Danny colocou a mão no ouvido, chamando a pouca torcida, me fazendo rir.
– Uhul! – Gritei, aplaudindo-o e ele não se aguentava de tanto rir.
– Vamos decidir quem vai começar do lado bom com pedra, papel ou tesoura. – Danny e Felipinho tiraram e Danny ganhou. – Primeiro vamos fazer uma volta de apresentação para ver se a pista está ok, depois vamos começar a correr. Eu vou ser o diretor da corrida e vocês precisam seguir as regras. – Felipe disse. – Vamos começar.
Eles deram uma primeira volta e ri quando ambos começaram, Danny não cabia no carrinho, ele estava todo encurvado e deslizava no piso de azulejos do lado de fora. Esperava ao menos que ele se lembrasse que estava correndo contra um garoto de sete anos e o deixasse ganhar. Aproveitei para começar a filmar enquanto eles ajeitavam.
– Então a corrida terá 10 voltas. – Felipe disse quando ambos pararam na parte de novo. – Vou começar quando dizer “vão”. – Ele disse e ri com o sorriso de Danny. – Preparados! Não mostre seus dentes, Daniel… – Sorri com eles. – E vão!
Sorri quando Felipinho começou a corrida na frente e Danny não conseguia parar de rir com ele. Ambos deslizavam no piso de azulejos e Danny batia toda hora nas curvas, gargalhando disso. Quando chegou na última volta, ambos deslizaram e Danny gargalhou quando seu carro rodou, me fazendo sorrir.
– Felipinho ganhou! – Felipe disse e sorri.
– Uhul! – Aplaudi, animada, ouvindo a risada de Danny e ele fez uma careta ao levantar do carro.
– Oh! – Ele olhou para sim e ri, escondendo a boca com as mãos.
– Agora vamos para o pódio! – Felipe disse.
– Quer subir nas minhas costas? – Danny perguntou e Felipe traduzia algumas coisas, mas muitas ele entendia. – Volta da vitória.
Felipinho subiu nas costas de Danny e ele deu uma volta pela sacada, me fazendo sorrir e meu coração estava batendo muito forte. Merda! Danny sempre foi bom com o Isaac, mas eu não estava sentindo isso por ele na última vez que encontramos nosso afilhado, mas vê-lo brincando com Felipinho fazia meu coração apertar com a fofura.
– Vamos dar um oi para as garotas! – Danny se aproximou da sacada, fingindo acenar para uma plateia e mordisquei a ponta do meu dedo, rindo fracamente. Danny colocou o menino no chão e tirou o capacete, ajeitando seus cabelos.
– Algumas palavras pós-corrida, Daniel? – Felipe perguntou.
– Eu fiz a corrida perfeita, mas esse garoto é muito bom! – Ele disse, sorrindo, ajeitando os cabelos bagunçados.
– Cumprimenta ele, Felipinho! – Felipe disse e o garoto e Danny deram um cumprimento.
– Agora, no pódio. Pode subir aí. – Massa indicou a espreguiçadeira.
– Não vai quebrar, não? – Ri fracamente enquanto Danny subia.
– Em segundo lugar, Daniel Ricciardo! – Danny fingiu comemorar. – E ele ganha uma medalha. – Sorri, tirando algumas fotos de Danny. – E no primeiro lugar, Felipinho Massa é o campeão. – O menino subiu na outra espreguiçadeira, comemorando.
– Agora os prêmios. – Raffa disse e ela seguiu até Danny, colocando uma medalha em sua cabeça, depois cumprimentando-o.
– E para o primeiro lugar, o troféu de vencedor! – Raffa entregou um pequeno troféu para Felipinho, que pulou em comemoração.
Danny o pegou nos ombros, girando o garoto e eu não conseguia alargar mais o meu sorriso. Enquanto isso, Danny não conseguia parar de rir com isso.
– O champanhe, pai! – Felipinho disse.
– O champanhe! – Felipe falou como se esquecesse. – Vou pegar alguma coisa. – Ele disse, seguindo até a geladeira e Danny olhou para mim rindo e pisquei para ele sorrindo. – Aqui o champanhe! – Felipe deu uma garrafa de água para cada um. – Champanhe! – Felipe gritou e Felipinho e Danny foram para a sacada, jogando água lá embaixo.
– Tem muitas garotas lá embaixo. – Danny disse, rindo e revirei os olhos.
– Muito obrigado, Daniel! – Felipe disse. – Por vir até aqui fazer isso.
– Que isso, foi um prazer. – Danny sorriu. – Foi divertido. – Ele disse com um largo sorriso no rosto.
Daniel
– Muito obrigado! Ele adorou! – Raffa falou.
– Foi um prazer, de verdade! – Falei. – Também foi uma desculpa para trazer Harper para Mônaco. – Ela riu fracamente.
– Como se fosse muito sacrifício! – Ela disse, trocando um rápido abraço com Raffa.
– Pensa sobre segunda-feira! – Felipe disse, me abraçando. – Vai ver é a desculpa perfeita.
– É, é! Eu te mando mensagem! – Falei.
– Sua torta estava uma delícia! – Raffa disse, devolvendo meu refratário limpo. – Uma chef faz toda diferença! – Elas riram.
– Que isso! Obrigada por me receberem. – Harper sorriu.
– Boa noite, gente! Manda um beijo para o Felipinho quando ele acordar. – Falei.
– Pode deixar! Obrigado mais uma vez por topar! – Felipe disse.
– Que isso, cara! Foi ótimo! – Nos cumprimentamos. – Boa noite.
– Boa noite! – Eles disseram e apoiei a mão nas costas de Harper antes de finalmente passar pela porta. Felipe e Raffa esperaram que entrássemos no elevador antes de fechar a porta.
– Eles são ótimos. – Harp disse, abraçando o refratário vazio e sorri.
– Sim, eles são. – Sorri, olhando para ela.
– Você foi muito bom com o Felipinho. – Ela disse, rindo.
– Ele é um pouco fechado, mas adoro esse garoto! Ele vive colando adesivos na minha Vespa, eu faço o mesmo… É legal! – Falei, vendo o elevador se abrir de novo e andamos pelo térreo do condomínio.
– E ele parece gostar muito de você. – Ela sorriu e assenti com a cabeça.
– Eles nos convidaram para o aniversário do Felipe na segunda. – Comentei, virando para ela, que virou o rosto para mim também. – Disseram para gente ir e vamos para Rússia na terça. O que acha?
– Eu estou contigo, Danny! O que quiser, eu estou dentro. – Ela deu um curto sorriso, me fazendo retribuir.
– É?! – Ela assentiu com a cabeça.
– Confesso que não estou muito animada em ir embora daqui. – Ela deu um curto sorriso. – É um lugar incrível.
– O convite está de pé sempre! – Falei, virando para ela. – Posso te dar uma chave se quiser.
– Não acho que vai ser a mesma coisa sem você. – Ela deu um curto sorriso.
– Eu sou demais, vai! – Ela gargalhou, me empurrando com o ombro e sorrimos juntos.
– Foi um fim de semana sensacional, Danny. De verdade. – Paramos na frente do elevador e apertei o botão. – O jantar ontem, o café hoje, até hoje à tarde… – Ela se apoiou na parede. – Foi muito bom.
– Podemos sair para jantar hoje também, se quiser. – Falei, encostando na parede também.
– Acho que eu prefiro algum delivery. – Ela disse, mordiscando o lábio. – Existe delivery em Mônaco, certo?
– Existe! – Falei, rindo, vendo o elevador se abrir e indiquei para ela entrar antes e fui logo atrás, apertando o botão para o décimo primeiro andar.
– Eu só quero um banho e colocar pijama de novo. – Ela disse, rindo.
– Você está muito bonita, Harp. – Comentei, tentando parecer algo natural. – Ontem, hoje… – Ela deu um curto sorriso. – Não que você não seja sempre, só… – Ela riu comigo.
– As roupas da Red Bull não deixam muito espaço para ser criativa! – Ela comentou, sorrindo.
– Será que eles deixam esse vestido virar uniforme? – Perguntei e ela ergueu o rosto para mim.
– Ah, claro! Um primeiro vento e tudo vai para os ares. – Ela disse, rindo.
– Eu gosto disso. – Falei e ela me deu um soquinho no ombro. – O quê? Eu sou honesto! – Dei de ombros, vendo o elevador se abrir e saí primeiro.
– Ah, estou vendo! – Ela seguiu atrás de mim e gargalhei, virando o rosto para a porta e peguei a chave no bolso, abrindo-a e entrando primeiro.
– O que quer comer? – Perguntei, vendo-a seguir até a cozinha e fechei a porta.
– Não tenho ideia, na verdade. – Ela disse. – Preciso lavar essa louça… – Ela suspirou.
– Eu lavo, você cozinhou. – Falei. – Tem alguns cardápios nessa primeira gaveta. – Indiquei para ela. – Eu só quero tirar essa camisa.
– Eu quero me livrar desse vestido também. – Ela disse e pressionei os lábios, evitando falar algo bem impróprio.
– Vamos escolher a comida, depois você vai para o banho. Assim a gente só espera chegar. – Falei, desabotoando os botões um a um.
– Para uma cidade tão pequena, tem muita opção. – Ela disse, folheando os cardápios, apoiando o quadril no móvel e observei seu corpo no vestido mais uma vez e sorri.
– Esse daí só tem assados. – Indiquei o que ela pegou e ela o abriu. – O brisket* defumado deles é uma delícia.
– Brisket defumado assado com alho e batata temperada. – Harper disse. – Merda! Parece bom. – Ela riu, virando o rosto para mim. – Eu não estava com fome até agora. – Rimos juntos.
– O que acha? – Perguntei em expectativa.
– Pela sua cara, você está louco para eu escolher isso. – Ela disse, me fazendo rir. – Pode pedir! – Ela me esticou o cardápio. – Eu vou tomar banho e pego se chegar. – Ela sorriu.
– Combinado! – Sorri e ela negou com a cabeça.
– Vai ficar com essa medalha? – Passei a mão nela e ri fracamente.
– Vou colocar na minha estante. – Indiquei-a e ela riu. – Isso se sair, mal entrou. – Rimos juntos.
– Achei legal da parte deles fazer algo quase real para o garoto. – Ela disse.
– É, o Felipe disse que queria fazer tudo certo, achei legal. – Falei, puxando a medalha para cima, prendendo-a em minhas orelhas e no nariz. – Ah! – Ela gargalhou.
– Ah, você é um tonto! – Ela se aproximou. – Abaixa sua cabeça. – Ela pediu e abaixei, sentindo-a puxar em minhas orelhas e meus olhos foram direto para seus seios e franzi a testa quando ela puxou.
– Ah, Harper! – Ela gargalhou.
– Seu nariz é grande! Puxa!
– Eu vou te mostrar o que mais é grande! – Falei sem pensar.
– DANIEL! – Ela começou a gargalhar e ergui a cabeça, sorrindo.
– Desculpe! Saiu sem querer. – Gargalhei, sentindo a medalha presa em meu bigode.
– Não acredito que você disse isso. – Ela me socou no ombro, me fazendo gargalhar mais alto. – Cadê a tesoura?
– Espera! Espera! – Falei rindo, puxando a medalha para cima, sentindo-a prender em meu nariz. – Ah! – Reclamei antes de tirar e Harper gargalhava ainda. – Pronto!
– Eu vou tomar banho antes que você fale mais merda! – Ela me deu outro soco no ombro.
– Ah, Harp! Eu preciso do meu braço. – Falei, vendo-a rir enquanto seguia para o quarto.
– Eu quero molho com minha brisket. – Ela disse, séria. – De gorgonzola, se tiver!
– Eu vou pedir! – Abanei a mão, vendo-a fechar a porta e ri sozinho. – Vai nessa, idiota. Continua fazendo essas brincadeiras com fundinho de verdade para você ver. Vai dar merda, cara! Vai dar merda. – Suspirei, entrando na cozinha.
*Daniel vive falando que adora brisket, no Brasil é conhecido como peito bovino.
Harper
Suspirei, espiando pela janela o dia amanhecendo e pressionei os lábios. Eu estava apaixonada por essa cidade e não queria ir embora. Os sentimentos estavam misturados e deixavam meu peito bastante apertado, mas ficar essa semana aqui em Mônaco com Danny havia sido literalmente a melhor semana de muito tempo. A cidade, o tempo, os lugares, os restaurantes e fazer tudo isso com Danny… Deus! As coisas tinham ficado tão amplificadas que eu me sentia perdida, mas também tinha medo de ir para Rússia e ver esses sentimentos irem embora.
Virei meu corpo na cama, encontrando Danny dormindo e dei um curto sorriso. O cabelo mais comprido da cabeça caía um pouco em sua testa, os lábios estavam entreabertos, o rosto afundado no travesseiro e os braços cruzados. Levei a mão até seus cabelos, afagando os cachos e suspirei.
Eu só queria abraçá-lo, beijá-lo, me colocar entre seus braços e ficar trancada nesse apartamento pelo resto da vida, nem se for para somente ficar aqui, assistindo filmes, comendo e falando besteiras, como se o mundo externo não existisse.
Eu estou completamente apaixonada por ele e eu sei quão ferrada estou por constatar isso.
Como ele mesmo disse, ainda estamos em abril. Como eu vou viver até dezembro dessa forma? E pior, como eu vou viver depois disso? É amor? É paixão? Ele sente o mesmo? Não? Minha cabeça estava realmente fervendo e estou em dúvidas se ele estava agindo como o Danny de sempre e meu corpo estava vendo coisas que não existiam, ou se realmente existia algo.
Suspirei, deixando meu corpo cair na cama novamente e apoiei as mãos no peito, erguendo os olhos para o teto. Hoje iríamos para Rússia, seguir com os próximos GPs, mas antes tínhamos que ir até Milão, depois para Istambul e só então para Rússia, eu não estava tão empolgada para isso. Nem pela viagem, nem por sair daqui e cair na vida real novamente. Tudo estava bagunçado.
– Bom dia, gatinha. – Virei o rosto, vendo um Danny sonolento e ri fracamente.
– Bom dia. – Neguei com a cabeça, vendo-o bocejar.
– Vem sempre aqui? – Ele continuou a brincadeira.
– Sabe que não? – Virei o corpo para ele, abraçando o travesseiro.
– Deveria vir. – Ri fracamente.
– Quem sabe? – Suspirei e contraí a barriga quando ele me abraçou.
– Quem sabe. – Ele falou, sonolento, me puxando para si e ri fracamente.
– Danny! – O repreendi. – A gente precisa se preparar para ir embora.
– O despertador nem tocou ainda. – Ele disse, abrindo os olhos em seguida. – Ou tocou e eu não ouvi? – Ri fracamente.
– Não tocou ainda. – Falei, apoiando minha mão em seu braço. – Mas precisamos terminar de arrumar as coisas, só vamos voltar daqui um mês. – Ele me apertou mais contra si e senti sua respiração bater em meu rosto.
– Temos tempo. – Ele sussurrou meio sonolento e suspirei.
Meu coração parecia uma bateria em meu peito, o cheiro do seu perfume me deixava um pouco tonta e minha cabeça estava confusa, mas aproveitei que suas mãos estavam em minha cintura e deixei meu nervosismo de lado, passando meu braço pela sua cintura e apoiei a cabeça em seu peito, fechando os olhos.
Ele apertou as mãos com mais força ao redor de meu corpo, deslizando pela lombar e ficando perigosamente perto de minha bunda, me fazendo contrair a barriga. Isso não era nada de novo para nós, mas os últimos sentimentos faziam esse tipo de ação piorar para mim. Ele estava sendo o meu amigo Danny ou tinha mais coisa aqui?
Tentei relaxar meu corpo, desligar a mente de tudo o que estava acontecendo e até ouvi a respiração de Danny forte novamente, fazendo suas mãos relaxarem em meu corpo e ele tinha dormido novamente. Quando eu estava começando a relaxar, o despertador de Danny tocou e isso me fez suspirar em frustação.
– Ok, agora eu ouvi. – Danny disse, desanimado.
– Vamos lá, Danny. – Falei e ele grunhiu.
– Você tem remédio para mim? – Ele disse e ri fracamente.
– Sim, eu tenho. – Suspirei e senti um beijo em minha cabeça antes de ele esticar os braços para cima e aproveitei para deslizar pela cama para o outro lado.
Respirei fundo e me sentei na cama, coçando os olhos e joguei os cabelos para trás. Danny se mexeu ao meu lado, também se sentando e virei o rosto para ele. Ele bocejou e deu um curto sorriso para mim.
– Bom dia. – Falei.
– Bom dia. – Ele disse e inclinou o corpo em minha direção, dando um beijo em meu ombro. – Eu preciso ir ao banheiro. – Ele sussurrou antes de se levantar e assenti com a cabeça, ouvindo a porta do banheiro se fechar segundos depois.
Bocejei antes de me levantar e comecei a organizar as coisas ali. Tínhamos que sair até às 10 e, apesar dos meus toques, o apartamento ainda estava bagunçado e não aguentaria chegar aqui nessa bagunça novamente daqui um mês.
– Arrumando minha bagunça? – Ele falou ao sair do banheiro e ri fracamente.
– Alguém tem! – Dei de ombros e ele esticou as mãos.
– O dia vai ser longo, vem tomar café, depois a gente termina aqui. – Segurei suas mãos, sentindo-o me puxar.
– Você vai cozinhar? – Perguntei, rindo.
– Ah, eu sei fazer um ótimo omelete. – Ele dramatizou, me fazendo rir. – E torradas.
– Uau! – Falei, rindo.
– E posso espremer um suco de laranja fresquinho para você. – Ri fracamente, sentindo-o me puxar para fora do quarto.
– Nossa! Que avanço, hein?! – Falei, rindo.
– Tudo para minha mulher favorita do mundo. – Ele disse e aquilo me deixou entre sorrir e me deixar nervosa. – Agora senta lá na mesa que eu já levo para você. – Ele me guiou para a sala, me fazendo rir.
– O que aconteceu contigo? Acordou de bom humor? – Caminhei até a mesa e observei-o apoiar a cabeça no batente da porta.
– Talvez… – Ele fingiu pensar. – Só estou feliz. – Ele deu de ombros, sumindo na cozinha e suspirei, ocupando uma cadeira. Observei o forte sol lá fora, enquanto ouvia copos, panelas e reclamações de Danny, enquanto um leve cheiro de queimado invadia a sala. E acho que não era da comida.
Sóchi, Rússia
Daniel
– Senhores passageiros, vamos aterrissar em Sochi, peço para colocar as poltronas na posição vertical novamente. – Ouvi as instruções da comissária e virei para o lado, vendo Harper dormir abraçada ao seu corpo e os pés esticados.
Observei-a por alguns segundos e inclinei meu corpo mais para perto da beirada e passei a mão em seus cabelos, colocando atrás da orelha. Meu polegar deslizou pela sua bochecha, descendo para seu pescoço e ela virou o rosto em minha direção, resmungando.
– Ei, Harp! Vamos acordar. – Sussurrei, vendo-a abrir os olhos devagar. – Ei…
– Ei… – Ela deu um curto sorriso e afastei minha mão.
– Vamos pousar. – Falei, voltando para meu lugar.
– Chegamos finalmente? – Ela apoiou as mãos na poltrona e ergueu o corpo.
– Finalmente. – Falei, rindo e ela passou as mãos no rosto.
– Ah, cara, isso cansa demais. – Ela se espreguiçou.
– É, dessa vez judiou um pouco. – Falei, vendo-a ajeitar a poltrona e abaixar os pés. – Você está ok?
– Sim, só preguiça… E um pouco de sono. – Ela suspirou, apertando o cinto de segurança.
– A gente vai direto para o hotel e você volta a dormir.
– Acho que vou precisar comer algo, você comeu?
– Peguei a janta. – Falei. – Não tive coragem de te acordar, você estava dormindo tão bem. – Ela deu um curto sorriso.
– Eu fico meio drogada com esse remédio. – Rimos juntos e olhei para sua mão no braço da poltrona.
– Sei bem. – Falei, rindo.
– Que horas vamos chegar lá? – Toquei sua mão com a minha, acariciando devagar.
– 19:25, horário local. – Ela virou a mão para cima e entrelacei nossos dedos, dando um curto sorriso.
– Talvez eu possa comer, depois dormir. Aposto que vai ficar tudo meio bagunçado até amanhã.
– Eu tenho as prévias já amanhã, mas você pode descansar. – Falei.
– Eu nunca vim para Rússia, preciso aproveitar. – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Algum restaurante em mente? – Perguntei.
– Honestamente, não. – Ela riu fracamente. – Nem pensei em pesquisar, na verdade. – Ela suspirou. – Mas a empresa tem alguns interesses, se não for para fazer uma revisão do zero, é uma confirmação de outro revisor, mas eu me viro. – Ela sorriu e assenti com a cabeça.
– Está baixando. – Falei.
– Ai, vamos lá. Terceiro pouso em 21 horas. – Ela disse e ri fracamente.
Apertei sua mão quando o avião baixou até o pequeno tranco quando as rodas tocaram no chão, me fazendo suspirar. Depois de uma semana incrível, estava voltando para a realidade de novo e tinha medo do que isso ia acontecer. Parte de mim tinha medo do que podia acontecer, mas parte de mim estava empolgado com esses novos sentimentos. Tinha tudo para dar errado, de verdade, mas Harper é a pessoa mais incrível que eu conheci na vida, então só conseguia pensar: e se?
E se desse certo e eu conseguisse ter um relacionamento com a pessoa que mais me conhece no mundo?
Parte de mim sentia algo estranho no estômago, mas por outro… Era incrível pensar.
– Vamos lá! – Falei para Harper e separei nossas mãos ao me levantar.
Peguei nossas mochilas no bagageiro, entregando para Harper. Fomos os primeiros a sair assim que o liberaram e dei um aceno para as comissárias antes de sair do avião. Ajeitei o boné da Red Bull em minha cabeça e Harper fez o mesmo enquanto caminhávamos a passos rápidos pelo aeroporto.
Paramos na fila da imigração e pegamos nossos passaportes. O de Harper era tão cheio quanto os meus, mas tínhamos muitos carimbos diferentes, então era interessante comparar. Nos separamos para passar e a esperei do outro lado.
– Vamos esperá-los? – Ela perguntou ao me encontrar, guardando o passaporte na bolsa.
– Sim, claro! Acho que ele vai ficar em outro lugar. – Comentei, vendo Felipe se aproximar. – Vai para onde, cara?
– Radisson Collection. Você? – Ele perguntou.
– Radisson Blu. – Falei. – É perto, certo? Quer dividir?
– É, claro! – Felipe disse e indiquei com a cabeça, andando de volta pelo aeroporto.
Quando desembarcamos, fui parado por dois fãs para tirar algumas fotos e encontrei Harper pouco à frente. Saímos do aeroporto e pegamos um táxi privado em direção ao complexo de hotéis perto do aeroporto e do circuito. Felipe entrou na frente e segui atrás com Harper.
A distância era de uns sete quilômetros, mas Harper tombou a cabeça para o lado e estava dormindo de novo antes de sairmos da área do aeroporto e sorri. Não sei como ela conseguia, honestamente, o remédio era forte, mas tive dificuldades em apagar como ela. Talvez eu estivesse pensando demais em tudo o que estivesse acontecendo.
– Harp! – Cutuquei-a, vendo-a erguer o rosto para mim. – Chegamos.
– Oh, merda! – Ela suspirou e empurrei a porta do carro.
– A gente se vê amanhã, cara! – Falei para Felipe.
– Até amanhã! – Nos cumprimentamos rapidamente. – Se cuidem.
– Pode deixar.
– Tchau, obrigada! – Harper acenou e o taxista nos ajudou a tirar as mochilas do porta-malas. – Boa noite.
– Boa noite! – O taxista disse e apoiei uma mão nas costas de Harper, seguindo com ela até o hotel.
– Esse é o hotel? – Ela falou, surpresa.
– É! – Falei, ouvindo-a rir.
– Uau! – Ela disse, rindo. – Talvez eu aproveite um pouco da piscina. – Sorri, seguindo com ela para dentro do hotel.
– Aproveita os hotéis bons, logo teremos os motorhomes. – Ela riu fracamente.
– Eu estou na Rússia, Danny! Eu posso ficar num sofá-cama que está ótimo! – Sorri, vendo Maria no lobby e suspirei.
– Obrigado pela semana, Harp. – Falei, vendo-a virar o rosto para mim. – Foi legal.
– Foi muito bom. Obrigada! – Ela deu um curto sorriso. – Mas não acabou, Danny. Ainda tem mais. – Ela deu de ombros, me fazendo sorrir.
– Espero também! – Puxei-a com um braço, sentindo-a me abraçar pela cintura e dei um beijo em sua cabeça.
– Vamos descansar e voltar a nos divertir, ok?! – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Lesgo, baby! – Pisquei, vendo-a rir e reduzimos a distância até Maria. – Ei, Maria.
– Boa noite, senhores! – Ela disse. – Se divertiram? Descansaram?
– É, foi legal! – Harp disse, sorrindo para mim.
– Vamos voltar a trabalhar? – Maria disse, me fazendo suspirar.
– É, vamos. – Falei, seguindo com ela e fomos até o elevador. – Michael está aqui?
– Sim, mas seu outro amigo foi embora. – Maria disse.
– Sim, ele mencionou. – Falei, entrando no elevador logo após Harper e Maria.
– Eu tenho algumas entrevistas para você fazer. – Maria disse.
– Para hoje? – Perguntei.
– Se possível, a gente livra isso para amanhã. Temos a fã-fest. – Suspirei.
– Ok, me dá um tempo para falar com Michael e tomar banho? – Pedi.
– Claro! – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Posso ajudar em algo, se precisar. – Harper disse e Maria assentiu com a cabeça.
– Você precisa dormir, Harp. – Falei, rindo.
– Eu estou bem, Danny! Vamos trabalhar, ok?! Conseguir seu título mundial. – Sorri.
– Deus te ouça! – Falei, rindo e o elevador se abriu novamente. Fomos até a primeira porta e Maria abriu, entrando em um quarto similar ao da Austrália.
– Eu estou no fim do corredor à esquerda, vocês três do lado direito.
– Me dá uma hora, logo volto. – Pedi.
– Combinado. Querem comer algo? – Ela perguntou.
– A Harper quer. – Falei.
– Posso pedir algo para vocês. – Ela disse.
– Eu como qualquer coisa que você pedir. – Harper disse e Maria assentiu com a cabeça antes de seguir para o outro lado. Eu e Harper fomos para o outro e ela deu dois tapinhas na porta com a luz ligada.
– Ei, olha eles ali! – Michael disse e cheguei enquanto ele e Harper se abraçavam. – Como foi lá?
– Ah, foi ótimo, cara! – Cumprimentei-o. – Deu para relaxar um pouco.
– Que bom, vamos voltar ao trabalho? – Ele disse.
– Sim, vamos lá. – Suspirei.
– Eu vou tomar um banho, gente. – Harper disse. – Quer escolher o quarto, Danny?
– Fica à vontade. – Falei e ela deu um sorriso antes de seguir para fora do quarto. Acompanhei-a pelo corredor, até ela entrar no quarto no final do corredor e fechar a porta.
– E aí, cara, como foi? – Michael perguntou e suspirei, entrando no quarto e fechei a porta devagar.
– Eu preciso te falar uma coisa! Eu preciso falar isso alto antes que eu exploda.
– Ei, cara! O que aconteceu? – Ele perguntou e suspirei, tirando a mochila dos ombros e deixando-a cair no chão.
– Eu estou ferrado! – Falei firme, tentando manter o tom de voz baixo.
– Por quê? O que aconteceu? – Ele perguntou e puxei a respiração forte, suspirando
– Você não vai zoar com a minha cara, vai? – Suspirei.
– Não, cara? O que está acontecendo? Você está me deixando assustado. – Ele disse e soltei a respiração forte.
– Eu estou apaixonado por Harper.
– O QUÊ?! – Ele gritou, gargalhando em seguida. – Você está brincando… – Pressionei os lábios, vendo sua risada reduzir até o sorriso sumir. – Oh, cara, isso é sério?! Merda!
– É… – Falei em um suspiro. – Eu estou ferrado, certo? – Fiz uma careta.
– É… Acho que está. – Ele falou e suspirei. – O que aconteceu em Mônaco?
– Tudo e nada… Eu não sei. Eu estou perdido. – Suspirei. – Mas é… Eu estou me apaixonando por ela… – Engoli em seco e ele me olhou sério. – Fala algo, cara. Por favor… – Suspirei.
– O que você quer que eu fale? Você quer que eu fale algo?
– Sim! Qualquer coisa, por favor. – Suspirei. – Só para eu não sentir que estou em uma batalha perdida. – Cocei o cabelo.
– Bem, a única coisa que eu posso falar para você é: finalmente, hum?! – Ele disse, gargalhando e neguei com a cabeça. – Demorou um pouco, mas, ei, aqui estamos. – Suspirei.
– Ah, cara, eu não sei o que fazer. – Suspirei.
– Nem eu sei o que você pode fazer, mas não esperamos tanto para morrer na praia, né?! A gente dá um jeito. – Ele deu de ombros, rindo.
– Para de rir, por favor. Você não tem ideia de como eu estou surtado.
– Eu imagino! – Ele sorriu. – Ah, cara, você está fodido!
– Obrigado, cara! Obrigado. – Neguei com a cabeça, ouvindo sua gargalhada alta e neguei com a cabeça. – Eu vou tomar um banho!
– Vai lá! – Ele disse, tentando se segurar para não rir, mas a gargalhada estourou segundos depois.
Capítulo 12
Perth, Austrália, 2002
A cabeça de Danny fervia, ele sabia que deveria ter estudado um pouco mais, mas chegou tão cansado do treino ontem que só queria dormir. Agora ele se arrependeria, pois a resposta dessa questão indicaria se ele faria as férias completas ou se deveria voltar uma semana antes. Ele esperava que não, sua mãe já estava lhe dando bastantes folgas, mais uma recuperação ela não ia aguentar, ainda mais em inglês.
Ele batucou a caneta na mesa, vendo o penúltimo aluno se levantar e andar direto para a professora e suspirou. Droga! Agora era o último e faltava essa questão e mais uma. Desviou o rosto para a questão de baixo, tentando lembrar um pouco mais sobre verbo condicional, mas nada vinha em sua cabeça. Parecia tão fácil na teoria, agora na prática…
Ele ouviu a cadeira da professora se mexer e ela foi até o quadro, mudando o número 10 para cinco e agora ele só tinha cinco muitos restantes para finalizar a prova e era o último em sala. Que droga! Sua mãe iria matá-lo.
É isso! “Iria” é conjugação condicional.
Voltou para a questão anterior, lendo-a com rapidez e assinalou a resposta correta, depois foi para a última e alterou as frases com o verbo condicional. Sua letra era bonita, mas agora parecia um rabisco estranho, mas deveria servir.
Quando ele finalizou, ele checou rapidamente se todas as perguntas tinham resposta – pois esqueceu disso na prova de história – e colocou a folha dentro do envelope. Juntou suas coisas, colocando tudo na mochila e jogou-a nas costas antes de seguir até a mesa da professora.
– Conseguiu fazer tudo? – A professora perguntou.
– Sim, tudinho! – Ele disse, lhe entregando o envelope.
– Perfeito, então. Pode ir! – Ela disse e ele assentiu com a cabeça, seguindo para fora da sala, respirando aliviado finalmente.
– Ei, Danny! Como foi? – Virou para lado, vendo Mike, aluno novo que entrou no começo do ano e que eles frequentemente se encontravam nos plantões de dúvidas.
– Acho que fui bem, um anjo desceu ao céu para me dar a resposta dessa última. – Ele disse, rindo.
– Eu acho que fui mal de novo. Vou pegar recuperação anual e minha mãe vai me matar. – Ele bufou.
– Espero que não. – Danny suspirou. – Minha mãe quer me tirar do kart e não dá, tem competição importante depois das férias.
– Vai passar as férias aqui? – Mike perguntou e ambos andaram pelo corredor vazio da escola.
– Não sei ainda, acho que sim, para continuar treinando. – Danny deu de ombros. – Você?
– Eu tenho boxe, mas vou visitar minha avó em Sydney…
– Ah, legal! A Harper tem parentes lá. – Danny disse, ajeitando a mochila nas costas. – Falando nisso, você a viu?
– Fiquei te esperando, ela acabou rápido, né?! – Ele perguntou.
– Ela está indo bem na escola, minha mãe fala que ela ia mal por culpa minha. – Danny disse, rindo. – Talvez ela esteja certa.
– Talvez! – Mike disse, rindo. – Mas ela deve estar lá fora jogando com as meninas.
– Vamos lá! – Danny disse e eles seguiram para fora da escola, sentindo o sol forte queimar os olhos por alguns segundos.
O pátio da escola estava cheio. Agora, à partir da sexta série, eles tinham aulas a tarde, então todo mundo ficava ali, almoçavam na escola e enrolavam até as aulas da tarde, seja de educação física ou de artes. Harper fazia parte da aula de cricket, e o time delas ia muito bem, inclusive em algumas competições com outras escolas, Danny não tinha paciência com esportes em grupo, então jogava tênis e fazia futebol nas aulas de educação física, mas era meio fominha.
Quando eles chegaram lá fora, Harper estava do outro lado do campo de cricket junto de outras meninas da turma. Danny e Mike deixaram as mochilas na arquibancada e se aproximaram do campo. Harper se dava bem tanto na posição de batsman, como na de bowler*, mas ela gostava de jogar a bola longe e era o que ela fazia agora. Em uma das tacadas, a outra menina não conseguiu pegar a bola e ela veio deslizando até os pés dos meninos.
– EI, DANNY! MANDA DE VOLTA! – Harper gritou e o menino pegou a bola e deu um impulso, jogando-a para dentro do campo novamente.
A bola voou longe, um estralo foi ouvido e Danny caiu no chão em dor*, lágrimas deslizando de seus olhos e um grunhido saía de sua garganta. Mike, além de outros garotos em volta, começaram a gargalhar, não entendendo o que estava acontecendo. Em compensação, Harper largou o taco no chão, correndo em direção a Danny, deslizando os pés na areia quando se aproximou dele.
– Danny! Danny! – Ela segurou a cabeça do menino. – O que aconteceu?
– ESTÁ DOENDO! – Ele gritou em dor. – Meu braço…
– O que aconteceu? – Ela disse, vendo-o segurar seu braço com força.
– Acho que quebrei… – Ele disse e Harper ergueu o rosto para Mike que percebia que era algo sério.
– PARA DE FICAR OLHANDO E VAI CHAMAR AJUDA! – Ela disse, brava e Mike saiu correndo para dentro da escola. – Calma, Danny! A gente vai te ajudar! – A menina disse, afagando os cabelos do amigo.
– Está doendo muito… – Ele choramingou e a menina não teve nem coragem de tocar no braço dele, já que ele o segurava com muita força.
A comoção em volta de Danny aumentou de forma exponencial, logo outros alunos se juntaram em volta dele, depois os professores chegaram, até que uma ambulância entrou no campo da escola e Danny foi retirado do gramado. Harper foi a primeira a entrar na ambulância, insistindo que acompanharia o amigo, junto deles, a coordenadora também foi.
Quando chegaram no hospital, Danny foi rapidamente levado para dentro e Harper esperou na sala de espera junto da coordenadora. Ela mordiscava as unhas e andava de um lado para outro, esperando qualquer notícia do amigo.
– Harper! – A menina se virou quando viu Grace entrar correndo no hospital.
– Tia Grace! – A menina apressou os passos até Grace e abraçou-a fortemente.
– O que aconteceu? – Grace perguntou, preocupada.
– Eu não sei! Eu estava jogando com as meninas, a bola caiu no pé dele, ele jogou de volta e eu ouvi um estralo alto e ele estava caído no chão chorando. – Ela disse apressada.
– Alguém falou algo? Ele já apareceu? Jane, você está aqui! – Grace percebeu a presença da coordenadora do ensino fundamental II em pé atrás de Harper.
– Não poderia deixar a menina vir sozinha. – Jane disse.
– Teve alguma novidade? – Grace perguntou apressada.
– Nada, mas acabamos de chegar. – Jane disse. – Ele vai ficar bem, senhora Ricciardo. Sente-se um pouco, quer um café?
– Não, eu quero ver meu filho! – Grace disse apressada.
– Calma, tia Grace. O Danny vai ficar bem. – Harper segurou a mão dela, puxando-a para se sentar ao lado dela.
Era só o que dava para fazer agora. Grace esperava nervosa na sala de espera do hospital, Jane havia ido embora, sabendo que as duas crianças estavam seguras e esperava notícias deles em breve, já Harper tinha ligado para sua mãe que também estava indo para o hospital o mais rápido possível, não preocupada com sua filha, mas preocupada com a amiga encarando essa sozinha com duas crianças.
– Senhora Ricciardo? – Um médico apareceu e Grace e Harper se levantaram correndo.
– Sou eu! – Ela disse. – Cadê meu filho?
– Ele está bem. – O médico disse apressado. – Seu filho quebrou o úmero por causa de um cisto que se formou em seu braço.
– Como assim? – Ela perguntou, surpresa.
– É uma má-formação óssea que deixa o osso mais fino e pode quebrar com qualquer tipo de movimento brusco. – Ele explicou. – Ele disse que jogou uma bola, certo?
– Sim! – Harper disse apressada.
– Ele poderia quebrar o braço só de apoiar o braço para levantar da cama. – Grace assentiu com a cabeça.
– E ele está bem? É sério? Precisa de cirurgia?
– Não, agora é só reconstrução óssea, ele vai precisar ficar de gesso por ao menos três meses, vai tomar remédio, vitaminas e vamos analisar com o tempo. – Ela assentiu com a cabeça.
– Eu posso vê-lo? – Ela perguntou.
– Sim, claro! Venham comigo! – Ele disse e Harper não esperou convite especial, ela só seguiu Grace como se fosse irmã de Danny. – Ele está terminando de ser engessado. – Ele disse, indicando o quarto e Grace entrou apressada.
Harper já tinha visto essa cena antes, mas, da última vez, ela estava sendo engessada e Danny entrava desesperado na sala. Depois que o susto passou, Danny estava falante como sempre, até ria do gelado do gesso enquanto era colocado em seu corpo, mas Harper queria bater nele por dar esse susto.
– Ah, meu filho. – Grace o abraçou pela cabeça.
– Mãe! – Ele disse, surpreso.
– Vocês só querem me assustar. – Ela suspirou, acenando para o técnico.
– Eu tô bem, mãe! – Ele disse.
– Você assustou a gente! – Harper disse.
– Não foi minha intenção. – Ele disse, fazendo uma careta.
– Como ele está?
– Ele está bem. – O técnico disse. – Precisa só esperar secar agora. Logo o médico volta para passar a receita para ele.
– Obrigada! – Grace disse, suspirando, vendo-o sair.
– Você tem noção como isso foi ridículo? – Harper disse, se colocando do outro lado dele.
– É, eu sei. – Ele fez uma careta. – Foi um mico enorme.
– Foi! – Ela disse, rindo. – E a escola não vai deixar você esquecer tão cedo.
– Ah. Ainda bem que tem as férias. – Ele suspirou. – Ah, droga! O campeonato de kart, mãe!
– Esquece o campeonato de kart, Daniel! Você tem um cisto no seu braço, filho. A gente vai cuidar disso antes, depois a gente vê sobre o kart, ok?! Se aquieta! – Ela disse firme. – Você não tem noção como eu fiquei assustada.
– É, Danny, relaxa! – Harper disse, séria. – A gente vai ver bastante filme nas férias. – Ela sorriu.
– Falando nisso, e a prova, como foi? – Grace perguntou e Daniel fez uma careta.
– Bem, eu acho. E eu falo sério dessa vez. – Harper riu.
– Essa eu quero ver! – Ela brincou e Grace suspirou, negando com a cabeça.
– Fiquem aqui, eu vou ligar para o seu pai! – Ela disse e Grace saiu do quarto.
– Falando sério, você foi bem ou não? – Harper sussurrou para ele.
– Acho que sim. – Ele disse. – Lembrei no último minuto. – Ela riu com ele.
– Esperamos, eu vou ficar aqui nas férias, não quero ficar uma semana sozinha porque você vai ter que fazer recuperação! – Eles riram juntos.
– A nota sai semana que vem, quero só ver. – Ele suspirou.
– Agora descansa, Danny, esse negócio é chato. – Ela disse, suspirando.
– É, percebi. – Ele suspirou. – As férias vão ser chatas.
– Vão! – Ela sorriu.
– Droga! – Ele suspirou, tombando a cabeça para trás.
– Relaxa, Danny! O que importa é sua saúde! – Ela disse. – A gente pensa nisso depois. – Ele assentiu com a cabeça, suspirando.
*Batsman e bowler: quem joga e quem recebe a bola no cricket, esporte tradicional na Austrália.
*Ele contou esse fato no “On the Sofa with Red Bull” em 2018.
Sóchi, Rússia, 2016 – Quarta-feira
Harper
– Você come de tudo, né?! – Parei a comida no meio do caminho da boca quando Maria falou.
– Eu meio que tenho… – Falei, antes de dar uma mordida no blini.
– Você não sabe nem o que é e vai comendo. – Maria disse fazendo uma careta.
– Isso é blini! – Disse como se fosse óbvio. – É uma panqueca mais fina com mel. Não tem como isso ser ruim. – Dei de ombros, molhando no mel mais um pedaço da pequena trouxinha antes de colocar na boca, lambendo os dedos em seguida. – Hum, delícia.
– Depois de um tempo com a Harper, você aprende a valorizar um pouco mais a comida, Maria. – Michael disse e dei um curto sorriso.
– Não adianta valorizar se vocês são todos frescos. – Dei de ombros, bebendo mais um pouco do meu tradicional café com leite.
– É que você sabe de tudo… – Maria disse, rindo fracamente.
– Eu fiz uma faculdade bem completa. Eles ensinam sobre cultura e alimentação mundial. – Dei um curto sorriso, descansando a xícara.
– Qual? Le Cordon Bleu por acaso? – Ergui os olhos para Maria, dando um sorriso com os lábios pressionados. – ESPERA! VOCÊ FEZ LE CORDON BLEU? – Sua voz aumentou e Michael gargalhou na poltrona.
– Fiz. – Dei um curto sorriso. – E outros cursos complementares. – Dei de ombros.
– Não é à toa que você trabalha na Michelin. É a escola de cozinha mais famosa do mundo! – Maria continuou, surpresa.
– Eu sei! – Dei um curto sorriso. – Agradeço aos meus pais e aos pais do Danny por me permitirem isso. – Dei de ombros.
– Uau! Le Cordon Bleu! Agora até eu quero comer sua comida. – Ri fracamente.
– HARPER! – Ouvi a voz de Danny e suspirei.
– Te garanto que você não vai se arrepender. – Pisquei para Maria, me levantando.
– HARPER! – Ouvi sua voz de novo.
– Já volto. – Deixei o guardanapo na mesa antes de seguir pelo corredor.
– Que foi, Danny? Está quase na hora de irmos, quero terminar meu café! – Parei em frente à sua porta, abrindo-a e encontrei-o de cueca. – Ah, Daniel! – Puxei a porta de novo.
– Pode entrar! – Ele disse.
– Mas você está só de cueca! – Falei, mordiscando meu lábio inferior.
– Entra! E eu estou de boxer! – Ele disse e abri a porta devagar, colocando a cabeça devagar para dentro.
– Não é como se fizesse muita diferença. – Observei-o com a blusa da Red Bull, uma boxer vermelha, meias e sua calça jeans no chão. – O que é? – Suspirei.
– Eu preciso que você filme algo para mim. – Fechei a porta devagar.
– Vai finalmente entrar no mercado de filmes adultos? Se for, prefiro que outra pessoa faça isso. – Fiz uma careta.
– Há, há, há, engraçadinha. – Ele revirou os olhos e deu de ombros. – É um desafio de um patrocinador da Red Bull e eu preciso fazer.
– Ai, medo. – Suspirei.
– É meio ridículo…
– Mas estamos falando de você. – Falei e ele me mostrou a língua, me fazendo rir.
– Só segura a câmera. – Ele disse, me entregando o celular. – E fica aqui… – Ele me segurou pelos ombros, me puxando para o lado.
– Qual o desafio, Danny? – Perguntei, apoiando o quadril na bancada atrás de mim.
– Eu preciso colocar essa calça sem usar as mãos. – Ele disse e ri fracamente.
– Pega um moletom, nunca que suas calças apertadas vão entrar. – Disse, rindo.
– Harper! Me ajuda! – Ele disse e suspirei.
– Ok, ok… – Desbloqueei seu celular com o código 021089 antes de seguir para a câmera. – Você vai falar algo ou…
– Sim, vou falar algo e fazer.
– Ok, quando quiser. – Disse.
– Deixa eu só… – Ele foi até a calça, deixando-a mais certinha e foi inevitável não observar a área de seu quadril e o volume ali. Mordisquei meu lábio inferior e tentei conter meus pensamentos, mas era impossível. – Ok, podemos começar.
– Ok! – Falei rapidamente, olhando para a câmera. – Gravando… – Falei, apertando o botão de gravar.
– Ok, então, eu estou aqui para a Pepe Jeans para fazer o Get It On Challenge. – Ele disse e colocou os pés dentro da calça, antes de começar a se enfiar dentro dela.
Sabe aqueles momentos da vida que você acha que já viu de tudo, inclusive viu de tudo da pessoa que você mais conhece na vida? Pois então, eu estava muito enganada. Eu não sabia se eu arregalava os olhos enquanto ele se contorcia para dentro da calça, se jogando na cama ou se apoiando no armário lateral para fazê-la entrar ou se eu gargalhava.
De forma ou outra, acho que olhá-lo de cueca não era nada comparado com o que eu estava vendo aqui. Ele tinha algumas danças estranhas, mas, meu Deus! Acho que para minha paixonite ficar intacta, era melhor eu não ter visto isso.
– Consegui! – Ele disse, fechando o botão e puxando o zíper e comemorando em seguida.
– Metade da cueca está aparecendo, Danny! – Coloquei a mão na boca, evitando rir.
– Está bom! – Ele disse, rindo. – Cara, isso foi difícil!
– Acabou? – Perguntei, pressionando os lábios.
– Sim, acabei. – Apertei o botão para parar, finalmente deixando a risada escapar.
– Harper! – Ele me olhou.
– Eu preferia não ter visto isso. – Gargalhei, sentindo minhas pernas fraquejarem.
– Harper!
– Não, espera! – Suspirei, respirando fundo. – Ah, merda! – Neguei com a cabeça, gargalhando alto. – Minha visão de você acabou de mudar! – Ele riu comigo.
– Foi tão ruim assim? – Ele fez uma careta e assenti com a cabeça.
– Foi, meu amigo! Demais! – Joguei a cabeça para trás, ouvindo-o rir. – Parece uma lagartixa.
– Harper! – Ele disse, rindo.
– Chama o Michael da próxima vez, por favor. – Neguei com a cabeça.
– Você é quem eu tenho mais intimidade. – Ele disse, rindo, puxando a calça, ajeitando-a direito agora.
– Eu sei, mesmo assim… – Neguei com a cabeça. – Isso foi horrível! – Falei, vendo-o rir.
– Termina de gravar só mais uma parte antes da gente sair.
– Vamos logo! Hoje você vai experimentar aquela proteção especial* no carro antes da fã-fest. – Falei.
– Vai ser depois! – Ele disse. – Assim não chego suado para falar com os fãs.
– Faz sentido, mas ainda tem chuveiro no seu vestiário. – Brinquei, vendo-o rir.
– Você me entendeu. – Ele disse, rindo.
– Entendi sim. – Sorri. – Agora vai! – Endireitei a câmera.
– Depois desse mico, a parte dois…
– Engraçadinha. – Ele disse e dei play.
– Gravando! – Falei.
*Em 2016 eles começaram a fazer alguns testes com o que viria ser o halo hoje.
Quinta-feira
Daniel
– Então, estando na Rússia, você vê que isso é uma vantagem para seu companheiro de equipe?
– Hum, talvez sim, porque sempre que estamos em casa, queremos ir muito bem por estar em casa, então Dani está animado e o restante da equipe também. Esperamos ter uma boa corrida. – O repórter assentiu com a cabeça.
– E saindo agora um pouco da Fórmula Um, sua empresa de karts está tendo um grande avanço no mundial da categoria…
– Sim, sim! Estamos empolgados por isso. – Sorri.
– E como foi a ideia de criar essa empresa? Inspiração de outros corredores como Alonso ou… – Observei Harper se ajeitar no fundo da sala, cruzando os braços e sorri.
– Meu pai sempre esteve envolvido com corrida, então ele já estava montando algo dele, menor, sem muito investimento, mas quando eu consegui o contrato com a Red Bull, pudemos fazer maiores investimentos e entrar nessa categoria de cabeça. – Sorri, vendo Harper tirar o boné e passar as mãos nos cabelos.
– E sobre vida pessoal, Daniel, temos visto bastante você saindo com uma mulher nova e… – Ri fracamente. – Sabíamos que tinha terminado com sua namorada, e agora? Como está o coração do honey badger?
– Ah, cara! – Ri fracamente, pensando em como responder isso, mas sabia que tinha que pensar em muitas variáveis para não falar merda. – A mulher que vocês têm visto comigo é minha melhor amiga de infância. – Percebi que Harper ergueu o olhar para mim. – Ela está me acompanhando esse ano. – Sorri, olhando para ela.
– Então, podemos dizer que o coração do honey badger está vazio? – Ri, nervoso.
– É… Talvez. – Tentei evitar uma mordiscada nos lábios. – Está disponível, você nunca sabe o que vai acontecer. – Dei de ombros.
– Da última vez que conversamos, você tinha terminado com sua namorada e disse que era difícil namorar nessa profissão porque tirava o foco da corrida, isso mudou? – Suspirei.
– Acho que depende. – Ponderei com a cabeça, voltando a olhar para Harper. – Se você estiver com uma pessoa que te apoia e estará sempre lá contigo, vale à pena. Se for alguém que te puxa para baixo, aí não compensa. – Vi Harper sorrir e sorri com ela.
– Obrigado, Daniel! Te desejo muita boa sorte na corrida*. – Ele disse e sorri.
– Obrigado. – Trocamos um rápido cumprimento e dei um aceno para câmera.
– Terminamos. – O câmera falou e me levantei da cadeira junto do repórter.
– Obrigado pela entrevista.
– É sempre bom falar contigo. – Falei, cumprimentando-o enquanto o assistente me ajudava com o microfone.
– Contigo também. – Sorri. Dei um rápido aceno antes de seguir com Maria para o fundo da sala e vi Harper desencostar o corpo da parede.
– Então, o coração do honey badger está ocupado? – Ela brincou e sorri.
– Ah, lá vem bomba para o meu lado. – Maria disse, se afastando e arregalei os olhos, pressionando os lábios.
– Ignore-a… É o que eu faço – Dei de ombros, vendo-a assentir com a cabeça.
– Mas é verdade? – Ela perguntou, mordiscando os lábios e tentei observar suas reações.
– Talvez sim… – Falei, analisando seus olhos. – Preciso saber mais antes de fazer merda. – Ela assentiu com a cabeça e apoiei minha mão na base de suas costas. – Não posso errar nisso.
– Você nunca erra, Danny. – Ela disse e dei um beijo em sua têmpora.
– Erro sim. E dessa vez eu não posso. – Suspirei, me afastando devagar. – Vamos lá fora. – Falei e ela seguiu um pouco à minha frente antes de sairmos da sala da imprensa. – Campo minado ali.
– Não é como se já não estivesse acostumado. – Ela disse, colocando os óculos escuros novamente.
– Eu estou, mas eles estavam perguntando sobre você…
– Eu ouvi! – Ela disse, rindo. – Eu tento fugir dos fotógrafos por isso… – Ela comentou.
– Harp… – Olhei para ela.
– O quê, Danny? É verdade! Eu sei como eles vêm em cima de você. Evitar rumores desnecessários é o mínimo que eu posso fazer.
– Não te chamei para vir comigo para ficar preocupado com o que eles vão falar. – Disse firme. – Vamos nos divertir e damos as satisfações conforme for necessário, que tal? – Ela ergueu o olhar para mim, suspirando em seguida. – Somos amigos há anos, Harper. Não é porque você ficou linda e gostosa… – Ela começou a rir. – Que eu vou mudar. – Ela riu fracamente.
– Você melhorou muito também, Danny.
– É, mas ainda temos aquela foto nossa de criança.
– Mais do que eu gostaria. – Ela me empurrou de leve pelo ombro e ri, vendo-a seguir para perto da minha equipe e suspirei.
– Presta atenção no que você fala, Daniel. Não vá ferrar tudo. – Sussurrei para mim mesmo.
– Vamos, Daniel! – Maria disse e segui até eles. – Vamos dar uma volta pelo circuito, depois falar com os fãs.
– Andando? – Perguntei.
– Precisamos ir um pouco mais rápido hoje, então vamos de carro. – Ela disse e virei para Harper.
– Vai conosco? – Perguntei.
– Não, vou deixar vocês trabalhando. – Ela abanou a mão. – Eu vou procurar algo para comer, nos encontramos depois?
– Claro! – Falei e ela sorriu antes de dar um aceno e seguiu pelo paddock.
– Ela sempre está buscando algo para comer, né?! – Dani disse e ri fracamente.
– É. Não julgo. – Dei de ombros, seguindo com eles. – Até eu ia atrás de comida se pudesse.
– Vamos, garotos! – O assessor de Dani falou e seguimos logo atrás dele.
– Daniel… – Maria me chamou e olhei para ela, andando ao seu lado. – O que disse na entrevista, eu preciso saber de alguma coisa? – Suspirei.
– Não, não precisa. – Falei, coçando a cabeça por cima do boné.
– Digo, não te vejo com nenhuma outra mulher e se for algo entre você e a Harper, não foi o que me falou no começo da temporada. – Suspirei.
– Maria, por favor. Muda de assunto.
– Eu preciso saber, Daniel. Não quero me meter na sua vida, mas realmente preciso saber para não terminar de forma ruim igual a outra e você sair falando que terminou por causa da carreira. – Puxei a respiração fortemente, soltando-a devagar.
– Não estou falando disso, Maria. Só estou pedindo para não falarmos disso agora, pelo menos até eu entender o que eu estou sentindo. – Apertei as mãos no rosto.
– Mas estamos falando da Harper? – Ela perguntou, entrando em minha frente e parei o passo. – Daniel…
– Maria… – Chamei-a da mesma forma.
– É, não é? – Ela disse e suspirei. – Como isso aconteceu?
– Maria, por favor. Não aconteceu nada ainda e eu não sei quando vai acontecer, mas não cria caso com o que não tem ainda. – Suspirei.
– “Quando”? – Ela disse um pouco mais alto. – Você está gostando dela de verdade… – Suspirei. – Daniel, como você deixou isso acontecer? – Suspirei.
– Eu não deixei nada acontecer, acho que a convivência fez isso por nós, só… Por favor. – Neguei com a cabeça. – Eu já estou confuso o suficiente. – Suspirei.
– Mas você quer fazer algo ou…? – Joguei a cabeça para trás, sabendo que não tinha mais para onde fugir.
– Parte de mim sim. – Assenti com a cabeça. – Mas parte de mim tem medo de acabar com a amizade e ela é importante demais para mim. – Ela suspirou. – Mas eu não vou fazer nada sem saber o que ela está sentindo também… – Ela passou a mão na testa, respirando fundo.
– Eu não sei o que dizer… – Ela suspirou.
– Não tenta encontrar, então. Por favor. – Neguei com a cabeça. – Eu não sei o que está acontecendo, eu estou tentando e quero descobrir, mas me deixa descobrir sozinho. – Suspirei. – Ela é minha melhor amiga, Maria, você já não acha que eu tenho dúvidas o suficiente?
– Acho que sim. – Ela disse, suspirando. – Eu vou tentar entender seu lado de jovem apaixonado e em dúvidas, mas você promete que me avisa se isso mudar? Por favor.
– Você vai ser a primeira a saber. – Falei e ela suspirou, assentindo com a cabeça.
– Vamos falar mais sobre isso depois. – Ela disse. – Vamos logo, temos hora. – Ela disse e saiu da minha frente, voltando a andar.
Depois desse papo conturbado, eu só tinha uma certeza: Maria com certeza não seria a primeira a pessoa a saber o que acontecia entre mim e Harper. Ao menos não até eu ter certeza de que é sério e é estável.
Mas antes eu preciso descobrir o que eu estou sentindo, o que ela está sentindo e criar coragem de dar o primeiro passo.
Eu só precisava parar de falar besteira perto dela, mas era um tanto inevitável. Harper está me deixando nervoso e isso é novidade.
Na verdade, o que não é novidade recentemente?
*Baseada em uma entrevista de 2017.
Sábado
Harper
– Danny… – Dei dois toques na porta. – Está pronto?
– Pode entrar! – Ouvi sua voz e empurrei a porta de seu vestiário, vendo-o subir o macacão para os ombros.
– Está quase na hora. – Falei, apoiando meu corpo no batente da porta, observando-o ajeitar o macacão e dei dois passos para dentro do vestiário.
– Vamos fazer isso funcionar. – Ele disse e segurei seu zíper, puxando-o para cima e ele sorriu, afastando as mãos de seu corpo.
– A pista está mais seca do que de manhã, mas está muito frio. – Fechei o velcro em seu pescoço e passei a mão em seu peito para colar outro lado.
– Eu coloquei uma blusa mais quente hoje. – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Bom, sua mãe sentiria orgulho de você. – Rimos juntos e olhei em seus olhos, pressionando os lábios. – Não faça nada estúpido, pode ser?
– Nunca. – Ele sorriu, suspirando em seguida. – Por que veio me escoltar daqui hoje? Não que eu não tenha gostado, mas… – Ri fracamente e afastei um passo, vendo-o se afastar para sentar no sofá.
– O primeiro-ministro russo está lá na garagem. – Falei, cruzando os braços. – E eles estão literalmente onde eu fico, não quero ficar lá. – Ele riu fracamente, colocando seus sapatos.
– Você pode ficar no meu quarto. – Sorri, assentindo com a cabeça.
– Eu sei, mas gosto de ficar com sua equipe, eles são legais… – Cruzei os braços e vi a porta se abrir de novo, revelando Michael.
– Precisamos ir, Danny! – Mike disse.
– Dois minutos! – Ele subiu uma perna para o sofá. – Milagre Christian não ter implicado sobre você. – Danny comentou.
– Eu sou bem discreta, não causo problemas, até ajudo com uma coisa e outra. – Dei de ombros e ele ergueu o rosto, sorrindo.
– Você é incrível, Harp. De verdade. – Sorri, mordiscando meu lábio inferior.
– Preciso fazer alguma coisa para eles. Você fala tanto da minha comida e eu nunca fiz nem uma torta para eles. – Ele riu fracamente.
– Se você der comida para eles, eles vão te amar mais ainda. – Ele se levantou e ri fracamente.
– Quem sabe em Mônaco? Não que eu consiga fazer muito na sua cozinha, mas…
– Você prometeu não falar mal da cozinha! – Ele disse esticando o dedo para mim e ri fracamente antes de empurrar seu braço.
– Ela só não é grande o suficiente. – Dei de ombros, vendo Michael pegar algumas coisas no armário, junto do capacete.
– Nem a do seu apartamento é. – Ele disse.
– Eu derrubei um quarto inteiro para aumentar minha cozinha, Daniel. Não fala da minha cozinha. – Rimos juntos.
– Ok, estou pronto. – Ele suspirou, sacudindo os ombros.
– Vamos lá, cara! – Michael disse e fui em direção à porta, abrindo-a e vi ambos saírem logo atrás. Descemos as escadas do motorhome da Red Bull, saindo no paddock que estava movimentado.
– Ei, Daniel! – Travei o passo, vendo Alonso e Button quase entrando na garagem da McLaren.
– Ei, caras! – Danny foi até eles e vi Michael entrar direto na garagem.
– Boa sorte! – Button falou.
– Vocês também. – Danny disse, cumprimentando-os.
– Bom te ver, Harper. – Fernando disse e sorri, acenando com a cabeça.
– Você também! – Dei um curto sorriso.
– Ah, Jenson, essa é Harper, minha amiga. – Danny disse e senti um pequeno aperto no peito. Não éramos nada ainda, mas esse “amiga” estava me irritando, especialmente depois de ontem, onde tive uma leve impressão de que ele disse que estava gostando de mim, mas posso estar vendo coisa onde não tem.
– Essa é a famosa Harper, então. – O britânico se aproximou e sorri.
– Não estou gostando nada dessa fama! – Brinquei, vendo-os rir.
– Prazer em te conhecer. – Ele me deu um rápido abraço.
– O prazer é meu. – Dei um aceno de cabeça.
– Nos vemos depois? – Danny disse.
– Claro! – Eles disseram.
– Boa sorte! – Danny disse antes de me puxar pelo braço, me fazendo dar uma volta ao redor do corpo antes de entrar na garagem.
– Oh, vai devagar! – Pedi, rindo sozinha. – Eu não vou dar em cima do Jenson, relaxa. – Falei entre risos.
– Não, eu… – Ele parou, olhando para mim. – Não foi intenção, eu só… – Segurei sua nuca com as duas mãos, forçando-o a olhar para mim.
– Danny, não tem nada! – Falei, rindo. – Queria eu ter esse poder conquistador, mas não tenho… Eu não namoro desde a faculdade, Danny. Por favor. – Suspirei. – Não tem nada, ok?! Não precisa ficar me puxando de um lado para outro como se fosse uma boneca. – Falei sério.
– Desculpe, acho que estou um pouco na defensiva. – Ele suspirou.
– Não precisa ficar, ao menos não comigo. – Dei um curto sorriso, passando a mão nos cachos perto de sua nuca. – Uma coisa de cada vez, ok?! – Ele assentiu com a cabeça e dei um beijo em sua bochecha. – Vamos lá, tigrão! – Ele riu fracamente.
– Eu vou tentar não surtar de novo, ok?! – Assenti com a cabeça.
– Ok, mas sabemos que isso não é possível. – Puxei-o pelo braço, seguindo por dentro pelos corredores da garagem antes de empurrá-lo para dentro quando chegamos na curva. – Boa sorte!
– Aonde vai? – Ele apoiou a mão na divisão.
– Vou pegar um headphone para mim. – Falei, dando um sorriso.
Segui reto pelo corredor principal com um sorriso nos lábios e ri fracamente. Ok, acho que eu podia confirmar que tinha realmente alguma coisa acontecendo com ele também. Ele estava muito na defensiva e não era normal dele, mesmo comigo com outros caras. De uma forma ou de outra, só sei que estou muito empolgada em descobrir mais sobre isso. Só espero que não demore muito, porque eu realmente não sei se consigo investir em Danny, certeza que eu vou travar e que vai dar tudo errado.
Peguei um headphone perto da sala de telemetria e o coloquei-o antes de voltar até a garagem, vendo-a mais cheia. Danny fazia alguns treinos de reflexo com luzes e espiei se os chefes de estado estavam aqui antes de arranjar um espaço no meu cantinho de sempre.
Faltava uns 10 minutos para o início das classificatórias, então fiquei acompanhando a movimentação dos dois lados da garagem, além do treino de Danny. Eu estava caidaça por ele, mas adoro a atenção dele enquanto fazia esses testes de reflexos. Deixavam-no mais gato ainda, e era assim que eu sabia quão complicada eu estava.
Apesar que, depois da conversa que tivemos alguns minutos atrás, eu praticamente me declarei para ele. Ao menos disse que estava disponível para ele. Não sei qual era pior. Acho que meu julgamento está ficando completamente comprometido por causa dele e tenho uma leve impressão de que só vai piorar.
– Harp! – Danny me chamou e observei-o se aproximar do carro. – Fala o que você falou para mim. – Franzi a testa, vendo algumas pessoas olhando para nós. – Sobre a comida.
– Ah, Daniel! – Falei, rindo. – Ganha que eu trago. – Ri fracamente, vendo-o sorrir.
– Ela vai trazer comida para vocês quando eu ganhar! – Os mecânicos aplaudiram e deram alguns gritinhos.
– É, mas ele precisa ganhar antes! – Falei, piscando para Danny, vendo-o rir.
– Ah! – Os mecânicos reclamaram, me fazendo rir.
– Mancada, Harper! Mancada! – Danny disse e dei de ombros.
– Boa sorte! – Falei e ele assentiu com a cabeça antes de entrar no cockpit.
Suspirei, fazendo um rápido sinal da cruz e ergui meu corpo no banco novamente, focando em uma das várias televisões ali. Ouvi a estática do rádio começando e logo o barulho ficou mais alto quando Danny saiu com o carro e logo depois Kvyat. Esperava que Danny fizesse uma melhor posição, tivemos três corridas que ele bateu na trave, estava na hora de colocar essa bola para dentro.
Danny conseguiu o tempo de 1:38:091 na Q1, deixando-o em décimo lugar. Ericsson da Sauber, Haryanto e Wehrlein da MRT, Nasr da Sauber, Palmer e Magnussen da Renault foram eliminados dessa forma, um por um.
Na Q2, Danny conseguiu reduzir o tempo dele, ficando em 1:37:569, garantindo a vaga dele para a última parte das classificatórias. Com esse tempo, ele conseguiu reduzir sua posição para sétimo. Pena que ele perdeu o espelho direito dele em uma curva bem acentuada e não conseguiu melhorar esse tempo porque voltou para a garagem. Gutierrez e Grosjean da Haas, Hulkenberg da Force India, Button da McLaren e Sainz da Toro Rosso ficaram de fora da última parte.
Danny finalizou a Q3 em sexto lugar, dois à frente do que seu companheiro de equipe. Ele também conseguiu reduzir seu tempo para 1:37:212, mas estava longe de Nico Rosberg que conseguiu fazer o menor tempo na pista na Q2 com 1:35:337. Além de Rosberg, Vettel, Bottas, Raikkonen, Massa, Danny, Perez, Kvyat, Verstappen e Hamilton completaram o restante do grid. O último sem conseguir computar nenhum tempo.
Sexto não era o melhor tempo para começar a corrida, mas não era dos piores. O circuito daqui de Sochi também não era dos mais fáceis, tinha muitas curvas pequenas e próximas uma da outra. Tenha certeza de que Danny conseguia trabalhar com ele da melhor forma possível. Agora era descansar e se preparar para amanhã.
Daniel
– Ei, cara… – Me assustei, vendo Michael entrar em meu quarto.
– Oh, caralho! – Falei, respirando fundo.
– Oh, calma aí! Está na defensiva por quê? – Ele perguntou e ajeitei o prato no meio da mesa. – Uh, mesa bonita.
– É para Harper. – Falei, tentando acender a vela novamente.
– Hum, encontro? – Ele disse, rindo.
– Não oficialmente, mas é… – Dei de ombros.
– E por que não faz isso na sala? – Ele perguntou.
– Para Maria ficar enchendo o saco? Nem a pau! – Ri fracamente, ouvindo uma porta bater. – Deve ser ela, você pode, sei lá, cair fora daqui? – Ele gargalhou alto.
– Ah, cara! Não acredito que eu vivi para ver isso. – Ele saiu do quarto, puxando a porta de leve e corri para perto de um espelho.
Eu estou de pijamas, chinelos e os cabelos estão bagunçados, mas essa é forma que eu mais gosto de ver Harper, especialmente quando ela está com as minhas roupas, então nada mais justo do que aproveitar esse momento.
– Danny! Você disse que ia pedir comida para mim… – Virei rapidamente para porta, tentando parecer relaxado enquanto ela abria para porta. – Ei… – Ela disse, confusa.
– Ei! – Dei um curto sorriso, me sentindo envergonhado.
– O que está acontecendo aqui? – Ela disse rindo e observei seus cabelos molhados e o pijama um pouco mais justo do que os meus.
– Eu pedi jantar para gente. – Dei de ombros. – Você não quis sair, então pedi indicação para o recepcionista do hotel e ele mandou umas comidas russas para gente.
– E essa vela? – Ela deu um curto sorriso.
– Só um toque… – Falei, vendo-a rir fracamente.
– Eu não estou vestida para isso. – Ela passou as mãos nos cabelos.
– Você está… – Me aproximei dela. – Era como eu queria mesmo. – Passei as mãos em seus braços, descendo até suas mãos. – É só um jantar… – Ela olhava em meus olhos e sabia que ela estava tentando estudá-los da mesma forma que eu fazia com seus olhos castanhos.
– Eu estou confusa sobre o que está acontecendo conosco, Danny. – Assenti com a cabeça.
– Também estou. – Suspirei, puxando-a para perto da mesa. – Só quero que saiba que eu quero descobrir. – Ela deu um curto sorriso e um aceno de cabeça. – Se você permitir, é claro.
– Sim… – Ela disse em um sussurro e peguei a flor em seu prato, esticando para ela.
– Não dava para eu ir à floricultura sem parecer suspeito, então eu peguei da decoração. – Ela riu fracamente e aproximou o nariz dela.
– Ao menos é de verdade. – Assenti com a cabeça.
– Você quer se sentar? – Puxei a cadeira dela e ela ajeitou seu short curto antes de se sentar.
– Nem parece você, Danny. – Ela comentou.
– Nem você. – Falei, dando a volta na pequena mesa de dois lugares e me sentando em sua frente. – Eu não sei como agir perto de você, Harp. Eu… Eu estou perdido. – Ela assentiu com a cabeça, juntando o cabelo e enrolando-o antes de jogá-lo para trás.
– Daniel Ricciardo perdido perto de uma mulher? – Ri fracamente. – Eu também estou. – Ela mordiscou seu lábio inferior. – É como se uma outra área do meu cérebro tivesse aberto… – Assenti com a cabeça. – Estou com medo… – Segurei sua mão em cima da mesa.
– Não fique. – Pedi.
– Como não, Danny? Somos amigos por muito tempo para arriscar algo assim… – Neguei com a cabeça.
– Talvez… – Dei de ombros. – Mas não consigo fingir que algo não está acontecendo, Harp. E você também está me olhando diferente…
– Eu não esperava que acontecesse, mas aconteceu…
– Eu sei. Só aconteceu. – Sorri. – Seu sorriso ficou mais bonito, seu cabelo mais brilhante, seu perfume mais forte… – Ela riu fracamente, enrugando as bochechas. – Só demorou 24 anos para eu ver isso, mas aqui estamos. – Ela suspirou.
– Parece loucura quando eu penso sobre isso… – Suspirei, entrelaçando nossos dedos.
– Sempre nos disseram, a gente só não viu. – Ela assentiu com a cabeça. – Vamos descobrir isso juntos, pode ser? Você é a mulher mais importante da minha vida, não sei viver sem você. – Ela deu um curto sorriso. – Mas também não posso fingir que nada está acontecendo.
– Eu sei, mas isso é muito estranho…
– Eu sei. – Rimos juntos. – Mas vamos conseguir. – Ela deu um aceno de cabeça. – E como o Danny e a Harp de sempre, porque você de repente começou a falar menos… – Ela abriu um largo sorriso, rindo em seguida.
– Eu faço isso quando estou nervosa. – Ela suspirou, apertando minha mão.
– Só sou eu, o Danny.
– Eu sei, por isso mesmo. Se fosse qualquer outro cara, seria mais fácil. – Sorri.
– Coisas fáceis tendem a ser chatas. – Falei e ela riu fracamente.
– Talvez… – Ela deu de ombros. – Contanto que seja bom.
– Vou fazer tudo para ser. – Assenti com a cabeça, dando um curto sorriso.
– Você se lembra quando nos convidaram para fazer skydiving? – Ela comentou e franzi a testa.
– Sim, você disse não, eu fiquei de pensar e acabei desistindo. – Falei, ouvindo-a rir.
– Acho que estamos fazendo agora. – Abri um largo sorriso. – E talvez estejamos sem paraquedas dessa vez.
– Eu te pego se você cair. – Falei.
– Você sempre me pegou. – Ela disse, me fazendo sorrir, e desviou o olhar para a mesa. – Ok, o que você preparou para mim, Daniel? – Ri fracamente.
– Bem, eu sei que você gosta de experimentar coisas novas e a essa hora estaria em um restaurante sensacional se não fosse seu amigo fresco aqui…
– Não usa essa palavra. – Ela pediu e franzi a testa. – “Amigo”. – Ri fracamente. – Um mês atrás não teria problema, mas agora é estranho.
– Parece pouco. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
– É! Mesmo com nossa história… Parece muito pouco. – Ela suspirou.
– Ok, deixa eu reformular a frase. – Falei, pigarreando, fazendo-a rir. – Você estaria em um restaurante sensacional se não fosse seu parceiro fresco aqui… – Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás. – Então, eu escolhi algumas coisas que talvez nós dois gostássemos. – Abri a bandeja em cima da mesa, revelando três travessas. – Uma salada, uma entrada e um prato principal. – Mostrei os três. – Não faço a mínima ideia do que tem, mas o cara lá da recepção disse que é mais normal. – Ela riu.
– Está fácil, Danny. – Ela disse, indicando a salada. – Salada Olivier. Basicamente salada de maionese, parece ter ervilha, pepino, cenoura, ovo…
– Seguro! – Falei, vendo-a rir.
– Isso tem cara de ser Pelmeni, se não estiver enganada. – Ela indicou para os pequenos capeletti. – Massa recheada com carne moída, servido com manteiga e creme de leite.
– Gostoso para caramba! – Falei, ouvindo-a rir.
– E esse é o tradicional Frango à Kiev. – Ela sorriu. – Frango desossado frito, normalmente recheado com manteiga de ervas, pode ter outra coisa aqui.
– Viu?! Sabia que você poderia desvendar o que é. – Dei de ombros.
– Para alguém que tem alergia a algumas comidas, foi bem imprudente da sua parte. – Ri fracamente.
– Eu resolvi isso enquanto voltávamos do circuito, eu só pedi um jantar para minha ami… Parceira. – Rimos juntos.
– Isso não vai funcionar. – Ela sorriu.
– Eu não tive tempo de falar das minhas restrições. – Dei de ombros.
– Tirando o creme de leite e a manteiga, não acho que teremos nenhum susto. – Ela disse.
– Eu tomei meu remédio. Está fácil. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
– Atacar, então. – Ela disse e ri fracamente.
– É melhor você servir. – Falei e ela riu fracamente, pegando os talheres e eu tentava tirar os olhos dela, mas era impossível.
MAIO
Domingo
Harper
Eu tinha um sorriso estranho nos lábios, o tipo de sorriso que não saía por nada nesse mundo e tudo era culpa do tonto que também sorria para o nada enquanto se preparava para entrar no cockpit.
Ontem havia sido muito estranho. Depois das classificatórias, ele foi fazer entrevista, depois voltou para a garagem, me puxou para ir com ele até o prédio da Force India para comemorar com Perez e Hulkenberg que estavam completando 100 GPs cada. Kvyat e Alonso também estavam lá, mas foi muito estranho. Danny sempre foi o extrovertido e animado entre nós dois, então me apresentou para ambos, além de Ocon* e os dois da Toro Rosso que eu já tinha encontrado na China.
Até aí, sem problemas, mas, quando voltamos para o hotel, fui tomar meu banho e, quando fui atrás dele, ele tinha montado uma mesa à luz de vela e pediu uma comida super deliciosa para aproveitarmos juntos. Foi fofo, fez meu coração bater forte e me deixou igual uma tonta apaixonada. Ao menos é bom ver que estamos na mesma sintonia, é bom saber que os sentimentos dele por mim também estão mudando e que não é coisa da minha cabeça, mas eu me sentia perdida. Da mesma forma que nosso beijo quando crianças.
Meu coração parecia uma batedeira, minhas mãos tremiam e eu ficava mais quieta e mais reclusa, tentando analisar todos os movimentos da outra pessoa. Procurando alguma brecha de que isso fosse dar errado, mas ainda não encontrei nenhuma. Parecia perfeito demais e aí que eu tinha medo.
– Harp… – Ele disse, me esticando o iPod e tradicionalmente coloquei-o no bolso da calça.
– Faça uma boa corrida, ok?! – Suspirei e ele se aproximou de mim.
– Pode deixar! A gente se diverte mais tarde. – Ele apoiou as mãos em meus ombros e suspirei, abraçando-o apertado.
– Espero que sim. – Suspirei, afastando nossos corpos e ele segurou meu rosto, dando um beijo em minha testa. – As câmeras, Danny. – Empurrei-o devagar pela barriga, fazendo-o rir.
– Eles estão mais interessados nos pneus. – Rimos juntos.
– Arrasa, tigrão. – Falei e ele riu comigo.
– Sabe que isso começa a dar um novo significado, né?! – Ele disse, me fazendo rir.
– Não inventa, Daniel! – Senti meu rosto esquentar, fazendo-o rir.
– Te vejo na linha de chegada! – Ele disse.
– Espero mesmo, faz tempo que eu estou querendo. – Sorri, me afastando alguns passos e ele riu fracamente.
– Hoje vai! – Ele sorriu e dei dois tapinhas nas costas de Nigel antes de me afastar.
Danny fez seu tradicional ritual dentro do carro, colocando o capacete por último e suspirei. O barulho dos motores ligando um a um começaram a incomodar e apertei o headphone mais firme na cabeça.
– Cheque de rádio, Daniel.
– Está frio para um caralho, galera! – Ri fracamente, negando com a cabeça.
– Pare de reclamar e se recomponha para sua amiga! – Sorri para Simon, esticando a mão para ele e tocamos os punhos. – 30 segundos. – Ele disse e suspirei.
Os mecânicos saíram de perto do carro e as luzes se acenderam antes de os carros saírem um a um. Aproveitei para sair junto com eles, atravessando para o pit lane, entrando na garagem antes dos mecânicos e segui para o fundo, me ajeitando em meu banco de sempre ao lado de Michael.
– Pronto? – Michael perguntou.
– Vamos lá! – Tocamos nossos punhos rapidamente e voltei a olhar uma das várias televisões.
Os carros voltaram para o grid, se organizando de volta em suas posições e fiz um sinal da cruz. As luzes começaram a aparecer uma a uma até que se apagaram, iniciando a largada. Todos os carros chegaram bem na primeira curva e tive a impressão de que Danny manteve a posição de largada. Quando chegou na segunda curva, as coisas ficaram mais complicadas.
Kvyat veio por trás, batendo em uma Ferrari, que acabou batendo em Danny, fazendo-o sair para fora da pista, junto de outros carros. Ele conseguiu recuperar por fora e, na terceira curva, Kvyat tocou novamente em outra Ferrari que, dessa vez, foi direto para o muro de contenção. As posições se atualizaram na tela e Danny tinha caído para décimo.
– Merda! Como ele está? – Perguntei apressada, ajeitando o microfone perto da boca e vi que agora Hulkenberg também estava fora. Além de que Sergio Perez tinha um pneu furado.
– Daniel, como está? – Simon perguntou e olhei para o lado, vendo a apreensão do lado de lá do pit lane e Michael me apertou pelo ombro.
– Muito dano, está sacudindo demais. – Ouvi a voz dele. – Preciso trocar a asa dianteira e sei lá o que mais.
– Box agora! – Simon disse, enquanto o safety car entrava na pista.
– Quem foi, Simon? Quem bateu em mim? – Danny perguntou.
– Seb. – Ele disse e olhei para Michael.
– Não foi Seb. – Falei.
– Não, mas não deixa muito melhor. – Michael disse e suspirei.
Danny apareceu nos boxes logo depois e ficaram uns 30 segundos cuidando de seu carro, fazendo diversas trocas, antes de ele ser liberado. Ele caiu para décimo sétimo, isso me deixou muito puta. Kvyat já tinha tido problema na China com entrada muito forte na primeira curva em Seb, agora isso? Vai saber quem mais teve problema com essa entrada rápida dele.
– Porra! – Suspirei.
– Respira, Harp! Está tudo bem. – Michael disse baixo.
– Sabemos que não está. – Falei no mesmo tom que ele. – Foi justo com Vettel. De novo. – Suspirei.
– Ao menos Danny está bem. – Ele disse e suspirei.
– Eu sei, mas é fodido. – Suspirei.
– Respira! Isso é péssimo para a equipe, quanto menos a gente falar, melhor. – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Eu vou pegar um chá. Quer? – Perguntei e ele negou com a cabeça.
Segui até o bar, pedindo um chá para a pessoa atrás do balcão e voltei para o meu lugar. A caneca quente ajudou a manter as mãos mais quentes, apesar do sol lá fora, parecia que nevava dentro da garagem e tinha mais 45 voltas para eu sair daqui.
Eu só conseguia ouvir o rádio de Danny, mas aparentemente Kvyat teve 10 segundos de penalidade pela batida, então ele apareceu no boxe, não fizeram nada em seu carro e ele saiu. Eu estava nervosa e irritada. Danny tinha ido para quase último e estava difícil acompanhar. Era quase meio minuto de distância do décimo sexto lugar. Era muita coisa. Esperava que o carro estivesse bem, não queria vê-lo abandonando.
Na décima terceira volta, Danny conseguiu ultrapassar Sainz, pegando a décima sexta posição. Isso deveria me animar, mas ele precisava de mais, muito mais. Na décima sexta volta, ele conseguiu cair para décimo terceiro e o ânimo foi voltando aos poucos.
– Vettel está com Christian. – Michael disse e inclinei meu corpo para ver o pit wall e fiz uma careta.
– Vai dar problema. – Maria disse e olhei sugestivamente para Michael. Era ela quem estava dizendo, não eu.
10 voltas depois, Danny conseguiu chegar ao décimo lugar e meu corpo começou a relaxar. Já estava dentro da zona de pontos, mas ainda tinha 30 voltas para isso finalizar. Na vigésima nona volta, ele conseguiu chegar em nono, após passar Magnussen, mas só para ser passado por ele e por Grosjean novamente.
– Vamos, Danny! – Suspirei.
Na trigésima volta, ele aproveitou para fazer pit stop e foi outro pit stop relativamente lento. Não de 30 segundos quanto no começo da corrida, mas quase cinco. Ele conseguiu sair em décimo quinto lugar, se encontrando com Kvyat novamente e só queria que ele se afastasse ao máximo de seu companheiro de equipe para dar menos problemas possíveis.
Na trigésima quinta volta, Verstappen, da Toro Rosso, precisou abandonar a corrida por algum problema na unidade de energia. Já na trigésima sétima volta, Danny conseguiu ganhar mais uma posição, mas Kvyat continuava atrás dele e faltavam 16 voltas. Uma depois, Danny passou Ericsson e ganhou a vantagem com seu companheiro de equipe.
Danny travou nessa posição até a quinquagésima volta, quando ele finalmente passou Jolyan Palmer, ficando em décimo segundo lugar. Tinha duas voltas para ele conseguir pegar pelo menos a zona de pontuação. Depois de toda bagunça antes da corrida, acho que ao menos um ponto Danny merecia.
Rosberg acabou ficando em primeiro lugar novamente, seguindo de Hamilton e Raikkonen para completar o pódio. Depois vieram Bottas, Massa, Alonso, Magnussen, Grosjean, Perez, Button e só então Danny. Décimo primeiro lugar. Danny estaria muito puto e eu não julgo. Era difícil ver Danny irritado, mas dessa vez seria com estilo.
– Harper… – Virei para Maria. – Não vá com tanta pressa atrás do Danny, ok?!
– Por quê? – Perguntei.
– As coisas vão esquentar aqui hoje e é melhor você ficar de fora disso. – Assenti com a cabeça.
– Tudo bem, eu espero aqui. – Falei. – Ao menos assim não tenho chance de encontrar o Putin andando por aí. – Falei, ouvindo-a rir fracamente.
– É, ao menos isso. – Ela disse, se afastando.
*Esteban Ocon: atual piloto francês da Alpine, 25 anos. Em 2016 ele era reserva da Renault e teve sua primeira chance na Fórmula Um. Foi companheiro de equipe do Daniel em 2020.
Daniel
– Bem, nos falamos amanhã. – Maria disse. – Sinto muito, Daniel.
– Obrigado. – Falei, coçando os olhos. – Eu vou direto para cama. – Falei para Harp e Michael.
– Boa noite, cara. – Michael disse.
– Eu logo vou. – Harper disse, apertando meu braço e assenti com a cabeça.
Segui pelo corredor, entrando no quarto do meio e fechei a porta. Deixei minha mochila cair perto da cama e tirei o casaco. Peguei meu moletom na bancada e fui até o banheiro. Tirei as roupas da Red Bull e coloquei a calça de moletom e uma camiseta por cima. Apoiei os braços na pia e liguei a torneira.
Eu odeio quando as corridas acabam dessa forma. Ela tinha praticamente acabado depois daquele incidente louco do Kvyat. Christian pediu para eu manter a calma, mas o que ele estava pensando? Segunda vez que ele fazia algo assim, e novamente com Seb. A reunião depois da corrida foi difícil, quase como respirar embaixo da água, então sabia que tinha mais coisa ali, só não tive coragem de perguntar, já tinha estourado um pouco demais.
Saí do banheiro, indo direto para cama e me joguei nela. Puxei o edredom, cobrindo até minha cabeça e fechei os olhos. Que porra! Para ajudar, fiquei fora da zona de pontos e fui para quarto no campeonato. Precisava recuperar esses pontos na próxima corrida, ao menos é na Espanha e dava para ter certa vantagem.
– Danny? – Ouvi a voz de Harper antes de dois toques na porta. – Posso entrar?
– Você pode. – Falei, virando meu rosto para porta, vendo-a entrar no quarto já de moletom.
– Ah, Danny! – Ela fechou a porta, vindo para perto da cama e segurou a coberta antes de se sentar ao meu lado. – Não quero que fique assim.
– Eu só estou puto, mas não acho certo descontar em ninguém.
– Não precisa descontar em ninguém. – Ela apoiou a mão em minha cabeça, mexendo no meu cabelo. – Eu estou aqui por você, ok?!
– Essa é a melhor parte em te ter aqui, sabia? – Falei, apoiando a cabeça em sua coxa, suspirando com o carinho.
– Qual?
– Ter você para me consolar depois de uma corrida péssima. – Suspirei, relaxando com seu carinho.
– Ao menos agora eu sei o que você faz depois desses momentos e porque eu nunca consigo falar contigo.
– Eu não sou a melhor companhia agora. – Falei, suspirando.
– Eu sou sua amiga, Danny. Eu te vi nos seus melhores e piores momentos, eu estarei contigo para o que precisar, mesmo se você estiver chato. – Ri fracamente.
– Achei que não era mais para usar a palavra “amigo”. – Falei e ela riu fracamente, descendo a mão para minha nuca.
– Você precisa de uma amiga agora. – Ela disse e suspirei. – Eu estou aqui para isso. – Suspirei, sentindo meu corpo relaxar devagar.
– O que aconteceu na garagem? – Perguntei. – Depois da batida.
– Ficou um clima estranho. – Ela disse, ajeitando a coberta em cima de mim. – Eu estava brava, Mike pediu para eu me acalmar, mas eu não consegui olhar do outro lado da garagem dele. A família dele estava lá, não queria causar problemas.
– Você causando problemas por causa de mim? – Ri fracamente.
– Não seria a primeira vez, vai. – Ela disse e sorri.
– Não mesmo, mas queria ver se você ia subir nas costas dele e encher de porrada igual da outra vez. – Rimos juntos.
– Eles são russos, Danny. Você também vê os filmes. – Ri, erguendo minha cabeça, olhando para ela.
– Melhor não se meter com eles. – Falei.
– Exatamente. – Virei o corpo para o lado, deitando na cama.
– Deita aqui… – Pedi e ela deslizou o corpo pelo colchão, se deitando ao meu lado e passei meus braços ao redor da sua cintura antes de deitar em seu peito.
– Eu gosto do Daniel manhoso, tira aquela imagem daquele poderosão e gostosão que você coloca de vez em quando. – Ri fracamente, sentindo sua mão em meus cabelos de novo.
– Mas eu também sou poderoso e gostoso. Qual é. – Ela riu fracamente.
– Metido também. – Ela deu um beijo em minha cabeça, me fazendo sorrir.
– Eu estava pensando em você depois da batida. Você ficou bem?
– Uhum. – Ela fez um movimento com a boca. – Sobre a batida, foi tudo bem, Danny. Não foi forte, depois só fiquei brava mesmo. – Sorri. – Agora, se você tivesse algo mais sério, talvez eu tivesse surtado mais e de outra forma. – Assenti com a cabeça.
– Aposto que você já superou o trauma. Vai dar tudo certo da próxima vez. – Falei, apertando minhas mãos em sua cintura.
– Honestamente? Eu não quero descobrir. – A ouvi suspirar e ergui os olhos para ela. – Só mantenha dessa forma, ok?!
– Não se preocupe, também não quero descobrir. – Olhei em seus olhos, vendo-a dar um curto sorriso.
– Eu tenho que te contar algo. – Ela disse, acariciando meu rosto e tombei o rosto para o lado, deixando cair no travesseiro e ela se virou, ficando de frente para mim.
– O quê? – Perguntei.
– Acabei ouvindo Christian e Helmut conversando depois da corrida. – Ela pressionou os lábios. – Eles provavelmente vão tirar o Kvyat da equipe. – Arregalei os olhos.
– Mesmo? – Ergui o corpo rapidamente.
– Parece que sim. – Suspirei. – Helmut não parecia muito feliz e Christian mais escutava do que falava. Acho que estava levando uma bronca.
– Se eles tirarem o Kvyat da equipe, provavelmente vão mandá-lo de volta para a Toro Rosso. – Falei, pensando. – Quem será que vão trazer? Carlos ou Max? – Dei de ombros.
– Max abandonou a corrida pela trigésima volta por problema na unidade de energia. – Dei de ombros. – Carlos terminou atrás de você, se não me engano. – Ponderei com a cabeça.
– O GP da Espanha tem tudo para ser bagunçado, já estou até vendo. – Suspirei, tombando minha cabeça no travesseiro de novo.
– Calma, Danny. Temos duas semanas até lá. – Ela abraçou o travesseiro com os dois braços, aproximando o rosto do meu. – Descansa, ok?! Amanhã você tem seu descanso, seu relaxamento, na terça eles devem falar algo para você. – Suspirei, olhando seus olhos escuros.
– Sabe o que eu gostaria de fazer agora? – Falei, passando um braço em sua cintura.
– O quê? – Ela perguntou, rindo.
– Ir para Mônaco e ficar lá contigo. – Ela riu fracamente.
– Estaremos lá até o fim do mês. – Ela sorriu.
– Mal posso esperar. – Sorri, olhando para ela e aproximei meu rosto do dela.
– Não faça isso agora… – Ela pediu. – Não quero que nosso primeiro beijo seja lembrado junto do desastre de hoje. – Ri fracamente.
– Você está certa. – Sorri e dei um curto beijo em sua bochecha. – Mas não se esqueça que é nosso segundo. – Ela mordiscou o lábio inferior.
– Você ainda lembra… – Ela disse.
– Meu primeiro beijo, não tem como esquecer. Não era um garanhão como hoje, mas… – Ela bateu em meu ombro. – Ai!
– Cala a boca. – Ela disse, rindo e passou o braço em minha barriga. – E desliga a luz. – Ela apoiou a cabeça em meu peito e ri fracamente.
Ergui a mão, batendo no disjuntor e passei meus braços pela sua cintura, apertando-a contra meu corpo. Deixei um beijo em sua testa e fechei os olhos, sentindo meu corpo relaxado, quase como se eu estivesse em cima de uma nuvem. Mas não, é só Harper fazendo meu coração bater mais forte.
Capítulo 13
Perth, Austrália, 2002
– Eu não sei. – Harper sussurrou. – A gente vai encontrar a Michelle na educação física, posso perguntar para ela.
– Acho que vai ser só a gente mesmo, né?! – Déborah sussurrou. – Nós, Mike, Danny…
– E os amigos do Danny, Blake, Tom, Bruce, o Jason…
– Quem é Jason? – Ela perguntou.
– O namorado da Michelle! – Harper disse como se fosse óbvio. – Ah, acho que eles começaram a namorar nas férias.
– O que joga cricket? – Déborah perguntou. – Do terceiro ano?
– Isso! – Harper disse, sorrindo.
– Vai convidar alguma menina tirando nós três? E nem sei se a Michelle conta muito. – Harper suspirou, dando uma olhada nos outros alunos da sala de aula.
– Nem a pau! – Ela negou com a cabeça. – Só os amigos dele, é aniversário dele.
– A gente fala com a Michelle e decide. – Déborah disse e Harper assentiu com a cabeça.
– Será que as duas tagarelas aí do fundo podem ficar quietas? – Harper ergueu o rosto para a voz nojenta e era óbvio quem era. – Estou querendo prestar atenção.
– É porque você não tem capacidade da fazer duas coisas ao mesmo tempo, né?! – Harper respondeu, fazendo Déborah e os meninos em volta gargalharam.
– Olha aqui, Harper! – Jemma se levantou e a professora ergueu o corpo rapidamente.
– Olhar o quê? Você enfiar essa unha de porcelana na minha cara? – Harper inclinou o corpo na mesa.
– Meninas, por favor! – A professora se colocou no meio da duas.
– A senhora disse que quem terminou o trabalho podia conversar baixo e eu terminei. – Harper disse, dando de ombros.
– Mas não está falando baixo. – Jemma disse, se aproximando de Harper e os olhos de Danny tinham travado na amiga.
– Estou sim, não é culpa minha se você tem a orelha do Dumbo e fica bisbilhotando na conversa dos outros. – Harper disse, fazendo a risada de Danny ecoar pela sala, encadeando em várias outras risadas.
– Harper, Jemma, por favor. – A professora tentou intervir de novo.
– Pelo menos os garotos gostam de mim, não de uma esquisitona como você. – Harper franziu a testa.
– Caso você não tenha percebido, mas essa área inteira é dos meus amigos. – Ela deu de ombros, apontando para trás.
– É, como amiga, nunca como namorada. – Jemma riu, sozinha. – Maria João que fala, né?!
– Sua… – Harper foi para cima de Jemma, mas a professora a parou.
– Segura a fera, professora, ela pode contaminar todo mundo com essa raiva. – Harper já estava fervendo de raiva, mas a professora de ciências conseguia segurar Harper firme.
– Harper, Déborah, todo mundo que terminou a tarefa, para fora, agora! – A professora disse firme e Harper bufou.
– Vem, Harp. – Déborah pegou as duas mochilas e puxou a mão da amiga. – Vamos lá fora.
Harper encarou os olhos de Jemma, vendo a patricinha sorrir em vitória e deixou sua amiga puxá-la para fora da sala. Harper espumava. Não era a primeira vez que Jemma a chamava de homem pela amizade com os meninos, ela nem se importava, mas ela fazia questão de falar isso toda vez que ela estava perto dos meninos e tinha uma queda por um deles.
Harper não tinha muito com o que se irritar, ela tinha mais amigos homens, fazia parte do time feminino de cricket da escola, mas ela não agia como menino e nem se vestia como menino. Não era culpa dela que a escola exigia uniforme e que nem todo mundo achava que era um desfile de modas para se maquiar sempre! Além de que eles nem tinham idade para essa maquiagem, mas por algum motivo, Jemma tinha os olhares de vários alunos da quinta até a oitava série.
– Eu vou matar ela! – Harper saiu irritada da sala.
– Calma! Respira fundo! – Déborah disse, apoiando as mãos nos ombros da amiga.
– Eu vou matar ela! – A menina tentava não falar tão alto.
– Ela é uma idiota, você sabe disso!
– Argh! – A menina apertou o rosto, sentindo as lágrimas de raiva cegarem seus olhos e ela deixou seu corpo escorregar no chão, afundando o rosto nas pernas. – Eu odeio aquela menina!
– Respira fundo, Harp. – Déborah pediu.
– Harp! – A menina ergueu o rosto, vendo Danny e Mike saindo da sala e ela suspirou, passando as mãos nos olhos. – Ah, Harp!
– Eu estou bem! – Ela disse. – Só estou com raiva. – Ela suspirou e Danny se sentou ao seu lado, abraçando-a. – Eu estou bem.
– Já falei para você, para de se importar com o que essa idiota fala. – Ele falou contra seu ouvido. – Você é linda e ela é uma idiota! – Harp sorriu.
– Obrigada, Danny. – Ela passou as mãos nos olhos e ele deu um sorriso. – Mas eu a odeio. – Ela bufou.
– Por que a gente não vai almoçar no centro? – Danny sugeriu. – A gente pode tomar sorvete naquele lugar que você gosta. – Ela deu de um curto sorriso, Danny sempre sabia como deixá-la feliz.
– Pode ser, só não quero vê-la tão cedo! – Ela suspirou, coçando o nariz.
– Vamos! Eu deixo você pegar três bolas! – Ele brincou, fazendo-a dar um curto sorriso. – Vamos!
Harper não tinha tempo de pensar, ainda estava com a cabeça fervendo pelo que aconteceu dentro da sala, mas talvez esfriar a cabeça seja o que ela precisava. Ela levantou o corpo de má vontade e pegou sua mochila, colocando nas costas.
– Vamos sair desse buraco. – Danny disse e ela suspirou, assentindo com a cabeça.
– Vamos. – Ela ajeitou as alças da mochila e Danny abraçou-a pelos ombros antes de puxá-la pelo corredor da escola.
Sochi, Rússia, 2016
Harper
– Uma garrafa de água, por favor. – Pedi, tirando alguns rublos da carteira.
– 80 rublos. – A vendedora disse e contei o dinheiro, entregando no balcão e a garrafa tomou o lugar, depois o troco.
– Spasibo*. – Falei, fazendo a mulher sorrir e juntei as coisas de volta na mochila antes de seguir para perto novamente da equipe de Danny e de Felipe que estavam juntas.
Eu estava fora da conversa, estava me preparando para mais um voo longo, estava na hora de voltar para Barcelona, mas dessa vez para o GP. Me sentei na poltrona do salão de embarque VIP e peguei meu tradicional remédio para enjoo – e para dormir – na bolsa. Estava quase destacando o remédio da cartela, quando Danny o puxou de sua mão.
– Danny! – Ergui o olhar para o amigo.
– Hoje você não vai tomar isso. – Ele disse, guardando o remédio na bolsa.
– Qual é, Danny! É mais um voo longo, chato e difícil! Eu mereço dormir. – Me levantei, esticando a mão para ele.
– Não! – Ele disse firme. – Você vai aproveitar a viagem.
– Danny, por favor… – Tentei pegar a cartela de sua mão e ele colocou as mãos no bolso, virando o corpo para o lado contrário de onde eu tentava ir. – Daniel Joseph Ricciardo.
– Harper Elizabeth Addams. – Ele falou do mesmo jeito e revirei os olhos. – Eu sou seu amigo, confia em mim.
– Ah, essa confiança de novo. – Revirei os olhos.
– Vamos, gente? – Virei o rosto, vendo Maria.
– Vamos? – Danny sorriu para mim e suspirei. – Prometo que vai valer à pena. – Ele esticou a mão e suspirei.
– Eu vou te matar no sono, Daniel. – Ignorei sua mão, seguindo por onde Maria foi, apertando as mãos nas alças da mochila.
A equipe de Danny e Felipe foram em frente e segui logo com eles. Passamos pelo balcão da companhia aérea, depois pela porta automática e franzi a testa ao sairmos na rua. Segui meu passo com eles e passamos por outra porta automática e estava na pista do aeroporto. O pessoal à minha frente andava quase em fila indiana, entrando em um jatinho.
– Porra! – Falei, entreabrindo os lábios com o pequeno avião e foi impossível não rir e sorrir ao mesmo tempo.
– Agora entende por que eu não queria você dormindo? – Ouvi a voz de Danny atrás de mim, além de sua mão em meu ombro.
– Vamos de jatinho? – Perguntei, rindo.
– Estava te devendo, né?! – Ele disse e sorriu. – Vem! Nem é grande coisa assim! – Ele me puxou pela mão e ri fracamente, seguindo com ele.
– Isso é o que pessoas que andam de jatinho falam. – Disse, apertando sua mão enquanto ele me puxava para a escada.
– Senhorita Addams… – Ele fez uma reverência exagerada quando chegamos à escada e ri fracamente antes de apertar o corrimão, me impulsionando para cima, subindo as escadas.
Uma comissária muito bonita estava na entrada da aeronave e dei um aceno de cabeça antes de entrar na área de assentos. Felipe, seu treinador e seu assessor se ajeitavam do lado esquerdo da aeronave e Michael fazia o mesmo do lado direito. O espaço era pequeno, claro, mas os bancos isolados de couro, as mesas, as toalhas quentes, o champanhe em cima das mesas e até o cheiro do local me mostrava que era incrível fazer parte daquela pequena e seleta turma de milionários. Mesmo que eu não fosse uma.
– Me dá sua mochila. – Danny pediu e tirei-a das costas, esticando e ele abriu o bagageiro, colocando sua bagagem, depois pegou a minha e colocou também. – Fica à vontade. – Ele indicou as poltronas.
– Pode ir na janela, sei que gosta. – Falei e ele se sentou na poltrona da janela e me sentei na do seu lado.
Para Michael, isso parecia normal, ele pegava seu iPad, seus fones de ouvido e dava até um gole no champanhe em sua frente. Eu me sentia um peixe fora d’água, era muito estranho. Fechei meu cinto de segurança e Danny pegou uma taça, me esticando e dei um curto sorriso ao pegar.
– O remédio com o champanhe ia te derrubar mais ainda. – Ele disse, pegando a outra taça e ri fracamente.
– Ou fazer um cancelar o outro. – Falei e ele riu fracamente.
– À nós? – Ele sugeriu com a taça inclinada na minha.
– À um bom fim de semana. – Falei e ouvi o tilintar.
– Enchanté. – Ele disse, me fazendo rir e dei um gole no champanhe, suspirando com o sabor suave.
– É… Isso é bom. – Suspirei e sorriu.
– Sabia que ia gostar. Quer tirar uma foto? – Ele puxou o celular do bolso e sorri. Inclinei meu rosto para perto do dele e ele fez o mesmo, apertando o botão algumas vezes.
– Nessa poltrona, talvez eu durma até sem remédio. – Comentei, apoiando a taça na mesa.
– Aproveita, Harp. – Ele disse e assenti com a cabeça.
Demorou ainda alguns minutos para a pequena tripulação fazer as últimas preparações para voo. Sabia o esquema de um voo comercial normal, agora um particular em um jatinho não tinha nem ideia. Enquanto isso, eu acabei terminando com o champanhe, o que foi bom, pois a comissária retirou tudo o que estava solto das mesas antes de dar algumas rápidas instruções de segurança e sabia que estávamos prontos para a decolagem.
– Não estranhe na decolagem, tá? – Danny sussurrou para mim. – Pelo avião ser menor, ele sacode um pouco mais. – Assenti com a cabeça, respirando fundo. – Pode segurar minha mão se quiser.
– Você quer que eu segure sua mão? – Brinquei, virando o rosto para ele com um sorriso nos lábios e rimos juntos.
– É claro! – Ele disse, esticando a mão para cima e apoiei a minha em cima da sua, deslizando meus dedos entre os seus, entrelaçando-os. Tombei minha cabeça para seu ombro e suspirei.
O avião começou a andar após alguns minutos e apoiei a outra mão no braço da poltrona e esperei em silêncio, ouvindo conversas rápidas entre Felipe e seu assessor. O avião ficou parado na pista lateral por alguns segundos antes de alinhar e foi aí que ouvi o barulho do motor ligando, indicando que seria agora.
Endireitei meu pescoço, apertando a mão de Danny e senti o avião começar a correr na pista. Só nessa corrida deu para notar o sacudir mais forte do avião, fazendo minha mão apertar com força a de Danny. Eu queria falar um palavrão, mas estava me contendo para não parecer a apavorada andando de jatinho pela primeira vez.
Quando o avião levantou voo, o sacolejar continuou, fazendo minha cabeça doer e pressionei os olhos, mantendo a cabeça pressionada para trás. Se aquilo continuasse mais um pouco, eu enjoaria e não tinha visto saquinho de vômito na poltrona da frente.
– Respira. – Danny sussurrou a ponto de sentir sua respiração em minha orelha. – Logo nivela. – Ele apertou minha mão e soltei a respiração devagar pela boca. – Só mais uns minutos.
Ele fez um carinho de leve em meu braço com a outra mão enquanto o sacolejar continuava e demorou cerca de uns 10 minutos para tudo se acalmar, como se não tivesse acontecido nada. Notei que minha respiração estava pesada e eu a soltava com força pelo nariz. Danny continuava apertando minha mão e acariciando meu braço.
– Melhor? – Ele perguntou e assenti com a cabeça, respirando com força.
– Deus! Isso é horrível! – Suspirei, vendo Mike sorrir para mim, me fazendo suspirar.
– O avião maior tem mais espaço para absorver a carga, agora o pequeno não. Quando chove é pior, mas acho que não vamos ter mais problemas. – Suspirei.
– Espero que não. – Relutantemente soltei a mão de Danny e apertei a cabeça com as duas mãos. – Minha cabeça pesa uma bigorna.
– Logo melhora. – Ele falou.
– É por isso que eu tomo remédio para enjoo, porque foi quase! – Falei, ouvindo-o rir fracamente.
– Eu deixo você tomar depois. – Ele disse. – Na verdade, não deixo, a próxima é Mônaco, a viagem é mais rápida.
– Quanto tempo até a Espanha? – Perguntei.
– Umas sete horas. – Fiz uma careta.
– Ai, Danny, muito tempo. – Ele riu fracamente.
– Tem sempre um jogo, um filme, alguma coisa para fazer.
– Acho que eu aceitava dormir. – Suspirei.
– Você pode deitar a poltrona ou encostar em mim. – Ele deu um largo sorriso sacana e ri fracamente.
– Não posso nem falar que tem algo a ver com seus sentimentos, você sempre foi filho da mãe assim. – Ergui o separador de poltrona e me deslizei mais para perto dele, apoiando a cabeça em seu ombro.
– Minha mãe tem muito orgulho disso. – Ele brincou, me fazendo rir.
– Você é ridículo, Daniel Ricciardo. – Falei.
– E você gosta de mim desse jeitinho. – Ri fracamente.
– Onde eu fui me meter, né?! – Suspirei e ele apoiou a mão em minhas costas.
Fazia muito tempo que não ficava acordada em um voo e talvez preferisse não estar. Pelo tamanho do avião, tinha muito mais turbulência do que um voo normal e já tinha vindo para cá na ida e o voo da KLM não tinha sacudido tanto assim. Mas tinha o conforto, é claro. Além do espaço para as pernas, o serviço de bordo excepcional e poder literalmente erguer os pés no colo de Danny, eram só um dos pontos positivos.
Eu acabei tirando algumas sonecas, joguei um pouco de baralho com Danny, Felipe e o assessor dele, conversamos bastante e fizemos sessões ridículas de fotos, isso fora da turbulência, que eu ficava um pouco mais tensa, enquanto os outros pareciam acostumados com isso. De uma forma ou de outra, chegamos no aeroporto de Barcelona por volta das três da tarde no horário local.
O pouso também foi um tanto turbulento, acho que por voar um pouco mais baixo do que os aviões maiores, ele sacudia mais. A vantagem é que a imigração espanhola nos encontrou dentro do avião e liberou a entrada de todos antes mesmo de descer do avião. Esse é o conforto dos milionários.
O desembarque foi feito pela pista e entramos na sala de desembarque VIP do aeroporto. Nos despedimos da equipe de Felipe, apesar de saber que os encontrariam amanhã mesmo, e Maria nos guiou para fora do desembarque. Danny empacou com alguns fãs e o esperamos até Maria, sem paciência como sempre, tirá-lo dali. Seguimos para o lado de fora do aeroporto e um carro nos esperava.
– Vamos deixar vocês no hotel e depois vou para o motorhome. – Maria disse.
– Michael vai ficar no hotel também? – Virei para ele.
– Sim! – Ele assentiu com a cabeça.
– Ah, que ótimo. – Ri fracamente.
– Assim você pode descansar e nos encontramos amanhã, que tal? – Danny disse e assenti com a cabeça. – Ao menos você pode dormir normalmente, não desmaiar como sempre. – Ri fracamente.
– Tonto! – Falei e ele deu um beijo em minha cabeça.
– Se vocês precisarem de algo também, só falar com a gente, o hotel fica a 10 minutos do circuito, eu mando o carro mais cedo. – Maria disse.
– Tudo bem, agradeço. – Falei, dando um curto sorriso.
Do hotel ao circuito era por volta de 10 minutos, agora do aeroporto para o hotel demorou um pouco mais, cerca de meia hora. A vantagem é que passamos perto da Sagrada Família, mas já tinha conseguido visitá-la durante os treinos pré-temporada, inclusive rezar bastante para que nada de errado acontecesse. Tirando o acidente de Alonso na primeira corrida, estava indo bem.
– Chegamos. – Maria disse quando o carro parou. – A reserva está no nome de vocês mesmo.
– Quer que acompanhe vocês? – Danny perguntou.
– Não, que isso! Você também precisa descansar. – Falei, vendo Michael sair primeiro e tirei o cinto de segurança. – A gente fala no WhatsApp. Descansa também, amanhã o dia começa cedo. – Dei um curto sorriso e ele assentiu com a cabeça. – Dorme bem. – Colei meus lábios em sua bochecha, vendo-o sorrir.
– Você também. – Ele sorriu.
– Obrigada, Maria. Boa noite.
– Boa noite. – Ela falou e me arrastei para fora do carro, vendo Michael esticar minha mochila. – Tchau! – Falei, acenando e vi o carro sair, com Danny acenando pelo vidro de trás.
– Agora somos nós. – Michael falou.
– Vamos, Mike! – Suspirei, seguindo para dentro do B&B Hotel Barcelona Mollet.
O hotel não era tão luxuoso e nem grande quanto dos outros lugares, mas nunca tinha ficado nesses tipos de hotéis antes e não era agora que ficaria mal-acostumada. Ele era similar aos que eu ficava durante minhas viagens, se a cama e o chuveiro fossem bons, não precisava de mais nada. Só queria um banho relaxante e deitar um pouco, já que não dormi no voo e o fuso-horário estava meio bagunçado.
Ao menos colocaram eu e Michael em dois quartos diferentes, somos amigos há anos, mas não tenho a mesma intimidade que tenho com Danny. Bem menos, na verdade, pensando nos últimos acontecimentos.
– Eu vou descansar, a gente se fala mais tarde. – Falei, na porta do meu quarto.
– Claro! Pretende sair para jantar? – Ele perguntou.
– Não sei ainda. – Suspirei. – Te aviso se for.
– Combinado! – Ele assentiu com a cabeça. – Boa noite, Harp.
– Boa noite, Mike! – Falei e abri a porta do quarto.
A decoração do quarto era simples, em tons de cinza. Tinha uma cama de casal no meio dela, uma pequena mesa com uma poltrona laranja no canto do quarto e uma pequena porta escondia o banheiro. Suspirei, deixando minha mochila no canto da cama e tirei meus tênis e o sutiã antes de pular na cama. Levantei o corpo para pegar o celular na mochila e esperei conectar no Wi-Fi, vendo as diversas notificações surgirem e vi uma mensagem de Danny.
“Já se acomodaram aí?”
“Sim, deitei uns minutos, mas devo tomar um banho antes.”
“Pensando bem, acho que da próxima vez você pode ficar no motorhome comigo, ele é maior do que eu lembrava.” – Ri fracamente, respondendo de novo.
“Nunca foi problema dividir cama contigo, por que seria agora?” – Sorri.
“Garanto que agora é bem mais legal!” – Ri fracamente, negando com a cabeça.
“Quem sabe no próximo GP?” – Mordisquei o lábio inferior.
“O próximo é em Mônaco, vamos dividir minha cama mesmo!” – Sorri, sentindo meu rosto arder.
“Mal posso esperar!” – Respondi, rindo sozinha com a mensagem enviada.
“Maria está ferrando meus sonhos e quer que eu vá trabalhar um pouco.”
“É para isso que estamos aqui, Danny. Se comporte!”
“Sempre!” – Ri fracamente. – “Nos falamos depois?”
“Sim, estarei aqui”. – Enviei, suspirando.
Vi a mensagem ficar azul, mas a resposta não veio em seguida. Suspirei, deixando o celular cair na cama e ri fracamente, mordiscando os lábios. Droga! Agora estou sorrindo para o celular! Estou querendo realmente dividir a cama com ele com outros interesses! Qual vai ser a próxima? Merda! Eu estou verdadeiramente ferrada.
*Obrigado em russo.
Barcelona, Espanha
Quinta-feira
Daniel
Me olhei no espelho, passando as mãos na barba um pouco mais cheia e depois subi para os cabelos para tirar o resto do úmido. Os cabelos estavam um pouco mais cumpridos em cima, mas estava bom o suficiente para Harper ficar brincando com eles na hora do tédio.
Deus! Isso é loucura! Eu estou caidinho por ela e não sei nem como tudo começou. De repente ela se tornou a mulher mais incrível, bonita, sexy, engraçada, carinhosa e eu estava louco para beijá-la, apertar minhas mãos por dentro de sua roupa e dormir ao seu lado de forma que eu possa deixar meu corpo responder aos seus instintos sem ficar constrangido por isso ou achar que vou para o inferno.
Bom, eu ainda posso ir, se o pai dela estiver lá em cima prestando contas com o Senhor Todo Poderoso, ele provavelmente não vai me mandar nem para o Purgatório, vai ser direto. Mas espero que tio Alex veja como eu estou apaixonado de verdade pela sua filha. Como Michael disse, é um finalmente, certo? Faz tantos anos, já ouvimos de tantas pessoas a pergunta de “são só amigos mesmo?” ou “aquela é sua namorada?” e agora eu estava louco para responder não e sim.
E tudo isso aconteceu em menos de um mês.
Merda! A vida funciona rápido mesmo.
Saí do banheiro, seguindo até a pequena sala e puxei minha mochila, abrindo-a e conferi rapidamente as últimas coisas. Peguei minha mochila de viagem, pegando meu crachá e passaporte. Coloquei o primeiro no pescoço, o segundo na mochila e juntei meu celular nela também. Ia me sentar na poltrona quando ouvi um barulho de carro e fui até a porta do motorhome, abrindo-a e vi Harper ser a primeira a sair dele.
Ela estava com a mesma roupa da Red Bull de sempre, mas diferente da calça ou do short jeans, ela estava com uma saia vermelha que deixava boa parte de suas pernas para fora e um All-Star sem meia. Ela tinha alisado os cabelos mais uma vez e os óculos de sol pareciam deixá-la mais bonita ainda, ou eu que estou um bobo apaixonado.
– Me sinto no filme da Família Buscapé. – Ela disse, me fazendo rir e desci os degraus, andando até ela. – Mas tem seu charme.
– Oi. – Sorri, abraçando-a pela cintura e ela mordiscou o lábio inferior.
– Oi. – Ela falou perto do meu ouvido, respirando perto dele e vi Michael rindo atrás dela. – Dormiu bem?
– Poderia ter dormido melhor. – Falei, erguendo o rosto, ouvindo-a rir. – E você?
– Não desmaiei, mas deu para dormir a noite toda. – Ela deu um curto sorriso.
– Vocês saíram ontem à noite? – Perguntei, cumprimentando Michael com um estalo de mãos.
– Nem, eu fiquei de preguiça e acabei pedindo serviço de quarto. – Harper disse e Michael assentiu com a cabeça.
– Eu estava precisando descansar um pouco também. – Michael disse.
– Posso entrar? – Harper perguntou.
– Claro! – Dei espaço para ela entrar e subi os degraus logo atrás dela. – Uau, é grande! Quando você disse, pensei naquelas caravans, não em um negócio desse tamanho. – Ela andou pela sala, beirando a bancada. – Tem até forno!
– É bem completo, eu reclamei demais para você. – Falei, vendo-a rir fracamente. – Deixa eu te mostrar. – Indiquei com a cabeça. – Aqui na porta tem freezer, geladeira, forno, controle de ar-condicionado. – Indiquei logo atrás. – Aí tem armários com utensílios e algumas comidas, máquina de café, sofá, poltronas que dá para puxar se tiver mais gente. Teto solar. – Indiquei para cima, vendo-a rir. – Tem um minibar ali. – Indiquei para baixo. – Mas eu não fico aqui.
– Isso é demais. – Ela disse, rindo e puxei sua mão pelo pequeno corredor.
– Do lado direito tem um guarda-roupa, do lado esquerdo tem banheiro. – Abri a porta escondida. – O chuveiro é gostoso. – Sussurrei para ela, vendo-a rir e senti um tapa em meu braço, me fazendo gargalhar. – Aqui em cima tem o quarto. – Subi as poucas escadas em sua frente. – Cuidado com a cabeça… Cama… – Ela veio logo atrás. – Deveria ter arrumado.
– Sempre, né?! – Ela apoiou a mão em meu ombro, se mantendo levemente inclinada.
– Tem uma TV, mas nunca usei. – Ela riu fracamente.
– É bem confortável. – Ela disse e pisquei para ela.
– É, dá para se divertir. – Ela riu fracamente.
– Idiota! – Ela falou, descendo as escadas.
– Aí aqui embaixo… Empurra essa porta. – Ela o fez e desceu as escadas em minha frente. – Tem uma bicicleta de cross, aqui que tem uma pista boa para andar aqui atrás. – Ela riu fracamente. – Dá para fazer ginástica, alongamento.
– Estou impressionada. – Ela sorriu. – Se bobear, é maior do que o hotel.
– Mais ambientes que o hotel tem! – Michael falou, fazendo-a rir.
– O hotel é gostoso. – Harper disse. – Mas aqui é bom também. – Ela mordiscou o lábio inferior, me fazendo suspirar.
– Você precisa parar de fazer isso. É sexy! – Pedi, vendo-a rir.
– Não é de hoje! – Ela deu de ombros, voltando a subir as escadas. – Bom, acho que precisamos ir.
– Começar o dia com reunião. Que delícia! – Falei, pegando minha mochila e ela desceu as escadas, saindo do motorhome.
– Não é estranho mudar de companheiro de equipe no meio da temporada? – Ela comentou e dei uma rápida olhada em volta antes de sair com ela.
– Até é, mas acontece. Depende do desempenho do piloto, algum escândalo, acontece… – Desci as escadas. – Eu tive minha primeira chance por isso. Substituíram o Narain Karthikeyan no meio da temporada e eu entrei.
– Verdade! – Ela virou o rosto para mim! – Eu fui, não fui?
– Foi, foi no dia que descobrimos seu trauma. – Ela fez uma careta.
– Oh, verdade. – Fechei o motorhome.
– Fiquei com eles até o final do ano, aí entrei na Toro Rosso em 2012, pontuando logo na primeira corrida.
– Que orgulho! – Ela disse, me fazendo rir. – Vemos que deu certo, né?!
– Única coisa boa da HRT*. – Michael disse, me fazendo rir fracamente.
– Vocês alugaram um carro? – Perguntei, procurando o motorista.
– Cortesia da Maria. Acho que ela gosta de mim. – Harp disse.
– Ao menos ela gosta de alguém! – Michael disse, nos fazendo rir. – Vamos, eu dirijo!
– Vamos! – Falei, vendo Harper abrir a porta de trás, então fui na frente com Michael.
Em poucos minutos estávamos no paddock. Michael estacionou na área da equipe e nós três saímos do carro. Falei rapidamente com os fãs, tirando algumas fotos e dando alguns autógrafos antes de passar junto de Michael e Harper pelas catracas para dentro do paddock.
Caminhamos lado a lado pela extensão do local e cumprimentei alguns colegas e outros corredores enquanto seguíamos até o prédio da Red Bull. Max Verstappen foi escolhido como meu novo companheiro de equipe depois dos problemas com Kvyat. Eu e Max nos conhecemos há muito tempo, desde a equipe júnior da Red Bull. Ele tem bastante talento. No ano passado conseguiu ficar em 10 corridas na área de pontuação, duas sendo em quarto lugar. Nesse ano, ficou dentro da zona de pontuação em três corridas e abandonou na Rússia, ironicamente.
Só tinha uma coisa que me preocupava com ele: a idade. Ele é oito anos mais novo do que eu, vai fazer 19 anos no meio de setembro. Diferente de Kvyat que era cinco ou Seb que é dois mais velho. Apesar de virmos da mesma área da Red Bull, ele sempre foi muito mais novo do que eu para conversamos de igual para igual. Não tinha ideia do que esperar, além de que falam que ele é um pouco explosivo. Eu costumo me dar bem com todo mundo, então vamos ver no dia a dia.
Entramos direto na casa da árvore e já reconheci de cara algumas pessoas novas ali. Não era ano novo, mas podia considerar uma nova vida. Espero que o garoto nos ajude a ganhar o campeonato de construtores.
– Bom dia. – Falei, entrando na sala de reunião e vi Max junto de seu pai, Jos Verstappen, ex-piloto.
– Daniel! – Christian veio até mim. – Bom te ver.
– Bom te ver também! – Demos rápidos cumprimentos. – Como estão as coisas?
– Tudo certo? Se lembra do Max? – Ele bateu a mão nas costas do mais novo.
– É claro! – Falei, rindo, estalando a mão na de Max e o abracei. – Ei, Max!
– Ei, Daniel! – Ele disse e sorri.
– Pronto para começar a somar pontos? – Brinquei.
– É, é claro! – Ele disse, animado.
– Daniel, você conhece Jos, certo? – Christian indicou seu pai.
– É claro! É um prazer revê-lo. – Estiquei a mão, sentindo-o apertar.
– O prazer é meu! – Dei um curto sorriso.
– Esses são Harper e Michael. – Indiquei-os e ambos deram um curto sorriso.
– Olá, tudo bem? – Harper deu um curto sorriso.
– Então é esse seu nome? – Max disse, rindo.
– É, Harper Addams! – Ela disse, sem graça.
– Hum, interessante. – Ele disse e senti que a raiva estava começando a dar sinais. – Você podia me dar seu telefone e sairmos, que tal? – Ele tentou ser galanteador e Harper olhou para Michael, depois para mim antes de suspirar.
– Eu não quero ser rude, mas primeiro: qual sua idade? – Coloquei a mão na boca para evitar uma risada. – Segundo: eu estou comprometida. – Virei o rosto mais rápido que o esperado para ela, vendo-a me dar um curto sorriso. – Mas é um prazer te conhecer, espero que você ajude a equipe! – Ela se virou para mim. – Posso esperar lá fora? – Ela sussurrou para mim.
– Claro! – Falei rapidamente, vendo ela e Michael voltarem pelo mesmo caminho que tínhamos vindo.
– Eu disse algo errado? – Max perguntou.
– Algumas coisas. – Fui honesto e seu pai lhe deu dois tapinhas nas costas.
– Acho que começar na equipe nova dando em cima da namorada do seu companheiro de equipe não é algo bacana. – Jos disse e pressionei meus lábios.
– Ela não é minha namorada… – Ponderei com a cabeça.
– Ainda! – Jos disse e Christian gargalhou.
– Garanto que ele quer. – Christian disse.
– Ei! Que complô é esse? – Falei, rindo.
– Você não me engana, Daniel! – Senti dois tapas nos ombros. – Mas isso não é papo para agora, vamos conversar um pouco, vocês dois têm divulgação logo mais. – Ele disse e suspirei, sacudindo a cabeça.
– Desculpe se eu te ofendi de alguma forma. – Max disse em seu sotaque forte.
– Não, está tudo bem, cara! – Falei. – Mas seria legal você pedir desculpa para ela depois, para não ficar um clima estranho.
– Ah, é, é, pode deixar! – Ele assentiu com a cabeça.
– Vamos lá, meninos? – Christian disse e indiquei com a mão para Max ir na frente, seguindo para uma cadeira, cumprimentando os engenheiros antes de colocar o headphone na cabeça.
*A primeira chance de Daniel na Fórmula 1 foi em 2011 pela antiga equipe Hispania Racing Team. Ele estreou no GP de Silverstone e correu 11 vezes com eles, sem pontuar em nenhuma delas. Em 2012 foi para a Toro Rosso por fazer parte da equipe júnior da Red Bull Racing.
Sábado
Harper
– Danny, posso entrar? – Perguntei, batendo à porta.
– Claro! – Abri, vendo-o sentado no sofá com o macacão até a cintura e a parte de cima com a segunda pele branca.
– Eles estão prontos. – Falei, me apoiando no batente da porta e ele suspirou.
– Estava falando com minha mãe, eles vão para Mônaco.
– Mesmo? – Sorri. – Isaac também?
– Sim, Isaac também. – Ele sorriu, se levantando e retribuí. – Preciso ver como vamos ficar todo mundo no apartamento.
– A gente dá um jeito, você tem colchões, o sofá é confortável… O problema é um bebê de um ano e meio, mas a gente se resolve. – Me aproximei dele, chutando a porta com o pé para fechar enquanto ele puxou o macacão para cima.
– Tem uns dias ainda, vou falar com Maria, mas depois da corrida tem testes ainda. – Ele fez uma careta e ajudei-o a desenrolar o macacão em seus ombros, puxando o zíper para cima. – Você vai me deixar mal-acostumado.
– Como? – Perguntei, colando os velcros.
– Alguém cuidando de mim… – Ele me segurou pela cintura.
– Não faz tanto tempo que você terminou com aquela chata lá… – Falei, olhando em seus olhos.
– É… Mas era bem diferente. – Ele aproximou o rosto do meu. – Mas eu realmente não quero falar sobre ela agora. – Ri fracamente, passando as mãos em seus ombros e ele roçou o nariz em minha bochecha.
– E nem sobre nós. Você tem que trabalhar, Danny. – Subi uma mão pela sua nuca.
– Só mais um minuto… – Ele sussurrou e virei meu rosto para o seu, sentindo nossos narizes tocarem e meu coração começou a bater forte em meu peito.
– Danny… – Sussurrei, sentindo suas mãos deslizarem pelo meu corpo e podia sentir seus lábios tocando levemente nos meus, mas por algum motivo eu estava hipnotizada pelos seus olhos.
– Eu quero muito isso… – Ele suspirou e assenti com a cabeça.
– Eu também… – Não conseguia pensar em mais nada, também não conseguia soltar seu corpo, estava presa nele.
– Harp, eu… – Me assustei com a batida na porta, me fazendo pular para trás.
– VAI DEMORAR AÍ? – Ouvi a voz de Maria e respirei fundo, apoiando a mão no peito.
– Um dia eu vou matá-la. – Danny sussurrou para mim e ri fracamente. – Já vou! – Ele falou mais alto, se virando para pegar seu capacete.
– Faça uma boa classificatória. – Falei. – A gente resolve isso depois. – Disse e ele sorriu, passando a mão livre em minha cintura, me puxando para perto de si.
– Bom saber que estamos com a mesma ideia, Harper. – Ele falou antes de pressionar os lábios em minha bochecha, me fazendo rir.
– Nos damos certo até nisso. – Empurrei-o de leve, vendo-o abrir a porta e Maria estava parada lá na frente.
– Vamos ganhar isso? – Danny sorriu, saindo do vestiário e ri fracamente, saindo logo atrás dele e puxando a porta.
– Ainda não decidi se eu gostei de você ou não. – Maria me disse, me encarando com os olhos pressionados.
– Espero que tenha gostado, vou ficar aqui o ano inteiro! – Sorri, vendo-a rir.
– Vamos logo! – Ela disse e segui um pouco atrás de Danny, vendo-o atravessar o paddock até a garagem, movimentando o corpo como se estivesse dançando, me fazendo rir. – Ao menos ele está animado…
– Ele sempre está animado. – Suspirei, entrando na garagem.
– Lesgo, baby-y-y! – Ouvi a voz de Danny e fui em direção até a parede pegar um headphone antes de seguir para a garagem, vendo Danny abraçando uma mulher.
– Bom te ver também! – Ela disse, se afastando e Danny olhou para mim.
– Ah, deixa eu te apresentar uma pessoa. – Ele virou para mim. – Geri*, essa é Harper, minha… – Ele virou para mim e ponderei com a cabeça. – Garota! – Rimos juntos. – Harper, essa é Geri, esposa do Christian. – Ele me indicou a ruiva e sorri para a mais baixa.
– Oi, prazer te conhe… – Olhei bem para a mulher, ouvindo minha voz sumindo devagar e a reconheci. – Meu Deus, você é a Ginger Spice. Geri Halliwell! – Ela riu.
– Sim, sou eu. – Ela sorriu.
– Meu Deus! Seu chefe é casado com a Ginger Spice. – Virei para Danny, dando um tapinha em seu ombro.
– É, eu já passei por esse surto. – Ele disse, me fazendo rir.
– Me desculpe, eu só… – Tentei me acalmar.
– Não se preocupe, é sempre bom encontrar fãs. – Ri fracamente.
– É, Spice Up Your Life é um hino! – Ela sorriu.
– Obrigada! – Ela sorriu. – Você é a garota do Daniel? – Ela perguntou baixo, me fazendo rir.
– Hum… – Ponderei com a cabeça. – Oficialmente somos amigos de infância, mas…
– Hum, um amor está crescendo? – Ela disse, rindo.
– É, algo está mudando. – Fiz uma careta.
– Boa sorte para vocês. Vocês são fofos. – Ri fracamente.
– Obrigada… – Mordisquei meu lábio inferior.
– Harper! – Virei para Daniel. – Não vai falar?
– Não mesmo! Ginger Spice está aqui! – Falei, vendo-o rir e abanou a mão antes de entrar no cockpit.
– Encontrou uma fã, Geraldine? – Christian disse, me fazendo rir.
– Vocês poderiam ter me preparado para isso, todo mundo. – Falei, ouvindo Geri rir.
– Ah, existem coisas que não se misturam… Harper, certo?
– Sim. – Sorri. – Mesmo não misturando, você é casada com um chefe de equipe da Fórmula Um, mostra completamente o contrário. – Ela riu fracamente.
– É verdade…
– Vamos lá, rapazes! – Christian disse, saindo da garagem e esperei do outro lado da garagem, vendo a equipe de Max também se preparando.
Ao menos ele veio se desculpar pelas cantadas baratas em cima de mim. Mesmo se eu não estivesse caidinha pelo companheiro de equipe dele, a diferença de idade me incomoda bastante. Ele era mais novo de quando Danny começou, é estranho.
– Eu vou ficar ali do lado. – Falei para Geri e ela sorriu. Estava achando-a incrivelmente simpática, além dos anos terem feito muito bem para ela.
– Melhor amiga da Spice Girl? – Michael sussurrou para mim.
– Por que vocês não me contaram? – Sussurrei.
– Eu nem lembrava, honestamente. Aposto que Danny também não. – Ri fracamente.
Meus ouvidos reclamaram do barulho e apertei as mãos no fone, vendo Danny sair da garagem, segundos depois Max saiu ao lado. Me sentei no banco de sempre, com Mike ao meu lado e olhei para uma das várias telas.
Durante a Q1, Danny conseguiu um tempo de 1:23:749, conseguindo passar com folga para a Q2, sendo que muitos pilotos mal atingiram a casa do 1:23. Ele ficou em quarto na primeira parte, dois décimos atrás de seu novo colega de equipe, esperava que ele conseguisse recuperar. Os primeiros eliminados foram Palmer, Massa, Ericsson, Nasr, Wehrlein e Haryanto, ocupando os décimos sétimos até vigésimo segundo lugar no grid.
Na Q2, Max foi mais rápido do que Danny novamente e comecei a ficar intrigada pelo garoto que todos estavam falando, talvez a troca fosse justa, já que os valores de Kvyat nunca me chamaram atenção, mas isso me deixava preocupada por Danny. Meu… Garoto ficou em quinto nessa segunda etapa com 1:23:585, quase dois milésimos abaixo da primeira etapa. O alemão Hulkenberg, Button, Kvyat Grosjean, Magnussen e Gutiérrez foram os eliminados nessa segunda etapa.
Já na Q3, fiquei um pouco mais tensa, pois Danny fez o segundo melhor tempo logo na primeira volta, ficando abaixo somente de Rosberg com 1:22:680, quatro décimos abaixo de Nico, finalmente conseguindo duas posições à frente de Max. Tinha tudo para ficar assim, até Hamilton ter vantagem melhor do que todos com 1:22:000. Minha respiração ficou pesada até o final da Q3, quando consegui finalmente relaxar que Danny ficou entre os três e começaria no camarote para a corrida de amanhã!
– Isso, garoto! Parabéns! – Ouvi Christian pelo fone.
– Obrigado, caras! Vamos finalizar isso amanhã! – Danny disse.
As duas Mercedes de Hamilton e Rosberg ocuparam a primeira fileira, as duas Red Bull a segunda, e as duas Ferrari a terceira. Em seguida veio Sainz com a Toro Rosso, Pérez com a Force India e Alonso com a McLaren para completar o grid.
– Isso! – Falei, animada, batendo na mão de Michael. – Lesgo-o-o!
– Lesgo-o-o! – Ele disse, rindo.
*Geri Halliwell, ou Horner no mundo da Fórmula 1, é a antiga Ginger Spice das Spice Girls e esposa de Christian Horner desde 2014.
Daniel
– Daniel, se a melhora do motor trouxer o esperado, você acha que é o suficiente para fechar esse vão entre as Mercedes ou ainda precisa de mais? – O jornalista perguntou.
– Eu acho que ainda precisaremos de um pouco mais, mas em alguns circuitos pode ser o ideal. – Falei. – Aqui, por exemplo, ainda teve 0,6 segundos de distância de Lewis, então não acho que estávamos esperando essa diferença da melhora, mas nos coloca mais perto. Em Mônaco e Budapeste, alguns circuitos mais curtos, talvez nos dê uma dimensão melhor das coisas.
Terminei, vendo o jornalista assentir com a cabeça e esperei as perguntas passarem para Lewis, Nico e voltarem para mim.
– Daniel, você disse que não precisa de mais motivação em geral como um piloto de F1, mas com um novo colega de equipe animado deve ter tido um efeito hoje, então como você vai se preparar para a corrida de amanhã tanto estrategicamente para você e coletivamente na equipe? – Suspirei.
– De novo, eu digo que não preciso de motivação extra porque eu já tenho minha própria motivação. Eu amo o esporte, amo a competição, então enquanto eu tiver algo que eu possa competir, eu sempre vou estar no maior nível de motivação, mas ter o Max de companheiro é outro desafio. No momento, ele é o piloto mais visado pela idade e pelas conquistas, pensando nos pilotos novos aqui no paddock, ele mostrou isso nas classificatórias hoje. – Assenti com a cabeça. – É bom para mim por causa do desafio e para me comparar com outros pilotos. Eu acredito que ele seja rápido e hoje consegui uma melhor volta, mas vamos ver o resto da temporada, mas é, é empolgante. – Sorri, vendo o pessoal rir.
Lewis e Nico responderam mais algumas perguntas, eu respondi outras sobre Max e talvez ficar em terceiro hoje não era o ideal, era uma vantagem para a corrida, mas não tinha muita paciência para respostas sobre os outros. Ele foi melhor do que eu na Q1 e Q2, ele é um piloto novo e várias expectativas em cima dele, mas podiam deixar para perguntar isso para ele, por enquanto eu não tenho com o que me preocupar.
– Obrigado, senhores. – Encerraram a coletiva e nos levantamos, seguindo para a sala lateral, encontrando nossos assessores.
– Deve ser um saco ser você hoje, hein?! – Lewis brincou, me fazendo rir.
– Ainda é sensacional, mas faz parte.
– É sempre assim em mudança de piloto, ainda mais da forma que foi. – Nico disse, dando um tapinha em meus ombros.
– Logo algo mais interessante acontece e eles esquecem. – Lewis disse.
– Sim! – Ri fracamente e Maria indicou com a cabeça. – Nos vemos, caras!
– Eu vou contigo! – Lewis disse e Angela, sua assistente pessoal, e o assessor da Mercedes nos seguiram.
Saímos do prédio da FIA e senti a diferença de luz incomodar meus olhos. O paddock estava mais vazio de quando eu entrei e precisava me arrumar e fazer ainda algumas entrevistas, mas estava empolgado em encontrar Harper novamente e continuar o que quase aconteceu no vestiário.
– Ei, quem eu estava procurando! – Vi Alonso se aproximar.
– Ei, Nando! – Falei, cumprimentando-o.
– Parabéns pelas posições. – Ele disse, abraçando Lewis em seguida.
– Obrigado! – Eu e Lewis falamos juntos.
– Quem estava procurando? Eu ou ele? – Perguntei.
– Os dois, na verdade! – Ele disse. – Vocês gostam de festas, certo?
– Sim! – Lewis disse mais rápido do que eu.
– Faz tempo que eu não vou em uma, mas sim. – Falei, rindo.
– Eu sou sócio em uma balada aqui de Barcelona e vai ter uma noite especial hoje pela Fórmula Um, local discreto, sem imprensa, só convidados discretos e mulheres bonitas… – Ele disse, me fazendo rir. – Seus nomes estão na lista, chama MOOG*.
– Você vai? – Perguntei.
– É claro! – Ele disse, rindo. – Chamei um pessoal também, tentar relaxar antes de amanhã.
– Posso levar acompanhante? – Perguntei.
– Claro, traga sua “amiga”. – Ele fez aspas com as mãos, me fazendo rir.
– Hum, então tem algo a mais aí? – Lewis disse, rindo.
– Ah, cara, não começa! – Neguei com a cabeça.
– Ah, Daniel! Conta aí! – Lewis brincou, me fazendo rir.
– Ah, cara, cala a boca! Nada aconteceu ainda! – Falei, rindo.
– Ainda! – Nando disse, rindo.
– Você talvez tenha me dado uma ótima desculpa para tirar esse “ainda”.
– AH, GAROTO! – Eles me deram tapinhas nas costas, me fazendo rir.
– Eu tenho que ir. – Sorri. – Tenho que me preparar para a festa. – Eles riram.
– Danny boy vai se dar bem hoje! – Nando disse, rindo.
– Espero que sim! – Gargalhei, seguindo para perto de Maria novamente.
– Alguém está muito feliz hoje. – Maria disse e ri fracamente.
– Eu sei e sei que estou ferrado também, mas também estou empolgado com isso. – Falei, rindo.
– Você está ferrado, de verdade. – Ela disse e virei o rosto para ela.
– Quais os seus motivos para achar que eu estou ferrado? – Perguntei.
– Ela é incrível, para valer. – Ela disse, me fazendo rir. – Mas você provavelmente está pensando na amizade.
– Tento não, mas é impossível… – Suspirei, segurando-a pelo braço, parando de andar. – Eu não tenho a mínima ideia do que fazer. – Falei. – Somos amigos há anos e… – Suspirei. – Alguma sugestão?
– Não namorei meu amigo de infância, porque era uma menina… – Ri fracamente. – Mas no seu caso… Acho que se você quiser seguir em frente, te indico a ser o mais bondoso e carinhoso possível. – Ela suspirou. – Pode funcionar, mas pelos anos de amizade, tem chance de ser ruim ou não dar certo.
– Não foi esse tipo de conselho que eu pedi. – Falei, vendo-a rir.
– Só seja bondoso com ela. Aposto que ela tem as mesmas dúvidas do que você. – Ela franziu os lábios e assenti com a cabeça.
– Obrigada, Maria. Acho que essa é a primeira vez que você é legal de verdade. – Ela negou com a cabeça.
– Consigo ver como está perdido com isso, mas também está animado, talvez seja uma boa coisa para você.
– Espero que sim… – Falei, deixando a frase no ar, entrando no prédio da Red Bull e vi Harper e Michael pelo vidro da cantina, me fazendo sorrir.
– EI! – Ouvi sua voz quando ela se levantou, vindo em minha direção e ela passou os braços em meus ombros, pulando em meus ombros, me fazendo sorrir e abraçá-la pela cintura. – Terceiro! Isso é incrível! – Rimos juntos e afundei o rosto em seu ombro, aproveitando o abraço. – Vai ser bom para competir amanhã.
– Sim! – Falei, rindo e ela colocou os pés no chão, apoiando as mãos em meus braços.
– Isso é incrível, Danny! – Ela abriu um sorriso e sorri. – Estou esperando pelo pódio. – Sorri.
– Eu também. – Foquei em seus olhos e ela mordiscou os lábios mais uma vez.
– Você realmente precisa de um banho. – Ela disse, rindo e me empurrou de leve para trás, saindo de meus braços.
– Eu cheiro como rosas, Harp! Se acostume.
– É, dá para sentir! – Ela riu, virando o corpo para a mesa e Michael se levantou.
– Parabéns, cara! – Nos cumprimentamos em um abraço. – Vamos lutar amanhã!
– Sim! – Falei, rindo. – Lesgo, baby! – Falei.
– Quer comer algo? – Harper perguntou e abri o macacão, tirando as mangas antes de descer até minha cintura.
– Eu tenho algumas entrevistas ainda. – Suspirei.
– Sim, você tem! – Maria falou e ri fracamente.
– Já vou! – Apoiei as mãos na mesa. – Me escutem, Fernando nos convidou para uma balada a noite.
– Isso é o que eu estou falando. – Michael disse e eu e Harper rimos juntos. – A gente parece três velhos indo dormir antes das dez, fala sério. – Ri com eles.
– É, temos que ser honestos com isso, nossas noites não estão muito animadas. – Harper disse, rindo.
– Posso tentar melhorar para você… – Sorri, virando meu rosto para ela.
– Daniel! – Ela disse, empurrando meu rosto de volta, me fazendo rir.
– Ah, cara, deveria dizer que já estou acostumado com essas cantadas baratas suas, mas é estranho ver você flertando com a Harper. – Michael disse, me fazendo rir.
– Acredite, eu sei! – Harper disse, me fazendo rir.
– Então, todos de acordo?
– Sim! – Eles falaram juntos, rindo.
– Combinado! Decidimos depois o horário, mas eu pego vocês! – Falei.
– Claro! Vai lá! – Harp disse e sorri, dando uma piscadela para dela, vendo-a negar com a cabeça e segui para perto de Maria.
– Ok, vamos botar para foder! – Falei e ela revirou os olhos, seguindo para o outro lado e dei de ombros antes de seguir com ela.
*Apesar de existir essa boate em Barcelona, não tem ligação nenhuma com Alonso.
Harper
As mãos de Danny estavam na base da minha cintura e deslizavam pelo meu corpo, ficando perigosamente perto da minha bunda, enquanto eu movimentava meu quadril no ritmo da música. Eu estava me sentindo solta até demais e nem posso culpar os dois shots de tequila que Danny me deu na chegada da festa. É pelo meu coração que não parava de bater forte em meu peito.
Sempre conheci o Danny amigo, sempre cuidadoso, preocupado, divertido, mas nunca conheci o Danny intenso. Deus! Como eu nunca vi antes? Seus olhos estavam fixos nos meus desde que viemos para a pista e suas mãos caminharam para minha cintura de imediato, mantendo meu corpo perto do seu. Minhas mãos já estavam em seus ombros, deslizando para seu peito de vez em quando e mantendo uma distância de segurança de seu corpo.
Nenhum dos dois deu o primeiro passo ainda, seu nariz roçava no meu de vez em quando, sua respiração tocava meu pescoço e ombro quando ele se aproximava, deixando meu corpo mole como se estivesse drogado, mas ele ainda não avançou.
Sempre o zoei pelas suas ficadas e abordagens baratas com as mulheres, mas sabia que estávamos em um novo território e, como ele disse, não tinha margem para erro. Tínhamos que ir no nosso tempo, apesar dos seus lábios extremamente convidativos e meu corpo anestesiado, mas seria tonta se dissesse que não estava extremamente feliz com essa situação.
O mais engraçado de tudo era que Danny não dançava animado como fazia em toda e qualquer oportunidade, inclusive em várias baladas que fomos quando mais novos. Seu corpo estava quase travado junto do meu, movimentando os quadris e joelhos conforme eu me movimentava. Até nisso ele estava contido e me deixava mais na expectativa.
– Eu preciso de um minuto… – Falei, aproximando minha boca de sua orelha.
– O QUÊ? – Ele falou alto.
– EU PRECISO DE UM MINUTO! – Minha voz saiu um pouco mais audível e ele fechou mais o braço em minha cintura.
– Quer uma bebida? – Ele perguntou, tocando minha orelha com seus lábios e só consegui assentir com a cabeça.
– Não tequila! – Falei, afastando meu rosto e ele assentiu com a cabeça.
– Já volto! – Ele disse, deixando um beijo em meu rosto e se afastou um pouco, fazendo meu corpo tensionado relaxar quando ele me soltou.
– Merda! – Suspirei, sentindo minha respiração acelerada e passei as mãos nos cabelos, sentindo a testa suada e acompanhei-o desviar das pessoas para ir até o bar. – Merda! – Ri fracamente, abrindo um sorriso.
Afastei meu corpo do meio das pessoas, indo para trás e me sentando no braço de um sofá que tinha ali. Eu me sentia cansada como se eu tivesse dançado muito ou tido o melhor amasso da minha vida, mas era só meu corpo tensionado com tudo o que estava acontecendo. Será que Danny podia ser um bom amante? As grandes mãos, os longos dedos e as veias saltadas sabiam me abraçar e me segurar com firmeza. O polegar na parte de cima das costas e os outros dedos deslizando em meu quadril com força.
Merda! Já estou pensando besteira aqui.
Ri com meus pensamentos, negando com a cabeça e virei o corpo para a área VIP da balada de Alonso. O lugar era bem legal, bem cheio, mas conseguia se tornar um pouco discreto com a quantidade de clubes na cidade. Não é à toa que Barcelona é conhecida como a cidade das festas.
Franzi a testa ao encontrar Michael e ri sozinha ao vê-lo beijando uma mulher da metade da altura dele, deixando o corpo do treinador completamente inclinado para frente. Ele deve estar bem mais bêbado do que eu e Danny juntos, mas ao menos estava dando para se divertir um pouco. Com essa vida corrida e agitada, a vida pessoal ficava um pouco de lado.
– ¡Hola, gatita! – Virei o rosto, na esperança de ser Danny, mas tinha outro cara ali.
– Ah, hola. – Falei, levemente decepcionada, me fazendo suspirar.
– ¿Estás sola? – Suspirei.
– Eu estou bem, obrigada. – Falei, virando o rosto à procura de Danny.
– Você quer algo para beber? – Ele mudou para o inglês e suspirei.
– Eu estou bem, obrigada. – Repeti, cruzando os braços em volta do corpo.
– Qual é, gatinha, me diga seu nome antes de me chutar. – Ele disse e suspirei.
– Eu não estou interessada, cara! – Falei. – Nada interessada, na verdade.
– Me dá um beijo que eu te deixo em paz… – Ele disse, tentando segurar meu rosto e desviei com pressa.
– Não me toca, por favor. – Pedi.
– Não precisa ser difícil assim, gatinha… – Virei o rosto para o bar, procurando por Danny e fiquei na ponta dos pés, procurando por ele e meu corpo travou.
Da mesma forma que tinha um idiota em cima de mim, tinha alguém em cima dele, mas diferente de mim, ele não parecia interessado em se livrar da loira que cochichava alguma coisa em seu ouvido.
Meu corpo travou e um gosto ruim chegou à minha boca, fazendo meu estômago revirar e tentei manter minha cabeça fora do ciúme repentino. Ele pode estar tentando se livrar dela também, ele pode estar esperando pelas bebidas… Não posso deixar o bichinho do ciúme falar mais alto, não agora.
– Ei, gatinha… – Minha mente voltou para realidade, virando o rosto para o insistente e ele tinha as mãos em minha cintura.
– Você pode fazer o favor de… – Tentei pedir, mas ele segurou minha nuca e colou nossos lábios. Suas mãos me apertaram com força e minhas mãos tatearam seu corpo, até chegar em seu rosto, empurrando-o para trás. – O que está pensando? – Falei, irritada.
– Qual é, gatinha! Vai se fazer de difícil?! – Ele tentou se aproximar e virei minha mão em seu rosto no automático, vendo-o mudar a expressão de chocado e minha respiração estava acelerada.
– Não toca em mim.
– Você não deveria ter feito isso… – Ele falou, se aproximando de mim, mas alguém segurou-o pelo pescoço.
– Não se atreva! – Suspirei ao ver Michael atrás do cara, segurando-o em uma chave de braço. – Não se atreva! – Ele repetiu e ergueu o olho para mim. – Você está bem?
– Sim… – Assenti com a cabeça, respirando fundo.
– Harper! – Virei o rosto, vendo Alonso se aproximar. – Você está bem?
– Sim, agora eu estou. – Suspirei, sentindo-o me segurar pelo braço.
– Sai daqui agora! – Fernando disse.
– Quem vai me mandar? Um baixinho como você? – O cara perguntou, rindo.
– Caras… – Alonso disse e vi dois seguranças mais altos do que Michael se aproximarem. – Por favor…
Demorou para Michael soltá-lo, desconfiado do que o cara ia fazer, mas relaxei meu corpo quando os dois seguranças o puxaram para fora. Meu coração palpitava no meu peito e na minha cabeça só passava no que é que poderia ter acontecido se Michael não tivesse por perto.
– Você está bem, Harp? – Michael se aproximou e me sentei no braço do sofá de antes, passando as mãos em meu rosto. – Ele fez algo contigo?
– Ele me beijou, mas… Eu estou bem. – Apoiei a mão no peito.
– Aqui… – Fernando me esticou uma garrafa de água. – Me desculpe por isso, tem alguns caras que hijo de la putana. – Ele disse e virei quase metade da garrafa de água para dentro.
– Eu estou bem, eu só preciso respirar… – Falei baixo, sentindo Michael me abraçar pelos ombros.
– Onde está Danny? – Ele perguntou. – Vocês estavam juntos, não? – Ele perguntou.
– Ele foi pegar bebida para gente, mas… – Me levantei, procurando-o no lugar da antes, ficando na ponta dos pés, mas o lugar que ele estava antes estava vazio. – Ele sumiu. – Suspirei.
– Eu vou procurar por ele. – Michael disse.
– Não, só fica aqui… – Suspirei. – Eu quero ir embora.
– Fica com ela, eu vou procurá-lo. – Alonso disse e assenti com a cabeça. – Só respira, ok?!
– Obrigada… – Dei um curto sorriso e ele afagou minha cabeça antes de se afastar.
– Eu estou aqui, ok?! – Michael disse e assenti, apoiando minha cabeça em sua barriga, suspirando.
– Não sei o que aconteceria se você não tivesse aparecido.
– Não pensa nisso. – Ele disse. – Vamos achar o Danny e ir embora daqui.
– Desculpe por acabar com sua festa. – Ele riu fracamente.
– É… – Ele deu de ombros. – Mas você é mais importante. – Sorri.
– Obrigada. – Suspirei. – Não falo tanto, mas você é meu amigo também, Michael.
– Agora que você e Danny estão mudando esses títulos, quem sabe eu não pego o posto de melhor amigo dos dois lados? – Ri fracamente, suspirando.
– É, quem sabe? – Suspirei, bebendo mais um gole de água.
Daniel
Eu estou cagando de medo!
Merda!
Harper é gostosa para caralho e eu estou me controlando muito para não reduzir essa distância e beijá-la aqui mesmo.
Sim, eu posso beijá-la aqui, o ambiente pede, ela está extremamente solta sob minhas mãos, está movimentando seus quadris no ritmo da música e minhas mãos já escaparam diversas vezes para sua bunda durante seus movimentos. Mas merecemos mais. Não quero que nosso primeiro beijo… Bom, segundo, na verdade… Mas quero que seja mais interessante e memorável que o primeiro. Tinha uma diferença de 13 anos, mas precisava ser perfeito.
Apesar de tudo, as palavras de Maria palpitavam em minha cabeça. E se fosse ruim? E se toda essa expectativa fosse ruim? E se fosse como beijar uma parede? Eu estava com medo, mas não podia errar. Não com ela. Mas com a palpitação crescente em meu peito e corpo, não tinha dúvidas de que seria perfeito. Até o cheiro de seu perfume me inebriava.
Meus lábios já tinham tocado seu rosto algumas vezes, descido para seu pescoço e o ombro descoberto pelo decote do vestido. Eu sentia meu corpo relaxado pelas diversas sensações, mas também me sentia travado, eu dançava mais do que isso, mas agora só queria manter meu corpo colado no dela, aproveitando o momento.
– Danny… – Ela sussurrou em meu ouvido, mas foi difícil entender.
– O QUÊ? – Falei alto.
– EU PRECISO DE UM MINUTO! – Ela falou mais alto e desviei o rosto de seu pescoço para olhar em seus olhos novamente.
– Quer uma bebida? – Ofereci, dando um curto beijo em sua orelha e sua cabeça mexeu positivamente.
– Não tequila! – Ela disse, me fazendo rir e olhei em seus olhos por mais alguns segundos.
– Já volto! – Falei e pressionei meus lábios em um leve beijo em sua bochecha próximo ao seu ouvido, antes de afastar as mãos de seu corpo devagar.
Meus olhos focaram nos seus por mais alguns segundos e dei um curto sorriso antes de desviar o olhar, atravessando por entre algumas pessoas até chegar no bar. Meus olhos ficaram em Harper por mais alguns segundos, me fazendo rir de como fui estúpido por tanto tempo em não ver o quão incrível ela é.
Merda! Isso é louco!
– O que posso te servir? – O barman perguntou.
– Algo para o calor! – Falei, rindo, sentindo meu corpo suar e nem acho que é do clima da boate, é de Harper.
– Rebujito, que tal? – Ele sugeriu e apoiei os cotovelos no balcão.
– O que é? – Perguntei.
– Vinho de maçã, Seven Up e muito gelo! – Ele disse.
– É, claro! Dois! – Falei, rindo fracamente e virei meu corpo para Harper novamente, procurando-a no meio das pessoas, sorrindo ao encontrá-la.
– Ei… – Virei o rosto, encontrando uma loira se apoiando ao meu lado no balcão. – Uma Bud. – Ela falou para o barman, virando o rosto para mim. – E seu telefone. – Ri fracamente.
– Uau, direta! – Falei, negando com a cabeça.
– A vida é curta para ficar de enrolação. – Ela disse, recebendo sua cerveja e ri fracamente.
– É, você está certa, mas não hoje. – Dei de ombros.
– Você é Daniel Ricciardo, certo? – Ela disse.
– Sim… – Ri fracamente.
– Estava te olhando com sua amiga…
– Minha garota. – A corrigi rapidamente, gostando como isso saiu na boca.
– Não me pareceu o caso. – Ela disse, passando a mão nos cabelos alisados. – Gelado demais. – Ela apoiou a mão em meu peito e desci o olhar para o local.
– Suas bebidas… – O barman colocou as duas bebidas arroxeadas no balcão.
– Eu tenho que ir, minha garota está me esperando… – Dei de ombros.
– Você quer dizer aquela garota? – Ela indicou com o dedo e virei o rosto, procurando entre as pessoas e observei um cara grudado em seu pescoço. – Foi rápido…
Um gosto ruim chegou à minha boca e foi como se eu tivesse levado um soco no estômago. Não, isso não estava acontecendo. Harper não faria isso, ela não era assim. Minha cabeça começou a trabalhar mais rápido do que meus olhos e peguei a taça que o barman tinha acabado de colocar no balcão e virei um longo gole dela.
– Que sede! – A loira disse, rindo, movimentando um chiclete na boca e suspirei. – Sabe… Tem outros peixes no mar. – Ela apoiou a mão em meu ombro, subindo devagar e virei o rosto novamente para Harper, vendo-os se beijando. – Uau! Ela é boa!
– Merda!
Eu me sentia o maior idiota do mundo.
Vai ver não estávamos na mesma sintonia como eu pensava. Na verdade, não estávamos mesmo. Eu planejava formas carinhosas e fofas de darmos nosso primeiro beijo e ela beijava o primeiro cara que estava na sua frente.
Não acredito nisso. Fui idiota com a pessoa que eu mais deveria conhecer no mundo.
– Desculpe, gatinho. – A mulher disse e virei o restante da bebida.
Sabe o quê? Nós dois podemos jogar esse jogo, Harper.
– Quer sair daqui? – Perguntei para loira, pegando uma nota de cem euros na carteira e coloquei no balcão.
– É claro. – Ela disse, sorrindo. – Aonde vamos?
– Me siga. – O sorriso sacana voltou ao meu rosto e puxei-a pela cintura, procurando as escadas para o primeiro andar.
Desviei das pessoas, vendo os seguranças ajudar a abrir um cordão para eu chegar na saída da festa. Entreguei o bilhete para o valet e passei as mãos na cintura da loira. Ela sorriu, mordiscando o lábio inferior e ignorei as imagens de Harper fazer isso em minha cabeça e colei nossos lábios, sentindo-a pressionar as mãos em meus ombros.
– Hum, isso é bom. – Ela disse, rindo.
– Pode ser melhor. – Ri fracamente, vendo o carro estacionar e o valet me entregar a chave. – Vamos lá.
Capítulo 14
Perth, Austrália, 2003
– Vai, faz uma roda! – Luka disse e Danny virou o rosto para eles.
– Danny, Michael, Blake, vem! – Jemma os chamou, animada com a mão.
– O que vão fazer? – Mike perguntou.
– Verdade ou desafio! – Luka disse.
– Hum, isso é interessante! – Daniel disse, rindo, deixando sua lata de Coca-Cola na mesa e se aproximou deles. Peyton e Addison, do grupinho de Jemma, além de Charlie, Luka e Toby ocupavam a roda.
– Ah, não! Tem muito garoto, tá louco! – Blake disse, rindo. – Sempre dá merda!
– Precisamos de mais garotas! – Michael disse e Daniel deu uma olhada em volta, encontrando Harper e Déborah conversando perto da piscina.
– Harp! – Danny gritou, fazendo a menina olhar. – Vem!
– Ela não! – Jemma reclamou e o garoto se virou para a menina.
– Se ela não participar, eu também não participo. – Ele deu de ombros e a menina revirou os olhos.
– Ah, tá bom! – Ela disse, se sentando na roda que se montava.
– O que foi? – Harp perguntou, se aproximando de Danny.
– Vamos jogar verdade ou desafio, vem também, Déb! – Ele disse para a outra menina.
– Ah, eu odeio essas brincadeiras! – Déborah suspirou.
– Vamos, vai ser legal! – Michael disse. – Que mal pode ter? – Déborah não respondeu, mas na sua cabeça só passava que meninos podiam ser bem maldosos.
– Vem, Arya! – Blake chamou a menina também.
– Tem que intercalar menina e menino. – Jemma falou como a sabida do jogo e Harper ficou feliz por poder fugir da menina e se colocou entre Danny e Michael.
– Tem alguma regra? – Peyton perguntou.
– Nada perigoso, eu espero. – Harper disse.
– Para de ser medrosa! – Jemma disse e Harper a fuzilou.
– Harp, por favor… – Danny cochichou para ela, fazendo-a virar o rosto para o amigo. – Relaxa.
– Eu tô relaxada. – Ela disse, suspirando.
– Todo mundo sabe como joga, né?! – Jemma disse, pegando uma garrafa KS. – Boca pergunta, fundo responde. Você não pode escolher duas verdades seguidas. – Harper revirou os olhos. Ao menos não estava na direção de Jemma, não tinha chances de a garrafa cair nas duas juntas e ela pedir algum desafio maldoso.
– Ok… – Harper, Déborah e Arya disseram, desanimadas.
– Vamos lá! – Luka e os meninos pareciam animados.
– Vou girar! – Jemma disse, colocando a garrafa no centro da roda, girando-a. A expectativa reinou entre eles até a garrafa parar.
– Blake pergunta para Peyton.
– Verdade ou desafio? – Ele perguntou.
A brincadeira começou calma. A maioria das perguntas era baseada no que eles aprontavam na escola ou se era verdade que alguém estava apaixonado por outra pessoa, deixando Michael e Déborah em maus lençóis quando o Michael precisou admitir que estava apaixonado pela menina, fazendo um coro alto ecoar pela sala.
Blake também se ferrou ao precisar pular na piscina gelada, devido ao clima estranho de outubro. Ao menos tinha cobertas na casa de Peyton que vieram muito a calhar para o garoto que não parava de bater o queixo. Déborah também foi pega alguns minutos depois, precisando ficar sete minutos dentro do armário com Michael, o que criou uma comoção geral de “se o desafio é para mim, é permitido envolver outra pessoa da roda?” E a resposta foi um quase unânime sim.
Harper estava se livrando de todas as chances possíveis, quando a garrafa chegava nela, era para ela perguntar, e quando a ponta estava virada, acabava atingindo Michael ou Daniel, fazendo a menina dar um longo suspiro. Pena que ela não esperava estar envolvida na verdade ou no desafio de outra pessoa.
– Luka pergunta para Danny. – Toby anunciou.
– Verdade ou desafio? – Ele perguntou e Danny suspirou.
– Desafio! Vamos lá! – Ele disse, rindo, batendo as mãos uma na outra.
– Hum, deixa eu pensar… – O garoto fingiu pensar. – Prova que você e a Harper são só amigos e dá um beijo nela.
– O QUÊ? – A voz da menina saiu alta demais, mas Danny também ficou chocado com o desafio.
– Mas o desafio é para ele, não para mim. – Ela disse ainda assustada.
– A gente já falou disso, Harper. – Luka disse.
– Se valeu comigo, vai ter que valer contigo também, amiga. Desculpe. – Déborah disse, mas tinha que assumir que foi bom ficar sete minutos no armário com Michael. Foi bem… Produtivo.
– Está tudo bem, Harp. É só um beijo, não é nada. – Danny disse, tentando parecer forte pelos dois, mas seu coração estava palpitando por dentro.
Harper é a melhor amiga dele, amigos não se beijam, não tem nada a ver. Ele não era apaixonado pela sua melhor amiga, nunca foi e sabia que nunca seria, não tinha nada a ver, mas ele sentia uma salivação excessiva em sua boca e o nervosismo falava mais alto, então tinha que provar que não era nada.
– Vai, Harper! – Os meninos disseram.
– Para de enrolar, sua chata! – Jemma disse, revirando os olhos.
– Está ok, Harp. – Danny disse baixo, tentando acalmar a menina. – Não é nada.
– Ok… – Ela disse fracamente.
Além de toda questão da amizade de 11 anos entre eles, tinha a questão de que Harper nunca tinha beijado antes e não esperava que seu primeiro beijo fosse assim. As pessoas não sabiam, mas Danny também nunca tinha beijado antes. Tinha um boato que ele beijou uma menina da oitava série no ano passado, mas Harper sabia que era mentira, agora o restante da escola acreditava fielmente nessa história e o menino, que não é bobo nem nada, deixou a história rolar por entre as turmas.
– Vai ser rapidinho. – Ele sussurrou e ela assentiu com a cabeça.
– Para de enrolar e beija logo! – Jemma disse, irritada.
Danny olhou para o rosto da amiga e deu um curto sorriso. De todas as meninas da escola, Harper sempre foi a mais bonita. Não se importava tanto com aparências quanto Jemma e nem em aparecer suada após o treino de cricket ou educação física. Os cabelos estavam compridos na sétima série, deixando as ondas começarem a aparecer mais e isso fazia outros garotos começarem a olhar para ela, como era o caso de Toby que estava nervoso na roda pelo fato.
Outra pessoa que também estava nervosa na roda era Jemma. Um dos motivos de ela odiar Harper, era a relação dela com Danny. Secretamente, a patricinha da escola tinha uma paixonite pelo melhor amigo de Harper e odiaria ver esse beijo. Por que não desafiaram para ele beijá-la? Droga.
– Aqui vou eu, Harp. – Danny sussurrou para Harper, tentando deixar o frio na barriga de lado e apoiou as mãos nos ombros da amiga, aproximando o rosto do dela.
A menina fechou os olhos quando a respiração do garoto tocou seu rosto e sentiu o nariz do menino tocar o seu primeiro, fazendo-o rir fracamente pelo seu nariz avantajado. Ele tentou alongar mais alguns segundos, tentando talvez aproveitar seu primeiro beijo, mesmo que fosse com Harper.
– Vai logo! – Jemma reclamou mais uma vez e o menino transformou os lábios em um bico antes de pressionar seus lábios no de Harper.
O selinho durou cerca de cinco segundos, mas parece que o tempo parou um pouco para ambos. Era uma situação estranha para eles, por causa da amizade, mas até que o beijo não foi tão ruim como esperava. Não foi como receber um beijo de Michelle ou algo assim, foi até que prazeroso.
Ele descolou os lábios após alguns segundos, abrindo os olhos junto da menina. Ela tinha os olhos mais arregalados e as bochechas quentes de vergonha, mas tinha algo estranho com seu corpo. Danny deu um aceno com a cabeça antes de soltar as mãos dela devagar. Harper foi incapaz de falar ou fazer qualquer coisa, mas juntou as mãos perto do seu corpo.
– Pronto! – Danny disse. – Quem é o próximo? – Michael e Déborah olhavam os amigos de forma nervosa. Eles tinham expectativa de ambos serem realmente apaixonados pelo outro, mas ficaram decepcionados quando o beijo findou. Talvez sejam só amigos mesmo.
– Você gira! – Peyton disse e Danny se inclinou no meio da roda, virando a garrafa.
O jogo acabou se seguindo sem mais desafios difíceis ou que deixavam qualquer um desconfortável, mas não fazia mais diferença para Harper. Ela ficou quieta o restante do jogo, somente observando se a garrafa não cairia nela, o que caiu uma vez, a qual ela usou uma carta de verdade ao contar o que realmente aconteceu para o técnico Carr ser demitido do time de cricket. Ele foi pego com uma aluna do terceiro ano no banheiro.
Fora isso, ela não falou mais nada. Danny também estava quieto, mas sabia fingir um pouco melhor do que a amiga, usando sua carta de brincalhão para despistar.
Eles não sabiam ainda, mas esse beijo bagunçaria muito a cabeça deles. Só faltavam descobrir quando e nem quanto.
Harper
– Eu te juro que se o Daniel foi embora sem a gente, eu vou enchê-lo de porrada. – Falei, bufando.
– Até eu vou enchê-lo de porrada. – Michael disse.
– Ah, que noite horrível! – Apertei as mãos na cabeça. – Era melhor ter visto filme e dormido antes das dez.
– Nem fala! – Mike suspirou. – Parecia que você e o Danny iam finalmente sair do zero a zero!? – Ri fracamente, lembrando das mãos de Danny em meu corpo.
– É, talvez… – Sorri, passando a mão na testa. – Se aquele idiota não tivesse aparecido.
– Você está bem mesmo? – Mike perguntou, preocupado.
– Sim, estou. – Assenti com a cabeça. – Foi só um susto. – Suspirei. – Ainda bem que você e o Alonso estavam lá.
– Não acredito que tem homens assim ainda. – Ele sussurrou e assenti com a cabeça.
– Acho que é exatamente o motivo que eu não vou em lugares assim… Prefiro ficar solteira do que enfrentar idiotas. E normalmente eu não tenho você para dar uma chave de braço no cara. – O amigo riu fracamente.
– Esperava não precisar usar, mas para alguma coisa precisa servir essas coisinhas aqui… – Michael mostrou os bíceps, me fazendo rir.
– Você não é tão metido quanto Danny, mas chega perto! – Falei, suspirando em seguida.
Apesar das brincadeiras, minha cabeça estava longe. Eu tinha uma teoria que não estava muito animada em dividir com Michael, mas na minha cabeça só passava a imagem de Danny conversando com aquela loira. Não vi nada de comprometedor, mas o sumiço de Danny me deixava com a pulga atrás da orelha e esperava honestamente que isso fosse mentira.
Ter certeza de que Danny é igual aos outros caras seria uma decepção enorme e não sabia se conseguiria lidar com isso. Seja seus sentimentos amorosos por ele ou até pela amizade. Ele não estava lá quando eu mais precisei. E se Michael ainda estivesse com a mulher? E se Fernando não estivesse por perto? Mal sabia o que aconteceria comigo.
– Ele está aqui. – Michael disse e inclinei a cabeça para baixo, vendo a luz do motorhome ligada e meu estômago revirou.
– Pode esperar? – Perguntei para o taxista e ele assentiu com a cabeça.
– Quer que eu vá? – Michael perguntou.
– Não, tudo bem… – Falei, empurrando a porta do carro e Michael saiu do outro lado.
– Harper, tem certeza de que você…
– Não. – Disse rapidamente, olhando para Michael e respirei fundo. – O que você sabe?
– Nada, mas… – Ele deu de ombros.
– Como ele é, Michael? – Perguntei, engolindo em seco. – Você sabe disso mais do que eu… – Ele ponderou com a cabeça.
– Ele tem momentos. – Ele disse. – Tem dias que não tem nada, mas tem dias que…
– Eu vou me machucar, não vou? – Perguntei, pressionando os lábios.
– Eu não sei, Harp. – Ele disse, mas meus olhos se encheram de lágrimas só na expectativa. – Deixa que eu vou e…
– Não! – Neguei com a cabeça, puxando a respiração. – Se tudo não passou de uma brincadeirinha dele, é melhor eu acabar logo com isso. – Passei as costas da mão no nariz.
– Eu deveria te impedir, mas…
– Você é meu melhor amigo também. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
Suspirei, me aproximando da porta do motorhome e vi minha mão tremer ao se aproximar dela. Fechei os olhos por alguns segundos, tentando manter minha cabeça limpa, tentando pensar de que não tínhamos nada, tentando me manter sã e confirmar comigo mesma de que tudo não passava de excitação.
Não tínhamos nada.
Não éramos nada…
Só amigos…
Talvez…
Ignorei os nós dos dedos e bati a lateral da mão, socando-a com mais força do que o esperado e dei um passo para trás. A mão de Michael apertou meus ombros e sabia que tinha algo de errado. Se Michael estava preocupado comigo, é porque tinha algo muito errado. Ele não colocaria Danny no fogo por causa de mim. A amizade de ambos ainda é mais forte.
Não tive resposta e minhas mãos bateram com mais força na porta, socando-a até a mão doer e ouvi alguns barulhos lá dentro e tive a esperança de ele estar só dormindo aqui, mas seu sumiço ainda era estranho.
A porta se abriu com força e dei mais um passo para trás para desviar dela. Meu olhar foi direto para Danny, me fazendo engolir em seco. A contraluz demorou para meu rosto identificar, mas deu para notar seu peito nu, a calça aberta, além dos cabelos bagunçados. Seus olhos foram as primeiras coisas que eu notei e ficou uma competição silenciosa de quem falaria algo antes.
Várias coisas se passaram em minha cabeça. Eu podia dizer qualquer coisa, começar xingando-o ou empurrando ele para dentro, mas eu simplesmente não consegui. A Harper “amiga” sumiu e a Harper “garota” apareceu. Tudo estava estranho.
– Vem logo! – Uma voz fina falou antes de nós dois e a tal loira apareceu atrás dele somente de lingerie.
– Uau! – Minha voz saiu rápida.
– Harper, eu… – Danny falou.
– Estamos na mesma sintonia, né?! – Falei, rindo sarcasticamente, dando um passo para trás, sentindo meus olhos ferverem com as lágrimas.
– Harper, o que… – Ele desceu os degraus do motorhome.
– É, homens são sempre homens, não?! – Falei, dando mais passos rápidos atrás.
– O que está dizendo? Eu só fiz o que você fez. – Ele disse e neguei com a cabeça.
– Vai se foder, antes que eu me esqueça. – Falei, sentindo as lágrimas deslizarem pelo meu rosto. – Na verdade, acho que isso já aconteceu.
– O que está dizendo? – Ele tentou me puxar pelo braço, mas minha mão foi com força em seu rosto, estalando um tapa pela segunda vez na noite.
– Não se atreva a falar comigo. – Falei entredentes, sentindo meu corpo encostar no táxi e virei o rosto com pressa, entrando no banco da frente e tranquei a porta. – Me tira daqui, por favor.
– Harper! – Danny ainda bateu no vidro do carro.
– Vai! – Falei firme para o motorista e ele colocou o carro em movimento.
– HARPER! – Ouvi sua voz forte, mas deslizei o corpo para baixo e as lágrimas grossas desceram pela minha bochecha.
Daniel
– Você é gostoso… – Ela disse, beijando meu pescoço e respirei fundo, olhando para cima.
Ela puxou minha blusa, jogando-a para trás e nossos lábios se pressionaram mais uma vez. Ela já tinha se livrado do vestido que usava e me pressionava no sofá, distribuindo beijos em meu rosto e pescoço.
Eu estava trabalhando no automático, mas minha cabeça não estava lá. No meio do caminho eu havia me arrependido de trazê-la para cá e não conseguia pensar em como me livrar dela e ir falar com Harper.
Ela foi uma filha da mãe em ficar com outro cara enquanto eu estava lá e talvez eu devesse dar o troco para ela, mas eu não conseguia entrar no clima. Eu não estava empolgado, eu não estava excitado e eu só conseguia pensar em Harper quando passava as mãos pela mulher. Não era o mesmo corpo. Não era nada parecido, na verdade.
Eu estou apaixonado por Harper e isso fazia minha cabeça bagunçar cada vez mais.
– Está tudo bem? – A loira perguntou, se sentando em meu quadril e soltei a respiração forte.
Porra, nenhuma ereção. Ela é gostosa, caramba!
– Sabe… Acho que eu… – Suspirei, sentindo-a deslizar os beijos pelo meu pescoço. – Eu acho que deveríamos parar.
– Por quê? – Ela jogou os cabelos para trás.
– Eu não estou no clima… – Suspirei.
– Deixa eu tentar te colocar no clima. – Ela deslizou a mão pela minha barriga, descendo até minha calça e fechei os olhos, tentando aproveitar o momento.
Eu já estou aqui mesmo, que mal tem? Harper já se divertiu, está na minha vez também…
Apesar de internamente saber que não deveria fazer isso.
Fechei os olhos, sentindo suas mãos descerem pela minha barriga, me fazendo contraí-la. Tentei limpar minha cabeça quando me assustei com algumas batidas na porta. Meus olhos se arregalaram e olhei para a loira.
– Merda! – Falei baixo e fiquei travado por alguns minutos.
– Está esperando mais alguém? – Ela perguntou e fiquei levemente travado.
Merda! E se fosse Harper? E se fosse Maria? MERDA!
Ouvi as batidas na porta ficarem mais forte e ergui meu corpo com pressa, empurrando-a para o lado. Fui até a porta, respirando fundo diversas vezes antes de descer um degrau e apoiar a mão na maçaneta. De repente um medo surgiu em meu corpo e só consegui abrir a porta com rapidez, encontrando Harper e Michael lá fora.
Eu engoli em seco, esperando que ela falasse alguma coisa, mas seu olhar estava assustado demais para falar algo e sabia que eu estava ferrado. Eu não tinha o que dizer, minha cabeça estava uma bagunça e eu não sabia o que dizer. Era como se o tempo tivesse congelado para mim.
– Vem logo! – Ouvi a voz da loura e fechei os olhos quando senti suas mãos em minhas costas.
– Uau! – Harper disse, rindo sarcasticamente.
– Harper, eu… – Minha voz sumiu, eu não tinha o que dizer. Na verdade, eu tinha muito o que dizer, só não saía.
– Estamos na mesma sintonia, né?! – Ela disse sarcasticamente, dando um passo para trás.
– Harper, o que… – Desci os degraus, pisando no chão.
– É, homens são sempre homens, não?! – Ela disse, se afastando de mim.
– O que está dizendo? Eu só fiz o que você fez. – Falei, tentando me aproximar dela.
– Vai se foder, antes que eu me esqueça. – Sua voz saiu dura e vi uma lágrima em sua bochecha. – Na verdade, acho que isso já aconteceu. – Ela se afastou.
– O que está dizendo? – Me aproximei dela, tentando segurá-la pelo braço e senti sua mão bater com força em meu rosto, fazendo o local arder.
– Não se atreva a falar comigo. – Sua voz saiu falhada e ela entrou com pressa no carro.
– Harper! – Me aproximei do carro, batendo algumas vezes e o carro saiu com pressa. – HARPER! – Minha voz ficou mais alta enquanto o carro saía pela estrada de terra. – Que merda está acontecendo? – Virei para Michael.
– Você que me diga! – Ele disse, cruzando os braços. – Você quer que eu te dê os parabéns ou enfie a mão do outro lado para ficar igual? – Ele falou sarcasticamente.
– Que merda você está dizendo?
– Sério? A loira? – Ele indicou a porta. – Desculpe, nada contra você, mas talvez seja melhor você ir embora agora. – Passei as mãos nos cabelos. – Que merda você estava pensando, cara?
– Que merda você está falando? Eu não estou entendendo nada! – Falei.
– Sério? Você e Harper no maior clima lá na balada e aí você vai embora para dormir com outra mulher? Sei que você tem seus momentos, mas achei que pelo menos com a sua amiga você fosse diferente. – Ele disse firme.
– Ah, e você fala isso para mim? Falou isso para ela enquanto ela estava agarrada ao cara lá na festa? – Falei e ele pressionou as mãos nos olhos.
– Ah, você viu isso. – Ele disse.
– É, eu vi. – Suspirei.
– Eu estou a um passo de enfiar a mão na sua cara. – Ele disse, irritado e dei um passo automático para trás. – Aquele idiota assediou a Harper! – Ele disse bravo. – Se não fosse eu e o Alonso, só Deus sabe o que aconteceria com Harper ou onde ela estaria agora.
– O quê? – Senti o gosto ruim em minha língua.
– É… – Ele suspirou. – Você deve ter visto o beijo, mas não foi do jeito que você está pensando, cara. – Puxei a respiração com força, sentindo as lágrimas ferverem meus olhos. – Eu imobilizei o cara e Alonso se aproximou depois e…
– Eu fiz merda, não fiz? – Falei, puxando a respiração com força.
– Sim! Bonito ainda! – Ele disse.
– AH, MERDA! – Soquei a porta, sentindo a mão doer.
– E eu não tenho a mínima ideia de como você vai corrigir essa merda. – Michael disse.
– Para onde ela foi? – Perguntei.
– Eu não sei, para o hotel? Ela me abandonou aqui também, preciso arranjar um jeito de ir para lá. – Ele disse.
– Eu preciso ir atrás dela, caramba. – Falei rápido, entrando no motorhome, encontrando a loira. – Olha, me desculpa, mas você precisa ir embora. Eu vou chamar um táxi para você, eu… – Peguei minha blusa no chão.
– DANIEL! – Corri até a porta, vendo Maria ao lado de Michael só de robe.
– Agora não! Por favor! – Falei, apressado, suspirando.
– Que porra você fez, Daniel? – Ela perguntou.
– Se não for para ajudar, por favor, não atrapalha! – Pedi quase implorando, pegando o celular e a chave do carro.
– Ele viu Harper com um cara, pensou tudo errado, dormiu com outra mulher e a Harper viu, mas ela não teve nada com o outro cara. – Michael explicou.
– Eu não dormi com ela. – Falei firme.
– Ah, menos mal, mas tinha a intenção. – Michael disse.
– Você não está ajudando, cara! – Falei firme.
– Não vou passar a mão na tua cabeça, cara! Você fez merda. – Ele disse.
– Eu preciso consertar isso, pode chamar um táxi para ela? Eu vou atrás da Harper. – Pedi para Maria.
– Você tem corrida em menos de 13 horas, Daniel! – Ela disse firme.
– Até você explicar que focinho de porco não é tomada, vai ser difícil. – Michael disse.
– MICHAEL, VOCÊ NÃO ESTÁ AJUDANDO! – Falei firme.
– Espero que saiba o que está fazendo, Daniel.
– Vemos que não sabe! – Michael disse.
– Eu vou te deixar aqui se você não ficar quieto. – Falei firme, destravando o carro.
– Até que não seria mal. – Ele disse, olhando para a loira e revirei os olhos.
– Vamos! – Puxei-o pelo braço, seguindo até o carro. – Entra logo e cala a boca!
– Isso vai ser impossível! – Ele disse enquanto eu entrava no carro.
Harper
Minha cabeça pesava uma tonelada. Meus olhos ardiam de tanto que as lágrimas escorreram deles. E meu coração parecia que parou de bater dentro do peito. De todos os homens que eu pensei que pudessem me magoar, nunca pensei que Daniel Ricciardo seria um deles. Depois dos momentos fofos que passamos em Mônaco, pensei que ele fosse diferente. Que pelos anos de amizade, as coisas pudessem ser diferentes para nós.
Mas vejo que estava errada. Ele não passa de um pegador, filho da puta que brincou comigo. Justo comigo! Talvez eu devesse ter ficado em Perth, mantido nossa amizade de nos ver por dois meses e ficar separado o restante do ano e evitar que tudo o que aconteceu nessas últimas semanas, acontecesse.
Talvez eu devesse ter decidido sozinha meus problemas e não criado mais. Em uma noite, eu não perdi só um possível amor. Eu perdi meu melhor amigo, minha família, meu afilhado e um possível amor. Minha mãe nunca me ensinou a criar fantasias, mas talvez eu devesse ter ficado na minha. Ao menos não doía como agora.
Eu não lembro se eu paguei o táxi, não lembro de andar pelo lobby do hotel e nem de subir no elevador, mas eu quase caí dentro do quarto quando consegui abrir a porta. Minhas pernas pareciam ter perdido os movimentos e era como se todo meu corpo não tivesse ossos.
Minhas mãos alcançaram a cama e apoiei a cabeça ali, deixando o choro ficar mais audível agora. Depois de tudo o que tinha acontecido nessa noite, tinha que ter a cereja do bolo ainda. Acho que por isso que nunca gostei de cerejas, era uma coisa linda com o propósito principal de decoração e nem era tão gostosa.
Talvez o idiota da balada poderia me dar ao menos um bom sexo, o que era melhor do que uma noite chorando com a cabeça doendo. E eu nem tinha bebido o suficiente para esquecer. Ergui o olhar para o frigobar, na esperança de ter alguma bebida alcóolica, mas meu corpo rejeitou essa ideia na mesma hora.
Eu precisava de uma amiga agora e minha amiga mais próxima era Michelle, mas não queria discutir os problemas sobre o irmão dela, sendo que ela nem deve saber o que estava acontecendo entre a gente. Ao menos espero que não. Poderia ficar longe de Daniel, mas ainda visitar ela e meu sobrinho.
Quando as lágrimas cessaram um pouco e as bochechas estavam com aquela casquinha seca, eu tentei pensar com mais clareza. Não que fosse possível fazer isso agora, mas eu não queria mais problemas, eu não queria ficar aqui, eu só queria ficar em casa… Eu só queria minha mãe agora.
As lágrimas subiram à garganta de novo e forcei engoli-las, não era hora para ficar triste por mais esse motivo. Inclinei meu corpo até a mesa de cabeceira, pegando meu celular que ficou ali, e desbloqueei-o. Passei os olhos pelas diversas mensagens, limpando notificação por notificação, procurando o nome de alguém que não estivesse envolvido na história.
Entrei em meu Instagram, vendo algumas mensagens não lidas e vi uma de Déborah Morales, ex-namorada de Michael da época da escola. Éramos muito amigas no ensino médio, mas a vida nos mandou para lados diferentes quando fomos para faculdade.
Abri a foto e era uma reação ao story que eu tinha colocado mais cedo com a Ginger Spice:
“Olha ela, finalmente aproveitando os frutos dessa amizade, hein? 👏👏”
Suspirei, pressionando os lábios. Mal ela sabia que menos de 12 horas depois dessa foto, tudo virou uma bagunça e parecia que eu não estava vivendo o mesmo dia, quiçá a mesma realidade. Rolei o dedo pela minha agenda de contatos, esperando que eu ainda tivesse seu telefone e fiz algumas contas rápidas na cabeça. Era por volta de duas da tarde para ela. Esperava que ela pudesse me atender.
Apertei a chamada e coloquei o telefone no ouvido, ouvindo-o tocar algumas vezes antes de ouvir sua voz.
– Olha, não morre mais! – Ela disse, animada e suspirei.
– Ei, Déb! – Falei baixo.
– E aí, menina? Vi que você está acompanhando o Daniel! Que milagre aconteceu, hein?! – Suspirei, sentindo as lágrimas pressionarem novamente e tentei conter a respiração, mas ela acabou saindo forte demais. – Harp? Está tudo bem?
– Não… – Falei baixo.
– O que aconteceu, amiga? Fala comigo! – Notei seu tom de voz mudar.
– Eu não quero explicar agora, mas eu preciso de uma amiga. – Suspirei, apertando as pernas perto do corpo.
– Claro, amiga! Eu estou aqui. – Ela disse e suspirei, sentindo as lágrimas voltarem a cair.
– Eu estou apaixonada pelo Danny… – Ela escutou com calma. – E tudo estava indo bem, achei que ele estivesse sentindo o mesmo, mas aí ele dormiu com outra mulher… – Soltei a respiração com força.
– Ah, amiga! – Ela falou. – Ah, meu Deus! Que idiota! – Ela disse. – Que merda que ele fez?
– A gente foi numa balada, e achei que ele estava sentindo o mesmo, mas quando eu me afastei, ele ficou com outra mulher e foi embora com ela… – Minha voz saiu fina, fazendo as lágrimas deslizarem novamente.
– Ah, Harp! Não acredito nisso! – Ela disse. – Faz muito tempo que isso começou?
– Não… – Falei, sentindo a respiração sair pesada. – Um mês ou dois… – Suspirei. – Eu estou o acompanhando nas corridas e aconteceu…
– Ah, amiga… – Ela fez a voz mais fina.
– Eu estou completamente apaixonada por ele, Déb… – Suspirei.
– E ele sabe disso?
– Sabe… – Suspirei. – Ele disse que estava sentindo o mesmo, mas… – Neguei com a cabeça, apertando o rosto na cama novamente. – Eu sou uma idiota. É claro que isso não ia dar certo.
– Você não é idiota, Harper, não tem nada a ver. – Ela falou.
– Tem sim… 24 anos, Déb! 24 anos! E isso acontece agora. Justo agora quando eu já estou passando por outros problemas…
– Algo aconteceu? – Ela perguntou mais rápido.
– Não, nada sério. Só estou pensando em sair da empresa e ele estava me ajudando com isso, me ajudou com meu trauma, a gente se aproximou e… – Suspirei.
– Ah, amiga! Não tenho nem o que dizer, fui pega de surpresa, na verdade. A gente sempre achava que vocês teriam algo e ver vocês dois juntos me deixa feliz demais, mas não com isso…
– Eu não sei o que fazer, Déb. Eu não consigo olhar para ele. Eu não quero ficar mais aqui, eu não…
– Onde você está?
– Barcelona. – Suspirei.
– Amiga! Que horas são?
– Três da manhã, mas a gente estava em uma balada e aí ficou essa bagunça toda. – Suspirei.
– Você deveria tentar dormir. – Ela disse.
– Como se eu fosse conseguir. – Suspirei.
– Que merda, Harp! – Ela disse.
– Eu só quero ir para casa, mas aí vou ter que explicar para família dele o que está acontecendo e eu não quero… – Ela suspirou.
– Você está aí pela Red Bull?
– Sim… – Suspirei, passando a mão livre no rosto.
– Você tem dinheiro? Para pagar uma passagem? Você pode passar um tempo comigo aqui em Auckland. – Suspirei.
– Sim, eu tenho, eu só… Não consigo pensar nisso agora. – Suspirei.
– Tenta dormir, amiga. Toma um remédio, descansa e, se você ainda quiser vir, compra a passagem que eu te pego no aeroporto no horário que você quiser. – Assenti com a cabeça, suspirando.
– Obrigada… – Suspirei. – Obrigada por me ouvir.
– Sempre, Harper! – Ela disse. – Apesar da distância e do pouco contato, somos amigas, se lembra? É para esses momentos que a gente serve. – Suspirei, assentindo com a cabeça.
– Me fala como estão as coisas aí, qualquer coisa para me distrair… – Suspirei.
– Ah, nada relevante agora, acredite, mas quero que venha me visitar, você sempre vem na pressa… – Dei um curto sorriso.
– Eu vejo suas fotos com as focas, me deixa feliz que tenha dado certo. – Suspirei.
– E você? Quer sair da Michelin? – Suspirei.
– Há umas semanas eu decidi sair e abrir um restaurante em Perth, agora nem sei mais. – Passei a mão na boca com excesso de saliva.
– Pensa melhor, amiga. Está tudo muito recente. Deixa a água baixar, fala com ele e…
– HARPER? – Dei um pulo, ouvindo algumas batidas na porta. – Harper! Fala comigo, é o Daniel.
– Merda. Ele está aqui! – Me afastei da porta, como se fosse evitar a porta de abrir.
– Danny?
– É… – Sussurrei.
– Harp, por favor, abre a porta. Fala comigo! – Pressionei os lábios, me encostando na parede oposta à porta. – Eu sei que fiz merda, por favor, fala comigo.
– Ele quer falar comigo… – Suspirei.
– Você quer falar com ele? – Déb perguntou.
– Agora não… – Suspirei.
– Então ignora. – Ouvi mais batidas.
– Harp, por favor!
– Ele não vai parar! – Sussurrei.
– Você está no hotel?
– Sim… – Falei em um suspiro.
– Vai para o banheiro e tranca a porta.
– Harp! – Ouvi a voz dele. – Me desculpe, eu fodi tudo. Michael me contou o que houve e quero saber se você está bem. – Engoli em seco, apoiando a mão na porta do banheiro. – Por favor, Harp. Eu não dormi com aquela mulher, eu… Cala a boca, Michael! – Suspirei, pressionando os lábios. – Eu tinha a intenção sim, mas eu não consegui, não quando eu só penso em você! Merda, Harper! – Ouvi outras batidas na porta.
– ¡Cállate! Hay gente con ganas de dormir. – Ouvi outra voz e imaginei que tivesse sido do meu vizinho de porta.
– ¡Perdon! – Danny disse. – Fala para ele que estou tentando falar com a mulher que eu amo… – Meu coração palpitou.
– Eu não falo espanhol! – Michael gritou.
– Harp? – Ouvi a voz de Déb e soltei a respiração presa.
– Ele disse que eu sou a mulher que ele ama. – Engoli em seco.
– Uau! As coisas estão sérias, então?
– Eu não sei de mais nada. – Suspirei.
– Você só tem duas opções, Harp. Deixá-lo entrar ou esperar a raiva passar. Você acha que está pronta para enfrentar essa conversa agora? – Ela perguntou e minha cabeça parecia pesar mais. Era o acontecido, as batidas na porta, esse susto agora. Tudo estava misturado.
– Não… – Sussurrei.
– Então vá para o banheiro e ignore o que ele está falando.
– Harper… Vamos, Wandinha. Fala comigo, por favor… – A voz de Danny ficou mais baixa e suspirei.
Virei o rosto para a cômoda e peguei a cartela do meu remédio de enjoo e entrei no banheiro, fechando a porta. O som não foi abafado completamente, ainda era possível ouvir as batidas na porta, mas ao menos abafou o som de sua voz.
– Pronto… – Falei para Déb.
– Agora coloca uma música e respira fundo. Eu estou aqui para você. – Assenti com a cabeça.
– Obrigada, Déb. – Suspirei.
– Sempre que precisar, amiga.
Me sentei no vaso sanitário e apoiei a cabeça entre as pernas, respirando fundo. Além da dor de cabeça, eu ainda tinha mais essa para lidar. Talvez por ter me apaixonado rápido demais, fez com que todos os sentimentos viessem muito rápido também.
Quando eu disse que queria empolgação, realmente não era esse tipo.
Domingo
Daniel
– Ei! – Abri os olhos com pressa, encontrando Michael em pé ao meu lado. – Você dormiu aqui?
– Acho que sim. – Suspirei e ele segurou minhas mãos, me ajudando a levantar e sentia meu corpo inteiro doer. – Ah, merda! – Estralei as costas, esticando as mãos para cima, ouvindo alguns ossos do meu corpo estalar.
– A Maria me ligou, cara. Você tem corrida em sete horas, Daniel. – Suspirei. – A gente precisa começar o treino.
– Eu não estou pensando muito nisso, de verdade. – Falei, fazendo alguns alongamentos nos braços. – Ela não me respondeu, cara. Você acha que ela está aqui mesmo?
– A gente perguntou no lobby. Ela está aqui, ela só realmente não quer falar contigo agora. Dê um tempo para ela também. – Ele disse, dando um tapinha em meu ombro. – As coisas já estão aquecidas demais, dê um tempo para ela.
– Até quando, cara? A próxima corrida é em Mônaco, eu estava pensando em fazer uma coisa especial para ela…
– Se acalma! – Ele disse firme. – Dá um tempo para ela, de verdade. Você precisa fazer seu alongamento, se arrumar e ir para o paddock. Eu vou tentar falar com ela e levá-la lá também. – Suspirei.
– Ela não vai, cara! Ela já não foi quando brigamos por causa do Alonso, imagina agora. – Suspirei.
– Você está pensando demais, vamos! – Ele me puxou e suspirei, sentindo-o me puxar para dentro de seu quarto. – Eu vou terminar de me arrumar e logo saímos. Senta aí e fica quieto. – Suspirei, me sentando na cama e deixei meu corpo cair para trás.
Minha cabeça estava doendo, eu tinha dormido no chão por umas três ou quatro horas e Harper não tinha aparecido e nem respondido as minhas mensagens. Ao menos sabia que ela estava bem quando vi o online em seu nome, mas ela não respondeu e nem visualizou minha mensagem.
Quando Michael ficou pronto, saí relutantemente da frente de seu quarto, sem antes bater mais algumas vezes na sua porta, mas fui ignorado mais uma vez. Voltamos para o motorhome, vendo a agitação diária de corrida já na área dos trailers. Maria também estava lá e me deu aquele olhar que eu conhecia bem. Ela não estava nada feliz com tudo, mas não tinha como lidar com tudo isso e mais Maria irritada. Compensaria na corrida.
Michael me deu alguns minutos para eu tomar banho e comer alguma coisa e fizemos meus alongamentos no gramado do lado de fora. Tentei focar no motivo principal de estarmos aqui hoje, mas só conseguia pensar se eu não tinha destruído tudo ontem à noite. Nossa amizade, minhas chances de ficar com uma mulher bacana e minha sanidade também.
– Como está? – Ergui o rosto, olhando para Maria e me levantei.
– Eu estou bem. – Falei aleatoriamente. – É claro que não, mas você está me perguntando se eu estou bem para correr e eu estou. – Dei de ombros.
– Você pode não acreditar, mas eu me preocupo com o seu bem-estar. – Suspirei, passando as mãos no short de tactel. – Conseguiu falar com ela?
– Não, ela não abriu a porta. – Ela assentiu com a cabeça. – Você falou com ela?
– Não, eu dormi ontem à noite, diferente de você. – Suspirei.
– Está tão na cara?
– Não, mas eu vi vocês chegando. Você não dormiu aqui. – Suspirei.
– Obrigado por me ajudar com a loira… – Ela assentiu com a cabeça.
– Que eu não precise fazer isso de novo. – Ela disse. – E tenho que dizer que você deu sorte, mas a mulher era uma Maria gasolina. – Suspirei. – Ela faria isso com qualquer um.
– A culpa foi minha, eu podia ter dito não, mas fiquei com raiva com a Harper e chamei ela para vir comigo. – Ela assentiu com a cabeça.
– E por que você fez isso? O que Harper fez? – Suspirei.
– No final, ela não fez nada, era um idiota que estava a assediando, mas eu os vi se beijando e…
– Achei que só as mulheres criassem realidades que não existem. – Suspirei.
– Seria melhor. – Falei, negando com a cabeça. – Mas deixa isso para lá, eu vou tentar falar com ela de novo.
– Eu sei que as coisas não estão fáceis, mas tenta ao menos fingir que nada aconteceu. – Ela disse. – Dietrich Mateschitz* vai estar lá hoje e vai querer conversar.
– Ah, pior dia possível! – Suspirei.
– Vamos lá, lover boy! Vocês são amigos há 24 anos, certo? Ela vai falar com você… Eventualmente. – Revirei os olhos.
– Obrigado. Isso ajuda muito, de verdade. – Ela deu de ombros.
– Se arruma! – Ela disse e assenti com a cabeça.
Não demorou muito para eu seguir para dentro do circuito e com a quantidade de compromissos pré-corrida, quase deu para esquecer o que estava acontecendo… Quase! Não ter Harper ao meu lado ou só encontrando-a interagindo com os mecânicos ou meus colegas, me irritava um pouco.
As horas foram passando e eu ainda tinha esperança de que Harper apareceria ali e ao menos me deixasse vê-la antes da corrida, mas não. Até a hora de sair da garagem para o desfile dos pilotos, ela não tinha aparecido no circuito, muito menos na garagem.
– Vamos, Daniel! – Maria disse e suspirei, virando para Michael.
– Vai! Aproveita! – Ele disse e passei as mãos no cabelo, abrindo um largo sorriso e segui junto de Maria, encontrando Max e seu assessor no meio do caminho.
– Ei, Daniel! – Max disse, com uma lata de Red Bull na mão.
– Ei! – Falei, seguindo lado a lado.
– Empolgado com a corrida?
– Sempre! – Falei, dando uma risada fracamente, mas acho que eu não sabia mentir.
– Vamos lá! – Max disse e pressionei os lábios, encontrando outros pilotos pelo meio do caminho, todos seguindo para a mesma direção.
– Ei, Daniel! – Vi Fernando e Jenson se aproximar.
– Ei, cara! – Cumprimentei ambos com rápidos abraços e eles fizeram o mesmo com Max.
– Onde você se meteu ontem, cara? – Fernando perguntou. – Encontrou o pessoal?
– Ah, cara, você não tem ideia da merda que deu ontem à noite. – Suspirei, ajeitando o cabelo.
– Mais? Porque eu não me conformo com o que aconteceu com a Harper. Peço desculpas por isso. O cara é um idiota…
– Não, cara, Michael disse que deu tudo certo. – Suspirei.
– Não falou com ela? – Ele perguntou.
– Não. – Suspirei. – Foi um desencontro de informações. Achei que ela estava beijando o cara, eu fiquei com uma garota, ela viu e…
– Ah, cara! Você não fez isso! – Ele disse e suspirei.
– É, eu fiz. – Neguei com a cabeça. – Aí eu fui atrás dela, ela não me atendeu, eu dormi sentado no corredor do quarto dela e…
– Pô, cara! – Ele disse e assenti com a cabeça.
– É. – Suspirei. – Para ajudar eu descubro o que o cara fez e só está somando para eu me sentir o pior cara do mundo.
– Não sei nem o que dizer para fazer você se sentir melhor, cara, mas deixa ela pensar um pouco. Vai dar tudo certo. – Suspirei.
– É, o problema é só que ela não veio, o que não é nem surpresa. – Cocei a cabeça.
– Me desculpe, cara. Tente extravasar sua raiva na corrida. – Suspirei, soltando a respiração fortemente.
– É, eu preciso ficar focado, vou tentar falar com ela de novo depois. – Falei e ele deu dois tapinhas em meus ombros.
– Vou torcer por você. – Ele disse e pressionei os lábios, entrando na garagem da FIA.
Tentei colocar meu melhor sorriso e cumprimentei alguns colegas de equipe, antes de seguir até o fundo da garagem, encontrando Grosjean, Massa e um intruso ali, me fazendo sorrir. Talvez dê um ânimo.
– Ei, carinha! – Falei para Felipinho. – Está perdido aqui?!
– Ei, Danny boy! – Cumprimentei Felipe, depois segui para Grosjean.
– E aí, carinha? – Estiquei a mão para ele, sentindo-o bater na minha mão. – O vencedor aqui!
– Hi, Danny! – Ele disse e abracei-o rindo fracamente.
– Bom te ver, carinha! – Baguncei seus cabelos, sorrindo. – Como estão as coisas? – Perguntei, endireitando meu corpo.
– Tudo bem e aí? – Felipe perguntou.
– É, está tudo certo. – Falei, ponderando com a cabeça.
– É? Tem certeza? – Felipe perguntou e ri fracamente.
– Só alguns problemas. – Suspirei.
– Cadê sua amiga? – Felipinho perguntou e dei um curto sorriso.
– Ela não está aqui hoje. Esse é o problema! – Falei para Felipe.
– Brigaram? – Ele perguntou.
– Pior! – Neguei com a cabeça.
– Oh… – Ele fez uma careta.
– Vamos, caras! Façam fila! – Virei para os organizadores da FIA.
– Te explico depois. – Falei, suspirando. – Vamos lá, carinha? – Perguntei para Felipinho.
– Sim! – Ele disse, animado, me fazendo dar um curto sorriso.
*Dietrich Mateschitz: é o co-fundador da marca Red Bull em 1984. Ele comprou a equipe Jaguar Racing em 2004, transformando-a em Red Bull Racing e sendo o primeiro responsável pelo sucesso da marca no automobilismo hoje, seja na F1 ou em outras categorias.
Harper
Dobrei a blusa da Red Bull, ajeitando-a com força dentro da mala e peguei meu sapato de salto de ontem colocando-o dentro do saquinho antes de encaixá-lo também. Me sentei na cama, puxando o computador mais para perto e vi as opções de voo para Auckland, só tinha horários zoados. Apesar de precisar de um tempo para pensar, não estava com planos de ficar 40 horas entre voos e duas conexões.
Peguei meu celular ao lado e abri o WhatsApp, procurando pelo número de Maria. Talvez fosse muito cara de pau, mas talvez ela conseguisse uma forma mais rápida de chegar em Auckland. Ponderei com a cabeça por alguns segundos e escrevi algumas palavras.
“Ei, Maria, sabe como eu posso chegar em Auckland sem ficar 40 horas em trânsito?” – Enviei, respirando em seguida. – “Aconteceu um imprevisto no trabalho, vou precisar ir para lá”.
Não tínhamos nenhuma amizade, mas podia contar com uma relação de mulheres, não é? Danny provavelmente não contou nada para ela, sei que eles não têm tanta relação assim, então poderia contar com um pouco de ignorância da parte dela.
Meu rosto desceu para o relógio do notebook e faltava poucos minutos para as três da tarde e aquilo me fez suspirar. É claro que eu queria ver a corrida, é claro que eu queria ver Danny. Claro que eu também gostaria de estar ali no paddock, mas minha cabeça estava uma bagunça.
Depois de dormir mais do que meu remédio de enjoo permite, ainda acordei com dor de cabeça, mas isso foi resolvido com um pouco de comida. Mandei mensagem para Michael, perguntando sobre Danny e ele disse que Danny dormiu no corredor esperando que eu aparecesse. Meu coração apertou por isso, ele não podia deixar nossos problemas afetar o desempenho dele nas corridas. Essa foi a condição quando decidi vir.
Me sentia encurralada sobre o que fazer, eu queria falar com ele, mas também queria ir para casa, nem que fosse para ser consolada pela minha amiga ou tentar evitar perguntas de Grace. A raiva tinha passado, mas agora eu sentia mágoa. Mágoa por ele não vir falar comigo quando me viu com aquele cara e, pior, usar isso como desculpa para ficar com uma qualquer minutos depois.
Quem ele pensa que eu sou?
Da mesma forma que eu tinha uma visão diferente dele quando comecei a acompanhá-lo, pelo jeito ele também tinha minha.
Liguei a televisão, procurando pelo canal de esportes até achar a corrida. A câmera estava focada em Max e depois mudou para Danny, me fazendo respirar fundo. Por que eu comecei a achar esse homem bonito? Como foi possível isso acontecer em tão pouco tempo?
Neguei com a cabeça, vendo os carros saírem para a volta de apresentação e fiz meu tradicional sinal da cruz, me fazendo suspirar. Os carros voltaram para o grid, se organizando e vi as luzes se acenderem uma a uma.
– Arrasa, tigrão! – Falei, vendo as luzes se apagarem e os carros largarem.
Danny conseguiu manter sua posição durante a largada, mas seu companheiro de equipe acabou perdendo uma posição para Kimi Raikkonen. Quando o caos da largada parecia ter passado, Rosberg, que tinha passado Hamilton na largada, seguiu em frente, mas, após subir em cima do kerb, acabou deslizando no gramado, entrou na pista de novo, colando em Nico, empurrando os dois carros para fora da pista.
– Que merda! – Arregalei os olhos, chocada com o que tinha acontecido, sentindo meu coração bater mais forte, mas ambos estavam bem.
A vantagem é que Danny agora liderava a corrida, mas a corrida acabou para as duas Mercedes no meio da primeira volta. Deus! Isso vai dar muito problema! O replay passou algumas vezes e a roda dianteira esquerda de Hamilton parece ter tocado em Rosberg, fazendo-o deslizar na grama e bater nos dois carros.
Merda!
O safety car foi liberado e saiu na quarta volta de 66. Ao menos eles bateram e os carros foram empurrados para a caixa de brita, o que deixou poucos resquícios na pista. Durante as 10 primeiras voltas, as ultrapassagens para terceiro lugar estavam animadas, mas o novo companheiro de equipe de Danny estava a menos de dois segundos dele e isso me deixava apreensiva. Tinha mais 58 voltas para a corrida acabar e muito podia acontecer.
Pela décima volta, vários pilotos começaram a ir para os pits stop e estava perdida quanto as estratégias e informações sobre a pista. Não tinha tanta ideia de tudo o que acontecia, mas estando na garagem, com tantas informações, dava para ter uma melhor noção. Danny foi uma das pessoas a ir para os boxes e saiu em sexto lugar, deixando Max liderando a corrida momentaneamente, já que ele também foi para os boxes.
Outros pilotos também foram para os boxes e Danny subiu para a terceira posição na décima terceira volta. Uma volta depois, na área do grid de largada, Danny conseguiu subir para segundo lugar, ficando a 16 segundos de Vettel que liderava a corrida, Grosjean estava na sua cola a menos de dois. Parece que mesmo todos os problemas dessa noite, Danny continuava bastante focado e me deixava feliz por não ter culpa nisso.
Na décima quinta volta, Vettel parou nos boxes e Danny voltou a liderar a corrida, me fazendo sorrir e notei que estava torcendo por ele mais uma vez. Ai, como eu sou tonta. Acho que esse é outro motivo de eu não namorar, ficava interessada muito rápido. Apesar que a curiosidade em ser Danny, talvez falasse mais rápido.
Será que ele realmente não tinha dormido com a mulher ontem? Ele estava de calça ainda e ela estava com o conjunto completo de lingerie. Ainda tinha o agravante de ele ter tido a intenção de dormir com ela, mas por que será que ele não seguiu em frente? Ai, minha cabeça!
Desviei o rosto para a televisão novamente, vendo que Hulkenberg abandonava a prova na vigésima segunda volta por um pequeno incêndio na parte de trás do seu carro. A bandeira amarela foi acionada e ficou até a vigésima oitava volta. Nesse período, Danny não podia respirar, pois Max estava a menos de um segundo dele e Vettel menos de um e meio. Qualquer deslize, ele seria facilmente ultrapassado.
No final da bandeira amarela, Danny foi para os boxes de novo, saindo em quarto lugar, atrás de Verstappen, Vettel e Raikkonen. Agora era correr atrás da compensação. Quando Vettel foi para o pit stop, Danny subiu para terceiro novamente. Na trigésima segunda volta, Danny cravou a melhor volta da corrida com 1:28:974, espero que continuasse assim. Na volta seguinte, ele baixou o tempo para 1:28:885, mas minha felicidade durou literalmente alguns segundos quando Vettel bateu o tempo com 1:28:137.
Na trigésima quinta volta, foi a vez de Verstappen fazer seu pit stop, saindo em quarto lugar e Danny subiu para segundo, menos de sete segundos atrás de Raikkonen que liderava a corrida. Uma volta depois, Danny se transformou no líder da corrida quando Kimi foi para os boxes. Observei pela estratégia de pneus que Danny estava com a estratégia macio, médio, macio, já Verstappen fazia macio, médio e médio, e sabia que a equipe estava tentando duas coisas diferentes.
Na vigésima terceira volta, Danny foi pela terceira vez para o pit stop e trocou por pneus médios e deu para perceber qual estratégia estava dando mais certo. Ele saiu em quarto e tinha 20 voltas até o final da corrida. Era sete segundos entre ele e Verstappen, dava para ele recuperar.
Na quadragésima volta, Alonso acabou abandonando a corrida, mas aparentemente por problema técnico. Ao menos isso. Deu para notar o quão irritado ele e o pessoal da McLaren estavam. Depois de bons anos com Button, parecia que a equipe inglesa não estava indo tão bem e lembro o quão fascinado pela McLaren Danny era quando criança.
Durante várias voltas, nada mudou entre os quatro primeiros lugares, o novato da Red Bull estava fixo no primeiro lugar, seguido pelas duas Ferrari de Kimi e Vettel, depois vinha Danny que mantinha a distância de menos de um segundo de Vettel.
Na quinquagésima volta, Danny tentou um movimento ousado ao tentar ultrapassar Vettel pela direita, fazendo os carros se chocarem, mas acabou saindo da pista um pouco, precisando recuperar, com isso, Vettel recuperou o espaço e isso não afetou a colocação.
– Merda!
– Que merda ele está pensando? Ele veio em cima do meu carro! – O rádio de Seb foi ligado na TV. – Estamos correndo ou jogando pingue-pongue?
– Merda, Vettel, você é mais metódico do que eu pensava. – Neguei com a cabeça.
Na sexagésima volta, Danny tentou novamente, mas travou as rodas, evitando fazer um movimento mais firme. Na sexagésima quinta volta, uma surpresa nada agradável, Danny tinha um pneu furado.
– Gente, eu tenho um puncture! – Ele disse e pressionei os lábios.
– Você só pode estar me zoando! – Suspirei, vendo Danny entrar no pit stop, saindo em quinto lugar, mas conseguiu voltar para quarto logo na saída.
A corrida acabou aí com comemoração da Red Bull pela vitória de Max, o piloto mais jovem de todos a conseguir uma vitória na Fórmula Um e, mais interessante ainda, em sua primeira corrida na equipe principal.
Merda, Danny deveria estar se sentindo um desastre. Liderar a corrida por bastante tempo mesmo, para acabar em quarto, quase perder a posição por uma péssima estratégia de pneu e, pior, ver seu novíssimo companheiro de equipe levantar o troféu. Merda! Isso era fodido demais.
Fui ao banheiro rapidamente, liberando a vontade de fazer xixi desde a quadragésima volta e voltei a me sentar na cama, acompanhando a câmera seguir pelos pilotos enquanto eles seguiam para o pit lane, e pelos três vitoriosos até a garagem da FIA.
Neguei com a cabeça vendo as pontuações dos pilotos e Danny agora havia empatado com Vettel em quinto lugar no campeonato, mas o alemão ficava em quarto lugar pela melhor posição. Merda! Hoje não podia ser pior.
A câmera mudou para as entrevistas em segundo plano enquanto Max, Kimi e Vettel se preparavam para subir no pódio. Danny foi literalmente o primeiro a aparecer na área da imprensa dessa vez. Talvez por eu não segurá-lo em um forte abraço quando eu estava lá. Ironicamente, era o que eu mais queria fazer agora.
– Danny, me fale sobre a corrida, depois de tudo, deve ter sido difícil ver seu companheiro de equipe no pódio…
– Não acho que seja difícil ver Max no pódio, é difícil para mim não estar no pódio, essa é a grande decepção hoje. – Mordisquei meu lábio inferior com a barba feita para a balada ontem. – Eu estava liderando e a Mercedes teve seus problemas na primeira volta. Nós fizemos uma estratégia de três paradas, fizemos a última muito tarde, os outros carros estavam fazendo as trocas, achamos que deveríamos fazer, mas tinha três carros para passar com pneu muito desgastado, é frustrante pensar que poderíamos ter vencido hoje.
– Vocês trocaram porque outros times estavam trocando?
– Não sei, não falei com ninguém ainda. Eles estão aproveitando o pódio agora, mas não entendo por que eu… Normalmente quem lidera tem a melhor estratégia, mas não funcionou hoje. – Pressionei os lábios, sentindo meu coração apertar pela força em lidar com isso de forma sarcástica sem parecer rude.
– E você ainda teve um puncture no final também, foi por contato na barreira?
– Não acho que teve nenhum contato, talvez seja pelas tentativas de ultrapassagem, talvez não, são situações que nunca vamos saber o que aconteceu de verdade. – Apertei as mãos no travesseiro.
– Você tentou fazer ótimas ultrapassagens em Seb no final, me explique suas tentativas agora no final da corrida.
– O frustrante é que não acho que precisamos estar em uma posição de fazer isso, acho que deveríamos ter liderado a corrida inteira se tivéssemos feito a melhor estratégia, mas com Seb a caminho do pódio e de uma potencial vitória, eu tentei ultrapassar e aparentemente ele falou que eu fui um pouco agressivo no rádio… Típico. – Gargalhei alto, cobrindo as mãos com a boca.
– Ah, cara! Foi direto mesmo. – Ri fracamente, ouvindo meu celular apitar e peguei-o, vendo que Maria tinha respondido.
“Claro, posso checar para você. Te dou uma resposta assim que possível. Está tudo bem?” – Ela respondeu e suspirei, deixando meu corpo cair na cama.
Não tinha a menor ideia. Parecia que agora eu me sentia pior por não estar lá no circuito com Danny após esse desastre de corrida. Acho que conseguiu ser pior até do que da Rússia, apesar do melhor resultado.
Estava na hora do meu menino brilhar e eu tinha algumas horas para decidir se o veria brilhar pessoalmente ou na televisão de casa.
*Kerb: em termos simples: é todo traçado que fica em volta da pista, pintado de branco e vermelho.
Daniel
Passei a camisa da Red Bull pelo pescoço e a ajeitei no corpo. Passei as mãos nos cabelos e me olhei no espelho do vestiário. Os olhos estavam mais fechados por causa das olheiras de ontem à noite, mas sacudi a cabeça. Se no fim de tudo eu ficar só com olheiras, eu estou com uma vantagem enorme.
Peguei minha mochila no chão, colocando-a nas costas e o celular, olhando rapidamente se tinha alguma notificação, mas só da minha família, nada de Harper e isso estava me incomodando demais. Até quando ela me daria gelo? Precisamos conversar, temos que ir para Mônaco em alguns dias e eu tinha esperança de que pudesse consertar tudo lá.
– Estou pronto. – Falei para Michael.
– Vamos resolver isso. – Ele disse e fui até a porta, abrindo-a.
O paddock estava mais vazio depois do fim da corrida, mas eu ainda tinha um último compromisso antes de poder ir embora. Atravessei a rua até a garagem novamente e deixei minha mochila com Michael antes de ir até o pit lane, encontrando a equipe se organizando para tirar fotos com Max pela vitória.
– Ei, não esquece de mim! – Brinquei.
– Daniel! – O pessoal falou empolgado e fui até Max.
– Parabéns, cara! – Nossas mãos estalaram e dei um abraço nele.
– Obrigado, Daniel! – Ele disse. – Sinto por você…
– Não, está tudo bem! – Falei, sentindo o gosto amargo na boca.
– Achei que não fosse aparecer. – Christian disse, esticando a mão e ele me puxou para baixo. – Vem logo!
Ri, me sentando entre Christian e Max e olhei para o fotógrafo. Enquanto as pessoas comemoravam, eu tentei entrar na delas, pelo bem da equipe, mas minha cabeça não estava lá. Uma bola de pelos parecia estar presa na minha boca e eu só conseguia pensar em Harper. Depois de algumas fotos, consegui me levantar, ajudando Christian também, ouvindo mais gargalhadas do pessoal.
– Vamos para reunião? – Christian perguntou.
– Podemos fazer amanhã? – Perguntei. – Eu tenho uma coisa um pouco mais urgente para falar.
– Está tudo bem?
– Está, mas você provavelmente sentiu falta de alguém hoje… – Ele olhou em volta.
– Sua amiga. – Assenti com a cabeça. – Ela está bem?
– Sim, sim, eu volto mais tarde se for preciso, mas…
– Temos amanhã! – Ele disse e acenei com a cabeça, em agradecimento.
– Obrigado! A gente se fala! – Dei dois tapinhas em seus braços, me virando para Michael e peguei minha mochila novamente.
– Daniel! – Ouvi uma voz mais fina e virei o rosto na expectativa, mas encontrei Maria.
– Ei, Maria. Eu estou indo encontrar a Harper. – Suspirei. – Tentar, pelo menos.
– Eu vim falar exatamente sobre ela. – Ela disse.
– Conseguiu falar com ela? – Perguntei.
– Ela me mandou mensagem. – Ela me mostrou o celular. – Ela me pediu uma passagem para Auckland.
– AUCKLAND? – Franzi a testa. – Ela não pode ir embora! – Passei as mãos nos cabelos. – E que merda ela quer fazer na Nova Zelândia? – Suspirei.
– A Déborah. – Michael disse.
– O quê? – Virei para ele.
– Minha ex, a Déborah mora em Auckland, elas são amigas ainda, não? – Arregalei os olhos.
– MERDA! E o que você respondeu? – Virei para Maria.
– Falei que veria para ela, acho que ela pensou que eu não sei da história e tentou usar uma desculpa de trabalho.
– Eu tenho que ir para o hotel. Nos falamos depois?
– Claro! Me mantenha informado! – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Vamos? – Chamei Michael.
– Claro! – Ele disse e corri para dentro da garagem novamente, seguindo pelo paddock, até o estacionamento.
Fiquei feliz por já ter passado algumas horas do fim da corrida e consegui sair do estacionamento mais rápido e sem precisar dar atenção aos fãs. Os adorava demais, mas eu tinha uma pessoa em especial que eu precisava cuidar agora. Provavelmente a pessoa mais importante da minha vida desde sempre.
Quando estacionei, acabei subindo na calçada, mas não tive paciência para ajeitar e pulei do carro. Michael me acompanhou e apertei o botão do elevador diversas vezes antes de notar que o do lado já estava no térreo. Subi os andares batendo o pé apressadamente no chão e trombei com a porta quando saí mais rápido do que ela abriu.
– Me deseje sorte! – Pedi e ele suspirou.
– Boa sorte. – Ele disse e me aproximei da porta do quarto de Harper novamente e suspirei, batendo os nós na madeira algumas vezes.
– Quem é? – Ouvi sua voz, fazendo meu corpo suspirar em alívio.
– Sou eu… Danny. – Falei baixo e ela ficou em silêncio por alguns segundos.
– O que você quer? – Ela perguntou e apoiei a testa na porta.
– Falar contigo. Ver você… – Fechei os olhos. – Me desculpar pelo que houve ontem… E que você não vá para Auckland.
– Maria te contou…
– Sim! – Suspirei. – Ela sabe de tudo, Harper. Por favor, deixa eu te ver. Eu não sou esse cara.
– Você foi ontem… – Ela respondeu.
– Eu sei e eu fui um idiota. – Suspirei. – Eu não deveria ter feito aquilo. Eu estava cego de ciúmes, mas eu me senti um completo idiota depois que me contaram o que aconteceu contigo. Eu só queria cuidar de você e enfiar um soco na cara do idiota que tocou em você. – Engoli em seco, sentindo o gosto ruim na boca. – Por favor, deixa eu te ver… Me dá outra chance.
– Eu não sei o que fazer, Danny. Dói muito… – Pressionei os lábios.
– Eu sei, dói em mim também. – Suspirei, encarando a porta. – Por favor, deixa eu te mostrar que isso não passou de um mal-entendido que juntou com ciúmes e eu fui um babaca momentâneo. – Suspirei. – Por favor… Eu ainda não sei o que está acontecendo conosco, Harp, mas eu estou louco para descobrir. – Fechei os olhos, somente ouvindo o silêncio.
Virei para Michael que ainda me encarava e ele deu de ombros, me fazendo suspirar e engoli em seco. Dei um passo para trás, erguendo minha cabeça e pigarreei, tendo uma ideia estúpida, mas talvez apelasse para o lado sentimental.
– So she said “what’s the problem baby?” – Comecei a cantar baixo, mais lento que o normal. – What’s the problem? I don’t know, well maybe I’m in love, love. Think about it every time, I think about it, can’t stop thinking ‘bout it. – Suspirei, aproximando o rosto da porta. – How much longer will it take to cure this? Just to cure it cause I can’t ignore it if it’s love, love, makes me want to turn around and face me, but I don’t know nothing ‘bout love… Oh-oh!
– Isso é golpe baixo… – Notei sua voz mais perto e dei um curto sorriso.
– É, eu sei. – Falei. – Só me dê uma chance, Harp. A próxima corrida é em Mônaco, eu estava preparando algumas coisas para gente… – Suspirei. – Se mesmo assim você não acreditar em mim ou querer nunca mais me ver, eu saio da sua vida para sempre… – Me assustei, vendo uma fresta da porta se abrir com o trinco de segurança esticado.
Vi seu rosto aparecer pela fresta, os olhos vermelhos e algumas lágrimas deslizando pela sua bochecha. Dei um curto sorriso, focando meus olhos nos dela e só queria acabar com essa distância, mas vê-la ali já fazia meu coração se acalmar.
– Essa é a pior parte. – Ela falou, pressionando os lábios. – Eu não sei mais viver sem você, Danny. – Ela suspirou. – Desde antes de estar apaixonada por você. – Dei um sorriso com essas palavras. – Você é tudo para mim. Meu amigo, minha família, sua família é minha família… – Assenti com a cabeça.
– Eu sempre vou estar aqui para você, Harp. Da forma que você quiser. – Pressionei os lábios. – Mas gostaria de dar um avanço na nossa relação, se possível. – Ela pressionou os lábios, assentindo com a cabeça, mordiscando os lábios.
– Você… Você dormiu com aquela mulher? – Neguei com a cabeça.
– Não. – Suspirei. – Porque eu não conseguia parar de pensar em você. – Ela fechou a porta e virei para Michael. – O que eu falei de errado? – Ele deu de ombros e a porta se abriu novamente.
– Nada… – Ela disse, pressionando os lábios e suspirei, observando-a de corpo inteiro e suspirei.
Short e camiseta regata não ficavam bem em todo mundo, mas Harper sabia fazer isso com maestria. Os pés estavam descalços, os cabelos armados e o rosto limpo, com exceção dos olhos vermelhos, mas ela continuava me provando que é a mulher mais linda do mundo.
– Ah, Harp! – Suspirei. – Sinto muito.
– Estamos fodidos, certo? – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Provavelmente. – Suspirei. – Mas eu vou estar aqui por você para o que é que você precisar. Em todo sentido da palavra. – Ela assentiu com a cabeça. – Eu não sei mais viver sem você… – Ela pressionou os lábios. – De um jeito ou de outro.
– Eu não sei também… – Ela disse e suspirei.
– Eu preciso te abraçar. – Ela assentiu com a cabeça e entrei no quarto, passando os braços em volta de seu corpo e fechei os olhos.
Suas mãos subiram para meus ombros e afundei meu rosto em seu pescoço. O cheiro de baunilha estava lá e pressionei meu nariz em seu pescoço, gravando o cheiro que eu mais gosto do mundo. Meu corpo relaxou novamente e podia ficar aqui pelo resto da vida, só com ela em meus braços.
Ela se afastou devagar e mantive as mãos em sua cintura enquanto ela erguia o rosto para mim. Os olhos avermelhados me incomodavam ainda, mas ao menos as lágrimas tinham secado. Segurei sua nuca, afagando seus cabelos e passei o polegar em sua bochecha. Aproximei meu rosto do dela e ela virou o rosto para o lado, me fazendo pressionar meus lábios em sua bochecha.
– Vamos devagar, ok?! – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Ok, mas, por favor, não vá para Auckland, fica comigo. – Ela confirmou com a cabeça, apoiando as mãos em meu peito.
– Não faça isso de novo. – Ela pediu. – Não me machuca.
– Não. – Neguei com a cabeça. – Eu realmente não sei viver sem você, Harper. Seja como amigos ou… – Suspirei. – Eu acho que estou apaixonado por você. – Ela deu um curto sorriso.
– Eu ouvi o que você falou ontem. – Ela pressionou os lábios e senti meu rosto esquentar. – Isso é o que mais está confuso para mim.
– É… – Falei, rindo fracamente.
– Vamos descobrir juntos, ok?! Para valer. – Assenti com a cabeça, colando os lábios em sua bochecha mais uma vez e desci as mãos até sua cintura. – Sinto muito sobre a corrida. – Ela disse e suspirei.
– É, não vamos falar sobre isso agora. – Pedi. – Foi um desastre.
– Sinto por não estar lá. – Assenti com a cabeça.
– Não faça isso também. – Pedi. – Eu não sei mais fazer isso sem você. – Ela assentiu com a cabeça.
– Isso é dependência. – Ela brincou, me fazendo sorrir.
– Eu sei. E é assim que eu sei que estou ferrado. – Ela sorriu, assentindo com a cabeça e me assustei com a batida da porta e virei o rosto para ela. – Acho que Michael cansou de assistir. – Ela riu fracamente.
– Ele estava aqui ainda? – Ela perguntou.
– Sim. – Falei, deslizando a mão pelo seu corpo. – Ele me contou o que houve contigo. O filho da puta fez algo contigo? – Ela negou com a cabeça.
– Não, eu estou bem. – Ela suspirou. – Ele só me beijou, mas Michael deu uma chave de braço nele e conseguiu segurar o cara.
– Não acredito que esse filho da puta te beijou antes de mim. – Ela riu fracamente.
– Não se preocupe, você foi o primeiro de sempre. – Ela apoiou a cabeça em meu ombro e sorri.
– Ao menos nisso eu preciso ter uma vantagem. – Dei um beijo em sua cabeça, apoiando a minha nela.
Capítulo 15
Perth, Austrália, 2003
– Filha! Você não está pronta ainda? – Harper ergueu o olhar para a mãe. – Nós vamos nos atrasar.
– Eu não sei se eu quero ir, mãe. Acho que não estou me sentindo bem. – A menina disse.
– Você não querendo encontrar o Danny? Com certeza está passando mal. – Helena atravessou o quarto, seguindo até a filha e colocou a mão na testa dela, mas não tinha nada de diferente.
– Não é isso, eu só não tô bem. – Ela disse, fingindo uma tosse em seguida que foi pega por Helena no segundo seguinte.
– Aconteceu alguma coisa entre você e o Danny, filha? Faz um tempo que ele não vem aqui. – Helena perguntou.
– Não aconteceu nada, mãe! – A menina falou um pouco rápido demais. – Ele só tá ocupado com as corridas e eu com o time, só isso.
Helena olhou fixo para a menina com os olhos apertados e Harper tentou desviar o olhar de sua mãe. Era uma péssima mentirosa, mas estava entrando em desespero ao encontrar Danny depois do que aconteceu na festa de aniversário da Arya. Ela se sentia estranha, com borboletas no estômago e sua cabeça voltava sempre ao beijo.
Ele tinha sido seu primeiro beijo na vida. Danny tinha beijado ela e ela quase conseguia sentir os lábios dele nos seus ainda, além das suas mãos em seus braços. Ele era sempre muito cuidadoso com ela e não foi diferente disso, mas ela não sabia o que fazer depois do que houve. Tentou desconversar com Déborah quando ela perguntou e aproveitou a primeira carona para voltar para sua casa após a festa, mas não parava de pensar nisso.
– Eu não sei o que está acontecendo, não sei se vocês brigaram, mas você não vai perder a festa da Grace. Você tem cinco minutos para se vestir e ir para baixo. – Helena disse séria, saindo do quarto e a menina de 14 anos recém-feitos, suspirou longamente.
Ela se levantou, desanimada e foi até o vestido pendurado no cabide, colocando por cima da calcinha e sutiã de bolinhas rosas. Ela colocou as sandálias e passou um gloss nos lábios antes de soltar os cabelos do rabo de cavalo frequente e jogá-los para trás. Ela se incomodava um pouco com os cabelos armados, a maioria das meninas tinham cabelos lisos, mas ela achava que combinava com ela.
Talvez tivesse dado mais do que cinco minutos para ela descer, mas os pais sorriram quando ela chegou lá embaixo. A mãe ajeitou o vestido levemente torto e jogou os cabelos da menina para trás.
– Linda! – Ela sorriu. – Não é, Alex?
– A menina mais linda do mundo! – Alex disse e a menina deu um curto sorriso. São seus pais e é trabalho deles dizer isso, mas ela se sentiu mais relaxada.
Todos entraram no carro e seguiram até a casa da família Ricciardo, no tradicional número três. Harper não tinha ideia de como agir. Não era mentira que ele estava ocupado com os treinos de kart e ela com o time de cricket, mas eles nem se olharam durante as aulas, então sabia que Danny se sentia incomodado também, apesar de tentar acalmá-la antes do beijo.
A família de Danny estava em peso quando chegaram na casa deles, Harper até gostava, conhecia todo mundo, então podia perder alguns minutos falando com os avós, tias e primos até realmente encontrar Danny e Michelle.
– Que bom vê-los! – Grace disse e Harper entrou devagar pelo quintal da casa, fazendo questão de ser a última, podendo realmente analisar o território.
– Feliz aniversário! – Helena disse, abraçando a amiga, entregando o presente.
– Ah, obrigada! – Elas deram um longo abraço, depois Alex fez o mesmo. – Fiquem à vontade, gente! Está um pouco bagunçado aqui.
– Feliz aniversário, tia Grace! – Harper disse, abraçando Grace e a mais velha não se conformava por ela e Daniel já terem passado ela em altura.
– Obrigada, meu amor! – Ela estalou um beijo na bochecha da menina. – Danny está ali fora com as crianças. – Ela indicou para fora e a menina não estava tão empolgada em chegar lá.
– Vai, filha! Resolvam o que vocês têm para resolver. – Helena empurrou a filha pelas costas e a menina suspirou.
– Eles estão brigados? – Grace sussurrou e Helena deu de ombros.
– Pelo jeito sim. – Helena cochichou.
Harper andou o mais lentamente possível, mas ficou feliz pelos avós italianos de Danny reconhecê-la, até algumas tias que estiveram lá no Natal do ano passado. Todos falaram como a menina estava linda e crescida, deixando-a levemente envergonhada, mas ao menos mais gente achava isso, então deveria ser verdade.
Quando ela chegou lá fora, ela suspirou. As meninas estavam com Michelle ao redor da piscina e, perto do fliperama de Joe, os meninos. Ela reconheceu os cabelos de Danny no meio dos meninos e suspirou. Talvez ir até as meninas fosse a melhor escolha.
– Harp! – Seu rosto se contorceu em uma careta quando ouviu a voz do amigo e tentou aliviar ao virar para ele, vendo-o correr em sua direção. – Você veio!
– Ei, Danny. – Ela disse, sentindo suas mãos tremerem.
– Faz tempo que a gente não se fala. – Ele disse.
– É… – Ela suspirou.
– É por causa do… – Ele ponderou com a cabeça. – É, não é? Eu não devia ter feito isso e…
– É… – Ela disse.
– Podemos conversar sobre isso? Como adultos? Eu não perguntei se você queria ou se você se sentia confortável com isso… – Ela assentiu com a cabeça. – Vem cá! – Ele disse, puxando-a pelo braço e ambos seguiram pela lateral da casa de Danny, até as escadas da entrada e ambos passaram pela porta de tela. Ela sabia o caminho que estavam fazendo e logo entraram no quarto de Daniel. – Pronto. – Ele fechou a porta e ela se encostou na parede. – Fala comigo. Você sumiu, a gente não faz isso…
– É estranho, Danny! Foi muito estranho! – Ela disse e ele suspirou.
– Não é, Harp. Foi só um beijo. – Ela engoliu em seco.
– Foi meu primeiro beijo, Danny! Da vida! – Ela abaixou o rosto, evitando olhar para o amigo. – Eu não queria que fosse assim… – Ele olhou para ela.
– Desculpa. – Ele falou baixo. – Eu deveria ter negado contigo…
– Nunca gostei desses jogos por isso. Não tem nada a ver. – Ela disse. – E a Jemma faz isso de propósito.
– Ela não fez nada, Harper, eu que te chamei e foi o Luka que deu o desafio. – Ele suspirou. – Eu só não achei que você ia ficar mal depois.
– E como você está bem com isso? Também foi seu primeiro beijo. – Ela disse. – Eu sei que você não beijou a Marjorie no ano passado.
– Não conta isso para ninguém. – Ele pediu e ela revirou os olhos.
– Sério que você está preocupado se alguém souber que é mentira? A própria Marjorie não está nem aí com isso. – Ela revirou os olhos. – Maior povo chato, irritante… – Ela foi falando, andando até a cama do menino e se sentando nela.
– É bom com as meninas… – Harper revirou os olhos.
– E eu sou o quê? Um pato? Se eu estivesse a fim de você e descobrisse que era mentira, eu te acharia um idiota. – Ela disse. – Não que não seja. – Ele riu, lhe mostrando a língua.
– Viu? Não tem por que você ficar chateada, já estamos falando besteira como sempre. – Ele foi até ela, se sentando ao seu lado.
– Mas não dá para agir como se nada tivesse acontecido, Danny. – Ela disse.
– Dá sim, Harp. – Ele segurou sua mão em seu colo. – Nada aconteceu, certo? – Ele virou para ela. – Ou você se apaixonou? – Ela franziu a testa. – Eu sei que sou irresistível, mas… – A menina o empurrou com as duas mãos, fazendo-o cair da cama e ambos gargalharam.
– Idiota. – Ela disse e ele riu, se ajeitando no chão.
– E pensa bem, ao menos nosso primeiro beijo foi entre a gente. – Ele deu de ombros. – Não tem como ser ruim.
– Foi estranho. – Ela fez uma careta.
– É porque somos amigos. – Ele disse. – Com o tempo a gente vai se esquecer. E eu peço desculpas de novo, não deveria ter entrado na deles.
– Não mesmo. – Ela disse, pressionando os lábios.
– Ao menos vai ser uma história engraçada para contar para os filhos. – Ele disse, rindo.
– Não mesmo! – Ela disse rapidamente. – Isso vai ficar só entre nós. Eles já nos zoam sem motivo, imagina se eles souberem disso? A gente não vai ter paz. – Ele ponderou com a cabeça.
– É, você está certa. Minha avó vai começar a organizar nosso casamento hoje mesmo.
– Eca! – Ela fez uma careta e foi aí que teve certeza de que tudo não se passava de empolgação.
– Mas você me desculpa? – Ele perguntou, se arrastando até ela. – Não queria te chatear.
– Desculpo. – Ela disse e ele se levantou, abraçando a amiga que passou os braços pela sua cintura. – Está tudo bem.
– Daniel, eu já não disse… – Ambos se afastaram com Joe abrindo a porta. – Ah, é você, Harp.
– Ei, tio Joe! – Harper acenou. – Estamos só conversando.
– Desculpe! – Ele disse. – Não fiquem escondidos aí, tem mais gente aqui, deem atenção, vão brincar, por favor. – Ele disse antes de sair.
– Brincar? – Danny virou para menina. – Que idade eles acham que a gente tem ainda?
– Vai saber. – Ela deu de ombros e se levantou.
– Mas não seria nada mal jogar um pouco de fliperama. – Ela ponderou com a cabeça.
– Vamos lá! – Ela disse, rindo, saindo antes dele pela porta.
Apesar do primeiro estranhamento, o beijo não havia sido estranho por eles serem amigos, como achavam, e sim por ter sido o primeiro beijo de cada um, mas eles não sabiam disso ainda.
Nice, França, 2016
Harper
– Bem-vinda à França. – Sorri para o oficial de imigração, sendo a penúltima a sair do jatinho e encontrei Michael, Maria, além de Max, Henrique – assessor dele da Red Bull – e o treinador dele. Não demorou mais do que dois minutos e Danny saiu pela porta do avião.
– Vamos foder tudo, galera! – Ele disse, animado e neguei com a cabeça.
– Vamos! – Maria disse e segurei nas alças da minha mochila, seguindo Maria e Henrique pela pista do aeroporto. Logo senti a mão de Danny em minhas costas e dei um curto sorriso para ele, sentindo-o beijar minha cabeça logo em seguida.
Seguimos pela pista por alguns metros até seguir pela parte coberta. Chegamos na parte coberta e achei que todos seguiriam para dentro do salão de desembarque, como eu e Danny fizemos para pegar o trem para Mônaco da última vez que estivemos aqui, mas eles seguiram beirando a sala de desembarque pelo lado de fora.
– Aonde vamos? – Cochichei para Danny.
– Você vai ver. – Ele disse e franzi a testa.
– O que está escondendo de mim? – Sussurrei.
– Mônaco está muito cheia para chegar de trem. – Ele disse, piscando para mim e fiquei confusa.
Andamos por mais alguns metros antes de entrar em um prédio com uma nova sala de embarque e virei o rosto para a parede “transporte particular de helicóptero” e meus olhos se arregalaram talvez até demais.
– Vamos de helicóptero? – Perguntei, assustada.
– Surpresa! – Ele disse e entreabri os lábios.
– Merda, Danny! Isso é louco! – Falei. – Eu não tenho coragem de andar nisso, não. – Senti meu passo parar e algumas pessoas nos olharam.
– Ah, você vai sim! – Ele me puxou pelo braço.
– Eu nunca andei nisso antes, pelo amor de Deus! – Falei, abraçando à uma pilastra.
– Você nunca tinha andado de jatinho também. – Ele disse e ri de nervoso.
– E vemos que eu odiei! – Falei e ele me abraçou pela cintura, me puxando. – Daniel!
– Vem! – Ele disse, arrastando meus pés.
– Daniel! – Choraminguei, ouvindo-o rir perto de meu ouvido.
– Vem logo! – Ele disse e meus pés voltaram para o chão, ainda arrastados. – Você vai adorar!
– Não vou, não! – Falei, andando devagar e Michael ria de mim. – Você deveria ter me falado.
– É, mas eu tentei fazer surpresa…
– Você precisa parar de fazer isso. – Suspirei. – Foi por isso que você não deixou eu tomar o remédio?
– Não, a viagem dura uma hora e 15, você ia dormir o resto do dia inteiro, qual é! – Ele me empurrou e comecei a subir as escadas mais finas. – A gente precisa aproveitar, esqueceu? – Gemi, sentindo-o me empurrar pelo quadril e apoiei as mãos no corrimão, me forçando a subir mais rápido. – Abaixa a cabeça quando sair pela porta. – Ele disse.
Fiz uma careta quando Michael estava lá em cima segurando a porta e por ela eu via o terraço e ouvia uma batida quase como um pássaro gigante… As pás do helicóptero. Engoli em seco e Danny me empurrou para chegar no mesmo andar e meus cabelos soltos foram para os ares imediatamente. Meu corpo girou quase 180 graus no terraço e vi o helicóptero, me fazendo engolir em seco, além da equipe de Max já entrando.
É maior do que eu pensava.
– ISSO É LOUCO! – Minha voz saiu mais alta, mas Danny nem tentou responder, ele só me segurou pela cintura de novo, me empurrando em direção ao helicóptero e acho que estava começando a enjoar e eu nem tinha entrado lá.
Um homem me ajudou com a mochila e entreguei a ele no automático antes de outro me esticar a mão para eu subir. Max e sua equipe ocuparam os quatro bancos da frente, então nos sobraram os quatro de trás. Maria já ocupava uma ponta, então me sentei no segundo do meio, Danny veio ao meu lado e Michael finalizou o banco antes de fechar a porta.
Meu corpo estava travado e eu acho que tremia mais agora do que tudo o que tinha acontecido em Barcelona comigo e Danny. Danny esticou o cinto de segurança e o passou pelo meu corpo e o fechou com firmeza, depois ele puxou um headphone do teto e colocou em meu ouvido, fazendo o som abafar um pouco.
– Me ouve? – Ouvi a voz de Danny e assenti com a cabeça. – Tenta relaxar! – Ele disse e suspirei. Sua mão tocou a minha e entrelacei nossos dedos com pressa, além de segurar com a outra mão, ouvindo-o rir. – Eu estou aqui. – Ele disse e assenti com a cabeça.
Apesar do helicóptero visivelmente já em funcionamento, demorou alguns minutos para os pilotos terminarem de se organizar e deu para ouvir tudo isso do fone em minha orelha. Era loucura! Eu só conseguia pensar em: o que eu estou fazendo aqui?
– Pronto para decolar! – Ouvi o piloto e eu pressionei as mãos de Danny.
– Vamos mudar… – Ele disse, segurando minha mão com sua outra e passou a direita em minhas costas, me puxando para si.
Não tem como eu descrever uma decolagem de helicóptero, ele simplesmente começou a subir, mas ele não tinha a mesma estabilidade de um avião, então o vento ou o que fosse, fazia a aeronave mexer mais do que eu estava acostumada. Quando o helicóptero começou a virar, ficando levemente inclinado, minhas mãos procuraram Danny com mais força, abraçando-o pela cintura, ouvindo-o rir.
– Respira! – Ele disse e afundei o rosto em seu ombro, sentindo-o acariciar minhas costas.
Pelos primeiros cinco ou seis minutos, eu não consegui aproveitar nada. Talvez eu estivesse pagando maior mico se os outros conseguissem ouvir minha voz, mas não fui informada que eu tinha que encarar essa situação, achava que viríamos de trem de novo.
– Harp, você vai querer ver isso. – Danny disse. – Olha! – Ele disse, acariciando minhas costas e suspirei, olhando para o lado de Maria, ainda apertando a mão de Danny e a vista era de tirar o fôlego.
Eu não tinha noção da velocidade que um helicóptero andava, mas já estávamos em Mônaco, sobrevoando o porto principal, baixando a altura cada vez mais. Não podia negar que a vista era simplesmente maravilhosa, mas eu não tinha a capacidade de me mexer para tirar o celular do meu bolso ou fazer qualquer outra coisa.
Minhas mãos apertaram mais quando o helicóptero virou mais uma vez, fazendo a péssima inclinação me dar dor de cabeça e estávamos indo em direção ao porto perto da casa de Danny, onde ficamos conversando da última vez que viemos. Identifiquei o heliponto e começamos a baixar devagar até que estivéssemos no chão.
O pouso também não foi nada confortável. Ele colocou um dos “pés” no chão, depois outro, dando uma leve cambaleada antes de parar. A porta se abriu e vi o primeiro pessoal sair. Danny tirou o fone de minha orelha e guardou-o em cima enquanto eu tirava o cinto e sua mão me puxou para fora. As pás ainda giravam, então os cabelos voaram novamente e abaixei a cabeça enquanto um homem entregava minha mochila.
Segurei-a pela alça enquanto me afastava da aeronave e consegui finalmente respirar quando entramos em uma escada similar à da vinda. Michael descia em minha frente e Danny me empurrou pela cintura até o andar de baixo, em uma pequena sala.
– Você está bem? – Ele perguntou e suspirei, ainda zonza.
– Acho que estou um pouco tonta. – Suspirei, passando a mão na cabeça.
– Só respira, ok?! – Ele disse, segurando meu rosto com as mãos e assenti com a cabeça antes de sentir um beijo em minha testa. – Mas ao menos foi divertido, vai?
– Você precisa parar de me fazer surpresas, Daniel! – Falei, ouvindo-o rir.
– Ah, mas é tão legal!
– Me dá uma flor… Ou um chocolate! Também é legal! – Ele riu fracamente e ouvi o restante do pessoal descer e Danny me abraçou pela cintura, me mantendo perto dele e tinha que admitir que estava adorando esse novo Daniel.
– Ok, gente, vocês têm o dia de folga hoje. – Henrique disse. – Nos encontramos amanhã as oito aqui mesmo para ir para a estação da Red Bull. Descansem que o fim de semana é corrido. – Danny e Max assentiram com a cabeça.
– Daniel, você tem como ir? – Maria perguntou.
– Eu estou há um quarteirão de casa, qual é! – Ele disse, nos fazendo rir.
– Cuidado! Nos falamos depois. – Maria assentiu com a cabeça e Danny confirmou.
– Vamos? – Danny perguntou para mim e Michael.
– Claro! – Michael disse.
– Até mais, gente! Nos falamos amanhã! – Danny disse e acenei com a mão.
– Tchau! – Falei para o pessoal, seguindo com Danny e Michael para fora da sala, atravessando alguns corredores antes de finalmente colocarmos nossa cara no sol.
– Pessoal já chegou? – Michael perguntou e peguei meus óculos, colocando no rosto.
– Já sim, estão todos em casa. – Danny disse.
– Ah, cara, minhas pernas estão tremendo ainda! – Falei, ouvindo Danny rir.
– Quer ir nas minhas costas? – Danny ofereceu e ri fracamente.
– Não seria nada mal, mas acho melhor aliviar suas costas para o fim de semana. – Ele riu fracamente, mas me puxou pela mão, me trazendo para perto de si.
– É rápido, qualquer coisa eu te carrego! – Ri fracamente.
– Pode deixar! – Andamos pela rua, atravessando a divisa de França para Mônaco.
– Sua família sabe, Danny? – Michael perguntou e virei o rosto para ele.
– Sobre o quê? – Ele perguntou e franzi a testa.
– Que vocês estão de grude aí! – Ponderei com a cabeça e Danny virou o rosto para mim.
– Eu não falei nada. – Disse rapidamente.
– Eu também não. – Ele falou e fiz uma careta.
– Sua mãe e sua irmã vão surtar. – Michael disse e rimos juntos.
– Eu estou surtando. – Falei, ouvindo ambos rirem.
– Eu causo isso nas pessoas. – Danny disse e revirei os olhos.
– Idiota! – Empurrei-o pelo ombro e ele me puxou de volta, passando o braço em meu ombro.
– Ah, nem vem! – Ele deu um beijo em minha bochecha, me fazendo rir.
– Eu não acho que estou pronta para encarar sua família agora. – Falei, honesta. – Nada aconteceu oficialmente, né?! – Pressionei os lábios.
– Não? – Michael perguntou. – Porra, Daniel, você é lento!
– Cala a boca! – Ele falou, me fazendo rir. – Eu sou romântico, ok?!
– É, bem vimos em Barcelona. – Ele foi sarcástico e virei o rosto para ele. – Cedo para fazer piadas?
– Muito! – Danny disse, sério e chegamos na entrada do prédio de Danny. – Podemos manter isso entre nós até a gente descobrir o que é. O que acha? – Assenti com a cabeça. – E isso vale para os caras também, Michael! – Ele disse, sério. – Vai dar merda contar para eles.
– E quando não dá? – Michael disse e Danny revirou os olhos.
– Tente ser discreto, então, ok?! – Falei, andando pelos corredores do prédio. – Você está mais grudento do que antes.
– Ah, não gosta de grudento? – Ele me abraçou pelo pescoço, me fazendo colar em seu corpo e gargalhei alto.
– É, esse já é o Daniel amigo de novo. – Falei, apertando sua barriga, obrigando-o a contrair os braços e fui a primeira a entrar no elevador.
– Vamos nos divertir, galera. – Danny disse e suspirei, sentindo o elevador se mexer e logo as portas se abriram novamente.
Danny saiu na frente com Michael e fui logo atrás, andamos pelo corredor e Danny destravou a porta de seu apartamento, abrindo-a devagar e entrou. Michael e eu fomos logo atrás e pude ouvir um curto grito.
– AH, MEU FILHO! – Ouvi a voz de Grace e ri fracamente, seguindo com eles e vi os pais de Danny, Michelle, Jason, além de Blake e Tom.
– Fala aí, galera.
– Ah, Harp! – Michelle veio em minha direção. – Ah, que bom te ver em maio! – Rimos juntas.
– Melhor do que em dezembro, vai! – Rimos juntas e apertei-a.
– Muito melhor! – Grace disse e abracei-a logo em seguida. – Que delícia te ver, querida! E sorrindo! – Rimos juntos.
– Está sendo divertido. – Apertei-a fortemente e vi o sorriso sacana de Daniel atrás dela.
– Ah, falei que seria bom! – Ela disse, animada e abracei Joe.
– Está sendo ótimo, eu e Harper já tivemos várias ideias para o ano que vem. – Danny disse e franzi a testa em sua direção. – O restaurante!
– Ah, sim! – Falei, rindo. – Estamos conversando ainda, mas não quero mais ficar na Michelin. – Suspirei.
– Faça o que te fizer feliz, querida. – Joe disse, sorrindo.
– É e faça comida para nos fazer feliz. – Jason disse e ri, abraçando-o rapidamente.
– É claro! – Falei antes de seguir para Blake e depois para Tom.
– Está faltando um carinha. Cadê Isaac? – Danny perguntou.
– Está no seu quarto, dormindo. – Michelle disse.
– Ah, quero vê-lo. – Falei, fazendo um biquinho.
– Vão lá. – Ela disse e Danny me puxou pela mão e rimos juntos antes de seguir até seu quarto e Isaac dormia espaçado no meio da cama com o bumbum gordo de fralda para cima.
– Ah, meu bebê! – Fiz um biquinho, me aproximando e me sentei no canto da cama, passando a mão em seus cabelos. – Ele está crescendo rápido demais. – Suspirei.
– É, ele está. – Senti as mãos de Danny em meus ombros.
– Ele está chamando vocês de titi Harper e titi Daniel… – Virei para Michelle. – Está animado em ver vocês.
– Ah, meu amorzinho. – Inclinei meu rosto para ele, dando um beijo em suas bochechas gostosas. – Titi tá aqui.
– Sem monopolizar! – Danny disse, rindo e sorri.
– Não, a gente divide bem. – Falei e trocamos um sorriso cúmplice.
Daniel
– Olha para mim, Isaac! – Falei, vendo-o olhar curioso para a imagem da câmera.
– Oi, bebê! – Harp disse, fofa, fazendo Isaac abrir um sorriso para ela. – Oi, meu amor! – Sorri com ela e Harper inclinou o rosto para dar um beijo na cabeça de Isaac e sorriu para mim.
– Conseguiram fazê-lo dormir? – Ergui o rosto, vendo Michelle.
– Ah, a intenção era essa? – Falei, fazendo-a revirar os olhos.
– Ele precisa dormir, gente. – Ela disse, suspirando.
– Como vamos fazer? – Ouvi a voz de Grace. – Você precisa dormir bem para amanhã.
– Vocês preferem ficar aqui ou ir para o hotel? – Perguntei, me levantando também.
– Eu até toparia ir para o hotel, mas o Isaac não desgrudou de vocês desde que chegaram. E vocês também não ajudaram fazendo-o dormir. – Michelle disse.
– Ah, detalhes. – Harper disse e Isaac foi engatinhando até ela, abraçando-a. – Oi, meu amorzinho!
– Bom, tem a bicama no meu quarto também, só puxar. – Falei. – Dá para vocês quatro ficarem lá, os meninos vão para o hotel e eu e a Harper ficamos no sofá. – Olhei para ela que deu um sorriso e tentei não parecer tão empolgado em ficar sozinho na sala com ela.
– Eu aceito! – Ela disse, rindo. – Esse sofá é muito confortável!
– Para mim tá de boa! – Blake disse.
– Tem certeza, filho? Você precisa descansar, dormir bem. – Grace disse.
– Eu durmo bem em qualquer lugar, mãe. Relaxa. – Falei. – E real, esse sofá é bom. Não paguei caro à toa.
– Esperamos que não. – Harper disse e ela se levantou com Isaac em seu colo.
– Bom, melhor irmos, então! – Tom disse. – Deixar vocês relaxarem também.
– Sim, temos o fim de semana inteiro juntos. – Joe disse.
– E eu venho amanhã cedo para o seu treino. – Michael disse e me levantei com eles.
– Claro! Claro! Deixa eu levá-los até a porta. – Falei.
– Boa noite, gente! – Harper disse.
– Boa noite! – Eles disseram.
– A gente vê seus horários. Você não vai para a pista amanhã, certo? – Blake perguntou.
– Não, mas vou ficar fazendo entrevistas e mais um monte de coisa na estação da Red Bull, é onde a festa está. – Eles riram.
– É para lá que vamos, então. – Blake disse rindo e abri a porta do apartamento.
– Vamos conversando. – Falei e cumprimentei os três antes de eles seguirem até o elevador. Eles acenaram mais uma vez antes de entrar no elevador. Bati a porta e voltei para dentro do apartamento.
– Ele não vai, amor! – Jason disse e vi Harper abraçando Isaac.
– Deixa ele comigo e com o Danny! – Harper disse e me encostei no batente. – A gente o deixa entre nós dois, ele não vai cair. – Isaac apertava Harper, me fazendo sorrir.
– Eu não sei o que está acontecendo, mas deixa ele conosco, mana! – Falei.
– O Isaac não me solta! – Harper disse, rindo. – Ele precisa dormir. – Ela deu um beijo em sua cabeça.
– Quelo a titi Harper! – Ele disse e Harper fez um biquinho fofo.
– Titi Harper tá aqui, amor da minha vida. – Eles riram e aquilo me fez sorrir. – Por que vocês não vão arrumando as camas? Se arrumando? Depois eu deixo o Isaac com o Danny enquanto vou me arrumar.
– Tem certeza? – Mi perguntou.
– Ah, por favor, Michelle! Vai! – Ela disse, empurrando minha irmã e meus pais, Michelle e Jason saíram da sala e ri para Harper.
– Você está realmente aproveitando ele, hein?! – Falei, me aproximando dela.
– Para quem o viu ao nascer e depois aproveitou só dois meses nas férias, fico feliz em poder aproveitar mais. – Ela disse e passei as mãos nos cabelos de Isaac. – Ele é o amorzinho da minha vida.
– Ah, ele é o amor da sua vida? – Perguntei, fazendo-a rir.
– Não apresse as coisas, Daniel. – Ela sussurrou e sorri, assentindo com a cabeça.
– Eu vou arrumar o sofá. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
Fui até o pequeno quartinho, pegando um conjunto de roupa de cama e alguns travesseiros antes de voltar para sala. Harper andava pela sala quase dançando com Isaac, ninando-o devagar. Sei o quão apaixonado eu estou por essa mulher, mas parecia que qualquer coisa me deixava mais apaixonado ainda.
Deus! Onde eu estava me metendo?
Deixei os itens de cama em cima da mesa e fui até o sofá, puxando a extensão das três partes. Ajeitei o lençol por baixo e coloquei dois travesseiros de forma perpendicular ao sofá e outros dois no meio, uma na cabeça e outro no pé.
– Acha que ele cai daqui? – Perguntei e Harper negou com a cabeça.
– Esperamos que não. – Ela disse baixo e ri fracamente.
– Eu fico do lado de fora. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
– Ele está quase dormindo. – Ela disse, com a cabeça apoiada na dele.
– Vou me trocar, depois trocamos. – Falei.
– Uhum! – Ela disse e fui até meu quarto, dando um toque antes de entrar.
– Posso usar o banheiro? – Perguntei.
– Claro, filho, vai lá! – Minha mãe disse, dobrando a coberta de cima da cama.
– Tem certeza de que não quer que eu e Jason fiquemos lá? – Mi perguntou, saindo do banheiro.
– Não, está tudo bem, mana! Relaxa! – Peguei meu pijama no closet, antes de fechar a porta.
– Está quente também, não tem ar lá…
– Relaxa! – Falei. – Somos os mais novos, a gente se vira! – Falei. – Depois o Michael tira os nós das costas. – Eles riram e fui até o banheiro.
Me troquei, mijei, escovei os dentes e dei uma olhada em meu rosto. Passei as mãos em meus cabelos, dando um curto sorriso e chequei o hálito, rindo fracamente com meus pensamentos antes de sair do banheiro.
– Boa noite, gente! – Falei, me aproximando de meus pais.
– Boa noite, filho! – Minha mãe disse, dando um beijo em meu rosto.
– Boa noite. – Retribuí. – Michael deve chegar por volta das sete para o treino. – Dei um abraço em meu pai.
– Tudo bem. Eu devo acordar meio junto. – Minha mãe disse.
– A gente vai se falando. – Dei um beijo em Mi e um rápido abraço em Jason.
– Se vocês precisarem de banheiro, por favor, entrem! – Minha mãe disse e ri fracamente.
– Pode deixar, mãe. – Sorri. – A Harper vem se trocar logo mais.
– Tudo bem, filho. – Sorri.
– Boa noite. – Falei acenando antes de sair do quarto. Voltei para a sala e encontrei Harper sentada no sofá, enquanto fazia carinho em Isaac deitado. – Ele dormiu? – Perguntei baixo.
– Sim! – Ela disse no mesmo tom. – Eu vou me trocar.
– Claro! – Assenti com a cabeça e ela se levantou. Ela passou por mim, fazendo um carinho em meu braço e saiu da sala.
Fui até a sacada e fechei a cortina, sabendo que acordaria com a claridade delas no primeiro sinal de raio solar. Fui até o sofá, me deitando em um canto e observei meu sobrinho e afilhado dormindo com uma paz incrível. As bochechas gordas, os lábios em um pequeno bico e posso dizer que ele é o amorzinho da minha vida também.
Não sei o que faria sem esse carinha. Dividi-lo com Harper era a melhor coisa de todas.
Ouvi um pouco da conversa deles por cima, além de algumas risadas de Harper antes de ouvir a primeira porta se fechar e logo ela apareceu na sala. Os shorts curtos me fizeram sorrir de cara. Ela fechou a porta e desligou a luz antes de vir até o sofá. Ela engatinhou por ele, até se colocar de bruços ao meu lado e sorri, vendo seus cabelos caírem na lateral de seu rosto.
– Oi, tigrão. – Ri fracamente.
– Oi, linda! – Ela virou o corpo para o lado, se deitando direito e sua mão foi para a barriga de Isaac.
– Esse não eram seus planos, não é? – Ela falou baixo e apoiei um braço no sofá, erguendo o rosto para vê-la melhor.
– Ser babá do Isaac? Não mesmo. – Rimos juntos. – Mas é bom passar um tempo com ele. – Ela assentiu com a cabeça.
– Vamos aproveitar com eles, temos o resto do ano depois. – Assenti com a cabeça e inclinei meu corpo, pulando Isaac, e colei meus lábios em sua testa.
– Ah, nem pensar que você vai ficar grudada no Isaac pelo fim de semana inteiro. – Falei, vendo-a sorrir. – Eu tenho planos para nós.
– Outra surpresa que vai me fazer morrer de medo? – Ela perguntou e sorri.
– Espero que não. – Falei, sorrindo. – Mais animada do que ficar com seu amorzinho aqui. – Ela riu fracamente.
– Você vai ficar com ciúmes do Isaac? Desiste! Você não ganha dele. – Ri fracamente, passando a mão em seus cabelos.
– Eu sei, mas eu posso ser mais legal do que ele. – Ela mordiscou o lábio inferior. – Mais divertido…
– Daniel! – Ela virou o rosto para mim e deu um sorriso, negando com a cabeça.
– Só dizendo…
– É, sei bem! – Vi suas bochechas enrugadas, me fazendo sorrir. – Quem não conhece que te compre, Daniel. – Sorri.
– Você que está pensando besteira. – Falei, rindo e senti sua mão em minha barriga.
– Culpa sua, preciso dizer. – Ela disse, suspirando e olhei-a por cima dos cabelos de Isaac, vendo-a sorrir.
– Nesse caso, eu nem me importo – minha mão foi até a sua. – Só quero ficar contigo. Com ou sem Isaac. – Segurei sua mão, entrelaçando os dedos e deslizei minhas pernas para as suas e ela fez o mesmo, entrelaçando-as.
– Vamos fazer um bom fim de semana e aproveitar, que tal?
– Aproveite a calmaria antes da loucura de amanhã, tá? É insano! – Falei.
– Não se preocupe, eu estou contigo. – Sorri e ela se mexeu no sofá. – Cuidado com essas pernas amanhã de manhã, ok?! Não quero sua mãe surtando. – Ri fracamente.
– Já dormimos abraçados antes, Harp. – Falei. – Agora não é diferente. – Suspirei. – Apesar de eu querer. – Ela riu fracamente.
– É… Eu também. – Sorri, sentindo-a apertar os dedos nos meus e acariciei seus cabelos.
Quarta-feira
Harper
– Ai, luz! – Reclamei, colocando as mãos no rosto ao sair do prédio.
– Por acaso você dormiu ontem? – Michael perguntou e tirei os óculos de sol do decote antes de colocá-los no rosto.
– Dormi. – Falei.
– Vocês não fizeram nada com o Isaac lá, fizeram? – Michael disse.
– Oh! – Danny empurrou-o, fazendo-o gargalhar. – Respeita, pô!
– O Isaac começou a se mexer por volta das três da manhã, eu estou toda dolorida. – Falei, caminhando entre os dois.
– E ela não me acordou. – Danny disse.
– Ele foi para cima de mim, Danny! Não ia te acordar à toa. Hoje o dia vai ser cheio. – Falei.
– Mas o seu também vai ser cheio. Ou você acha que eu vou deixar você tirar uma soneca sequer? – Rimos juntos e neguei com a cabeça.
– Com tantas pessoas em cima de você, você nem vai notar meu sumiço! – Disse, rindo, franzindo o rosto quando chegamos no porto e a luz do sol ficou mais forte.
– Você que se engana. – Ele disse e ri fracamente. – Vamos! – Ele indicou a cabeça e fomos com ele.
O porto estava bem mais cheio do que no dia anterior, tinha muito mais barcos e iates do que no dia interior. A rua de Danny estava vazia, mas estávamos relativamente mais afastados do fervo do GP. Andamos pela extensão do porto, até chegar no píer e não demorou para encontrar uma lancha – simples, devo dizer –, com a decoração da Red Bull, e Maria estava do lado de fora.
– Bom dia! – Ela disse.
– Bom dia, Maria! – Falamos juntos.
– Prontos para começar? – Ela disse e senti a mão de Danny em minhas costas.
– Não vai dizer que tem medo de barcos também? – Ele sussurrou para mim e ri fracamente.
– Não, de barcos não. – Falei. – Sempre gostei de mar, esqueceu?
– Nunca! – Ele sorriu e esticou a mão para mim e segurei-a antes de pisar na parte de trás da lancha e afundei meu pé para baixo ao sentir a movimentação do barco e me sentei de um lado.
Danny se jogou ao meu lado e Michael se sentou com Maria. O capitão colocou a lancha em movimento, me fazendo sorrir com o vento em meu rosto. Ah, como eu sentia falta de praia. Danny apertou meu braço e deslizei meu corpo até ele, entrando em seu abraço e ele me apertou contra si.
Consegui aproveitar os 10 minutos de passeio na maior calmaria. Minha mão foi para sua coxa, em cima da tatuagem que ficava a mostra pela bermuda e ele apertou o braço em mim, dando um beijo em minha têmpora, me fazendo sorrir. Meu olhar passou pelo de Maria e ela tinha os olhos revirados, me fazendo rir fracamente.
Eu não sabia exatamente o que esperar ao ir de barco para o paddock, mas eu não esperava nada do que eu encontrei. O prédio da Red Bull não era um prédio, igual nos outros GPs, ELE ERA UMA ESTAÇÃO FLUTUANTE GIGANTESCA! Parecia um cruzeiro de tão grande que era.
– Uau! – Falei, rindo, me levantando e Danny esticou a mão para eu sair da lancha. – Isso é demais! Agora entendo quando você fala que aqui é a festa.
– Hoje é para estar mais calmo, mas a Red Bull investe nessas coisas. – ele disse.
– Isso é incrível! – Falei, rindo, pisando no píer e não dei cinco passos até entrar na estação da Red Bull.
O prédio tradicional do paddock ficava no primeiro andar, tinha um bar, cantina e algumas mesas distribuídas. O prédio era maior do que os que eu estava acostumada, além dos dois andares, tinha um terraço com uma área mais privada para os pilotos e convidados. Já na área externa, mais alguns bares, cantinas, diversas mesas espalhadas, sem contar a famosa piscina com sofás à sua volta inteira, um telão de um lado e uma mesa de DJ em um canto.
Surpresa e abismada era a palavra certa para isso tudo. Era sensacional!
– Daniel! – Virei o rosto com ele. – Entrevistas! – Maria disse.
– Não dá nem para eu relaxar uns minutos? – Ele perguntou, me fazendo rir.
– Vai trabalhar, criança! – Empurrei-o de leve pelo ombro.
– Você vai ficar bem? – Ele perguntou.
– É claro! Vou tomar um café, comer alguma coisa, a gente se encontra daqui a pouco. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
– Até mais! – Ele disse sorrindo e ri fracamente.
– Me acompanha para um café? – Michael perguntou.
– Só se for duplo! – Falei, ouvindo-o rir.
Seguimos pelo terraço do segundo andar, ficando em volta das piscinas e um assistente veio livrar meus ombros e os de Michael das mochilas. Seguimos até o bar que ficava perto da baía e peguei um capuccino muito gostoso e um lanche de prosciutto com muçarela de búfala. Preciso dizer que era muito bom ter certeza que eu comeria bem em qualquer cantina que eu andava nesses lugares.
Não demorou muito para que Danny aparecesse na área da piscina. Primeiro para tirar algumas fotos, o que devo dizer que ele ficava gato demais nesse sol de começo de dia, a bermuda mais relaxada e suas tatuagens na coxa que eu amo tanto. Inclusive a primeira tatuagem que fizemos juntos está nessa mistura do barco com o “no regrets, only memories” e da corredora, o coração onde metade é um fouet e a outra metade é o número 3 de Danny, cozinha e Fórmula Um juntos. A minha está na costela, na lateral direita, na linha do sutiã. É em homenagem a nossa amizade.
Além dessa, dividimos também uma rosa dos ventos, para mostrar que não importa em que parte do mundo estamos, sempre estaremos juntos. A de Danny está no tornozelo direito e a minha na parte de trás da minha coxa esquerda, perto do joelho. Talvez essas tatuagens acabem tendo um novo significado se realmente conseguirmos lidar com um relacionamento em cima de uma amizade longa como a nossa.
Depois das fotos, Danny foi para dentro, trocou por uma calça jeans e começou as entrevistas. Algumas no sofá, outras perto do píer e algumas de costas para os iates ancorados ali. Isso era sensacional, devo dizer. As entrevistas acabaram sendo meio iguais, mas Danny era bom para falar com literalmente qualquer pessoa, então sempre acabava ficando legal, mas até me interessei quando o pessoal da Fórmula Um chegou para fazer o Grill the Grid com ele, agora as coisas ficariam interessantes.
– Você vai se apresentar, ler as perguntas, fazer uma pausa entre elas e responder. – A mulher disse, entregando algumas fichas para ele, enquanto outra mulher passava um pó em seu rosto.
– Ok, quando quiser! – Ouvi sua voz e até levantei meu corpo do sofá para vê-lo melhor.
– Preparados… Gravando! – O câmera disse.
– Ok, então este é o Grill the Grid com Daniel Ricciardo, aquele cara bonito da Austrália aparentemente, eu não sei. Ouvi algumas vezes. – Revirei os olhos, rindo fracamente.
– Como você vai lidar com esse ego dele? – Michael perguntou em um sussurro.
– Da mesma forma que eu já lido. – Dei de ombros. – Acho ele um tonto e dou risada. – Rimos juntos.
– Quem se juntou a você no pódio na sua primeira vitória na F1? – Ele leu, fazendo uma pausa. – Nico Rosberg e Sebastian Vettel.
– Muito bem!
– Quem eram os três corredores da Red Bull em 2005? – Ele seguiu para próxima. – Eu vou dizer… Vitantonio Liuizzi… Christian Klien e David Coulthard.
– Completamente certo.
– Bo-om! Arrasei! – Ele disse, rindo.
– Eu não sei, talvez o fato de sermos tão diferentes foi o que fez nossa amizade funcionar. – Sussurrei para Michael. – Tem uma parte de mim que tem medo de ser empolgação, mas acho que não.
– Ele estava surtado quando me contou que estava apaixonado por você. – Ri fracamente. – Foi logo que voltaram de Mônaco.
– Acho que aquela viagem foi um divisor de águas e fomos para o mesmo lado. – Suspirei.
– Algo aconteceu? – Ele perguntou. – Fisicamente, digo.
– Não… A gente só saiu para jantar, curtimos o dia, dividimos a cama, nada de novo, mas foi especial. – Suspirei. – Você não deve querer ouvir isso.
– Ah, acredite, eu quero! – Ele disse, rindo. – Espero ao menos uns 14 anos por isso. – Sorri.
– Demoramos muito? – Virei para ele.
– Talvez… – Ele ponderou com a cabeça. – Ou talvez seja o tempo exato para vocês. Eu e a Déborah namoramos na escola e não deu certo para vida. – Ele deu de ombros.
– Pensa muito nela? – Perguntei.
– Às vezes, terminamos meio estranho pela faculdade dela, mas não acho que tenha muito o que fazer. – Ri fracamente.
– Só não tem jeito para morte, Mike. Fala com ela. Manda um “oi” e vê o que vai rolar. Para quem viaja o ano inteiro, Auckland nem é tão longe. – Ele riu fracamente.
– Você está certa.
– Sempre! – Brinquei, virando o rosto para Danny novamente.
– O que “Mellivora Capensis” é conhecida por? – Ele franziu a testa. – Hum, você me pegou nessa.
– É uma coisinha, é um animal. – A produtora falou.
– Ah, não diga que é um honey badger. – Ele disse, me fazendo rir.
– É!
– Sério?! – Ele falou, empolgado. – Desculpe, honey badger, não me machuque por isso. – Ri fracamente. – Eu deveria saber.
– Bom, Daniel, você ficou em terceiro no nosso quadro, entre Max e Marcus Ericsson.
– Hum, sabe, ficar em primeiro nesse quiz é um insulto, ninguém quer ser o melhor na escola. Eu poderia ficar na liderança, mas não quero, quero ser o garoto legal, então… Vou me contentar com terceiro e ficar de boa. – Ri fracamente.
– O mais engraçado é que tirando algumas piadas, ele não age assim comigo. – Ri fracamente.
– A frase “é a Harper e o Danny” faz sentido nesses casos. – Ele disse. – Vocês vivem em um mundo seus, fico imaginando agora. – Ri fracamente.
– É… Vamos ver. – Sorri, vendo Danny se livrar do microfone. – É um novo território para nós dois, ninguém quer errar…
– Duvido que vão. São vocês. – Ri fracamente.
– Obrigada por ser um amigo, Mike.
– Desde 2002! – Sorri, assentindo com a cabeça.
Quinta-feira
Daniel
– Muito bem, Daniel! Melhor tempo do treino! – Simon disse. – 1:14:607.
– WOHO-O-O! – Minha voz saiu mais alta.
– Pare de gastar pneu, box agora! – Gargalhei alto, guiando o carro pelas diversas curvas de Mônaco até entrar no pit lane apertado e parar na frente da garagem da Red Bull.
– Isso foi bom, caras! – Falei, rindo, vendo os mecânicos virem até o carro e colocarem o carro de ré de volta na garagem.
– Muito bem, Daniel! – Ouvi a voz de Christian antes de sua risada.
– Vamos manter assim no sábado! – Falei, desconectando os fios, tubos e tirando os cintos de segurança antes de me impulsionar para cima, batendo a mão na de Simon.
– Muito bom, Daniel! – Ele me abraçou enquanto eu saía do cockpit e gargalhei.
– Foi incrível, caras! – Desconectei o capacete do HAMS antes de puxar o capacete da cabeça.
– Como está o carro? – Simon perguntou.
– Está fantástico! – Falei, rindo. – A downforce está muito maior, o carro se manteve bem firme nas curvas. – Ri fracamente. – Talvez teremos uma boa chance no sábado. – Puxei a balaclava.
– É assim que fala. – Ri fracamente, procurando minha família pela garagem e encontrei Harper com Isaac em seu colo, me fazendo sorrir.
– Quem é aquele? – Ela me indicou, sacudindo Isaac. – Quem é?
– Titi Daniel! – Ele disse, rindo, me fazendo rir.
– Titi Daniel foi bem hoje! – Harper beijou a bochecha gorda de Isaac. – Titi Daniel vai ganhar a corrida.
– Ah, que Deus te ouça! – Falei, rindo.
– Titi Daniel! – Isaac esticou os braços para mim.
– Deixa o titi tirar isso, está quente para caramba! – Abri o zíper do macacão, descolando os velcros e tirei os braços, deixando-o cair na cintura. – Vem cá! – Peguei-o no colo, fazendo-o rir.
– Você está todo suado! – Minha mãe disse, me fazendo rir.
– Nesse calor, até ele está todo suado! – Falei, dando um beijo na bochecha dele. – Uma piscina seria boa agora, hein?! – Brinquei com Isaac.
– Piscina! Piscina!
– Ai, Daniel! – Harper me empurrou.
– O quê? O mar tá ali, não precisamos necessariamente de uma piscina, apesar de ter uma pertinho daqui, ali na curva 14. – Falei e ela riu, aproximando o rosto de Isaac.
– O titio é bobo, né, amor? – Ela fez cócegas na barriga dele, fazendo-o rir e depois apertou a minha, me fazendo inclinar.
– Ai! – Disse, rindo, vendo-a seguir para dentro do corredor.
– Bom treino, filho! – Meu pai me cumprimentou e trocamos um meio abraço. – Vamos conseguir uma boa classificação no sábado.
– Vamos! – Sorri. – Cadê Michelle e Jason?
– Foram para o paddock club com os meninos. – Minha mãe disse. – Aqui está um pouco cheio.
– E o Isaac? – Ela riu.
– A Harper não solta dele ou ele não solta dela, é uma conjunção de fatos. – Ela disse, me fazendo rir.
– Esse menino é apaixonado pela titi Harper! – Falei, ouvindo-o rir.
– Ao menos tenho certeza de que daqui uns 20 anos, eu terei um namorado que me ama incondicionalmente. – Ela voltou, me fazendo rir. – E que baba um pouco em mim agora, mas dá para dar um desconto. – Neguei com a cabeça, vendo-a sorrir.
– Daniel! Entrevista! – Maria apareceu atrás de Harper e ri fracamente.
– Eu vou contigo e fico com Isaac! – Harper disse. – Aproveito e pego um sorvete nesse calor! – Ri fracamente.
– Sovete! – Isaac disse, animado e Harper pegou-o de meu colo.
– Ah, você quer sovete? Vou te levar num lugar sensacional que o titi Daniel me levou! – Rimos juntos.
– Eu já volto! – Falei para meus pais.
– Nós vamos lá no paddock club com o pessoal, nos encontramos depois? – Minha mãe disse.
– Claro! Subo lá assim que possível! – Falei.
– Dá tchau para o vovô e para vovó! – Harper disse, fazendo cócegas na barriga de Isaac.
– Chau! – Isaac acenou, me fazendo sorrir.
– Vem! – Chamei-a com a cabeça e seguimos até a frente da garagem, antes de sair para o sol das quatro da tarde.
– Agora entendo por que gosta daqui. – Harper disse um pouco à frente e ri fracamente. – O barulho é incrível e realmente não parece que estamos no mesmo lugar de um mês atrás. – Sorri.
– Acho que comecei a gostar mais depois de te trazer aqui. – Ela riu fracamente, negando com a cabeça.
– É o mínimo que você pode fazer. – Ela brincou, colocando Isaac no chão.
– É, aí eu preciso ouvir você falar para os meus pais que ele vai ser o único homem que vai te amar incondicionalmente! – Ela me olhou inclinada para frente enquanto segurava as mãos de Isaac.
– Declarando seu amor por mim, Daniel? – Ela sussurrou e senti meu rosto esquentar.
– Não seria a primeira vez! – Falei rapidamente e ela riu.
– Nunca nesse tipo de relação. – Ela disse. – Esse caminho é novo para gente, e não sei mais fazer piadas sobre isso.
– É uma linha fina demais, não é? – Ela assentiu com a cabeça.
– Me pergunto se ainda vou ter meu melhor amigo se isso der errado. – Ri fracamente.
– Você sempre vai me ter, Harper. De um jeito ou de outro. – Falei e ela pegou Isaac novamente antes de erguer o corpo.
– Me pergunto se vamos agir assim se algo der errado. – Ela olhou em meus olhos.
– Espero que não precisemos descobrir. – Ela suspirou.
– Já dizendo que vamos ficar juntos para sempre? – Ri fracamente.
– Para de analisar minhas palavras! – Ela gargalhou, me empurrando pelo ombro.
– Está difícil não. – Abracei-a pelos ombros, andando com ela pelo pit lane.
– Às vezes eu esqueço que você me conhece há tantos anos.
– Ah, só alguns… – Ela disse, relaxada.
– Mas ao menos uma verdade eu disse… – Falei, rindo.
– Qual? – Ela perguntou.
– Vamos ficar juntos para sempre… – Ela virou o rosto para mim. – De um jeito ou de outro. – Ela riu fracamente.
– Espero que esteja certo. – Ela disse, me fazendo sorrir.
– O casalzinho aí pode ficar quieto por alguns minutos? – Maria falou à nossa frente. – Ou o quase romance de vocês vai ser capa dos sites de Fórmula Um amanhã mesmo!
– É melhor nós… – Harper indicou e assenti com a cabeça, abaixando minha mão de seu ombro. – Vamos deixar o titi trabalhar um pouco?
– Não! – Isaac disse, me fazendo rir.
– Não? Mas eu posso te levar para tomar sorvete! – Harper disse.
– Sim! – Isaac disse, animado, nos fazendo rir.
– Safado! – Falei, rindo. – Já volto! – Falei e ela assentiu antes de eu seguir com Maria.
– Preciso dizer, vocês são fofos. – Maria disse, me fazendo rir. – Mas parece ver alguém andando na corda bamba! – Ela gargalhou e revirei os olhos. – Pelo amor de Deus, sai desse zero a zero logo. – Sua gargalhada ecoou mais alto e pressionei os lábios.
– Amanhã temos o dia livre, vou resolver isso. – Ela riu fracamente.
– Vou até ficar de olho no céu, vai que tem alguns fogos de artifício… – Empurrei-a pelo ombro, fazendo-a gargalhar. – Mas não se esqueça do Amber Lounge. – Franzi o rosto.
– Já tinha esquecido. – Suspirei antes de parar em frente aos microfones da imprensa.
– Daniel, sentimos que você teve muito mais hoje do que só o motor da Renault, o que diz sobre o treino hoje?
– Foi algo 99 por cento meu, outro por cento foi do carro… – Eles riram. – Não, eu gosto bastante daqui e…
Sexta-feira
Harper
Passei o batom mais escuro pelos meus lábios, feliz pelo ótimo contraste na pele, e pressionei os lábios um no outro, sorrindo com o reflexo no espelho. A maquiagem era quase a mesma da última vez que Danny me levou para jantar, mas dessa vez havia abusado mais do batom escuro com segundas, terceiras ou quartas intenções.
Estava difícil dormir ao lado desse homem com os lábios entreabertos sem poder beijá-lo, mas tia Grace acordava antes do sol, morria de medo de ela nos pegar na sala. E eu não sabia explicar isso para mim, imagina para ela. Precisávamos dar um passo a mais em nossa relação e esperava que fosse hoje.
O vestido de hoje era um rosado bem forte, no estilo dos outros que eu usei quando vim aqui, mas intencionalmente mais curto. Era estranho, mas estava gostando muito de ser desejada por Danny. Tinha uma sensação estranha de ser algo proibido, mas também aquele ardor pelo corpo.
Calcei a rasteirinha e me levantei. Peguei o lacinho de cabelo e refiz o rabo de cavalo, mantendo-o firme e abaixei os vários fiozinhos rebeldes com laquê. Era a única forma de verdade que eu conseguia domá-los atualmente. O cabelo ficaria duro pelas próximas horas, mas depois me resolveria com isso.
Juntei todas as minhas coisas e saí do banheiro. Michelle estava no quarto dando mamadeira para Isaac e ela pressionou os lábios impressionada com minha roupa e ri fracamente, só dando de ombros. Sem perguntas, sem respostas. Atravessei o pequeno apartamento de Danny e minha visão era totalmente diferente da quando eu fui me arrumar. Os meninos também estavam lá.
– Hum, ei! – Falei, vendo os olhos se virarem para mim.
– UAU! O que está acontecendo aqui? – Jason foi o primeiro a brincar e pressionei os olhos, virando para Danny que tinha os olhos arregalados.
– Está linda, hein, querida? – Grace disse e sorri. – Para que a arrumação toda?
– Hum… – Fui pega desprevenida.
– A gente precisa sair para almoçar, né?! – Danny falou antes de mim, pressionando os lábios em seguida. – Tá gata, hein, Harper? Mas ai se algum cara se aproximar de você enquanto estiver conosco! – Ele tentou manter o tom sério e só revirei os olhos. Não precisa desse teatro também.
– Para de falar assim com a menina! – Tia Grace disse. – Está maravilhosa, Harper. Aproveita e encontra um monegasco. – Ri fracamente, passando na frente de Danny para chegar na mochila.
– É, talvez eu encontre. – Falei, revirando os olhos e Danny pressionou os lábios.
– Me desculpe… – Ele sussurrou.
– Aonde vamos, filho? – Joe perguntou enquanto guardava minhas coisas.
– A área de Monte Carlo está lotada, pensei de ficarmos por aqui em Fontvielle, Jardin Exotique, até em Les Moneghetti. – Ele disse.
– A Harper não tem nada para indicar? – Blake perguntou e ergui o rosto para ele.
– Não, não tem. – Falei. – Minha jurisdição é outra. – Me sentei na cadeira mais perto, cruzando-as e dei um sorriso irônico para Danny. – Apesar de que aposto que tem um McDonald’s aqui.
– Podemos ir ao A’TREGO, ele é 10 minutos daqui e discreto. – Daniel tentava contornar minhas ironias.
– Eu preciso me arrumar, então. – Tia Grace disse e suspirei, virando meu rosto para os lados.
– Vai lá! – Abanei a mão.
Suspirei, vendo o apartamento virar mais bagunça do que já estava e demorou mais uns 30 minutos até realmente todos estarem prontos. Minha sorte foi que meu afilhado correu em minha direção e fiquei brincando de cavalinho com ele em meu colo e sua risada era meu melhor remédio.
– Acho que podemos ir. – Tom disse e ergui os olhos para todos na sala.
– Claro, vamos descendo! – Daniel disse e me levantei com Isaac em meu colo.
– Está gostoso o colinho da titi? – Brinquei com ele, sentindo-o me abraçar pelos ombros e dei um curto beijinho em sua cabeça, com medo de seus cabelos loiros ficarem avermelhados. – Pega para titi. – Indiquei minha bolsa e inclinei seu corpo, vendo-o pegar e rimos juntos quando ele se desequilibrou. – Não faz isso. – Apertei em meus braços, fazendo-o rir. – Ainda te derrubo de cabeça e o que a gente faz, hein?! Não dá para colar! – Ele gargalhou, me fazendo rir.
– Não! – Ele disse entre gargalhadas e pressionei meus lábios em seu rosto, vendo a marca, ouvindo-o rir.
– Vou te deixar cheio de marca de beijinho! – Beijei-o novamente, ouvindo-o rir.
– Harp! – Virei o rosto para Daniel, vendo que só tinha nós três na sala. – Você vai?
– É, claro… – Passei minha bolsa a tiracolo pela cabeça antes de andar em sua direção, sentindo-o me puxar pela cintura. – Daniel…
– Me desculpe, ok?! – Ele sussurrou. – Não era minha intenção que todo mundo fosse junto, mas não consegui achar uma desculpa plausível.
– Não estou brava por isso, estou irritada com esse seu teatro. – Virei Isaac em meu colo. – Não precisa disso.
– Eu normalmente faria isso com os caras… – Ele disse.
– Não faz. – Neguei com a cabeça.
– Titi Harper! – Isaac resmungou.
– Está muito feio. – Suspirei.
– Posso ao menos dizer que você está linda? – Ele se aproximou.
– Não precisa, eu sei. – Falei, desviando dele com Isaac.
– A-a-ah! – Ouvi sua voz e ri fracamente, ouvindo a risada de Isaac comigo e vi que todos já tinham descido.
Apertei o botão do elevador e vi Daniel sair pela porta, trancando tudo.
– Você vai me fazer subir pelas paredes, Harper! – Ele disse e ri fracamente.
– Bom saber disso. – Dei de ombros, passando o polegar na bochecha de Isaac, tentando limpar, mas parecia que ficava pior.
– Sabe, eu poderia te beijar agora…
– Se você me beijar agora, não tem motivo nenhum para estar esperando tanto. – Falei e ele suspirou.
– Eu ia te levar para o iate agora. – Ele disse e entrei no elevador quando a porta abriu, vendo-o entrar logo atrás.
– Não vai ser fácil se livrar deles, Danny. – Dei de ombros. – E eles estão aqui por você. – Falei, suspirando.
– Deixa que eu cuido disso, ok?! Me desculpe sobre hoje, mas talvez consigamos mais tarde.
– Você tem sei lá o que na Amber Lounge. – Falei e ele fez uma careta. – Você ainda está trabalhando, Danny, não dá para deixar para lá.
– Eu vou encontrar um jeito! – Ele disse, saindo de costas do elevador. – Eu preparei algo para nós… De verdade. – Suspirei, seguindo logo atrás dele e coloquei Isaac no chão. – Mas quero que seja especial. – Segurei uma mão dele e Daniel fez o mesmo do outro lado.
– Já é especial, Danny. – Falei. – Somos nós. – Andamos pelos corredores do prédio. – Acredite em mim, não tem como ser mais especial.
– Isso é um desafio? – Ri fracamente.
– Você que sabe. – Disse, rindo e ele sorriu.
– Deixa comigo, ok?! – Ri fracamente, saindo pela frente de seu prédio, encontrando o pessoal.
– Ah, meu bebê! – Michelle disse, fofa. – Eu preciso tirar uma foto disso, não se mexam! – Ri fracamente, parando antes do primeiro degrau enquanto Michelle pegava o celular.
– Agora entendi o batom vermelho. Olha as bochechas do Isaac! – Jason disse, rindo.
– Eu tentei tirar e só piorou! – Eles riram comigo.
– Sorriam! – Mi disse e abri um largo sorriso. – Isaac! – Ela o chamou. – Olha para mamãe!
– Mamá! – Ele disse, animado, rindo em seguida e perdi a concentração, rindo com ele.
– Isso, meu amor! – Mi disse, rindo. – Olha para mamãe!
– Pronto? – Danny perguntou.
– Pronto! – Mi disse e relaxei o rosto. – Eu tenho lencinho aqui.
– Vou precisar de bastante. – Falei, rindo.
– Um pulão, hein?! – Daniel disse. – Vai, Harper! Um, dois, três! – Puxei Isaac de um lado, Danny fez o mesmo do outro e Isaac pulou os cinco degraus da frente do prédio, gargalhando em seguida. – Vem com o padrinho! – Ele se abaixou para pegar Isaac e sorri.
– Para onde vamos? – Blake perguntou.
– Para esquerda, em direção ao porto. – Ele disse. – Só ir! – O pessoal começou a ir na frente e fui um pouco mais atrás com ele. – Vamos nos divertir um pouco.
– Harper está conosco em maio, filho! Não tem coisa melhor para mim. – Tia Grace disse, nos fazendo rir.
– Vemos quem é a pessoa mais importante dessa família. – Falei, ouvindo algumas risadas, mas dessa vez Danny só sorriu.
Daniel
– Está sendo muito bom, de verdade. – Harper deu um sorriso e passei a língua no lábio inferior.
– E você, Daniel? Está cuidando dela? Está fazendo tudo direito? – Eu e Harper rimos com minha mãe.
– Ah, relaxa, tia Grace, eles nem se desgrudam. – Michael disse e Harper escondeu os lábios com o guardanapo e suas bochechas se enrugaram.
– Assim que é bom! – Minha mãe disse. – Falei que te faria bem, querida. – Harper sorriu à minha frente e retribuí.
– É, está sendo muito bom.
– E as crises? Passaram? – Minha irmã perguntou.
– Não tivemos de novo. – Harper disse. – Mas não tivemos nenhum outro acidente como o da primeira corrida, espero não descobrir. – Ela tomou um gole de seu suco pelo canudo e sorri.
– Está indo tudo bem. – Falei.
– É, tirando na Espanha, mas… – Chutei Michael por baixo da mesa. – A-a-a-ah, mas está tudo bem. – Ele tentou desconversar e revirei os olhos.
– O que aconteceu na Espanha? – Minha mãe perguntou.
– Não foi nada, um idiota queria ficar comigo, me beijou à força… – Harper abanou a mão. – Mas os meninos estavam por perto e me ajudaram.
– Vocês não a deixaram sozinha para cair na farra, né?! A Espanha tem muitos casos de tráfico de mulheres. – Minha mãe disse, brava e eu e Michael engolimos em seco.
– Não, tia Grace, eles só tinham ido pegar uma bebida. – Harper disse, me olhando por cima da taça e sustentei o olhar. – O Mike lhe deu uma chave de braço que foi até engraçado. – Ela e Michael riram juntos e me forcei a rir junto para não ficar sem graça.
– Ah, bom mesmo… – Vi meu celular iluminar e uma mensagem chegou.
“Não se esquece de passar aqui na estação um pouco. 30 minutos e eu te libero”. – Era Maria e isso me fez suspirar, a tarde estava tão gostosa.
“Estou mandando a lancha e uma troca de roupa para o Port de Cap-d’Ail, chega aí em 10 minutos”.
– Ah, droga. – Suspirei.
– O que foi? – Harper perguntou.
– Maria pedindo para eu dar um pulo na estação da Red Bull. – Suspirei.
– Ah, mas você precisa mesmo ir? – Ela perguntou.
– Você pode ir comigo, se quiser, é rápido, só fazer uma média. – Falei, colocando o último pedaço do petit gateau para dentro.
– A gente vai para balada, não vai? – Blake perguntou. – Não vim até aqui para ficar trancado no hotel.
– É, pô! – Tom disse.
– Vamos! Vamos sim! É hoje, por sinal. – Fiz uma careta. – Vai ser até bom eu ir falar com a Maria, então, aproveito e pego os ingressos.
– Aí sim! – Blake disse antes de virar o restante de sua cerveja.
– Você vai comigo, Harp? – Perguntei. – Você é a que está mais bonita. – Ela riu fracamente.
– Claro! – Ela deu um curto sorriso.
– Vocês se importam? – Perguntei, virando para meus pais.
– Não, filho! Que isso! Você precisa trabalhar! A gente se encontra mais tarde. – Minha mãe disse e assenti com a cabeça.
– Nós logo vamos também, eu também quero ir para festa, mas preciso colocar o Isaac para dormir antes. – Michelle disse, nos fazendo rir.
– Combinado, mana! – Ri fracamente. – Vocês ficam à vontade, tá? Eu pago a conta.
– Não se atreva! – Minha mãe disse.
– Não, filho, dessa vez é com a gente! – Meu pai disse.
– Eu vou pagar a conta! – Falei devagar, empurrando a cadeira para me levantar. – Vocês paguem o resto. – Indiquei Harper. – Te espero lá na porta.
– Claro! – Ela disse, também se levantando.
Me encaminhei até o balcão e quitei a conta da mesa inteira, além de deixar um extra para o que mais eles pudessem consumir e uma boa gorjeta. Esperei Harper vir até a porta e eu queria realmente me jogar no mar e me afogar. Ela estava incrivelmente linda com esse vestido e estava mais ainda com o batom vermelho em seus lábios, que havia ficado nas bochechas de Isaac após os beijos e na taça após a primeira bebida. Era para estarmos no iate agora, curtindo um momento só nosso, mas não era fácil se livrar da minha família.
– Vamos? – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Claro. – Sorri e ela seguiu à minha frente. Dei outro aceno para minha família, recebendo vários acenos e saí com ela.
– Foi bom… – Ela disse e bufei alto, jogando a cabeça para trás.
– Era para ser melhor. – Suspirei, caminhando pela extensão do porto.
– Temos tempo, Danny. – Ela virou o rosto para mim, dando um curto sorriso. – Não precisa tirar o pai de ninguém da forca, não. – Ri fracamente.
– Diz isso para meu corpo. – Falei e ela franziu a testa.
– Você quer dizer… – Ela indicou meu quadril com o olhar.
– Sim! – Falei, ouvindo-a gargalhar.
– MENTIRA?! – Ela disse, rindo, escondendo a boca com as mãos.
– É… – Suspirei. – Você está me afetando, Harper. – Ela jogou a cabeça para trás.
– Oh, meu Deus! Não acredito! – Ela disse, rindo.
– É… – Pressionei os lábios. – E você rir assim não ajuda muito. – Ela mordiscou a língua.
– Me desculpe, mas isso nunca aconteceu. – Ela disse.
– Nada disso aconteceu, Harper. – Suspirei. – É um território novo para todos nós. – Encontrei a lancha da Red Bull. – Mas gostaria que você não ficasse zoando minhas necessidades sexuais. – Ela riu fracamente.
– Nunca, Danny. É só interessante ver como as coisas mudam de uma hora para outra. – Ela deu de ombros. – Também nunca tinha te achado bonito e sexy, agora…
– Você me acha bonito e sexy? – Falei e ela riu fracamente, virando o rosto para mim.
– É… – Ela parou de andar. – Começou depois do seu corte de cabelo desastroso. – Dei um curto sorriso. – Foi ali que algo mudou. – Sorri.
– Eu não sei quando mudou, mas…
– Você teve uma ereção por causa de mim, Daniel. – Ela abriu um largo sorriso e rimos juntos. – Quando aconteceu?
– Ah, cara…
– Qual é! Eu mereço saber! Se eu estava contigo, eu deveria ter percebido. – Suspirei.
– Da última vez que estávamos em Mônaco, que eu falei que tive uma emergência e fui ao banheiro…
– Que você caiu e…
– Sim…
– Oh, cara! Não acredito! – Ela disse, rindo.
– Para você ver, eu acordei daquele jeito. Então a culpa foi toda sua. – Rimos juntos.
– Acho que começamos a sentir algo pelo outro relativamente junto. – Assenti com a cabeça.
– É, algo assim, mas eu sempre te observei, Harper. Você tem pernas sensacionais e uma bunda…
– Eu ainda sou sua amiga, Daniel! – Ela disse, me fazendo rir.
– E nunca tivemos pudores para falar dessas coisas. – Ela riu fracamente.
– Você está certo, mas ainda tem um tom estranho. – Ponderei com a cabeça.
– Sim, um pouco, mas é um estranho bom. – Pressionei meus lábios em sua bochecha, ouvindo-a rir e segui até perto da lancha da Red Bull. – Boa tarde.
– Boa tarde. – O capitão disse.
– Maria que te mandou?
– Sim! – Ele disse. – Entra aí! – Ele disse e estiquei a mão para Harper e ela entrou na lancha antes de mim e fui logo atrás. – Ela te deixou isso. – Ele indicou um saco lacrado e reconheci o uniforme da Red Bull.
– Vamos lá! – Falei e ele se virou para os controles e a lancha se colocou em movimento.
Puxei a camiseta para cima e troquei pela camiseta da Red Bull, depois o casaco e o boné. Percebi o olhar de Harper em mim e ela piscou com um olho antes de dar de ombros, me fazendo rir. Me sentei ao seu lado e passei o braço em seu ombro.
– É isso que está dizendo?
– Exatamente. – Ela disse, me fazendo rir e puxei-a para perto de mim.
Tinha mais vento hoje e sabia que o tempo estaria diferente para as classificatórias amanhã e talvez para a corrida. Um pouco de chuva, provavelmente, mas ao menos estava mais fresco para compensar o sol pesado. Quando nos aproximamos da estação da Red Bull, vi como estava cheio.
– Uau! – Harper comentou e suspirei.
– É, talvez demore mais do que 30 minutos aqui. – Suspirei.
– Talvez até eu aceite um pouco de álcool agora. – Ela fez uma careta.
– Eu vou fazer o que eu preciso o mais rápido possível e a gente foge aqui. – Falei.
– Está tudo bem, Danny! Vai trabalhar. Eu me viro. – Ela suspirou e a lancha parou na entrada da estação e Maria nos esperava.
– Obrigado, cara! – Falei para o piloto e saí primeiro, esticando a mão para Harper.
– Uau, Harper. Você está linda! – Maria disse.
– Obrigada! – Ela disse, pressionando os lábios.
– Está cheio, né?! – Comentei.
– Bastante! – Maria disse. – Só quero que você dê uma volta, uma interagida com as pessoas, patrocinadores, etc… Talvez algum repórter te pare e só. Não quero você cansado no Amber Lounge.
– Falando nisso. – A parei. – Eu preciso de sete convites para o after-party. – Falei.
– Fácil! – Ela deu de ombros. – E você tem um acompanhante no Amber Lounge.
– Ah, mesmo? – Sorri.
– É. Só um, então enquanto você estiver ocupado, a pessoa vai ficar sozinha, mas é por 30 minutos ou menos. – Virei para Harper, sorrindo.
– O quê? – Ela perguntou, me olhando.
– Quer ir ao Amber Lounge? – Perguntei.
– O que é isso? – Ela olhou de mim para Maria.
– Um evento extremamente exclusivo que possui em alguns GPs. – Ela disse. – Só os mais ricos, mais famosos e mais exclusivos vão. Costuma ser uma festa enorme à noite no enorme iate deles, mas também tem o desfile de modas que é em parceria com uma instituição de caridade, então tem o desfile, leilões, vista especial para a corrida, os mais incríveis shows. – Ela deu de ombros. – A mesa mais cara para o jantar custa 26 mil euros.
– O QUÊ?! – Harper disse, rindo. – Merda! – Ri com ela.
– É, mas eu não vou em nada disso. Bom… Só no desfile, mas é algo que eu não consigo fugir. – Falei.
– Ele faz graça, mas ele gosta.
– Aparecido do jeito que é. – Harper sorriu. – Não acredito que você vai desfilar.
– A gente abre o desfile, depois fugimos para balada. – Ela riu fracamente.
– E você quer que eu vá? – Ela perguntou.
– Acredite, você é a única do grupo que sabe agir de acordo nesses lugares. – Ela riu fracamente.
– Mas que roupa eu vou? Que tipo de evento é isso?
– Traje a rigor. – Maria disse.
– Eu não tenho roupa para isso, eu só trouxe vestidinhos assim… – Ela mostrou sua roupa.
– Acho que eu posso te ajudar com isso. – Maria disse. – Amber Lounge possui diversos parceiros. – Ela segurou Harper pelo braço.
– Aonde vocês vão? – Perguntei.
– Às compras! – Maria disse.
– E o que eu faço? – Movimentei os braços.
– Interaja e sorria! – Maria disse antes de sumir com Harper pela rampa de entrada da estação da Red Bull.
Capítulo 16
Perth, Austrália, 2004
– Eu não sabia que gostava de mim. – Daniel disse após descolar seus lábios dos de Jemma.
– Eu não sabia se você gostava de mim. – A patricinha da escola ficou levemente corada pelo anúncio repentino.
– Eu gosto. – Ele disse, rindo. – Desde a terceira série. – O menino sempre tão animado e extrovertido parecia manteiga derretida perto da menina.
– Será que a gente pode fazer isso mais vezes? – Ela disse e ele assentiu com a cabeça, segurando as mãos da menina e colando os lábios novamente.
As mãos dela apertaram em seus ombros, trazendo o menino para perto e ele acabou apertando-a contra a parede de trás da quadra da escola. Ambos não tinham muita experiência para o beijo se alongar mais, os 14 e 15 anos eram uma fase totalmente desastrada, no beijo também.
– ALUNOS, VAMOS COMEÇAR! – A voz da professora os distraiu, fazendo ambos se separarem.
– A gente continua isso depois. – Ele disse, sorrindo. – Sorvete depois da escola?
– Uhum… – Ela disse, sorrindo. – Combinado. – Ela disse, rindo.
– CADÊ O DANIEL?! – A professora falou mais alto.
– Nos vemos depois! – Daniel disse, rindo, com um largo sorriso nos lábios.
Ambos saíram por lados diferentes. A quadra da escola estava cheia de alunos do nono ano até o décimo segundo*. Daniel se aproximou da roda da professora de educação física e se colocou entre o grupo de amigos que o olhavam confusos e ele abanou a mão, como se dissesse que explicaria depois.
– Ah, finalmente apareceu! Você também, senhorita Boskovic. – Harper virou o rosto para Daniel, prestando atenção nos lábios avermelhados do amigo e franziu a testa. Era só o que faltava. – Nós vamos fazer um pequeno campeonato de netball* hoje. Times mistos. Quero grupos de sete, quem sobrar, vai precisar dar cinco voltas ao redor da escola. – A professora disse, séria.
Não precisou que ninguém dissesse nada, o grupinho de sempre com Daniel, Harper, Michael, Déborah, Blake e Tom se juntaram rapidamente. Faltava só uma pessoa para se juntar ao grupo e era sempre a mesma coisa.
– Chama a Jemma. – Danny disse.
– Para perder de novo? – Harper disse sem se importar com o nojo de sua voz. – Essa menina não sabe segurar uma bola. – Harper revirou os olhos.
– Eu ouvi isso, Maria João. – Jemma disse e Harper se virou.
– Por acaso eu menti em alguma coisa? – Harper disse. – Você está mais preocupada se vai quebrar suas unhas. Ou devo dizer garras? – Harper disse, sarcástica.
– MENINAS, PAREM AGORA! – A professora gritou, enjoada de falar sempre a mesma coisa quando eram essas duas.
– Qual é, Harp. Ela é boa no netball. – Daniel disse.
– Se ela estiver dentro, eu estou fora. – Harper deu de ombros, dando alguns passos para trás.
– Harper! – Déborah chamou a amiga.
– Eu vou correr, professora! – Harper anunciou antes de se afastar da quadra.
– Não! Você é a nossa melhor jogadora! – A professora tentou argumentar quase em um gemido, mas a menina ignorou. – O que está acontecendo aqui? – Ela olhou para o grupinho de sempre.
– Eu estou fora também. – Déborah disse antes de sair correndo atrás da amiga.
– Eu vou atrás delas. – Michael também anunciou antes de correr atrás da namorada.
– Eu não vou correr! – Blake anunciou.
– Os quatro, para fora da minha quadra! – A professora disse séria aos restantes.
– Mas eu não fiz nada! – Daniel disse.
– Fora agora! – Ela disse firme e o garoto tombou a cabeça para trás, seguindo para a arquibancada.
– Sua amiga é muito dramática. – Jemma disse.
– Você também a provoca. – Daniel foi honesto. – Não dá para vocês duas ficarem assim.
– Eu não fiz nada dessa vez. – Ela tentou se defender, mas Daniel preferiu não responder. Cedo demais para a primeira briga de ambos.
– Se você valoriza sua amizade com a Harper, vai atrás dela. – Tom disse. – Aproveita e conta o que estava fazendo atrás da quadra. – O garoto revirou os olhos. – Já te avisando… Ela vai te matar! – Ele disse, gargalhando, antes de se sentar na arquibancada com Blake.
– Não vai jogar? – Blake perguntou para Arya e ela negou com a cabeça.
– O livro está mais legal. – Ela mostrou o novo Harry Potter e o garoto logo se interessou.
– Já volto. – Daniel disse, subindo as escadas de dois em dois até encontrar Déborah na parte de cima.
– Cadê ela? – Ele perguntou.
– Correndo! – Ela disse. – Mike foi atrás dela. – Ela suspirou. – Acho que ela se escondeu lá em cima, eu faria o mesmo. – A menina negou com a cabeça.
– O que deu nela, hein?! – Danny perguntou e Déborah olhou chocada para ele.
– Você só pode estar de brincadeira, né?! – Ela disse o mais sarcástica possível. – A Jemma? Você sabe o quanto a Harper odeia ela!
– Mas do que você está falando? – Ele tentou desconversar e a menina revirou os olhos.
– Todo mundo viu vocês dois saindo de trás da quadra. Só tem um motivo para ir lá! – Ela revirou os olhos.
– Não é culpa minha se ela não gosta dela, eu vou fazer o quê? Parar de viver por ela? – Ele perguntou, irritado.
– Uau! – Déborah disse, rindo. – Essa foi de graça! – Ele suspirou.
– Saiu errado. – Ele disse.
– A Harper não ficou com o Toby só porque ele falou mal do seu nariz. – Ela disse firme. – Que bela forma de agradecer, hein?! – Ela negou com a cabeça. – Bem que ela disse que você estava estranho.
– Ela disse isso? – Ele perguntou, apressado. – Nada mudou… Eu…
– Você não precisa falar isso para mim, Danny. É para ela. – Ela deu de ombros. – Mas pelo que eu a conheço, ela não vai querer falar contigo tão cedo. Ainda mais com essa boca vermelha aí. – Ele passou as costas da mão na boca, mas era avermelhado do beijo, nada que saísse rápido.
– Eu preciso tentar. – Ele disse antes de correr pela rua da escola.
Ele procurou pelos amigos nos mais diversos cantos. Procurou na piscina, na área das crianças, depois por entre os prédios, até achar ambos no parque da escola. Ela se balançava e Michael estava ao seu lado.
– Harp… – Daniel a chamou e o olhar de ambos seguiu para o menino.
– Eu não quero falar contigo! – Ela disse, se levantando do balanço.
– Por favor, não aconteceu nada! – Ele disse, se aproximando e a menina parou o passo. – Não sei que show é esse que você está fazendo…
– SHOW? – A garota andou em direção a ele. – SHOW É O QUE EU VOU FAZER AGORA! – Ela empurrou-o pelos ombros, fazendo-o cambalear alguns passos. – DE TODAS AS MENINAS DA NOSSA SALA, DE TODAS AS MENINAS DO ENSINO MÉDIO, VOCÊ TINHA QUE FICAR JUSTO COM ELA?
– Por favor, fala baixo. – Ele pediu e Michael se afastou alguns passos, querendo ficar longe dela.
– AGORA VOCÊ PEDE PARA EU FALAR BAIXO? – Ela o empurrou novamente. – SÓ NA NOSSA SALA TEM 37 MENINAS! E VOCÊ FOI FICAR COM A ÚNICA QUE EU NÃO SUPORTO! – Ela disse, irritada, empurrando-o mais uma vez.
– Harp, por favor… Isso já faz anos, não tem nada a ver essa birra entre vocês…
– BIRRA? – Ela o empurrou mais uma vez, fazendo-o tropeçar em um banco e cair de costas na grama. – Eu amo a sua mãe, mas por que você não vai para puta que te pariu? – Ela disse, irritada, se afastando alguns passos. – Fala para professora que eu fui embora, Mike. Obrigada pela conversa. – Ela disse, sumindo para dentro do prédio do ensino médio.
– Que porra aconteceu aqui? – Daniel perguntou, irritado, olhando para Mike.
– Você foi um péssimo amigo e ficou com a única garota da escola que a sua melhor amiga odeia. – Mike disse, pressionando os lábios.
– Eu não fiz nada de errado, vai… – Michael revirou os olhos.
– Devo lembrar o Toby?
– Por que todo mundo fala dele? – Daniel perguntou, irritado.
– Porque é a melhor comparação de todas. – Ele deu de ombros.
– Me ajuda a levantar… – Daniel esticou a mão.
– Não! – Mike disse antes de passar pelo amigo, voltando a descer até a quadra.
– Que merda! – Daniel suspirou.
*Na Austrália, eles não possuem separação do Ensino Fundamental para o Médio, mas possuem 4 anos no “ensino médio”, os levando até a 12ª série.
*Netball é similar ao basquete, jogo muito comum entre os países da Commonwealth.
Mônaco, 2016
Harper
Eu me sentia incrivelmente linda, mas também como se eu fosse rasgar algo a qualquer momento. Maria acabou me levando até a organização do tal do Amber Lounge e eles conseguiram um vestido e sapato adequado entre seus parceiros para eu usar no evento. Na hora eu não me atentei muito, mas isso mudou quando percebi que estava entrando em uma loja da Chanel.
Quando eu falo que minha vida é relativamente confortável, eu digo algo bem menos do que isso, nunca comprei uma roupa desse tipo, no máximo quando Danny acaba mandando uns presentes muito legais que sei que nunca vou poder retribuir.
Mas usar um vestido lindíssimo da Chanel e um par de sapatos da Jimmy Choo era algo que nunca pensei em usar na vida. O melhor de tudo é que foi presente da organização do evento por eu ser acompanhante de Daniel Ricciardo, mas tive a impressão de que Maria falou algo a mais para eles e me tornei namorada dele antes da hora.
Isso não era algo que eu me importava agora, o vestido longo era rosa claro e discreto. Tentei pegar um modelo mais delicado para chamar o mínimo de atenção possível. O sapato era um pouco mais chamativo, um rosa mais forte e um detalhe na ponta, mas eu estava me sentindo uma Barbie.
Eu acabei me virando com o cabelo e a maquiagem. Michelle fez um coque em meus cabelos, prendendo com a echarpe que vinha com o vestido, eu me virei com a maquiagem e com a depilação. O evento começava de dia, então escolhi tons nudes para também manter o mais discreta possível.
Observei meu corpo no espelho de corpo inteiro que Danny tinha no closet e dei um curto sorriso. Eu pareço uma princesa de verdade. Espero só não tropeçar, cair e nem rasgar o vestido. Nunca fui muito desastrada, sempre tive as mãos firmes, mas nunca estive em um evento desses. Acho que meu último foi na colação da faculdade.
Peguei a pequena bolsa do mesmo tom dos sapatos e coloquei atrás da orelha uma mecha deixada propositalmente para fora do penteado. Os sapatos bateram pelo piso e abri a porta do quarto antes de seguir até a sala, encontrando Danny e sua família.
– O que acham? – Perguntei, evitando mordiscar os lábios e vi o sorriso se abrir no rosto de todo mundo e Danny entreabrir os lábios, surpreso.
– Amiga, você está um arraso! – Michelle falou, animada, se levantando, rimos juntas. – Ah, meu Deus! – Ela segurou minha mão, me rodando ao redor do corpo e ri fracamente.
– Você está linda, Harper! – Tia Grace falou, me fazendo sorrir.
– Ela sempre foi linda! – Tio Joe disse por cima e dei um curto sorriso. – Vai arrasar todos os solteiros. – Rimos juntos.
– Eu só preciso de um. – Sorri, virando meu rosto para Danny, que parecia ter travado.
– Filho, o que acha? – Grace perguntou e Danny tinha os olhos e lábios entreabertos, olhando fixamente para mim e estava gostando desse olhar em mim, mas era o olhar do Danny apaixonado, não do Danny melhor amigo.
– A titi Harper tá linda-a-a! – Isaac pulou no sofá, me fazendo sorrir.
– Não pula nela! – Michelle falou, me fazendo rir.
– A Harper está sempre linda. – Danny pareceu destravar e abracei Isaac.
– Cuida dela, titi Daniel! – Isaac disse e Danny se aproximou de mim.
– Eu cuido, carinha. – Daniel deu um toquinho de mão em Isaac.
– Você vai se arrumar lá? – Perguntei, notando o moletom da Red Bull.
– Sim! – Ele disse. – Tem camarim, cabeleireiro, tudo. – Ele disse e assenti com a cabeça. – Vamos? – Ele estendeu a mão, dando um sorriso sacana.
– Claro! – Sorri. – Pegou minhas roupas?
– Na mochila! – Ele ergueu sua mochila e assenti com a cabeça. – Estamos indo, gente!
– Não se esqueça de mandar mensagem! – Michelle disse.
– Eu mando! Coloca esse carinha para dormir, hein?! – Danny bagunçou os cabelos de Isaac. – Dorme, hein?!
– Não! – Isaac disse, pulando no sofá.
– Não te dou mais sorvete, hein?! – Danny o ameaçou, me fazendo rir.
– Vamos, Daniel! – O puxei pelo braço, ouvindo-o rir.
– Tchau, família! Nos falamos mais tarde. Mãe, pai, não esperem acordados! – Ele disse.
– Falou o cara que vai estar de pé antes das seis da manhã e que provavelmente vai encontrar a assessora na festa. – Falei, vendo-o revirar os olhos.
– Até mais! – Ele disse mais uma vez, me fazendo rir.
– Tchau, gente, até mais tarde! – Falei, acenando.
– Divirtam-se! – Eles disseram e segui à frente, abrindo a porta do apartamento e saindo por ele.
Fui à frente, apertando o botão do elevador e Danny saiu do apartamento, colocando a mochila nas costas. Ele parou ao meu lado e esperamos mais alguns segundos até a porta se abrir. Entrei em sua frente e ele bateu a mão no botão do térreo.
– Ok, agora eu posso falar! – Ele se virou para mim, me abraçando pela cintura, me fazendo gargalhar. – Você está extremamente gata, Harper Addams! – Apoiei as mãos em seus ombros.
– Eu bem vi sua cara de tonto! – Falei e ele deu um beijo em minha bochecha.
– Será que eu consigo fugir da Maria? Eu te levo para o iate agora e…
– E o quê? – Perguntei, rindo.
– Ah, você realmente não quer saber o que eu estou pensando agora. – Senti mais um beijo em meu pescoço, me fazendo rir.
– Imagino que não seja algo que melhores amigos deveriam pensar. – Rimos juntos.
– Não mesmo. – Ele subiu os beijos para meu rosto. – Mas sério, será que a Maria vai notar? – Vi o elevador se abrir, me fazendo rir.
– Vai e vai atrás de você! – Empurrei-o de leve pelos ombros. – Vamos, lover boy.
– Droga! – Ele sussurrou e segui para fora do elevador.
– Aguenta esse corpo aí, Daniel! Depois que seus pais forem embora, nós podemos continuar por aqui. – Dei de ombros.
– Me surpreendo como o corpo feminino é diferente. – Ele disse, me fazendo rir.
– Não muito. – Dei de ombros. – Agradeço ao bojo do vestido. – Pisquei para ele, ouvindo-o rir.
– Ah, cara! Estamos ferrados! – Ele disse e vi Maria encostada em um carro.
– Falei que ela ia te achar! – Virei para Danny e ele riu fracamente.
– Falei que você ficaria incrível! – Sorrimos e trocamos um rápido abraço. – Está incrível!
– Ei, Maria! – Danny falou.
– Vamos? – Ela disse.
– Lesgo-o-o! – Ele falou, animado e ri fracamente, vendo Maria abrir a porta para mim e entrei no carro e Danny entrou do outro lado.
O desfile seria no Le Méridien Beach Plaza, perto do restaurante Blue Bay, então sabia que chegaríamos lá em cerca de 10 ou 15 minutos de carro, mas esqueci que a cidade estava lotada, então demoramos quase meia hora para atravessarmos Mônaco, até chegar no resort em si e eu já fiquei abismada do lado de fora, imagina lá dentro.
– Informações em cinco minutos, galera! – Maria se virou para nós. – Daniel, você vai entrar no hotel e seguir para os camarins. Harper, você está linda demais e vai passar pelo tapete vermelho…
– Mas por quê? – Perguntei alto demais. – Eu não sou ninguém.
– Você é a chef de cozinha Harper Addams e namorada do nosso garotão aqui. – Entreabri os lábios e Daniel gargalhou ao meu lado.
– Ah… Olha… Tem muita informação errada nessa frase. – Falei.
– Você pretende abrir o restaurante e, se vocês dois não namorarem, eu juro que o Daniel vai aparecer morto dentro da garagem. – Ele arregalou os olhos.
– Vimos que eu não sou preferência nem na minha equipe. – Ri fracamente.
– Eu vou levar a Harper até o lugar dela e te encontro lá dentro. – Maria disse e Daniel assentiu com a cabeça.
– Tudo para eu não aparecer morto na garagem! – Danny disse antes de sair do carro e minha gargalhada ecoou no carro.
– Eu falei sério! – Maria disse antes de sair do carro e ri fracamente.
Ela abriu a porta para mim e me senti incomodada por alguns minutos. Já tinha visto tantos fotógrafos assim, especialmente na entrada do paddock, mas o foco deles sempre era os meninos, mas agora o amontoado de fotógrafos estavam virados para mim e eu não sabia o que fazer.
– Vem, não é aqui ainda! – Maria me indicou o caminho e abaixei o rosto, seguindo com ela. – Cabeça erguida, Harper! Cabeça erguida! – Ela disse e suspirei, erguendo o rosto e tentei manter a calma, seguindo com ela.
Daniel
– O que acha? – Ri com o cabeleireiro.
– Acredite, cara, não vai ficar melhor do que isso! – Ele gargalhou e me aproximei do espelho, vendo o topete que ele tinha feito com meus cachos e joguei um em especial para trás, sentindo o cabelo levemente grudento por causa do laquê.
– Acredite, sei bem o que é isso! – Ele disse e tinha o cabelo cacheado assim como eu.
– Eu desisti! – Ri fracamente, me levantando. – Obrigado!
– Sem problemas! – Ele disse e andei até meu lado do camarim, vendo o restante dos pilotos prontos ou quase prontos. Peguei a gravata borboleta e ri fracamente. Oh, Deus, e agora?
– Precisa de ajuda? – Outro homem se aproximou.
– Com toda certeza! – Entreguei para ele.
– Com licença. – Ele ergueu a gola da camisa social e colocou a gravata ao redor de meu pescoço e logo tinha uma gravata borboleta preta perfeita combinando com o terno azul marinho com preto. – O que acha?
– Estou gato! – Falei, ouvindo-o rir.
– Muito, senhor! – Ele disse e rimos juntos. – Você pode se juntar ao restante dos pilotos. – Ele indicou para um lado e vi Ocon, Ericsson, Haryanto Wehrlein, Palmer e Nasr.
– Eu estou nervoso, nunca fiz isso. – Ocon disse, me fazendo rir.
– Eu fiz uma vez e não sirvo para isso. – Suspirei, me olhando no espelho. – Pelo menos é legal.
– Legal são as gatinhas aqui. – Palmer disse, nos fazendo rir e eu realmente só queria uma mulher que estava aqui.
– Senhores… – Viramos o rosto para uma mulher mais velha que se aproximou com uma prancheta. – Vim passar algumas informações para vocês. – Ela disse e prestamos atenção. – A ordem de entrada vai ser essa com Ricciardo, Ericsson, Wehrlein, Ocon, Haryanto, Nasr e Palmer. Vocês vão entrar, formar uma fila aqui atrás da passarela, esperar alguns segundos, depois vai sair um de cada vez. A passarela tem o formato de cruz, então vocês vão para o lado esquerdo, depois para frente, para o lado direito antes de voltar para posição inicial. Quando todos voltarem, vocês saem pelo outro lado. Entendidos? – Todos pareceram confirmar com a cabeça. – Ótimo, temos cinco minutos. Venham comigo.
A seguimos pelos corredores dos camarins e os outros pilotos pareciam muito interessados nas diversas modelos que se arrumaram ali de lingerie ou de biquini, mas pela primeira vez, eu não queria nem saber. Estava mais interessado na mulher de vestido rosa claro que estava na plateia. E que mulher! Não sei o que me segurou para não beijá-la ali na frente dos meus pais quando a vi. Merda! Ela está incrível.
– Os cantores vão entrar e vocês vão logo atrás. – A mulher falou e assenti com a cabeça.
Eu sempre fui de chamar atenção, desde a época da escola, me dei muito bem no desfile de 2014, mas estava nervoso hoje e talvez a culpa fosse totalmente de Harper. Ainda parece estranho como as coisas mudaram entre nós. É como se tivéssemos duas vidas, uma pelos últimos 23 anos e outra nesse ano.
– Ricciardo, você pode ir. – Ela disse e assenti com a cabeça, vendo o organizador na outra porta, indicar com a mão.
– Um segundo. – Ele pediu.
– Abrindo nosso desfile de modas, por favor, recebam, os pilotos de Fórmula Um desse ano. – Uma apresentadora disse. – Daniel Ricciardo. – Outro organizador indicou com a mão e respirei fundo antes de subir os dois degraus e saí para a luz do fim do dia, encontrando os diversos convidados ali.
Os aplausos e gritos começaram e foi inevitável não sorrir. Atravessei a parte horizontal do palco, me colocando do outro lado e a apresentadora continuou a chamar nome por nome, fazendo meus colegas se colocarem um por um ao meu lado. Meu olhar procurou discretamente por Harper, mas, como sempre, tinha muita gente.
Quando ela chamou Palmer, que foi o último, uma música de desfile começou a tocar e um cantor ocupou parte do palco. Trocamos um rápido aceno e sabia que era a minha deixa. Forcei minhas pernas a não agirem como gelatina e comecei a caminhar pela passarela. Encontrei uma extensão do palco à minha esquerda e parei, alargando o sorriso para os fotógrafos, ouvindo alguns gritos da plateia e logo mudei de posição, seguindo até o fundo, fazendo outra parada.
Dessa vez meu sorriso ficou mais largo quando encontrei Harper entre as pessoas e ela tinha um sorriso no rosto também, talvez estivesse rindo um pouco. Ela me aplaudiu junto das outras pessoas antes de eu precisar me virar para trás novamente. Passei pela outra separação da passarela antes de voltar para o começo do palco.
O restante dos pilotos desfilou, mas eu não conseguia tirar os olhos de Harper. Ela estava literalmente em um dos melhores lugares dali, perto de algumas pessoas talvez importantes, mas não consegui desviar meu rosto do de Harper. Deus! Será que falta muito para isso acabar?
Meu pedido foi atendido quando Palmer voltou novamente e demos uma última caminhada pela passarela. Consegui sorrir para Harper mais uma vez, vendo-a dar uma piscadela para mim antes de eu seguir para dentro junto do restante dos caras.
– Ufa! – Ocon falou quando entramos, me fazendo rir.
– Respira, cara! – Dei dois tapinhas em seus ombros, fazendo-o rir.
– Você se dá bem nessas coisas, eu sou péssimo! – Ele disse.
– Foi ótimo, vai! – Ri fracamente.
– Poderia ser pior. – Pascal disse e rimos juntos.
Voltamos juntos para a área que estávamos e algumas modelos sorriram para mim. Isso até poderia acontecer, se eu estivesse em outra situação, mas só quero que isso acabe logo e que eu possa ficar com Harper de novo.
Ainda tem a balada mais tarde e já sei que vai ser uma festa nada confortável para mim. Poderia ser o momento perfeito para dançarmos juntinhos e acabar com essa distância, mas sei também a quantidade de câmeras que possuem nesses lugares, além da presença de Michelle. Fugir para o iate agora parecia uma boa ideia.
– Oi, Daniel!
– AH! – Me assustei com Maria. – Você não cansa, não?
– Uh, se acalma, irritadinho. – Puxei a gravata borboleta para fora, colocando-a na minha poltrona.
– Desculpe, eu estava pensando em outra coisa. – Suspirei.
– Não faz isso. – Maria disse.
– O quê? – Ela pegou a gravata e colocou em volta de meu pescoço novamente.
– Eu preciso me trocar. – Falei.
– Eu sei, mas espera dois minutos. – Ela disse, se apoiando na parede e franzi a testa.
– Por quê? – Perguntei, notando que abri a boca mais do que deveria.
– Só dois minutos. – Ela disse, olhando em seu relógio e eu sentia que meu cérebro estava se atrofiando aos poucos. – Dois minutos…
– Pelo amor de Deus…
– Ah, aí está! – Ela disse e virei o rosto para onde ela dizia e vi Harper desviando das pessoas e abri um sorriso. – Não é todo dia que você fica bonito assim. – Ela me deu um toquinho de ombro, me fazendo rir.
– Bonito sim, mas de terno, não. – Harper disse, se aproximando de mim, me fazendo sorrir.
– O que está fazendo aqui? – Perguntei, apertando minhas mãos em sua cintura.
– Você não achou que eu fosse assistir ao desfile inteiro, certo? Ainda mais que vocês foram os primeiros. – Rimos juntos.
– Mas você está tão linda e…
– E você pode me ver aqui. – Ela disse por cima, me fazendo sorrir. – Eu adorei o terno. – Rimos juntos.
– Passo pelo namorado de uma chef de cozinha? – Ela riu fracamente, escondendo seu rosto em meu ombro.
– Você passa de qualquer jeito. – Ela disse fracamente e sorri, sentindo o cheiro de baunilha. – Você está lindo. – Abracei-a apertado.
– Você também. Até parece que somos comportados assim, né?! – Ela se afastou de mim sorrindo.
– Encontre alguém que possa fazer ambos. – Sorri.
– É. – Assenti com a cabeça, dando um curto beijo em sua bochecha. – Eu encontrei você…
– É, vocês são fofos, mas acho que minha diabetes estourou. – Ouvi Maria e virei o rosto para o lado.
– O que você ainda está fazendo aqui? – Perguntei.
– Evitando que algum fotógrafo tire fotos de algo que não deva? – Ela falou sarcástica e suspirei. – É, eu ainda estou trabalhando.
– Que horas é a festa? – Perguntei.
– Começa às oito. – Ela checou seu relógio. – Está começando agora.
– Mas a gente não vai chegar às oito, não vai ter ninguém ainda. – Falei.
– Não se esqueça que amanhã tem…
– Classificatória, eu sei, relaxa! Seis horas eu estou de pé, mas chegar lá agora é piada. Nem o príncipe está lá. – Falei.
– O príncipe vai estar lá? – Harper perguntou rapidamente.
– É, mas são vários ambientes. – Ri fracamente. – A gente pode se trocar em casa, né?!
– Por que você não aproveita o evento um pouco? Coloca essa gravata de novo e vai dar uma volta com Harper. Tem comidas incríveis aqui, eu sei que ela gosta. – Harper riu fracamente. – Sei que sabem ser discretos. – Ponderei com a cabeça, virando para Harper.
– Você quer? – Perguntei.
– Ficar aqui ou voltar para seus pais e um Isaac que talvez não tenha dormido? – Ela perguntou e ri fracamente.
– Me ajuda com isso. – Pedi, puxando a gravata do pescoço.
– Por que você acha que eu sei dar nó de gravata? – Ela perguntou.
– Porque você é uma chef de cozinha e é mais culta do que eu? – Rimos juntos. – Por quê? Não sabe?
– Sei, mas foi tão automático que me perguntei como você sabia. – Ela disse, me fazendo rir e ergueu a gola da minha camisa.
– Um pré-conceito? – Falei, rindo.
– Talvez, mas isso quem me ensinou foi meu pai mesmo. – Ela disse e sorri, procurando pelos seus olhos enquanto ela dava o nó.
Harper
– Uau! Isso é demais! – Falei, rindo quando desci do carro com Danny, sentindo sua mão deslizar pelas minhas costas.
– Não é meu iate, mas garanto que é bem melhor.
– Daniel, isso não é um iate, é um transatlântico. – Falei, olhando para os vários andares do iate que estava iluminado com luzes neon.
– É, também não exagera. – Ele disse, me apertando pela cintura e desviei o corpo.
– Eles estão logo chegando, para! – Segurei firme sua mão, mantendo-a afastada de meu corpo.
– Desculpe, mas você está linda demais. – Ele afundou o rosto em meu pescoço, me fazendo rir e empurrei-o de volta. Realmente, o short preto curto de cintura alta e o body vermelho haviam sido uma boa escolha.
– Daniel! – O repreendi. – Se não for sua irmã, que já era para estar aqui, são os diversos fotógrafos que vão adorar em ter uma manchete quentinha. – Passei a mão em seu boné virado para trás e ajeitei a camisa xadrez que ele usava por cima da camiseta branca.
– Eu não estou nem aí para eles. – Ele disse, dando um beijo em minha bochecha e empurrei-o de leve quando outros faróis me cegaram.
– Finja que não estou aqui, ok?! – Pedi, ouvindo-o rir sarcasticamente.
– Depois da última vez? Não mesmo. – Ele disse.
– Não vamos ter problemas aqui hoje, né?! – Perguntei baixo, tentando manter a voz acima da música, mas sem que sua irmã e cunhado pudessem ouvir.
– Não. – Ele disse, sério. – Eu não vou te soltar, Harper. E estou pronto para socar o primeiro monegasco que sorrir para você. – Ri fracamente.
– Também não exagera. – Falei baixo.
– Você vai ver. – Ri fracamente, virando meu rosto para ele.
– Você está bonito também, Danny. – Falei e ele piscou, me fazendo rir.
– Só para você! – Neguei com a cabeça.
– E aí, galera? Mamãe quer se divertir! – Michelle disse, animada, nos fazendo rir.
– Lesgo, mamma! – Brinquei, sentindo-a me abraçar de lado.
– Cadê aqueles atrasados? Demoram mais para se arrumar do que a gente! – Ela disse, me fazendo rir.
– Ela não sai faz tempo, deem um desconto. – Jason pediu.
– Isaac dormiu? – Perguntei.
– Sim, mas ele se acostumou com o sofá, então mamãe e papai vão dormir lá e vocês dormem na sua cama quando voltarem. – Mi disse.
– Ah, eles fizeram isso de propósito, aposto. – Daniel disse.
– Você realmente precisa de uma boa noite de sono, maninho. – Michelle disse e concordei com ela. – Amanhã é um dia importante.
– Eu sei, só… – Ele suspirou.
– Fala aí, galera! – Blake, Tom, Alex e Michael apareceram.
– Oi, gente! – Falamos.
– Prontos para festejar? – Blake falou um pouco mais alto.
– É, não exagera! – Falei, rindo.
– Vamos, dona chata, eu deixo você dançar comigo! – Blake me segurou pela cintura, me fazendo rir e andamos juntos pelo píer.
Danny deu uma rápida olhada para mim e dei um aceno de cabeça, deixando-o andar à frente e antes de pisar na passarela que levava até o iate, ele me soltou. Eu estava nessa vibe de Grand Prix de Mônaco há quatro dias, estava acostumada com os iates, com alguns famosos perdidos aqui e ali, mas eu nunca tinha entrado em um iate desse tamanho. Era loucura, de verdade.
Um homem me esticou a mão para entrar no iate e dei um sorriso e um aceno de cabeça. Seguimos quase em fila indiana pela lateral esquerda até no final dele, onde dava para ver todo Port Hercule, o porto mais importante de Mônaco, na região de Monte Carlo. Quando viramos, alguns fotógrafos estavam acumulados ali e sorri quando Danny se colocou na frente deles, no banner de propaganda.
Estava cada dia mais difícil fingir minha queda por ele, mas acho que o Daniel despojado era meu favorito, apesar de conhecer muito bem o Danny de macacão e o de terno, que estava incrivelmente sexy no desfile hoje.
– Vem! Vem! – Danny chamou com a mão.
– Não! Não! – Falei, negando com a cabeça.
– Vem! – Tom me puxou pelo ombro, enquanto o restante do pessoal se colocava na foto e acabei ficando entre Tom e Michelle. Fiquei levemente intimidada pela quantidade de fotógrafos, mas dei um sorriso, sentindo alguns flashes em meu rosto antes de nos separarmos!
– Lesgo-o-o-o-o! – Danny disse, empolgado e ri fracamente, seguindo com o pessoal logo atrás dele.
Seguimos pelas indicações que os próprios corredores nos levavam e subimos algumas escadas até chegar realmente na festa. Luzes neons, negras e de LED deixavam o ambiente bem intimista e a música aqui dentro era muito mais alta do que parecia no píer. Tinha uma apresentação no palco onde lindas dançarinas faziam uma dança sensual, todos os bares tinham barmen fazendo verdadeiras obras de arte nas bebidas, além de outros pilotos de corrida perdidos entre as pessoas. O lugar era gigantesco.
As instruções haviam sido dadas no hotel dos meninos: se manter dentro da área VIP para evitar contato com os fotógrafos, mas estava confusa do que era área VIP aqui e não. Um iate exclusivo me parecia VIP no geral. A piada ficou no ar quando falei isso com Danny. Acabei seguindo o pessoal quando entramos na área VIP, que era na parede externa de onde estávamos, onde não era possível ter acesso à lateral aberta do barco. A vantagem é que tinha alguns sofás, poltronas e mesas e sabia que podia relaxar ali.
– Boa noite, senhor, bebidas? – Um garçom se aproximou.
– Oito shots de tequila! – Ele disse, indicando com os dedos.
– Você não deveria beber! – Falei para Daniel, aproximando o rosto de seu ouvido.
– Uma dose! – Ele disse. – E você também.
– Você é uma péssima influência! – Brinquei, ouvindo-o rir e senti sua respiração em meu ouvido.
– Descobriu só agora? – Empurrei-o de leve, rindo com ele.
– Imaginei que estivessem aqui! – Virei o rosto, vendo Alonso.
– Nando! – Eles se abraçaram.
– Senhorita Harper! – Ri fracamente, abraçando-o pelos ombros.
– Bom te ver. – Falei, vendo-o sorrir.
– Não exagera na bebida, hein?! – Ele brincou, nos fazendo rir.
– Divirta-se! – Falei e ele deu um aceno, apoiando a mão na cintura de uma mulher e se afastou também.
– Danny! – Virei o rosto e vi o garçom servindo a tequila nos oito shots e suspirei.
– Obrigado! – Danny agradeceu a ele, colocando uma nota de alguns euros em sua mão antes do homem sair dali.
– Cada um pega um! – Michael me estendeu um shot e suspirei.
– A uma classificação e uma boa corrida! – Blake disse.
– YEAH! – Falamos, rindo e puxei a respiração antes de virar o shot na boca, fazendo uma careta com o gosto forte e abaixei o shot na pequena mesa alta.
– Ok, faz tempo! – Michelle disse, nos fazendo rir. – Mas a mamãe aqui precisa dançar! – Ela disse, puxando Jason pelo pescoço e ri quando ambos foram para a pista de dança, onde uma música da Rihanna tocava.
– Michelle não vai nem levantar amanhã. – Comentei com Danny.
– Não mesmo! A mamãe ali vai ficar de ressaca! – Ele disse, me fazendo rir e senti sua mão em minhas costas. – Quer dançar?
– É? – Perguntei e ele assentiu com a cabeça. – Ok! – Sorri e ele me puxou pela mão.
Olhei rapidamente para trás, vendo o restante dos caras ficarem ali e Danny se infiltrou no meio das pessoas, me segurando pela cintura assim que paramos. Diferente do desfile em que eu estava de salto e me deixava um pouco mais alta do que ele, agora nossas alturas regularam pelo All-Star sem meia em meu pé. Conforto é tudo para esse tipo de festas.
Minhas mãos foram para seus ombros quando ele apertou as mãos em minha cintura, tocando um pouco da minha bunda e ergui meus olhos para os seus. A luz tinha tons de rosa e azul neon, mas seus olhos castanhos tinham aquele brilho, tornando-os levemente esverdeados e eu amava demais.
Foi diferente da Espanha. Ao invés de nossos corpos travados, eles começaram a se mexer de forma mais rápida e até Danny começou a dançar de verdade dessa vez, fazendo nossos quadris se chocarem de vez em quando. Diferente da Espanha, tinha menos troca de olhares. Dava para passar como amigos dançando, mas seus olhos nos meus me dariam vontade de beijá-lo e começaríamos um clima com todos nossos amigos e familiares perto.
E não acho que Michelle esteja bêbada o suficiente para se esquecer de nós dois nos beijando.
Independentemente do que fosse acontecer até o resto da noite, eu não precisavs mais sair dos braços de Danny e nem de seus lábios tocando esporadicamente meu pescoço.
Sábado
Daniel
– Eu preciso ir ao banheiro! – Harper sussurrou em meu ouvido e desviei o rosto, assentindo com a cabeça. – Não pode demorar para ir embora também, já são duas. – Ergui o relógio, confirmando o que ela dizia.
– Droga! Está tão bom… – Ela assentiu com a cabeça, sorrindo.
– O pior vai ser dividir quarto com sua irmã. – Fiz uma careta.
– Acordar meus pais e obrigá-los a ir para o quarto está fora de cogitação? – Perguntei.
– Totalmente! – Ela disse, rindo antes de se afastar. – Já volto. – Assenti com a cabeça, vendo-a sumir por entre as pessoas.
Ri fracamente e virei o rosto, voltando para a pequena mesa que estávamos usando de ponto de referência e encontrei Michael, Blake, Tom e Alex ali, jogados nos sofás.
– Já cansaram? – Perguntei, me sentando no braço da poltrona de Blake.
– Pô, cara, uma hora cansa! – Alex comentou, me fazendo rir.
– Ah, eu preciso dormir um pouco, mas dava para eu ficar mais um tempo aqui. – Falei rindo, procurando Harper por entre as pessoas.
– Você e a Harper estão com um pique que eu nunca vi! Tá louco! – Blake comentou e ri fracamente. – Até eu peguei alguém hoje e você não.
– HÁ! Nem imagino o porquê. – Michael falou mais alto e virei o rosto para ele.
– Cala a boca! – Falei, dando um chute e ele encolheu as pernas.
– Qual é, cara, eles merecem saber! – Ele disse, rindo e suspirei.
– Porra, Michael, cala a boca. – Dei um tapa em seu ombro, ouvindo-o gargalhar. – Não tem nada.
– Ah, tem! – Ele disse, rindo. – Você está meio lento, mas tem sim. Ou devo lembrar do “estou apaixonado por ela”?!
– Ah, porra. – Tombei a cabeça para trás.
– Espera! Estamos falando de quem? – Alex perguntou.
– Espera… – Blake virou para mim, arregalando os olhos. – HARPER?
– Cala a boca! – Pedi, empurrando-o pela cabeça.
– OH! OH! OH! VOCÊ ESTÁ APAIXONADO PELA… – Tapei sua boca com a mão, ouvindo somente o som abafado.
– Dá para calar a boca? Ninguém mais sabe e não quero que a Michelle saiba assim e nem agora.
– COMO ISSO ACONTECEU? – Tom gritou. – Vocês são amigos há sei lá quantos anos. – Suspirei, tirando a mão da boca de Blake.
– Vocês prometem que não vão falar para Mi e nem zoar com a Harper por isso?
– Por quê? Ela não sabe? – Alex perguntou.
– Ah, sabe! – Michael disse, rindo.
– Você cala a sua boca ou eu te demito agora mesmo. – Falei e ele ergueu as mãos, rindo em seguida.
– Spoiler: ela também está. – Michael disse e revirei os olhos.
– OH! – Os caras riram.
– Então é isso que estava acontecendo ali, cara! – Blake disse, rindo. – Achei estranho mesmo. – Suspirei.
– Eu não sei, foi natural, só aconteceu. – Dei de ombros e eles me olharam com sorrisos no rosto. – Podem parar de me olhar assim?
– Não mesmo, cara! É a melhor notícia de todas! – Tom disse, rindo. – Vocês são amigos desde bebês praticamente, a gente sempre achava que uma hora vocês iam ficar juntos, porque naquela época que você namorou a Jemma, ficou óbvio demais.
– É, cara! – Blake disse, rindo.
– Não era óbvio. – Virei para eles. – Era?
– Ah, qual é, cara, ela parou de falar contigo por três anos, era óbvio. – Ele gargalhou em seguida.
– Enfim, estamos descobrindo o que isso é ainda, sem perder a amizade, então gostaria que vocês não comentassem sobre isso. – Pedi.
– É, especialmente que eles não chegaram nos finalmente ainda e ter essa galera aqui em volta não ajuda em nada. – Michael disse.
– Cara, você é bocudo para caramba, hein, puta que pariu! – Ele gargalhou alto e neguei com a cabeça.
– Ah, cara, te garanto que todo mundo aqui torceu, em algum momento, por vocês dois, inclusive seus pais e sua irmã, então deixa o pessoal aproveitar. – Ele disse relaxado e revirei os olhos.
– Por favor, não falem para Michelle e nem para os meus pais. Eles vão surtar e tá tudo meio incerto ainda. – Pedi.
– Se você tivesse falado no começo da festa, talvez tivéssemos algum problema, mas agora a bebida já passou. – Alex disse.
– Relaxa, Danny, seu segredo tá salvo conosco. – Assenti com Blake.
– Se vocês derem uma folga para eu sair só com ela, agradeço também. – Pedi, sorrindo.
– É, o garotão tá arranjando um lugar para o primeiro beijo deles. – Michael disse e dessa vez o chutei para valer. – AH!
– Cara! Vocês não se beijaram ainda? – Blake perguntou, rindo.
– Você era mais rápido, cara. – Tom disse, rindo.
– Se fosse qualquer outra mulher do mundo, cara, seria fácil, mas é a Harper. Tem muita coisa para levar em conta. – Suspirei. – Não posso perder a amizade dela.
– Pensando nesse ponto… – Alex concordou comigo e vi Harper aparecer na multidão e sorrir quando se aproximou.
– Ok, podemos ir! – Ela disse, parando em nossa frente, colocando as mãos na cintura. – O quê? Tem papel higiênico na minha bunda? – Ela virou o rosto e franzi a testa. – Por que vocês estão sorrindo assim? – Ela perguntou e virei o rosto para os caras, vendo todos dando sorrisos mal-intencionados para elas.
– Ah, eu odeio vocês. – Me levantei, andando até Harper. – Eu contei para eles.
– VOCÊ CONTOU PARA ELES? – A voz de Harper ficou mais alta e assenti com a cabeça.
– Nós amamos isso, honestamente! – Blake disse, rindo. – Espero desde o ensino fundamental. – Ela revirou os olhos.
– Danny, a gente não tinha…
– Eu sei, mas o bocudo do Mike…
– Quanto você bebeu? – Ela perguntou para Mike e ele deu de ombros, fazendo-a negar com a cabeça. – Seus pais…
– Eles prometeram não contar e espero honestamente isso. – Apertei-a pela cintura e ela apoiou as mãos em meu peito.
– Ah, Daniel. – Ela reclamou.
– Foi o Michael. – Expliquei de novo, fazendo-a suspirar.
– Ah, Italiano! Eu vou te… – Ela o chutou de longe, me fazendo rir. – Nós precisamos ir. – Ela suspirou enfim e assenti com a cabeça antes de dar um beijo em seu rosto.
– Eu vou falar com Mi. – Ela assentiu com a cabeça e virei o rosto para os caras. – Vocês vão ou vão ficar? Eu preciso dormir pelo menos umas três horas.
– Acho que dá para ir. – Blake disse, virando para o restante que assentiu com a cabeça.
– Eu vou com certeza. – Michael disse. – Preciso estar na sua casa até sete.
– Sim! – Assenti com a cabeça e os caras se levantaram.
Encontrei Michelle e Jason namorando na sacada e até me senti mal por interromper esse momento deles. Em casa eles precisavam se dividir entre os trabalhos, Isaac e meus pais. Eles acabaram indo conosco e pegamos os táxis da mesma forma de ida. Michael, Blake, Tom e Alex foram para o hotel e eu fui com Harper, Mi e Jason para o apartamento de volta.
Meus pais já dormiam no sofá com Isaac e eu sempre me sentia mal quando isso acontecia. Não que o sofá fosse ruim, mas meus pais já tinham passado dos 50. Eu me virava depois, eles não.
– Querem ir se trocando? Eu vou dar uma olhada no Isaac. – Mi disse.
– É, claro! – Harper disse e assenti com a cabeça. Fomos em direção ao quarto e ambas as camas estavam arrumadas. – Pode ir. – Ela disse, apoiando a mão em seu ombro.
– Eu vou rápido. – Falei, colando meus lábios em sua bochecha e ela sorriu.
– Foi legal hoje. – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Sim, foi. – Rocei meu nariz no dela. – Poderia alongar mais…
– Você precisa dormir. Amanhã é um longo dia.
– É, eu sei. – Suspirei, me afastando. – Já saio. – Ela assentiu e passei no closet para pegar meu pijama antes de entrar no banheiro.
Mijei antes de lavar o rosto e troquei a roupa da festa pela bermuda de moletom e a camiseta larga. Joguei um pouco de água no rosto e escovei os dentes antes de sair. Michelle e Jason já estavam no quarto e Harper saiu do closet com seu pijama colado e dei um curto sorriso antes de ela entrar no banheiro.
– Tento ser discreto de manhã. – Falei.
– Relaxa, Danny! – Mi disse. – A gente se vira, ok?! Faça o que precisa fazer. – Assenti com a cabeça.
Liguei o ar-condicionado antes de deitar na cama e não demorou para que Harper saísse do banheiro. Ela se deitou ao meu lado e vi Michelle e Jason seguirem para o banheiro e ri fracamente.
– Ela vai tomar um banho. – Harper disse. – Eu deveria fazer o mesmo, mas eu estou muito mole. – Deitei ao seu lado, puxando o lençol para cima de seu corpo.
– Amanhã você toma. Você precisa dormir também, o dia foi cheio. – Apoiei a cabeça no travesseiro, aproximando o rosto dela.
– Eu sei. – Ela suspirou. – Amanhã vai ser mais. – Suspirei. – Que horas é o terceiro treino?
– Meio-dia, e a classificação é as três. – Ela assentiu com a cabeça.
– Vai dar tudo certo. – Ela sorriu. – Essa é sua pista favorita, não é?
– É. Eu mando aqui! – Ela riu, claramente mole. – Quero ver se consigo minha primeira vitória aqui, mas para isso preciso de uma boa classificação.
– Vamos fazer um bom espetáculo, ok? – Inclinei meu corpo para deixar um beijo em sua bochecha e ela sorriu, segurando minha mão por baixo do lençol e sorri, entrelaçando nossos dedos.
– Boa noite, Harp.
– Boa noite, Danny. – Ela disse, suspirando.
Sábado
Harper
Eu sentia o clima pesar.
Diferente de todas as classificatórias em que eu estive até hoje, eu nunca senti o clima tão pesado na garagem quanto hoje, inclusive nos treinos de quinta-feira.
Na hora do almoço, enquanto eu tentava não passar mal pelo calor, Vettel acabou ficando com o melhor tempo, Rosberg com o segundo e Danny com o terceiro. Ainda não entendia muitas das coisas, mas sei o quão fechado é o circuito aqui e que as ultrapassagens são difíceis, ainda mais entre os primeiros. Ele precisa ser o melhor.
Eu e Danny mal conversamos. Ele me acordou para se despedir e vim perto das 11 com seus pais e o resto dos caras. Michelle estava virada da noite passada, os óculos escuros não saíram do rosto desde o começo de dia e ela estava bem mal-humorada. Em compensação, Isaac não saiu do meu colo ou de Grace desde que chegamos aqui, mas o calor também o deixava incomodado, então ele estava um pouco agitado.
– Titi Daniel! – Isaac gritou quando Daniel entrou na garagem e suspirei ao vê-lo com o macacão abaixado na cintura e a segunda pele branca colada em seu corpo.
– Fala aí, carinha! – Ele bagunçou os cabelos de Isaac e deu um beijo em sua cabeça, me olhando por cima de nosso afilhado. – Oi.
– Oi! – Falei, rindo. – Pronto?
– Nasci pronto! – Ele disse e suspirei, assentindo com a cabeça e ele puxou meu rosto para dar um beijo em minha testa. – Coragem, Harper! – Suspirei.
– Eu sei, eu só… – Neguei com a cabeça. – Eu vi seu novo capacete e eu odiei. – Falei, dando de ombros e ajeitei Isaac em meu colo.
– Você sabe do que eu gosto. – Ele piscou e ri fracamente, preferindo não dizer nada com sua mãe ao meu lado, mas a loira peituda com a barriga a mostra de seu novo capacete não era nada parecida comigo.
– Arrasa, tigrão. – Falei, séria e ele assentiu com a cabeça.
– Pode deixar. – Ele falou em um suspiro.
Ele abraçou seus pais e os caras, que estavam amontoados do lado de dentro do bar, antes de seguir para perto de Simon e Christian. Do outro lado da garagem, Max também havia chegado e fazia as mesmas preparações. A garagem em Mônaco era menor, então sabia que não dava para ficar todo mundo aqui na bagunça da corrida de amanhã.
Quando o contador estava perto do zero, Danny tirou minha visão de seu corpo ao subir o macacão e deu uma última olhada para nós antes de entrar no cockpit. Retribuí o gesto, apertando Isaac em meu corpo e suspirei. Eu me sentia estranha, estava com uma adrenalina no corpo, mas aquele receio de algo acontecer parecia maior do que normalmente. Não era um medo de um possível acidente, era medo de ele se decepcionar.
Ele não falava, mas ele estava muito empolgado com essa corrida e, baseado no histórico e nos treinos, tinha tudo para dar certo, porque eu o conheço, ele estava guardando algo para o fim, tenho certeza.
Os barulhos dos motores ficaram mais altos e não me importei devido ao fone, mas apertei a mão livre ao redor da cabeça de Isaac e o pressionei contra meu corpo, sentindo-o me abraçar com força.
– Titi! – Ele reclamou e apertei minha boca em sua cabeça.
– Calma, logo passa! – Falei baixo e fiz um rápido sinal da cruz. – Vamos, Danny!
Quando o pit lane foi aberto, o som dos carros perto da garagem reduziu e Isaac pareceu relaxar um pouco mais e se impulsionou em meus ombros para tentar ver em alguma televisão o que estava acontecendo. Não sei se ele entendia algo, mas tinha curiosidade com os carrinhos passando rapidamente.
Não estava nem com dois minutos da Q1 e Nasr teve um problema de motor e deram uma bandeira vermelha. Isso era um péssimo começo. Pensando em Mônaco, iria demorar um pouco para tirarem o carro dali, limparem o óleo da pista e liberarem a pista novamente. E Danny não tinha nem saído da garagem ainda.
Quando liberaram a pista, Grosjean da Haas foi o primeiro a fazer seu tempo e os números começaram a aparecer na tela. Eu já não estava me aguentando de nervosismo, em ver o carro de Danny estacionado na minha frente e aquele rádio silencioso.
Eu sei que tudo é estratégia, mas caramba! Vai logo!
O relógio estava chegando perto dos 11 minutos e Hamilton fez 1:14:831, Danny tinha feito dois centésimos a menos no segundo treino, o melhor tempo do fim de semana inteiro. Era possível! Eu sei! O dia foi bom ontem, nos divertimos para caramba, ele está sim levemente virado, porque eu ainda estou e dormi umas três horas a mais do que ele, mas era possível.
Faltava 10 minutos para acabar quando Danny saiu da garagem e sua primeira volta o deixou literalmente em último lugar dos 19 pilotos, Verstappen ainda estava na garagem do outro lado. Eu já estava começando a morder a ponta do meu dedo novamente e isso não era bom.
– Harper. – Me assustei, virando para Michelle. – Deixa comigo. – Ela pegou Isaac em seu colo.
– Titi! – Isaac resmungou, estigando os bracinhos para mim.
– A gente vai comer, titi não vai sair daqui. – Ela disse, dando um beijo nele e acho que o sono e calor o pegaram, fazendo-o apoiar a cabeça em seu ombro.
Voltei a prestar atenção na classificação e Danny finalizava sua segunda volta, cravando em 1:14:912. Isso o deixava em quarto lugar na classificação, mas era bom o suficiente para ele esperar aqui na garagem novamente. Precisava abaixar para 1:14:607, como fez na quinta-feira. Seria o melhor e melhor do que Hamilton.
Verstappen apareceu na tela, fazendo sua volta. Ele já tinha feito alguns pequenos erros nos treinos, fazendo os mecânicos trabalharem mais em seu carro. Foi com esse receio que as chances de uma boa classificação dele acabaram na curva 16. Ele não conseguiu desviar do balanço do carro ao subir na zebra e foi com tudo com a roda direita para a barreira de proteção.
– ARGH! – Os mecânicos reclamaram e pressionei os lábios.
Olhei para sua família e ninguém parecia feliz. Do outro lado, Helmut Marko começava a ficar mais avermelhado. Era quase como se eu não conseguisse respirar aqui. Pelas imagens, o carro estava muito ferrado, é impossível para ele volte para a classificatória, mas esperamos que os mecânicos consigam arrumar o carro até amanhã. Sem fim de semana para eles.
Danny voltou para a garagem após isso e ficou conversando com Simon quando a pista foi liberada novamente. Ele vai guardar o melhor para fim. Eu bem conheço o amigo aparecido que eu tenho.
Além de Verstappen e Nasr, Wehrlein, Haryanto, Palmer e Ericsson acabaram ficando fora da próxima etapa. Danny não saiu do cockpit em nenhum momento e ficou conversando com seu engenheiro e se hidratando durante esse tempo, mas não dava para ouvir sua voz nem pelo rádio. Ele sabia o que precisava fazer.
Quando faltava dois minutos para o começo do Q2, ele voltou a se arrumar, e era como se a palpitação voltasse quando os primeiros carros começaram a sair das garagens. Dessa vez Danny não demorou e saiu logo em seguida. Meu ouvido ardeu por alguns segundos antes da tensão voltar.
O primeiro melhor tempo foi de Kvyat, com 1:27:029, ruim, comparado com a primeira etapa, mas me surpreendi quando todos os outros foram piores do que ele, inclusive Danny com 1:34:447. Ele precisa melhorar isso urgentemente!
Vamos lá, Daniel! Coloca as manguinhas de fora.
Quando Kvyat refez a volta dele, desceu para 1:14:819 e foi aí que o jogo começou novamente. Sainz o passou, depois Vettel, Hamilton, até finalmente aparecer o número do Danny da tela com 1:14:357, atrás das duas Mercedes. Hamilton conseguiu baixar para 1:14:056, fazendo o novo melhor tempo do fim de semana.
Danny estava satisfeito com seu tempo quando voltou para a garagem e, realmente, ninguém parecia superar os tempos, a ordem se manteve, até quando Bottas e Massa entraram faltando somente seis minutos para o final.
Eu parecia uma bateria, o coração parecia explodir do peito nos últimos minutos. Danny estava incrivelmente calmo, se manteve dentro do carro novamente, conversava com Simon e Michael o entregava a garrafa de Red Bull frequentemente. Eu queria correr até ele, abraçá-lo… Não sei o que falaria, mas meus pés estavam colados no chão, como se eu não existisse. Seus pais estavam da mesma forma.
Eles fizeram a troca de pneus para super macios e Danny saiu da garagem novamente para conseguir passar o tempo de Rosberg com 1:14:357, quatro centésimos a frente. Isso em uma volta. Tinha tudo para ele conseguir sua primeira pole. Até meu lado pessimista parecia estar quieto hoje.
A Q2 finalizou com Vettel passando o Danny em um centésimo e Rosberg passou todos ao fazer 1:14:043. Isso deixou todo mundo irritado. A briga com as Mercedes ainda vai ser grande na última parte.
Magnussen, Grosjean, Massa, Button, Gutierrez e Bottas ficaram fora dessa penúltima parte e agora era a hora de Danny mostrar literalmente tudo o que ele tinha escondido dentro desse macacão. Ou eu mesma o pegaria pelo pescoço.
Para a Q3, ele foi literalmente o primeiro a sair. O barulho nem me importava mais, e ele era o primeiro quando liberaram o circuito e juntei minhas mãos, aproximando da boca e mordi a pele de cima do dedo indicador.
Logo de início, o carro de Hamilton deu problema, mas ele não tinha nem saído, então os mecânicos o levaram de volta para a garagem. Danny começou sua primeira volta assim que passou da marca de largada e ficou em terceiro lugar após Hulkenberg e Alonso completarem suas voltas e foi caindo com Vettel e Perez.
– Vamos, Danny! – Sussurrei, apertando minhas mãos mais forte, vendo-o começar outra volta.
As imagens da câmera não estavam focadas nele no começo, então não tive uma visão geral de tudo, mas quando a câmera focou nele na entrada do túnel, deu para perceber que ele estava igual um foguete.
Respira, Harper! Respira!
O carro deslizava por cima das zebras, fazendo o carro levantar um pouco nas laterais e o coração parecia pular junto.
– Vamos, Daniel! Vamos! – Suspirei.
Quando ele passou da largada, o susto foi enorme quando seu nome foi para o primeiro lugar e subiu para 1:13:622.
– PORRA! – Os mecânicos e seus pais comemoraram com aplausos e eu estava travada e trêmula.
– Viva aí? – Sua mãe perguntou, gargalhando e ri nervosa.
– Ainda sim. – Suspirei, olhando os números subindo aos poucos, mas Danny continuava em primeiro lugar. Isso era perfeito!
Danny voltou para a garagem, mas ninguém fez grandes comemorações e Danny também não saiu do carro. Tinha prova ainda. Ele fez troca de pneus mais uma vez antes de sair novamente. Ainda tinha três minutos e meio e sabia que ele ainda conseguia reduzir esse tempo. Especialmente pegando um pouco do vácuo* do Hamilton que tentava fazer um tempo após o problema na saída da Q3.
Hamilton conseguiu ficar em terceiro lugar, Rosberg em segundo e Danny não conseguiu melhorar seu tempo, mas quem se importa agora? É a primeira pole* da carreira dele, aqui em Mônaco, no circuito favorito dele e eu estou aqui. Não podia ser melhor.
– P1, Daniel! P1! – Ouvi a voz de Christian em meu ouvido e passei o braço ao redor dos ombros da Grace, sentindo meus olhos se encheram de lágrimas.
– WO-O-O! YEAH! – Os gritos de Danny saíram no fone e Grace e Joe me abraçaram, o sorriso não saía mais do rosto. – Minha vez! Finalmente a porra da minha vez! – Ele disse alto e gargalhei com o pessoal.
Michael se aproximou em seguida, me fazendo rir e abracei-o apertado, sentindo os outros meninos entrarem no abraço e nossas risadas se misturaram com a do restante do pessoal. Meu corpo finalmente relaxou e eu estava literalmente nas nuvens.
– Ele conseguiu! – Falei, rindo, sentindo a voz falhar no meio do caminho.
– Ele conseguiu! – Michael falou contra meu ouvido, me fazendo rir e sorrimos quando afastamos nossos rostos. – Respira, Harper! Respira! – Ri fracamente.
– Acho que eu aceito aquela bebida agora! – Falei.
– Todos nós! – Virei para Christian que apareceu atrás de nós e ele apoiou a mão em meu ombro e me abraçou junto de Joe e Grace. – Parabéns! – Ele disse, rindo e sabia que estava falando com Joe e Grace, mas eu não me importava.
Hoje talvez seja o dia mais importante da carreira dele e eu mal vejo a hora daquela coletiva acabar para gente comemorar de verdade. Talvez com um pouco menos de álcool do que ontem, mas nunca precisamos disso para nos divertir, não é agora que vai começar.
*Pegar vácuo: os carros vão tão rápido que acabam criando uma barreira de ar por onde eles passam, isso faz com que o carro de trás ande quase sem nenhuma resistência, fazendo a velocidade do carro de trás ser maior.
*Pole position: a pessoa que larga em primeiro lugar em uma corrida.
Daniel
– Eu realmente sinto que chegou a minha vez e eu sinto que é a minha vez há algum tempo, então é demais conseguir minha primeira pole e, é! Aqui é o lugar mais recompensador. – Pressionei os lábios. – Claro que temos um ótimo carro, as melhoras nos ajudaram nesse fim de semana com a unidade de energia, mas tem uma grande diferença em dirigir aqui e em outros lugares no calendário, então estou empolgado. – Sorri para o jornalista.
– Obrigado, Daniel! – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Obrigada! Obrigada! Agora o Daniel precisa descansar! – Maria me empurrou pelo ombro para fora da área da imprensa e ri fracamente.
– Ah, cara! Estou cansado de verdade! – Falei, rindo.
– É isso o que uma pole faz! – Ela sorriu. – Ah, cara! Estou tão feliz por você! – Rimos juntos. – Todos, na verdade. – Sorri.
– Você falou sério quando disse que eu posso descansar agora? – Perguntei.
– Sim! – Ela disse, rindo. – Você vai ter que estar as oito na garagem amanhã cedo, mas o pessoal acha que você merece descansar um pouco depois de hoje. – Sorri.
– Parece loucura, Maria! – Falei,, rindo, cumprimentando alguns colegas que eu encontrava pelo meio do paddock.
– Ah, Danny boy! – Nando me abraçou apertado, me fazendo rir e senti alguns tapas em minhas costas. – Parabéns!
– Obrigado! – Falei, rindo, abraçando Jenson logo em seguida.
– Arrasa, garoto! – Rimos juntos.
– Amanhã! – Falei, rindo, voltando a andar com Maria.
– Ah, garoto! Amanhã é seu dia! – Maria falou, rindo e gargalhei alto.
– KI! KI! KI! EI! EI! EI! – Gritei e ela me empurrou, me fazendo gargalhar. – Lesgo, Mary!
– Ah, cara! – Gargalhei, entrando na garagem da Red Bull, atravessando os corredores para dentro.
– Aqui está nosso garoto! – Nigel foi o primeiro a me abraçar e ouvi os gritos do restante do pessoal e alguns aplausos.
– Obrigado, cara! – Falei rindo e Simon estava logo atrás dele!
– Aí, Danny boy! – Ele me abraçou apertado. – Chegou, hein?!
– Chegou, cara! – Gargalhei, vendo meus pais sorrindo logo atrás dele.
– Ai, filho! – Minha mãe falou quando abracei ambos juntos e fechei os olhos. – Seu momento chegou! Ah, estou tão feliz. – Sua voz afinou, me fazendo rir.
– Ah, mãe! Não precisa chorar! – Ela riu e passou as mãos no rosto quando se afastou.
– Eu sou emotiva, para! – Ela me deu um tapinha em meu ombro e Michelle estava ao seu lado.
– Ah, garoto! – Ela me apertou fortemente, me sacudindo pelos ombros e gargalhei. – Essa eu vou ver de camarote!
– Desacelera! Desacelera! Tenho 78 voltas amanhã ainda! – Ri com ela.
– E vai aproveitar todas as 78! – Ouvi outra voz e vi Harper atrás dela e meu sorriso só alargou. – É isso que eu estou falando! – Ela disse e soltei Michelle antes de apertá-la contra meu corpo. – Ah, Danny! – Ela me abraçou fortemente pelos ombros e ri quando ela passou as pernas pela minha cintura e apertei as mãos em sua cintura. – Você conseguiu! Você conseguiu! Você conseguiu!
– Eu consegui! – Falei, rindo, tentando parecer calmo na frente dos outros. – E você está aqui comigo… – Sussurrei, dando um beijo em seu ombro.
– E nunca mais vou te deixar. – Ela disse baixo, colocando os pés no chão novamente e consegui olhar em seus olhos. Ela deu uma piscadela e sorri, mordendo o lábio inferior.
– AH, GAROTO! – Michael me tirou do nosso mundo e senti os quatro pularem em meus ombros e meu corpo sacudir mais do que dentro do carro com os abraços, tapas e empurrões deles.
– DANNY BOY VAI ARRASAR EM MÔNACO! – Blake gargalhou.
– Ok! Ok! Ok! Eu preciso estar vivo para arrasar em Mônaco! – Falei, os sentindo pararem de me empurrar e eles gargalharam.
– Parabéns, cara! – Minha mão e a de Michael estalaram e nos abraçamos propriamente agora. – Foi incrível!
– Para valer! – Blake disse exagerado atrás, me fazendo rir e o abracei em seguida. – Amanhã você vai fazer história nessas ruas!
– Já está na hora, hein?! – Ouvi a voz de um mecânico, me fazendo rir.
– Amanhã é nosso dia, garotos! – Falei, rindo e vi Christian se aproximar.
– Amanhã é seu dia, Daniel! – Nossas mãos estalaram e o abracei em seguida. – Foi perfeito! Parabéns!
– Obrigada, Christian! – Falei rindo, sentindo-o apertar minhas costas e vi Max atrás dele.
– Ei, garoto!
– Parabéns! – Ele disse, dando um tapinha em minhas costas. – Sorte sua que eu não estava lá.
– Ah, cara. – Falei e o pessoal gargalhou. – Dá um tempo antes de me passar, novato! – Brinquei e ele riu.
– Parabéns, cara! Seu tempo foi incrível! – Ele disse e rimos juntos.
– Obrigado! – Sorri, encontrando outros mecânicos atrás dele. – Caras!
– AGORA VAI, DANIEL! – Alguns gritaram juntos e ri alto, passando por todos eles, dando um forte abraço em cada um.
– Eu não conseguiria isso sem vocês, caras! Obrigado! – Falei, andando por eles.
– Agora é melhor você voltar para casa, dormir e não beber nada! Sua cabeça precisa estar perfeita amanhã! – Maria disse mais alto, nos fazendo rir.
– Ah, vou garantir que isso aconteça! – Minha mãe disse e sorri.
– Ah, mãe! Pega leve! – Brinquei e ela riu.
– Ah, eu estou muito orgulhosa do meu bebê! – Bati a mão na testa, ouvindo o pessoal rir.
– Não é nem novidade, Danny! – Harper disse e neguei com a cabeça.
– Ok, eu vou me trocar antes que minha mãe comece a me fazer passar vergonha. – Falei, rindo.
– Daqui a pouco ela tira aquela foto na banheira da bolsa e eu quero ver! – Michael disse e gargalhei.
– Ah, essa até eu quero ver! – Nigel disse, me fazendo rir.
– Obrigado, caras! Vocês são incríveis! Amanhã nós terminamos isso! – Falei e eles gritaram em meio a aplausos.
– Descansa! Nos falamos amanhã cedo! – Christian disse, sério e assenti com a cabeça.
– Pode deixar! Estarei aqui antes do sol nascer. – Falei, sério.
– Estaremos aqui! – Um dos mecânicos falou e fiz uma careta. O carro de Max estava ferrado, seria uma longa noite para eles.
– Eu vou tomar um banho rápido, me trocar e podemos ir embora. – Falei ao me aproximar da minha família.
– Claro! – Eles disseram.
– Eu sei que você precisa descansar, mas a gente pode comemorar, né?! – Michael perguntou, rindo.
– É claro! – Sorri.
– Algo discreto? Na sua casa? – Minha irmã sugeriu.
– Pizza e refrigerante? – Brinquei, fazendo-os rir.
– Como quando eram crianças! – Minha mãe disse e aquilo me fez sorrir.
– Onde está Isaac? – Perguntei.
– Na sua salinha aqui. – Michelle disse. – Vou pegá-lo, ele capotou, tadinho.
– Está muito quente! – Harper comentou. – Eu daria tudo para pular naquela piscina! – Sorri.
– Me deem 15 minutos. Encontro vocês no estacionamento.
– Combinado! – Minha mãe disse e sorrimos.
Acenei para minha equipe mais uma vez e Harper me deu um sorriso fofo antes de eu seguir para fora da garagem novamente e pelo paddock. Michael foi comigo, como sempre, mas dessa vez Harper ficou lá fora. Aposto que Isaac já estava em seu colo. Quando voltei para o meu vestiário, fui direto para o banho, mas só o suficiente para tirar o suor do corpo. Eu estava bastante ligado ainda, precisava de muito para me relaxar ainda.
Coloquei a tradicional blusa da Red Bull, a bermuda e o tênis. Enfiei tudo de volta na minha mochila e saí com Michael dali. Pela caminhada para fora do paddock, ainda encontrei outros pilotos, chefes de outras equipes, além de fãs e eu me sentia realmente nas nuvens. Era bom ver até meus rivais felizes por mim.
Demorou muito para isso chegar.
Parei no estacionamento para falar com alguns fãs ali antes de entrar no carro com Michael e os caras. Eles quase estouraram as caixas de som com a altura, mas eu estou extasiado demais para reclamar. Eu estou em Mônaco, com meus amigos, minha família, Harper e acabei de conseguir minha primeira pole.
– Onde eu estaciono? – Blake perguntou quando nos aproximamos de meu prédio.
– Entra na garagem! Terceiro subsolo! – Falei. – Tem umas vagas para visitantes. – Ele assentiu com a cabeça, guiando o carro para dentro da garagem, descendo até onde falei. – Ali, do lado do meu pai. – Indiquei o outro carro estacionando e Blake parou ao lado.
– Ah, aqui estão eles! – Minha mãe disse e vi Harper saindo com Isaac em seu colo. Eu sei que pareço um idiota, mas eu não conseguia parar de sorrir quando via essa mulher, principalmente quando ela está com Isaac.
– Eu espero que tenha ótimas pizzarias aqui em Mônaco porque eu estou com fome! – Ela disse, rindo.
– Também, mal comeu no almoço. – Meu pai disse.
– Eu estava nervosa, mas nada que um pedaço de pizza cheio de queijo não melhore. – Rimos juntos.
– Harper chef ou… – Jason perguntou.
– Ah, não! A Harper chef nem vai aparecer quando a pizza chegar. – Ela brincou, nos fazendo rir.
– Vamos subir e a gente pede. – Michelle disse e ela chamou o elevador.
– Claro. – Falei, parando ao lado de Harper e chequei Isaac. – Ele dormiu? – Perguntei.
– Sim, Mi acha que ele está um pouco quente, vamos dar um banho e colocá-lo no ar um pouco para ver se é febre ou só calor mesmo. – Ela disse e assenti com a cabeça.
– Não vai ser nada. – Dei um beijo nos cabelos de Isaac.
– Me dá ele aqui, Harp! – Mi pediu e Harper entregou-o devagar.
– Cuidado com a cabeça! – Ela disse e Isaac logo estava com a cabeça no colo da minha irmã.
– Gente! – Meu pai chamou e ele já segurava o elevador com minha mãe lá dentro. Vi Michael, Blake, Alex, Jason e Mi entrando, o espaço acabando e isso me deu uma ideia.
– A gente vai depois. – Falei e Harper olhou para mim. – Esperamos o próximo.
– Ok, nos vemos lá em cima! – Alex disse antes de apertar o botão e a porta se fechou devagar.
– Vem! – Puxei Harper pela mão.
– Ei! Aonde vamos? – Ela perguntou enquanto a puxava para a escada. – Nem pense que eu vou subir 11 andares de escada! – Ela disse. – 15 se contar o subsolo.
– Vem! – Falei, rindo, puxando-a comigo e ela suspirou antes de vir.
– O que está planejando, Daniel? – Ri fracamente, notando o receio em sua voz só pela forma que ela me chamou.
– Não vamos ter essa chance novamente, Harper. – Falei rindo, subindo os degraus rapidamente, até sair pela porta do segundo subsolo.
– Que chance? – Ela perguntou e segurei em sua cintura com as duas mãos, forçando-a a parar. – O quê? – Ela olhou para mim, confusa.
– O que me diz sobre dar uma escapada? – Perguntei e ela riu fracamente.
– Dos seus pais? – Ela perguntou, rindo.
– De todos! – Perguntei e ela abriu um largo sorriso. – Não teremos essa chance de novo até eles irem embora.
– Mas o que eles vão dizer? – Ela apoiou os braços em meus ombros.
– Os caras são inteligentes, eles vão perceber e arranjar uma desculpa. – Falei e ela mordiscou o lábio inferior. – O que me diz?
– É bem tentador! – Ela disse, rindo e pressionei meus lábios em sua bochecha. – Ok!
– Lesgo, baby-y-y-y! – Falei, ouvindo-a rir e puxei-a novamente pela mão.
Capítulo 17
Perth, Austrália, 2004
– Eu tenho educação física agora. – Daniel perguntou. – Você vai?
– Não mesmo! – Jemma disse, rindo. – Hoje é treino extra, não vou me desgastar por isso. Está chovendo.
– Nos vemos depois, então? Eu preciso de presença pelo menos. – Ele disse, coçando a nuca.
– Claro! Vamos sair hoje à noite? – Ela perguntou.
– É, claro! Eu te encontro na sua casa depois do treino. – Ele disse.
– Combinado. – Ela sorriu e eles trocaram um rápido selinho antes de se afastarem.
– Tchau! – Ele acenou e saiu para a parte externa da escola.
A chuva fina caía frequente e, juntando com o nublado, deixava um frio péssimo no meio de junho. O garoto apertou o casaco contra o corpo e correu em direção à quadra poliesportiva do colégio, pulando as poças maiores. Seus cabelos abaixaram instantaneamente, cobrindo parte dos olhos. Ele chegou na quadra, vendo a professora dando atenção para quatro alunos de tênis e viu poucos alunos esperando nas arquibancadas.
Ele ouviu passos rápidos pelas pedras que cobriam as ruas e virou o rosto, identificando Harper descendo correndo, com a mochila nas costas e o taco de cricket na mão. O garoto suspirou longamente, eles não se falavam há duas semanas e isso era uma eternidade para ambos. Eles se conheciam desde antes dos três anos, ele faria 15 em alguns dias e ela em outubro.
Ele ainda estava confuso pelos motivos que brigaram. Ele sabia que Harper e Jemma nunca se deram, os gostos de ambas sempre foram muito diferentes, tanto que o garoto escondeu sua paixonite por Jemma por um tempo, mas ele não era ninguém sem Harper, até o pessoal em casa falava como ele ficava chato sem ela.
Ele também sabia que, se quisesse manter a amizade com a amiga, precisava dar o braço a torcer. Harper sempre foi mais cabeça quente entre os dois, já Daniel tentava não revidar algumas coisas para ela, pois sabia que ela não fazia por mal. Era quase como a amizade perfeita. Então, literalmente entre a cruz e a espada, ele respirou fundo e esperou que a voz saísse com firmeza.
– Harper… – Ele a chamou e o olhar da menina apareceu por baixo do capuz do casaco.
– Ah, o que você quer? – Ela disse, apoiando o taco no ombro e o garoto engoliu em seco. Talvez não fosse a melhor hora para falar com ela.
– Conversar com você. – Ele disse e ela suspirou.
– Não estou no clima, Daniel! Me erra, vai! – Ela disse, dando alguns passos, mas o garoto correu para ficar em sua frente, impedindo que ela passasse.
– Por favor. – Ele disse, desviando o rosto do taco. – Eu estou me sentindo mal, eu sinto sua falta. – Ele suspirou. – Não dá para gente se ajeitar?
– Bem, você fez sua escolha. Eu fiz a minha. – Ela deu de ombros, ameaçando andar e ele a segurou de novo. – Daniel. – Ela disse firme.
– Eu não vou sair daqui. – Ele disse firme. – Mesmo se você bater em mim. – Ele olhava para o taco. Se ela fizesse um movimento, talvez tirasse a orelha dele fora.
– Eu não vou te bater. – Ela desviou o taco do ombro, apoiando-o no chão e ele a olhou sugestivamente. – Ok, não vou te bater mais. – Ela suspirou. – Mas não vou mais falar disso. Você escolheu, então eu escolho.
– O que está dizendo? Que não podemos mais ser amigos porque estou a namorando?
– Ah, vocês estão namorando agora? Uau! – Ela disse sarcasticamente. – Essa foi rápida! – Ela tentou desviar os pés e ele fez o mesmo. – Manda um oi para senhora Godzilla e cuidado para não se tornar um babaca como ela. – Ela desviou de novo e ele fez o mesmo. – Eu juro, Daniel, se você não sair da minha frente, aí sim eu vou usar meu taco e esse é o velho, além da marca, você vai ficar três dias tirando farpa do seu rosto.
– Você pode fazer o que quiser, eu não vou sair daqui até você me dar uma nova chance. – Ele suspirou. – Eu sei que ela não era legal contigo quando a gente era mais novo, mas você também provocava.
– Como eu provocava? – Ela disse firme. – Eu tinha problemas de crescimento e gosto de esportes, que tipo de direito isso dava para ela? – Ele suspirou, sem resposta. – Você pode falar o que quiser, eu não gosto dela e nunca vou gostar. E eu não vou fingir ser amiguinha dela só porque você está a namorando. – Ela suspirou. – Ela é interesseira e cruel, não sei como alguém como você pode querer ser namorado dela. – Ele suspirou. – Mas agora eu cresci, em todo sentido da palavra, não vou ficar quieta enquanto ela fica provocando os mais novos ou achando que o mundo gira em torno do umbigo dela.
– Eu gosto dela, Harp. – Ele suspirou. – E como minha amiga, você deveria me apoiar.
– É, eu gostava do Toby também. – Ela pressionou os lábios. – Ele realmente te fez chorar aquele dia e eu o afastei de mim, porque é isso o que amigos fazem. – Ela suspirou. – Mas pelo jeito só funciona de um lado, porque perdi as contas de quantas vezes aquela idiota me fez chorar. – Ela respirou fundo. – Muitas pessoas me fizeram chorar, Daniel, só não achava que você seria uma delas. – Isso tocou fundo no garoto, fazendo-o engolir em seco.
– Deixa eu mostrar para você que eu não mudei, Harp. Eu ainda sou o Danny de sempre. – Ele suspirou. – Eu não vou deixá-la fazer mais essas brincadeiras contigo, mas eu estou feliz… – Ela pressionou os lábios. – Por favor, posso fazer essas duas coisas funcionar, vai. Eu não quero perder você. Você é minha amiga mais antiga. Minha melhor amiga. – Ela suspirou.
– HARPER ADDAMS! – Ambos viraram o rosto para a quadra onde a professora chamava o time feminino de cricket. – VEM!
– Por favor… – Danny pediu.
– JÁ VOU! – Harper gritou de volta, voltando a olhar para ele. – Você tem uma chance, Daniel.
– Isso! – Ele movimentou o braço, animado.
– Não comemore ainda. Você está em condicional. – Ele riu fracamente. – Não sei se viu que saiu Shrek 2…
– É! Eu vi! – Ele disse, animado. – A gente pode ver hoje!
– É… – Ela suspirou. – Tem uma sessão as oito da noite no cinema perto de casa. Te encontro lá. – Ela disse.
– Combinado! – Ele disse, animado. – Eu vou compensar contigo, Harp. Eu prometo. – Ela suspirou.
– Não fique tão feliz, você paga a pipoca. – Ela disse, desviando dele e dessa vez ele deixou. – E o refrigerante! – Ela disse firme, pisando na arquibancada e desceu os degraus um a um. Enquanto o garoto comemorava sozinho.
Mônaco, 2016
Harper
Quando Danny me chamou para dar uma escapada, parte de mim falou sim muito rápido, mas agora eu sentia meu estômago borbulhar, pois sabia exatamente qual motivo ele queria nos afastar de seus pais e seus amigos. Talvez nosso primeiro beijo saia hoje e pensar em beijar meu melhor amigo causava diversos pensamentos em mim, especialmente se seria bom.
Assim, Danny estava muito lindo, os anos fizeram muito bem a ele em todos os sentidos, estava sendo realmente a pessoa mais incrível por quem eu já tinha me apaixonado e, com certeza a mais gostosa, mas pensava se isso tudo não era empolgação. Ainda somos amigos de infância, convivemos quase todos os dias desde antes dos meus três anos e mesmo com nossas profissões e problemas nas nossas vidas, nada mudou entre nós.
Depois que sua família se conformou que não éramos namorados e meus pais faleceram, fazendo Joe e Grace se tornarem meus representantes legais e minha casa se tornar a casa dele, nos tornamos irmãos em quase tudo, menos no sangue. E se fosse ruim? Se fosse como beijar a parede? Eu sentia meu corpo arrepiar com seus abraços, seus lábios em meu pescoço e a mão incrivelmente baixa em minha lombar, mas e se…?
Eu sei que estou para descobrir, mas o medo de não dar certo e acabar a amizade parecia falar mais alto. Só espero que esteja errada.
– Vem! – Danny me puxou pela mão e ri com ele, andando pelo estacionamento. – A gente pega a Vespa e consegue fugir do movimento.
– E você vai com essa roupa? – Perguntei sobre a camiseta e boné da Red Bull. – Vai ser difícil sumir entre as pessoas.
– Eu devo ter alguma coisa na mochila. – Ele disse, apoiando a mochila no banco da Vespa e arregalei os olhos com a McLaren azul na vaga do lado.
– Uau! – Falei, rindo. – Isso é uma 675LT! – Disse, rindo. – De quem é?
– É minha! – Ele disse e arregalei os olhos.
– MENTIRA! – Gritei, colocando a mão na boca. – Você tem uma McLaren e nunca me disse? – Ele gargalhou.
– Eu comprei no meio do ano passado, devo ter esquecido de falar. – Ele abanou a mão como se tivesse me dito que comprou um colar.
– DANNY! ISSO É DEMAIS! – Falei, rindo, dando uma volta no carro. – Oh, meu Deus! Ela é linda! – Ele riu e toquei levemente a lataria.
– É, ela é incrível! – Ele riu.
– A gente vai dar uma volta com ela, né?! – Perguntei rápido, virando para ele, vendo-o tirar a camiseta da Red Bull e mordiquei o lábio inferior com seu abdome definido.
– Nem vem! – Ele disse, rindo, fazendo sua cabeça aparecer pela gola da camiseta preta.
– Por que não? – Fiz um pequeno bico, olhando para ele.
– Você não tem noção como foi difícil comprá-la e trazer para Mônaco sem ninguém saber. Se eu aparecer com uma McLaren, ainda mais em fim de semana de GP, vão logo começar a imaginar que eu vou para McLaren e isso vai fazer uma bagunça enorme! – Ele falou, dramático. – Ela fica escondidinha aqui até eu conversar com a Red Bull.
– Ah, mas ela é linda… – Suspirei, fazendo um pequeno bico e ele se aproximou. – Eu mereço, vai…
– Eu prometo te levar para dar uma volta, outro dia. – Ele falou ,sério e me estendeu um capacete. – Serve a Vespa hoje? – Mantive o bico.
– Serve, né?! – Dei de ombros, pegando o capacete e ele riu antes de guardar sua mochila no lugar do banco e colocar o outro capacete.
Coloquei o capacete e ele subiu na Vespa e ligou-a. Subi logo atrás e passei as mãos pela sua cintura. Ele apertou minhas mãos e apoiei a cabeça em seu ombro, sorrindo. Não demorou para ele colocá-la em movimento e ri fracamente com o pensamento de seus pais tentando entender nosso sumiço. Só esperava que Michael nos avisasse a desculpa que usou para usarmos a mesma.
Não sabia para onde Danny nos levaria, mas, quando percebi o caminho, notei que estávamos voltando para a área do GP. Achei que a ideia fosse fugir das pessoas, não ir de encontro a elas. Talvez as coisas já estivessem mais calmas, especialmente pelas arquibancadas não estarem cheias na classificatória, mas acho que ainda não.
– Aonde vamos? – Perguntei para Danny.
– Port Hercule! Mas eu vou por dentro. – Ele disse e, realmente, ao invés de ir beirando a água, fomos por dentro dos quarteirões, mas uma hora precisamos voltar para o litoral e ele parou na frente do Yacht Club. Não exatamente discreto.
– Vamos logo! – Ele disse, tirando o capacete da cabeça e fiz o mesmo. Ele guardou ambos no banco novamente e colocou a mochila das costas.
– Por aí? – Perguntei, confusa.
– Anda rápido! – Ele disse e rimos juntos.
Ele me puxou pela mão novamente, entrelaçando os dedos e acompanhei seus passos rápidos por dentro do clube. O lugar era lindíssimo, com uma decoração antiga e aqueles lustres que eu imaginava que custasse o valor do carro na garagem de Danny, mas não deu para eu prestar tanta atenção, só desviava das pessoas. Assim que uma porta se abriu para fora, seguimos para ela e parei ao ver vários píeres com diversos iates. Um maior do que o outro.
De perto eles eram mais incríveis ainda. A mão de Danny me puxou e apressei o passo para juntar nossos braços novamente, caminhando até o píer extremo do lado esquerdo. Alguns iates estavam cheios, outros espaços vazios, mas cada um era mais luxuoso que o outro.
– Esse é meu! – Ele indicou para um e vi a bandeira da Austrália, me fazendo sorrir. – Pode entrar, já volto! – Ele disse e ri fracamente, observando o iate, sentindo nossas mãos se afastarem.
Eu não entendo nada de barco ou iates, só tive algumas experiências em cruzeiros para avaliar alguns chefs. Apesar de tudo, podia ver de cara que o iate tinha três níveis. O primeiro foi o que pisei ao entrar. Era um pequeno deck, com cobertura e ali tinha uma porta fechada e uma escada para cima. Ela me levou para uma área com alguns sofás e espreguiçadeiras, uma mesa e subindo mais algumas escadas, tinha a área do piloto.
Andei pela lateral dela, encontrando aquela área frontal onde as pessoas costumavam aparecer em fotos de paparazzi tomando sol e foi como se me sentisse no topo do mundo. Pelo tamanho dos outros iates em volta, entendo o que Danny diz sobre pequeno, mas isso deveria caber umas 20 pessoas com folga para curtir um bom dia de sol.
– Harp? – Virei o rosto, vendo Danny voltar com outro homem e caminhei até o deck novamente. – Esse é Anton! Ele vai nos levar para dar uma volta. – Vi o homem com uniforme do Yacht Club. – Essa é Harper.
– É um prazer te conhecer. – Estiquei minha mão para ele e trocamos um aperto. – Aonde vamos? – Virei para Danny.
– Plage Marquet, é aquela praia na frente do porto perto de casa, dá para nadar um pouco, se você quiser. – Ri fracamente.
– Você poderia ter dito para eu trazer biquini, pelo menos. – Falei e vi Anton seguir para dentro do iate.
– A gente dá um jeito. – Ele deu de ombros. – O que acha? – Ele entrou também e ri.
– É lindo, Danny. – Sorri.
– Viu lá dentro? – Ele perguntou.
– Não, ainda não. – Ele indicou com a cabeça.
– Vem cá. – Ele chamou e o vi com um molho de chaves na mão e ele selecionou a chave, abrindo o cômodo e sumiu dentro dele.
Suspirei ao encontrar um quarto ali e Danny foi ligando as luzes. O cômodo era pequeno, mas tinha uma cama de casal encostada na parede que entramos e um banheiro pequeno no canto esquerdo com chuveiro, pia e vaso sanitário. Danny abriu outra porta e dois degraus nos separavam de uma sala com cozinha. Um sofá de três lugares de couro branco e uma televisão de umas 40 polegadas de um lado, e uma pia, um pequeno cooktop, uma bancada e uma pequena mesa com quatro banquetas do outro, além de alguns armários na parte de cima.
– Você consegue sair pela frente ali. – Ele indicou uma escada do outro lado que dava para a porta e ri fracamente.
– Isso é demais! – Falei, rindo, andando pelo quarto, vendo a cama arrumada com a roupa de cama branquíssima. – Eu poderia dormir aqui fácil, fácil. – Ele riu fracamente, deixando a mochila no sofá.
– Talvez no próximo descanso. – Ele disse e senti um puxão, me forçando a apoiar na parede.
– Wow! – Falei. – Estamos andando?
– Sim! – Ele disse, rindo. – Não vai passar mal, por favor.
– Nunca passei mal em navio. – Ele se aproximou de mim. – Maiores do que esse, mas estou bem.
– Vem cá! – Ele segurou minha mão apoiada com firmeza na parede e a soltei devagar antes de ele me puxar para fora do quarto, no deck que tinha ali.
– Danny! – Falei, nervosa.
– Confia em mim! – Ele disse e apoiei a mão nas paredes e nos apoios até colocar um pé para fora, vendo o Yacht Club se afastar aos poucos. – Vem… – Ele esticou a mão e soltei da parede, segurando em seu braço. – Não sabia que era tão medrosa.
– Eu só não quero cair. – Ele me abraçou pela cintura e passei os braços pelos seus ombros, segurando-o com firmeza.
– Está tudo bem. – Ele disse e os cabelos soltos do rabo de cavalo voavam pelos ares devido a velocidade. – Estamos chegando. Mônaco é pequena. – Assenti com a cabeça.
– Eu poderia esperar lá dentro. – Falei fracamente e ele deu um beijo em meu rosto.
– Você precisa aproveitar as coisas boas da vida. – Ele disse.
– Eu estou tentando. – Ri fracamente e notei a velocidade do iate reduzindo e minha mão soltou Danny aos poucos, devolvendo meu equilíbrio.
– Eu pedi para ele parar virado para o mar, não para praia. – Ele disse. – Os fotógrafos são incrivelmente bons, mas eles não conseguem nos ver, só se vierem de barco. – Rimos juntos e apoiei o quadril na altura da janela de dentro, colocando as mãos para trás, me segurando com firmeza.
– Dá até para fingir que a cidade está vazia. – Comentei, olhando o horizonte e ele riu fracamente.
– É, até que dá. – Ele sorriu.
– Senhor Ricciardo, estamos atracados. – Anton apareceu. – O lugar é próprio para nado, estamos com quatro metros de profundidade e sem peixes.
– Obrigado. – Danny disse e o homem deu um aceno de cabeça antes de subir novamente.
– Hum, senhor Ricciardo. – Falei, rindo.
– Aqui é só assim. – Ele suspirou e franzi a testa.
– Ele trabalha para a clube? – Perguntei e ele tirou os tênis.
– Sim! Eu pago uma mensalidade para deixar o iate no clube e ganho alguns serviços como limpeza e um piloto para quando eu precisar. – Sorri.
– Isso é legal, prático, apesar de tudo. – Ele tirou as meias, enfiando-as dentro dos tênis. – Vai nadar? – Perguntei.
– Não, mas dá para gente aproveitar um pouco. Está na hora do pôr-do-sol! – Ele disse e me aproximei da beirada, fugindo da cobertura acima e pude ver melhor o horizonte. O sol baixava devagar, mas ele já estava na linha do horizonte, começando a tocar o mar.
– Eu pareço um disco quebrado, mas é lindo, Danny. – Suspirei, apoiando a mão no peito e ele me abraçou pela cintura, colando nossos corpos lado a lado.
– Você precisa vir mais, sabe? – Ele suspirou. – Eu mal uso isso daqui, sozinho não tem graça. – Ri fracamente.
– Eu sei, mas também não faz muito tempo que você comprou. – Virei para ele.
– Ah, um ano acho. – Ele ponderou com a cabeça. – Junto com a McLaren. – Gargalhei alto.
– Ah, Danny!
– O quê? – Ele perguntou, rindo.
– Você compra uma McLaren e um iate na mesma época! – Ele riu fracamente e gargalhei alto. – E ainda fica pagando de garoto da roça.
– Eu sou um garoto da roça! – Ele falou firme, dando de ombros. – Você também, só tentamos enganar os outros mostrando que não somos. – Sorri.
– É, talvez você esteja certo. – Ele riu fracamente. – Apesar disso aqui, eu gosto de ir na fazenda e trabalhar lá…
– Eu também. – Ele falou, se aproximando da beirada do deck. – A vantagem é que podemos fazer as duas coisas. – Ele olhou para água e pressionei os lábios ao ter uma ideia ridícula e infantil. – A gente curte aqui durante o ano e depois voltamos para casa e ficamos lá. – Ele se virou para mim e deu de ombros.
– Vamos aproveitar aqui antes disso. Ou antes que sua mãe ligue. – Me aproximei dele.
– Eu desliguei o telefone. – Ele disse e ri fracamente.
– O meu está no vibra, como sempre. – Falei.
– Estamos só nós dois aqui, Harp. – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Ou só eu… – Dei de ombros.
– O que você qu… – Apoiei as mãos em seu peito, empurrando-o para trás e ouvi um grito dele antes de sentir alguns respingos de água e ele sumir por alguns segundos antes de aparecer novamente na superfície. – HARPER! – Gargalhei alto, tombando o corpo para trás um pouco.
– Ah, você caiu direitinho! – Neguei com a cabeça.
– Não acredito que você fez isso. – Ele disse e ri fracamente.
– Não acredito que você não fez isso. – Neguei com a cabeça. – Está ficando mole, é?! – Ele fez uma careta, me mostrando a língua e sorri em meio a um riso.
– Qual é! Me ajuda a subir.
– Ah tá! – Neguei com a cabeça. – Até parece que eu caio nessa. – Cruzei os braços. – Se vira! – Me afastei da borda e o vi revirar os olhos.
– Eu tentando ser romântico e você faz isso. – Ele nadou até um canto do deck e se impulsionou para cima.
– Ah, até parece que é um santo, né?! – Neguei com a cabeça e ele subiu de joelhos no deck antes de se colocar em pé e a água escorria de seu corpo, mantendo a camiseta e a bermuda coladas no corpo. – Precisa de uma toalha? – Dei um sorriso sarcástico e ele passou as mãos nos cabelos, jogando água em minha direção, me fazendo rir.
– Não… Acho que prefiro um abraço. – Ele disse, retribuindo o sorriso sarcástico.
– Nem vem! – Dei um passo para trás, virando meu corpo para porta e ele me puxou, me abraçando pela cintura. – NÃO! – Gritei, rindo, ouvindo-o rir comigo e me girar de frente para água. – NÃO! Não me joga! – Pedi entre risadas e ele levantou meu corpo, me tirando do chão. – Não, Daniel! Não faz isso. – Falei, rindo, sentindo seu corpo gelado. – Não!
– Nem pensou nisso na hora de me jogar, né?! – Gargalhei novamente, tombando minha cabeça para trás em seu ombro.
– Ah, eu preciso ganhar de vez em quando, né?! – Senti meus pés tocarem o chão e suas mãos afrouxaram um pouco de meu corpo e consegui me colocar em pé novamente.
– Eu vou deixar passar por hoje, plebeia. – Gargalhei, virando de frente para ele. – Não terei misericórdia da próxima vez. – Fiz uma careta.
– E o que vai fazer? Guilhotina? – Apoiei as mãos em seus ombros e ele negou com a cabeça, apertando as mãos em minha cintura.
– Não! Talvez escravidão eterna, mas eu penso nisso depois. – Rimos juntos e neguei com a cabeça.
– Quero ver quem vai me pegar… – Falei, observando seus olhos fixos nos meus e engoli em seco. – Digo… Quem vai…
– Eu… – Ele disse baixo. – Eu vou te pegar. – Suas mãos apertaram minha cintura e minha barriga colou na dele. – Eu cansei de esperar, Harper. – Sua voz saiu em um suspiro.
– Eu também. – Minha voz saiu igual. – Mas e se for ruim? – Mordisquei meu lábio inferior, sentindo sua respiração tocar neles.
– Eu duvido muito disso. – Uma mão saiu de minha cintura e foi para meu pescoço. – Eu vou te beijar agora, Wandinha. – Assenti com a cabeça, sentindo nossos narizes roçarem por alguns segundos e fechei os olhos quando nossos lábios se tocaram.
O primeiro toque foi estranho. Podia ser o vento ou o corpo gelado de Danny, mas um arrepio forte passou pelo meu corpo. As mãos de Danny apertaram em minha cintura e meu pescoço e os lábios pressionaram nos meus por alguns segundos e tive a mesma sensação de nosso primeiro beijo em 2003: uma mistura confusa de sentimentos. O toque foi rápido e logo nossos lábios se separaram, mas estava receosa em abrir os olhos, especialmente por ainda sentir sua respiração em meu rosto.
Pressionei meus lábios um no outro, tentando sentir seu gosto em meus lábios, mas havia sido incrivelmente seco e uma pequena ponta de decepção começava a crescer em meu peito. Eu estava receosa, mas não era possível que era isso! Abri os olhos devagar, encontrando os olhos castanhos de Danny e sua feição parecia seca e confusa igual a mim.
– Ei… – Ele disse fracamente.
– Ei. – Falei no mesmo tom, lembrando de como esse beijo foi exatamente igual nosso primeiro, mas tinha uma diferença de 13 anos e muita coisa mudou desde então.
– Foi… Estranho… – Ele disse e ponderei com a cabeça, rindo com ele.
– É… – Suspirei, desviando meus olhos para seus lábios. – Não é possível, Danny! – Falei, ouvindo-o rir.
– Não é? – Ele disse no mesmo tom. – Você está me enlouquecendo, Harper. Eu sei meus sentimentos, eu…
– Posso… – O interrompi, tendo outra ideia. – Eu quero tentar de novo… – Pressionei os lábios.
– É! Claro! – Ele disse rapidamente, me fazendo sorrir.
– Deixa comigo agora, ok?! – Ele riu fracamente.
– Sim, senhora. – Suspirei, olhando para seus lábios e depois seus olhos.
– Fecha os olhos. – Pedi e ele o fez, abaixando as mãos para minha cintura.
Dessa vez eu aproximei nossos rostos e rocei nossos narizes devagar, analisando as pintinhas do nariz dele, a barba e bigode ralo, a sobrancelha grossa e a feição séria. A diferença que um sorriso faz. Não é possível que tenha sido estranho. Passei as costas da mão em sua bochecha, sentindo a pele macia se misturar com a barba e seu rosto se inclinou em direção a mão e sorri. Simplesmente não tem como! Meu corpo arrepia só de olhar para ele.
Abaixei meus braços novamente para seus ombros e rocei nossos lábios devagar. Seu corpo pareceu contrair sobre o meu e dei um pequeno selinho entre eles, analisando sua reação antes de dar outro e outro, vendo-o sorrir com os lábios pressionados. Apertei meus braços com firmeza ao redor de seu pescoço, segurando firme em sua nuca e meu peito colou em seu corpo. Passei a língua de leve em seus lábios, sentindo-o entreabrir os lábios e pressionei nossos lábios.
Suas mãos apertaram minhas costas com mais firmeza e até me surpreendi quando sua língua encontrou a minha rapidamente. Subi uma mão para seu rosto, sentindo nossos lábios encaixarem de forma perfeita conforme o beijo ganhava mais velocidade e minha respiração pareceu falhar com muita rapidez. Danny me empurrou para trás, me colando na parede e suspirei enquanto sua língua brincava com a minha.
Foi como se uma chave tivesse virado e eu não queria mais tirar minhas mãos de seu corpo. Apertei minhas mãos em seu pescoço, segurando firme em sua nuca e suas mãos também me apertavam, fazendo minha blusa deslizar para cima e sua mão gelada tocar minhas costas e descer para minha bunda, apertando-a, o que fez meu corpo se afastar em um impulso.
– O quê? – Ele perguntou, olhando para mim. – Não pode? – Ele tinha um sorriso nos lábios.
– Foi automático. – Falei, rindo. – Isso é novo para mim.
– Um novo bom? – Ele perguntou, ponderando com a cabeça.
– Agora sim! – Falei, rindo.
– Acho que esqueci que não temos mais 13 anos. – Rimos juntos.
– É, estamos bem longe disso. – Sorri.
– Ainda bem! – Ele riu antes de colar nossos lábios novamente.
Daniel
– Eu cansei de esperar, Harper. – Minha voz saiu fraca, denunciando o nervosismo.
– Eu também. – Disse, suspirando. – Mas e se for ruim? – Dei um curto sorriso quando ela mordiscou o lábio inferior.
– Eu duvido muito disso. – Tirei a mão direita de sua cintura e subi para seu rosto, acariciando sua bochecha. – Eu vou te beijar agora, Wandinha. – Ela assentiu com a cabeça e rocei meu nariz no seu antes de tocar nossos lábios lentamente.
Meu corpo se arrepiou com o toque, como uma descarga elétrica. Pressionei meus lábios nos dela por alguns segundos, como se fosse 2003 novamente. Meu corpo estava tensionado e o pressionar foi longo, mais firme. Talvez completamente diferente do que eu esperava. Levemente… Decepcionante.
Nossos lábios se separaram e abri os olhos quase instantaneamente, encarando o rosto sereno de Harper ainda com os olhos fechados. Tinha algo de errado, não é possível que tinha sido estranho. Essa mulher está me enlouquecendo há um mês só com o sorriso, não é possível que seria isso.
Ela abriu os olhos devagar e encarei seus olhos escuros e algo estava errado. Essa mulher é incrível e perfeita, não tem como o beijo ter sido estranho, a confusão em seu olhar dizia o mesmo.
– Ei… – Falei fracamente.
– Ei. – Ela disse igual.
– Foi… – Pensei em uma palavra melhor para falar, mas não tinha. – Estranho… – Ela concordou rindo e sorri.
– É… – Ela mordiscou seu lábio. – Não é possível, Danny! – Ri com ela, apertando minhas mãos em seu corpo.
– Não é? Você está me enlouquecendo, Harper. Eu sei meus sentimentos, eu…
– Posso… – Ela me interrompeu. – Eu quero tentar de novo…
– É! Claro! – Falei rápido, qualquer coisa para tornar isso melhor.
– Deixa comigo agora, ok?! – Ri fracamente.
– Sim, senhora. – Encarei seus olhos.
– Fecha os olhos. – Ela pediu fracamente e o fiz, abaixando as mãos para sua cintura novamente. Só queria ficar perto dela, tenho certeza de que tinha algo de errado.
Sua respiração tocou meu rosto e demorou um pouco para ela fazer algo, o que acabou me obrigando a apertar as mãos em sua cintura com medo de ela se afastar. Senti um carinho leve em minha bochecha, me fazendo sorrir e inclinei o rosto para sua mão, suspirando quando ela abaixou a mão novamente para meus ombros.
Notei que sua respiração ficou mais perto e senti seus lábios nos meus, aquilo fez meu corpo travar por algum motivo. Talvez com medo de ser estranho de novo. Ela pressionou nossos lábios em um curto selinho, fazendo nossos narizes se roçarem, depois outro selinho, até o terceiro. Senti minhas mãos afrouxarem em seu corpo e seus seios colaram em meu peito pelo abraço mais apertado.
Me surpreendi quando ela passou a língua em meus lábios e os entreabri pouco antes de ela pressionar nossos lábios com mais firmeza dessa vez. Minhas mãos apertaram em seu corpo automaticamente, cruzando e espalmando suas costas e foi como se minha língua tivesse um ímã para a sua, tornando o beijo mais rápido do que o primeiro.
Sua mão voltou para o meu rosto, dando firmeza nos movimentos de nossos lábios e andei para frente devagar, procurando a parede da porta atrás de si para sair da beirada do deck. As mãos de Harper me apertavam com mais força, descendo do meu rosto para o pescoço, depois atrás da nuca, voltando para meu rosto novamente.
Eu não estava diferente, minhas mãos apertavam suas costas, deslizando pela lateral de seu corpo até encontrar a base de suas costas. Era disso que eu estava falando! Meu corpo respondia à ela e fazia com que eu mantivesse os lábios colados independente dos movimentos. Apertei sua cintura e deixei a mão deslizar para sua bunda, apertando-a em sua base e Harper se afastou em um impulso, me assustando.
– O quê? – Perguntei, focando em seus olhos. – Não pode?
– Foi automático. – Ela disse, rindo. – Isso é novo para mim. – Sorri, abraçando-a pela cintura.
– Um novo bom? – Ponderei com a cabeça.
– Agora sim! – Ela disse, rindo.
– Acho que esqueci que não temos mais 13 anos. – Falei, mencionando nosso primeiro beijo travado, fazendo uma careta.
– É, estamos bem longe disso. – Ela deu um sorriso e me aproximei dela novamente.
– Ainda bem! – Ri, colando nossos lábios novamente.
Dessa vez o beijo foi mais calmo e gentil. Minhas mãos subiram para sua nuca e foi sua vez de deslizar as mãos pelas minhas costas, me abraçando pela cintura e colei meu quadril no seu. Trocamos um curto riso com o movimento e nossos lábios se juntaram mais uma vez. Mordisquei seu lábio devagar, puxando-o levemente para mim e alguns beijos acabaram saindo de seus lábios quando deslizei os lábios pela sua bochecha.
– Eu estava louco para fazer isso toda vez que você morde esse lábio. – Ela riu fracamente e nossos olhos se encontraram mais uma vez.
– Nós estamos ferrados, certo? – Ela perguntou e segurei seu rosto com uma mão, acariciando-o devagar.
– Talvez. – Falei, rindo e ela me abraçou apertado, apoiando a cabeça em meu ombro.
– Ah, cara. – Ela disse, rindo e sorri, dando um beijo em sua cabeça. – Isso explica tanto… – Ri fracamente.
– Eu fiquei levemente decepcionado da primeira vez. – Falei, passando as mãos em suas costas.
– Você me beijou como se tivéssemos 13 anos. – Ela ergueu o rosto e rimos juntos.
– Acho que ainda te trato como se você fosse quebrar. – Falei, deslizando as mãos pelos seus braços.
– Nós crescemos, Danny! Em todo sentido da frase. – Ela afrouxou as mãos em meu rosto. – E estamos aqui agora, completamente perdidos sobre o que está acontecendo. – Ri fracamente.
– Eu estou apaixonado por você, Harp. – Suspirei. – E eu estou tão feliz por esse beijo ser bom. – Rimos juntos e colei nossos lábios novamente por alguns segundos. – Ah, cara! Eu posso fazer isso o dia todo. – Ela riu fracamente.
– Desacelera, Danny boy! – Ela roçou nossos narizes. – Isso é um terreno completamente novo para nós dois.
– Por que você corta meu barato? – Ela riu fracamente, pressionando seus lábios nos meus.
– Não estou cortando seu barato, baby. Só pensando com a cabeça antes do meu coração. Porque eu acho que ele parou depois que você apertou minha bunda. – Gargalhei, jogando a cabeça para trás.
– Pane no sistema.
– Total! – Ela disse, rindo, mas colou nossos lábios de novo. – Mas é bom, sabe? – Ela passou a língua levemente por eles e suguei-a de leve para meus lábios antes de soltá-los. – É bom demais.
– Sim? – Ela assentiu com a cabeça e deslizei minhas mãos pelas suas costas novamente, encontrando a divisão da blusa e dos shorts antes de acariciar sua bunda. Fechei a mão, apertando-a e ela suspirou.
– Ah, cara… – Ela disse, rindo e dei um beijo em seu rosto, deslizando o nariz pela sua bochecha. – Estamos muito ferrados, Danny!
– Eu sei… – Falei em um suspiro. – E a culpa é toda sua.
– Ah, minha? – Ela perguntou, rindo. – E o que eu fiz para ser culpada nisso?
– Eu não sei. – Ri com ela. – Não é possível que seja algo só de hoje, nos conhecemos nossa vida inteira. – Ela afastou o rosto, me olhando melhor. – Você já sentiu alguma coisa por mim ou…
– Eu não sei identificar. – Ela suspirou. – Digo, no nosso primeiro beijo, as coisas ficaram bagunçadas, mas era meu primeiro beijo, acho que era algo normal. Seria assim com você ou qualquer outra pessoa. – Assenti com a cabeça.
– Sim, penso o mesmo. E com Jemma? Você ficou bem enciumada naquela época. – Ela riu fracamente.
– Honestamente? Eu não consigo identificar isso também. Que o ciúme era por gostar de você. Não queria que você terminasse com ela para ficar comigo, eu só não gostava dela mesmo. Tanto que depois que tudo voltou ao normal, não cogitamos nenhum sentimento. – Ela deu de ombros e dei um beijo em seu queixo, fazendo-a movimentá-lo em cócegas.
– Eu não consigo lembrar também… – Suspirei. – Talvez tenha sido a proximidade mesmo. Nossa cota sem sentimento era de dois meses, quatro ultrapassou demais. – Ela riu fracamente.
– E antes disso éramos muito novos para entender. – Assenti com a cabeça.
– Eu tenho 26 e acho que entendo menos ainda. – Ela abriu um largo sorriso.
– Vamos descobrir o que é isso com calma, que tal? – Ela passou a mão em meu rosto. – Sem alarde, só você e eu. – Assenti com a cabeça.
– É perfeito para mim. – Nossos lábios se colaram mais uma vez e ela apertou os braços em meus ombros mais uma vez.
– Ah, merda! Isso é bom demais, Daniel! – Ela falou e rimos juntos.
– Meus beijos são incríveis, querida! – Ela gargalhou.
– É, uhum. Planejou tanto o primeiro beijo e foi péssimo. – Fiz uma careta.
– É, eu falhei nessa. – Ela riu. – Mas só erro uma vez, nunca mais.
– Preliminares, Daniel! Uma mulher não vive sem. – Ela falou em um sussurro e roubei outro beijo dela.
– Minha mulher. – Apertei-a mais uma vez e ela sorriu. – Ainda é estranho, mas vamos mudar isso. – Ela riu fracamente.
– Falando em mudar, não quer trocar de roupa? Você está muito gelado. – Ela deslizou as mãos em meus braços.
– Não quer nadar um pouco? Não sei quando voltamos com tempo para cá. – Falei, observando seus olhos.
– Se a água estiver tão gelada quanto você, não sei se quero. – Rimos juntos.
– Vem… Eu te esquento depois. – Ela riu fracamente.
– Antigamente eu te chamaria de tonto e metido, mas agora parece uma ótima ideia. – Ela cochichou.
– Vem… – Indiquei com a cabeça e ela riu, deslizando as mãos pelo meu corpo.
Harper
– Para, Danny! – Falei, rindo, sentindo-o jogar água em mim e revidei, mantendo os pés em movimento na água para não afundar.
– Parei! Parei! – Ele disse, rindo e me puxou pelo braço. – Vem cá! – Apoiei meus braços em seus ombros, sentindo nossas pernas se enroscarem dentro de água. – Eu paro… – Ri fracamente.
– A gente não precisa subir de novo? Está escurecendo. – Perguntei e ele colou nossos lábios devagar, ignorando o que eu disse. – Daniel…
– Eu ouvi, eu só estou ocupado com outra coisa. – Ri fracamente, apertando minha mão em sua nuca.
– Podemos nos ocupar lá dentro, no quentinho. – Fiz um beicinho e ele deu um beijo em cima.
– Não faça isso enquanto meus pais estiverem aqui, eu não sei do que eu sou capaz. – Sorri.
– Não prometo nada. – Neguei com a cabeça e ele pressionou nossos lábios mais uma vez.
– Nem eu! – Ele disse, sério e foi minha vez de colar nossos lábios.
– Sabe… Você fica sexy sério. – Ele riu. – E fofo sorrindo.
– Amo como as palavras honestas saem com mais facilidade agora. – Sorri.
– Eu estava doida para te beijar, mas também estava com medo. – Afastei nossos corpos devagar, nadando para mais perto do deck.
– Com medo de ser ruim e destruir nossa amizade? – Ele veio logo atrás e assenti com a cabeça, me apoiando no deck.
– É. – Suspirei, apoiando as duas mãos no deck antes de subir e ajoelhar no local, me sentando ali. Ele apoiou as mãos em minhas pernas.
– Eu não sei o que vai acontecer conosco, Harper, mas eu não vou te perder. – Ele olhou em meus olhos e dei um curto sorriso. – Já fazemos parte da vida um do outro desde sempre, sabemos tudo o que o outro está sentindo, passamos por problemas juntos, a única diferença agora é que podemos fazer tudo isso e nos divertir. – Ri com ele, vendo-o desviar para o lado e subir para o deck.
– Você sabe que na prática não é fácil assim, né?! – Ele se sentou ao meu lado.
– Eu sei… Talvez… Mas vamos pensando nas estratégias quando chegarmos nos circuitos, que tal? – Ri fracamente com a referência e inclinei meu rosto para o dele e ele fez o mesmo.
– Combinado. – Falei antes de trocarmos um curto beijo.
– É, mas vou ficar viciado em te beijar agora. – Rimos juntos e sua mão subiu para meu rosto, iniciando outro beijo.
– Com licença, senhor… Desculpe. – Ouvi a voz, lembrando do piloto e pressionei os lábios, vendo Danny desviar para Anton. – Precisamos desancorar e voltar para o clube.
– É, claro! – Danny disse, se levantando e pressionei os lábios, rindo de vergonha.
– Com licença. – Ele se retirou e ergui o rosto para Danny, rindo com ele.
– No flagra! – Ele disse e segurei sua mão para me levantar.
– Ao menos estamos comportados. – Ele deu de ombros, me abraçando pela cintura. – Vamos para dentro enquanto voltamos para lá, tem toalha no armário.
– Eu estou enxarcada. – Ergui um pouco da camiseta que eu usava e dei uma torcida na barra.
– Eu vou. – Ele disse, puxando a camiseta para cima e pressionei os lábios pelo seu corpo definido e ele deu uma torcida na blusa antes de deixá-la na beirada do deck.
Senti o iate voltar a se movimentar e me apoiei na porta enquanto via Danny entrar com pressa no quarto e voltar com duas toalhas logo em seguida. Ele começou a se secar com naturalidade, mas esperei atracarmos novamente no Yacht Club para começar a fazer o mesmo.
– Eu vou me trocar no banheiro e arranjar uma roupa para você. – Ele disse e assenti com a cabeça.
Enquanto ele sumiu no banheiro, eu comecei a me secar como possível. A camiseta e os shorts jeans estavam completamente enxarcados, precisava tirar essa roupa e de uma ducha, então foquei em tentar torcer algumas partes da roupa para ao menos parar de pingar.
Danny saiu após alguns minutos com uma bermuda de tactel, a toalha em seus ombros nus e um cheiro de sabonete me lembrava que ele tinha feito exatamente a minha ideia. Ele caminhou pela área da cama e reparei no pequeno armário do outro lado da cama com algumas roupas quando ele abriu.
– Tem algumas coisas da Jemma aqui ainda…
– Não mesmo! – Falei, rindo, entrando no quarto. – Não vou colocar roupa da sua ex e acho que deveríamos queimar, só por diversão. – Dei um sorriso sarcástico e ele gargalhou.
– Ah, cara, você é má! – Ele disse e sorri, entrando no banheiro e pisando no tapetinho.
– Eu não sou má, eu só não gosto dela. – Dei de ombros. – E gostaria de saber por que ainda tem roupas dela aqui. – Ele gargalhou, trazendo outras roupas para mim.
– Eu não vinha aqui desde Mônaco no ano passado e ainda estávamos juntos…
– Eca, você transou com ela nessa cama. – Fiz uma careta e ele riu, apoiando a roupa na pia, aproximando o rosto do meu.
– Eu esqueci que minha amiga é ciumenta. – Segurei em sua nuca, roçando meus lábios nos seus.
– Garanto que agora vai só piorar. – Ele colou nossos lábios, me puxando pela cintura e deixei meus braços caírem em seus ombros quando ele me apertou com mais firmeza.
– Agora é um bom momento para eu falar que ela morou comigo no apartamento daqui ou… – Neguei com a cabeça.
– Péssimo momento! – Mordiquei seu lábio inferior. – Se depender de mim, nunca mais falamos dela. – Ele sorriu.
– Combinado. – Ele colou nossos lábios em um curto selinho.
– Deixa eu me trocar, já volto. – Ele assentiu com a cabeça, roçando seu nariz no meu antes de me soltar, me fazendo rir.
Observei-o tirar a toalha das costas nuas e parei para pensar quantas vezes vi Danny assim. Tirando piscina ou praia, Danny sempre foi comportado perto de mim, apesar da amizade. Nunca nos trocamos na frente do outro e ele raramente ficava sem camisa, tia Grace era bem rígida quanto a isso, mas acho que essa era a vantagem de cruzar a linha da amizade e poderia olhar para seu corpo definido sempre.
Fechei a porta e tirei a roupa que eu usava o dia inteiro. Dei uma torcida na pia e pendurei ao lado das de Danny. Fui para debaixo do chuveiro e inicialmente seria só uma ducha, mas tinha todos os utensílios possíveis de banho ali dentro, então aproveitei. Lavei o cabelo, me lavei e deixei o corpo relaxar um pouco na água quente antes de sair.
Me sequei e observei o que Danny tinha me dado. Uma camiseta e uma bermuda de tactel clássica e suspirei. Eu não tinha calcinha e a minha estava impossível de usar agora, além do sutiã. Então coloquei as roupas sem mesmo, agradecendo por Danny sempre optar por roupas mais largas e não deixar marcar o corpo.
Penteei os cabelos, jogando-os para trás e arranjei um espacinho para a toalha ali antes de sair do pequeno cômodo. Tinha um cheiro de queijo no ar, me fazendo franzir a testa e precisei virar o corpo para encontrar Danny na pequena cozinha.
– O que está fazendo? – Ele desviou o rosto e andei até ele.
– Tinha uma lasanha congelada no freezer. – Ri fracamente. – Está dentro do prazo de validade, mas eu não tenho a mínima ideia de como isso está. – Ele me abraçou pela cintura.
– Um ano, Danny. Tem certeza de que está dentro do prazo de validade? – Brinquei e ele pegou a embalagem com a outra mão.
– Junho de 2016. – Ele me indicou e ri fracamente.
– Por três dias. – Deixei a embalagem na pia e virei o rosto para ele. – Não acho muito garantido você comer uma lasanha velha cheia de queijo antes da sua grande corrida amanhã. – Rimos juntos.
– É o que tem aqui.
– A gente não precisa ir embora? – Ele franziu a testa.
– Não, a gente só voltou por segurança mesmo. Agora à noite alguns navios e cruzeiros começam a chegar por causa do GP e pode atrapalhar o tráfico náutico.
– Ah, entendi! – Falei.
– Podemos ficar aqui para sempre. – Ele pressionou os lábios em minha bochecha, me fazendo rir. – O clube fica aberto 24 horas por dia, com todos os serviços disponíveis.
– E não tem um restaurante nesse lugar chique, não? – Ergui uma mão para seu rosto, acariciando seus cachos na linha do cabelo.
– Até tem, mas acho que gosto da ideia de ficar escondido aqui contigo. – Rimos juntos.
– Eles podem nos entregar por uma boa gorjeta? – Fiz uma careta e ele riu.
– Você acha que eu vou passar mal, não é? – Rimos e ouvi o barulho do micro-ondas.
– Eu entendo um pouco disso, baby. – Dei de ombros. – E você tem sua intolerância, vai ser uma bomba enorme amanhã. E não de um jeito bom! – Rimos juntos.
– Ok, eu vou ligar na recepção e ver o que tem para gente.
– O cheiro está bom, mas… – Dei de ombros.
– Já entendi. – Ri fracamente, dando um beijo em seu rosto e ele me apertou pela cintura.
Meus braços foram para suas costas, apertando-o na altura do peito e ele colou nossos lábios mais uma vez naquele dia. Entreabri meus lábios quando sua língua encontrou meus lábios e suas mãos deslizaram pelo meu corpo, apertando o excesso de pano da blusa e desceu para minha bunda, apertando-a e ri fracamente.
– Não faça isso! – Falei, roçando nossos lábios conforme falava.
– Por quê? – Ele perguntou, encarando meus olhos.
– Tem pouco tecido aí. – Falei, rindo.
– O que você quer dizer? – Ele deslizou a mão novamente, me fazendo contrair o bumbum em sua direção. – Oh!
– Xi! – Pedi, rindo.
– Você está sem calcinha. – Rimos juntos e ele deixou um beijo em minha bochecha. – Não sabia que era safada assim, Harper. – Gargalhei alto.
– A minha está molhada, ok?! – Empurrei-o de leve, sentindo-o me apertar com mais força pela cintura. – E não, eu não quero uma da Jemma.
– Nem eu quero! – Ele disse, me fazendo rir. – Por que falar isso me parece estranho? – Ri com ele.
– Nosso corpo quer uma coisa, mas nossa cabeça não sabe ainda que as coisas mudaram. – Ele sorriu.
– Ah, é bom a cabeça aprender isso logo. – Sorri.
– Você surtou quando sua cabeça mudou? Digo… Quando sua visão mudou?! – Subi as mãos para seus ombros.
– Como assim? – Suspirei, mantendo meus braços esticados para poder vê-lo melhor.
– Eu nunca te achei lindo, Danny, você sempre foi engraçado. – Ele gargalhou. – Você começou a melhorar quando entrou na Red Bull, mas eu te via como melhor amigo, não com alguém que eu queria pegar. – Rimos juntos. – Teve momentos nesses meses que eu não me conformava em te achar lindo. – Ele sorriu. – Quando você cortou o cabelo na China. De repente você virou o homem mais lindo do mundo e minha cabeça achava que eu estava louca. – Rimos juntos.
– Primeiro de tudo: agradeço o elogio. – Ri fracamente.
– Desculpe, baby! Você era fofo. – Colei meu rosto no seu. – Mas você começou a melhorar quando nos afastamos, você começou a se dedicar melhor na sua carreira e o dinheiro veio, né?! – Ele riu fracamente.
– Bom, diferente de você, eu sempre te achei linda. – Fiz um pequeno bico, sentindo nossos lábios se tocarem. – Mas eu não via isso, pela nossa amizade, só em algumas situações que ficava mais em evidência, festas, formaturas… – Sorri. – Mas é, eu tive um surto também, quando estávamos aqui em Mônaco… – Ele riu sozinho.
– É? – O encorajei a falar.
– Se lembra quando eu disse que eu… – Ele ponderou com a cabeça. – Bem, eu tive uma ereção por sua causa? – Abri um largo sorriso.
– Sim, eu lembro. – Passei meus lábios em sua bochecha, dando curtos beijos.
– Eu precisava sair daquela situação… – Ri fracamente. – E eu tentava pensar em várias coisas, mas nada fazia aquilo baixar. – Neguei com a cabeça, ouvindo-o rir.
– E o que você fez? – Perguntei, já sabendo a resposta.
– Foi de forma manual. – Gargalhei mais alto, apoiando minha cabeça em seu ombro. – E eu só pensava se não ia para o inferno por me masturbar pensando na minha melhor amiga. – Joguei minha cabeça para trás, ouvindo minha risada alta. – Ou se seu pai jogaria um raio na minha cabeça.
– Ah, cara! – Minha gargalhada falhou quando puxei a respiração e suspirei, rindo.
– Você ri, mas não sabe o surto que eu estava. – Neguei com a cabeça. – Piorou tudo quando eu precisei falar que estava com dor de barriga. – Rimos juntos.
– Eu me preocupei com você. – Passei as mãos em sua nuca, olhando em seus olhos. – Pelo menos foi só isso. – Dei de ombros, vendo-o rir.
– Esse foi meu surto cabeça e coração, mas qualquer coisa que você fazia, seu sorriso, suas roupas, aquele almoço…
– Foi um encontro, certo? – Afastei meu rosto novamente.
– Foi! – Ele disse, rindo. – Não oficial, mas foi! – Rimos juntos. – Precisamos fazer um de verdade agora. – Assenti com a cabeça.
– A gente combina depois. – Colei nossos lábios rapidamente. – Me contento com um piquenique agora. – Ele sorriu.
– Eu vou ver o que eles têm. – Ele indicou com a cabeça e colamos nossos lábios novamente antes de eu abaixar as mãos de seu corpo.
Daniel
– É, isso é melhor do que uma lasanha congelada de um ano. – Harper disse, lambendo o polegar, me fazendo sorrir.
– Não posso negar. – Coloquei o último pedaço de carne na boca. – Eu vou dormir como um bebê. – Ela riu fracamente.
– Falando nisso, você não precisa descansar? Não é melhor a gente voltar? – Ela cruzou os garfos no prato, colocando-o de volta na bandeja.
– Eu preciso descansar, mas não quero voltar. – Ela riu fracamente, deixando o corpo cair para trás, apoiando a cabeça no travesseiro e sorri quando seus cabelos abriram como um leque no lençol branco.
– O que vamos dizer para sua mãe? Ela vai perguntar, tenho certeza. – Coloquei meu prato junto do de Harper e me levantei da cama.
– Deixa eu ver se alguém mandou mensagem. – Levei a bandeja para a pia antes de seguir até minha mochila e peguei o celular, ligando-o novamente. – Tem mensagem do Michael.
– Ah, lá vai. – Ela disse e ri fracamente, puxando a porta de correr que dava para a cozinha, abrindo a mensagem dele.
– “Imagino que você e Harper tenham dado uma escapada, né?! Estranhamos sua demora e sua mãe insistiu para gente ir atrás de vocês. Como não te achamos, suspeitamos que estão juntos. Ao menos fala que vocês se beijaram…” – Harper gargalhou alto e me sentei ao seu lado. – “Falei que liguei para você e que precisou voltar para garagem porque Christian te ligou falando de um problema técnico no carro e Harper foi contigo. Estúpido, eu sei, mas foi a primeira coisa que veio à minha cabeça. Espero que não precise explicar amanhã. Vamos atrasá-los, mas não demora!” – Estiquei o celular para Harper e ela riu fracamente.
– “Sim, nos beijamos”. – Ela disse, escrevendo antes de me devolver o celular. – Acho que é a única coisa que importa.
– É, mas eu preciso alinhar essa desculpa, minha mãe não cai nessa. – Me ajoelhei na cama, engatinhando até ela.
– Não mesmo, mas não consigo arranjar uma desculpa plausível para termos saído sem o pessoal. – Apoiei uma mão em cada lado de seu rosto, vendo-a sorrir. – Tipo… Por que sairíamos para uma possível festa sem os caras?
– Porque eles são péssimos. – Falei, fazendo-a rir e deitei meu corpo sobre o seu, descendo as mãos para sua cintura.
– Seus amigos. – Ela disse, passando as mãos em meus ombros.
– Meus amigos? – Falei, rindo, colando minha testa na dela.
– Eles começaram como seus amigos, mas eu os roubei quando você ficou chato no ensino médio. – Ela deslizou as mãos em minha nuca. – Depois você ficou rico e famoso, então eles preferiram você. – Rimos juntos e deslizei meu nariz em seu rosto. – Eu só sou a que faz comida.
– Acho que se os fizermos escolher, eles te escolheriam pela comida. – Rimos juntos e me deitei ao seu lado.
– Você também. – Sorri e ela se inclinou para mim.
– Eu vou te escolher sempre antes dos outros. – Senti seu pé deslizar pela minha perna. – Especialmente agora. – Deixei um beijo em sua bochecha antes de roçar nossos narizes.
– Viciado, Daniel? – Seus olhos focaram nos meus e ri fracamente.
– Uhum… – Dei um curto selinho em seus lábios. – Isso é incrivelmente viciante. – Ela riu fracamente.
– Muita prática, sabe? – Ela gargalhou sozinha.
– Ah, é?! – Falei, rindo, virando o corpo e ela apoiou a mão em meu peito.
– É, sabe? Muitos caras. – Ela negou com a cabeça. – Três de uma vez, sabe?! – Gargalhei, tombando a cabeça para trás.
– Você não vai se esquecer disso, não é?! – Ela subiu uma perna para minha cintura e suspirei com o contato, levando a mão até sua coxa.
– É outra realidade para mim, Daniel. – Ela acariciou meu rosto. – Eu não enxergo o Daniel da história do México e esse agora na mesma situação. – Ri fracamente, roçando meu nariz em sua bochecha, deixando alguns beijos no caminho.
– Eu estou apaixonado, Harper. – Ela sorriu. – Eu viro um homem de uma mulher só. – Ela riu fracamente.
– Mas mesmo antes dos sentimentos, tirando aquele mal-entendido da Espanha, eu não te vi com ninguém. Chances tiveram, mas não da sua parte. – Suspirei.
– Eu não sei, ter você aqui comigo é diferente, nos divertimos, dormimos juntos, saímos para jantar, eu não senti a necessidade. – Dei de ombros e ela deu um curto beijo em meus lábios.
– A necessidade veio de outra forma. – Ela disse, me fazendo rir.
– E é muito bom! – Apertei minhas mãos em sua cintura, roçando meu nariz no seu.
– Sabe o que é bom também? – Ela perguntou, acariciando meu rosto. – Esse carinho. – Ela mordiscou seu lábio. – Sempre me perguntei se o nariz atrapalhava, mas… – Gargalhei alto, tombando a cabeça para trás. – Mas é um carinho gostoso.
– Eu sou todo gostoso, baby! – Foi sua vez de gargalhar.
– Ah, cara, está ficando tarde, estamos falando besteiras. – Ela apoiou a cabeça em meu peito e fechei os braços em suas costas.
– Você quer ir embora? – Perguntei, dando um beijo em sua cabeça.
– Honestamente? Só estou pensando na cama… – Ela riu fracamente. – É uma afronta dormir no sofá com essa cama aqui.
– Podemos ficar aqui e voltar antes do pessoal acordar. – Sussurrei. – Posso sondar o tempo online da Michelle e do Jason e a gente fala que chegou pouco depois. – Ela riu fracamente.
– Nem detetive faz isso e faremos por uma pequena mentira. – Sorri.
– Já mentimos muito para nossos pais, mas acho que esse é o melhor motivo. – Ela ergueu o rosto.
– Não sei se Alexander Addams concordaria com isso, mas é… – Trocamos um rápido selinho.
– Seu pai gostava de mim! – Ela riu.
– Não sei se agora ele gostaria de você. – Ergui o olhar para o teto.
– Por favor, tio Alex, não me mata! Eu sou um cara legal. – Ela riu, colando a boca em minha bochecha.
– Seu passado te condena, Daniel. – Rimos juntos e virei meu rosto, roçando nossos lábios.
– Eu vou focar no meu futuro agora. – Ela riu.
– Sendo romântico, Daniel?
– Eu falei que era, quem sabe agora você não acredita em mim?! – Ela assentiu com a cabeça, fazendo nossos narizes roçarem.
– Quem sabe? – Ela riu, colando nossos lábios longamente e dessa vez subi minha mão para sua nuca, fechando os olhos e alongando o beijo.
Ela tombou o corpo para o lado, apoiando uma mão em meu peito e nossos lábios se descolaram por alguns segundos. Minha mão foi para sua nuca, puxando seu rosto para mim e sua língua encontrou a minha com rapidez. Ela subiu uma perna para meu corpo e segurei-a firme, deslizando a mão pela parte de trás dela até chegar em sua bunda.
Ela mordiscou meu lábio devagar, separando nossos lábios por alguns segundos e deu alguns curtos selinhos espaçados. Ri fracamente, acariciando seu rosto com o polegar e ela inclinou o rosto em minha direção, abrindo um sorriso e deitou a cabeça em meu braço. Apoiei a mão em suas costas e ela subiu a mão para minha nuca e me aproximei para colar nossos lábios novamente, ouvindo-a suspirar.
– Por que demoramos tanto para fazer isso? – Ela perguntou em um sussurro.
– Eu não tenho ideia. – Falei baixo, roçando nossos lábios. – Mas agradeço por ter podido descobrir. – Ela sorriu, rindo fracamente.
– Nós poderíamos ficar aqui para sempre e eu não ia reclamar…
– Essa é só a sexta corrida, Harp. Temos outras 15… – Ela abriu os olhos.
– E eu vou ficar contigo até o fim? – Assenti com a cabeça. – É, estamos ferrados. – Rimos juntos.
– Eu estou amando isso. – Pressionei meus lábios em sua bochecha. – Vai ser divertido. – Ela riu fracamente.
– Eu tenho muitas perguntas, sabe? Como… Como vamos fazer isso? Para quem vamos contar? – Ela suspirou. – Mas estou com sono. – Chequei o horário no celular.
– São quase onze horas. O dia foi pesado. – Falei, deslizando minha mão sobre sua perna.
– Que horas vamos voltar para o apartamento? – Ela apoiou a cabeça em meu peito e fiz carinho em seus cabelos.
– Umas quatro? Minha mãe acorda as seis e eu preciso estar até as oito no paddock. – Falei.
– E eu vou contigo. – Ela ergueu os olhos para mim. – É um dia importante. – Assenti com a cabeça.
– Obrigado, baby. – Ela sorriu, colando nossos lábios por alguns segundos.
– Eu deveria dormir… – Ela suspirou.
– Dorme, amor. Eu vou colocar o despertador. – Falei.
– Eu preciso escovar os dentes. – Ela falou, sonolenta. – Mas não quero levantar. – Ri fracamente. – Não quero dormir também. – Ela deslizou a mão pelo meu peito. – Acordar e perceber que foi só um sonho.
– Não foi, baby. – Dei um beijo em sua testa. – Eu estarei aqui quando acordar. – Deslizei os lábios pelo seu rosto. – E a primeira coisa que eu vou fazer é te beijar. – Ela riu fracamente.
– Ok, combinado. – Ela suspirou e sabia que ela não se levantaria mais dali hoje.
Domingo
Harper
Franzi os olhos ao ouvir o despertador tocar e precisei de um tempo para me localizar no espaço e tempo, mas senti algo se mexer entre meus braços, me forçando a abrir os olhos devagar e encontrei Danny em minha visão com um largo sorriso nos lábios.
– Bom dia. – Ele disse e fiz uma careta, coçando os olhos.
– Bom dia. – Falei, manhosa e ele colou seus lábios nos meus, me fazendo suspirar. – Não foi um sonho…
– Não. – Ele disse e senti sua mão deslizar pelo meu corpo e estava na mesma posição de ontem. – Mas precisamos voltar para o apartamento, Harp. – Suspirei.
– Não quero… – Fiz um beicinho e ele deu um beijo neles, me fazendo rir.
– Vamos, baby! – Ri fracamente. – Eu tenho a corrida. – Abri os olhos, encarando os seus.
– Hoje é o dia que você vai vencer! – Falei firme. – Hoje é seu dia, Danny! – Ele sorriu.
– Que Deus te ouça, Harp. – Ele deu um curto beijo em meus lábios. – Vamos? – Ele perguntou.
– Vamos, né?! – Falei, rindo e me espreguicei, esticando os braços e as pernas.
– Vai antes! Vou arrumar a cozinha. – Assenti com a cabeça e suspirei antes de me impulsionar para cima, me levantando.
Pela janela, era possível ver as luzes o Yacht Club e de outros iates a nossa volta, mas quando virei para o horizonte, só tinha o breu e alguns pontos de luz. Os iates e cruzeiros que Danny disse que chegariam. Me levantei ainda preguiçosa, passando a mão nos cabelos e fui até o banheiro, sendo levemente cegada pela iluminação antes de fechar a porta.
Chequei nossas roupas ali e fiquei feliz por estarem secas. A ventilação do iate ajudou com isso. Tirei a roupa de Danny e coloquei minha roupa de ontem. Ela estava completamente dura e estranha, mas espero que os pais de Danny não acordem quando chegarmos e que possamos trocar por um pijama e enfiar a roupa no fundo da mala antes de eles acordarem.
Prendi meus cabelos novamente em um rabo de cavalo e usei o dedo para dar uma rápida e má escovada nos dentes, depois usei o enxaguante bucal para despistar o cheiro que pudesse ter ficado do jantar de ontem. Deixei para fazer xixi por último, pois sei que não poderia ir com o pessoal lá no quarto de Danny.
– Pode ir! – Falei para Danny quando saí, encontrando o quarto arrumado e sua mochila ali, somente a camisa da Red Bull para fora.
– Já vamos. – Ele disse, se aproximando de mim e me segurou pela cintura. – Bom dia.
– Bom dia. – Falei, apoiando minhas mãos em seus braços e nossos lábios se tocaram em vários curtos selinhos.
– Isso é pouco. – Ri fracamente. – Eu não vou poder te beijar o dia inteiro. Preciso aproveitar. –Sorri.
– A gente dá um jeito, vamos focar na corrida antes. Se Deus quiser, até o fim do dia, todos estaremos bêbados e de volta aqui para comemorar! – Ele riu fracamente.
– Que Deus te ouça! – Rimos juntos e colei nossos lábios rapidamente.
– Agora vai! – Empurrei-o e ele riu fracamente antes de entrar no banheiro e fechar a porta.
Me sentei na cama novamente, suspirando e vi que Danny já tinha fechado tudo. Vi a caixa de comida ali junto de algumas coisas de lixo e suspirei. O sono estava começando a pegar, já sabia que seria um daqueles dias e mais uma vez estava preocupada com a disposição de Danny. Hoje é a corrida mais importante da carreira dele, ele precisa estar bem.
Vi a ponta do caderno de Danny saindo da mochila e abri o zíper, tirando-o dali e virei até a última folha, encontrando alguns rabiscos. Encostei as costas na cabeceira e comecei a desenhar literalmente a única coisa que eu sou boa. Ele não demorou para sair, com a mesma roupa de ontem, inclusive a camiseta da Red Bull e sorriu para mim indo, até a mochila.
– O que está fazendo? – Ele perguntou.
– Desenhando… – Comentei.
– Ah, eu gosto das suas rosas. – Ri fracamente, vendo o desenho quase completo e coloquei alguns sombreados antes de virar o caderno para ele.
– O que acha? – Ele pegou o caderno.
– Você deveria tatuar isso.
– Mas por que motivo? – Devolvi a caneta para ele.
– Porque é bonita para caralho. – Rimos juntos.
– Quem sabe um dia? – Dei de ombros, bocejando. – Quando eu não estiver com sono.
– Vamos lá, aproveitar que a cidade está vazia. – Ele disse e joguei as pernas para trás, me levantando.
– Eu estou me sentindo uma fugitiva. – Rimos juntos e ele colocou a mochila nas costas antes de se aproximar.
– Quase isso! – Ele me abraçou pela cintura. – Mas é por um bom motivo. Meus pais vão surtar, você sabe disso.
– É claro que sei! – Subi os braços para seus ombros. – Eu estou surtando um pouco. – Ele aproximou o rosto do meu.
– Relaxa, Harper. Pensa com seu coração, não sua cabeça. – Ri fracamente e colamos nossos lábios.
Ele apertou as mãos em meu corpo, me trazendo para perto dele e minhas mãos apertaram em seus ombros. Nossos lábios se movimentaram lentamente, fazendo meu corpo arrepiar e logo nos afastamos com curtos selinhos e risos bobos.
– Nós terminamos isso depois. – Assenti com a cabeça, deslizando meus braços de seu corpo.
Ele deu uma última checada pela parte interna do iate e o ajudei com as coisas que utilizamos. Logo pisei no píer e foi estranho sentir os pés firmes no chão depois de uma noite incrível como essa. O píer estava vazio, alguns iates acesos, mas ninguém nos atrapalhou.
– Está chuviscando. – Comentei.
– A gente chega rápido. – Ele disse.
– Estou comentando pela corrida, a estratégia muda, não? – Virei para ele.
– Depende, vamos ver em seis horas. – Ele ponderou com a cabeça e confirmei com ele.
Devolvemos o que utilizamos ontem no restaurante e jogamos o lixo na primeira lixeira que vimos antes de sair. A Vespa ainda estava em seu lugar, colocamos os capacetes e guardamos a mochila no banco antes de subirmos nela. Abracei-o pela cintura e seguimos de volta para o apartamento. A cidade estava completamente vazia e escura, então conseguimos chegar bem mais rápido e nem precisamos fugir tanto mais, além das ruas fechadas para o GP.
Entramos no estacionamento e ele parou ao lado da McLaren novamente, me fazendo suspirar com o fim do dia. Lhe devolvi o capacete e trocamos um rápido selinho antes de nos aproximarmos da porta.
– Eu vou mandar mensagem para Maria. Pedir para ela compartilhar a mentira pela garagem. – Ri fracamente, chamando o elevador.
– Ela vai te matar por você estar acordado agora. – Falei.
– O que você prefere? Esporro da Maria ou da dona Grace? – Fiz uma careta.
– Oh, isso é difícil! – Ele riu fracamente.
– Maria está torcendo por nós, talvez ela entenda.
– Talvez. – Brinquei, ouvindo-o rir e o elevador se abriu. – Vem, vamos cuidar disso antes. – Falei e ele suspirou.
– Lá vai! – Ele disse, dramático e entramos, apertando o botão do décimo primeiro andar.
Ele me abraçou pela cintura, dando um beijo em minha têmpora, me fazendo sorrir e podia realmente ficar envolvida em seu abraço e dormir aqui de novo que eu não perceberia. Quando o elevador se abriu novamente, fizemos curtos sinais da cruz antes de ele abrir a porta do apartamento devagar.
Ele colocou a cabeça para dentro e me chamou com a mão. Entrei devagar e vi a porta de seu quarto fechada e isso parecia um bom sinal. Entrei na ponta dos pés e fui até a sala, encontrando-a vazia e com o sofá arrumado para nós, me fazendo suspirar.
– Eles preparam para nós. – Falei em um sussurro.
– Vamos nos trocar e fingir que estávamos realmente dormindo. Dá para eu tirar umas duas horas de sono. – Assenti com a cabeça e fui até minha mochila e peguei meu pijama. – Eu vou no quartinho. – Ele indicou com a cabeça.
– Você tem pijama? – Perguntei.
– Não, mas trouxe uma bermuda e uma camiseta do iate. – Ele disse e assenti com a cabeça.
Ele sumiu pela porta e aproveitei para trocar de roupa bem rápido antes que ele voltasse e enfiei as roupas de antes bem fundo na mochila. Me sentei no sofá tentando fazer o mínimo de barulho possível e me deitei, puxando a coberta para meus ombros. Danny apareceu logo em seguida, com uma roupa que enganava muito o pijama dele e se deitou ao meu lado.
– É até engraçado. – Ele sussurrou, me fazendo sorrir.
– Não me faça rir. – Pedi e ele ajeitou o lençol em cima de si.
– Meu despertador toca as seis. – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Não se preocupe. – Falei e ele se aproximou, tocando nossos lábios levemente. – Não podemos…
– Só unzinho. – Ele brincou, me fazendo rir.
– Precisamos ser discretos, Daniel. E sem showzinho. – Ele assentiu com a cabeça.
– Não se preocupe, eu vou ser. – Ele colou nossos lábios rapidamente. – Depois disso. – Ri fracamente.
– Dorme, baby. – Falei, apoiando a mão em seu peito. – Você precisa estar perfeito.
– Eu estou. – Ele sorriu. – Agora eu estou. – Sorri, apoiando a cabeça em seu braço e fechando os olhos.
Domingo
Daniel
Ouvi o despertador tocar e acordei em um pulo. Apalpei o sofá até encontrar o aparelho e o desliguei rapidamente, evitando fazer barulho em excesso. Suspirei, tombando a cabeça no travesseiro novamente e fiz sinal da cruz. Hoje o dia precisa ser perfeito. Nada pode dar errado.
– Não vai levantar? – Virei o rosto, encontrando Harper com o rosto afundado no travesseiro.
– Não queria te acordar. – Falei, virando o rosto para ela.
– Eu não consegui pegar forte no sono de novo. – Assenti com a cabeça e ela apoiou a mão em meu peito. – Vamos fazer um bom espetáculo, ok?!
– Ok. – Falei, aproximando meu rosto do dela e deixei um rápido selinho.
– Não abusa, Daniel. – Ela riu fracamente e sorri.
– Difícil de resistir. – Falei.
– Ah, vocês estão aí! – Me assustei, virando para porta e me cegando por alguns segundos quando a luz acendeu. – Vocês não têm noção do quão preocupada me deixaram! Vocês poderiam ter avisado! – Senti alguns tapas em minha perna.
– Ai, mãe! – Falei, vendo minha mãe ainda de pijama.
– “Ai” nada! Vocês dois me deixaram muito preocupada! – Ela deu outros tapas e tentei desviar as pernas, quase subindo em Harper.
– Ai, tia Grace, tá cedo! – Harper disse, sonolenta.
– E que horas vocês chegaram, hein?! Onde vocês estavam? Ninguém atende ao telefone, não manda uma mensagem…
– Mãe! – Afundei o rosto no travesseiro. – São seis da manhã, pega leve! – Falei, tentando evitar responder sua pergunta.
– Por que não nos avisaram? Podíamos ter ido com vocês! – Ela disse firme.
– A gente recebeu uma ligação de última hora, tia. – Harper disse, se sentando no sofá. – O Danny foi me mostrar a McLaren dele na garagem, que ele tinha esquecido, e a Maria ligou. Eles viram pelo radar que teria chuva hoje e aí acharam melhor chamar o Danny para conversar, e eu acabei indo junto, oficialmente eu estou trabalhando para Red Bull, né?! – Ela disse aleatoriamente e olhei surpreso para ela.
– Mas poderiam ter avisado. – Ela disse firme e vi meu pai entrar na sala.
– Desculpe, mãe, mas a gente está acostumado a fazer as coisas meio na pressa. – Falei e ela bufou.
– Querida, se acalme, eles estão bem. – Meu pai disse. – Bom dia, crianças.
– Bom dia, tio Joe! – Harper sorriu. – Posso usar o banheiro?
– Claro! – Ele disse e Harper deslizou para fora do sofá, sumindo pelo corredor.
– Ao menos podiam ter avisado quando chegaram. – Minha mãe continuou.
– A gente chegou de madrugada, mãe, quase ficamos lá na garagem. Tomamos banho lá, jantamos, ficamos por lá. Está tudo bem, relaxa. É só para estar tudo perfeito para hoje. – Ela bufou.
– Eu estou nervosa, tudo precisa estar perfeito. – Ela disse e me levantei do sofá.
– Não se preocupe, mãe. Estamos bem, o carro está bem, eu estou calmo, ligado, só preciso confirmar isso. – Apoiei as mãos em seus braços e ela me abraçou com firmeza.
– É seu momento, amor! – Sorri. – Boa sorte.
– Obrigado, mãe! – Ela beijou minha bochecha e depois meu pai me abraçou também.
– Quais são seus planos para hoje? – Ela perguntou.
– Eu preciso estar na garagem as oito, então vou tomar um banho, me arrumar e ir até a estação. A Maria deve ter disponibilizado um barco para me levar lá… – Peguei meu celular. – Eu tomo café na estação e vou para garagem. Vocês podem ir mais tarde, igual ontem. Queria que a Harper descansasse um pouco também…
– Eu vou contigo, Daniel! – Ela apareceu. – Já falei. Eu durmo depois. – Ela andou até sua mochila, colocando-a na cama. – Está chovendo e está frio. – Ela disse. – Se aqueça. – Assenti com a cabeça.
– Quer tomar banho? Vou ver se tem alguma mensagem. – Ela assentiu com a cabeça.
– Claro, é rápido. – Ela disse, pegando suas coisas antes de seguir de volta para o quarto. Me sentei na beirada do sofá para ver as mensagens, encontrando algumas de Maria.
“O QUE VOCÊ ESTAVA FAZENDO ACORDADO AS QUATRO DA MANHÃ, DANIEL?! E POR QUE EU PRECISO INVENTAR UMA MENTIRA ENORME PARA VOCÊ?!” – Suspirei.
“Porque eu passei a noite com Harper no iate e não estou pronto para contar para os meus pais que nos beijamos e levar outro esporro como esse”. – Enviei. – “Já estou de pé, em 45 minutos estou pegando a lancha para estação”. – Saí da conversa dela e fui para Michael.
“Y-Y-Y-YHA-A-A-A-A-A! É ISSO QUE A GENTE ESTAVA ESPERANDO! AÍ, GAROTO! Estou feliz por vocês!” – Ri fracamente.
“Obrigado, cara! Eu vou direto para estação da Red Bull, te encontro lá?” – Saí da conversa dele, vendo algumas de minha mãe e Michelle, mas Maria já tinha respondido.
“OK, ISSO É UM BOM MOTIVO! Mas você não está cansado para hoje, está? Ai, Daniel! Estou feliz por vocês, mas tinha que ser ontem? E sua regra de não transar antes de corrida?” – Ri fracamente e parei para pensar por um segundo sobre isso.
Eu deveria achar estranho a vontade de transar com Harper, mas por algum motivo eu estava empolgado demais com isso. Não sei se são duas partes do corpo pensando, mas acariciar seu corpo, sentir suas coxas, sua perna e seu quadril pressionando no meu, só me fazia pensar quando isso aconteceria.
Será que tem uma regra de melhor amigo? O beijo ontem e a transa vai ser daqui alguns dias? Não sei muito como Harper se sente quanto a isso, ela não é do tipo que tem sexo casual, então antes de tudo acho que preciso garantir que nossos caminhos vão andar lado a lado. Na verdade, isso é outra coisa que ronda minha cabeça. Estamos apaixonados um pelo outro, nos beijamos e agora? O que somos? Namorados? Sacudi a cabeça e respondi Maria.
“Não se preocupe, não aconteceu nada demais. E eu estou bem, nasci pronto”. – Suspirei, vendo-a digitar.
“Bom, então! Te vejo daqui a pouco e estou feliz por vocês. Já avisei ao Christian aqui e ele gargalhou alto, mas dá para fingir se seus pais perguntarem algo. Vamos falar disso depois, ouviu?! Vocês dois!”. – Sorri.
“Ok”. – Respondi, vendo a resposta de Michael pela notificação.
“Já estou pronto, chego aí em 20 minutos”. – Suspirei, relaxando meu corpo no sofá.
– Você e a Harper estão lidando bem com isso, não? – Ergui o rosto.
– Oi?! – Perguntei, confuso.
– Com ela te acompanhando, parece que está dando tudo certo! – Minha mãe disse.
– É a Harp, mãe! – Dei de ombros. – Nos damos muito bem. – Sorri.
– Ah, mas vocês estão sempre juntos, poderia dar briga. – Ri fracamente, pensando em ontem.
– Está tudo bem, mãe! – Sorri e ela assentiu com a cabeça.
– Está livre, Danny! – Harper apareceu novamente de jeans e a blusa da Red Bull.
– Eu vou tomar um banho rápido e logo volto. – Falei e Harper assentiu com a cabeça. – Michael deve estar chegando.
– Eu o recebo. Não se preocupe! Vai se arrumar. – Ela disse, pressionando os lábios. – Você tem uma corrida para ganhar. – Sorri e ela deu de ombros, rindo em seguida.
Fui para o quarto, encontrando Jason, Michelle e Isaac dormindo e ri fracamente antes de sumir dentro do banheiro. Tomei um banho mais relaxante do que de ontem e fiz minhas necessidades, escovei o dente e coloquei a roupa da Red Bull antes de sair, sacudindo os cabelos. Minha irmã ainda estava do mesmo jeito e segui para a sala novamente, vendo Michael se juntar à Harper e meus pais.
– Bom dia, cara! – Falei para Michael.
– E aí, cara? Deu tudo certo ontem? – Ele perguntou rindo fracamente e senti meu rosto esquentar.
– Sim, sim! Deu sim! – Falei, rindo. – Quer comer algo?
– Não, eu estou pronto para ir. – Ele disse e subi o zíper do casaco da Red Bull.
– Tem certeza de que não quer ficar, Harper? – Minha mãe perguntou.
– Eu estou bem, tia, não se preocupe. – Ela deu um curto sorriso.
– Ela gostou da coisa, mãe! – Falei, fazendo Harper rir.
– Não fala isso, eu não me conformo por ter perdido cinco anos disso, Danny. – Ela fez um bico e olhei sugestivamente para ela e ela deu com os ombros, rindo em seguida.
– Aconteceu, querida, e tenho certeza de que seus pais estão felizes por você largar esse medo para trás. – Meu pai disse, fazendo Harper dar um daqueles sorrisos se forçando a não deixar a emoção atingi-la.
– Além de que ele está novo ainda, tem muito tempo para você aproveitar, querida. – Minha mãe disse.
– É, olha o Kimi, por exemplo. – Falei, fazendo-a rir.
– Jenson, Felipe, Alonso… – Ela ponderou com a cabeça. – Se você envelhecer como eles, acho que estamos bem! – Ela deu dois tapinhas em meus ombros, me fazendo rir.
– Bom, vamos? – Michael disse.
– É, claro! – Falei, pegando minha mochila e conferindo rapidamente os itens dentro dela. – Nos vemos mais tarde.
– Pode deixar, filho! – Meu pai disse e dei um abraço em cada um, depois Harper e Michael fizeram o mesmo.
– A gente se encontra depois. – Harper disse, seguindo com Michael e sorri para meus pais antes de fazer o mesmo.
Fechei a porta de casa e esperei o elevador com eles, batendo levemente o pé no chão. Entramos quando ele chegou e bati a mão no térreo, vendo eles entrarem e logo depois a porta do elevador se fechar.
– Ok, estamos seguros agora. – Sorri, virando para Harper.
– Daniel. – Ela disse, rindo e abracei-a pela cintura.
– O quê? – Michael perguntou e Harper riu perto da minha orelha. – Ah, cara, não… – Ignorei-o e segurei Harper pela nuca, colando nossos lábios por alguns segundos e ela passou as mãos em minha cintura.
– Bom dia. – Ela riu fracamente.
– Bom dia. – Dei outro selinho em seus lábios.
– Ok, ver isso é incrivelmente estranho. – Ele disse, nos fazendo rir.
– Não se preocupe, é estranho para nós também… – Sorri para Harper. – Mas é bom para caralho! – Abracei-a e ela apoiou a cabeça em meu ombro.
– Eu preciso furar meus olhos agora. – Ele disse, dramático, me fazendo rir.
– Para, Michael! Você sempre torceu pela gente, vai.
– É, no ensino médio, mas depois de 10, 12 anos as coisas ficam estranhas. – Ele olhou para gente e neguei com a cabeça. – Mas é, vocês são fofos.
– Obrigada! – Ela disse, rindo e deixei um beijo em sua testa antes do elevador se abrir. – Mas agora somos só Daniel e Harper, ok?! – Ela virou para mim.
– Podemos tentar, mas não garanto! – Dei de ombros.
– Ah, cara! Eu estou entre querer ou não saber o que aconteceu na noite passada. – Michael disse enquanto saíamos do elevador.
– Agora você não vai saber de nada, só amigos, ok?! – Harper virou rapidamente para mim e ponderei com a cabeça, virando para Michael.
– Eu te conto no treino! – Falei e Harper revirou os olhos, seguindo à nossa frente. – Não fica assim! – Abracei-a pela cintura, puxando-a para mim.
– Quero ver se você vai achar graça com seus pais descobrindo isso. – Ponderei com a cabeça.
– Eles adorariam, você sabe disso. – Virei para ela. – Na verdade, acho que você é a única mulher que eles não reclamariam. – Ela riu fracamente, soltando minhas mãos de seu corpo.
– Tudo no seu tempo, Daniel! Guarda essa energia para corrida, ok?! – Ri fracamente.
– Você está certa! Você está certa! Só está difícil manter as mãos longe de você. – Falei, ouvindo-a rir.
– Eu não preciso saber disso! – Michael disse, sério, me fazendo sorrir.
– Depois, Daniel! Depois. – Ela piscou para mim e estalei um beijo em sua bochecha antes seguir pelas escadas da entrada do apartamento.
Capítulo 18
Perth, Austrália, 2004
– Vai dar tudo certo, querida. – Helena disse.
– Não sei, mãe. Ele tá estranho. – Harper disse.
– Isso é normal quando as pessoas começam a namorar, meu amor. – Helena virou rapidamente para a menina.
– A Déborah e o Michael não mudaram. – Harper virou o rosto para mãe.
– Tem certeza de que é por que você não gosta da menina, filha? – Helena perguntou.
– Eu me afastei do garoto que ele não gostava, por que ele não pode fazer o mesmo por mim? – Helena suspirou, não sabendo responder. Na prática ela sabia como é difícil, mas também sabia como Toby estava mexendo com o coração dela e magicamente a paixonite acabou por uma briga que o garoto e Daniel tiveram.
– Mas vocês vão se ajeitar, querida. Tenho certeza. Vocês adoram Shrek. – Harper suspirou.
– É, vamos ver… – Ela disse fracamente, pressionando os lábios.
Helena estacionou o carro em frente ao cinema que estava relativamente vazio por ser dia de semana, mas tinha uma pequena fila para compra de ingresso. A menina olhou rapidamente em volta, vendo que o amigo ainda não estava lá e checou o relógio, tinha uns 20 minutos para o filme começar ainda.
– Você quer que eu espere? – Helena perguntou.
– Não, tá tudo bem. – A menina disse, empurrando a porta do carro.
– Me liga, tá? – Helena disse e a menina assentiu com a cabeça. – Amo você.
– Também te amo. – Harper se debruçou sobre a mãe para dar um beijo em sua bochecha antes da menina sair do carro.
Harper foi até a bilheteria, entrando na pequena fila. Helena estava receosa sobre esse encontro, Grace também tinha reclamado sobre o filho e esse namorinho com uma patricinha da escola. Até em treinos de kart ele tinha chegado atrasado, o que não era nada normal dele. Harper estava bem chateada com esse afastamento e chorou bastante nos dias que seguiram uma briga de ambos, o qual Helena não soube detalhes.
Pensando nessa desconfiança, Helena deu a volta na avenida e estacionou do outro lado, observando a menina na fila enquanto segurava sua bolsa. Ela pediu dois ingressos para as oito da noite e guardou o troco na bolsa novamente quando a mulher lhe entregou. Ela se afastou um pouco e esperou na porta do cinema.
Harper ao menos esperava que fossem dois ingressos, esperava que Daniel não aparecesse com aquela nojenta. Era o filme de ambos e uma noite só dos dois, ela ficaria muito mais irritada se o garoto aparecesse com a menina. O sangue dela fervia só de imaginar isso.
Quem dera Daniel aparecesse com Jemma, para isso ele precisaria ir ao cinema. Os minutos foram se passando, as pessoas entrando e a frente do cinema ficou vazia. Harper sentia o peito doer, era uma mistura de tristeza, decepção e raiva. Raiva por ter acreditado que ele valorizava a amizade de ambos. Os olhos dela ardiam, mas ela estava fazendo de tudo para segurar o choro. Seu coração já estava em pedaços por perder seu amigo, não precisava fazer os outros sentir pena de si.
– O filme vai começar. A senhorita vai entrar? – O homem que recebia os ingressos se aproximou dela.
– Me dá só dois minutos. – Ela pediu. – Eu estou esperando alguém.
– Não tem como, senhorita. Desculpe. – Ele disse e ela assentiu com a cabeça.
– Eu consigo usar esse ingresso outro dia? – Ela perguntou.
– Precisa trocar na bilheteria. – Ele indicou e ela assentiu com a cabeça.
– Obrigada. – Ela disse e deu um aceno de cabeça para o homem antes de seguir para a bilheteria novamente, encontrando a mulher. – Meu amigo não veio, tem como trocar? – Ela perguntou para mulher do caixa.
– Claro…
– Pode deixar! – Uma terceira voz foi ouvida e Harper se assustou com sua mãe atrás de si. – Cheguei!
– Mãe? – Harper perguntou e Helena a abraçou pela cintura.
– Vamos! O filme vai começar! – Sua mãe lhe deu um sorriso de lado e a menina assentiu com a cabeça, sentindo o nariz coçar devido ao choro e deixou sua mãe guiá-la até a entrada do cinema.
– Vai entrar? – O homem falou sorridente e Harper lhe entregou os ingressos. – Bom filme.
– Obrigada! – Helena disse e Harper tentou dar um sorriso.
Ambas entraram na sala de cinema e se colocaram em uma das primeiras fileiras para não procurar um lugar no escuro. Helena apertou a mão da sua menina que estava com o coração partido em vários pedacinhos. Bem que dizem, dificilmente as amizades duram, né?! Ter durado 12 anos era um milagre.
O filme era bom e incrível, melhor do que o primeiro, segundo Harper, mas Helena sentia pela filha manter essa lembrança ruim junto dele. A menina não sabia ainda, mas essa seria uma de suas principais e favoritas lembranças com sua mãe, por mais que doesse tanto agora.
Em meio às risadas, o rosto de Harper brilhava à luz da tela com lágrimas deslizando pela sua bochecha. Independentemente do que aconteceu entre ambos, Helena mesma teria uma conversinha com Daniel. Ele não era esse tipo de garoto! Amigos sempre vem em primeiro lugar, todos sabem disso.
Enquanto isso, quando deveria estar chegando ao cinema, Joe estacionou o carro em frente à casa dos Boskovich, onde Danny desceu animado. Seu pai frisou ao menos cinco vezes sobre pegá-los em duas horas, mas ele não pareceu se importar muito com isso.
– Dez horas, Daniel! Ou eu apareço aqui! – Joe disse firme.
– Tá bom, pai! Tá legal! – Ele disse, emburrado. – Posso ir agora?
– Vai! – Ele disse e o garoto fechou a porta antes de seguir rapidamente até a porta da casa e tocou a campainha algumas vezes.
Antes de Jemma aparecer com um largo sorriso, Daniel teve a pequena impressão de que estivesse se esquecendo de algo e bateu as mãos nos bolsos da bermuda, encontrando o celular em um e a carteira no outro, com isso teve certeza de que não tinha esquecido de nada.
Seu pai bufou no automóvel. Sentia saudades do seu filho animado ao visitar Harper e não emburrado e irritado com todos para visitar a namorada, a qual Grace, Joe e Michelle já tinham uma má impressão por causa Harper. Essa impressão só viria a piorar quando Helena e Alexander aparecerem na casa deles no dia seguinte. Daniel levaria o xingo do ano de seus pais, perderia o celular por quatro meses e não poderia ver sua namorada.
Mas o pior não era isso, quando ele tentasse ir atrás de Harper, teria todas as chamadas ignoradas, seja pelo telefone ou pela campainha de casa. E, para piorar, quando chegasse na escola na segunda-feira, a história já teria se espalhado entre seus amigos e, além de Harper ignorá-lo em todas as aulas, Déborah, Michael, Blake e Tom fariam o mesmo.
Daniel ainda não sabia naquela noite, mas se esquecer do encontro com Harper seria a pior coisa que aconteceria na sua vida. Mas com o tempo e maturidade, eles saberiam se encontrar novamente… Eventualmente.
Mônaco, 2016
Harper
Hoje finalmente entendi o que Danny diz sobre Mônaco ser diferente, a cidade estava um verdadeiro caos e, todo lugar que eu fosse, estava cheio. Seja na estação da Red Bull, no paddock ou na garagem. Se eu quisesse me esconder, precisava ficar dentro do vestiário de Danny, o que acabou não acontecendo porque ele precisava se concentrar e roubava um beijo sempre que tinha a oportunidade.
Não que eu não esteja gostando, era bom demais ter essa liberdade com ele, mas hoje é o dia mais importante do ano para ele e precisa ser perfeito. Tirando Maria, que ficou animada conosco, mas disse que queria conversar depois, ninguém comentou nada sobre nosso beijo, nem Christian, então imaginei que ainda era um segredo bem guardado entre nós.
O tempo tinha virado um pouco e estava realmente gelado, me mantendo com o moletom o dia inteiro, além da chuva fina que caía, mas é gelada e molhava bastante. Quando fomos nos aproximando da corrida, acabei conhecendo Louis Tomlinson do One Direction, o ator Patrick Dempsey, o jogador de futebol do Manchester United Michael Carrick, o cantor chinês G.E.M. e a atriz Li Yefeng. Preciso ser honesta em falar que depois do Louis, foi difícil focar em outra coisa.
Essa foi a hora que eu mais vi Danny, foi pouco antes da corrida, então ele ficou interagindo com os convidados da Red Bull por alguns minutos antes de finalizar os protocolos de início de corrida. Com a movimentação na garagem e a presença de seus familiares com Isaac, que voltou a me agarrar, só consegui dar um forte abraço nele e um beijo em sua bochecha antes de ele seguir para a formação do grid.
O GP de Mônaco era diferente demais dos outros em que eu estive, então não consegui seguir com ele até o grid, o que eu senti uma falta enorme, mas se ele estivesse bem, era o que importava para agora. No momento, eu estava abraçava a Isaac, tentando me aquecer pela temperatura de 17 graus. Saudades do calor de ontem.
Quando Danny apareceu em foco nas várias televisões, eu só consegui fazer um sinal da cruz, dando um beijo em Isaac. Vamos lá! Vamos lá!
Diferente das outras corridas, dessa vez a largada foi atrás do safety car, por causa da chuva e da pista molhada. Segundo os engenheiros, isso era bom para Danny, pois tinha que manter a velocidade e ninguém poderia ultrapassar ninguém, então era perfeito para ele. Perfeito até demais, na verdade, as voltas passavam e não tinha nenhuma alteração, o sol começava a sair, a pista parecia secar e nada de eles liberarem. Conheço a fama de Mônaco, mas eles precisavam correr para eu conhecer de verdade.
A corrida foi liberada somente no final da sétima volta e finalmente o barulho alto tomou conta das finas ruas de Mônaco. Pena que não deu tempo nem de ver o nome de Danny em primeiro lugar quando, na oitava volta, já tivemos uma bandeira amarela quando Jolyon Palmer atingiu a barreira. Pelo visto, parece que ele perdeu o controle sozinho, deslizando na área do grid.
A corrida foi liberada na décima volta e meus olhos focaram na televisão novamente. Demorei para perceber que Isaac dormiu em meu ombro, mas ainda estava calmo, ele podia folgar bastante. E esperava que folgasse pelo resto da corrida.
Danny fez sua primeira volta mais rápida na décima primeira volta com 1:44:658, mas isso foi melhorando com Button por um segundo, depois Nasr. Danny estava lento ainda. Sei que é difícil, mas adoraria vê-lo fazer o tempo de ontem.
Uma volta depois, ele conseguiu abaixar o valor para 1:38:140. Esse é meu amigo!
Felipe, Grosjean e Kimi acabaram tendo um pequeno problema após Kimi bater na barreira, mas os dois primeiros conseguiram continuar na corrida, enquanto o finlandês precisou abandonar.
Na décima terceira volta, Danny reduziu o valor para 1:37:896, depois 1:37:561, e Verstappen apareceu no pit stop para troca de pneus, saindo em vigésimo. Confesso que nem me lembrava de Max ou de sua família do outro lado, meu foco era Danny. Ele merece essa vitória, mas ainda tínhamos mais 65 voltas.
Na décima sexta volta, por alguma escolha de equipe ou lentidão de Rosberg, Hamilton o passou e agora era ele quem estava a 13 segundos de Danny. Enquanto isso, Danny melhorou a melhor volta da corrida com 1:35:783 e, na vigésima primeira volta, desceu para 1:34:360, além disso, Kvyat e Magnussen se esbarraram, um fechando o outro, o que causou outra bandeira amarela por duas voltas. Magnussen conseguiu sair dessa rapidamente, já Kvyat teve mais dificuldades e precisou abandonar a corrida logo em seguida.
Na vigésima quarta volta, Danny fez seu primeiro pit stop da corrida, a pista já tinha secado quase completamente. Ele saiu atrás de Hamilton e isso já me fez ficar nervosa novamente, soltando suspiros mais longos. A distância de ambos era de oito segundos, e eu só queria que Danny tomasse o primeiro lugar de novo.
Quando a volta mais rápida da corrida e de Danny desceu para 1:30:181, ele já estava colado em Hamilton de novo com uma distância de dois segundos. Mas Danny só voltou a ultrapassá-lo novamente na volta 32, quando Hamilton entrou foi para o pit lane. Max fez o mesmo e eu achei que essa era a oportunidade de Danny conseguir uma grande vantagem para um pit stop mais para o final, mas, de repente, o carro número três apareceu na garagem e, o pior, a equipe não estava pronta.
– OS PNEUS! – Nigel gritou e meu coração simplesmente parou.
– OS PNEUS! – Outros mecânicos correram com os pneus para fora e eu não conseguia desviar o olhar do caos que havia se formado.
– CADÊ OS PNEUS?! – As vozes se misturavam e eu estava completamente travada.
Meu rosto focou na cabeça negando de Danny dentro do carro e o barulho forte do carro que esperava só ser baixado novamente para voltar a correr. Danny ficou exatamente 13,9 segundos para fazer um pit stop que costuma durar três, mas esperar que ele conseguisse sair do pit lane a frente de Lewis durou muito mais. Quando Danny estava saindo, a câmera subiu e engoli em seco ao ver a Mercedes de Hamilton passar como um foguete ao lado dele e ficar em primeiro lugar novamente.
– PORRA! – Minha voz saiu alta.
– Titi? – Isaac perguntou e Michelle arregalou os olhos de mim.
– Desculpe, desculpe…
– O QUE ACONTECEU AQUI? – A voz de Adrian foi alta na garagem.
– Segura ele, por favor. – Entreguei Isaac a Michelle.
– Harp… – Grace me segurou.
– Eu não vou fazer nada, eu…
– MAX BATEU! – Virei meu rosto para o lado, vendo a imagem focar em Max e ele travou o pneu antes de bater na parede.
De repente tudo o que já estava mal, ficou ruim, e o pior foi quando Hamilton começou a bloquear todas as chances de ultrapassagens de Danny. Coisa que eu lembro que não é permitida, é preciso deixar o espaço se existe a oportunidade de ultrapassagem.
– QUE PORRA! – A voz de Danny explodiu nos fones e apertei as mãos na cabeça, bagunçando os cabelos.
– Eu preciso de dois minutos. – Falei baixo, desviando dos pais de Danny.
– Harp…
– Tente relaxar, você está mais rápido do que ele. – A voz do engenheiro de Danny saiu no fone e o abaixei com força, entrando no primeiro corredor que vi ali.
Minha respiração começou a ficar mais forte e o coração bater rápido. Eu sei que é a crise de ansiedade novamente, mas sentia que tinha alguma coisa diferente. Era quase como se eu estivesse vivenciando uma possível reação de Danny. Isso não pode definir essa corrida. Um erro desse não pode definir a maior chance de toda carreira de Danny.
– Harp! – Senti uma mão em meu ombro e vi Michael. – Respira! – Ele pediu e eu o fiz. – Respira!
– Isso não pode estar acontecendo… – Ele me abraçou fortemente.
– Ainda tem 30 voltas, Harp! Ele vai conseguir! – Ele falou contra meu ouvido. – Só aguenta…
– O que aconteceu aqui? Por que os caras demoraram com os pneus? – Perguntei, apertando meu rosto em seu ombro.
– Eu não sei… Eles começaram a brigar e Max chegou… – Ele falou. – Só foca em você agora. Você está bem, você está bem… – Apertei-o com mais força. – Estamos aqui por você. – Suspirei, apertando os olhos.
Os barulhos finos dos carros faziam minha cabeça pesar e todos os motivos iniciais de eu não querer estar aqui, vieram à tona. Talvez eu conseguisse lidar melhor com uma batida do Alonso, mas não ver isso acontecer com Danny diante dos meus olhos.
– Harp… – Ergui o rosto para tia Grace. – Ah, querida…
– Eu estou bem, eu estou bem… – Falei rapidamente e ela me abraçou antes da minha voz falhar.
– Você não precisa ser forte, querida. Está tudo bem. – Ela acariciou meus cabelos.
– O Danny, tia…
– Xi… Vamos cuidar de um problema de cada vez. – Ela disse, passando as mãos em meu rosto que estava úmido. – Estamos aqui contigo… – Assenti com a cabeça. – Respira… Respira… – Soltei a respiração devagar. – Você está gostando disso, você está aproveitando seu tempo, lembra? – Suspirei, assentindo com a cabeça. – Infelizmente, tem as partes ruins também. – Ela acariciou meu rosto.
– Não deveria ter…
– Eu sei, o que eu menos gosto é ver vocês chateados… – Ela acariciou o rosto de Mike também e suspirou. – Mas agora, talvez Daniel vá precisar de vocês. – Ela disse e suspirei. – E qual o primeiro passo para ajudar uma pessoa?
– Estar bem. – Michael disse e suspirei.
– Vamos, a esperança é a última que morre. – Ela disse e soltei a respiração fortemente. – Eu estarei contigo… – Assenti com a cabeça, deixando ela e Michael me puxarem de volta para a garagem.
Já estávamos na volta 66, não parecia que eu tinha demorado tanto, minha cabeça funcionava diferente quando estava nas minhas crises. A garagem estava em silêncio novamente, todos focados nas últimas 12 voltas da corrida. Aparentemente nesse tempo Ericsson e Nasr bateram e ambos abandonaram. Max estava de volta na garagem, apoiado em uma das paredes como todos nós.
– Harper… – Virei o rosto para Maria. – Você teve uma crise?
– Eu estou bem. – Suspirei, assentindo com a cabeça.
– Estamos aqui por você, ok?! – Ela disse, me abraçando de lado e dei um curto sorriso, passando o braço pelos seus ombros.
– Obrigada, Maria. – Falei em um suspiro.
Eu não consegui mais prestar atenção no que acontecia na corrida além de fixar o olhar no onboard de Danny e a diferença de tempo dele para Lewis. Ele estava ficando mais lento, deixando o espaço maior para Lewis e eu não aguentava mais essa pressão. Eu queria vê-lo, queria falar com ele, abraçá-lo, mas também não queria que as voltas passassem mais rápido para ele ter outras oportunidades de passar Lewis.
Quando a bandeira quadriculada sacudiu, foi diferente de outras corridas. Ninguém da equipe foi na grade comemorar com Danny, a animação de Danny não estourou em meu ouvido, tudo ficou em silêncio por alguns segundos.
– Sinto muito, Daniel! A equipe não poderia estar mais triste pelo que houve… – Simon disse.
– Nada que você possa dizer vai me deixar melhor, me poupe. – A voz de Danny parecia magoada e isso quebrou comigo.
– Vamos, caras, o Danny merece isso. – Brad disse, tirando o capacete e alguns mecânicos saíram pela porta.
– Vamos… – Michael disse, indicando com a cabeça e segurei em seu braço.
Desviamos de algumas pessoas e cadeiras dentro da garagem e seguidos com alguns mecânicos até a área do grid. Os caras da Mercedes já ocupavam o espaço, mas me enfiei no meio das pessoas, sem me importar muito com educação e vi o carro de Danny ali. Procurei-o por entre as pessoas, enquanto Lewis fazia uma festa com sua equipe, mas só o encontrei quando ele subiu no pódio para receber seu prêmio.
Existiam coisas que simplesmente não combinavam na vida, e Danny triste, decepcionado ou de cara fechada, não é uma delas. A decepção era óbvia em seu rosto, desde o momento em que ele pegou o prêmio, cumprimentou a realeza de Mônaco e, principalmente, quando o hino que tocou não era o nosso.
Acho que a última vez que o vi assim, pelo menos pessoalmente, foi quando brigamos no ensino médio, depois que ele não apareceu em um compromisso nosso. Naquele dia, para mim, pelo menos, nossa amizade tinha acabado, eu estava magoada e tudo doía, mas ver seu rosto exatamente como hoje, quase me fez mudar de ideia… Quase.
Quando Lewis, Danny e Checo, que acabou ficando com o terceiro lugar, se juntaram para a foto, ele até tentou sorrir, como ele tentou bastante durante os três anos em que não nos falamos, mas ele não sabia fingir.
Na hora do champanhe, eu acabei levando um banho sem querer, mas de Lewis, ele comemorava de verdade, agora era óbvio que Danny queria sair dali. Eu queria aproveitar a brecha na segurança quando Lewis invadiu o pessoal, mas não tive coragem. Em compensação, quando Danny nos viu, ele se aproximou.
– Danny… – Chamei-o baixo, tentando não chamar tanta atenção para mim e nem deixar a voz chorosa sair.
– Segura para mim, por favor… – Ele me entregou seu capacete e abracei o objeto com firmeza, quase como se fosse ele.
– Lewis, nos fale um pouco mais sobre essa corrida? – As entrevistas começaram, mas acabei me fechando em sua resposta, sei que ele só aproveitou a oportunidade, mas ele tentar ser animado e feliz não me deixava bem. – Daniel te perseguiu bastante, especialmente na relargada. – O entrevistador disse e foi como se minhas orelhas ligassem novamente.
– Primeiro de tudo precisamos parabenizar esse cara, ele foi incrível o fim de semana inteiro, acho que foi o melhor corredor com quem eu corri contra, ele fez uma corrida incrível hoje, foi azar dele, sorte minha, mas espero ansioso por mais batalhas como essa. Não é fácil sair de pole e chegar em segundo, mas ele pode sentir orgulhoso de tudo o que fez hoje… – Suspirei.
– Daniel, foi uma corrida que escapou… – A risada sarcástica de Danny saiu mais forte primeiro.
– Eu nem quero comentar sobre a corrida honestamente, quero agradecer aos fãs, obrigado por permanecerem nesse tempo, acho que, de fora, conseguimos fazer um ótimo espetáculo, não deveria ter sido empolgante como foi, mas são dois fins de semana que me ferram, é uma droga, dói, mas agradeço a todos por ficarem. – Engoli em seco, lembrando da corrida na Espanha.
Droga! Ele está certo.
– Você sabe nos dizer o que aconteceu com os pneus? Os pneus perdidos?
– Não… – Ele disse seco. – Nem ideia. Eu fui chamado nos boxes, não fiz a decisão. Então… Eles deveriam estar prontos. – Ele disse, visivelmente segurando falar algo que talvez não devesse. – É… Machuca, dói… Não tem mais o que dizer. – Suspirei.
– Você arrasou o fim de semana inteiro, sua vez vai chegar…
– Obrigado. – Ele disse, dando um curto sorriso e suspirei.
– Devemos esperar por ele na garagem. – Michael disse e neguei com a cabeça.
– Pode ir, só saio daqui quando ele sair. – Falei, suspirando.
– Temos a coletiva agora. – Maria falou ao meu lado. – Você provavelmente não vai querer ver isso. – Engoli em seco.
– Eu não sei de mais nada. – Suspirei.
– Vamos, Harper… – Michael me puxou. – Não faça isso consigo mesma. – Ele disse e vi Danny apoiado na bancada enquanto Checo era entrevistado. – Vamos… Falamos com ele depois, sem plateia… – Ele me puxou pela mão e pressionei os lábios antes de desviar o rosto da feição apática de Danny.
Daniel
– Posso ir? – Perguntei baixo.
– Desculpe, Daniel, ainda temos algumas entrevistas. – Maria passou a mão em minhas costas, fazendo um carinho e suspirei.
– Eu quero sumir daqui… – Bufei, coçando o olho.
– Só mais um pouco. – Ela deu um tapinha em minhas costas e suspirei forte, saindo da sala de coletiva de imprensa.
Era quase como se eu estivesse pintado de laranja neon, os olhares foram imediatamente para mim e eu sabia muito bem que tipo de olhar era: de pena. Eu não quero pensar nisso agora, eu não quero conversar com ninguém, eu não quero entender o problema de ninguém depois de dois fins de semana em que fui ferrado pela minha própria equipe, não tem mais nada do que eles podem fazer para eu me sentir melhor. A bola presa na garganta era enorme.
Hoje era meu dia! Era a porcaria do meu dia! E por coisa de 10 segundos, minhas vantagens foram literalmente jogadas no lixo. O carro estava perfeito, o dia estava perfeito, mas algum problema de comunicação ou de equipe fez tudo ir para a merda.
Tem muito de sabotagem em equipes e coisas assim aqui na Fórmula 1, mas não tinha motivo nenhum para eles sabotarem nossa melhor chance do campeonato. Especialmente depois de Max bater na classificatória e na corrida logo em seguida. Precisava falar com Christian, mas não agora. Não quando eu sei que talvez fale algo que me arrependa.
– Ei, Danny boy. – Suspirei ao encontrar Nando.
– Ei, Nando. – Falei.
– Desculpe, cara! – Ele me abraçou, dando alguns tapas em minhas costas. – Sinto muito mesmo. Você estava demais! Foi só azar.
– É… Espero que sim. – Assenti com a cabeça.
– Daniel… – Virei para Valtteri. – Desculpe, cara! – Ele deu dois tapinhas em meus ombros.
– Obrigado. – Assenti com a cabeça, dando um curto sorriso.
– Vem… – Maria me chamou e suspirei antes de entrar na área das entrevistas, parando na primeira que ela indicou.
– Daniel, você pode dizer o que aconteceu hoje? Como está se sentindo? – Suspirei.
– Parece duas semanas atrás de novo. Deveria ser meu dia e não foi, e eu não tenho o troféu. Se Barcelona não ficou claro, hoje ficou claro igual água. – Suspirei. – Eu aguentei bem em Barcelona, mantive a cabeça em pé, mas agora eu não sei como lidar com isso, eu não sei se consigo lidar bem como da outra vez. É uma corrida prestigiosa e, talvez eu ganhe no futuro, mas essa eu nunca vou ter de volta. Essa dói demais, mais do que qualquer coisa. – Suspirei.
– Obrigado, Daniel. Sinto muito. – O repórter disse e andei para o lado, encontrando outro repórter.
– Eu não sei o que te dizer, segunda corrida seguida em que sua vitória foi perdida, só me fala sobre isso, como está se sentindo agora, de preferência sem xingar. – Dei um curto sorriso.
– Sem xingar é difícil. – Ajeitei o boné na cabeça. – Como eu me sinto? Como se eu tivesse sido atropelado por um caminhão de 18 rodas, hum… Foi a segunda semana consecutiva, acho que lidei bem com Barcelona, mas, para mim, estar aqui e agir positivamente sobre isso, é impossível. Não consigo. – Suspirei. – Na verdade, eu odeio me sentir assim, eu odeio me sentir miserável. Digo, eu consegui um pódio em Mônaco, eu deveria estar extremamente feliz e grato, e parte de mim quer ficar bem com isso, mas duas semanas seguidas, especialmente aqui. – Suspirei. – Sabe, acordei essa manhã e tinha uma tempestade se formando, sabia que tinha uma bola curva vindo para me testar, outro desafio no fim de semana, outro motivo para eu me provar… – Cocei o rosto. – Eu estava rápido no começo, indo bem, é… Eu não tenho ideia do que dizer sobre isso. A estratégia, a espera pelos pneus, não foi minha decisão, a equipe me chamou, então eles deveriam ter se preparado. Eu não fiz uma chamada tardia… Eu não tenho o que dizer, para ser honesto.
– Você falou com a equipe? Christian falou com você?
– Eu só pedi para eles pouparem o fôlego. – Suspirei. – Não tinha nada que eles poderiam falar que fizesse eu me sentir melhor.
– Você vai sentar com a equipe e conversar? É algo que faz você querer quebrar o contrato? – Pressionei os lábios.
– Não vamos conseguir resolver nada hoje, eu só quero sair daqui, para ser honesto. – Suspirei.
– Obrigado, Daniel. – Ela disse e dei um aceno de cabeça, seguindo para outro grupo de repórteres.
– Daniel fala conosco como está se sentindo após esse desastre. – Puxei a respiração forte com o repórter italiano.
– Eu estou muito magoado agora, Barcelona me machucou muito, mas consegui superar, mas esse dói muito mais. Provavelmente porque são duas seguidas e com a pole, fiz tudo o que deveria ontem e hoje tivemos condições novas, mas conseguimos começar muito bem, e não é justo eu perder isso porque não tinham os pneus preparados para mim. Me chamaram para o pit stop, eles deveriam ter tudo pronto, então é bem frustrante. – Assenti com a cabeça.
– Grazie, Daniel. – Assenti com a cabeça.
– Último, prometo. – Maria sussurrou e segui para outro repórter.
– Daniel, imagino que não preciso perguntar como está se sentindo hoje, é difícil não ver um sorriso no seu rosto… – Assenti com a cabeça. – Você pode comentar sobre a corrida? Nos dizer o que aconteceu?
– Honestamente, nem tenho o que comentar, foram dois fins de semana péssimos, machuca demais. – Suspirei. – Ao menos fizemos um bom espetáculo para os fãs, pena que não era necessário. Nós começamos bem nos pneus de chuva, depois mudamos para os médios e caímos em uma corrida com Lewis que não precisávamos e aí teve o pit stop. Fomos superiores em todas as condições, mas acabamos com o segundo lugar por um erro amador. – Dei de ombros.
– Você vai falar com sua equipe?
– Hoje não. Não estou preparado para isso e eles provavelmente também não. Eu quero sair daqui e tentar esquecer que esse dia existiu. – Suspirei.
– Eu vou te deixar descansar. Obrigado. – Ele disse e assenti com a cabeça, seguindo com Maria para fora do cercado da imprensa, sentindo-a apoiar as mãos em minhas costas.
– Vamos para a garagem…
– Não! – Falei firme. – Eu não quero ver Christian ou os caras agora, eu não quero falar merda e perder a razão. – Suspirei. – Eu preciso de um tempo.
– Te espero na garagem mais tarde? – Ela perguntou.
– Sim… – Falei, tentando manter minha cabeça firme.
– Falo algo para sua família? Harper?
– Não, sério! Eu não preciso disso agora. – Suspirei. – Eu falo com eles daqui a pouco.
– Ok, não se perca e não sofra sozinho. Eu sei que gosta de fazer isso.
– Só preciso um tempo. Sério. – Suspirei e ela assentiu com a cabeça.
– Eu estarei lá, se precisar de algo.
– Obrigado. – Falei, suspirando, seguindo pelo paddock.
Harper
– Maria, o que o Danny disse exatamente? – Perguntei devagar.
– Ele disse que precisa de um tempo e falava com vocês daqui a pouco. – Chequei o horário, a coletiva tinha acabado há mais de uma hora, e virei para Michael.
– Ele deve estar no vestiário. Você o conhece. – Tia Grace disse e suspirei.
– Até demais… – Falei baixo, amarrando o casaco na cintura e segui pelos corredores da garagem com os meninos ao meu lado.
– O que está pensando? – Michael sussurrou para mim.
– Você o conhece melhor do que eu nessas situações. – Suspirei, vendo Blake, Alex, Tom e Jason andarem mais rápido à nossa frente.
– Ele não está no paddock. – Ele sussurrou.
– Eu sei. – Bufei baixo. – Ele gosta de sofrer sozinho. – Engoli em seco.
– Ah, Danny. – Vi os caras entrarem no prédio da Red Bull, se separando para os lados e entrei logo em seguida.
– Vocês viram o Daniel? – O pessoal perguntou e subi as escadas de dois em dois degraus com Michael e dei dois toques na porta antes de empurrá-la, vendo somente minha mochila e de Michael jogadas no sofá.
– Ótimo, ele sumiu. – Suspirei, batendo a mão na cabeça.
– Ah, caralho, Danny! – Mike disse e vi os pais dele subirem.
– Danny? Filho? – Tia Grace falou e suspirei.
– Eu vou matar seu filho, tia Grace! – Michael disse e suspirei.
– Onde ele se meteu? – A voz de tio Joe ficou um pouco mais alta.
– Ele não mandou mensagem para vocês? – Tia Grace perguntou.
– Liga no apartamento, ele pode ter chegado lá. – Mi falou.
– Não tem portaria! – Blake falou e peguei meu celular, puxando as notificações.
– Nada para mim. – Tom disse.
– Nada aqui. – Michael falou e vi uma mensagem de Danny, abrindo-a discretamente.
“Eu estou bem, estou no nosso lugar. Não conta para eles, não quero me preocupar com isso agora”. – Suspirei, bloqueando o celular rapidamente.
– Harp? – Grace perguntou.
– Ele mandou para mim, disse que está bem e volta amanhã. – Suspirei.
– Ele não disse onde estava? – Tia Grace perguntou rápido.
– Não, não disse. – Guardei o celular no bolso e coloquei a mochila nas costas.
– Algum de vocês deve saber onde ele foi, gente! – Tia Grace disse rápido.
– Eu não sei, eu… – Era tão difícil mentir para tantas pessoas olhando para mim. – Por que não vamos para o apartamento? Ele vai ter que aparecer lá uma hora ou outra. – Suspirei.
– As coisas do Isaac ficaram todas na garagem. – Mi disse.
– Vão pegar as coisas dele, eu e os caras arrumamos as coisas dele e nos encontramos na saída. – Falei.
– Eu vou perguntar para o pessoal lá embaixo novamente. – Tio Joe disse, saindo, e tia Grace foi logo atrás.
– Eu vou pegar as coisas de Isaac. – Mi disse.
– Eu te ajudo, amor! – Jason disse, pegando-o de seu colo e inclinei a cabeça para o lado junto de Michael até os cinco terem sumido do vestiário e descido as escadas.
– Desembucha, Harper! – Michael disse rapidamente. – Eu sei que ele te mandou mais coisa.
– O quê? Danny falou onde ele está? – Blake perguntou.
– Ele está bem e, se ele quisesse falar com vocês, ele teria mandado mensagem para vocês. – Dei um curto sorriso. – Despistem os pais dele, a gente volta pela manhã. – Falei, começando a andar, mas Michael me puxou.
– Ah, não! Vocês não vão ficar me usando de desculpa para namorar. – Ele disse.
– Não é namorar, Michael. Vamos ser honestos que para esses momentos eu sempre fui a melhor, vai… – Ele bufou. – Vocês todos sabem… – Virei para os outros três.
– Ela está certa, vocês sabem… – Alex disse e assenti com a cabeça.
– Eu vejo como ele está e juro que mando mensagem. Se tia Grace perguntar aonde eu fui, fala que eu fui checar no porto perto lá do apartamento. – Falei para Michael.
– Mas onde vocês vão estar? – Ele perguntou firme.
– Nem vem, você é péssimo para guardar segredos. – Dei dois passos, afastando sua mão. – Eu vou correr antes que eles voltem… – Parei rapidamente. – Na verdade, dá para emprestar o carro? – Virei para Blake.
– Ah, você só pode estar me zoando. – Ele suspirou. – Nunca na vida eu pensei que vocês ficariam juntos depois de velhos, agora, para ajudar, eu viro cúmplice. – Ele foi reclamando, mas tirou a chave do bolso. – Eu te odeio.
– Te amo também. – Falei, puxando a chave de sua mão.
– Quando vocês tiverem filhos, eu quero ser padrinho do primeiro! – Ele disse e franzi a testa. – Rápido demais?
– É! Bastante! – Falei, rindo fracamente e puxei a chave de sua mão antes de descer correndo pelo prédio da Red Bull, esbarrando em Maria.
– Achou ele? – Ela perguntou.
– Não! – Falei, saindo correndo para fora do prédio.
Olhei rapidamente em direção a garagem, vendo se o restante da família Ricciardo estava por lá, mas saí correndo em direção à saída, desviando das pessoas, equipes e carrinhos que passavam por ali. Passei meu crachá pela catraca para sair e desviei dos fãs que se acumulavam do outro lado da grade.
Não pensei em perguntar qual era o carro que a Red Bull emprestou para os caras, mas imaginei que fosse um Renault, estilo o que estamos usando o fim de semana inteiro, então precisei apertar algumas vezes o alarme até ver os faróis acenderem e entrei com pressa no carro. Mônaco era pequena, mas eu precisei colocar o GPS para me localizar e escolhi o Yacht Club. Só podia ser esse o lugar que ele estava falando, o Blue Bay deveria estar lotado agora.
Pelos efeitos da corrida, até a rua do clube estava lotada, mas deixei o carro nas mãos do valet, esperando que não perdesse o papel para pegar o carro da Red Bull de volta depois. Entrei no clube, esperando alguém me parar, mas acabou não acontecendo. O local estava bem mais lotado do que ontem, a música estava incrivelmente alta e as luzes de alguns iates eram bem fortes, quase fazendo o pôr-do-sol parecer dia novamente.
Ignorei o que estava me incomodando e caminhei até o píer onde estava o iate de Danny e encontrei a bandeira da Austrália primeiro. Pisei no deck, vendo a porta do quarto aberta e as luzes acesas, e entrei.
– Danny? – Perguntei baixo, deixando minha mochila na cama e fechei a porta. – Danny? – Procurei-o dentro do banheiro e desci as escadas para a cozinha. – Dan… – Minha voz parou quando o encontrei na frente do barco do lado de fora e suspirei.
Andei até a pequena escada que tinha do outro lado e subi no convés, sentindo o vento forte bater em meu corpo e bagunçar os cabelos. A roupa da Red Bull já tinha ido há muito tempo e a calça jeans e a camiseta branca talvez o fizessem passar por alguém normal. As grandes festas com os iates grandes estavam mais perto da costa, mas tinha algumas pequenas entre nós.
– Danny… – Ele virou o rosto e suspirei ao notar os olhos avermelhados. – Ah, Danny…
Me ajoelhei atrás dele e passei os braços em seus ombros, apoiando a cabeça na sua. Suas mãos apertaram as minhas com força e alguns suspiros mais fortes escaparam. Eu simplesmente não conseguia lembrar da última vez que o vi chorar. Talvez na morte dos meus pais. O pior é que isso parecia doer quase tanto quanto aqueles dias.
– Eu sinto muito, Danny. – Suspirei. – Sinto muito, sinto muito.
– Você não tem que se desculpar de nada. – Ele disse, fungando e deslizei a mão em seu corpo, me colocando na sua frente. – Você não fez nada.
– Eu sei, mas eu não tenho o que dizer e eu odeio te ver assim. – Ele me puxou pela cintura.
– Só fica comigo… – Ele suspirou e me sentei em sua frente, passando as pernas em cima das suas.
– Sua mãe está muito preocupada… – Falei e ele me apertou contra si.
– Eu falo com ela depois, eu não quero todo mundo aqui, eles vão querer tentar fazer eu me sentir melhor e… – Ele negou com a cabeça. – Eu só preciso de uma noite nisso. – Assenti com a cabeça.
– Mas eu também vou querer fazer você se sentir bem. – Passei a mão em seu rosto, limpando algumas lágrimas acumuladas ali e depois fiz um carinho em suas bochechas. – Você está até um pouco inchado. – Suspirei, deslizando as mãos para sua nuca.
– Raiva, choro… – Ele suspirou. – Agora só estou triste… – Assenti com a cabeça, apertando-o novamente em meus braços.
– E está tudo bem. – Dei um beijo em sua bochecha.
– Eu não acredito que isso aconteceu, Harp. – Engoli em seco. – Eu corri sozinho por tanto tempo, e aí um erro tão… Idiota… – Suspirei. – Ninguém falou nada?
– Confesso que não estava prestando muita atenção no rádio essa hora. – Afastei nossos rostos e colei minha testa na dele. – Eu só sei que Hamilton fez o pit, depois o Max e, do nada, você apareceu lá. – Suspirei. – Não sei se foi confusão da saída do Max e sua chegada, ou se foi desatenção do Simon ou do Adrian… – Neguei com a cabeça. – Eu não posso dizer que sabia o que estava acontecendo. – Ele assentiu com a cabeça.
– Christian disse algo?
– Eu não sei o que aconteceu depois do final, os mecânicos foram te apoiar comigo e os caras, mas, quando voltei, Christian gritava, seu pai gritava, seus engenheiros gritavam… – Neguei com a cabeça. – Não adiantava eu me colocar na briga para ver quem gritava mais, não ia mudar o resultado. – Ele assentiu com a cabeça.
– Não… – Ele suspirou. – Mas foram dois fins de semana, Harp. Precisa ter uma explicação.
– Eu sei, e você vai atrás disso. – Acariciei seu rosto, subindo para seus cabelos. – Mas depois. – Dei um beijo em sua bochecha. – Você precisa descansar agora…
– Eu sei, eu só… – Ele suspirou, me abraçando pela cintura. – Só quero ficar aqui contigo… Ao menos uma coisa boa nesse dia estranho. – Ele roçou seu nariz no meu e suspirei.
– Fico me perguntando quantos dias estranhos você não teve e não precisou disso. – Acariciei sua nuca devagar. – Você se esconde, Danny. Você sofre sozinho. Quando passou uma hora que a Maria disse que você ia dar um tempo, ficou óbvio que você tinha sumido. – Ele riu fracamente.
– Melhorou quando o Michael começou a me treinar, ao menos é um amigo no meio desse caos. – Assenti com a cabeça. – Mas Michael que me perdoe, seu colo é melhor. – Ri fracamente, sentindo nossos lábios roçarem levemente. – E aposto que os beijos também. – Sorri, segurando seu rosto e nossos lábios se tocaram em um curto selinho.
– Vamos lá dentro, alguém pode te reconhecer e deixar tudo pior. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
– Eu acho que precisava de um pouco de ar…
– Eu sei, mas essa música alta, essas luzes…
– A festa do Lewis, a festa da Red Bull… – Suspirei.
– Festa da Red Bull? Mesmo assim? – Ele deu de ombros. – É, nada disso vai te deixar melhor. – Me levantei, segurando suas mãos. – Aqui dentro pelo menos tem cobertas e leite vencido. – Ele riu fracamente e sorri, já vendo um pequeno sorriso se formar em seus lábios.
Daniel
– Esse é o dito cujo. – Indiquei o troféu dentro da caixa no sofá.
– A caixa é da Louis Vuitton? – Harper perguntou, fechando a porta e ri fracamente.
– É… – Suspirei e ela se aproximou dela.
– Posso?
– Claro. – Falei, apoiando na bancada e cruzando os braços, e ela se ajoelhou na frente do sofá, abrindo a caixa e suspirei ao ver o prêmio.
– Uau. – Ela disse, passando a mão nele. – É lindo, Danny.
– É… – Falei aleatoriamente. – Mas é prata. – Ela virou o rosto para mim, se levantando novamente.
– Apesar de tudo o que aconteceu hoje, Danny… – Ela veio em minha direção. – Você deveria sentir orgulho disso. – Ela apoiou as mãos em meus braços. – Você foi incrível o fim de semana inteiro. Foi sua melhor corrida até agora… Das que eu vi, é claro. – Ri fracamente. – O que aconteceu hoje não foi sua culpa. Você é incrível e você mostrou para todo mundo hoje. – Ela subiu as mãos para meus braços.
– Eu sei tudo isso, Harp. Eu só quero entender por que eu fui ferrado por dois finais de semana seguidos. – Soltei os braços, abraçando-a pela cintura e ela aproximou nossos corpos ao me segurar pela nuca. – O que está acontecendo com a equipe? Ano passado já foi uma merda, esse ano vai ser pior?
– Não pensa sobre isso, Danny. Teorias da conspiração e o que for. – Ela acariciou minha nuca. – Relaxa hoje, esquece sobre isso, amanhã é um novo dia. Achei que você e Michael tinham uma regra quando acontece algo assim.
– É, temos, eu tenho 12 horas para ficar mal, depois eu tenho que focar na próxima corrida…
– Então…
– Mas isso é diferente, Harp. Me faz pensar em tudo. Inclusive um jornalista falou sobre troca de equipe e até isso eu estou pensando…
– Não, eu não vou deixar você pensar nisso agora. – Ela segurou firme em minha nuca, me forçando a olhar para ela. – Você está bravo, você não vai decidir nada assim. Ainda mais a Red Bull que está ao seu lado há oito anos. – Suspirei. – Se você quiser sair, você tem todo direito, mas vamos falar disso de novo no fim da temporada. – Ponderei com a cabeça. – Você me escuta, Daniel Ricciardo.
– Eu estou. – Abracei-a mais apertado. – Você está certa, só estou resmungando.
– Ainda bem que sabe. – Ela disse firme e ri fracamente.
– Obrigado por vir… – Ela negou com a cabeça, dando um curto beijo em meus lábios.
– Você não precisa agradecer por isso. – Ela colou nossas testas. – Achei que precisasse de um amigo agora.
– Acho que preciso mais do que isso agora. – Falei e ela riu fracamente antes de colar nossos lábios.
Apertei minhas mãos em seu corpo, entreabrindo os lábios para encontrar sua língua. Suas mãos deslizaram pelos meus ombros, colando seu peito no meu e minhas mãos deslizaram pelas suas costas. Mordisquei seu lábio inferior, deslizando nossos narizes, fazendo-a sorrir e deslizei meus lábios pelo seu rosto, deixando curtos beijos.
A mão de Harper deslizou pelos meus braços e meus lábios delinearam seu queixo, deslizando os lábios para seu pescoço, sentindo o cheiro gostoso de seu perfume misturado com champanhe. Deixei um beijo em seu pescoço, sentindo-a apertar as mãos nas mangas de minha blusa e continuei dando mais alguns, deslizando pela região de sua garganta, até a base de seu pescoço, adentrando a gola da camisa da Red Bull que ela usava.
– Ah, Danny. – Ela suspirou e passei a língua pelo local, sugando um pouco sua pele. – Daniel… – Ri fracamente contra sua pele, erguendo meu rosto devagar, deslizando o nariz pelo seu pescoço antes de alinhar nosso rosto novamente. – Você não pode fazer isso…
– Por que não? – Sussurrei, deslizando o nariz pelo seu rosto, deixando alguns beijos em seu rosto.
– Porque você vai me excitar. – Ela suspirou, deslizando as mãos em meus braços.
– E isso é mal? – Perguntei, rindo fracamente e ela acariciou meus cabelos na nuca, focando os olhos nos meus.
– É, é sim. – Ela disse, rindo e dei curtos beijos em seus lábios.
– Muito estranho pensar em transar comigo? – Ela riu mais alto, dando uma distância maior entre nossos rostos e dei um sorriso de lado.
– É… Interessante, na verdade. – Ela ponderou com a cabeça. – Estranho, mas interessante. – Ela suspirou. – É uma linha perigosa.
– Eu adoro o perigoso. – Ela riu fracamente, segurando meu rosto e seus olhos escuros encontraram os meus.
– Você quer isso? – Ela perguntou sério.
– É… – Falei, rindo fracamente. – Eu estou curioso. – Ela riu fracamente. – Mas quero você confortável com isso. – Ela mordiscou o lábio inferior.
– Eu estou curiosa também… – Ela deu seu sorriso safado e colei nossos lábios novamente. – Vai ser divertido…
– Engraçado. – Falei e ela negou com a cabeça.
– Ah, merda, estamos ferrados. – Ela disse, me abraçando apertado e sorri, deixando alguns beijos em seu pescoço.
– Você quer ir para o quarto? – Perguntei e ela assentiu com a cabeça, deslizando seu nariz no meu.
Ela se afastou de mim, deslizando suas mãos pelos meus braços e mordiscou seu lábio inferior antes de se virar para o quarto, fazendo meu coração palpitar por vários motivos. Ela passou a mão em seus cabelos, puxando o laço de seus cabelos antes de sentar na cama. Ela se livrou dos tênis e das meias antes de eu conseguir respirar.
Meu corpo foi automático até ela, subindo os degraus da cozinha para o quarto e puxei a porta de correr que separava os cômodos. Ela mantinha os lábios mordiscados e as mãos apoiadas nas coxas e sentia que, pela primeira vez, desde que esses sentimentos começaram a aparecer, eu não tinha nenhum pensamento me mandando parar, estava limpo.
Dei a volta na cama, puxando a porta que dava para o deck, deixando o quarto ser iluminado somente pela luz do pôr-do-sol e pela luz amarelada do quarto. Me aproximei de Harper, me colocando entre suas pernas e levei minha mão para seu rosto, acariciando-o devagar e ela sorriu. Inclinei meu rosto em sua direção e segurei seu rosto com as duas mãos antes de colar nossos lábios em um curto beijo.
Seus olhos me encararam por alguns segundos antes de dar um curto sorriso e afastar um pouco, deslizando o corpo mais para o meio da cama e se encostar nos travesseiros colados na cabeceira. Tirei os tênis com os pés e depois as meias antes de ajoelhar na cama. Me aproximei dela e puxei minha camiseta pela gola, tirando-a e Harper riu fracamente.
– Isso é algo que você não vê todo dia. – Ela mordiscou seus lábios e joguei a blusa para trás.
– Eu sou gato. – Falei, apesar do nervosismo crescente em meu peito.
– Ao menos disso eu não tenho o que reclamar. – Ela comentou e passei uma perna entre as suas e inclinei meu corpo em sua direção. – Eu estou nervosa… – Ela disse, rindo fracamente e sorri.
– Eu também. – Assumi, segurando-a pela cintura. – Mas um nervoso bom.
– Uhum… – Ela concordou antes de colar nossos lábios.
Nossos lábios se moveram lentamente por alguns segundos, fazendo nossos narizes roçarem devagar. Deixei meu corpo cair ao seu lado na cama e puxei-a pela cintura, fazendo sua perna vir para minha cintura e a outra se enroscar entre as minhas. Sua mão apoiou em meu peito e sorri, observando-a com os olhos pressionados antes de colar nossos lábios novamente.
Entreabri meus lábios, levando minha língua até a sua, sentindo-as se enroscarem com rapidez e minhas mãos apertaram mais forte em sua cintura enquanto seu corpo pressionava com mais força no meu. Minhas mãos deslizaram pelo seu corpo, apertando suas coxas e puxei a respiração quando ela mordiscou meus lábios.
Antes de nossos lábios se colarem novamente, ela passou as pernas em volta de meu corpo, sentando em minha cintura, me fazendo suspirar. Ah, merda! Isso é incrível! Ela passou as mãos em seus cabelos, jogando-os para trás e eu não conseguia parar de sorrir. Ela segurou a barra de sua camiseta e puxou-a para cima, me fazendo suspirar ao ver seus seios dentro do sutiã preto e ela mordiscou o lábio.
– Merda, Harper. – Falei, ouvindo-a rir e subi minhas mãos pela lateral de seu corpo, sentindo-a contrair a barriga.
– Respira, Danny boy. – Ela falou fracamente, inclinando o rosto até o meu e coloquei seu cabelo atrás da orelha antes de segurar seu queixo, colando nossos lábios.
Ela apoiou as mãos em meu peito e deslizei as mãos pelo seu corpo. Nossas pernas se enroscaram e o beijo começou a criar mais velocidade conforme nossas mãos deslizavam apressadamente no corpo do outro. Desci as mãos pelas suas costas, passando-as em sua bunda, apertando-a e Harper pressionou seu corpo contra o meu, me fazendo suspirar novamente. Meu pênis estava respondendo a esses movimentos e começava a pressionar dentro da calça.
Pressionei minhas mãos em suas costas, inclinando meu corpo para frente e ela apertou as mãos em meus ombros. Sentei na cama, amparando-a pelas costas, apertando sua pele e ergui o pescoço para nossos lábios se tocarem novamente. Sua mão deslizou pelos meus cabelos, fazendo um carinho gostoso e a outra fez o mesmo em meu rosto.
Minhas mãos deslizaram pelas suas costas, descendo pela barra de sua calça e minhas mãos foram para o local, girando-a ao redor de seu corpo até encontrar o botão à frente, vendo parte de sua calcinha aparecer. Nossos lábios pararam automaticamente e ela mordiscou meu lábio inferior enquanto abria e descia o zíper, fazendo-a suspirar.
Seus olhos encontraram os meus e ela deslizou o polegar em minha bochecha antes de deixar um curto beijo em meus lábios. Ela desceu as mãos pelo meu peito, afastando nossos lábios e deu um beijo em minha bochecha antes de deslizar para fora da cama. Ela mordiscou seu lábio inferior, jogando os cabelos para trás e abaixou a calça devagar, fazendo a calcinha preta aparecer, depois as coxas, até que ela inclinou o corpo para baixo para tirar a peça de roupa.
Quando ela se ergueu novamente, com os cabelos jogados em seus ombros, eu sorri. Sempre espiei Harper uma vez ou outra, mas tê-la completamente entregue para mim é completamente diferente. É perfeito! Deslizei de joelhos até a beirada da cama e abracei-a fortemente pela cintura antes de colar nossos lábios novamente. Suas mãos foram em meus ombros, me apertando mais perto de si e depois desceram pelo meu peito.
Deslizei meus lábios pelo seu rosto, fazendo o caminho novamente até seu pescoço e deslizei os lábios por cima da tatuagem de flor pouco abaixo de seu ombro, descendo para seus seios. Ela suspirou, afastando seu cabelo do local e deslizei a língua pela pele fora do sutiã, deixando alguns beijos. Minha mão apertou em sua cintura novamente, erguendo o rosto para ela, vendo-a sorrir.
– Isso é bom. – Ela sussurrou.
– É? – Ela assentiu com a cabeça, roçando nossos narizes. – Não estranho?
– Um pouco, sim. – Ela riu fracamente. – Mas estou tentando me manter concentrada. – Ri fracamente, sentindo-a deslizar a mão pelo meu peito.
– Relaxa, baby. – Falei, imitando-a, vendo-a sorrir. – Somos só nós, lembra? Danny e Harp? – Ela riu fracamente.
– Quando as pessoas dizem isso, elas queriam dizer outra coisa. – Sorri.
– Agora eles vão ter que dizer sobre outra coisa. – Ela assentiu com a cabeça, suspirando.
– Mas tem uma vantagem nisso tudo… – Ela disse, deslizando os lábios pelo meu rosto.
– Qual? – Fechei os olhos, sentindo seus lábios em minha orelha.
– Nossos corpos estão respondendo bem… – Ela deslizou a mão em minha barriga e abaixei o rosto para meu quadril, vendo a ereção marcando a calça e ri fracamente, vendo a mão de Harp deslizar para perto de meu pênis, me fazendo suspirar. – Não tem como voltar depois disso… – Ri fracamente.
– Bom… – Ergui meu rosto para o seu. – Sem arrependimentos*, lembra? – Ela riu fracamente.
– Sim… Só memórias. – Sorrimos juntos e segurei-a pela nuca, colando nossos lábios novamente.
Desci as mãos pelo seu corpo, apertando sua bunda quando passei por ela, ouvindo sua risada e apertei as mãos em suas coxas, erguendo-a, ouvindo sua risada.
– Daniel! – Ela disse alto, me fazendo rir e tombei meu corpo para trás, caindo na cama e puxando-a comigo. – Ah, você é louco. – Ela riu ao meu lado e virei meu corpo para ela, deslizando a mão pela sua barriga.
– Você descobriu isso agora? – Falei, pressionando meu corpo no seu.
– Sempre me surpreendo contigo, Daniel. – Sorri, deslizando meus lábios em seu rosto.
– Espero te surpreender mais. – Ela riu fracamente.
– Tentando ser romântico, Danny? – Ponderei com a cabeça.
– Ou sexy. – Ela riu fracamente.
– Ok… – Ela assentiu com a cabeça. – Me mostre, então… – Ela mordiscou o lábio, erguendo os olhos para mim e, por algum motivo, aquilo fez minha ereção apertar mais forte.
– Ok… – Falei, sentindo minha risada sair nervosa. – Eu só preciso… – Falei, tirando meu braço de baixo de sua cabeça e abri o botão de minha calça, puxando-a para baixo, erguendo o quadril para tirá-la, ouvindo Harper rir.
– Devagar… – Ela falou baixo, apoiando a mão em minha barriga. – Temos tempo…
– Não está fácil me segurar com você assim. – Beijei sua bochecha, deslizando os lábios pelo seu rosto. – Você é gostosa, Harper…
– Descobriu isso agora? – Ela brincou, me fazendo rir e deslizei a mão pela sua perna, puxando-a para cima de meu corpo.
– Você vai me enlouquecer. – Falei, ouvindo-a rir fracamente e deslizei os lábios em seus seios, enquanto a mão subia para sua coxa.
– Bom… – Ela sussurrou e subi a mão para atrás de sua bunda, apertando-a fortemente, ouvindo-a suspirar. – Ah… – Sorri, deslizando a mão para sua barriga, sentindo-a contraída e deslizei os dedos para barra de sua calcinha, sentindo o barrado de renda na ponta dos dedos.
– Harp… – Deslizei o nariz para seu pescoço novamente, deixando curtos beijos.
– Hum… – Ela disse fracamente.
– Se eu colocar a mão dentro da sua calcinha… – Sussurrei. – Ainda seremos amigos? – Ela riu fracamente.
– Depende… – Ela falou, abaixando o rosto para mim.
– Do quê? – Perguntei, encarando seus olhos.
– Se você me fizer gozar ou não. – Ela disse, séria, fazendo minha ereção pressionar dentro da boxer.
– Eu adoro um desafio, você sabe? – Falei fracamente, ouvindo-a rir.
– Cala a boca, Daniel. Só faça isso. – Ela sussurrou, deslizando os lábios pela minha cabeça e deslizei a mão para dentro de sua calcinha, pressionando os lábios ao sentir sua virilha e logo sua vagina, o que me fez suspirar.
Deslizei os dedos por entre seus lábios vaginais, ouvindo Harper suspirar e desci os lábios pelo seu colo, mordiscando seu seio. Harper já estava bem úmida, me fazendo sorrir e deslizar os dedos mais fundo, encontrando sua entrada.
– Ah, Dan… Daniel… – Ela suspirou e subi os dedos para seu clitóris, fazendo movimentos circulares pelo local.
Harper soltou um suspiro alto e aquilo me fez sorrir. Observei seus lábios pressionados, as veias tensionadas em seu pescoço e sua mão pressionando seu seio, amassando o sutiã. Minhas mãos continuaram fazendo movimentos circulares em seu clitóris e seus suspiros altos faziam minha ereção apertar cada vez mais forte.
Minhas mãos desceram por entre seus lábios novamente, tocando sua entrada e ela arfou quando deslizei um dedo para dentro dela. Sua mão apertou minha nuca e até minha respiração estava forte. Deslizei meus lábios em seu pescoço, deslizando a palma da mão na extensão de sua vagina enquanto movimentava o dedo dentro de si.
Vi sua mão afastar o sutiã e apertar seu seio com mais força e aquilo me fez arfar. Deslizei meu dedo para fora de sua vagina e subi para seu clitóris novamente, continuando os movimentos circulares ali, sentindo meus dedos deslizarem pela lubrificação. Sua mão soltou seu seio, deixando-a cair no colo e meus lábios automaticamente tocaram seu mamilo.
– Ah, Dan… – Ela suspirou e passei a língua pelo seu mamilo antes de abocanhá-lo, sugando-o. –Porra, Dan… – Sorri com seu corpo tensionado.
Tentei manter o ritmo dos meus dedos em seu clitóris, mas meu foco estava em seus seios agora. Porra, Harper. Passei a língua em seu mamilo, mordiscando levemente em seguida e a mão de Harper foi para minha cabeça, puxando meus fios.
– Dan… Dan… – Ela suspirou, soltando um gemido mais alto e relaxei as mãos em seu clitóris, dando um último beijo em seu mamilo. – Porra… – Ela suspirou e deslizei meus lábios pelo seu pescoço, dando curtos beijos antes de deixar mais um em seu rosto.
– Você está bem? – Perguntei e ela assentiu com a cabeça.
– Muito bem. – Ela suspirou, apertando a mão em cima da minha dentro de sua calcinha. – Bom saber que esses dedos longos sabem o que fazer. – Ri fracamente. – Porra, Daniel! – Sorri e ela abaixou o rosto para mim. – Isso foi incrível. – Ela suspirou forte.
– E agora? – Perguntei, deslizando meus lábios em seu pescoço.
– O quê? – Ela perguntou em um suspiro.
– Ainda podemos ser amigos? – Ela riu fracamente.
– Não mesmo! – Ela virou o rosto para mim. – Eu quero mais! – Sorri, dando um beijo em seus lábios.
– Eu vou pegar uma camisinha. – Falei e ela riu fracamente.
– Vai logo… – Ela disse em um suspiro e me deslizei para fora da cama, abrindo a porta da divisão com pressa.
Andei até minha mochila no sofá e procurei pela minha carteira, pegando uma camisinha e voltei para a cama, encontrando-a deitada da mesma forma, mas agora ela tinha se livrado do sutiã de vez e tive uma visão perfeita de seus seios empinados e, porra! Essa mulher é incrível! Deixei a camisinha na cama e me coloquei entre suas pernas, inclinando meu corpo para ela e dei um beijo em sua barriga, vendo-a erguer o rosto.
– Ah… – Ela suspirou e minhas mãos foram para o elástico de sua calcinha e abaixei-a devagar e ela ergueu um pouco do quadril para eu deslizar a peça para baixo.
Passei meu olhar pelo seu corpo, pelas três tatuagens visíveis e beijei sua coxa, encontrando a frase “no regrets, only memories” em uma caligrafia bem mais discreta do que a minha, depois subi os beijos para nossa tatuagem na lateral de seu corpo, na linha do sutiã e, por último, na flor em homenagem a seus pais perto do ombro.
Meus lábios subiram para seu rosto, pressionando-os. Harper passou os braços em meu corpo, me apertando e nossos lábios deslizaram devagar, antes de afastar em seguida. Suas mãos deslizaram pelas laterais de meu corpo e pela minha boxer, puxando-a para baixo, fazendo nossos lábios afastarem em um sorriso. Ela deslizou as mãos pelo meu corpo e tombei meu corpo para o lado para conseguir terminar o serviço.
Joguei a boxer para o lado e procurei a camisinha pela cama, encontrando-a embaixo de minhas costas e estiquei para Harper, vendo-a com os lábios pressionados e os olhos perdidos e dei um curto beijo entre eles, vendo-a erguer os olhos para mim.
– Você está ok?! – Perguntei e ela assentiu com a cabeça.
– Eu estou muito bem, eu só… – Ela suspirou, desviando o olhar para baixo. – Estamos pelados? – Ri fracamente.
– Sim. – Falei, rindo
– E esse é o pequeno Daniel? – Desci o olhar para meu pênis, sentindo minhas bochechas esquentarem e acabei rindo de nervoso.
– É… Uhum… – Ela riu comigo. – Mas, ei, não pequeno…
– É… – Ela ergueu os olhos para mim novamente. – Não pequeno… – Rimos juntos e trocamos um rápido selinho.
– Estamos fodidos, Daniel. – Ela disse e sorri.
– Literalmente? – Brinquei e ela assentiu com a cabeça.
– É, literalmente. – Ela sorriu e nossos lábios se colocaram por alguns segundos. – Posso colocar? – Ela segurou minha mão.
– É… – Falei, rindo fracamente e ela se sentou na cama novamente, cruzando uma perna e levou a embalagem à boca para abrir e jogou-a para fora da cama e ela ergueu o rosto para mim.
Ela inclinou seu rosto para o meu, colando nossos lábios por alguns segundos e acariciei sua nuca, sorrindo e ela fez o mesmo. Ela se afastou novamente e suspirei quando senti suas mãos em meu pênis, deslizando a camisinha para baixo e seu olhar se ergueu para o meu, fazendo seus cabelos caírem em seu rosto e minha mão foi para eles, jogando para trás.
Arfei quando ela deslizou as mãos devagar pelo meu membro e voltou a inclinar o rosto para o meu, me fazendo sorrir. Ela apoiou a mão em meu peito, me empurrando para trás e deitei o corpo no colchão, ajeitando a cabeça no travesseiro. Ela apoiou as mãos em meu peito antes de passar as pernas ao redor de meu corpo e apertei minhas mãos em sua coxa.
Ela jogou seus cabelos para trás e minhas mãos deslizaram devagar pelo seu corpo e deixei meus olhos passarem devagar por ele. Eu só quero guardar essa visão, essa emoção em meu peito, todos esses sentimentos malucos e, principalmente, esse sorriso mordiscando os lábios. Isso me deixa louco.
– Você está bem? – Ela perguntou baixo e assenti com a cabeça.
– Só não consigo tirar os olhos de você. – Ela sorriu, inclinando seu corpo e nossos lábios se colaram por alguns segundos.
– Eu estou pronta, Danny… – Ela sussurrou.
– Tem certeza? – Perguntei baixo.
– Já cruzamos todas as linhas, Daniel… Esse é o último fio… – Ela beijou meu rosto. – Acaba logo com isso. – Sorri.
– Ok… – Dei um curto beijo em seus lábios, vendo-a endireitar o corpo novamente e levei uma mão até meu pênis, deslizando a mão sobre ele algumas vezes, suspirando com isso e direcionei-o até sua entrada, ouvindo-a suspirar.
– Devagar… – Ela suspirou, apertando a mão em meu peito e se sentou devagar, fazendo meu pênis deslizar facilmente dentro dela e sua bunda colar em minha virilha. – Ah…
– Tudo bem? – Perguntei e ela riu fracamente.
– Para de me perguntar isso. – Sorri. – Estou perfeita, Daniel. – Deslizei minhas mãos em suas pernas. – Estou muito bem… – Ela disse em um suspiro, inclinando o corpo em minha direção, suspirando quando começou a movimentar o corpo sobre o meu.
Minhas mãos foram para sua cintura, deslizando os dedos em sua bunda, sentindo-a se movimentar devagar em meu pênis. Suas mãos apertaram meu peito e nosso corpo começou a trabalhar em sintonia. Apoiei os pés na cama, começando a movimentar o quadril, fazendo meu pênis deslizar dentro dela com mais força.
Harper deslizou o corpo sobre o meu, me deixando mais próximo de seu rosto e nossos lábios se tocaram em um rápido beijo antes de um gemido nosso sair sincronizado. Continuei impulsionando meu quadril cada vez mais rápido e forte e meus dedos pressionavam suas coxas com força.
– Dan… Ah! – Harper suspirou.
– Porra… – Falei próximo ao seu ouvido, sentindo meu corpo se contraindo aos poucos e a mão de Harper apertou meu ombro, soltando gemidos curtos.
Minha mão apertou a sua em meu peito, entrelaçando nossos dedos e nossos olhos se encontraram. Sua respiração saía falhada e tocava meus lábios. Seus olhos não conseguiam focar por muito tempo, pressionando-os com força, tentando focar logo em seguida. Continuei forçando meu quadril, mantendo meus olhos no seu, enquanto meu corpo pressionava cada vez mais forte e eu sabia que estava para gozar.
– Vai, Dan… – Ela suspirou, entreabrindo os lábios. – Dan… Ah! – Ela deu um gritinho, fazendo nossas mãos relaxarem e meu gozo saiu logo em seguida.
– Porra… – Suspirei.
– Porra… – Ela sussurrou e sabia que tinha um largo sorriso em meu rosto. – Danny… – Sentia a respiração de Harper bater em meu peito.
– Sim… – Suspirei, deslizando minha mão pelas suas costas.
– Isso foi incrível… – Ri fracamente, suspirando.
– Sem amizade mais? – Brinquei e ela ergueu o rosto para mim, com o lábio mordiscado.
– Vai ser difícil esquecer isso. – Ela sussurrou e segurei seu queixo, colando nossos lábios por alguns segundos.
– Eu não quero esquecer… Eu quero mais! – Falei, vendo-a sorrir.
– É… – Ela assentiu com a cabeça. – Eu só preciso de um minuto. – Ela suspirou, apoiando a cabeça em meu peito novamente.
*No regrets, only memories – Frase da primeira tatuagem que Daniel fez, em sua coxa, junto de um barco. Ele diz que fez quando foi tentar a carreira na Itália.
Harper
Apertei a descarga e abaixei a tampa antes de seguir para a pia. Lavei as mãos, secando-a na toalha e apoiei as mãos na pia, rindo com o largo sorriso em meu rosto. Os cabelos estavam mais armados do que antes, o suor deslizava pelo corpo e colo, mas eu me sentia a mulher mais linda do mundo.
Eu ainda estou um pouco perdida com o que é que aconteceu aqui hoje. Danny é um incrível amante e me surpreendi com seu pênis e o que ele consegue fazer com ele e seus dedos. Porra! Sempre achei que esse lado metido tivesse uma parte negativa. Mas por trás de toda essa fachada dele, ele conseguiu ser incrível, fofo, firme, mas romântico. Merda! Danny realmente é romântico e não era só brincadeira nossa.
Eu ainda sentia meu corpo formigar, especialmente entre as pernas, era como se seus lábios ainda tivessem em minha pele e, ao fechar os olhos, poderia voltar ao que é que aconteceu agora pouco. Merda, Daniel! Assim era mais fácil ainda eu me apaixonar por você.
Suspirei e juntei meu cabelo, formando um rabo de cavalo e girei-o algumas vezes antes de soltar em meu ombro. Passei a mão em minha barriga, mordiscando o lábio inferior e ergui o olhar para o reflexo do espelho, vendo o rosto de Danny aparecer na fresta da porta, me fazendo rir.
– O que está fazendo?
– Posso entrar? – Ele perguntou e ri fracamente.
– É claro que pode. – Ele empurrou a porta, se colocando atrás de mim.
– O que está pensando? – Ele me abraçou pela cintura, colando seu corpo no meu e apoiei meus braços em cima dos seus.
– Nada especial, só estou feliz. – Observei-o pelo reflexo. – Me sinto leve… – Suspirei. – Honestamente, não lembro a última vez que me senti assim depois de sexo. – Ele apoiou o queixo em meu ombro.
– É diferente, baby… – Ele me apertou mais forte, pressionando os lábios em meu rosto, me fazendo rir. – Primeiro: somos nós. Tudo o que fazemos é perfeito. – Ri fracamente. – Segundo: nós nos conhecemos a nossa vida toda, então é um pouco engraçado. – Sorri.
– É, é sim. – Rimos juntos.
– E terceiro… – Ele se apoiou na pia, se colocando em minha frente. – Nós nos amamos. – Me coloquei entre suas pernas. – Bem… Eu quero dizer… – Ri fracamente.
– São dois tipos de amor, Daniel. – Abracei-o pelos ombros. – Nossa amizade de 24 anos e o que está acontecendo aqui. – Colei nossos lábios levemente. – Eu sei… Eu sinto que isso vai se misturar, como já está acontecendo, mas vamos devagar com isso. – Colei minha testa na dele. – Se realmente formos entrar afundo nisso, eu quero tudo. Tudo mesmo. – Ele sorriu. – Mas ainda temos várias coisas para lidar, a começar com seus pais. – Ele fez uma careta.
– Eles vão amar…
– Mas… – Falei, ouvindo-o rir.
– Eles vão surtar também, é claro. – Assenti com a cabeça.
– Eu não sei como não estou surtando com o que acabou de acontecer, honestamente. – Ele riu fracamente.
– É o orgasmo falando ainda. – Ele disse, endireitando o corpo e ri fracamente. – Quantos foram? Três? Quatro? – Ri fracamente, negando com a cabeça.
– Dois! – Ele riu fracamente. – E você? Está bem? – Segurei sua nuca com ambas as mãos.
– Eu estou perfeito! – Ele disse, rindo. – A última vez que eu cansei assim em uma transa foi… – Apoiei a cabeça em seu ombro.
– Se você disser México ou Jemma, eu vou chutar seu saco…
– Uh, essa ia doer. – Ele disse e ri fracamente, erguendo o rosto para ele. – Mas eu não lembro. – Neguei com a cabeça. – Eu estava com camisinha no México, não me lembro do que aconteceu. – Rimos juntos. – E eu prometi para mim mesmo não falar sobre a outra e agora eu tenho um motivo muito melhor… – Ele pressionou os lábios nos meu rosto e sorri. – Por que nunca fizemos isso antes mesmo? A compatibilidade é incrível…
– Porque éramos só amigos… Amigos não fazem isso. – Ele fez uma careta.
– Pelo jeito fazem. – Ele deu de ombros e sorri. – E é incrível… Podemos fazer de novo?
– Ficando dependente? – Brinquei e ele segurou meu rosto, colando nossos lábios.
– Eu estou dependente de você desde 1992. – Gargalhei alto. – Agora eu estou fodido, porque caí dentro de um poço sem fundo mesmo. – Ri fracamente.
– Mas vemos que uns seis meses sem sexo deixa você bem necessitado. – Ele riu fracamente.
– Agora eu tenho você… E é incrível… – Ele suspirou, colando os lábios em meu ombro.
– Como está se sentindo sobre isso? – Acariciei seus cabelos. – Digo… Cruzamos toda linha possível… – Ele ergueu o rosto. – Isso é importante.
– Eu estou feliz, Harp. – Ele olhou em meus olhos. – Eu estou apaixonado por você. – Ele deu um beijo em meus lábios. – De verdade… – Dei um curto sorriso. – Eu sei também que vamos passar por alguns desafios, mas estou contigo… – Ele sorriu. – Meus dias sempre foram melhores contigo…
– Então você é realmente romântico. – Dei um curto sorriso e ele riu fracamente.
– Eu te disse! E quando eu estou interessado, sou mais ainda. – Sorri, colando nossos lábios e ele apertou as mãos em minha cintura, deslizando pelas minhas costas.
– Vamos devagar, baby. – Ele sorriu. – Vamos resolver uma coisa de cada vez. – Acariciei seu rosto.
– O que temos para conversar além de por que você não volta para cama? – Ri fracamente.
– Por que não tomamos um banho, hum? – Passei a mão em seu rosto, tirando um cílio de sua bochecha.
– O que quer conversar? – Ele perguntou e fechei a porta atrás de mim.
– Sobre a corrida. – Ele suspirou.
– Tem certeza? – Ele fez uma careta.
– Sim, eu tenho. – Beijei sua bochecha. – Se não fosse o sexo, você estaria pensando nisso até agora. – Me afastei dele e abri o box, abrindo as manoplas.
– Talvez não… Você ainda estaria aqui e consegue fazer eu me sentir bem. – Ele cruzou os braços.
– E se eu não estivesse aqui? – Coloquei a mão embaixo da água, ajustando a temperatura.
– Aí talvez teríamos um problema. – Ele ponderou com a cabeça e deslizei o olhar pelo seu corpo.
– Vem… – Estiquei as mãos para ele. – Está morna… – Ele sorriu, segurando minhas mãos e se aproximando de mim e puxei-o para dentro do pequeno box, sentindo a água cair em minhas costas enquanto ele fechava a porta. – Vem cá…
Passei as mãos pela sua cintura, puxando-o para perto, sentindo-o fazer o mesmo e fui mais para trás, sentindo a água cair em meus cabelos e puxei-o para baixo do jato. A água abaixou os cachos de Danny e ele aproximou nosso rosto, colando nossos lábios. Trocamos curtos beijos, precisando desviar do jato de água quando sua língua encostou na minha. O beijo foi lento, mas me mostrou mais uma vez porque eu estava mole desse jeito.
– Não me lembro de você fofa assim. – Ele sussurrou e ri fracamente.
– Esse lado morreu em… 1999? – Brinquei, observando a água deslizando pelo seu rosto e as covinhas em sua bochecha quando ele sorria. – Depois eu comecei a usar só quando precisavam, e você nunca precisou…
– Eu precisei várias vezes. – Ele sussurrou, abaixando seu rosto e colando nossas testas. – Várias vezes no ano passado… Straya 2014 depois da desclassificação… Meus primeiros dois anos na Toro Rosso… – Acariciei seu rosto com as costas da mão. – Eu sei e entendo que era difícil para você, mas eu precisei de você. Os caras não conseguem me distrair como você, meus pais não conseguem, nem Jemma conseguia… – Assenti com a cabeça.
– Somos diferentes, baby. – Falei baixo. – Somos amigos, é diferente…
– Dois amigos pelados, mas ainda amigos… – Ri fracamente.
– Isso ainda é estranho. – Falei, rindo, sentindo meu rosto esquentar quando levei o olhar para seu pênis novamente.
– Ah, eu gostei disso. – Ele disse, rindo. – Poderíamos ter começado isso antes, sabe? Minha mãe sempre foi chata com isso de me trocar na sua frente, mas, nha, poderíamos ter tentado… – Ri fracamente.
– Temos a clássica foto da banheira. – Brinquei e ele riu.
– Ah, porque é igualzinho, te garanto. – Ele falou, irônico, me fazendo rir. – Você é linda, Harp… – Sorri, roçando meu nariz no dele.
– Você também, Danny. – Ele colou nossos lábios, acariciando meu queixo, me fazendo sorrir.
– Somos um casal gato! – Rimos juntos.
– Casal? – Brinquei e ele riu. – Indo um pouco rápido, não acha?
– É… Eu não sei, é tão gostoso que eu estou correndo com as coisas… – Ri fracamente.
– Desacelera, Danny. – Ele sorriu.
– Eu vou tentar. – Ele pressionou os lábios em minha bochecha e sorri, passando os braços em seus ombros.
– Mas é… – Suspirei. – Sinto muito por não estar contigo nesses anos. – Ele acariciou minhas costas. – Eu deixei um medo tonto tomar conta de mim e me afundei no trabalho, achando que ajudaria com alguma coisa… – Ele acariciou minha cintura. – Mas agora eu estou aqui… – Apertei meus braços em seu pescoço. – Somos jovens ainda, eu posso me dedicar em outra coisa e você tem muitos anos na sua carreira ainda. – Ele sorriu. – Podemos aproveitar juntos.
– Vamos aproveitar juntos. – Ele disse firme. – E nos divertir nesse meio tempo. – Sorri, sentindo-o me apertar em seus braços e colar os lábios em minha bochecha.
– E mesmo longe, você vai ter que prometer me ligar depois de todo treino, toda classificatória, toda corrida, para gente conversar.
– E por que você estaria longe? – Ele perguntou, afastando o rosto, me fazendo rir.
– Não dá para eu abrir um restaurante e te seguir sempre… – Falei, vendo-o abrir um largo sorriso.
– Gostei de ouvir isso… – Ri fracamente. – Mas será que não dá para ser um food truck e você me acompanhar? – Ri fracamente.
– Seria interessante trazer um food truck para Mônaco. – Rimos juntos.
– Seria, mas acho que você é metida demais para um food truck. – Neguei com a cabeça, entrando embaixo da água novamente.
– Talvez… – Ponderei com a cabeça. – Mas acho que prefiro o restaurante mesmo. Um lugar organizado, bonito… Onde eu posso tentar conseguir minha estrela. – Ele sorriu.
– Mas você vai ficar comigo até o fim da temporada? – Ele perguntou.
– É claro que eu vou. Foi nosso combinado, não? – Peguei o xampu, colocando um pouco na mão antes de levar à cabeça. – Eu não tenho ideia do que vai acontecer depois de hoje, podemos brigar… – Ponderei com a cabeça, esfregando os cabelos. – Coisas podem ficar sérias… Complicadas… – Ele riu fracamente. – Mas sim, eu vou ficar aqui.
– Eu estou pronto para o desafio, Harper. – Sorri, passando os braços em seus ombros.
– Hum, Daniel Ricciardo falando sério? – Brinquei.
– Aproveita enquanto estou anestesiado pelo sexo ainda. – Rimos juntos. – Isso provavelmente vai passar em breve.
– Oh, ok, então, que tal eu tirar essa coisa da minha cabeça e continuarmos de novo? – Beijei seu rosto, ouvindo-o rir.
– Sim, sim… Você quer ajuda? Eu te ajudo! – Ele disse rapidamente, me fazendo rir e tombei a cabeça para trás, sentindo a água voltar a cair em minha cabeça enquanto os lábios de Danny procuravam pelo meu pescoço novamente.
Daniel
“MON, 30 de maio de 2016, manhã de segunda-feira.
Eu, honestamente, não tenho a mínima ideia de como começar isso. Faz muito tempo que eu não pego esse caderno, mas provavelmente é por causa de Harper. O único motivo desse caderno existir era para contar para ela detalhes do que aconteceu comigo durante essas corridas, coisa que eu nunca tive tanta paciência, apesar de ela falar que é para extravasarmos nossos pensamentos nos momentos mais difíceis ou estranhos. Bom, aqui vai alguns pensamentos difíceis e estranhos.
Esse é, de longe, o fim de semana mais fodido de toda minha vida.
No sábado eu realizei um dos meus maiores sonhos como corredor, que era conseguir a pole position. Consegui de forma incrível e perfeita. Não tinha ninguém mais rápido do que eu aqui. Foi perfeito! Para deixar tudo melhor ainda, eu comemorei fazendo algo que eu nunca pensei em fazer na minha vida – ao menos não antes de dois meses atrás – eu beijei Harper.
Merda!
É até estranho ver essas palavras escritas juntas, mas é. Depois de seguir com tudo devagar, aguentando fortemente suas mordidas de lábio e aquele sorriso fofo, consegui montar um cenário perfeito e aconteceu da melhor forma possível. Na verdade, o segundo foi perfeito, eu acho que pensei que ainda éramos crianças e deu um beijo bem estranho, mas depois ela pegou as rédeas da situação e foi o melhor beijo da minha vida.
No domingo, com a pole e com meu corpo ainda formigando pelos beijos e carinhos de Harper, achei que selar a vitória seria algo simples, mas não… Um erro de pit stop da equipe me fez perder a corrida e eu não sei se algum dia vou ter cabeça para lidar com isso.
Mas, mais uma vez, Harper veio ao resgate e fizemos algo que eu nem pensava que podia cogitar tão cedo, mas transamos. E não sei, talvez seja clichê ou ridículo, mas não foi sexo, não foi uma transa, foi amor.
Eu estou apaixonado por Harper Addams. Minha melhor amiga. Que eu conheço desde meus dois anos e sete meses. Que temos a clássica foto dentro da banheira aos quatro. É, essa mesma.
Eu não tenho nem ideia do que vai acontecer aqui agora, é perfeito por si só, parece que algo combina, sabe? É diferente das outras, da Jemma, parece que a gente combina de uma forma até estranha. Seus lábios nos meus, sua mão em meu peito, porra! Essa mulher é incrível e gostosa. E eu fico pensando: como não vi isso antes?
Eu sei que o beijo e a transa são só o começo de algo gostoso, mas também estou receoso em descobrir. Assim, eu me atrevo a dizer que a conheço melhor do que ninguém, como sei que ela me conhece melhor do que ninguém, mas será que conseguimos separar isso para fazer isso dar certo? Meio cedo, eu sei, mas eu não quero me afastar dela…”
Ergui o rosto do caderno e virei para cama, vendo Harper dormindo de bruços na cama, abraçada em um travesseiro, somente de calcinha e ela se mexeu devagar. A rosa dos ventos atrás da coxa era a única coisa diferente ali, outra tatuagem que dividíamos. Um sorriso apareceu em meu rosto, me fazendo rir fracamente. É, eu estava ferrado.
“Honestamente, espero ler isso no fim do ano e saber que minhas dúvidas e pensamentos idiotas não passam de um receio de um cara perdido por estar apaixonado pela sua amiga. Porque eu sei que não vou conseguir me afastar dela”.
Fechei o caderno, prendendo a caneta novamente nele antes de me levantar. Inclinei o corpo para ver pela janela e o dia começava a amanhecer. Ri fracamente, ajeitando a boxer e voltei para a área do quarto, sorrindo para Harper. Apesar de tudo o que aconteceu, Mônaco conseguiu me surpreender mais uma vez.
Me sentei na cama, deslizando devagar até me colocar ao lado de Harper novamente. Passei o braço pela sua cintura, colando meu corpo no seu e deslizei os lábios pelos seus, dando curtos beijos nele.
– Hum… – Ela resmungou e sorri, acariciando suas costas.
– Vamos acordar… – Falei, deslizando os lábios pelo seu rosto.
– Nã-ã-ão… – Ela resmungou, me fazendo sorrir.
– Vamos… Está amanhecendo, precisamos voltar.
– Não quero voltar… – Ela disse, apoiando a cabeça em meu peito e subi a outra mão para seus cabelos, jogando-o para trás.
– O pessoal vai embora amanhã, podemos aproveitar o dia com eles. – Dei um beijo em sua testa.
– Isaac… – Ela suspirou.
– É. Podemos aproveitar com ele mais um pouco, depois não sei quando vamos vê-los de novo. – Sorri, deslizando as mãos em suas costas.
– Eu estou com preguiça. – Ela suspirou.
– A gente cansou bastante ontem. – Ela deu um curto sorriso, virando o corpo para o lado, deitando na cama.
– Vamos ter que fingir que nada aconteceu? – Ela coçou os olhos antes de abri-los devagar.
– Só hoje. – Passei a mão em sua barriga, me inclinando para dar um beijo em seus lábios. – Amanhã eles vão embora e temos uma semana até a próxima corrida, podemos aproveitar o apartamento só para nós. – Ela riu fracamente.
– Tem o Michael. – Ela se espreguiçou, contraindo o corpo.
– A gente fica no iate. – Ela riu fracamente, passando as mãos em meus ombros e deslizei meus lábios pelo seu pescoço.
– Eu gostei muito disso daqui. – Ela suspirou. – E entendo por que você gosta dessa cidade.
– É? – Deixei alguns beijos em seu corpo.
– Uhum… – Ela suspirou e deslizei os lábios até seu seio.
– Agora gosto muito mais por sua causa. – Passei meus lábios em seu seio.
– Da-a-a-anny. – Ela gemeu, me fazendo rir. – Não faça isso agora. Eu estou sonolenta ainda. – Ri fracamente.
– Tudo bem, aproveitamos mais amanhã. – Beijei seu pescoço novamente, sentindo-a movimentá-lo em cócegas e depois dei um beijo em seus lábios. – Vamos?
– Sim… – Ela suspirou. – Me dá cinco minutos. – Ela disse e ri fracamente, pressionando nossos lábios por alguns segundos antes de me levantar.
Voltei para minha mochila, pegando uma troca de roupa limpa e coloquei a bermuda de ontem, depois uma camiseta limpa. Guardei o restante das coisas na mochila e vi Harper se levantar. Os cabelos bagunçados, somente a calcinha cobrindo seu corpo… É, eu consigo me acostumar muito fácil com isso.
Ela foi para dentro do banheiro e terminei de arrumar minhas coisas antes de dar uma geral no quarto. Dessa vez não tínhamos nem lembrado de comer, então a cozinha estava intacta. Arrumei a cama, esticando o lençol e joguei os travesseiros no canto, deixando tudo pronto para próxima vez.
– Eu estou com fome. – Harper disse ao sair do banheiro amarrando os cabelos.
– Posso passar em uma padaria antes de irmos para casa. – Falei e ela sorriu.
– Eu mataria por uma tartine beurre confiture agora. – Ri fracamente, me aproximando dela e apoiei as mãos em sua cintura.
– Não sei o que é isso, mas não precisa matar. – Dei um beijo em seu rosto. – Eu pago mesmo. – Ela riu fracamente antes de desviar o rosto.
– Falando nisso, como você veio para cá? – Ela perguntou e suspirei.
– Eu peguei um táxi. – Falei, ouvindo-a rir.
– Ah, cara! Você está brincando! – Ela colocou sua mochila na cama.
– Não… – Neguei com a cabeça. – O cara não falou nada, ele parecia que viu um fantasma. – Ela negou com a cabeça, pegando seu sutiã.
– Ah, Daniel! – Ela negou com a cabeça, me fazendo rir.
– E você?
– Peguei o carro que está com os meninos. – Ela disse, rindo. – Está com o valet aqui do clube, espero que eu não tenha perdido o papel. – Ela colocou o sutiã, me fazendo observar enquanto ela o subia pelos ombros.
– Pelo menos temos como ir embora. – Sorri, vendo-a pegar a calça jeans e mexer nos bolsos.
– Aqui! – Ela me entregou e guardei-o no bolso.
– Passamos lá e voltamos para casa, minha irmã mandou mensagem mais cedo. Ela espera que eu esteja bem e contigo, mas falou para eu voltar logo antes que minha mãe tenha um ataque cardíaco. – Harper riu fracamente, vestindo a calça.
– Ah, não duvido nada. – Ela riu fracamente. – Se a gente ouviu ontem, hoje vamos ouvir mais. Se prepara! – Suspirei, fazendo uma careta.
– É errado eu já querer que anoiteça para gente dormir abraçadinho de novo? – Ela colocou uma camiseta branca, rindo fracamente.
– Não, mas acho que você já está dependente. – Ela fechou a mochila e me aproximei novamente.
– E você não? – Rocei nossos lábios.
– Sempre fui dependente de você, não acho que vá mudar. – Ela disse, me fazendo rir e trocamos um rápido beijo. – Tenho até medo, na verdade.
– Vamos devagar. – Imitei-a, fazendo-a rir. – Podemos ir?
– Sim, claro! – Ela suspirou. – Vamos sair desse buraco. – Sorri.
Peguei minha mochila, colocando-a nas costas, depois a caixa do prêmio. Seria difícil sair discreto daqui com isso, mas esperava que a ressaca do dia seguinte mantivesse o pessoal dormindo por mais algumas horas. Harper pegou a caixa para mim enquanto eu desligava e fechava tudo dentro do iate. Pisamos no píer novamente e voltamos a andar lado a lado.
– Oh! É estranho andar em terra firme. – Ela comentou, rindo.
– Cambaleando aí? – Falei.
– Eu não tinha notado até agora, mesmo atracado tem uma maré, né?! – Ela disse e ri fracamente.
– Aposto que estávamos mexendo mais do que a maré. – Falei e ela riu, abrindo um largo sorriso.
Duas pessoas me pararam para tirar fotos e dar autógrafos, acabei recebendo algumas falas de “sinto muito”, mas não era culpa deles, só podia tentar ser simpático. Eu e Harper entramos no carro da Red Bull e fui dirigindo até a padaria mais perto de casa. Peguei vários croissants e alguns tartine beu sei lá das quantas que Harper havia dito e não era nada mais do que pão com manteiga e geleia.
Entrei na garagem do prédio, estacionando o carro em uma das vagas livres e seguimos juntos até o elevador. Ele chegou rápido até o décimo primeiro andar, mais rápido do que eu esperava, mas sabia que não dava para adiar mais.
– Pronto? – Ela perguntou e suspirei.
– Só mais uma coisa. – Aproximei meu rosto do dela, dando um curto selinho, vendo-a sorrir. – Agora estou. – Ela assentiu com a cabeça.
– Eu estarei logo atrás de você. – Assenti com a cabeça, suspirando antes de colocar a chave na porta e destravei-a antes de abrir a porta, entrando devagar.
– Grace, ele chegou! – Ouvi meu pai.
– Ah, finalmente! – Minha mãe saiu da cozinha, vindo correndo em minha direção. – Ah, eu fiquei tão preocupado contigo. – Ela segurou meu rosto. – Você não pode fazer isso. Estamos todos aqui por você! Você precisa parar de sumir assim quando as coisas não dão certo.
– Eu falei para ele… – Harper sussurrou.
– Você fique quieta, Harper, você sabia onde ele estava e não nos falou. – Harper fez uma careta.
– Desculpe, ele queria estar sozinho, eu só fui uma boa amiga. – Ela deu de ombros, dando um sorriso sarcástico antes de passar por nós. – Trouxemos café da manhã!
– Ah, ao menos isso, eu estou faminta! – Michelle disse.
– TITI HARPER! – Ouvi o grito de Isaac.
– Vamos conversar mais tarde, senhor Daniel. – Minha mãe disse firme.
– Eu estou bem, mãe. Sério. – Suspirei. – Eu e a Harper só ficamos papeando e falando besteiras. – Dei de ombros. – Eu precisava extravasar e, vocês gostem ou não, ela é a melhor nisso. – Ela suspirou.
– Você está bem mesmo?
– Eu estou! – Falei firme. – Eu preciso passar isso… – Andei com ela até a sala, vendo que os caras também estavam lá e camas foram improvisadas no chão. – Ei…
– EI?! – Michael falou alto. – Porra, cara! Achávamos que você tiraria umas horas para você, não a noite toda.
– Desculpe, acabamos dormindo. – Dei um sorriso sarcástico e ele revirou os olhos.
– Eu te odeio… – Seus lábios movimentaram devagar.
– Desculpe. – Fiz uma careta.
– Titi Daniel! – Vi Harper aparecer com Isaac em seu colo.
– Ei, carinha! – Deixei a caixa do prêmio no sofá antes de pegá-lo no colo.
– Você tá bem, titi Daniel? – Sorri.
– Ah, carinha, eu tô bem sim. – Beijei sua cabeça. – Titi Daniel está muito bem. – Harper sorriu e Isaac me abraçou fortemente.
– Por que eu não faço um café para vocês? – Harper disse. – Para compensar o susto.
– Ah, mas você vai fazer muito mais do que só o café para gente! – Michael disse.
– Crepe? – Ela deu um sorriso.
– Agora estamos começando a falar minha língua. – Harper riu e deixou sua mochila no sofá também antes de ir até a cozinha.
– Eu te ajudo, Harp. – Falei. – Eu vou ajudar a titi, carinha, já volto! – Coloquei Isaac no sofá. – Todos querem crepe?
– Hum, dã! – Blake disse, me fazendo rir e fui até a cozinha, vendo Michael com Harper.
– Calma, calma! – Harper dizia. – Está tudo bem!
– O que estão cochichando aí? – Perguntei, vendo ambos virarem o rosto na pressa.
– Não assusta a gente! – Harper disse, suspirando. – Ele está surtando pela demora. – Ela sussurrou.
– Cara, são nove da manhã! Você sumiu por 16 horas. Sabe o quão difícil foi evitar que sua mãe chamasse a polícia? – Ele falou mais baixo. – Foi pior do que ontem.
– Desculpe, estávamos ocupados. – Falei, rindo e vi as bochechas de Harper enrugarem enquanto ela pegava a farinha.
– Vocês dois… – Michael parou a frase no meio do caminho quando sorri. – Vocês dois?! – Ele arregalou os olhos. – Cara, isso é enorme! – Ele olhou para mim. – Isso é… – Ele virou para Harper, parando a frase no meio do caminho. – Ok, isso acabou de ficar complicado para mim. A gente fofocava na frente dela e agora? – Rimos juntos.
– Vamos aprender isso com o tempo. – Falei.
– É, relaxa. – Harper disse, rindo. – Não vão me expulsar do grupo por isso, porque sei que vocês são louquinhos para fazer isso desde que eu fui para faculdade. – Eu e Michael rimos.
– Ah, você sempre nos conteve de fazer várias merdas… – Ela sorriu. – Em compensação vocês dois fizeram a maior de todas. – Rimos juntos.
– Bem, não dá para acertar sempre. – Ela deu de ombros. – Agora querem sair da cozinha? – Seu tom de voz aumentou. – Não cabe três aqui, por favor! – Rimos juntos.
– É para já, chef! – Falei, vendo-a sorrir e dei uma piscadela para ela antes de esbarrar em Michael e sair gargalhando aos tropeços.
Capítulo 19
Perth, Austrália, 2005
Harper se sentia cansada naquele dia. Na verdade, ela se sentia cansada havia muito tempo por causa do ensino médio. As tarefas, trabalhos e provas se acumulavam loucamente e ainda tinha que dar atenção aos treinos de cricket cinco vezes na semana se quisessem ter chances de ganhar da escola Morrison e ir para a final do campeonato municipal, além das aulas de francês para ter uma vantagem maior no vestibular.
Ela saiu do banho apressada, já que perdeu bons minutos deixando a água quente relaxar seu corpo após um treino pesado, e precisou compensar para se trocar e não chegar atrasada na eletiva do dia. Depois de um bimestre em economia doméstica e outro em debates – o que seria interessante se Harper continuasse se importando com as provocações de Jemma, o que ela não estava nem aí depois do ocorrido no meio do ano anterior – hoje elas começariam com culinária e era algo que Harper se sentia confortável.
Ela colocou uma roupa limpa, descartou o uniforme de cricket e a toalha molhada, antes de pegar sua mochila no armário novamente e sair do vestiário perto da quadra. Ela subiu a longa rampa até a escola, vendo algumas pessoas seguindo para as diversas salas e ela subiu para o segundo andar. Alguns alunos estavam acumulados nas mesas do lado de fora, inclusive Daniel e o grupo estranho de Jemma.
Harper ignorou o grupo, como sempre fazia, e seguiu para dentro da sala, encontrando Déborah, Michael, Blake, Tom e Arya espalhados em três largas mesas, além de outros alunos.
– Oi, gente! – Harper disse, entrando na sala e deixou sua mochila em um canto antes de se sentar ao lado de Blake.
– E aí? Demorou! Como foi o treino? – Ele perguntou e ela suspirou.
– Cansativo, demorei no banho. – Ela jogou os cabelos para trás. – Queria ir para casa.
– Depois daqui você vai. – Blake disse e a garota assentiu com a cabeça, suspirando.
– Você soube o boato que está rolando? – Michael perguntou.
– Tem a ver com o time de cricket? – Ela perguntou, apoiando o cotovelo na mesa, apoiando o rosto na mão.
– Não… Daniel. – Ele disse e ela suspirou.
– Não e não quero saber. – Ela abaixou a cabeça na mesa, fechando os olhos por alguns segundos.
– Ele vai correr na Fórmula Ford aqui do leste. – Michael disse e Harper abriu os olhos novamente.
– Mesmo? – O interesse tomou conta dela.
– Sim… A senhora Godzilla contou para quem quisesse ouvir quando a gente chegou. – Blake disse.
– Hum… – Harper puxou a respiração fundo. – Bom para ele. – Ela disse, ouvindo alguns burburinhos mais altos antes da senhora e do senhor Godzilla entrarem na sala com o grupinho estranho deles. – Falando no diabo… – Ela suspirou, abaixando a cabeça novamente na bancada.
– É bom, certo? – Michael cochichou ao seu lado. – Eu digo…
– É, é sim. – Ela disse, pressionando os lábios. – Ele merece. – Ela sentia uma bola enorme em sua garganta ao dizer isso, mas não deixava de ser verdade. – Quer dizer que ele está aparecendo…
– Bom dia, alunos! – A professora falou, entrando na sala.
– É, mas… Ele está estranho, sabe? – Harper franziu a testa.
– Já faz quase um ano, Mike, eu estou pouco me lixando para o que está acontecendo com ele… – A voz sussurrada de Harper saiu forte.
– Não parece. – Ele disse e ela suspirou.
– Você não tem que evitá-lo por causa de mim, sabe?! – A voz de Harper saía magoada.
– Não vou falar com ele, ele foi um idiota conosco também. – Ele disse. – Só estou dizendo que ele deveria estar feliz e… – Harper virou o rosto para onde Danny estava com Jemma e o rosto sério do garoto não era normal. – Ele está tendo uma chance incrível na Fórmula Ford e…
– Ele não sorri mais, Mike. – Harper suspirou. – Já notei tem um tempo.
– Nem você… – Ele sussurrou e ela evitou uma resposta.
– Harper?
– Sim! – A garota ergueu o corpo, olhando para a professora, chamando atenção dos outros alunos.
– A aula é aqui na frente.
– Desculpe, só estou cansada. – Ela suspirou.
– As garotas estão prontas para ir para a final? – A professora perguntou.
– Sim! Com certeza! – Harper falou, rindo. – Certo, garotas? – Ela virou para trás.
– É! – Outras quatro meninas do time gritaram empolgadas, fazendo Harper rir.
– Vamos, garotas! – Ela disse, sorrindo, se virando novamente para frente, passando o olhar por Daniel rapidamente e ele tinha um sorrisinho nos lábios.
– Vamos sim, mas antes vamos focar aqui. – A garota assentiu com a cabeça. – Meu trabalho aqui esse bimestre é fazer vocês saírem daqui com uma base simples na cozinha, então nada como um clássico australiano, vamos fazer torta de carne hoje.
– Eu tenho uma dúvida. – Blake ergueu a mão.
– Sim…
– Podemos comer o que fazemos aqui? – Ele perguntou, fazendo o grupo deles rir.
– Se estiver comestível, sim. – Eles riram. – E vamos pensar que estamos trabalhando com comida de verdade, então vamos evitar desperdícios. – Os alunos confirmaram com a cabeça. – Vocês vão trabalhar em duplas, então eu vou deixar uma caixa com todos os ingredientes em cada bancada e vocês vão trabalhar juntos. Quando chegar a hora de assar, vocês trazem para mim.
Os alunos confirmaram, mas muitos não estavam nem aí com a eletiva, poucos davam valor às vantagens de uma eletiva para o vestibular e só estavam ali pela presença, mas Harper se surpreendeu como gostou de fazer aquilo. Parece que enquanto ela apertava a massa, sua cabeça saiu dos problemas da escola, o campeonato de cricket, de seu afastamento com Daniel, entre outras dores de cabeça que o ensino médio trazia.
À partir desse dia, Harper sabia que, quando estivesse estressada, era só se isolar um pouco na cozinha que o estresse ia embora. Além de ter uma comida razoável para aproveitar mais tarde com seus pais. Ela só não sabia ainda que a comida permaneceria em sua vida mesmo anos depois.
JUNHO
Londres, Inglaterra, 2016
Harper
– Eu não recebo nada seu há um mês, Harper!
– Eu sei, senhor, Bernard! Sinto muito. Eu acabei tendo alguns problemas aqui, mas eu te garanto que já estou planejando minha lista novamente, vou para Nova York no fim da semana e tenho lista de sete restaurantes para visitar, todos novos, sem nenhuma ligação com o guia ainda…
– Essa vantagem que damos para nossos guias, é esperado que o trabalho seja aumentado, não diminuído…
– Eu sei, senhor Bernard, eu lhe garanto que isso vai melhorar agora. Minha família veio me visitar, então as coisas se bagunçaram um pouco. O senhor sabe que eu não gosto de trabalhar de qualquer jeito, minhas revisões sempre foram impecáveis.
– E espero que continue assim. – Ele disse e suspirei.
– Até o fim da semana eu já envio algumas novas revisões para vocês. – Falei.
– Fico no aguardo, senhorita Addams. – Ele disse, desligando o telefone logo em seguida.
– PORRA! – Reclamei, jogando o celular na cama, vendo-o quicar para o chão. – Ah, mais essa.
– Ei, o que foi? – Virei o rosto para Danny, vendo-o sair do banheiro com o terno do evento.
– Uau! Você está lindo. – Falei em um suspiro, vendo-o colocar a mão na cintura, fazendo um bico exagerado e deu uma volta ao redor do corpo. – Agora não parece mais. – Ele riu fracamente.
– O que seu chefe queria? – Suspirei.
– Eu levei o xingo do ano, eu não faço nenhuma avaliação desde a Rússia. – Fiz uma careta.
– Sério? – Assenti com a cabeça.
– Eu fiquei um pouco ocupada na Espanha e nem vamos falar sobre Mônaco, né?! – Ele fez uma careta.
– É, talvez tenha sido minha culpa. – Ele me segurou pela cintura.
– Eu tenho que compensar, mas eu não tenho mais vontade de fazer isso… – Suspirei, abraçando-o pelos ombros e apoiei a cabeça nos braços.
– Eu sei que você não tem vontade. – Senti suas mãos em minhas costas. – Você era muito mais animada com isso. – Suspirei.
– Eu era… – Pressionei os lábios.
– Você não quer ir comigo mesmo? Pode te distrair…
– Não acho que um leilão com comidas incríveis vai fazer eu me distrair. – Ergui os olhos para ele.
– Por que você não larga tudo, Harp? Falo sério. – Ele ergueu uma mão para meu rosto. – Sempre disse para os caras que se eles estivessem infelizes, largar tudo e procurar algo novo. Você já tem seu plano traçado, só vai…
– Já pensei nisso, mas eu tenho um contrato a cumprir, não é um emprego normal que eu posso sair quando quiser. Tem toda a questão do segredo, da incógnita. Não dá para eu falar tchau e sumir… – Suspirei.
– Parece uma seita. – Rimos juntos e suspirei em seguida.
– Talvez seja. – Apoiei minha cabeça em seu ombro novamente. – E, também, o que eu vou fazer o restante do ano? Temos seis meses ainda até voltar para casa de vez…
– Aposto que a Red Bull ia adorar uns pratos extras no paddock. – Dei um curto sorriso.
– Eu vou pensar direitinho, tentar achar meu contrato, ler com calma… Mas, por enquanto, vai para o seu evento, eu vou caçar algo aqui perto relativamente bom só para entregar algo para ele, talvez os meninos queiram ir, sei lá… – Neguei com a cabeça.
– Você ainda pode ir comigo… – Dei um curto sorriso.
– Eu sei, mas vamos devagar, ok?! Em Mônaco foi diferente, eu não estava oficialmente contigo, hoje estaria… E dessa vez a Maria nem estaria aqui para nos xingar. – Ele riu fracamente.
– Você ainda é minha amiga. – Ri fracamente.
– É, sua melhor amiga. – Frisei, rindo em seguida.
– E bota “melhor” nisso. – Neguei com a cabeça, erguendo meu rosto.
– Vai, você vai se atrasar. Quer ajuda com a gravata? – Passei as mãos nos cabelos, jogando-os para trás.
– Eu sempre quero! – Ele voltou até o protetor de paletó, pegando a gravata borboleta e me entregou. – Você me espera acordado?
– Depende… – Ergui a gola de sua blusa, passando a gravata por seu pescoço. – Quanto tempo demora lá?
– Eu não tenho ideia, primeira vez em um evento desses. – Ele riu fracamente. – Só estou indo porque o Jenson convidou.
– Espero que não tenha after-party. – Falei séria e ele abaixou os olhos para me olhar. – Falo sério, Daniel.
– Depois de todo rolo da Espanha e tudo o que passamos em Mônaco, você realmente acha que eu quero pensar em outra mulher agora? – Ele pressionou os lábios em meu rosto.
– Espera! – Pedi, vendo-o esticar o pescoço novamente e dei o nó na gravata, ajeitando as laterais dela. – Pronto, nem parece o mesmo piloto de macacão. – Ele sorriu, abaixando o rosto.
– Eu te aviso se for acabar rápido, ok?! – Assenti com a cabeça. – Ainda dá tempo de ir.
– Não, baby. Eu vou aproveitar para trabalhar, de verdade. – Ele confirmou em um aceno e colou nossos lábios por alguns segundos.
– Eu te aviso se for chegar cedo. – Assenti com a cabeça.
– Não se preocupe, divirta-se. – Ele confirmou com a cabeça e deu mais um curto beijo em meus lábios.
– Você também! – Assenti com a cabeça e ele foi até seu lado da cama, pegando a carteira e o celular, colocando-os no bolso interno do paletó preto.
Ele passou por mim novamente, segurando meus braços e colou nossos lábios por alguns segundos. Sorrimos e ele passou pela porta do quarto. Andei até a porta, vendo-o cumprimentar os caras antes de sair. Cruzei os braços por cima do decote do pijama e andei até a antessala dos quartos no hotel, encontrando Michael, Tom, Blake e Alex ali.
– Vocês querem jantar? Preciso trabalhar. – Falei e eles se entreolharam.
– É, claro! – Eles falaram quase juntos, se levantando em sincronia.
– Saímos em 30 minutos. – Ri fracamente antes de voltar para o quarto.
Daniel
– Obrigado, cara! – Falei, acenando para o motorista antes de fechar a porta do carro.
Entrei no hotel novamente, feliz por estar vazio e dei um aceno para os recepcionistas do hotel antes de seguir até o elevador. Apertei o botão da cobertura e soltei o botão do paletó antes de tirá-lo. Esperei o elevador chegar na cobertura e abri a porta logo em seguida. A antessala estava vazia, mas dava para ver luz na fresta de algumas portas.
Andei até meu quarto, vendo a luz sair por baixo da porta e empurrei-a devagar, encontrando Harper na cama de moletom e o notebook em sua frente enquanto ela digitava nele. Seu olhar foi para mim e sorri, vendo-a com os óculos de grau.
– Ei! – Ela sorriu.
– Ei! – Sorri, me aproximando dela e deixei o paletó na ponta da cama.
– Como foi lá? – Ela tirou os óculos, colocando em cima do notebook. – Deu lance em alguma coisa?
– Eu comprei um cavalo. – Falei sarcasticamente.
– Ah, certo! – Ela disse rindo, virando as pernas para fora da cama. – E como você pretende levar esse cavalo para Austrália?
– Ah, a gente se vira! – Tirei a gravata, me colocando entre suas pernas. – E vocês? O que fizeram?
– A gente foi num restaurante bem caro em Covent Garden e acho que eu estava com sorte hoje, porque é bom o suficiente para uma revisão. – Sorri, acariciando seu rosto. – Estou finalizando agora.
– Vou me trocar enquanto você finaliza. – Falei.
– Hum… Tem certeza? – Ela se levantou e sorri. – É um tanto sexy, sabe?! – Ela deu um beijo em meu rosto.
– Ah, é?! Você quer que eu fique assim? – Ela ponderou com a cabeça.
– Estou pensando se vai dar certo depois de tudo o que eu comi… – Ri fracamente, segurando-a pela cintura.
– Levando em conta que você come igual um passarinho durante suas avaliações, não me preocuparia. – Ela sorriu. – Quanto o Blake comeu?
– Tudo que eu deixei! – Ela riu fracamente. – E foi refeição completa com cinco pratos.
– É… Talvez não seja uma boa ideia. – Ela riu fracamente, se sentando novamente na cama.
– Como ficamos tão dependentes, Daniel? Faz três dias. – Ela apoiou as mãos para trás e ri fracamente, abrindo os botões da camisa.
– Primeiro: sexo é bom! E fazia tempo que nenhum dos dois tinha. – Ela riu fracamente, ponderando com a cabeça. – Segundo: nosso sexo é bom! – Tirei a camisa, deixando-a em cima do paletó. – Terceiro: somos nós. – Dei de ombros, puxando a camiseta regata branca na calça.
– E o que isso quer dizer? – Ela riu fracamente.
– Não é dependência, é confortável, é bom… – Puxei a regata pelo pescoço, deixando-a do lado.
– É bom demais… – Ela fez um pequeno bico nos lábios. – Sabe o que eu estava pensando?
– O quê? – Perguntei, rindo.
– Os caras pareciam um grupo de mulheres comigo hoje, eles queriam saber de tudo. – Ela disse rindo e me afastei alguns passos, puxando o cinto da calça.
– E você contou? – Perguntei, ouvindo-a rir.
– Eu não, deixei para você! – Ela jogou a cabeça para trás rindo.
– Por quê? Eles são seus amigos também! – Ela riu fracamente.
– Ah, nem vem! Eu conto isso para Déborah e, provavelmente, quem vai ter que contar todos os detalhes para sua irmã, serei eu, então você que aguente eles. – Ri fracamente, me sentando ao seu lado para tirar os sapatos.
– Temos uma road trip de Nova York para Montréal, eu estou ferrado. Sete horas com eles. – Ri fracamente.
– E vai ter que enfrentar sozinho, eu não vou. – Virei o rosto para ela.
– Por que não? – Subi uma perna na cama.
– Ah, Danny. – Ela suspirou, se sentando novamente. – Tudo está muito recente, mas a gente vai ter que começar a dividir as coisas. – Ela apoiou as mãos em minha perna.
– Que coisas? – Franzi a testa.
– Você se lembra quando você namorava a senhora Godzilla. – Ri fracamente. – Ela nunca estava conosco nos papos de amigos. Nos comentários nada discretos sobre a relação de vocês, comentários sobre sexo, tudo… Somos amigos, sim, mas em alguns momentos não vamos ser mais. – Ela ergueu os olhos para mim. – Inclusive, em vários momentos lá na Austrália, eu me afastava um pouco, porque é papo de homem, não tem nada a ver. – Ela suspirou. – É bom a gente fazer essa divisão logo cedo. Suas saídas com eles, nossas saídas como amigos e nossas saídas como isso… – Ela deu um rápido beijo próximo de meus lábios.
– E vocês com eles? – Ela deu de ombros.
– Foi interessante ver como eles estão muito curiosos sobre isso. – Ela riu gostoso. – Mas somos amigos ainda, só precisamos aprender a lidar com isso…
– Parece tão fácil… – Acariciei sua bochecha com o polegar.
– É… Mas pode não ser também. – Ela suspirou.
– Eu gostei muito disso… – Sussurrei, roçando meu nariz no seu.
– Eu também, e as coisas estão bagunçadas ainda, mas como você mesmo disse, Mônaco foi só a sexta corrida do calendário, tem muita coisa para acontecer até o fim do ano… – Ela disse baixo.
– Você acha que podemos dar errado no meio do caminho? – Ela suspirou.
– Você diz em um relacionamento? – Assenti com a cabeça. – Eu não sei, honestamente. – Ela levou a mão até minha nuca. – Sempre nos demos muito bem, Danny, mas a gente não passa um ano inteiro juntos há uns 10 anos… – Suspirei. – Mas a gente se dá bem, sempre nos demos, mas lidar com um relacionamento é algo totalmente diferente, requer muito mais. – Assenti com a cabeça. – E você sabe que eu sou exigente. – Ri fracamente.
– Sei bem. – Dei um curto selinho em seus lábios, sorrindo em seguida. – E eu sempre soube lidar com você, seus estresses, seus pesadelos… O que mudaria agora? – Dei outro selinho, vendo-a sorrir.
– Agora você pode me ver nua. – Ela brincou e ri fracamente.
– E posso brincar com isso. – Ela assentiu com a cabeça.
– É… Você pode! – Nossos lábios se tocaram mais uma vez, mantendo-os pressionados por alguns segundos antes de nos afastar. – Vai terminar de se arrumar, vou enviar aqui e podemos namorar um pouco na cama antes de eu dormir.
– Já volto. – Falei, dando outro rápido beijo em seus lábios antes de me levantar.
Pisquei para ela, pegando minha roupa ao seu lado e ela sorriu antes de colocar os óculos novamente. Eu sei o quanto estou apaixonado por Harper quando, ao vê-la de moletom largo, meia e os óculos de grau, continuavam deixando-a incrivelmente linda. Desviei o rosto quando ela voltou a digitar no notebook e ajeitei as roupas no protetor antes de ir para o banheiro.
Escovei os dentes, renovei o desodorante e o perfume antes de colocar um moletom e uma camiseta. Passei as mãos nos cabelos, bagunçando-os um pouco antes de sair do quarto. Harper deixava seu notebook na escrivaninha e se virou para mim.
– Hum, está cheiroso. – Dei de ombros.
– Completamente sem intenções.
– Ah, é claro! – Ela riu fracamente. – Só vou ao banheiro. – Assenti com a cabeça e nossos lábios se tocaram mais uma vez.
É, acho que posso me acostumar muito rápido com isso, inclusive em um relacionamento. Não que estava nos meus planos me apegar em um relacionamento um ano depois de sair de um longo, mas tem coisas que não dá para controlar e agradeço muito por não dar.
Fui até a janela, olhando rapidamente lá embaixo, vendo o horizonte de Londres iluminado antes de fechar as cortinas. Tirei o edredom da cama e me sentei do lado contrário que Harper estava. Fiz uma rápida reza e virei as pernas para dentro do edredom. Harper saiu logo em seguida do banheiro e tirou o moletom de cima, revelando uma regata de alcinhas que realçava seus seios e isso me fez rir.
– O quê? – Ela perguntou, se sentando ao meu lado.
– Toda vez que eu olho para você, não importa sua roupa, eu te acho a mulher mais linda do mundo. – Ela riu fracamente. – Não me entenda mal, você sempre foi linda, mas…
– Quando as coisas mudaram, certo?! – Ela se deitou ao meu lado, puxando o edredom consigo.
– É… – Falei e ela me abraçou pela cintura, apoiando a cabeça em meu braço.
– Só tem uma palavra para isso, Daniel, e você sabe qual é… – Ri fracamente, dando um beijo em sua cabeça.
– E você disse para ir devagar. – Rimos juntos.
– Eu digo, não quer dizer que nosso cérebro vai obedecer. – Sorri, abraçando-a pela cintura com a mão livre.
– É, pelo visto não. – Suspirei.
– E você está ok com isso? – Ela perguntou baixo…
– Como assim? – Perguntei.
– Os sentimentos, o possível relacionamento, as responsabilidades com isso…
– Eu estou bem, de verdade. – Apertei-a com mais firmeza. – Meu coração está em paz, Harp. De verdade, eu não me lembro de estar na cama com uma mulher com três dias de… Relacionamento, vamos dizer, e não estar pensando o que eu faria na manhã seguinte. Se eu estava interessado o suficiente, se ela estava interessada o suficiente, se eu deveria fugir de manhã, se ela fugiria de manhã… – Ela riu fracamente. – Eu estou em paz… E eu estarei aqui na manhã seguinte.
– Bom, porque você vai pagar a conta do hotel. – Ri fracamente.
– Ok, é justo. – Ela riu fracamente. – E eu estou interessado o suficiente, Harp… – Ela ergueu o olhar para mim.
– Eu sei, Danny. – Ela deu um sorriso com os lábios pressionados. – Eu consigo sentir. – Ela apoiou a mão em meu peito, próximo do coração e sorri. – Eu também… – Nossos lábios se tocaram por alguns segundos.
– Eu também. – Repeti e ela sorriu antes de apoiar a mão em meu rosto e entreabrir os lábios. Minhas mãos a apertaram pela cintura e logo nossos corpos estavam se virando juntos na cama.
Nova York, Estados Unidos
Harper
Suspirei, girando o corpo na cama e apoiei a mão no vazio. Entreabri um olho, vendo meu lado da cama vazio e ergui o rosto, procurando por Daniel, encontrando somente a janela entreaberta e uma fresta do sol de Manhattan entrando por ela. Sentei na cama, virando o rosto e encontrei-o do outro lado da cama, arrumando sua mala.
– E-e-ei… – Falei alongado, bocejando em seguida. – Já vai?
– Logo mais. – Ele sorriu, fechando a mala e veio até a beirada da cama, apoiando as mãos nela antes de se aproximar e aproximou nossos rostos. – Os caras estão enrolados ainda.
– É claro… – Ri fracamente, erguendo a mão para seu rosto e acariciei-o antes de colar nossos lábios.
– Bom dia, Harp. – Sorri, me espreguiçando.
– Bom dia, Danny. – Suspirei, puxando o edredom mais para cima enquanto me esticava toda na cama. – Ai, estou acabada.
– Por quê? Nem fizemos nada ontem. – Ri fracamente, suspirando.
– Só cansada, talvez eu fique um pouco mais na cama depois que vocês saírem. – Ele assentiu com a cabeça, se sentando na beirada da cama.
– Descansa, baby. Para alguém que nunca acompanhou uma temporada, você está aguentado bem demais. – Suspirei.
– Logo tem as férias, dá para eu dormir um pouco… – Dei de ombros.
– Não se eu deixar… – Ele inclinou o corpo em minha direção e apertei seus braços descobertos por causa da blusa regata.
– Se voltarmos para casa, não vai dar para aproveitar tanto, querido. – Falei e ele fez uma careta.
– Já falei o tanto que eu amo seu apartamento? – Gargalhei.
– É, certo… – Neguei com a cabeça. – Sempre reclamou dele, aí mora em uma caixinha de leite em Mônaco…
– Bem… Mas é Mônaco! – Neguei com a cabeça. – Você vai ficar bem sem mim? – Ele perguntou, acariciando minha barriga.
– Baby… – Ri fracamente, me sentando na cama, deixando o edredom cair em meu colo. – Eu passava um ano inteiro sem você. – Passei a mão em seu rosto. – Eu pego o voo amanhã cedo, te encontro para o almoço.
– Você vai estar para a reunião?
– Você quer que eu esteja contigo na reunião? Não vai ser tão fácil… – Ele me abraçou pela cintura.
– Sim, quero. Michael também. Eles precisam me mostrar reais mudanças e quero que vocês sejam meus cúmplices, qualquer coisa. – Assenti com a cabeça, colando meus lábios em seu rosto por alguns segundos.
– Não se preocupe, eu acho que a Maria pegou o voo das sete para mim, até oito e meia eu estou em Montréal e dá uma meia hora até o circuito. – Ponderei com a cabeça.
– É por aí. – Ele disse.
– Minha primeira vez no Canadá, sabia?
– Sério? – Ele disse rindo. – Você nunca foi para Montréal?
– Nunca! – Neguei com a cabeça rindo.
– Minha primeira vitória foi lá… – Sorri, acariciando seus cabelos com uma mão.
– Eu sei. – Sorri. – Lembro quando sua mãe me ligou, eu estava na América do Sul, me preparando para jantar. – Ri fracamente. – Eu literalmente saí desesperada para a primeira televisão que eu vi, pedindo para colocar na corrida. – Suspirei. – Não acredito que eu perdi isso.
– Como você mesma diz: eu sou jovem e pretendo ganhar muito mais corridas. – Sorri, sentindo nossos lábios tocar por alguns segundos. – E você vai estar comigo. – Assenti com a cabeça.
– Sim, vou. Quem sabe não temos mais sorte nesse fim de semana? – Ele acariciou meu rosto.
– Tomara! – Rimos juntos. – Eu quero deixar algo contigo…
– É só uma noite, Daniel… – Falei rindo e ele virou o rosto para sua mala, pegando algo antes de me esticar sua pelúcia do honey badger e fiz um pequeno bico.
– Eu te dei isso. – Suspirei, erguendo o rosto para ele, que assentiu com a cabeça.
– E eu ainda levo em toda corrida. – Sorri. – Para não se esquecer de mim. – Aproximei a pelúcia perto do rosto e sorri ao sentir o cheiro de seu perfume.
– Tem seu cheiro…
– Eu espirrei um pouco de Baie 19 nele. – Ri fracamente.
– Ah, agora está explicado. – Sorri. – Isso é fofo, sabe?!
– Eu sou fofo. – Ele abriu um largo sorriso, me fazendo rir.
– É um novo Danny para mim. – Ele roçou nossos lábios.
– Tem mais de onde veio isso. – Ri fracamente.
– Eu esperarei ansiosamente. – Falei antes de colar nossos lábios em um pressionar mais longo. – Tomem cuidado, ok?! Não bebam, não dirige, vai devagar… – Ele riu fracamente.
– Ao menos isso eu sei que estou falando com minha amiga. – Sorri.
– Isso não vai mu…
– Vam’bora, Daniel! – Virei o rosto para a porta, vendo Blake abri-la com força. – Ai, o casalzinho. – Ri fracamente.
– O quê? – Danny perguntou, virando o rosto e apoiei meu rosto no dele.
– Vamos? – Ele perguntou. – Deve estar uma delícia aí, mas precisamos ir…
– Me dá dois minutos. – Danny disse.
– Cara, eu tenho que dizer, é estranho para caralho ver vocês assim. – Ele disse, me fazendo gargalhar.
– Cala a boca! – Danny disse.
– O que é estranho? – Ouvi a voz de Michael e ele apareceu na porta novamente. – Ah, com toda certeza. – Ri fracamente.
– Ei, vocês dizem que queriam a gente junto na época da escola, agora que aconteceu…
– Não, não, espera! – Michael disse. – Desde aquela esperança até hoje, passou uns 12, 13 anos. – Ri fracamente. – Foi naquele beijinho de vocês…
– Muita coisa aconteceu desde aquilo. – Falei.
– Pois é! Muita coisa que a gente achava que isso nunca ia acontecer. – Michael disse e Alex e Tom se juntaram aos dois na porta.
– Você tem muito para explicar, senhor Daniel! – Tom falou, me fazendo rir.
– Boa sorte com isso. – Sussurrei, ouvindo-o suspirar.
– Você deveria ter contado para eles no dia do evento. – Dei de ombros.
– Vocês têm sete horas de viagem, dá para contar todos os detalhes umas 200 vezes. – Ele riu fracamente.
– Garanto que eles vão querer saber de todos os detalhes. – Ele disse, focando em meus olhos. – Todos.
– Você pode esconder algumas coisas… – Sussurrei.
– Dá para ouvir vocês ainda. – Blake disse e estiquei o dedo do meio para eles. – Ah, ótimo, agora são dois. – Ri fracamente, vendo que Danny fez o mesmo.
– Divirtam-se, ok?! – Falei, virando o rosto para os meninos novamente. – E tomem cuidado.
– Pode deixar. – Michael disse sério e assenti com a cabeça, virando para Danny.
– A gente se vê amanhã. – Falei para ele.
– Combinado. – Ele roçou nossos lábios, mas parou, virando o rosto para porta. – Dá licença? – Ri fracamente, virando o rosto também e os quatro saíram da frente da porta. – Vai ser difícil.
– Eles não estarão conosco no Azerbaijão… – Dei de ombros e ele riu.
– Ainda bem! – Colamos nossos lábios e minhas mãos foram para sua nuca. Nossas línguas se encontraram com mais rapidez dessa vez e já sabia que sentiria saudades desse beijo hoje à noite.
E seria só uma noite.
Eu estou ferrada, eu sei!
– Me avisa quando chegar lá. – Pedi.
– Pode deixar. – Ele colou nossos lábios mais uma vez. – Descansa, nos falamos de noite.
– Combinado, eu vou sair para almoçar, provavelmente café e jantar também, tentar compensar bastante para aproveitarmos depois que esses chatos forem embora.
– EI! – Eles gritaram e neguei com a cabeça, vendo eles aparecerem pela porta.
– CAI FORA! – Danny gritou e ri fracamente.
– Vai! Eles não vão parar de encher o saco! – Ele riu fracamente.
– Te vejo amanhã. – Colei nossos lábios rapidamente.
– Até amanhã. – Sorri e ele se levantou novamente, terminando de fechar a mala e a colocou no chão.
– Se cuida. – Ele disse sério.
– Você também. – Sorri. – Boa viagem, caras! – Falei um pouco mais alto.
– Obrigado, Harp! – Eles responderam da porta novamente, me fazendo rir.
– Me deseje sorte. – Ele perguntou e ri fracamente.
– Nem vem! – Falei, ouvindo-o rir.
– Até amanhã. – Ele deu uma piscadela e acenei com a mão, vendo-o puxar a mala consigo.
Esperei Danny sair pela porta e suspirei, deitando meu corpo novamente. Senti o cheiro do perfume de Danny e abracei a pelúcia de honey badger que eu dei para ele há alguns anos e suspirei.
Ah, Daniel. O que você está fazendo comigo?
Em algum lugar na I-87 N, Estados Unidos
Daniel
– OH! OH! CALEM A BOCA! – Blake gritou, fazendo as cantorias exageradas dentro do carro reduzirem enquanto ele abaixava o volume.
– Pô, cara, não fode! – Michael disse.
– Eu não sei vocês, mas eu quero saber as fofocas agora! – Blake me olhou pelo espelho retrovisor.
– O quê?! – Olhei em volta.
– Tem que ser o fofoqueiro! – Tom disse, empurrando a cabeça do motorista, nos fazendo rir.
– Ah, nem finja que você não sabe do que estamos falando! – Blake disse, batendo na mão de Tom.
– Ah, porra, cara! – Suspirei, tombando a cabeça para trás. – Não vou falar disso.
– Ah, vai! – Alex gargalhou ao meu lado. – Até eu estou curioso com isso, fala sério! – Ele riu fracamente.
– Eu estou curioso, mas também estou achando muito estranho. – Michael falou rindo e neguei com a cabeça.
– Vamos, Danny boy! Desembucha vai! Alguns esperam por isso desde os 12 anos! – Blake disse, me fazendo rir.
– Cara, nem eu esperava tanto tempo por isso. – Falei rindo. – Não foi planejado, sei lá, só aconteceu.
– Quero detalhes, vai! A Harper ficou quieta o jantar inteiro e ainda mandou a gente calar a boca…
– Calem a boca! – Falei.
– Não! – Blake continuou a frase e suspirei.
– Vamos, Daniel! Desembucha aí. – Ri fracamente.
– Cara, eu até falo, mas o Jason não pode saber disso, porque para ele contar para minha irmã é dois minutos e a gente não está pronto para lidar com isso ainda. – Ri fracamente.
– O que é isso? – Tom perguntou e suspirei, bufando fracamente.
– Cara, eu não sei, acho que é um relacionamento…
– UOU! – Eles gritaram e franzi o rosto.
– O quê?! – Perguntei, confuso.
– Relacionamento? – Michael falou rindo. – Achei que as coisas estavam indo mais devagar. – Ri fracamente.
– Eu não sei, mas é Harper, cara. – Ri fracamente. – Além de ser bom para caralho, é a Harper, se a gente parar de fazer isso, o que vai acontecer conosco? – Dei de ombros. – Nossa amizade sobrevive a isso? – Ri fracamente. – Passamos todos as linhas possíveis, não tem como voltar atrás.
– To-o-o-odas? – Blake perguntou rindo.
– Ah, porque tenho certeza de que eles ficaram só conversando no iate. – Michael zoou e revirei os olhos.
– Danny boy e Harp, hein?! Quem diria! – Alex passou o braço em meus ombros e ri fracamente.
– Ah, cara, é bom para caralho. – Suspirei.
– HÁ, HÁ, HÁ, HÁ! – Eles gargalharam alto, me fazendo rir.
– Então a senhorita Harper Elizabeth Addams é boa na cama, hum?! – Neguei com a cabeça, tentando conter a risada.
– Cala a boca… – Neguei com a cabeça.
– Vamos, Danny! Fala mais! – Blake disse rindo e suspirei. – Como essa porra começou?
– Eu não tenho certeza, mas na quarta corrida eu já estava caidaço por ela.
– “Apaixonado” foi a palavra que ele usou! – Michael disse e apertei as mãos no rosto.
– APAIXONADO?! – Eles gritaram novamente, e suspirei.
– É… – Suspirei. – Eu não consigo nem negar, estou de quatro por ela. – Ri fracamente.
– Literal ou…
– Cala a boca, cara! – Bati em Tom. – Estamos falando da Harper, mesmo antes de tudo, não fala assim dela…
– Não estou falando dela, estou falando de você! – Eles riram. – Da última vez que eu te vi assim, foi no ensino médio com a Jemma.
– Eu nunca fiquei assim pela Jemma. – Ri fracamente. – É diferente, cara! – Suspirei. – Eu, honestamente, consigo ver um futuro com Harper.
– UOU! – Eles gritaram e neguei com a cabeça.
– Não dizendo que vamos nos casar agora ou algo… Mas posso ver um casamento no futuro… – Ponderei com a cabeça. – É só bom… – Dei de ombros. – A gente se entende.
– Talvez seja por isso que é muito bom. – Blake falou sério. – Vocês se conhecem a vida inteira, vocês sabem tudo do outro.
– E mesmo assim sinto que não sei nada dela, é engraçado. – Suspirei. – Mas é… É, é bom. – Ri fracamente.
– Você sabe que a gente quer saber os detalhes, né?! – Michael falou e olhei-o pelo espelho.
– Até você? Fala sério!
– Ah, cara, eu não sei muito não, só sei que vocês foram para o iate no sábado, se beijaram lá e que transaram no domingo.
– E quer saber mais? – Falei rindo.
– Hum, dã! – Ele disse rindo e sorri com ele, dando um longo suspiro em seguida.
– Eu já estava olhando para ela de forma diferente, mas fomos para Mônaco antes da Rússia, só eu e ela, e tivemos tudo que um casal tem, saímos para almoçar juntos, depois fomos na casa do Massa e todos os pilotos perguntavam dela e isso acabou ficando na minha cabeça, acho que o sentimento surgiu dali. – Dei de ombros. – Mas é difícil nessa situação, estou gostando da minha melhor amiga, se eu beijar e não gostar ou ela achar estranho, a amizade acaba… – Suspirei. – E são 24 anos para simplesmente acabar assim, eu precisava ter certeza…
– E como foi até chegar lá no iate? – Blake perguntou e suspirei.
– É um pouco nublado para mim, mas nós conversamos, tiveram climas… – Ponderei com a cabeça. – Até chegar na Espanha, eu pensei ter visto ela beijando um cara, fiquei puto, levei uma mina para o hotel e tudo ficou claro…
– Tudo ficou claro e ela quase meteu um soco bem-merecido na tua cara. – Michael disse sério.
– O que aconteceu? – Suspirei.
– O cara beijando ela era um idiota interessado em outra coisa… – Sacudi a cabeça, tirando as memórias. – Ela chorou, me ignorou, eu fiquei mal para caralho, achei que as coisas tinham terminado ali, amizade ou o que é que estava acontecendo, a corrida foi uma bosta, Max venceu… – Suspirei. – Mas ela me deu uma nova chance e eu consegui usar Mônaco ao meu favor. – Dei de ombros. – A gente estava tentando escapar desde terça dos meus pais e de Mi, depois da classificatória deu certo, a levei para o iate e rolou…
– AI, DANNY! – Eles gritaram, me fazendo rir.
– E no domingo? Desembucha, vai. Seu sumiço não foi só-ó-ó da corrida. – Ri fracamente com Tom.
– Honestamente foi, mas vocês sabem que a Harper é a única que me acalma, vai…
– Sabemos… E COMO! – Blake falou gargalhando e ri fracamente.
– Eu não planejei isso, mas aconteceu. – Dei de ombros. – Eu estava curioso, ela também… – Suspirei. – Não colocamos um nome na nossa relação, mas nos beijamos, transamos, é bom para caralho, tem a parte da amizade que tira toda aquela pressão de conhecer a pessoa… Eu estou em paz, caras. – Ri fracamente.
– Isso é louco para caralho, de verdade, mas é legal. – Blake disse rindo. – Eu honestamente achava que vocês ficariam juntos depois do rolo da Jemma no ensino médio, cara.
– Pior é que eu nunca pensei nisso e ela disse o mesmo, éramos realmente só amigos até uns dois meses atrás. – Dei de ombros. – A vida acontece de umas formas estranhas, mas estou feliz que aconteceu. – Dei um curto sorriso.
– Aí, Danny boy! Está amadurecendo enfim. – Tom disse e ri fracamente.
– Não sei se a palavra certa é amadurecer, eu sempre lidei bem em relacionamentos, vai. – Falei rindo.
– É, justo! Esperamos que você lide bem com isso, vocês parecem felizes e são incrivelmente bonitos juntos. – Alex disse, me fazendo rir.
– Sabe como é, né?! Eu, ela… Somos bonitos assim! – Dei de ombros, ouvindo eles rirem e senti uns tapinhas em minha cabeça.
Montréal, Canadá – Quinta-feira
Harper
– Mercí! – Acenei para o motorista do táxi antes de pegar a mala de rodinhas e arrastá-la pelo chão, olhando para o longo caminho até o paddock. – Hum… Droga!
Sair de Mônaco e chegar em Montréal não podia ter sido a pior escolha possível. O clima em Mônaco estava úmido, mas estava quente e ensolarado, mas aqui estava frio para caramba e chuviscando desde o momento em que o avião pisou no solo. E se eu não tivesse mais coisas para reclamar além de não sentir meus pés dentro da bota, mãos dentro das luvas, rosto escondido embaixo do cachecol e cabeça coberta pelo gorro, a entrada do circuito Gilles Villeneuve era bem mais longe do que eu estava acostumada.
Talvez por ser australiana, meus limites com o frio são quase inexistentes, mas esse vento vindo de todos os cantos e esses rios e lagos ou, sei lá o que é essa porção de água, não ajudavam em nada! Quando eu cheguei na entrada do paddock, eu já tinha virado um picolé e acho que a mala tinha colado na mão.
Bati o crachá no leitor e passei a catraca, feliz por não ter tantos fãs e nem fotógrafos ali. Eu só queria dormir depois de passar boa parte da madrugada papeando com Danny pelo FaceTime, além desse frio que só me dava mais vontade de trabalhar, pois podia me esconder em um restaurante quentinho com uma comida boa, morna e relaxar… Mas Danny precisava de mim agora.
– Ah, um rosto conhecido! – Suspirei ao encontrar Maria na frente do prédio da Red Bull.
– Chegou, hein?! – Suspirei.
– Ah, é muito longe! – Puxei a mala pela rampa ao me aproximar dela, sentindo o interior quente me acalmar um pouco. – Demorei?
– Um pouco, mas normal, Daniel está te esperando. – Ela me esticou um copo.
– Agora? O que é isso? – Falei rapidamente.
– Café quente para você aguentar a reunião e se esquentar… – Ela entregou uma embalagem de papel. – E um croissant, imagino que tenha dormido no voo.
– Como sempre! – Falei, tirando a mochila das costas e colocando na primeira mesa que vi. – Como está o clima lá?
– Hum… – Ela ponderou com a cabeça. – Christian e a equipe estão envergonhados, é mais uma questão geral… Vamos?
– É… Claro! – Peguei a embalagem de sua mão e dei um curto gole no café quente, sentindo meu corpo esquentar imediatamente e suspirei. – Ok, estou pronta…
– Eu não diria isso com tanta facilidade se fosse você… – Ela falou mais para si mesma e ponderei com a cabeça, apressando o passo para andar ao lado dela. – Essas reuniões não são nada fáceis.
– A equipe do Max vai participar?
– Não, eles estão bem longe daqui! – Ela abanou a mão e atravessamos a rua do paddock, chegando na casa da árvore – outro motorhome de apoio com foco em assuntos de corrida.
– Danny está sozinho? – Perguntei, entrando em sua frente quando ela abriu a porta.
– Não, Michael e Blake estão aqui… – Assenti com a cabeça, suspirando. – Você pode subir. – Ela indicou a escada.
– Não vai?
– Estou logo atrás de você. – Ela disse e suspirei antes de colocar as pernas para funcionar.
Eu já tinha participado de algumas reuniões pré e pós-corrida, mas não uma reunião de “eu tirei suas chances de ganhar”, mas sabia que Danny precisava desse tipo de ajuda. Comecei a ouvir algumas vozes baixas nos últimos degraus e empurrei a porta devagar, vendo uma equipe grande de homens aparecer em minha frente, inclusive Danny, Michael e Blake sentados nas poltronas fora da mesa de telemetria.
– Harper! – Danny sorriu.
– Desculpe o atraso… – Falei baixo quando ele se levantou. – Eu me distraí no aeroporto…
– Não se preocupe… – Ele sorriu, me abraçando pela cintura. – Está com frio? – Assenti com a cabeça.
– Muito! – Falei rindo e ele sorriu.
– Logo esquenta, fica perto do aquecedor… – Ele indicou com a cabeça. – Senti sua falta… – Ele falou em um sussurro.
– Eu também. – Repeti e ele segurou minha nuca antes de colar nossos lábios por alguns segundos.
– UH!
– YHA-A-A! – Ri fracamente com alguns gritos vindo do grupo de homens e meu rosto esquentou.
– Desculpe por isso… – Neguei com a cabeça.
– Está ok… – Falei, virando o rosto para os homens, percebendo os mecânicos ali.
– Achei que era sua melhor amiga, Danny boy! – Nigel disse, me fazendo rir.
– Só sua amiga! – Brad entrou na dele, nos fazendo rir.
– Hum… Então… – Danny disse rindo. – Algo mudou aqui! – Ri com ele, sentindo-o me abraçar pelos ombros.
– Podemos ver! – Christian disse rindo.
– Prometo que isso não vai afetá-lo. – Falei rapidamente.
– Não se preocupe com isso agora, Harper. – Maria disse e assenti com a cabeça.
– Temos coisas mais sérias para lidar, não? – Christian disse e as risadas pareceram ficar presas na garganta.
– É, claro! – Danny disse e dei um olhar firme para ele.
– Se lembra do que conversamos… – Sussurrei, dando um curto beijo em sua bochecha com a barba bem-feita e ele confirmou com a cabeça.
Nos separamos e ele se aproximou da mesa. Michael e Blake vieram logo atrás e cada um me deu um abraço antes de seguirmos até a mesa também. Me sentei ao lado de Danny, deixando o café e embalagem com o croissant na mesa para colocar os fones. Tomei um gole do café quente e Danny procurou minha mão livre, entrelaçando os dedos e deixando-as em minha coxa, me fazendo sorrir para ele.
– Ok, eu preciso começar isso… – Christian disse e virei meu rosto para o chefe de equipe. – Não tem nada mais para dizer para você do que desculpas, Daniel. – Apertei as mãos dele. – O pit stop do Max não estava planejado, então acabamos correndo com os pneus dele, mas você precisava ser chamado e acabamos chamando, mas não tínhamos percepção de que você estava tão perto. – Ele suspirou. – A disposição da estufa de pneus e de toda garagem é diferente em Mônaco e ajudou com a confusão.
“Não tivemos intenção nenhuma, de nenhuma parte, que isso acontecesse, não foi algo proposital. Sua vitória é a vitória da equipe, sua derrota é a derrota da equipe, então não foi nada contigo. Na Espanha também. Sempre falamos que um lado da equipe tem a melhor estratégia do que a outra e isso acontece muito. Somos uma equipe, não tem por que pensar do contrário. É completamente irreal pensar que algo foi feito para prejudicá-lo.” – Virei o rosto lentamente para Danny, tentando analisar os lábios pressionados no semblante sério de Danny.
– Mas a bagunça na garagem, Christian, não é de hoje. – Danny disse. – Estamos falando sobre isso tem um bom tempo já…
– Nós conversamos sobre isso também, Daniel… – Simon falou. – Na verdade, conversamos muito durante seu descanso. Nós viemos com sugestões reais do que podemos mudar para que nada aconteça novamente. – Ele disse sério.
– Claro, podem me mostrar? – Danny perguntou sério.
– Com certeza. Tem um arquivo para abrir no computador… – Simon disse e minha mão e de Danny se afastaram quando focamos no computador. – Quero que todos abram o arquivo um… – Ele disse e abri, vendo uma planta 3D da garagem. – Esse é o layout da garagem em dias de corrida. Agora passem para o lado direito, por favor… – Ele disse e mudei, vendo o espaço bem mais vazio do que hoje. – O plano é deixar assim…
– Como? – A voz de Danny saiu antes da minha.
– A começar com visitantes, não que seja o problema inicial aqui, mas vamos restringir passagem de pessoas que não precisem trabalhar durante a corrida. Em caso de mais de três membros da família, vamos mudar para a sala do lado da telemetria. O espaço é maior, dá para colocarmos mesas e sofás para melhor conforto, além de livrar espaço dentro da garagem. – Assenti com a cabeça no automático.
“Com mais espaço livre, a equipe que não estiver no pit wall será colocada em volta da garagem e a equipe para os pit stops estará sozinha na parte da frente da garagem. Com base nas estratégias, cada chamada de pit stop terá um conjunto preparado e, a cada troca, outro já vai ser trazido imediatamente da estufa, mesmo que não seja usado. Além de outras partes que podem precisar ser trocadas”.
– Queremos tentar também a chamada para o pit stop com uma volta de antecedência, mas precisamos ver em que situação isso seria usado, já que dependemos de tantas variáveis… – Percebi que Danny assentiu com a cabeça.
– É… – Ele disse. – É um começo.
– Vamos continuar… – Simon falou e mudei a imagem.
Daniel
– O que acha sobre o que eles falaram? – Ouvi a voz de Harp.
– Eu não sei… – Suspirei, me ajeitando na cama. – Eles pareciam honestamente preocupados em me fazer confiar neles de novo, mas…
– Eu achei o mesmo. – Ela disse e suspirei.
– Mas eu preciso ver isso em ações, não dá para eu fechar os olhos e ser simpático só porque eles mostraram meia dúzia de possíveis mudanças, preciso ver como vai ser durante a corrida. Eu subi para terceiro no campeonato de novo, é bom, mas ainda temos 14 corridas e…
– Eu sei que você quer ver coisas para amanhã e que uma corrida ruim pode alterar tudo… – A vi sair do banheiro, jogando os cabelos para trás. – Mas as mudanças acontecem devagar… – Sorri com a calça de moletom cinza e a camiseta de manga comprida da mesma cor.
– Eu sei, eu sei… – Falei rapidamente, suspirando. – Eu só preciso me preparar, estamos entrando em junho, o meio do ano logo está aí, as equipes começam a mudar os pilotos, preciso me preparar se algo ruim for acontecer.
– Não seja imediatista, baby… – Ela se ajoelhou na cama, engatinhando em minha direção. – Seu contrato atual com eles é até quando?
– 2018. – Suspirei.
– Respira, então… – Ela se sentou em minha frente. – Dê um voto de confiança… – Suspirei.
– Sim, sim, eu vou dar até as férias… São umas seis corridas… – Ela confirmou com a cabeça. – Eu só quero esquecer que aquilo aconteceu, honestamente. – Ela esticou uma perna ao meu lado.
– Sim, vamos seguir em frente… – Ela segurou minhas mãos. – Só não esquece o que aconteceu depois daquilo… – Rimos juntos e me aproximei dela, passando minhas pernas ao redor de seu corpo.
– Vai ser impossível esquecer aquilo. – Segurei seu rosto. – Na verdade, a melhor coisa que aconteceu naquele fim de semana foi isso aqui. – Ela sorriu e colei nossos lábios em um curto selinho. – Eu senti sua falta. – Colei minha testa na dela, ouvindo sua risada fraca.
– Como foi com os caras? – Ela passou as mãos em meus ombros, deslizando pelos braços.
– Sete horas preso com quatro deles em um carro já é difícil, mas metade foi dedicado a ouvir músicas estranhas e metade falando de você… – Ela negou com a cabeça.
– Senti minhas orelhas esquentando mesmo. – Ri fracamente, abraçando-a apertado.
– Eles já sabem tu-u-udo. – Sorri.
– E o que seria “tudo”? – Ela girou o corpo na cama e apoiou a cabeça em meu ombro.
– Como foi nosso beijo, que já tivemos nossa primeira vez e que, daqui em diante, vamos andar juntos, para o que der e vier. – Dei um beijo em sua bochecha.
– Gostei disso, sabe?! – Ela suspirou e passei minhas pernas pelas suas. – É simples… Fácil de guardar.
– Acho que é o mínimo… – Falei perto de seu ouvido. – Quero conhecer você de novo, Harper. Saber em detalhes do que você gosta ou não. – Ela suspirou, fechando os olhos.
– Não muda muita coisa, Danny… – Ela se ajeitou, colando as costas em meu peito. – Eu não namoro desde a faculdade e não foi lá um grande relacionamento. – Ri fracamente. – É quase um novo terreno para mim…
– Você é muito diferente do que Jemma, então acho que é um terreno novo para mim também…
– Eu sou ciumenta! – Ela disse rapidamente, me fazendo rir. – Então, por favor, não fale nela. – Ela negou com a cabeça e sorri. – Mas aposto que vai ser interessante para você, sair de algo com ela e entrar comigo. Nunca fomos parecidas, nem a cor dos cabelos… – Sorri.
– É… Só me faz perceber que eu me interessei pela pessoa errada desde o começo.
– Somos amigos, Danny… Éramos amigos, eu não sei. – Deslizei o nariz pelo seu pescoço. – Como dissemos antes… Isso nunca foi sequer cogitado, nosso ciúme nunca foi com o interesse romântico… – Ela deu de ombros. – A vida é feita de formas engraçadas e precisamos só aceitar o que vem…
– Bem, fico feliz pelo destino ter esperado quase 27 anos para isso acontecer, algo que sabemos lidar muito melhor. – Falei baixo, ouvindo-a rir.
– Bem, não estamos gritando em desespero ainda, já é um começo. – Rimos juntos.
– Ainda! – Falei firme, abrindo um largo sorriso. – Mas tenho que corrigir algo que você disse, Harp… Somos amigos ainda. – Dei um beijo em seu rosto. – E creio que isso torna algo muito especial…
– Podemos prometer algo? – Ela ergueu o corpo, se virando para mim.
– O quê? – Segurei sua mão.
– Que vamos continuar nos tratando como amigos, independente do que acontecer. – Ela passou a mão livre em meu rosto.
– Não posso prometer isso, baby. – Falei. – Não quando meus pensamentos estão em você nua. – Ela abriu um largo sorriso. – Mas acho que posso agir como ambos. O amigo tonto. – Abri um largo sorriso. – E o namorado sério… – Fechei o sorriso, mantendo o rosto sério e ela negou com a cabeça.
– Eu estou ferrada, então. Porque ambos me excitam atualmente. – Ela colou nossos lábios e sorri.
– Ok, mas dá para fingir para as pessoas. – Ela assentiu com a cabeça e puxei-a para perto de mim pela cintura, colando nossos lábios, fazendo nossas línguas se encontrarem com mais rapidez.
– EI, CASAL! – Me assustei com duas batidas na porta e virei o rosto, vendo Tom aparecer com as mãos nos olhos. – Vamos assistir um filme e comer besteiras, vocês querem participar ou é hora de namorar? – Ri fracamente.
– Não estamos pelados, Tom, você pode… – Harper disse e ele abaixou as mãos devagar.
– Ah, ok! – Ele disse, me fazendo rir. – E então? – Ela virou o rosto para mim.
– O que acha? – Ela perguntou para mim.
– Vamos aproveitar enquanto eles estão aqui… – Sussurrei e ela assentiu com a cabeça. – Depois continuamos aqui.
– Combinado. – Ela sorriu, jogando as pernas para fora antes de se levantar. – Se vocês fizerem pipoca com chocolate, eu nem palpito sobre o filme chato que vocês vão escolher.
– MIKE, TEM CHOCOLATE? – Tom gritou e me levantei, rindo com Harper.
– UMA BARRA, POR QUÊ? – Michael respondeu.
– GUARDA PARA HARP! – Rimos juntos e dei as mãos para Harper.
– Vamos lá… – Ela sussurrou e sua mão foi para meu rosto rapidamente antes de ela dar um beijo em minha bochecha.
Saímos do quarto e bati a mão na luz, seguindo pelo corredor até a antessala do quarto conjugado. Chegamos na sala e nossos quatro amigos estavam lá, jogados nos sofás e a televisão ligada. Os rostos viraram para gente e largos sorrisos se formaram, junto de algumas risadas. Desci os olhos para nossas mãos e Harper fez o mesmo, fazendo nossos olhares se encontrarem quando erguemos o rosto novamente.
– Velhos hábitos nunca morrem. – Ela sussurrou, fazendo todo grupo rir.
– Não… – Sussurrei.
– É, mas criam significados novos com o tempo. – Blake disse sorrindo e assenti com a cabeça. – Guardamos o meio do sofá para vocês.
Indiquei o lugar com a cabeça para Harper e segui à sua frente. Desviei das pernas dos caras antes de me sentar no espaço de antes e Harper ao meu lado. Esticamos as pernas na mesa de sempre e ela me abraçou pela barriga, apoiando a cabeça em meu ombro.
Quem olhar de fora, veria seis melhores amigos de infância assistindo a algum filme e rindo das piadas mais idiotas e besteirentas possíveis, nada de novo, na verdade. Mas o que não conseguem ver é que as batidas do meu coração mudaram, e tudo por causa dela.
Capítulo 20
Perth, Austrália, 2005
– DANIEL! – O garoto desviou o rosto para a rua, encontrando o carro de sua mãe.
– Eu tenho que ir! Nos falamos amanhã? – Ele se levantou da mesa, colocando a mochila nas costas.
– Hoje não? – Jemma perguntou.
– Eu vou passar a tarde no kart, amanhã é melhor! – Ele se inclinou para colar seus lábios no de Jemma rapidamente.
– Tudo bem… – Ela abanou a mão visivelmente incomodada, mas o garoto não tinha o que fazer, seu pai estava investindo nele de verdade, precisava se comprometer. Então acenou para o restante do grupo da namorada antes de sair correndo até o carro da sua mãe. Enquanto isso, Grace desviava o rosto por todos os lados, procurando algo por entre os alunos.
– Oi, mãe! – O garoto disse, entrando no carro e jogando a mochila no banco de trás, mas sua mãe continuou impulsionando seu corpo para frente e para fora da janela. – Mãe! – Ele a chamou com firmeza.
– Oi! – Ela virou o rosto rapidamente. – Oi, querido! Me desculpe. – Ela afagou o cabelo do menino, dando um beijo em sua bochecha.
– Está tudo bem? – Ele perguntou, confuso.
– Eu só estou procurando por… – Ela abanou a cabeça. – Não é nada.
– Harper? – Ele falou fracamente e sua mãe ergueu o rosto.
– É. – Ela falou fracamente.
– Eu não a vi hoje. – Ele disse, dando de ombros. – Ela tem matemática comigo, mas não estava na sala, achei que fosse algo do cricket…
– Ah, droga! – Grace suspirou, apalpando o banco de trás e pegou sua bolsa.
– O que foi, mãe? – Ele perguntou, preocupado.
– Helena me ligou, Harper não voltou para casa hoje e não tinha treino de cricket. – Grace suspirou.
– Eu tenho certeza, mãe. Harper não apareceu na escola hoje.
– Ah, meu Deus! – A mulher disse apressada, discando o telefone de Helena Addams.
– O que está acontecendo, mãe? – Ele perguntou e sua mãe olhou para o menino, tentando manter o rosto sereno enquanto o telefone chamava. – MÃE! – Ele falou mais alto.
– Eles descobriram que a avó da Harper tem Alzheimer, querido. Aquela de Sydney. – O garoto entreabriu os lábios em choque. – E a Harper não está lidando bem com a notícia e… Helena?! – Grace falou rápido.
– Você a encontrou?
– Danny disse que ela não apareceu na escola, Helena!
– Mas eu a deixei aí hoje cedo! – A voz de Helena saiu pelo bocal sem dificuldades. – Ah, meu Deus! Onde ela foi parar?
– Eu não sei, Helena! Já tentou os lugares favoritos dela? As amigas?
– As mães disseram que as meninas não chegaram ainda também, mas que estão em outros tipos de eletiva. – Helena disse. – Ah, Senhor! Onde ela está?
O nervosismo em Danny cresceu da mesma forma que na mãe de Harper e da sua. Eles estavam afastados há um ano sim e faziam questão de se ignorar quando se aproximavam, mas ele sentia o peito doer como se estivesse sentindo por Harper. Ele tentou passar os lugares que estariam juntos e sua cabeça andou um tanto rápido, tentando lembrar os lugares fora da escola que tinha encontrado com a menina nesse último ano.
– City Beach… – Ele sussurrou.
– Não, Helena, calma! Eu vou te ajudar a procurá-la, vamos na polícia.
– MÃE! CITY BEACH! – O garoto falou alto demais.
– O quê? – Grace virou para ele.
– Me leva para City Beach, agora! – Ele disse firme.
– Helena, Danny acha que Harper está em City Beach, vamos para lá agora e te ligo. – Grace disse.
– Eu te encontro lá! – Helena disse rapidamente antes de desligar o telefone.
– Você tem certeza, filho? – Grace perguntou.
– Confia em mim, mãe! – Ele disse sério. – Aposto que ela está lá. – Grace não respondeu nada, somente ligou o carro novamente e guiou para onde o garoto disse.
Eles foram o caminho em silêncio, nem a música animava Daniel mais. Sua cabeça foi imediatamente para o problema que sua melhor amiga estava sofrendo. Ele nem sabia se eram amigos mais, ele tinha mancado bastante e não tinha nem coragem de olhar para ela direito, mas não estava nem aí para isso agora. Ela precisava dele.
– Vai devagar, mãe! – Ele pediu quando Grace caiu na rua da praia e o garoto abaixou o vidro para tentar ver por entre os restaurantes do calçadão. – Mais devagar, mãe… – Ele pediu e Grace preferiu ligar o sinal de emergência no carro para evitar carros buzinando em sua orelha. – ALI! – Daniel disse, abrindo a porta do carro.
– FILHO! – Grace freou quando o garoto saiu do carro em movimento.
Daniel desviou das poucas pessoas ali em volta e desceu por uma das rampas que dava para a areia, vendo a larga extensão de areia de City Beach, a praia mais próxima de sua casa e da escola. Foi fácil identificar Harper pela mochila vermelha e o taco de cricket enfiado dentro dela, mas, mais do que isso, o uniforme azul da escola e os cabelos em trança embutida a denunciavam com muita facilidade.
A garota estava com o corpo direto na areia e abraçava as pernas com força. As lágrimas já tinham parado de cair há algum tempo, mas ela não sentia vontade nenhuma de sair dali e voltar para realidade. Já tinha sido difícil ouvir de sua avó mais próxima um “quem é você?” durante as últimas férias, mas a confirmação das suspeitas de seus pais e tios não melhorava nada, só a afundava mais.
Daniel se aproximou dela, receoso de como se aproximar depois de mais de um ano do episódio do cinema, então optou por se sentar ao seu lado, cruzando as pernas e esperar. A menina estranhou a aproximação de alguém, mas preferiu não dar atenção, talvez o louco fosse embora. Ela apertou as mãos nas pernas e escondeu o rosto entre elas, olhando para o mar estranhamente calmo à sua frente.
– Sou eu, Harp. – Daniel disse, notando o afastamento da garota. – Danny… – Ela desviou o rosto para o lado quando reconheceu a voz e notou os cabelos grandes e cacheados do menino encherem a cabeça dele. – Sua mãe ligou para minha… – Ele disse calmamente. – Imaginei que estivesse aqui… – Ela assentiu com a cabeça. – Mamãe me contou o que aconteceu… Me desculpe… – Ele disse fracamente e a menina automaticamente desviou o rosto para o ombro dele e o abraçou apertado.
Ele colocou os braços ao redor dos dela, apertando-a com o máximo de firmeza que a posição de ambos permitia e deixou-a pressionar o rosto em seu ombro. Daniel afagou os cabelos da menina com calma, fazendo um carinho devagar na cabeça dela enquanto as lágrimas voltavam aos olhos dela.
– Eu estou aqui, Harp. Pelo tempo que você precisar. – Ele sussurrou, apoiando a cabeça na dela.
Enquanto isso, Grace ouviu um barulho de freio atrás dela e viu Helena saindo correndo do carro e correr até ela enquanto Alexander estacionava de qualquer jeito em cima do meio fio. Grace abraçou a amiga com força, se Harper estava assim pela avó, imagina como Helena se sentia com a sua mãe.
– Está tudo bem… – Grace sussurrou. – Estamos aqui por vocês. – Helena assentiu com a cabeça e Grace deu um abraço mais rápido em Alexander.
– Daniel está com ela? – Helena perguntou e Grace indicou a areia da praia.
– Sim, eles estão ali! – Grace indicou, suspirando.
– Eles estão se abraçando… – Helena disse surpresa, já que Harper não falava de Danny ou com Danny há um ano.
– Eles não se falam, mas nunca deixaram de se amar. – Grace suspirou. – E tenho certeza de que eles estarão lá pelo outro pelo tempo que precisar. – Helena suspirou.
– Obrigada… – Helena disse. – Por encontrá-la.
– Danny achava que ela estaria aqui. – Grace disse e Helena, mais alta entre as duas, apoiou sua cabeça na da amiga. – Quer ir lá com eles?
– Não… – Helena suspirou. – Deixa eles aproveitarem esse momento, pode demorar para vir de novo. – Ela suspirou e observou sua filha que se consolava no seu lugar favorito do mundo, nos braços de Daniel, mesmo que ela não achasse isso nesse momento.
Montréal, Canadá, 2016 – Sábado
Harper
– Só tenta, pelo amor de Deus, não tocar na barreira de novo!* – Falei firme, subindo o zíper do seu macacão.
– Ah, baby, foi só uma encostadinha… – Ele disse, rindo.
– Meu coração chegou na boca, Daniel! Não vem de brincadeira com isso. – Fechei o velcro, batendo com firmeza.
– Só uma lambidinha, baby! – Ele passou a língua em minha bochecha, me fazendo rir.
– Daniel! – Desviei o rosto, rindo.
– Ah, só um pouco. – Ele me segurou pela cintura, tentando me atingir com sua língua, me fazendo rir.
– DANIEL! – Falei, rindo, sentindo sua língua em meu rosto se transformar em um beijo.
– Hum, já está gritando meu nome de novo, é?!
– Ah, Daniel! – Michael disse atrás dele, nos fazendo rir.
– Não dá nem para xingar dessa vez, Mike. Ele usa essa piada há anos. – Empurrei o rosto de Danny, fazendo-o rir e finalmente me soltar.
– Justo… – Michael disse fazendo uma careta e eu me sentei no sofá novamente.
– Por que você não fala com a Déborah? – Soltei aleatoriamente.
– Oi? Que papo é esse agora? – Ele ergueu o outro.
– Ah, Michael, você está olhando para gente e está sentindo falta dela que eu sei. – Passei a mão nos cabelos antes de afundar a touca novamente neles.
– Nós terminamos tem quase 10 anos, qual é… – Ele disse, rindo.
– E você ainda pensa nela. – Dei de ombros. – Vocês terminaram pela distância só, fala sério. Sydney nem era tão longe assim… – Ele suspirou.
– Éramos novos e imaturos…
– Ainda somos imaturos, cara. – Danny disse, nos fazendo rir. – Mas somos mais velhos agora, dá para fazer algo funcionar… – Ele ponderou com a cabeça.
– Vocês acham? – Eu e Danny rimos juntos.
– Para de ser assim! Fala com ela! – Dei um chutinho em sua perna, ouvindo-o rir.
– Eu vou! Eu vou! Ela falou sobre mim? – Ele perguntou, interessado.
– Não! – Falei firme. – Ela está mais interessada nisso aqui… – Apontei para mim e Danny.
– E é o que importa! – Danny se levantou após calçar seus sapatos. – Eu estou pronto.
– Vamos, então! – Me levantei apressada. – Se você tocar a barreira…
– Se eu só tocar, está tudo bem, baby. – Ele deu de ombros, me fazendo rir. – Não vou bater, prometo.
– Espero que não. Está tudo indo muito bem. – Ergui as mãos.
– E vai continuar indo muito bem. – Ele me abraçou pela cintura e colou os lábios em minha têmpora. – Vamos arrasar.
– Você arrasa.
Saímos da sala de Danny, dentro do motorhome de apoio da Red Bull e caminhamos logo atrás dele para a garagem. Outros pilotos passaram por nós, mas Danny só deu rápidos cumprimentos antes de correr para dentro da garagem. De cara notei as tais mudanças que eles falaram, tinha muito mais espaço vazio do que antes, o que era incrível.
Danny seguiu perto para o seu engenheiro e fui até Maria checar o que essa ordenação nova da garagem alteraria para mim e a resposta foi nada. Eu era considerada membro importante da equipe, assim como Michael, então ela me colocou na frente de uma das últimas telas, no fundo da garagem. A vantagem é que eu sentei dessa vez. Não sei se ajudaria no nervosismo.
– Lesgo, baby-y-y-y-y! – Danny disse, animado, me fazendo sorrir e esperava que ele não estivesse falando isso só para aparecer, mas que ele realmente estivesse bem.
– Arrasa, tigrão! – Sussurrei para mim e vi o sorriso de Danny olhando para mim. Ele deu uma piscada, fazendo meu rosto esquentar, e sumiu dentro do cockpit.
Danny se preparou dentro do carro com Michael e Simon ao lado dele. Ele demorou alguns minutos para sair da garagem e participar da Q1. Não demorou para que ele conseguisse fazer o que viria a ser o terceiro melhor tempo da Q1 com 1:14:030, mas demorou bastante para a sessão terminar.
Jolyon Palmer tocou exatamente na mesma barreira da primeira curva que Danny tocou no primeiro treino na sexta-feira. Depois Haryanto teve uma batida um pouco mais preocupante quando ele bateu a asa traseira e o carro acabou virando e batendo a asa dianteira. Além deles três, Nasr, Ericsson, Wehrlein e Magnussen – que não conseguiu fazer um tempo – ficaram de fora para a próxima sessão.
Na segunda parte, Danny optou por sair mais rápido dessa vez e seu primeiro tempo foi o melhor, mas logo os outros pilotos foram completando voltas, inclusive seu companheiro de equipe, e ele acabou caindo para quinto. Alguns minutos depois, Sainz bateu novamente na mesma barreira que Danny e Palmer, mas não teve tanta sorte, perdendo partes do carro e precisando abandonar a classificação, além de Grosjean, Gutierrez, Kvyat, Button e Pérez.
Danny acabou ficando em terceiro lugar na segunda sessão e se garantiu para a última parte da classificatória. Logo no começo dela, Vettel acabou batendo da mesma forma, na mesma barreira, também perdendo pedaços do carro e entendi que se Danny só lambesse ali, não seria preocupante, contanto que não tirasse partes do carro.
Talvez eu precisasse tomar cuidado com meus pensamentos, pois quando tentava melhorar o tempo para passar Vettel e ficar entre os três primeiros, Danny acabou fazendo muito mais do que só lamber aquela maldita curva, causando receio na equipe.
– Encostou! Encostou! – Os mecânicos falaram e apertei as mãos na boca.
– Ai, Daniel! – Reclamei, vendo o replay algumas vezes, mas pelo jeito não teve tanta perda no carro.
Fiquei mais aliviada quando o tempo acabou, mas Danny acabou caindo uma posição, ficando em quarto lugar. Hamilton, Rosberg e Vettel ficaram na sua frente e Verstappen, Kimi, Bottas, Massa, Hulkenberg e Alonso fecharam o top 10.
Foi por pouco, mas ao menos Danny conseguiu um bom tempo de 1:13:166 e largaria na segunda fileira. A equipe aplaudiu pois, além de Danny, Max largaria em quinto, então seria batalha quase direta de Red Bull e já prepararia minha cabeça para doer amanhã com isso.
Saí da garagem, deixando os fones na parede perto da sala de telemetria e segui para fora da garagem. Caminhei pelo paddock, vendo alguns pilotos dando entrevistas, outros saindo após a finalização da Q3 e até encontrei Alonso e Massa por aí, cumprimentando-os rapidamente antes de me aproximar da garagem da FIA.
Sorri quando Danny saiu da garagem, colocando a balaclava e os fones para dentro do capacete e suspirei. Como é possível ter visto essa cena por vários dias durante seu começo de carreira e só me apaixonar por ele agora? Era insano!
– Danny! – Chamei-o um pouco mais alto e ele me encontrou, desviando o olhar para mim.
– Ei! Você está aqui! – Ele disse.
– Vim atrás de você! – Falei e ele riu antes de me abraçar com o braço livre.
– Foi quase. – Ele suspirou.
– Qua-a-a-ase! – Brinquei como quando éramos crianças e ele riu fracamente. – E você bateu na barreira.
– É, eu bati, desculpe por isso. – Ele fez uma careta e ri fracamente.
– Tiveram vários outros também, acho que é algo normal. – Suspirei.
– Aquela área do circuito é salgadinha, a gente quer lamber… – Revirei os olhos.
– Não acredito que disse isso! – Rimos juntos. – Mas agora pensa em cinco homens lambendo a mesma mulher… – Fiz uma careta.
– Isso foi estranho. – Rimos juntos.
– O bromance tem que estar forte para isso funcionar. – Brinquei, ouvindo-o rir.
– Me tira disso, só preciso de uma. – Ele me abraçou pelos ombros, me fazendo rir e neguei com a cabeça.
– Agora, né?! – Empurrei-o com o quadril, fazendo-o rir.
– Ok, agora! – Falei firme, fazendo-a gargalhar.
– Ah, cara, nem a pau que você ano passado e a daquela história são a mesma pessoa. – Ela disse, rindo. – Se fosse esse ano, talvez eu até acreditasse, mas você era muito bobo ano passado. – Ri fracamente.
– Acho que sou mais agora. – Virei o rosto para ele, vendo-o sorrir e apoiei minha cabeça em seu ombro, evitando beijá-lo na frente de todo mundo.
*No circuito do Canadá existe a saída de uma curva que chama Muro dos Campeões que os pilotos sempre raspam ali.
Daniel
– Harp, você está pronta? – Coloquei o casaco da Red Bull, puxando o zíper até o pescoço.
– Eu não sei se eu vou. – Ergui o rosto para porta, vendo Harper sair do banheiro com uma calça preta justa, um suéter largo marrom de gola alta, meias brancas nos pés e uma maquiagem leve no rosto.
– Por que não? – Franzi a testa.
– Está frio para caralho, Danny. – Rimos juntos e puxei-a pela cintura. – Eu não sei lidar com o frio… Podemos ficar aqui… Embaixo das cobertas… – Ela apoiou as mãos em meus ombros. – Namorando um pouco… – Ela colou seus lábios levemente nos meus.
– Você não me tenta assim, Harper. – Ela riu fracamente. – Eu preciso ir por causa da equipe. – Entrelacei meus dedos. – Mas esses eventos não são demorados, é só para firmar parceria…
– O Max não quer ir, não?! – Ela falou manhosa, apoiando o rosto em meu ombro e ri fracamente, acariciando suas costas.
– Ele não sou eu, baby! – Ela gargalhou alto, erguendo o rosto.
– Ah, Danny. – Ela suspirou.
– Podemos ir, depois voltamos, ficamos na cama, namorando um pouco… – Ela se afastou de mim, se sentando na beirada da cama.
– Você tem que ficar descansado para amanhã. – Ela começou a colocar os coturnos.
– Eu vou, não se preocupe. – Falei, rindo e ela ergueu o olhar para mim. – Garanto. – Ela negou com a cabeça, amarrando os cadarços.
– Se eu virar uma pedra de gelo, a culpa é sua… – Ela disse, colocando o outro coturno e fazendo o mesmo.
– Eu te enrolo em vários cobertores, faço um sushi e te coloco na frente da lareira. – Falei rindo.
– Espero que tenha comida. – Ela disse antes de se levantar.
– Também espero! – Ri com ela e ela se virou para pegar o casaco pesado. – Você vai suar, baby.
– Se tiver comida e álcool, sim. – Ri fracamente, vendo-a colocar o casaco. – E espero realmente… Isso não é fino, não?
– Coloquei uma manga comprida por baixo… – Mexi na manga do casaco, mostrando a segunda pele.
– Ainda é fino. – Ela passou a mão em meus ombros.
– Eu estou bem, você me aquece se eu precisar. – Ela passou a mão em meus cabelos.
– Tem bastantes camadas aqui, garanto. – Ri fracamente. – Nunca mais deixe o Blake cortar seu cabelo, ok?! – Sorri, sentindo sua mão deslizar pelo meu rosto.
– Eu vou te ouvir da próxima vez. – Falei, sentindo seu carinho em meu rosto. – Apesar que você gostou…
– Depois! – Ela disse, rindo. – Foi como isso começou… – Ela colou nossos lábios e trocamos um rápido beijo.
– DANIEL! – Franzi o rosto ao ouvir a voz de Maria.
– Precisamos ir. – Ela sussurrou.
– Vamos tentar chegar cedo. – Falei, firmando minha mão em sua cintura por baixo do casaco e pressionei meus lábios, ouvindo-a suspirar em seguida.
– Baby… – Ela sussurrou, acariciando meu rosto.
– Baby. – Falei e rimos juntos.
Ela se afastou um pouco, pegando suas luvas para completar sua roupa e segui com ela. Maria nos esperava e nos despedimos dos caras antes de sair. Para um amante de futebol e futebol americano, poder encontrar Tom Brady e Didier Drogba em um mesmo evento foi realmente incrível, mesmo com toda ação da Tag Heuer.
Sentar na frente da imprensa, conversar com o CEO da marca e dar entrevistas era algo que eu estava acostumado e era bom. Mas quando eu só queria voltar para o hotel e ficar agarrado em Harper, parecia que as horas passavam bem mais devagar.
Acabamos nem conseguindo aproveitar juntos, não teve um minuto em que eu não ficasse com a imprensa, CEO, Brady ou Drogba, então fiquei só observando-a de longe enquanto ela comia alguns canapés e bebia algumas taças de vinho. Acabamos saindo de lá depois da meia-noite, então o “dormir agarrados” se transformou em algo mais “deitar e capotar”. Não perfeito, mas ao menos estava com ela.
Domingo
Harper
– Boa sorte, ok?! – Falei fracamente e ele assentiu com a cabeça.
– Vem cá… – Danny sussurrou e franzi a testa quando ele me puxou para o corredor da garagem e dei uma olhada para trás rapidamente, vendo alguns sorrisos em nossa direção.
– O que… O que foi, Danny? – Perguntei e o senti me empurrar para a parede e pressionar os lábios nos meus. – Danny! – Falei, rindo.
– Não mereço um beijo de boa sorte? – Ele apoiou a testa na minha.
– Merece, mas achei que eu já tinha dado lá no vestiário…
– Ah, nunca é demais. – Ele disse, me fazendo rir e seus lábios tocaram nos meus mais uma vez.
Levei minhas mãos para sua nuca, apertando parte da segunda pele do macacão e nossas línguas foram rápidas até a do outro. Suas mãos apertaram meu corpo, puxando o casaco da Red Bull e pressionando seu peito mais firme contra o meu.
– Caham… – Pressionei os lábios, virando o rosto para o lado, vendo Maria e ri fracamente, virando para Danny que passava as mãos nos lábios.
– É melhor eu… – Ele disse e assenti com a cabeça.
– Arrasa. – Sussurrei para ele, que assentiu com a cabeça antes de atravessar para a parte da frente novamente.
– VAI, DANNY BOY! – Ouvi parte dos mecânicos brincarem com ele e ri fracamente antes de voltar.
Passei as mãos nos lábios, vendo vários mecânicos rirem para mim e sentei no meu lugar, ajeitando os headphones na orelha. Senti um cutucão em meu braço e virei para o lado, vendo Michael, Blake, Tom e Alex com sorrisos sacanas para mim e só me dei ao trabalho de mostrar o dedo do meio para eles, ouvindo suas gargalhadas.
Dessa vez não fui com Danny até o grid, deixei com que somente a “equipe necessária”, estivesse com ele para não causar problemas. Christian e o restante da equipe pareciam estar literalmente levando a sério as mudanças e eu não queria estar no meio de uma possível nova cagada.
Apesar de que hoje eu gostaria de caçar a Penélope Cruz no paddock e tirar uma foto com ela, mas depois de conhecer Tom Brady ontem e tê-lo dentro da área do bar agora acompanhando a corrida com Michael Douglas, acho que está bom para um dia.
Dessa vez achei que a largada foi bagunçada e parei para pensar por um momento se realmente fazia só duas semanas de Mônaco, já que tanto aconteceu nos últimos dias que parece muito mais.
Vettel aproveitou o atraso de Hamilton e Rosberg para sair e cortou ambos por fora, pegando o primeiro lugar logo na largada. Rosberg foi apertado por isso e por Danny, precisando fazer um desvio maior e acabou caindo para nono. Já Danny foi passado por Max, mas continuou mantendo sua posição.
Eu bem que falei que teríamos dor de cabeça logo cedo e ela estava chegando.
Demorou 11 voltas com Max à frente de Danny, mas a diferença de ambos era muito curta e parecia que o ritmo de Danny era bem superior ao de Max, mas só percebi isso quando o áudio do engenheiro de Max, Jean-Pierre, vazou no meu fone.
– Max, não segure o Danny. Aumente o ritmo ou abra espaço para ele.
Imediatamente não aconteceu nada, tivemos uma pequena bandeira amarela por Jenson Button abandonar a corrida por fogo no motor e Vettel acabou indo para o pit stop, deixando Danny em terceiro, mas foi só o alemão e ex-companheiro da equipe dele sair do pit stop que logo estava colado em Danny novamente, passando-o na décima oitava volta.
Não dá para negar que temos um motivo para ele ter quatro títulos consecutivos, não é?!
Max saiu da frente de Danny somente na vigésima primeira volta quando veio para o pit stop, Danny não tinha parado ainda e eu não me lembrava nada do que eles falaram na reunião de estratégia mais cedo. Só espero que não tenha mais nenhuma péssima surpresa como aconteceu em Barcelona.
Uma volta depois, Danny apareceu no pit stop, colocando pneus macios e suspirei aliviada quando o pit stop foi rápido, diferente do trágico lá em Mônaco. Ele saiu em sétimo lugar e Max já tinha se recuperado para quinto depois de sair em oitavo do pit stop.
Após outros pilotos saírem também para o pit stop, ele acabou atrás de Kimi e me lembrava da pequena rixa com Kimi que Danny tinha logo no seu primeiro ano. Ele disse que precisou usar o banheiro feminino antes de uma classificatória e Kimi o viu sair, chamando-o de mulher, deixando isso na cabeça do Daniel de 20 anos a ponto de ele falar que ainda mostraria o homem que ele é.
Eu não sei se Kimi teve o prazer, mas eu estava empolgada em experimentar novamente e esperava que fosse mais tarde. Esse é só mais um motivo de eu querer que essa corrida fosse perfeita para Danny.
Na volta 37, Massa precisou abandonar a corrida também por superaquecimento, além de Palmer que havia abandonado na décima sexta volta.
Danny fez seu segundo pit stop na trigésima nona volta e o pit stop acabou sendo um pouco mais demorado, 4,1 segundos, por um atraso ao encaixar a roda dianteira direita, mas Danny conseguiu sair ainda em sétimo. Isso causou um receio entre os mecânicos. Não havia sido 13 segundos como em Mônaco, mas era uma pequena falha.
Na quadragésima sétima volta, Max precisou fazer outro pit stop, mas acabou conseguindo sair novamente em quarto lugar e tinha pouco mais de 20 voltas para o final e parecia que tudo estava na mesma. Na quinquagésima volta, Danny conseguiu passar Rosberg e cair para sexto, mas ainda estava caçando Kimi à sua frente.
A corrida seguiu sem muitas alterações. Max acabou trocando de posições com Rosberg algumas vezes, mas conseguiu se manter em quarto, já Danny não avançou da sétima posição, me deixando frustrada. Ouvi muitos falarem que ele era ingrato por reclamar de um segundo lugar em Mônaco e, sim, havia sido um feito incrível, mas sentimos como se fosse uma derrota e outra estava acontecendo novamente. Com esse pódio de Vettel em segundo lugar, o alemão com certeza passaria Danny no campeonato e precisávamos correr atrás logo.
Hamilton, Vettel e Bottas ficaram no pódio e as emoções na garagem da RBR eram divididas. Max ficou em quarto lugar e Danny em sétimo. A equipe comemorava, mas a feição minha, de Mike e dos caras era de uma pequena desconfiança. Que merda está rolando aqui?!
– Merda… – Sussurrei.
– Respira, respira… – Maria falou no mesmo tom para mim. – Eu vou atrás dele, vocês o esperam no vestiário. – Ela disse, saindo e empurrei o fone para o pescoço, me aproximando dos caras na área do bar.
– Alguém com a pulga atrás da orelha? – Cochichei.
– Não foi uma boa corrida. – Mike disse.
– Por que agora? – Perguntei e nos entreolhamos, suspirando.
Desviei o rosto para a garagem, vendo Christian se encontrar com o engenheiro de Simon e suspirei. Que seja só desconfiança da minha cabeça, por favor.
Daniel
Saí do carro, cumprimentando rapidamente o valet e vi Harper e Michael saindo do outro lado. Os cabelos ondulados de Harper sacudiram com o vento forte, me fazendo sorrir e ela seguiu para a calçada ao meu lado. Contive uma piscadela, deixando-a andar à minha frente e dei um rápido aceno para os fotógrafos na porta antes de entrar no restaurante.
Harper tirava o casaco e entregava para o maitre e vi Blake, Tom e Alex acenando para nós da parte de dentro. Harper deu um rápido aceno e seguiu para dentro. Enquanto isso, eu e Michael nos livramos de nossos casacos pesados também e fomos atrás dela. Era bom tirar aquela roupa da Red Bull de vez em quando.
– Oi, gente! – Harper falou um pouco mais alto.
– Quer sentar no sofá? – Blake perguntou.
– Eu sempre quero! – Ela disse, rindo e ele se levantou para Harper deslizar pelo sofá e Blake indicou para mim.
– Vai, senta, senta! – Ele disse, rindo e entrei no pequeno sofá circular com Harper, Alex e Tom. Michael e Blake ficaram nas cadeiras nas pontas.
– Ah, quanto tempo faz que não sai todo mundo para jantar? – Harper comentou e levei minha mão até a sua, entrelaçando nossos dedos e apoiando em sua perna.
– Olha, você é novata aqui, a gente faz isso sempre! – Alex disse e Harper revirou os olhos, lhe mostrando a ponta da língua. – O quê? É verdade!
– É, mas nunca estiveram comigo. Então não conta. – Ela abanou a mão, nos fazendo rir.
– Bom, mas agora você está como nossa amiga Harper ou como namoradinha do Danny…?
– Não somos… – Eu e Harper falamos juntos, virando um para o outro e rimos juntos.
– Ainda não. – Falei e ela riu fracamente, apertando nossas mãos uma com a outra.
– É… – Ela riu.
– Ok, ela está como namoradinha. – Blake disse, me fazendo rir.
– Garanto que vai ser mais tarde… – Cantarolei, fazendo a gargalhada de Harper ficar mais alta.
– Ah, cara… – Michael bateu a mão no rosto e ri,
– É uma imagem estranha, cara. – Tom disse, apoiando a cabeça na mesa.
– Desculpe, desculpe! – Falei, rindo.
– Ah, como é bom não ser mais a solitária do grupo. – Harper disse, rindo.
– Eu não sei como vou me acostumar com isso, mas funciona, caras. – Tom sorriu. – É um casal bonito.
– Obrigado. – Falei sorrindo.
– É, mas não por você! Por ela! – Pressionei os lábios, ouvindo as risadas dos caras.
– Valeu, cara. Valeu! – Empurrei-o, fazendo-o rir.
– Boa noite, senhores. – Uma mulher apareceu a meu lado. – Eu vou servi-los essa noite, aqui estão os cardápios… – Ela distribuiu alguns pela mesa e entreguei um para Harper ao meu lado. – Gostariam de beber alguma coisa?
– Vinho? – Virei para Harper.
– Hum… – Ela pensou por um momento. – Vocês não preferem uma cerveja?
– Está frio para isso… – Michael falou mais rápido do que eu, me fazendo rir.
– Um bom tinto? – Sugeri para ela, vendo-a ponderar com a cabeça.
– Sim, claro… – Ela ergueu o rosto para a garçonete. – Duas garrafas do seu melhor tinto seco nacional, por favor. – Ela pediu e a garçonete assentiu com a cabeça. – E uma garrafa de água para mim.
– Duas! – Alex pediu também.
– Mais algo por enquanto?
– Não, está tudo bem. – Falei e ela se retirou.
– Você está trabalhando? – Tom sussurrou para ela.
– Não. – Ela disse, rindo. – Mas é bom conhecer os rótulos nacionais. – Ela deu de ombros.
– É nesses momentos que eu me pergunto se vocês combinam… – Tom disse e ergui meu rosto.
– Por quê? – Perguntei, rindo.
– Ah, qual é! Ela é totalmente culta e você é um Zé Mané! – A mesa explodiu em gargalhadas, inclusive de Harper ao meu lado.
– Ah, gente, para! – Ela disse, rindo. – Conversamos sobre isso há um tempo e chegamos à conclusão de que somos farinha do mesmo saco na Austrália. Dois caipiras e roceiros mas, fora dela, nós temos duas profissões consideradas esnobes. – Harper deu de ombros.
– E aí fica a dúvida: quem é mais metido? – Michael perguntou, nos fazendo rir.
– Ele é mais aparecido e eu sou mais sofisticada. – Ela disse, abrindo o cardápio.
– Eu concordo! – Blake disse, nos fazendo rir.
– Ok, o que querem comer? – Alex perguntou e olhei para o cardápio junto de Harper.
– Lanche ou steak? – Ela perguntou e suspirei.
– Não quero ficar muito pesado. – Cochichei para ela, ouvindo-a rir.
– Eu não sei o que é pior… – Rimos juntos. – Eu quero risoto com mignon. – Ela disse, deslizando o cardápio para minha frente.
– Eu vou na da Harper porque ela sempre escolhe as coisas boas. – Blake disse, fechando o cardápio.
– Com licença. – A garçonete voltou com as bebidas. – O que acha? – Ela ofereceu para Harper que passou as unhas curtas no rótulo.
– Parece perfeito. – Ela disse e a mulher acabou com a primeira garrafa nas primeiras quatro taças e deixou o restante da segunda garrafa na mesa.
– Já sabem os pedidos? – Ela perguntou.
– Eu quero o risoto do dia com escalope de mignon, por favor. – Harper foi a primeira a falar.
– Dois! – Blake disse com ela.
– Três… – Michael disse, rindo.
– Acho que vai ser para todo mundo. – Falei, rindo. – Tem pistache?
– Não, hoje é alho poro com bacon. – Ela disse.
– Quatro, então.
– Cinco! – Tom disse.
– Seis! – Alex foi o último, fazendo Harper rir.
– Aqui um aperitivo para vocês… – Ela deixou uma tábua com uma variedade de pães, embutidos e patês antes de se retirar.
– É disso que a gente gosta. – Harper disse rindo, pegando um pedaço de pão e colocando na boca, me fazendo sorrir.
– Por que não fazemos um brinde? – Michael sugeriu. – Faz tempo que não estamos juntos fora da Austrália.
– À nós e nossa amizade? – Blake disse.
– Sim, o que acham? – Michael pegou sua taça e Harper e Blake fizeram o mesmo.
– À nós e novos começos. – Ergui a minha, virando para Harper que riu fracamente.
– A nós e ao casalzinho ternura aí do lado. – Tom disse, nos fazendo rir e ouvimos o tilintar de nossas taças e logo bebi um gole, feliz pelo gosto.
– Hum, isso é bom! – Harper disse, mexendo na garrafa.
– Eu disse que dá para confiar na Harper. – Blake disse, nos fazendo rir.
– Anos e anos de prática. – Ela suspirou.
– Falando nisso… Danny disse que você vai sair da… Você sabe… – Alex disse.
– É… Acho que está na hora de eu finalmente abrir o meu restaurante. – Ela disse e aquilo me fez sorrir.
– Você sabe que vai ser um sucesso, né?! A gente vai levar todo mundo para lá. – Tom disse, nos fazendo rir.
– Eu sei, gente! E agradeço o apoio, mas vamos desacelerar um pouco. – Ela suspirou. – Eu tenho até o fim do ano com eles, depois preciso voltar a estudar um pouco.
– Já falei que quero entrar de sócio. – Falei, ouvindo-a rir.
– As coisas mudaram agora, Danny… – Ela abaixou o tom para falar comigo.
– Por quê? – Peguei um pedaço de salame da tábua.
– Você quer entrar de sócio de um empreendimento da sua peguete? Sério? – Ela perguntou, rindo.
– Não, quero entrar de sócia no empreendimento da minha melhor amiga. – Falei e ela riu fracamente.
– As coisas mudam, Danny…
– Não isso. – Falei sério, dando um beijo em seus lábios.
– Danny… – Ela falou, rindo, desviando o olhar.
– O quê? Eu não estou escondendo… – Dei de ombros.
– Dos seus pais sim. – Ela disse, rindo.
– É, mas eles estão bem longes daqui… – Falei, rindo.
– Não gostaria que eles soubessem da gente por uma foto. – Ela disse, rindo.
– Ok… Justo! Mas é difícil me conter… – Ela riu fracamente.
– Continuando! – Virei o rosto para a mesa. – Vocês gostariam de ficar sozinhos? – Alex perguntou, me fazendo rir.
– Até gostaria, mas não aqui. – Falei, ouvindo Harper rir.
– Ah, já vi que eu devo pegar um protetor de ouvido se eu quiser dormir. – Michael sussurrou, me fazendo rir.
– É… Talvez todos vocês devam. – Dei um sorriso, ouvindo Harper gargalhar alto.
– Ah, eu vou para o inferno. – Ela disse rindo antes de colocar outro pedaço de pão na boca.
Harper
– Boa noite, meninos! – Falei, dando um rápido aceno com a mão.
– VÊ SE NÃO FAZ ESCÂNDALO, HEIN?! – Michael gritou, me fazendo rir.
– Meu nome não é Jemma! – Falei, ouvindo as gargalhadas deles e Danny revirava os olhos ao meu lado. – Vamos, dramático! – Dei um beijo em sua bochecha, vendo um sorriso se formar em seu rosto. – Vamos para cama… – Sussurrei, mordiscando o lábio inferior, ouvindo-o rir.
– Você é perfeita, sabia? – Ri fracamente, seguindo pelo corredor, tirando o pesado casaco pelo meio do caminho.
Entrei no quarto que oficialmente dividíamos e joguei o casaco na poltrona no canto dela e puxei o suéter, ficando com a cacharrel fina preta por baixo. Fui até o banheiro e fechei a porta para poder fazer minhas necessidades, escovar os dentes e soltar os cabelos do rabo de cavalo que fiz para jantar.
Saí do banheiro, encontrando Danny sentado na cama só com a calça jeans e as meias e ri fracamente. Ele se levantou e estalou um beijo em minha bochecha antes de seguir para dentro do banheiro. Aproveitei para tirar os coturnos dos pés e suspirei, sentindo o mesmo nervosismo da primeira vez me atingir.
Eu não sei como consegui fazer qualquer coisa naquele dia, parece que eu simplesmente fui puxada por um ímã. Danny sabe o que fazer e faz muito bem, além de que me mostrou que sim, ele é romântico e eu estava vendo isso em suas ações nesses últimos dias em Londres e aqui em Montréal.
Só não tínhamos transado novamente pela presença dos meninos e pela correria, mas eu estava desesperada para fazer isso novamente. Dessa vez com calma e sem aquele clima dramático da perda da corrida e as curiosidades da primeira vez com meu melhor amigo. Mas acho que já estava ficando nervosa novamente só de olhar para aquele corpo perfeito de Danny.
Me levantei rapidamente, ligando o aquecedor do quarto e me aproximei da janela do último andar do hotel e observei Montréal por uns minutos ali. Era loucura pensar que era considerado um circuito urbano quando o circuito ficava praticamente em uma ilha no meio da cidade. Fechei o blecaute da cortina e virei o rosto quando ouvi o barulho da porta.
– Oi… – Falei, vendo Danny passando as mãos na calça.
– Oi… – Ele sorriu, andando em minha direção. – Aproveitando a vista?
– É minha primeira vez aqui, preciso aproveitar. – Dei de ombros.
– Dá para gente aproveitar um pouco ainda, falei com Felipe, ele e outros corredores vão pegar um jatinho para Baku, falei que aceitava a carona se pudesse te levar. – Ele me abraçou pela cintura e senti como seu peito estava quente.
– Tem certeza? – Passei meus braços em seus ombros. – Digo… Pilotos e eu?
– E as esposas ou namoradas deles. – Ele disse, rindo.
– Ok, agora melhorou. – Ri fracamente. – E os caras?
– Os caras vão para Londres antes e o Michael vai com eles… – Assenti com a cabeça.
– Tudo para nos deixar sozinhos? – Acariciei sua nuca, vendo-o inclinar o rosto para trás em cócegas.
– Você é minha prioridade agora, Harp… Já passei muito tempo com eles. – Rimos juntos.
– E comigo não?! – Apertei meus braços em sua nuca, aproximando mais nossos rostos.
– Não desse jeito. – Suas mãos subiram pelas minhas costas por dentro da blusa.
– E o que você quer, hum?! – Rocei nossos lábios devagar.
– Eu quero repetir o que aconteceu naquele 29 de maio. – Ele deu um curto beijo em meus lábios, me fazendo rir fracamente.
– Agora vai ficar fixo de transar em dias de corrida? – Brinquei, fazendo-o rir.
– Não só em dias de corrida… – Ele deu um beijo em minha bochecha, deslizando os lábios e a barba pelo meu rosto. – A gente logo chega na Áustria e teremos o motorhome de novo… – Ri fracamente.
– E você me quer no motorhome? Depois de tudo? – Ergui o olhar para ele.
– Eu quero que você esqueça aquele dia… – Ele falou sério. – Eu fui um idiota… – Ele levou a mão para meu rosto, acariciando-o devagar. – Eu estou apaixonado por você, Harp… – Abri um largo sorriso. – Me desculpe…
– Eu não quero ver aquele Daniel nunca mais. – Falei séria.
– Eu estou contigo agora, Harp. Você nunca mais vai ver aquele cara…
– Mesmo se um dia não estivermos mais juntos… Você não é assim.
– Eu vou me garantir que a gente não precise dessa parte, pois eu quero ficar contigo para o resto da vida. – Ri fracamente.
– Eu gosto do Danny romântico. – Falei sorrindo.
– Eu não menti, Harp. Eu topo se você topar. – Ri fracamente antes de apertar meus braços em seu corpo e colei nossos lábios por alguns segundos.
– Eu topo… – Falei fracamente, colando nossos lábios novamente.
Suas mãos deslizarem pelo meu corpo, me puxando para mais perto de si e meus braços foram para seus ombros. Nossos narizes roçaram algumas vezes antes de ele sugar minha língua para sua boca e nossos lábios começarem a se chocar de forma bagunçada, nos fazendo rir. Ele acariciou meu rosto, adentrando a mão nos cabelos e mordiscou meu lábio inferior, focando seus olhos nos meus.
Sua outra mão subiu para minhas costas, fazendo meu corpo relaxar com o choque da sua mão quente em meu corpo frio. Deslizei minhas mãos pela sua nuca, subindo para seus cachos e logo deslizei-a novamente pelo seu corpo, sentindo os músculos torneados. Ele deslizou a mão de meus cabelos para minha nuca e delineou meu corpo devagar até deslizar pelo meu corpo novamente.
Suas mãos foram para as laterais do meu corpo e ele deu um curto beijo em meus lábios antes de colocar uma distância segura entre eles. Nunca defini muito bem a cor de seus olhos, às vezes eles se tornavam cor de mel, às vezes quase esverdeados, mas hoje haviam se tornado castanhos e me encaravam de forma que fazia meu corpo se arrepiar.
Suas mãos subiram pelo meu corpo, puxando a blusa consigo e só consegui acompanhar seus movimentos quando suas mãos chegaram à altura dos meus seios. Meus braços foram automaticamente para cima e peguei o acúmulo de tecido e puxei-o para cima, sentindo suas mãos em minha barriga antes de eu tirar a peça completamente. Seus olhos me encaravam da mesma forma, mas agora ele tinha um sorrisinho de canto e esse eu definia muito bem depois dos últimos acontecimentos.
Ele aproveitou a mão próxima ao meu peito e tocou por cima do sutiã, colando os lábios em minha bochecha mais uma vez antes de deslizar devagar para baixo. Seus lábios encontraram meu pescoço, distribuindo beijos espaçados pelo local, encontrando minha omoplata com a tatuagem para meus pais e depois desceu para meus seios.
Ele passou a língua entre eles, me fazendo contrair o corpo e passei uma mão na linha dos cabelos, jogando-os para trás. A mão de Danny apertou minha cintura, deslizando o polegar em minha barriga e ele desceu a língua para a parte que escapava do sutiã. Apoiei minha mão em sua nuca, acariciando os cachos.
Apoiei meu queixo em sua cabeça e suspirei quando ele puxou meu sutiã para baixo e seus lábios tocaram meu mamilo. Um gemido escapou de meus lábios, como se fogo e gelo se tocassem e a alça de meu sutiã caiu de meu ombro. A mão livre de Danny deslizou pelas minhas costas e mordisquei meu lábio inferior quando ele soltou a peça de roupa.
Seu rosto se ergueu para o meu, seus lábios sorriram e ri fracamente. Puxei o sutiã pelo centro, jogando-o para o lado e Daniel apertou as mãos em minha cintura, colando seu peito no meu. Ri fracamente, sentindo sua língua em meus lábios e suguei-a para minha boca. Nossas línguas procuravam espaço na boca do outro e nossos narizes roçavam diversas vezes.
Apertei sua nuca novamente, puxando levemente seus cabelos vez ou outra. Suas mãos desceram pelo meu corpo junto de seus lábios e apertei minhas mãos em seus ombros quando ele apertou atrás de minha coxa e me ergueu.
– Danny… – Falei, rindo, colando minha testa na dele.
– Eu tenho algumas coisas guardadas na manga. – Ele andou para perto da cama, me sentando nela e tombei meu corpo para trás, apoiando os antebraços na superfície.
– Quais coisas? – Perguntei, rindo e ele se colocou entre minhas pernas.
– Você sabe o honey badger? – Ele se inclinou em minha direção, levando as mãos até minha calça.
– Yeah… Vagamente. – Falei, rindo e ele soltou o botão e o zíper.
– Eles possuem um jeito diferente de defesa quando são atacados. – Ele puxou o jeans em minhas coxas, puxando a calça para baixo, me fazendo rir quando parte da calcinha desceu também.
– Sim, eu sei… A criatura fofa se transforma em uma das mais temidas do reino animal. – Ele puxou a parte de baixo da calça, tirando-a de meus pés…
– Mas você sabe que parte eles atacam? – Ouvi minha calça cair no chão e ele se colocou entre minhas pernas novamente.
– Não… – Falei, rindo, já sabendo onde exatamente ele queria chegar e não era na história. – Onde?
– Na região íntima. – Rimos juntos e deixei meu corpo cair para trás.
– Não acredito que você disse isso agora! – Joguei a cabeça para trás rindo.
– Você riu. – Senti suas mãos em minhas coxas.
– Eu rio de tudo o que você diz desde 92, Daniel. Agora só tem a piorar, porque agora vou rir até com seu sorriso. – Ele puxou minha calcinha e ergui o quadril rapidamente para ajudá-lo a tirar.
– Quero ver se você vai rir disso… – Suspirei quando ele deu um beijo em minha virilha.
– Daniel… – Ergui o rosto um pouco e suspirei quando ele lambeu a extensão de minha vagina, fazendo meu corpo tremer. – Merda… – Suspirei.
Meu corpo se contraiu automaticamente e minha cabeça foi para trás. Danny deu curtos beijos em minha vagina, passando a língua em meu clitóris. Uma de suas mãos apertou minha coxa e a outra foi para minha vagina, entreabrindo os lábios para sua língua entrar com mais facilidade. Aquilo fazia meu corpo e pernas tremerem.
– Merda… Dan… – Minha voz saiu em um sussurro.
Danny apertou os dois braços em volta de minhas pernas, me fazendo deslizar mais para baixo e seus lábios começaram a sugar com mais força meu clitóris e a língua deslizar pela minha entrada, adentrando-a aos poucos. Levei minha mão para sua cabeça, fechando os dedos entre os cachos e a outra apertou meu seio.
– Dan… Dan… – Meu corpo começou a se contrair e minhas mãos apertarem em seus cabelos. – Devagar… Devagar… – Soltei em um suspiro, mas já era tarde. – Ah!
Meu corpo se contraiu com uma sugada de Dan em meu clitóris e um gemido falho escapou de meus lábios, fazendo meu corpo se relaxar aos poucos e minhas mãos soltarem seus cabelos e meu seio, deixando minha respiração acelerada mais evidente.
– Como você está? – Ele perguntou e senti suas pernas deslizarem pelas minhas quando ele subiu para cima de mim.
– Porra, Dan… – Suspirei, sentindo sua ereção deslizar em meu corpo. – Isso foi incrível… – Soltei um suspiro, sentindo-o beijar meu rosto e fechei meus olhos por alguns segundos, passando a mão em seu corpo.
– Eu te disse que o honey badger ataca… – Gargalhei, abrindo os olhos e pressionei nossos lábios por alguns segundos.
– Eu gostei dessa tática. – Ergui a outra mão para seu rosto, acariciando sua barba. – Homens não vão direito para…
– Tem homens que são idiotas. – Ele disse sério. – Não sabem o que é bom… – Ri fracamente, pressionando meus lábios nos seus novamente.
– Eu adorei… – Ele sorriu, mordiscando meu lábio. – Quero mais…
– Vou pegar uma camisinha. – Ele disse, rindo e assenti com a cabeça.
Deixei meu corpo relaxar um pouco enquanto ouvia Danny mexer na sua mochila ou na minha e meu peito subia e descia com a respiração acelerada. Ergui o rosto, encontrando Danny ao meu lado terminando de abaixar sua boxer e suspirei com sua ereção. O pacote completo era muito bom. Ele colocou a camisinha, jogando a embalagem fora e seu olhar se encontrou com o meu.
– Eu adoro seu sorriso. – Ele disse, me fazendo rir.
– Esse é o sorriso bêbado. – Suspirei e ele se colocou entre minhas pernas novamente. – Sorriso de sexo…
– Já é meu favorito. – Ri fracamente e suas mãos deslizaram pelas minhas pernas. – Quer ficar em cima de novo? – Sorri.
– Não… Você tem que fazer um pouco do trabalho também. – Ri fracamente e ele apoiou o joelho na cama, afundando-a e ele se colocou em cima de mim.
– Eu tenho que fazer todo trabalho hoje, é?! – Ele falou, rindo e sorri, acariciando seu rosto.
– Eu gosto dessa intimidade. – Suspirei. – É da amizade? – Franzi a testa e ele negou com a cabeça, roçando nossos lábios.
– Não, somos nós. – Ele disse, me fazendo sorrir e seus lábios tocaram os meus novamente.
Minhas mãos subiram para seu rosto, adentrando seus cabelos e suas mãos apertaram com firmeza minha cintura enquanto ele se ajeitava em cima de mim, deixando o corpo um pouco mais alto. Nossos lábios se separaram por um momento, mas nossas respirações continuaram próximas.
– Devagar, baby… – Ele sussurrou e soltei um suspiro quando ele deslizou o pênis para dentro de mim, entrando devagar.
– Ah, porra… – Suspirei, sentindo-o entrar apertado e fechei os olhos. – Porra, Dan…
Senti seus lábios em meu rosto, dando curtos beijos e abracei-o pela cintura quando ele chegou até o fim. Apertei meus braços em seu corpo, deslizando as mãos pelas suas costas e apertando sua bunda, ouvindo-o rir perto do meu ouvido.
Danny apoiou as mãos na cama, erguendo o corpo um pouco e ele começou a deslizar para dentro de mim em um vai e vem contínuo, fazendo meu corpo responder aos seus estímulos. Os gemidos começaram a escapar de meus lábios naturalmente, me fazendo apertar os músculos de suas costas com força e deixar meu corpo ser inebriado por tudo. Seus lábios afundaram em meu pescoço e sua respiração forte e suspiros faziam meu corpo se arrepiar.
– Porra, Harp… – Ele suspirou.
– Vai, baby… – Falei no mesmo tom de voz.
Nossas respirações abafadas se misturaram, o suor já deslizava pelo meu corpo e rosto, e meu corpo começava a se contrair com o orgasmo iminente. Meu gemido saiu um pouco mais alto em uma estocada, me fazendo gozar. Um suspiro forte saiu de meus lábios e deixei minha cabeça tombar para trás enquanto os braços relaxavam em seu corpo. Danny deu mais duas estocadas antes de também soltar um gemido mais forte.
– Porra… – Ele suspirou. – Merda, Harper… – Ri com ele, abrindo um largo sorriso.
– Merda… – Suspirei e ele saiu de dentro de mim, me fazendo gemer mais uma vez. – Merda, Dan… – Ele se jogou ao meu lado, passando um braço em minha barriga.
– Quem é esse Dan, hein?! – Ri fracamente, sentindo-o me puxar para perto de si e apoiei minha mão em cima da dele antes de sentir um beijo em minha bochecha.
– Seu apelido no sexo. – Falei, rindo em seguida. – Veio natural, baby… Assim como esse baby também! – Rimos juntos.
– Hum, acho que esse é meu favorito. – Virei o rosto para ele, vendo-o perto.
– Dan é no sexo, Danny é meu melhor amigo e baby é romântico… – Ele riu fracamente.
– Baby… – Ele beijou meu rosto. – Harp é minha amiga, Wandinha é quando você está triste… – Ri fracamente. – E baby pode ser romântico e no sexo. Tem baby… – Ele falou suave. – E baby! – Ele falou firme, me fazendo rir. – Você escolhe.
– Você escolhe, baby. – Suspirei. – Não consigo pensar agora… Em nada…
– Você quer dormir? – Ele acariciou minha barriga.
– Acho que não é para tanto. – Acariciei seu rosto. – Só preciso de cinco minutos, depois estou pronta para a próxima. – Ele abriu um sorriso sacana.
– Hum, gostei de ouvir isso. – Ele riu fracamente. – Mas acho que preciso de mais do que cinco minutos. – Sorri.
– Eu posso te ajudar nisso. – Falei, mas o sono bateu antes disso.
Daniel
– Quem vai estar lá? – Harp perguntou e virei nossas mãos entrelaçadas, apoiando-as em sua coxa.
– Felipe, Max, Jenson, David, Esteban e Britney…
– Nico? – Ela perguntou, rindo.
– É! – Ri com ela. – É força do hábito. – Ela negou com a cabeça.
– Ah, Dan, chamar o cara de Britney, fala sério… – Ela negou com a cabeça e virei o rosto, dando um beijo em sua cabeça, fazendo-a sorrir.
– Achei que Dan fosse só quando estamos sozinhos… – Sussurrei.
– Talvez… – Ela disse sorrindo e apertei meu braço em seu ombro.
– Será que tem mais de um banheiro nesse jatinho? – Sussurrei, ouvindo-a rir.
– Você vai se comportar, Daniel! – Ela virou o rosto para mim e colei nossos lábios rapidamente.
– Não prometo nada. – Ela negou com a cabeça, voltando a apoiar a cabeça em meu ombro.
– Como você vai me apresentar? Melhor amiga? – Ri fracamente.
– Não mesmo! Você é minha garota. – Dei um sorriso ao falar isso. – Além de que o Felipe sabe um pouco do nosso rolo, eu só não cheguei a atualizar os fatos depois disso. E o Nico era um dos me julgando naquele dia no restaurante em Xangai quando eu falei que você era só minha amiga. – Ela riu fracamente.
– Por que julgando?
– Eles acharam ser impossível você ser só minha amiga. – Ela riu fracamente.
– Bem… Naquela época era impossível, mas eu já estava gostando de você…
– Eu também. – Deixei mais um beijo em sua cabeça. – Acho que aconteceu como devia, baby. Só a Espanha que eu me perdi um pouco, mas…
– Mas conseguimos nos encontrar. – Sua voz se sobressaiu a minha. – Não quero ouvir mais sobre Espanha. – Ela disse firme. – Para garantia, nunca mais vou para Espanha… – Ri fracamente.
– Não… Você precisa ir novamente comigo para gente limpar esse trauma. – Ela suspirou.
– Você está acabando com todos meus traumas, Danny. Preciso definir se isso é bom ou ruim… – Ri fracamente.
– Bom, sempre bom! Como amigo ou namorado, o que tivermos, eu vou sempre garantir que você seja feliz. – Ela riu fracamente.
– Você que batalhe para isso, Daniel. Se eu não me engano, no domingo você disse que topava tudo comigo… – Suspirei.
– Hum… Eu disse isso, não é mesmo? – Rimos juntos e sorri com seu sorriso.
– Senhor, onde posso deixá-los? – O motorista perguntou.
– Terminal privativo, por favor. – Falei.
Não demorou para que ele nos deixasse na entrada do aeroporto privativo de Montréal. Harper desceu à minha frente e o motorista nos ajudou a tirar as grandes malas do porta-malas. Agradeci ao motorista e seguimos para dentro do aeroporto, cada um com uma grande mochila e grande mala conosco. Ao menos Baku estará com uma temperatura parecida com Mônaco e poderia deixar de lado os casacos pesados… E ver as pernas de Harp novamente.
Me informei com alguns funcionários sobre o embarque que Nico reservou e ela nos guiou até a área de embarque. Eu e Harper fizemos nossa emigração, nossos passaportes foram carimbados mais uma vez e despachamos nossas malas. Outro funcionário nos indicou para a pista e segurei a mão de Harper por esse caminho, podendo fazer isso sem a preocupação de fotógrafos.
– Boa viagem, senhor. – Ele disse e agradecemos com um aceno de cabeça e um sorriso.
– Pronta? – Perguntei para Harper, avistando o jatinho e ela suspirou.
– Vamos lá…
Puxei-a comigo e caminhamos pela pista até o jatinho branco ali no meio. Tinha alguns funcionários em volta que nos receberam no avião. Ouvi algumas vozes e subi as escadas antes, soltando a mão de Harper ao fazê-lo e encontrei Max, Jenson, David e Nico já lá dentro, junto de suas namoradas, com exceção de Max que era solteiro, até onde eu me lembrava.
– Howdy, mates! – Falei.
– Ei, Danny boy! – Jenson foi o primeiro a se levantar e trocamos um rápido abraço e depois abracei David, Max e Nico foi o último.
– Obrigado pelo convite! – Falei para Rosberg.
– Ah, que isso, fazer algo diferente para variar. – Ele disse, rindo. – Vejo que trouxe companhia… – Virei para trás, vendo Harper ainda na porta.
– Sim… – Ri fracamente, sentindo meu rosto esquentar. – Essa é Harper…
– Sua amiga? – Nico me provocou, me fazendo rir.
– Não só amiga. – Ela riu, negando com a cabeça. – Ela é minha garota.
– AH, GAROTO! EU FALEI QUE ERA IMPOSSÍVEL ELA SER SÓ SUA AMIGA! – O alemão me sacudiu, me fazendo rir com eles e até Harper gargalhou da reação exagerada dele. – Prazer em te conhecer, eu sou Nico. – Ele se aproximou de Harper e ela riu fracamente.
– É um prazer te conhecer. – Eles trocaram um aperto de mão. – Eu sou Harper…
– Essa é a sua “amiga” que estava te acompanhando? – David Coulthard perguntou, rindo.
– É… – Ponderei com a cabeça. – Agora é muito mais. – Eles riram.
– Café dos campeões? – Ele perguntou, rindo.
– Primeira coisa pela manhã. – Falei, rindo, confirmando com a sua expressão de que o café da manhã dos campeões é o sexo matinal.
– Oi, Daniel! – Vivian, esposa de Nico me cumprimentou.
– Oi, senhoras! – Falei, abraçando-a e acenei para Brittny e Karen.
– Como você está, querido? – Karen perguntou.
– Tudo bem. – Sorri e vi Harper finalmente terminar de cumprimentar os caras e se aproximar de mim.
– Oi, Max! – Ela cumprimentou meu companheiro de equipe.
– Oi, Harper. Entrou oficialmente para o grupo de WAGs*? – Ela riu fracamente.
– Vamos devagar… – Ela disse sorrindo para mim.
– Harper, essas são Vivian, esposa de Nico, Brittny, namorado do Jenson, e Karen, esposa do David. – Apresentei-as, vendo Harper também receber um abraço de Vivian.
– Oi, prazer em conhecê-las. Eu sou Harper. – Ela acenou tímida e sorri.
– Senta aqui com a gente! Eles só fazem bagunça lá na frente! – Karen disse e ri fracamente.
– Fala aí, galera! Estou muito atrasado? – Virei para a porta, vendo Felipe entrar com Raffaela.
– Falta o Esteban ainda. – Jenson disse, rindo, cumprimentando meu amigo brasileiro e demorou um pouco para que meu amigo brasileiro se aproximasse.
– Ei, Danny boy! – O mais baixo me cumprimentou e trocamos um rápido abraço.
– Fala aí, cara! – Dei alguns tapinhas em suas costas. – Bom te ver!
– Você também! Veio solo ou acompanhando?
– Acompanhado… – Indiquei o fundo do avião com a cabeça.
– Mentira! – Ele disse, rindo, abaixando o tom de voz. – Oficializaram?
– Não completamente, mas somos um casal agora. – Falei, rindo fracamente.
– Parabéns, cara! Eu estou feliz por você. – Sorri.
– Obrigado. – Assenti com a cabeça.
– Harper, que surpresa te ver aqui! – Ele falou mais alto, me fazendo rir.
– Para mim não é surpresa nenhuma! – Raffa disse abraçando Harper. – Tinha certeza de que era só questão de tempo para eles ficarem juntos. – Harper riu. – Eu estou feliz por vocês.
– Obrigado… – Vi os lábios de Harper se mexer e sorri.
– Cheguei! Cheguei! – Viramos para a porta novamente, vento Esteban Gutierrez entrar com Mónica, se eu não me engano, sua namorada.
Não demorou para que a devidas apresentações e risadas acontecessem mais uma vez, mas estávamos prontos para ir embora, tínhamos umas seis horas até Baku no Azerbaijão, lugar do novo circuito de F1.
– Baby… – Apoiei no teto do avião ao me aproximar de Harper. – Você vai ficar bem aí?
– Sim, é claro! – Ela disse, rindo. – Vá se divertir. – Assenti com a cabeça e dei um beijo em sua testa.
– Eu estarei… – Indiquei a frente do avião, fazendo-a rir.
– Vai ser fácil te encontrar. – Rimos juntos e me afastei pelo corredor.
– É, vocês são fofos. – Ouvi Raffa falar, me fazendo rir.
Me sentei em uma poltrona, preparando com o cinto de segurança e afins para o avião partir e ficou um silêncio caricato durante a decolagem. Observei Harper de longe, mas ela estava bem ali. O tempo chuvoso em Montréal fez o jatinho sacudir um pouco, mas não teve nenhum desespero maior ali. Quando o avião nivelou, as conversas voltaram a ficar um pouco mais altas.
– Eu vou ser o fofoqueiro da vez. – Nico falou, se ajeitando na poltrona à minha frente. – O que aconteceu entre aquele jantar na China que vocês só eram amigos para você trazê-la aqui? – Ri fracamente, negando com a cabeça.
– Mônaco aconteceu. – Felipe falou antes, me fazendo rir.
– Aconteceu muita coisa. – Falei. – Sendo bem honesto, não sei colocar em uma linha do tempo. Fomos para Mônaco visitar o Felipe, depois teve algumas brigas entre a gente, mas oficialmente, oficialmente, aconteceu tudo em Mônaco agora. – Falei, rindo. – Mas eu estou feliz. – Virei para Harper que também falava com as mulheres, imaginando que o papo seria o mesmo.
– Eu e a Raffa bem que conversamos… – Felipe disse, rindo. – Ela disse exatamente a mesma coisa que conversamos para a Raffa. – Ele disse, rindo.
– E você não podia me avisar, não?! – Falei, ouvindo-o gargalhar.
– Ah, não mesmo, vocês precisavam acertar isso sozinhos. E deu certo. – Ele riu e neguei com a cabeça.
– É… – Ri fracamente. – Só nossos amigos sabem por enquanto, estamos aproveitando antes de contar para meus pais que depois de 24 anos de amizade, somos mais do que amigos. – Eles gargalharam.
– Essa até eu quero ver! – David disse, me fazendo rir.
– Não estou com pressa para isso agora. – Neguei com a cabeça. – Só quero aproveitar. – Suspirei.
– Aproveite, cara! Ela parece legal… – David disse, rindo e a risada das mulheres fez nossa risada se desviar para elas e um sorriso mais largo apareceu em meu rosto com Harper rindo.
– Ela é… – Sorri. – Ela é demais!
*WAGs: expressão para designar namoradas ou esposas de famosos no mundo do esporte.
Capítulo 21
Perth, Austrália, 2006
A chegada de 2006 veio com muita excitação para os alunos da escola. Com a chegada do último ano, eles tinham menos aulas dentro da sala de aula e bastantes janelas livres. Além disso, o prédio da escola havia mudado e agora ficava há um quarteirão de City Beach, a praia que eles mais gostavam de frequentar, então qualquer tempo livre, os diversos grupos de amigos estavam na praia aproveitando o começo de um ano pesado e confuso para muitas pessoas.
Daniel tinha uma ideia fixa na cabeça, investiria em corrida até chegar à Fórmula Um, mas sabia o valor para chegar lá e essa parte era mais complicada, já que sua família não era rica. Harper tinha algumas opções convencionais na mesa como relações internacionais e até direito, mas o que ela gostava mesmo era de cozinhar, uma surpresa no meio de sua confusão.
Entre seus amigos, as escolhas estavam mais certas do que a dela. Michael queria fazer educação física e ficaria em Perth mesmo, Blake queria focar em administração, Déborah em biologia marinha, fazendo todos pensar o que aconteceria com o casal, já que a faculdade dos sonhos dela era em Sydney, já Tom e Alex lutavam para se formar na escola antes de pensar em uma carreira. Jemma falava em seguir a carreira da família e ser design de joias, mas ela nem sabia a faculdade necessária para fazer isso.
Independente da decisão que todos fariam até o final do ano, a única certeza é que a maioria dos alunos se encontrariam na praia no final do dia. Um luau não declarado acontecia no centro de City Beach, em um lugar sem muitos restaurantes em volta. Alguém sempre tinha um rádio com músicas antigas e alguns irmãos mais velhos sempre apareciam com pranchas de surfe, um violão e uma bola de futebol… Isso se não escondessem dentro da mochila mesmo.
E era isso que acontecia na última sexta-feira de março, 54 dos 60 alunos estavam na praia naquela sexta-feira no fim do dia quando Michelle parou o carro para Daniel descer. Ele havia ido no treino, mas saiu mais cedo e aproveitaria com sua turma e sua namorada.
– Você me liga se quiser que eu te busque? – Michelle falou.
– Eu vou a pé, relaxa. – Ele disse, jogando a mochila nas costas.
– Ok, divirta-se! – Ela disse e o garoto acenou com a mão antes de sua irmã se afastar com o carro.
Ele se aproximou do degrau mais perto que dava para a areia e tirou os tênis, colocando-os na mala e trocou pelos chinelos. Ele desceu a escada até a areia e caminhou para perto dos grupos espalhados na areia. Na água tinha algumas pranchas de surfe e na areia algumas rodas aproveitando o som, outra de meninas jogando cricket e outra com meninos jogando futebol.
Ele olhou pelas meninas, tentando encontrar Harper, mas ela não estava ali. Ele viu Michael, Blake e Alex jogando bola e repensou sobre juntar-se a eles, então foi até a roda de sua namorada.
– Ei, gente! – Ele disse, jogando sua mochila na areia.
– Amorzinho! – Jemma disse sorridente. – Como foi no treino? – Ela estalou um beijo em sua bochecha.
– Tudo certo. Ficando mais rápido a cada dia. – Ele abriu um sorriso.
– Que bom. – Ela disse genuinamente feliz.
– Sobre o que estão conversando? – Ele disse, segurando um pouco dos cachos que iam para seu rosto por causa do vento.
– Nada demais, só decidindo o que vamos jantar. – Toby disse.
– Pizza, não? Como toda sexta? – Ele disse, fazendo a turminha de Jemma rir.
– É, ele não está errado. – Addison disse.
– O problema é esse, pizza de novo? Eu vou virar um balão! – Jemma disse, fazendo Danny soltar uma risada automática.
– Quem sabe assim eu não tenha algo para apertar? – Ele brincou, apertando a barriga da namorada, fazendo-a rir.
– Para! Para! – Ela disse, sentindo cócegas.
– Eu como o que vocês quiserem. – Ele deu de ombros. – Afinal… – Ele puxou a mochila, procurando sua barra proteica em um dos milhares bolsos. – Eu preciso comer algo. – Ele riu.
– Você passou em casa? – Jemma perguntou.
– Não, vim direto. – Ela fez uma careta.
– Você está muito suado. – Ela falou.
– Ah, nada de novo. – Ele falou, rindo e um respingo forte de água os atingiu.
– Ei, cuidado! – Jemma disse e o grupo se virou e Danny se surpreendeu ao ver Harper com a parte de baixo do biquini, uma blusa de surfe de manga comprida que deixava os seios dela em evidência e segurando uma prancha de surfe.
– É água… – Harper disse com tom de obviedade, sacudindo a mão em direção à Jemma.
– Ah, para! – Jemma disse e Harper revirou os olhos.
– Você surfa agora? – Daniel perguntou e Harper se virou para ele.
– É… Tom está me ensinando. – Ela disse. – Você deveria tentar, não tem tubarões na água… Ao menos não hoje! – Ele riu, feliz por ela se lembrar desse detalhe sobre ele e ela deu um aceno de cabeça um tanto automático antes de seguir pela areia.
Daniel a acompanhou com o olhar, vendo-a parar com Déborah, Arya e Tom que vinha logo atrás dela. Ele ouviu a risada de Blake mesmo com a distância e Blake e Harper se cumprimentaram aos risos, e ela fincou a prancha na areia. Michael e Alex se aproximaram e ela falava algo engraçado pela movimentação exagerada das mãos.
Enquanto isso, o grupo em que Daniel estava falava sobre o que iam jantar e sua namorada reclamava de alguns respingos de água que caíram nela por um mero acidente. Ele sentia falta daquele grupo. As coisas deram uma melhorada após ele ajudar Harper com sua avó, mas só havia melhorado o fato de eles pararem de fingir que não existiam, ao menos um cumprimento e respostas a simples “bom dia” saía agora.
– Ei, Danny! – Jemma o chamou e ele virou o rosto. – O jantar.
– Hum, claro. Eu voto em pizza. – Ele deu de ombros, respirando fundo ao olhar para o grupo estranho de Gemma, Addison, Toby, Charlie, Luka e Peyton.
Baku, Azerbaijão, 2016
Harper
– Ah, Danny boy! Onde você a escondeu? – David Coulthard me abraçou pelos ombros, me fazendo rir e Danny não parava de sorrir.
– Preciso dar uma folga para ele dessa vez, meu trabalho que me impossibilitava de vir. – Falei rindo, pegando minha mochila.
– E o que aconteceu para decidir vir? Pediu demissão? – Nico perguntou.
– É, foi algo assim. – Falei, rindo, ouvindo mais risadas altas.
– É um prazer te ter conosco. – Vivian, esposa de Nico, disse e sorri.
– Obrigado, vocês são muito gentis. – Falei e peguei minha mala com Danny.
– Nos vemos amanhã na pista, então! – Felipe disse.
– É, vamos sair daqui, caras, dia corrido amanhã. – Jenson falou, batendo as mãos. Depois de seis horas de voo, descobri que o britânico era tão piadista quanto Danny.
– Prazer em te conhecer, Harper. – Vivian apertou meu braço.
– O prazer foi meu. – Sorri, abraçando-a rapidamente, depois fiz o mesmo com as outras cinco esposas.
– Estou feliz por vocês, Harper. – Raffa disse.
– Obrigada. – Ri fracamente, sentindo minhas bochechas esquentarem.
– Cuida da nossa criança. – David disse, me abraçando rapidamente e sorri.
– Acho que ele já está grandinho para se cuidar sozinho. – Falei e Danny me abraçou pelos ombros.
– Ela cuida de mim há 24 anos, a vantagem é que agora a gente se diverte. – Danny disse, me fazendo rir.
– Idiota. – Falei e ele pressionou um beijo em minha bochecha, me fazendo rir.
– Bom, gente, vocês têm que acordar cedo amanhã. – David falou.
– Você não? – Danny disse, rindo.
– Ele só precisa estar pronto para a entrevista de domingo. – Max disse, nos fazendo rir.
– Engraçadinho! – David disse e ri fracamente.
– Bom, gente! Vamos! – Nico disse. – Nos vemos amanhã.
– Boa noite, gente! – Eles começaram a falar.
– Obrigado pela carona! – Danny disse e mais alguns cumprimentos depois, os casais se separaram. – Max, quer carona? – Danny ofereceu para o solteiro do grupo.
– É, obrigado! – Ele disse e seguiu conosco.
Danny entrelaçou nossas mãos livres e seguimos pela pista do aeroporto até a área de desembarque privativa com alguns casais à nossa frente. Nos separamos para fazer a imigração e guardei o passaporte dentro da mochila logo depois. Encontrei Danny e Max do outro lado e andamos pelo aeroporto até a área de desembarque.
Alguns fãs estavam acumulados na porta e muitas pessoas com roupas culturais, imagino. Estive ocupada nos últimos dias para pesquisar sobre a cultura daqui, mas a empolgação de um país novo era a mesma.
– Eu te espero na porta. – Cochichei para Danny, soltando nossas mãos e ele riu fracamente antes de seguir para perto dos fãs com Max.
Tinha cerca de umas 20 pessoas acumuladas ali, mas não demorou para que ele e Max voltassem. Entramos no primeiro táxi privativo livre e Max foi na frente, mas isso não foi motivo para Danny se afastar de mim. Ele colou o corpo no meu novamente e apertou minha mão. Eu poderia ter aproveitado o passeio e descansado um pouco, já que fiquei o voo inteiro acordada, mas a cidade era linda demais para eu simplesmente deixar para lá.
– Olha, Danny… – Indiquei os prédios tradicionais.
– Você pode dar uma volta conosco para reconhecimento da pista amanhã. – Ele disse e assenti com a cabeça.
Demoramos uns 25 minutos para chegar ao Marriott. A área do circuito já estava fechada para o começo do fim de semana, então deu para perceber que o motorista deu algumas voltas a mais até chegar no destino. Tiramos as malas do carro e agradecemos. Alguns fãs estavam acumulados na porta, então aproveitei meu anonimato para entrar rapidamente, encontrando Maria no saguão.
– Boa noite. – Ela disse, sorrindo.
– Marriott, hum?! – Falei, rindo.
– Não fique muito empolgada, teremos a volta dos motorhomes em Spielberg! – Rimos juntas e trocamos um rápido abraço. – Como foi a viagem?
– Tudo certo.
– Como foi a introdução nos pilotos? – Ri fracamente.
– Foi… Pressão. – Ela riu fracamente. – Eles são legais, mas me pergunto se as coisas não estão indo rápidos demais. Não oficializamos nada ainda, mas parece que sim… – Ela riu fracamente.
– Acho que depois de 24 anos de amizade, um pouco de pressa não é nada mal. – Ela disse e ponderei com a cabeça, suspirando.
– É… Vamos ver! – Mordisquei o lábio inferior ao ver Danny e Max entrando no hotel. O jeans claro e a camiseta preta larga ficavam muito bem nele. Mas talvez ficassem melhor no canto do chão do quarto.
– Boa noite, senhores. – Maria disse quando eles se aproximaram.
– Ei, Maria! Bom te ver! – Danny a abraçou e Max foi logo em seguida.
– Aproveitando a cidade? – Ela perguntou.
– Ah, é linda! – Falei, empolgada, vendo-a sorrir.
– Bons restaurantes também. – Ela disse, me fazendo sorrir.
– É… Ouvi falar. – Rimos juntos.
– Bom, senhores, amanhã começamos cedo. – Ela esticou uma chave para Max e outra para Danny. – Me agradeça depois, ok?! – Ela disse antes de se virar e Danny me olhou confuso.
– Ok… – Danny disse e seguimos logo atrás de Maria. Entramos com todas as malas e ela apertou o último botão do elevador e chegamos rapidamente.
– Daniel à direita, Max à esquerda. – Ela disse, apontando para duas portas. – Boa noite para vocês. – E ela sumiu dentro de outro quarto.
– Boa noite para vocês também. – Max disse.
– Boa noite, Max. – Falamos e Danny abriu a porta do quarto e segui logo com ele.
– Ah, eu amo essa mulher! – Danny falou um pouco mais alto e ri fracamente, entrando com ele e encontrando literalmente um quarto.
Ele era pequeno, comparado com os outros quartos que ficamos, mas era somente um quarto, sem outras suítes ligadas a ele. Uma pequena bancada com uma televisão e uma escrivaninha na ponta. O banheiro ficara à esquerda e à frente tinha uma linda vista da cidade e do litoral.
– Essa cidade é linda… – Falei, deixando a mala na porta e minha mochila foi para o chão logo em seguida.
– Você está vendo aqueles prédios ali na frente? – Danny indicou logo à frente e me aproximei dele.
– Sim… – Abracei-o pela cintura, apoiando meu rosto em seu queixo.
– Acho que daqui onde estamos, até lá, é o circuito. – Ele disse, passando o braço em meus ombros.
– Estamos bem perto. – Comentei.
– É… Olha! – Ele indicou um canto do lado esquerdo e vi o teto do paddock com o escrito “Azerbaijão”.
– É, dá para ir a pé. – Falei, rindo e ele beijou minha cabeça antes de eu me afastar.
– Pelo menos está mais quente aqui. – Ri fracamente.
– Ainda bem! – Tirei o moletom da cintura, deixando-o na escrivaninha. – Odeio frio, baby…
– Eu odeio também, mas agora tenho você… – Ele me abraçou pela cintura, me fazendo rir. – Você me mantém quente de noite… – Ele deu um beijo em meu pescoço. – Aquece meu corpo de todas as formas possíveis. – Neguei com a cabeça.
– Ah, cara, você é muito brega. – Ele riu fracamente, sua respiração me fazendo arrepiar.
– E você ainda gosta de mim. – Ri fracamente, virando meu corpo para ele e passei os braços em seus ombros.
– Gosto… – Toquei nossos lábios rapidamente. – E é por gostar de você que te falo para tomar um banho e descansar. – Ele assentiu com a cabeça.
– E você vem comigo. – Ri fracamente.
– Não é a definição de descanso… – Ele riu.
– Ah, a gente dá um jeito depois. – Ele deu de ombros. – O que achou do pessoal?
– Eles são ótimos. As mulheres são muito simpáticas e me recepcionaram muito bem. – Sorri. – Jenson e David são parecidos contigo, mas Nico parece um paizão. – Ele riu fracamente. – E ele não é tão mais velho do que você.
– Não, mas é… Ele é legal. – Ri fracamente.
– Eu mal ouvi a voz do Esteban; Felipe e Raffa são ótimos e é incrível ver o Max em outro ambiente que não seja o paddock. – Ele riu fracamente.
– É, Max é gente fina, meio bicho do mato, mas ele vai se soltando devagar. – Ri fracamente, passando a mãos em seu cabelo. – Agora, banho? – Suspirei.
– Vai ser só um banho, Daniel. – Falei firme.
– Ah, não, Daniel não. Cadê o Dan? – Ri fracamente.
– Está cansado. – Desviei o rosto, colando meus lábios em sua bochecha. – E baby também.
– Hum… – Ele franziu os lábios. – Mas podemos tomar banho juntos? – Ri fracamente.
– É, podemos… – Dei de ombros, vendo um largo sorriso safado aparecer em seu rosto e tive certeza de que perderia essa briga.
Quinta-feira
Daniel
Ouvi o toque do despertador e entreabri os olhos, vendo uma fresta de luz entrar por parte do blecaute aberto. Virei meu rosto para o lado e tateei a mesa de cabeceira até encontrar o celular e fiquei cego por alguns segundos com a claridade e desliguei o barulho incômodo. Suspirei e virei meu corpo para o lado novamente, encontrando Harper se espreguiçando.
– Ei, baby… – Falei, passando o braço em sua barriga novamente.
– Ei… – Ela suspirou, virando o corpo em minha direção e nossas pernas se entrelaçaram novamente.
– Dormiu bem? – Ela assentiu com a cabeça e passou os braços em meus ombros.
– E você? – Ela falou em um suspiro e pressionei meus lábios em seu pescoço, ouvindo-a rir.
– Sempre bem. – Ela suspirou, passando a mão em meus cabelos.
– Ainda estou com sono… – Ri fracamente, dando mais alguns beijos em seu pescoço.
– Vamos, baby… Hora de acordar. – Falei e ela suspirou.
– Ai, Danny… – Ela disse e ergui o rosto, dando um beijo em sua bochecha. – Você vai me deixar mole logo cedo.
– Hum… Isso é interessante! – Ela riu, empurrando meu rosto para o lado e me sentei na cama.
– Não desse jeito. – Ela disse sorrindo e seu corpo rolou na cama, se espreguiçando. Levei a mão até sua barriga quando apareceu por baixo da blusa.
– Dia cheio hoje. – Ela assentiu com a cabeça, se sentando na cama e arrumando as alças da blusa. – Nova cidade, novo circuito, você comigo… – Passei as mãos em sua cintura e ela se inclinou para nossos lábios se tocarem por alguns segundos.
– Só faça um bom fim de semana, ok?! – Ela passou a mão em meu rosto.
– Sempre. – Colei nossos lábios mais uma vez e ela riu antes de nos afastar.
Ela saiu da cama e foi para o banheiro. Ri fracamente, suspirando e deixei meu corpo cair na cama por mais alguns segundos antes de me levantar. Peguei o celular e procurei pela conversa de Michael no meio de várias.
“Ei, cara, vamos treinar direto no paddock hoje. Café da manhã na cobertura, sobe aqui quando terminar!” – Acenei com a cabeça, enviando um ok e fui para mensagem de Maria.
“Acorda, princesa! Café da manhã na cobertura, venha de uniforme, fotógrafos presentes.” – Ri fracamente, enviando outro ok antes de ver a porta se abrir e Harper sair com a escova de dentes na boca.
– Maria disse para ir uniformizado, tem fotógrafos. – Falei, me levantando. – Café na cobertura.
– Uhum… – Ela disse afirmando com a cabeça.
Fui até o banheiro, dando um beijo em sua cabeça antes de passar por ela e fechei a porta rapidamente para mijar. Abri novamente depois de lavar as mãos e Harper entrou logo em seguida. Peguei minha escova, colocando na boca antes de ir para o quarto e, enquanto escovava os dentes, separei uma calça jeans, uma blusa da Red Bull, meias e o boné.
Voltei para o banheiro, encontrando Harper de bruços na pia e dei um tapinha em sua bunda, ouvindo-a rir e me apoiei ao seu lado, esperando-a terminar. Ela se levantou rindo e puxou a toalha de rosto, ela limpou o rosto antes de me bater com a toalha e rimos juntos. Ela pressionou os lábios em meu rosto antes de sair do banheiro.
Terminei de escovar os dentes, lavei o rosto e passei protetor solar antes de sair do quarto. Harper andava só de calça jeans e sutiã enquanto fazia sua maquiagem, me fazendo sorrir. Peguei a calça jeans, vestindo-a e coloquei a blusa por cima, ajeitando os botões da camiseta polo.
Me aproximei de Harper, vendo-a passar batom nos lábios e abracei-a pela cintura, vendo seu olhar focar no meu pelo espelho e deixei um beijo em seu pescoço, ouvindo-a suspirar. Suas mãos foram para cima das minhas e empurrei seus cabelos para frente, distribuindo beijos pelo seu pescoço.
– Achei que estávamos com pressa… – Ela suspirou e ri fracamente.
– Ah, só aproveitando um pouco antes da bagunça. – Ela riu fracamente e desci para seu ombro, apertando meus braços em sua barriga.
– Daniel… Joseph… Ricciardo. – Ela disse, me fazendo rir.
– Presente. – Ergui meu rosto para ela, rindo com sua revirada de olhos e ela guardou as coisas em sua necessaire antes de se virar para mim.
– Precisamos ir… – Apertei as mãos em sua cintura, apertando sua bunda.
– Não vou deixar você ir assim! – Falei, levando meus lábios para seu pescoço novamente.
– Eu pretendo colocar uma blusa, sabe? – Ela disse rindo e deslizei o nariz pelo seu pescoço, até erguer o rosto para o dela.
– Podemos ficar um pouco e… – Dei um selinho em seus lábios avermelhados.
– Se você me beijar agora, além de tirar minha maquiagem, vai manchar meu rosto e ficar com os lábios vermelhos. – Ela disse, afastando o rosto e usei a desculpa para distribuir mais beijos pelo seu pescoço. – Daniel… – Ela gemeu.
– Eu não me importo com o risco. – Ela riu fracamente.
– É, mas eu me importo em refazer minha maquiagem. – Ela me empurrou pela barriga, me fazendo rir. – E me importo de ter várias fotos suas com os lábios vermelhos. – Ri fracamente. – A gente aproveita depois… – Ela deu um beijo leve em meu rosto. – Viu?! Já marcou. – Ela passou o polegar em minha bochecha e ri fracamente.
– Eu só não consigo me conter com você assim… – Deslizei as mãos pela lateral de seu corpo, ouvindo-a rir.
– Ultimamente você não tem se contido comigo assim ou de burca. – Ela brincou, se virando e ri fracamente, vendo-a pegar sua camiseta igual a minha e vesti-la, escondendo minha visão.
– É… – Dei de ombros. – O que você fez comigo, hein?!
– O quê? – Ela gargalhou alto e ri com ela. – Você se apaixona por mim e eu fiz algo contigo? – Ela passou os braços em meus ombros e ri fracamente.
– Ah, verdade, apaixonado. Esqueci desse detalhe. – Falei, abrindo um sorriso e ela colou nossos lábios rapidamente.
– Vamos, bobão. Estou com fome. – Ela se afastou e sorri, vendo-a seguir para sua mochila preparada, assim como a minha e colocar nas costas.
– Lesgo, baby! – Falei, sorrindo e peguei minha mochila também, colocando nas costas.
Peguei o celular, colocando no bolso da frente e Harper abriu a porta do quarto. Fui logo atrás dela, puxando a porta logo em seguida e ela apertou o botão do elevador. Fui até ela, segurando sua mão e nossos dedos se entrelaçaram antes de entrarmos no elevador. Ela apertou o botão de cima e ficamos lado a lado pelos poucos segundos que levou para subir.
– Pronta para mais um dia nessa bagunça? – Perguntei, ouvindo-a rir.
– É… – Ela sorriu. – Quantos você quiser, honestamente. – Ela piscou antes de sair do elevador, fazendo nossas mãos soltarem e suspirei antes de seguir logo atrás dela.
Quando Maria falou que teriam fotógrafos, pensei numa coletiva pronta para eu ser bombardeado de perguntas, mas não. Era só o nosso fotógrafo e um da FIA. Nada demais. Boa parte da equipe estava lá, inclusive Christian e Max, então dei rápidos cumprimentos, seguindo para a mesa onde Harper abraçava Michael e Maria.
– Bom dia, galera! – Falei, abraçando Michael e Maria logo em seguida.
– Bom dia, Danny! – Michael disse e deixei minha mochila na cadeira.
– Como foi em Londres? – Perguntei.
– De boa, cara! Nada de novo. – Ele disse, rindo. – E vocês? Aproveitaram?
– O suficiente. – Falei, sentindo Harper me empurrar pelo ombro, me fazendo rir.
– Oh, espera! – Ela disse aleatoriamente e virei o rosto para ela, vendo-a atravessar o salão e ela foi direto para a sacada.
– Ah, uma vista! – Falei, rindo. – Ela adora vistas.
– Dá para ver o circuito inteiro. – Maria disse.
– Dá para ver do nosso quarto também. – Falei. – Obrigado, falando nisso.
– Não há de quê! – Ela abanou a mão e desviei da mesa, caminhando pelo salão até passar pela sacada e encontrei Harper apoiada na beirada.
A vista era a mesma do nosso quarto, mas agora com o sol e com as laterais abertas, era possível ter uma visão melhor e geral de tudo. Estamos há literalmente um quarteirão do circuito e é possível ver a entrada daqui. Realmente dava para ir a pé.
– Hey, baby! – Falei, vendo-a virar o rosto.
– Hey, baby! – Ela disse, rindo.
– Gostando da vista? – Ela riu fracamente.
– Aqui é incrível, Danny. – Ela suspirou e abracei-a pelos ombros, sentindo-a colar sua cabeça na minha.
– Mônaco é mais especial. – Falei, ouvindo-a rir.
– Bem… Tem um motivo para Mônaco ser mais especial. – Ela disse.
– Será que rola trazer o iate para cá? – Ela riu fracamente.
– Talvez… – Ela beijou meu rosto. – Vamos comer… Depois você tira umas fotos minhas aqui! – Sorri.
– Nossa! E vamos mandar para minha mãe “ei, mãe, estamos bem”. – Brinquei, fazendo-a rir.
– Coloca junto “ei, mãe, estamos transando, achei que deveria saber”. – Ela sussurrou, me fazendo rir.
– É, e ela aparece aqui em dois minutos. – Falei, vendo-a sorrir. – Ela surge aqui, do nada!
– Ela está atrás de você… – Virei apressado, fazendo-a gargalhar e me abraçar. – Ah, cara! O medo é genuíno!
– Porra, Harper! – Ela gargalhou perto do meu ouvido e neguei com a cabeça.
– Ah, cara! Isso foi ótimo! – Ela se afastou e bufei.
– Não faz isso, cara! Não estou pronto para isso! – Ela riu.
– Você sabe que teremos que enfrentar isso um dia, né?!
– Eu sei, mas deixa eu aproveitar você um pouco só para mim antes de ela surtar. – Ela riu fracamente.
– Você nunca pode me aproveitar sozinho com sua mãe perto. – Ela disse.
– Ela vai ter que aprender a ter um pouco de espaço pessoal! – Rimos juntos e ela passou o polegar em meu rosto novamente.
– Vai demorar para ela vir em uma próxima corrida, não? – Ela perguntou.
– Depende dos compromissos dele, Singapura e Malásia talvez. Na Itália meu pai gosta de ir também… Depende. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
– Temos tempo, então. Dá para você esconder seu novo brinquedinho brilhante por bastante tempo. – Sorri.
– Dá para eu brincar com meu novo brinquedo brilhante por bastante tempo. – Ela riu fracamente.
– Já disse um milhão de vezes, mas vou dizer só mais uma…
– Estamos ferrados? – Falei.
– Exatamente. – Ela sorriu e puxei-a pelo pescoço, estralando um beijo em sua bochecha, ouvindo-a rir.
Harper
– Sabe onde é a próxima corrida? – Ri fracamente.
– Áustria, não? – Apoiei o corpo na pilha de pneus.
– Sim! É nossa home race, temos espaços melhores lá… Você poderia cozinhar para gente. – Gargalhei com Nigel, negando com a cabeça.
– Eu apoio isso! – Christian passou ao meu lado, dando um tapinha em meu ombro e neguei com a cabeça.
– Devemos fazer um acordo… – Falei, rindo.
– Ah, você é exatamente como Daniel. – Christian disse, rindo.
– Na primeira vitória, eu trago algo para vocês, mesmo que pequeno. – Falei, vendo Christian rir.
– Combinado! Mal vejo a hora disso. – Ele esticou a mão para mim e apertei, rindo juntos.
– Espero que comecemos por essa. – Nigel disse e sorri.
– Fazendo acordo comigo, é?! – Vi Danny entrar pela frente da garagem.
– Quem sabe não te dá um pouco de ânimo? – Dei de ombros, ouvindo-o rir.
– Garanto que eu tenho ânimo de sobra. – Ele me puxou pela cintura.
– Não aqui… – Apoiei minha mão em seu peito, afastando-o.
– Alguém é discreta, pelo menos. – Christian disse, seguindo pela garagem, me fazendo rir.
– É, você não está sendo muito. – Falei para Daniel. – E se sua mãe…
– Não tem fotógrafos aqui e o Mark não vai enviar uma foto nossa para minha mãe! – Ele indicou para o fotógrafo da Red Bull, me fazendo rir.
– “Ei, senhora Ricciardo, achei que gostaria de ver isso”. – Mark brincou, me fazendo gargalhar.
– Não brinca com isso, ele está desesperado só de pensar na possibilidade… – Falei, rindo, sentindo Danny me abraçar, colando os lábios em minha bochecha.
– Ah, qual é, cara! Vocês são ótimos! – Nigel disse, me fazendo sorrir.
– Eu sei… Mas tem toda questão de “somos amigos de infância” e tudo mais. Ela vai surtar. – Danny disse e assenti com a cabeça.
– É… Com certeza. – Falei, vendo Nigel rir.
– Bom, deixa eu trabalhar! – Ele disse, empurrando a pilha de pneus e acenei com a mão.
– E você? Não tem que trabalhar também? – Virei para Danny, apoiando a mão em seu ombro.
– Vamos dar uma volta pelo circuito, quer vir? É sua oportunidade de conhecer a cidade… – Assenti com a cabeça.
– Claro! Quero sim! – Sorri.
– Vem, eles estão nos esperando! – Ele indicou com a cabeça, me puxando pela mão, soltando-a logo em seguida e fui com ele, encontrando Max, Simon e Jean, engenheiro de Max andando em círculos de bicicletas.
– Ah, chegaram! Estava ficando tonto já, cara! – Max disse.
– Bicicletas? – Perguntei confusa e Danny trouxe uma para perto de mim.
– É! – Ele me esticou um capacete branco. – Ainda sabe andar, né?!
– É, é claro! – Falei rindo e coloquei o capacete, ajustando-o no queixo. – Faz tempo, mas talvez eu não caia. – Apoiei as mãos na bicicleta, permitindo-o soltá-la.
– Vou colocar para gravar o percurso, vai que… – Ri fracamente.
– Esse é meu amigo. – O vi se aproximar de outra bicicleta, colocando o capacete e ajustei a altura do banco antes de me sentar nela.
– Vamos? – Simon se aproximou.
– Podem ir, eu estarei logo atrás! – Falei, indicando com a mão, tirando os óculos escuros da gola e colocando nos olhos.
Danny fez o mesmo com o seu, dando um de seus sorrisos safados antes de subir na bicicleta e pedalar algumas vezes para se equilibrar nela. Ri fracamente, colocando o celular no bolso da frente e impulsionei a bicicleta da mesma forma.
Seguimos exatamente pelo circuito. Passamos pela área do grid e fomos em direção ao hotel, passando na frente dele à esquerda, andamos três quarteirões e seguimos à esquerda novamente. Algumas ruas já estavam fechadas, outras estavam sendo fechadas, mas eu estava mais preocupada em ver a cidade. Tem o mesmo estilo antigo de Mônaco, mas muitos mais detalhes, devido a sua influência da União Soviética e Ásia.
Danny e Simon conversavam sobre as curvas de 90 graus do percurso e, apesar de ser um pouco mais larga do que Mônaco, especialmente nos retos contínuos, eu já sabia que não seria fácil. Só esperava que Danny estivesse be-e-e-em atento para a corrida do domingo.
Na primeira parte da volta, eu só andei atrás deles, ouvindo a conversa e recebendo algumas piscadas de Danny, mas quando chegamos na grande curva, eu comecei a ver os pontos turísticos interessantes, como as Flame Towers ao longe e a Fortaleza de Baku, que era uma pequena curva muito rente e que eu me perguntei como se passava ali de bicicleta, imagina com um carro a 350 quilômetros por hora.
– Aqui é muito apertado, alguém vai bater, tenho certeza! – Danny disse.
– Ai, Danny, que horror! – Falei, andando um pouco à frente para tirar algumas fotos do local.
– Espero que não seja eu! – Ele falou rapidamente.
– Não tem graça! – Falei, ouvindo Max rir.
– Ah, só dizendo… – Danny deu de ombros e revirei os olhos, subindo na bicicleta de novo.
Andamos um pouco mais à frente, dando na grande curva do circuito e encontrei outro prédio bonito, o Salão Filarmônico da Academia Estadual Muçulmana Magomayev Azerbaijão que ficava pouco ao final da grande curva.
Danny e Simon falavam muito sobre o asfalto ter certas ondulações e dava para perceber pequenas subidas e descidas na bicicleta, então imaginei que os carros pudessem voar um pouco, dependendo da velocidade.
Outro ponto turístico que passamos foi a Torre da Donzela, tradicional da cidade antiga de Baku e depois caímos no enorme reto até chegar ao grid novamente. Não que eu fosse uma pessoa fora de forma, fazia algumas coisas com Michael meio que por obrigação, mas seis quilômetros era realmente para matar. Eu, com certeza, não sentiria minhas pernas amanhã.
– Nos encontramos mais tarde! – Simon disse e suspirei, descendo da bicicleta.
– Você está bem?! – Danny perguntou e ri fracamente.
– Eu estou… – Fiz uma careta ao colocar os pés no chão novamente. – Eu não devo sentir minhas pernas mais tarde, mas estou bem. – Ele riu fracamente.
– Talvez deva pegar mais pesado na academia. – Rimos juntos.
– Achei que gostasse das minhas dobrinhas. – Pisquei para ele, empurrando a bicicleta em direção a garagem.
– Eu amo… – Ele disse e foi minha vez de piscar para ele. – Bastante até… – Rimos juntos.
– Eu vou encontrar algo para comer, te encontro na casa da árvore. – Falei e ele assentiu com a cabeça, rindo sozinho.
– Ah, ele é um idiota! – Max disse, me fazendo rir.
– Ele fica assim às vezes. – Falei, dando de ombros e virei o rosto para Danny, vendo-o parado no mesmo lugar, com um sorriso tonto no rosto.
Daniel
– Christian disse que eles fizeram modificações com as nossas observações. Na curva seis e na 12, os meio-fio vão ser substituídos por marcas pintadas. – Falei.
– E vocês notaram isso de bicicleta, imagina com o carro. – Michael disse, me fazendo rir.
– Essa pista é rápida, estou empolgado. – Falei, rindo.
– Eu dei uma espiada na área do pit stop, Bottas e Hamilton estavam discutindo com o Charlie sobre alguma coisa também… – Michael disse.
– É, Simon disse algo assim na reunião mais cedo. Que a entrada é muito curta. – Falei.
– Circuito novo tem esses problemas…
– Se forem só esses problemas, está muito bom! – Falei, rindo e peguei a long neck, dando um gole nela. – Saberemos melhor amanhã quando pegar o carro.
– Toma cuidado, Danny… – Virei o rosto para Harper, vendo-a com os olhos abaixados em sua caderneta e segurei sua mão em cima da mesa.
– Relaxa, baby… – Falei sério. – Amanhã é só o primeiro treino.
– Eu sei, eu só… – Ela suspirou, erguendo o rosto para mim.
– Você não precisa ficar nervosa. É só outro fim de semana. – Ela assentiu com a cabeça e quis beijar seus lábios mais uma vez. – Como está aqui? Boa escolha vir aqui?
– Sim! – Ela sorriu, rindo em seguida. – Faz muito tempo que eu não termino com algo e eu vou terminar com tudo… – Rimos juntos.
– Droga, perdi meu segundo prato. – Ela sorriu.
– Essa sopa aqui, se chama piti, é um caldo espesso, parece minestrone, mas ele também é mais espesso do que um minestrone. Quase uma refeição completa. – Ela indicou uma das tigelas em sua frente. – O dolma é similar ao charuto, mas eles usam muita carne de cordeiro…
– Eu gostei desse também. – Michael disse.
– E eu nunca fui muito fã de caviar… – Ela disse. – Mas os camarões que o acompanham estão divinos. – Ela suspirou, colocando outro pedaço do camarão em sua boca, me fazendo sorrir.
Harper era exatamente como eu, tinha dois lados. O lado caipira de Perth, pés no chão, comer grandes hamburgueres com as mãos e cuidar da fazenda, e o lado chef de cozinha onde ela segurava os talheres de forma correta, com delicadeza e cada mordida era do tamanho de um amendoim.
– Vale uma estrela? – Sussurrei e ela assentiu com a cabeça.
– Não que eu tivesse alguma dúvida, esse canto do mundo é conhecido por ser diferenciado, mas parece que escolhi a dedo. É perfeito. Desde a comida até o serviço – Ela suspirou. – Preciso só da sobremesa para completar os requisitos. – Sorri.
– Está cedo ainda, pode comer com calma. – Ela assentiu com a cabeça.
– Eu sei. – Ela sorriu. – Mas me avisa se precisar ir, não quero você indo dormir tarde. – Ela disse, séria. – Por nenhum motivo. – Ri fracamente.
– Sem se divertir mais tarde? – Pisquei para ela.
– Depois de tudo o que eu comi? Você realmente acha que eu aguento? – Rimos juntos e vi Michael revirar os olhos.
Vi meu celular acender em cima da mesa e puxei-o em minha direção, vendo uma mensagem de Jenson:
“Conseguimos o espaço em Nice! E aí? Hora de falarmos sério?” – Ri fracamente, desbloqueando o celular e digitando algumas palavras.
“Eu estou completamente dentro! Me mande os papéis”. – Enviei, vendo que a mensagem foi lida e logo o britânico respondeu novamente.
“Conversamos melhor amanhã, talvez precisemos dar um pulo em Nice para resolver, mas vou dar o aval e pedir para preparar os documentos”.
“Fechou! Bebidas por minha conta amanhã”. – Falei, rindo, antes de bloquear o celular de novo.
– Eu tenho que ficar enciumada por alguma coisa? – Virei o rosto para Harper.
– O quê? Ah, o telefone? – Ela assentiu com a cabeça. – Era o Jenson. – Ri fracamente. – Ele disse que conseguiu o prédio em Nice, vai rolar.
– Mesmo? – Michael perguntou empolgado, rindo em seguida! – Isso é ótimo, cara! – Nossas mãos se estalaram e ele deu uns tapinhas em minhas costas.
– Obrigado! – Falei, rindo. – Tem muita coisa para acontecer ainda, mas tendo o prédio já é o começo. – Ri fracamente.
– Eu deveria saber do que você está falando? – Harper perguntou e franzi a testa.
– Você não sabe da Blue Coast? – Comentei e ela negou com a cabeça lentamente.
– Ela não estava aqui ano passado! – Michael me empurrou levemente.
– Ah, não acredito que eu não te contei. – Virei meu corpo na cadeira. – Eu, Jenson e outros dois conhecidos vamos abrir uma cervejaria em Nice.
– Sério? – Ela perguntou surpresa.
– É! – Ri fracamente. – Foi uma ideia que eu tive ano passado, acabei fazendo um curso e a ideia cresceu. Jenson topou, me apresentou alguns entusiastas da área e a ideia foi crescendo. A gente queria um espaço em Nice, por ser perto de Mônaco e achamos um no final do ano, mas estava ocupado, agora liberou! – Falei, vendo-a rir.
– Isso é ótimo, Daniel! – Ela esticou a mão em cima da minha. – Não acredito! – Ela riu fracamente e sorri.
– Desculpa não ter te contado, eu esqueci total…
– Não, Danny! Que isso! Vivemos quase 10 anos separados um do outro, tem muita coisa que a gente não sabe… – Ela deu de ombros. – Mas vamos aprender… – Ela sorriu e ergui sua mão, dando um beijo, vendo-a sorrir.
– Talvez você pode colocar nossa cerveja no seu restaurante… – Falei, ouvindo-a rir.
– É claro! – Ela deu de ombros. – Mas vou precisar experimentar antes. – Sorri.
– Combinado! – Falei, rindo. – Já temos uma prévia, mas ainda precisamos trabalhar um pouco.
– Do jeito que você gosta de cerveja boa, aposto que vai ficar incrível. – Sorri.
– Você vai ser nossa testadora. – Falei, ouvindo-a rir.
– Não é minha melhor área, mas posso ajudar no que precisar…
– Combinado. – Falei, rindo.
– Ai, vocês dois… – Michael disse.
– Não se acostumou ainda? – Harper perguntou.
– Já, mas estou chocado como vocês combinam…
– Somos amigos há 24 anos, Mike… – Harp disse.
– Digo assim, de mãos dadas, amorzinho e tudo mais. – Ri fracamente, virando para Harper.
– Talvez seja pelos anos de amizade. – Ela deu de ombros.
– Eu não sei, mas funciona, gente… – Michael disse. – Me pergunto se não deveria ter acontecido antes…
– Tudo acontece por uma razão, Mike. – Ela disse. – Tudo tem seu tempo… – Ela deu de ombros. – O nosso é esse. – Abracei-a pelos ombros, puxando-a para mim e dei um beijo em sua cabeça. – Vamos ver como nos saímos, ok?! – Ela riu fracamente.
– Vamos sair ótimos. – Falei. – Você vai ver. – Sorri e ela fez o mesmo.
Sexta-feira
Harper
– Vamos, Daniel! – Simon gritou.
– É, Daniel, vamos! – Falei, provocando-o, ouvindo a risada de alguns de seus mecânicos.
– Até você? – Ele perguntou, rindo, subindo o macacão pelos ombros.
– É claro! Quanto mais rápido você terminar, mais rápido eu posso almoçar. – Dei de ombros, ouvindo a risada alta de Christian.
– Ah, eu gosto de você! – O chefe de equipe falou, me fazendo sorrir.
– Eu vou fazer uma fastest lap por você! – Danny disse, colocando a balaclava na cabeça, me fazendo rir.
– Faça por você! – Respondi, vendo-o piscar por baixo do tecido branco antes de ele virar o rosto para o carro.
Me sentei no banco, ajeitando os fones nas duas orelhas e subi o microfone. Michael se desencostou do meu lado e foi até Danny para ajudá-lo a se ajeitar dentro do carro, passando o protetor bucal, headrest, luvas, até finalizar com o capacete.
– Você é a primeira namorada que eu não preciso me preocupar. – Maria se apoiou ao meu lado.
– Não somos namorados, Maria… – Virei para ela.
– Não oficialmente, talvez. – Ela deu de ombros. – Mas você é a mais fácil que eu já tive que lidar em um bom tempo. – Ri fracamente. – A última namorada dele era…
– Uma filha da puta. – Fui honesta e Maria se surpreendeu.
– Uau! – Maria disse surpresa, me fazendo rir.
– Estudávamos juntas na escola, ela fez muito bullying comigo quando eu era mais nova porque tinha problemas de crescimento. – Expliquei. – Danny começou a namorá-la e nós ficamos separados por três anos. Só voltamos a nos falar porque ela quase o matou. – Falei, negando com a cabeça. – Mas eles se encontraram alguns anos depois e namoraram por um tempo…
– Espera! O quê? – Ela perguntou e abanei a mão.
– Os problemas de alergia dele. – Falei em um suspiro.
– E como você reagiu? – Ela perguntou. – Com eles namorando de novo, quero dizer!
– Eu passava 10 meses fora de casa, Maria. Eu deixei claro que nunca seria amiga dela e que estava lá pelo Danny e sua família… – Virei para ela.
– Era ciúmes ou…?
– Olha, eu nunca gostei de Danny dessa forma. Não que eu tivesse a consciência pelo jeito. – Dei de ombros. – Eu só não tenho facilidade em perdoar, sabe? Eu tinha 10, 12 anos, eu era mais moleca na escola, ela era a tradicional patricinha, nunca demos certo. Quando eu cresci um pouco mais, começamos a bater de frente e foi onde as coisas ficaram mais sérias…
– Entendi… – Ela disse, rindo em seguida. – E hoje vocês estão juntos… – Abri um sorriso.
– Para você ver… – Suspirei. – Acho que nem em sonhos pensei sobre isso. E aposto que ela também não…
– Bom, mulheres costumam ter ciúmes de melhores amigas de homem. – Ri fracamente.
– Se ela tinha motivo, depois de dois relacionamentos deles, cinco anos, demos motivo para ela. – Ela riu fracamente e franzi o rosto quando o som do carro de Danny ecoou na garagem e apertei as mãos no fone, vendo Danny sair com o carro.
– Você é mais legal do que ela. – Ela falou mais perto de meu ouvido.
– Como ela era? – Perguntei, mordiscando meu lábio inferior.
– Como você disse: uma patricinha. – Ela deu de ombros. – Nunca que as mãos dela estariam sujas de graxa por checar, por vontade própria, os pneus… – Olhei as pontas dos meus dedos sujos de graxa e ri fracamente. – Ela gostava do evento em si, se vestia como um desfile de modas, falava com todos os famosos que encontrava, mas ficava entediada na corrida. – Ela deu de ombros. – Se eu vejo diferenças claras entre vocês duas hoje, entendo um pouco da briga de vocês na época da escola. – Assenti com a cabeça.
– Faltou pouco para eu meter a mão na cara dela. – Dei um sorriso, virando para Maria, vendo-a rir. – Mas bati muito no Danny quando descobri que eles estavam juntos. – Falei, rindo, vendo seus olhos se arregalarem.
– Sério?
– Bem… Não foi uma batida assim, eu o empurrei com força e ele caiu no chão, mas estava na grama… – Ela gargalhou alto.
– Me lembra de nunca se meter contigo. – Ri fracamente.
– Eu não gosto das pessoas de cara, então, se tivesse algum problema contigo, já teria tido. – Ela ponderou com a cabeça.
– Bom saber! – Sorri.
Não sei se foi minha distração com a conversa com Maria, mas Max apareceu na garagem poucos minutos após ele ter saído – e foi pouco antes de Danny. O neerlandês abandonou o treino após sete voltas e somente três tempos computados. Michael cochichou que parecia ser algum tipo de vazamento de óleo.
O neerlandês entrou direto com seu engenheiro, seu pai e sua equipe. Eu fiquei vendo os tempos começarem a subir na tela, me fazendo mordiscar a ponta do dedo. Danny não tinha experiência nenhuma com essa pista, ninguém, na verdade, mas esperava que algo bom saísse desse treino.
Seu melhor tempo foi na décima quinta volta com 1:49:778, mas enquanto os números mudavam, esse era só o décimo terceiro melhor tempo. Estávamos no primeiro treino ainda, mas ele precisava pegar mais confiança nessas curvas apertadas e arrasar.
Foram duas voltas, somente duas voltas para ele arrasar de um jeito que eu realmente não estava esperando. Meus olhos estavam fixos nos tempos de Lewis e Nico que subiam, quando ele virou na chicane da orquestra filarmônica e só vi a câmera se mexer com o choque contra a barreira e a borracha inteira do pneu dianteiro sair.
– Ele bateu! – Levantei apressada, sentindo minha garganta se fechar. – Danny! – Minha voz saiu mais alta do que o esperado e senti uma mão em meus ombros.
– Está tudo bem! Está tudo bem! – Ouvi a voz de Michael, mas aquele sentimento ruim começou a crescer em meu peito, a saliva começou a se acumular na boca e já estava cega pelas lágrimas.
– Por favor, Dan… – Minha voz sumiu e puxei a respiração diversas vezes.
– Respira! – Michael disse e eles mudaram a câmera, mas ainda não conseguia vê-lo.
– Por favor… Por favor… – Minha voz saía em gemidos fracos.
– Daniel? Daniel? Você está bem? – A voz de Christian foi forte e pareceu uma eternidade até ouvir a voz de Danny.
– Sim, eu estou bem… – Sua voz saiu falhada e a respiração saiu forte de meu peito, como se eu tivesse corrido uma maratona. – Eu bati na curva 15…
– Ah, meu Deus! – Apertei as mãos nos olhos.
– Respira! Respira… – Michael me abraçou.
– Eu acho que perdi uma roda traseira. – Danny disse.
– Entendido, cara. Sugiro ficar no carro até… Aí a bandeira vermelha, espere pelos marshalls. – Simon disse e soltei a respiração devagar.
– Respira! Estamos aqui por você. – Maria segurou meu rosto, me obrigando a olhar para ela. – Não foi nada, ele só bateu de traseira. Está tudo bem. – Soltei a respiração devagar.
– Com licença, Maria… – Ouvi outra voz e notei Christian em minha direção. – Respira, Harper, não foi nada. – Ele disse, apoiando as mãos em meus ombros. – Ele só quis fazer uma graça e forçar os pneus. – Ri fracamente no automático. – Está tudo bem! Ela está voltando para cá, ele não se machucou, o carro a gente conserta… – Soltei a respiração pela boca. – Está tudo bem… Respira… – Assenti com a cabeça e vi um copo em minha direção.
– Toma isso… – Brad me esticou um copo e dei um pequeno gole, sentindo o gosto de açúcar na água e agradeci com um aceno.
– Me coloca offline. – Ouvi a voz de Danny falhada.
– Ativo. – Simon respondeu.
– Harp? Harp? Você me ouve? – Ergui o rosto, abaixando o microfone.
– Danny? Danny? Como você está?
– Respira, Harp. Respira… – Suspirei, ouvindo sua voz risonha. – Eu estou bem, não se preocupe. Acha que vai se livrar fácil assim de mim? – Ri fracamente junto de outros membros da equipe.
– Como você está? – Perguntei fracamente, dando mais um gole na água.
– Da mesma forma que você me deixou há uns 30 minutos… Sinto lhe informar. – Ri fracamente. – Eu estou a caminho, respira, ok?! Estamos aqui por você…
– Já estamos cuidando dela, Daniel. – Christian disse e assenti com a cabeça.
– Obrigado, Christian. Estou com os marshalls, chego em 10 minutos. – Ele disse e um estalo como ligação sendo desligada foi ouvido.
– Melhor? – Christian perguntou e assenti com a cabeça.
– Obrigada, caras… – Suspirei. – Vocês não precisam se preocupar comigo…
– Você é da família, precisamos. – Brad disse, dando um sorriso e retribuí, deixando meu corpo apoiar na bancada.
– Estamos aqui, Harp… – Michael me abraçou pelos ombros e apoiou sua cabeça na minha.
– Sinto muito, mas eu estou mais sentimental essa semana… – Suspirei.
– Eu sei, você não precisa se explicar. – Ele deu um beijo em minha cabeça e suspirei, virando o restante da água, deixando os grãos acumulados de açúcar caíssem fortemente em minha língua.
A sessão teve bandeira vermelha e a batida de Danny começou a passar em reprise diversas vezes. A batida em si não havia sido forte, ao menos era o que aparecia no onboard, agora quando mostravam o resultado do carro, eu fiquei um pouco mais preocupada que Danny não estivesse ao menos com os joelhos doendo pela sacudida que o carro deu. O lado direito traseiro do carro estava perdido, ele literalmente saiu de bunda e bateu.
Ainda bem que o foco estava na câmera da frente.
Os carros começaram a passar pelo pit lane devido a bandeira vermelha e o barulho cessou por um momento. Um barulho mais fraco de motor de moto fez eu erguer meu rosto novamente e uma moto parou em frente a garagem e Danny desceu dela, me fazendo suspirar.
– Vai… – Michael disse e apoiei o copo na bancada antes de atravessar o centro da garagem.
Danny não tinha dado três passos para dentro da garagem quando o abracei. Minhas mãos apertaram seus ombros com força, amassando seu macacão e ele fechou os braços em minha cintura, colando a cabeça na minha. Seu rosto estava molhado e os cabelos amassados.
– Eu estou bem, Harp. Eu estou bem… – Ele sussurrou, dando um beijo em meu rosto e soltei a respiração devagar.
– Nunca mais faça isso, está me ouvindo? – Falei fracamente, sentindo a voz sumir.
– Tento ao máximo. – Ele suspirou. – Eu estou aqui, ok?! Eu estou bem… – Assenti minha cabeça freneticamente, mas não tirei meus braços de seu corpo.
Daniel
Virei o restante do vinho, apoiando a taça na mesa novamente e ergui os olhos para frente. Harper estava quieta desde que chegamos do paddock. Pedimos comida, sentamos na escrivaninha e, tirando algumas conversas rápidas com Michael, só dava para ouvir os talheres na mesa.
Suspirei e dei um toque com o cotovelo em Michael. Ele ergueu o olhar para mim e indiquei Harper. Ele assentiu com a cabeça e virou o restante do seu vinho. Ele deu um aceno com a cabeça antes de se levantar.
– Vou pegar meu remédio… – Ele comentou aleatoriamente e o vi seguir para fora de meu quarto com Harper.
Estiquei minha mão até Harper, segurando-a e ela finalmente se distraiu do seu prato onde ela só movimentava os pedaços de carne de um lado para outro. Dei um curto sorriso e ela retribuiu, apertando minha mão.
– Hey, baby… – Falei.
– Ei, baby. – Ela respondeu, abaixando o garfo.
– Você está distraída a noite toda…
– Só não estou com fome… – Ela distraiu o rosto e apertei sua mão.
– Eu sei que não é isso, baby… – Pressionei os lábios. – Fala comigo…
– Não tem o que falar, Danny… – Ela deu de ombros. – Só estou cansada…
– Harp… Não me faça usar a carta na manga que eu te conheço há 24 anos… – Ela riu fracamente.
– Como a que você acabou de usar? – Ela riu fracamente.
– Só ameacei por enquanto. – Ela sorriu.
– Eu estou bem… – Ela suspirou, negando com a cabeça. – Eu…
– Fala, baby. – A incentivei, ouvindo seu longo suspiro. – É sobre a batida que eu sei…
– É, é sim, mas… – Ela suspirou, soltando minha mão e ambas foram para seu rosto. – Eu sei que existe uma possibilidade enorme de isso acontecer e que você está bem, mas… – Ela pressionou as mãos em seu rosto, soltando um gritinho alto e suspirei.
– Harp… – Me levantei, andando em sua direção e passei meus braços ao redor de seu corpo, apertando-a contra mim.
Suas mãos apertaram minhas costas e logo seu gritinho fino se transformou em um choro contínuo. Pressionei meus lábios em sua cabeça, distribuindo diversos beijos, sentindo suas mãos apertaram minha camiseta. Esperei mais do que alguns minutos até seu choro cessar. Não era a primeira vez que isso acontecia e sabia que não seria a última.
Ela foi afrouxando as mãos devagar até que eu fizesse o mesmo. Passei as mãos em seu rosto, empurrando seus cabelos para trás, vendo seus olhos avermelhados. Deslizei os polegares em suas bochechas, secando as lágrimas restantes e seus olhos até brilhavam.
– Está melhor, baby? – Perguntei, colocando seus cabelos atrás das orelhas.
– Uhum… – Ela suspirou e pressionei meus lábios em sua testa.
– Você está pensando neles, não? – Perguntei, me ajoelhando a seus pés.
– O timing, Danny… – Abracei-a, me apoiando na beirada da mesa.
– Foi horrível, eu sei… – Beijei seu rosto. – Mas não foi intencional, baby. Eu perdi o controle na chicane, tanto que achava que tinha sido só um puncture no pneu. – Acariciei seu rosto. – Não foi minha intenção bater, baby… E nem destruir o carro daquele jeito também, odeio dar trabalho aos mecânicos. – Ela suspirou. – Mas pensa bem, se essa for a pior batida que eu for ter, está ótimo…
– Não quero que você bata, baby… – Ela suspirou.
– Olha para mim, Harp… – Falei e ela ergueu seu rosto para mim. – Quando foi a última vez que eu tive uma batida feia? – Ela sacudiu a cabeça. – Quando eu precisei de atendimento médico? Quando eu…
– Para! Eu não quero pensar nisso! – Ela disse mais alto. – A resposta é nunca, você nunca teve um acidente sério. Bom, mais ou menos… – Ela bufou. – Aquele seu primeiro acidente ainda me dá pesadelos.
– E eu saí muito bem daquilo, sem nenhuma dor…
– Os dois joelhos ralados e uma possível fratura nas costas… – Ela me interrompeu.
– Que nunca se confirmou. – Falei rapidamente.
– Ah, Danny! Para! – Ela suspirou e passei uma perna em cada lado do seu corpo e me sentei em seu colo.
– Só estou dizendo que está tudo bem, baby. – Segurei seu rosto, sentindo suas mãos em minhas costas. – Me desculpe pelo que aconteceu hoje, mas nesse mundo às vezes não posso evitar. Especialmente se vier dos outros… – Acariciei sua bochecha. – Eu quero ficar contigo pelo resto da minha vida, para isso, você precisa se acostumar com isso… – Ela suspirou. – E eu quero você ao meu lado. – Pressionei meus lábios em seu rosto. – Não estou dizendo que é para você parar de se preocupar, mas não quero que esse monstrinho dentro de você ataque toda vez. Estamos indo bem…
– Esse monstrinho está bem, baby. – Ela disse. – Só que esse fim de semana…
– Está tudo bem. – Segurei seu rosto. – Não tem problemas você se lembrar deles, mas de uma forma boa. – Dei um curto sorriso. – Eles não querem te ver triste depois de todo esse tempo… Seu pai deve querer me matar depois de transar contigo, mas ok… – Ela riu fracamente. – Lembre-se deles com carinho, ok?! Mas não deixe isso controlar sua vida mais, ok?! – Ela assentiu com a cabeça e abracei-a fortemente, apoiando minha cabeça na sua.
– Eu não sei o que eu faria sem você… – Ela cochichou e sorri.
– Você provavelmente não teria ataques de ansiedade… – Ela riu fracamente.
– É, talvez… – Ela afastou nossos rostos. – Mas também não teria o melhor amigo de todos e nem a melhor transa de todas.
– Yea-a-a-ah! – Falei, ouvindo-a rir.
– Não seja tão metido… – Ela disse e ri, pressionando meus lábios em seu rosto. – Agora sai de cima de mim, você é pesado.
– Hum, patricinha! – Colei meus lábios aos dela algumas vezes, ouvindo-a rir. – Você bem gosta quando é o contrário, né?! – Ela riu.
– Eu gosto… – Ela fez um biquinho e pressionei nossos lábios novamente.
– Só saiba que eu estarei contigo para sempre, ok?!
– Obrigada, baby. – Ela assentiu com a cabeça. – Agora toma cuidado com o resto da temporada, ok?! Meu coração está bom…
– E vai continuar assim até o momento que não vai nem sentir algo se eu tiver uma batida igual do Alonso em casa.
– Nem brinca com isso. – Ela me empurrou, me fazendo rir e levantei de seu colo. – Agora vai chamar o Michael de volta, eu sei que ele saiu para nos dar privacidade, mas ele não terminou de comer! – Ela disse brava, me fazendo rir.
– Sim, mamãe! Eu vou! – Falei, vendo-a sorrir.
Capítulo 22
Perth, Austrália, 2006
– NÃO ACREDITO! – Déborah falou alto demais, pulando nos braços de Harper, fazendo a menina gargalhar. – PARABÉNS! PARABÉNS! PARABÉNS!
– Fala baixo… – Harper pediu, mas seu corpo pulava junto da amiga.
– FALO NADA! – Ela gritou novamente. – Amiga! Você entrou na Le Cordon Bleu, até eu sei a importância dessa escola! – Harper riu. – AH! Você vai ser a chef mais incrível da Austrália… Não, não, DO MUNDO! – Ela falou alto, fazendo Harper rir.
– Para! – Harper riu.
– Ah, amiga! Parabéns! Que todos seus sonhos se realizem, ok?! – Ela a abraçou fortemente, sacudindo-a de um lado para o outro.
– A gente vai poder se encontrar em Sydney e em Auckland! – Harper disse, rindo.
– Ei! Espera a minha carta chegar também antes! – Déborah disse, rindo.
– Você vai passar, tenho certeza. Se eu passei naquele teste super tenso da Le Cordon Bleu, imagina você com esse seu cérebro gigante? – Ela riu alto, apertando a cabeça da amiga.
– Deus te ouça, amiga! 2007 vai ser nosso ano! Tenho certeza! – Déborah abraçou a amiga dramatizando.
– Oi, meninas! – Michael se aproximou e Harper pressionou os lábios. Desde que Déborah havia prestado vestibular em Auckland, ela e Michael estavam com discussões do que fazer sobre a faculdade, já que o menino passou em contabilidade* e ficaria em Perth.
– Oi, Mike! – Harper sorriu.
– Oi, Debbie.
– Oi, amor. – Déborah sorriu.
– Com licença, Blake está me chamando… – Harper disse, se afastando um pouco e deslizou os pés descalços pela areia da praia, procurando seus outros amigos.
– Harper… – A menina se virou, encontrando Jemma e suspirou antes de cruzar os braços.
– Jemma. – Harper disse.
– Não vim brigar, só vim te dar um pedaço de bolo. Sobrou bastante. – Ela disse, esticando um prato de plástico para a menina.
– Ah, obrigada! – Harper disse, pegando o prato do bolo que parecia uma delícia. – Feliz aniversário.
– Obrigada. – Ela disse. – Ouvi sua conversa com Déborah, parabéns! Isso é importante. – Ela assentiu com a cabeça, cortando um pedaço de bolo e colocando na boca.
– É, obrigada… – Harper suspirou com o gosto delicioso de nozes no bolo.
– Bem… Eu vou… – Jemma disse e Harper assentiu com a cabeça.
– Obrigada pelo bolo. – Harper disse, comendo outro pedaço.
– Não há de quê! – Jemma deu de ombros e Harper espiou no recheio do bolo, estranhando os pontos verdes.
– Ei, Jemma! – Harper virou para ela. – Do que é o recheio?
– Pistache, meu favorito. – Harper arregalou os olhos.
– PISTACHE? – A garota se virou rapidamente. – Cadê o Danny? Ele comeu?
– Sim, ele comeu, ele…
Harper não ouviu mais uma palavra do que Jemma disse e largou seu prato de qualquer jeito na mão da namorada de Danny. Ela correu por entre as pessoas no tradicional luau improvisado em City Beach, procurando por Danny, mas ela não o encontrou, até que uma tosse forte a fez encontrar os cabelos cacheados dele.
– Ah, merda! DANNY! – Ela gritou, se aproximando dele, virando seus ombros.
– Harp… – A voz dele sumiu no meio do caminho.
– DANNY, PELO AMOR DE DEUS! VOCÊ COMEU O BOLO? VOCÊ COM… – Ela abriu a boca do garoto na força e os olhos dele se reviraram antes de seu corpo cair no chão. – AH, MERDA! ALGUÉM LIGA PARA A AMBULÂNCIA! – Ela gritou, vendo algumas pessoas se aproximarem. – Merda, Danny, me ajuda, me ajuda! – Ela suspirou. – O que sua mãe disse? O que ela disse?
Harper resmungava sozinha, tentando lembrar do curso intensivo que tia Grace deu para ela quando ela tinha somente oito anos, a primeira excursão de Harper e Danny sozinhos. Pensa, Harper! Pensa!
“- A alergia dele é muito forte, Harper, então você precisa evitar que ele coma pistache. Qualquer micropedaço faz com que a garganta dele feche e ele não pode respirar. – Grace falava com a maior delicadeza do mundo.
– E se ele comer por acidente, tia? – A pequena Harper perguntou.
– Ele vai ficar sem respirar e desmaiar, mas você não pode surtar, ok?! Você precisa manter a cabeça fria e pegar isso. – Grace lhe esticou algo que parecia uma caneta.
– O que é isso? – Harper pegou delicadamente o objeto.
– É uma EpiPen, ou uma caneta de adrenalina. Se ele desmaiar, você vai precisar espetá-lo com isso, ok?!
– E como eu faço isso? – Harper perguntou, preocupada.
– Você precisa encontrar a caneta dele, ele sempre vai ter um estojo verde limão na bolsa, é onde você vai encontrar. – Grace lhe explicou. – Você vai ter que abrir o objeto com muita rapidez e segurá-lo assim. – Grace lhe mostrou. – A ponta laranja vai ser encostada nele, a azul você vai apertar. – A menina fez como Grace lhe mostrava. – O mais rápido que você conseguir, você encosta com força a ponta laranja na perna dele e aperta o lado azul, o efeito é imediato. – Harper assentiu com a cabeça.
– Posso apertar? – Harper perguntou e Grace assentiu com a cabeça. A menina precisou das duas mãozinhas para apertar o botão e se assustou quando a agulha apareceu na ponta laranja.
– É isso que vai acontecer. – Grace disse.
– Se eu fizer isso, o Danny vai ficar bem? – Harper perguntou.
– Vai sim. Ele vai acordar e você pode pedir ajuda para alguém para levá-lo para o hospital. – Harper assentiu com a cabeça. – Depois que você tirar a caneta, não se esqueça de massagear o lugar, ok?! Ele vai ficar dolorido.
– Tudo bem… – Harper disse.
– Posso contar com você? – Grace acariciou o rosto da menina.
– Pode sim! Eu não vou deixar que nada faça mal ao Danny. – A menina sorriu e tanto Danny quanto Helena, Alex e Joe sorriram com ele.
– Espero não precisar, isso dói. – Danny disse, fazendo-as rirem”.
A lembrança da conversa de Harper com Grace veio à tona e Harper se levantou rapidamente, empurrando algumas pessoas para o canto, procurando o canto onde Danny estava com Jemma e o restante do pessoal.
– Encontrar a bolsa! – Harper olhou em volta, encontrando a bolsa cheio de patchs de corrida, abrindo-a na pressa e jogou tudo na toalha, encontrando o estojo verde limão de sempre. Ela o abriu, encontrando várias canetas e pegou uma, correndo de volta até o garoto, se ajoelhando ao seu lado. – Fica comigo, Danny!
As mãos da menina trabalharam com pressa, como se ela não estivesse nervosa ou se tivesse feito isso antes, isso nunca aconteceu, mas ela estava com a mesma confiança de jogar uma bola no campo. Ela só tentava não olhar para Danny, pensar que sua garganta estava fechada e que isso logo faria seu coração parar não era a melhor coisa no momento.
Quando a caneta estava pronta em sua mão, a menina deu uma olhada para Danny. Os olhos pareciam estar entreabertos ainda e as veias do pescoço do garoto completamente estendidas. Ela segurou com força a coxa esquerda de Danny, prendendo a calça jeans em seu corpo e sua mão direita foi quase como um golpe para o local e seu polegar apertou o lacre azul. Ela esperou alguns segundos, vendo o frasco esvaziar e virou o rosto para ele.
– Vamos, Danny! Vamos… – Ela disse, se aproximando da cabeça de Danny após largar a caneta e apoiou a cabeça dele em seu colo. – Vamos, Danny, va…
– AH… – A respiração de Danny voltou com força, fazendo o coração de Harper se acalmar e as lágrimas do nervosismo finalmente saírem pelos seus olhos.
– Ah, graças a Deus! – A menina suspirou, apertando-o fortemente. – Graças a Deus… – Ela o apertou fortemente.
– Harp? – Ele perguntou, confuso e a menina o soltou um pouco.
– Fica quieto, ok?! A ajuda está a caminho… – Ela passou a mão na testa molhada do garoto.
– O que aconteceu? – Ele perguntou com a respiração pesada.
– Eu tive que usar a caneta… – Ela disse suspirando. – Você comeu o bolo da Jemma, tem pistache… – Ela suspirou forte.
– Tem? – Ele perguntou, confuso e ela assentiu com a cabeça.
– ABRAM CAMINHO! – Harper virou o rosto para trás, vendo dois paramédicos se aproximarem.
– Eles vão cuidar de você agora… – Harper disse, apoiando a cabeça de Danny na areia antes de se levantar.
– Harper, eu… – Danny perguntou, mas os paramédicos já se aproximavam dele.
– Você está ok?! – Michael perguntou para Harper quando ela se aproximou deles.
– Só nervosa… Mas eu estou bem. – Ela suspirou e Michael a abraçou.
– Namorando há três anos e não sabe que o namorado tem alergia severa a pistache? – Michael suspirou e Harper não queria pensar nisso agora, mas era só isso que estava na cabeça de Danny enquanto ele era levado de maca para a ambulância.
– Ligue para tia Grace. – Harper disse. – E vai com ele! – Ela falou para Michael, empurrando-o para perto. – Me ligue depois! – Michael ignorou todo tipo de briga que existia há três anos e saiu correndo pela praia até alcançar os paramédicos.
*Contabilidade: Michael disse em uma entrevista que antes de se tornar treinador, ele trabalhava em algo relacionado a finanças, não necessariamente prestou contabilidade para isso.
Baku, Azerbaijão, 2016 – Sábado
Harper
– ISSO! – A equipe comemorou e aplaudi com eles, sentindo Michael me abraçar de lado.
– Boa, Danny! – Abaixei as mãos, virando o rosto para a tela e vi Danny como o terceiro melhor tempo da classificatória.
Hoje havia sido relativamente fácil, comparado com as últimas corridas. Danny conseguiu o terceiro melhor tempo na Q1, depois na Q2 e agora na Q3. Parecia que era uma pista que ele conhecia de cor, porque seu tempo simplesmente foi abaixando e ele cravava cada vez mais rápido.
No começo da Q3, ele foi o primeiro a sair, cravando já o tempo de 1:43:966 de cara. Vettel conseguiu fazer o mesmo tempo, mas por Danny ter cravado o tempo primeiro, ficou à frente de seu antigo companheiro de equipe. A sessão foi parada quando Hamilton bateu ao quebrar sua suspensão dianteira. Durante a sessão também, Bottas atingiu a velocidade mais alta registrada em uma sessão de Fórmula Um com 378 km/h. Loucura!
E eu surtada com Danny ontem e sua batida a 367 km/h.
– Como está? – Michael me empurrou com o ombro e suspirei.
– Eu estou bem… Eu estou bem! Se ele continuar se comportando assim, está tudo bem. Eu não quero surtar… – Movimentei as mãos exageradamente, vendo-o rir.
– Está tudo bem surtar um pouco, Harper… – Ele segurou minhas mãos, abaixando-as devagar e suspirei.
– Não agora. – Suspirei.
– Vem! Vamos encontrar o Daniel para você relaxar. – Ele me puxou, me fazendo rir.
Tropecei nos pés, rindo com ele e passei perto da sala de telemetria para deixar meus fones. Segui com Michael e soltei o boné do passador de cinto da calça jeans antes de colocá-lo na cabeça. O paddock já estava mais movimentado pelo final da classificatória, algumas equipes andavam pelo espaço e os pilotos que terminavam as entrevistas, saíam pelo mesmo caminho.
– Ei, se não é a Danny girl. – Ouvi a voz de Alonso, me fazendo rir e abracei-o quando nos encontramos no meio do caminho.
– Bom te ver, Fernando! – Falei, rindo. – Mas nada de Danny girl, por favor. – Ele riu.
– Ah, qual é! Vocês são fofos juntos! – Ele disse rindo, cumprimentando Michael.
– Não posso negar isso. – Dei de ombros. – Como estão as coisas?
– Na corrida? Vou largar em décimo quarto. – Ele disse despreocupadamente, nos fazendo rir. – Na vida? As coisas estão indo bem.
– Te vi com uma garota esses dias. – Falei e ele riu.
– É, não são só vocês que estão de amor aí! – Sorri.
– Bom ouvir isso, Fernando!
– Fer, Nando ou Alonso. Fernando é minha mãe. – Ele disse, me fazendo rir.
– Eu vou como Danny e te chamar de Nando! – Sorri.
– Combinado! – Ele disse, rindo. – Nos vemos depois?
– É, claro! Até mais! – Falei, vendo-o seguir pelo paddock e fui para outro lado com Michael.
– Quando você e Danny se casarem, Alonso vai ser o padrinho de vocês! – Michael disse e arregalei os olhos, virando para ele. – Ok, rápido demais? – Ri fracamente.
– Um pouco, mas… – Sorri. – Quando meus avós, os de Danny, nossos pais e amigos brincavam que nos casaríamos um dia, sempre negávamos rápido e eu achava a maior loucura de todas…
– E agora? – Ele riu comigo.
– Eu sei que é rápido e não tenho intenção nenhuma de me casar pelos próximos anos… – Suspirei. – Mas uma porta se abriu…
– Eba! Casamento! – Michael disse animado, me fazendo rir.
– É, devagar. – Ri com ele.
– O que minhas pessoas favoritas do mundo estão fazendo aqui? – Virei o rosto, vendo Danny se aproximar com macacão da classificatória e o boné de aba reta da Red Bull.
– Ah, só te esperando. – Falei, ainda rindo do assunto e Michael riu comigo.
– Do que estão rindo? – Danny perguntou e minha risada ficou mais alta, passei os braços pelos seus ombros, abraçando-o.
– Nada, Danny. Nada! Parabéns pela qualificação. – Ele me abraçou pela cintura e ri fracamente.
Entrando nessa relação com Danny, eu sabia que tinha só duas opções: perder nossa amizade no meio do caminho ou que passaríamos o resto de nossas vidas juntos. E levando em conta que estávamos oficialmente em um relacionamento há mais ou menos 20 dias, talvez eu estivesse animada demais com a segunda opção.
Domingo
Daniel
Ouvi o despertador tocar e suspirei. Virei o corpo para o lado, tateando a mesa de cabeceira e desativei o celular, ouvindo o silêncio novamente. Passei as mãos no rosto, jogando os cabelos para trás e virei o rosto para o lado, procurando por Harper. O espaço ao seu lado estava vazio, mas ela estava sentada na beirada da cama, observando a vista lá de baixo pela fresta do blecaute.
19 de junho de 2016. Sete anos que tio Alex e tia Helena faleceram.
Todos esses anos pensei em como ela passava esse dia, mas eu e Harper somos mais semelhantes do que diferentes. E apesar de ela me criticar por sofrer sozinho, ela sofre da mesma forma. Ela não atende minhas ligações nesse dia, não sei se vai para casa visitar o túmulo de seus pais sem contar para ninguém ou o que faz, só sei que ela some por uma semana, tempo o suficiente para nos fazer esquecer e não comentar sobre isso quando ela aparece. Mas agora está aqui…
Ela está aqui…
Deslizei meu corpo na cama, passando os braços ao redor de seu corpo e deixei-a entre minhas pernas, apoiando a cabeça em seu ombro. Suas mãos apertaram as minhas com firmeza e sua cabeça tombou para trás em meu ombro. Ela fungou mais alto e percebi seu rosto avermelhado pelas lágrimas.
– Baby… – Suspirei, dando um beijo em seu rosto.
– Eu estou bem… – Ela suspirou forte.
– Xi… Você não precisa ficar bem. Eu estou aqui pelo tempo que precisar… – Ela apertou as mãos em cima de meus braços.
Ela virou o corpo para mim e seus braços apertaram em meus ombros, fazendo-a erguer o corpo. Fechei meus braços em volta de seu corpo, amparando-a pelas costas e seu choro ficou mais alto, fazendo os soluços ecoarem pelo quarto silencioso. Meus braços apertaram-na com mais força e deslizei a mão pelas suas costas até subir para seus cabelos.
Já fazia sete anos, mas a forma que tudo aconteceu tornava tudo pior para todos nós. Eu estava na Fórmula 3, uma das minhas primeiras oportunidades. Estranhei a ligação da minha mãe fora de hora, ela pediu para eu ir para casa, tentou desconversar, pedindo para eu não perguntar nada, mas seu choro ficou alto e Michelle tirou o telefone de sua mão e contou sem muito cuidado. Eu peguei o primeiro voo para casa e não gosto de lembrar da cena que encontrei quando cheguei. Acho que tirando tombos quando criança e choro de raiva, foi literalmente a única vez que eu vi Harper chorar.
Pena que depois desse dia isso virou uma constância.
– Baby… – Ela me chamou e afastou o rosto devagar. Os olhos e bochechas vermelhas estavam em evidência, além das lágrimas acumuladas em seu rosto.
– Eu estou aqui, baby… – Acariciei seu rosto, limpando as lágrimas acumuladas ali.
– Obrigada… – Ela cochichou.
– Você não tem que agradecer, baby. – Falei, dando curtos beijos em seu rosto. – Eu estou aqui por você para sempre. – Ela assentiu com a cabeça e deslizou o corpo para baixo, se sentando entre minhas pernas.
– Eu não gosto desse dia… – Ela suspirou e neguei com a cabeça.
– Eu sei, eu também não. – Coloquei seus cabelos atrás da orelha. – Mas é só uma memória, baby… E agora estou aqui contigo e eu vou garantir que nada te faça mal, nem essas lembranças… – Ela suspirou, soltando a respiração pela boca. – Eu sei que não posso evitar tudo, mas vou me certificar de tentar ao máximo. – Acariciei seu rosto.
– Eu te amo, Danny… – Ela suspirou, me pegando desprevenido. – E sim, eu sei como é fodido falar isso com tudo o que aconteceu conosco no último mês, mas…
– Eu te amo, Harper. – Falei antes dela, vendo-a erguer o olhar para mim. – Com todas as implicações dessas palavras. – Ela riu fracamente. – Como amigo… Como namorado… Como seu amante… – Ela negou com a cabeça e colei meus lábios nos seus em um curto selinho. – E vamos descobrir isso juntos, ok?! – Ela assentiu com a cabeça, apertando os braços em volta de meu pescoço e me abraçou apertado.
– Ok… – Ela riu fracamente. – Talvez seja hora de você saber do que eu estava rindo ontem… – Ela afastou o rosto, esticando as pernas para o lado e apoiei minha mão em sua perna.
– O quê? – Perguntei e ela riu fracamente, apoiando a mão em meu peito.
– Michael disse sobre um possível casamento Addams-Ricciardo. – Ri com ela.
– É? – Falei e ela riu, jogando a cabeça para trás.
– É. – Ela suspirou. – Eu sei que está cedo, mas… – Ela riu enquanto negava com a cabeça. – Parece uma possibilidade agora. – Subi a mão pela sua perna. – É louco, eu sei, eu só…
– É louco sim. – Falei, rindo com ela. – Mas se isso acontecer um dia… Eu vou ser o cara mais feliz do mundo por casar com minha melhor amiga. – Ela sorriu. – E sim, eu vejo uma possibilidade também. – Ela riu fracamente.
– Você se lembra a última vez que falamos desse assunto? – Ela subiu a mão para meu rosto, acariciando minha bochecha.
– Sim, eu lembro… – Falei, suspirando. – No começo do ano… – Ri fracamente. – E pelo que eu me lembre, eu precisaria aprovar seu namorado e a minha não poderia cozinhar melhor do que você. – Rimos juntos.
– Ela não vai. – Ela negou com a cabeça.
– E eu me aprovo, completamente! – Ela riu fracamente, pressionando nossos lábios.
– Você é ridículo, Daniel! Mas eu te amo. – Sorri, apertando minhas mãos em seu corpo.
– Eu te amo também, Harper… Wandinha. – Rimos juntos e ela deslizou a mão pelo meu rosto.
– Wandinha… – Ela disse fracamente. – É loucura pensar nessas coisas e lembrar que te conheço há 24 anos…
– A cada 10 anos nós conhecemos uma parte nova da nossa amizade. Dos três aos 13, amizade. Dos 13 aos 23, tivemos nosso primeiro beijo, brigas de outros relacionamentos… – Ela riu fracamente. – E agora viver um relacionamento.
– Uhum… – Ela deslizou o nariz no meu. – E aposto que não vai ser nada parecido com o nosso ensino médio. – Ri com ela.
– Ah, não mesmo! Não consigo ficar longe de você igual àquela época. Especialmente depois de conhecer seu outro lado. – Ela negou com a cabeça, rindo. – E que lado.
– Bobo. – Ela falou e colei nossos lábios em um curto selinho.
– Você está bem? – Perguntei, voltando ao assunto, abaixando as mãos em seu corpo.
– Sim. – Ela assentiu com a cabeça. – Me lembra de nunca esconder coisas de você…
– Você não vai conseguir. – Ela assentiu com a cabeça, acariciando minha barba.
– Você também não, então estamos quites. – Rimos juntos.
– Agora vamos, você precisa reduzir essa barba. – Ela pressionou meus lábios antes de se levantar.
– Agora está explicado! – Ela riu fracamente.
– Está ficando grande demais. Acho que agora posso palpitar sobre seus looks. – Ela foi até o banheiro.
– Ah, e antes você não palpitava? – Comentei, ouvindo-a rir antes de fechar a porta.
Me levantei da cama, esticando o lençol e o edredom antes de jogar os travesseiros na cama novamente. Abri minha mala, pegando uma calça jeans, camisa limpa da Red Bull e uma cueca. Fui até o banheiro, dando dois toques antes de abrir a porta e vi Harper embaixo do chuveiro, deixando a água cair pelo seu corpo, me fazendo sorrir.
– Tem espaço para mais um? – Brinquei, vendo-a rir.
– Talvez… – Ela sorriu e ouvi dois toques na porta.
– Daniel! – Ouvi me chamarem.
– Já volto. – Pisquei e ela deu um aceno de cabeça. Puxei a porta e fui até a do quarto, abrindo-a, encontrando Maria com um buquê de flores na mão. – Ei, bom dia.
– Bom dia para quem vai largar em segundo! – Ela disse, animada.
– Eu? – Falei, rindo.
– Sim, Perez foi penalizado por troca da caixa de câmbio e você larga em segundo! – Ela disse animada, me fazendo rir.
– E em comemoração, você me comprou flores? – Ela riu fracamente.
– Não, isso foi entregue no quarto, é para Harper… – Ela me esticou o buquê e franzi a testa. – Da sua mãe.
– Minha mãe? – Estranhei, procurando o cartão e o abri, encontrando algumas palavras em uma letra que não é da minha mãe.
“Lembre-se que eles estão observando cada conquista sua e estão orgulhosos da mulher que se tornou. Amamos você, Grace, Joe, Michelle e Daniel”. – Ri fracamente, vendo meu nome ali.
– Danny? Você não vem? – Ouvi a voz de Harper e virei para Maria, sentindo meu rosto esquentar.
– Nos falamos depois? – Sorri para minha assessora.
– Você não tem uma regra sobre não transar antes de corrida? – Pressionei os lábios em um sorriso. – Ah, quer saber? Aproveita! Pelo menos relaxa! – Ela abanou a mão, me fazendo rir enquanto ela puxava a porta. Voltei até o banheiro, abrindo a porta novamente.
– Ei, não vai entrar? – Agora ela tinha espuma nos cabelos e passou a mão no vidro para desembaçar.
– Chegou isso para você… – Mostrei o buquê e ela abriu uma fresta do box.
– Sua mãe… – Ela disse em um suspiro.
– Sim… Já viu isso antes? – Perguntei, apoiando na pia e me aproximei dela.
– Duas vezes ao ano. – Ela deu um curto sorriso. – Você não sabia disso?
– Não e, aparentemente, eu assino esse cartão. – Falei, rindo.
– Sua família sempre foi incrível, não é agora que vai mudar. – Ela disse e apertei meu rosto pela fresta do box e colei nossos lábios rapidamente.
– Sua família também. – Ela sorriu.
– Entra aqui… – Ela sussurrou.
– Acho que posso fazer a barba depois… – Ela assentiu com a cabeça, roçando nossos lábios.
– A água está uma delícia…
– Ah, Harper… – Falei, puxando a boxer para baixo, ouvindo-a rir e se afastar da porta para eu poder entrar. Minhas mãos foram para sua cintura e meus lábios colaram nos seus antes mesmo de eu sentir o jato de água quente em meu corpo.
Harper
– Só faça uma boa corrida, ok?! – Falei baixo e Danny assentiu com a cabeça.
– Não se preocupe, baby. Eu vou tomar cuidado. – Ele me abraçou e apertei as mãos em suas costas. – Aposto que seus pais estão felizes em você estar aqui comigo passando pelos seus medos.
– Fique feliz pelo meu pai não jogar um raio na sua cabeça. – Falei, me afastando e apoiei a mão em seu peito, colando os velcros.
– Espero que ele não invente de fazer isso agora. – Rimos juntos e dei um beijo em sua bochecha.
– Ele não vai. – Me afastei um passo. – Vai lá!
Ele assentiu a cabeça antes de colocar o protetor bucal. Dei um aceno de cabeça para um de seus engenheiros e observei Danny fazer sua tradicional preparação até que o capacete estivesse em sua cabeça e as luvas em suas mãos. Após os carros prontos, ouve aquele caricato silêncio para a volta de apresentação.
Voltei para a garagem junto dos mecânicos, engenheiros e Michael e me sentei no meu lugar registrado, com Michael se apoiando com os cotovelos na bancada ao meu lado. Não demorou para as cinco luzes se acenderem uma a uma e fiz um rápido sinal da cruz quando elas se apagaram. Hoje eu não queria nada grandioso, só que ele não batesse. Não queria duas lembranças ruins no mesmo dia. Sexta-feira já havia acabado com as minhas estruturas.
Danny não largou muito bem, ele tinha a vantagem do lado esquerdo da pista na primeira curva, mas Nico foi mais rápido, permanecendo em primeiro lugar, mas ao menos Danny conseguiu se manter em segundo, mas são 51 voltas, tinha muito que acontecer.
Danny conseguiu manter sua posição bem por seis voltas, até que Vettel o passou. Seu ex-companheiro de equipe estava fervendo atrás dele e era só questão de tempo de isso acontecer. Na mesma volta, Max fez seu primeiro pit stop depois de largar em nono.
Na sétima volta, foi a vez de Danny vir para os pits, trocando por pneus ultra macios. Isso fez com que ele saísse em décimo terceiro lugar, entre Ericsson e Gutierrez. Na mesma volta, Kvyat, ex-companheiro de Danny, precisou abandonar a corrida por problemas na suspensão.
Na décima volta, Danny já tinha caído para oitavo lugar, entre Grosjean e Wehrlein, ultrapassando o suíço na mesma volta. Na décima terceira, ele passou Hulkenberg e foi para sexto. Na décima sexta, já havia subido para quinto e na décima oitava passou Kimi e subiu para quarto, mas deixou o finlandês passá-lo uma volta depois.
Na vigésima primeira volta, Max fez seu segundo pit stop. Não sei o que aconteceu na vigésima segunda volta que Perez e Hamilton passaram Danny, jogando-o para sexto lugar e parecia que ele estava perdendo velocidade, isso fez com que os engenheiros o chamassem para um pit stop na vigésima terceira volta e, mais uma vez, ele saiu em décimo terceiro lugar. Duas voltas depois ele já subiu para décimo, entre Hulkenberg e Jenson.
O rádio de Danny estava razoavelmente quieto, mas tinha um agito grande no pit wall. Algo sobre pouca potência e Simon, com o restante dos engenheiros, tentava solucionar. Enquanto isso, Danny passou Sainz e caiu para nono.
Na trigésima volta, Danny passou Felipe e caiu para oitavo. Na trigésima segunda volta, foi a vez de Carlos Sainz abandonar a corrida pelo mesmo problema de suspensão de Kvyat. Não chegou a bater, mas passou reto a primeira curva.
Se aproximando do fim da corrida, dava para notar que Rosberg estava sozinho à frente, com uma distância de 15 segundos de Vettel que mantinha o segundo lugar. Não tinha mais chances de alguém passá-lo, faltando 15 voltas para o final. Enquanto isso, Danny conseguia se manter em oitavo, já Max mantinha a décima posição.
Na quadragésima primeira volta, Danny e Hulkenberg começaram uma corrida entre si um pouco mais ferrenha. Danny estava a um segundo e meio dele e parecia querer melhorar sua posição até o fim da corrida. Nessa mesma volta, foi a vez de Wehrlein abandonar a corrida por problemas nos freios. Na mesma curva que Sainz não parou, ele também passou direto sem chegar a bater.
Na quadragésima quarta volta, foi a vez de Nando abandonar a corrida por problemas na caixa de câmbio. Se aproximando do final da corrida, Danny continuou sua caçada para pegar Hulkenberg e conseguiu fazer isso somente na quadragésima sétima volta, fazendo a equipe comemorar e meu cotovelo esbarrou em Michael, fazendo-o derrubar seu Red Bull, me fazendo rir.
Quando Danny passou a linha de chegada, apesar do fraco resultado, só fiz um sinal da cruz. Hoje podia ser o dia que Danny chegasse a um pódio novamente depois de Mônaco, mas estava feliz pela corrida ter acabado sem grandes problemas. Hoje só passaria de uma lembrança triste para mim. Poderíamos sair para jantar mais tarde e só aproveitar, sem grandes problemas. Nico ficou no primeiro lugar, mantendo sua posição no campeonato, depois veio Vettel e Perez no pódio. Parece que a penalidade não o afetou. Em seguida vieram Kimi, Hamilton, Bottas, Danny, Max, Hulkenberg e Massa fechando a zona de pontuação.
O pós-corrida se seguiu como sempre. Maria foi atrás de Danny, a equipe começou a se organizar para finalizar tudo e eu e Michael, seguimos a família e o treinador de Max para o paddock. O local estava cheio, como sempre, e vi Danny já parado com alguns repórteres, sobrando que eu desse somente um aceno discreto para ele quando passamos.
Enquanto esperava, aproveitei para finalmente comer alguma coisa. Esse dia inteiro embrulhava meu estômago, e acho que piorou depois de dizer a Danny que o amava. É loucura pensar nisso! Saiu com tanta naturalidade que eu também fiquei meio perdida em como reagir. Assim… Eu o amo desde que eu entendi o que é amor. Temos uma conexão incrível desde meus dois anos e quatro meses. Não tinha outra pessoa que eu pensava na minha vida mais do que ele, mas o que eu disse hoje era diferente. Eu não falei que amava aquele garotinho de dois anos e sete meses, eu falei que amo o homem de quase 27 anos. E a sensação é muito boa.
Na verdade, melhor sensação do que essa é ouvi-lo repetir que me ama. Daniel Joseph Ricciardo me ama! Também vê um futuro comigo e eu me sentia como uma garotinha no seu primeiro beijo. Bem, o meu não vem ao caso, já que também foi com Danny, mas depois de tudo o que passamos, acaba sendo irônico como as coisas acontecem.
Eu só tive um namorado antes de Danny, por dois anos na faculdade, mas não importante o suficiente para eu optar por passar o fim de ano com ele ao invés de com a família de Danny. Esse distanciamento foi o motivo principal de eu levar um pé na bunda, mas não me importei muito na época, acho que não tinha tanta maturidade para ter alguém preso em mim, qualquer oportunidade eu queria voltar para Perth.
Mas agora com Danny… Eu não sei, é diferente! Eu me sinto confortável! Não é aquela brincadeirinha de criança, parece que estamos prontos para enfrentar algo grande assim, mesmo com a insistência de Danny em não amadurecer. Parece que a vida preparou nosso terreno durante todos esses anos para finalmente conseguirmos enfrentar isso sem atrapalhar nossa amizade.
– Ei, galera! – Sorri ao ver Danny e Max aos risos ao entrar no motorhome e me levantei rapidamente, deixando meu garfo de lado.
– Ah, minha garota aí! – Danny disse, me fazendo rir e fui até ele, vendo-o abrir os braços e pulei em seus ombros, erguendo os pés e ele me girou pelo local, me fazendo bater as pernas.
– Opa, desculpe, Max! – Falei, vendo-o rir.
– Está tudo bem! – Ele disse, rindo.
– Parabéns pela corrida. – Falei para Danny e ele colou nossos lábios, me fazendo sorrir e voltar os pés no chão.
– Eu me comportei por você. – Ele sussurrou, me fazendo rir e colei nossas testas.
– Não faz mais do que a sua obrigação. – Falei, afastando as mãos e apoiando em seus ombros.
– Sabe o que eu estava pensando…? – Ele me segurou pela cintura.
– Quando? Durante a corrida? – Perguntei, rindo.
– É, eu tive tempo… – Rimos juntos.
– O que estava pensando? – Perguntei, passando as mãos em seus cabelos úmidos e amassados pelo capacete.
– Temos 10 dias até Áustria… – Ele me puxou para si pelo passador do cinto. – Podemos ir para Mônaco e ficar lá… Relaxar um pouco. Vai ser bom para você… – Ri fracamente.
– Aproveitar seus quase 27 anos? – Brinquei, vendo-o rir.
– Você vai ficar com alguém mais velho…
– Uau, hein?! – Brinquei, ouvindo-o rir e ele segurou meu rosto antes de colar nossos lábios novamente.
– Uh, casal apaixonado! – Desviei o rosto, vendo Christian Horner e Helmut Marko entrando no motorhome e meu rosto esquentou.
– Não parem por nós. – Helmut disse, me fazendo rir fracamente, mas a risada de Danny ficou mais alta.
– Ah, vamos aproveitar. – Danny beijou meu rosto e ri fracamente, sentindo meu rosto ainda quente.
Mônaco, 2016
Daniel
– Aqui! – Entreguei a chave para Harper e ela colocou na porta antes de empurrá-la.
– Hum, está cheirando limpeza. – Ela disse, puxando a mala de rodinhas para dentro.
– Eu pedi para a diarista vir. – Comentei e ela riu fracamente.
– Querendo deixar as coisinhas bonitinhas para mim? – Ela piscou para mim antes de sumir pelo meu quarto, me fazendo rir.
– É… – Falei sozinho antes de fechar a porta do apartamento rindo.
Dei uma rápida olhada na sala e tudo estava arrumado e o cheiro de limpeza estava bem presente. Voltei para o quarto e encontrei Harper se desfazendo da mochila e colocando-a no chão junto da mala grande que havia chego e da outra que ficou aqui.
– Ah, eu estou cansada. – Ela suspirou, se sentando na beirada da cama.
– Quer descansar? – Perguntei, deixando minha mochila ao lado da sua.
– Depende… – Ela tombou o corpo para trás, ficando no meio da cama. – Você tem outra ideia? – Ri fracamente, me aproximando da cama.
– Eu tenho muitas ideias, mas você parece cansada, baby… – Ela riu fracamente.
– Esse fim de semana foi muito bagunçado. – Ela suspirou. – Eu tive emoções demais. – Sorri e me deitei ao seu lado, apoiando uma mão em sua barriga.
– Nem fala, baby! – Sorri, aproximando meu rosto do dela e ela segurou meu rosto, colando nossos lábios por alguns segundos.
– Falando sobre emoções… – Ela falou baixo, erguendo o rosto para mim.
– Ah, emoções… – Ri com ela. – How much longer will it take to cure this? – Ela riu fracamente.
– Just to cure it ‘cause I can’t ignore it if it is… – Ela cantarolou fracamente comigo.
– Já percebeu que cantamos essa música um para o outro há 10 anos e só agora tem o real significado? – Falei e ela riu fracamente.
– É… Já. – Ela sorriu, mordiscando seu lábio inferior. – Danny, eu… – Ela suspirou alto, se sentando na cama rapidamente e fiz o mesmo movimento mais devagar. – Eu preciso tocar na ferida…
– Você está pensando sobre o que dissemos no domingo… – Ela assentiu com a cabeça e segurei suas mãos. – Qual o problema, baby? – Entrelacei nossos dedos.
– O que aconteceu não foi coisa da minha cabeça, foi? Digo… – Ela suspirou. – Eu disse, eu sei, e eu sinto isso. – Ela suspirou. – Mas pensando quando as coisas começaram e hoje… Estou com medo de que eu tenha estourado algo cedo demais. – Sorri.
– 24 anos é cedo demais? – Brinquei, vendo-a rir.
– Não nos amamos por 24 anos, Danny. – Falei.
– Não desse jeito, não. Mas nosso amor cresceu durante esses anos. – Estiquei minha perna na cama, colocando-a entre as minhas. – Eu te amei por muito tempo como minha irmã. – Ela riu fracamente. – Mas nós mudamos isso, Harp. De uma forma boa. – Ergui uma mão para seu rosto. – Isso é confuso sim, quando eu penso que te amo, eu só sei meus sentimentos por você, mas não sei separar nossa amizade do que está acontecendo aqui hoje…
– Isso que eu tenho medo… – Ela suspirou. – De estarmos apressando as coisas porque nossos corações estão falando alto demais… – Ri fracamente.
– O que a música diz? – Acariciei sua nuca.
– Nossa música? – Assenti com a cabeça e ela suspirou. – Qual parte?
– Depois do que a gente cantou.
– Hum… Just to cure it ‘cause I can’t ignore it if it is love, love… Me dá vontade de dar a volta e encarar que eu não sei nada sobre amor… – Ela riu antes de terminar e assenti com a cabeça.
– Venha, venha! Gire mais rápido. – Cantei. – Venha, venha! O mundo vai nos seguir depois. – Ela sorriu. – Venha, venha! Porque todo mundo está atrás de amor… Estamos acidentalmente apaixonados. – Ela riu, abaixando o rosto. – É nossa música, baby. É nossa vida. – Ela ergueu o rosto novamente. – Não sabemos nada sobre amor, porque nos conhecemos há tanto tempo e só nos descobrirmos nesse departamento agora. – Apoiei minha testa na sua. – E vamos aproveitar isso aqui. A gente vai lidando com os problemas quando eles aparecerem.
– Mas e…
– Isso não é um problema, Harper! – A cortei, fazendo-a rir. – Eu te amo! – Falei firme. – Eu te amo como minha Wandinha ou como aquela gostosa na cama. – Ela gargalhou, apoiando os braços em meus ombros. – É cedo? Sei lá! – Falei, rindo. – Mas eu me sinto tão bem contigo… Tão confortável que eu não tenho receio nenhum em falar. – Ela falou. – Minha mãe vai surtar? Vai! Minha irmã? Mais ainda, mas eu te amo. – Ela sorriu. – EU AMO…
– Daniel! – Ela me repreendeu.
– O quê? Não gosta de grandes declarações? – Ela riu.
– Não gritando na minha orelha.
– Ok, deixa comigo… – Me afastei, me levantando da cama.
– Ah, meu Deus! Aonde você vai? – Ela perguntou, rindo.
– Não gritar na sua orelha… – Dei de ombros, andando até a sacada e abri a porta, sentindo o vento entrar.
– Daniel…
– O quê? – Falei, rindo.
– Daniel! – Ela se levantou e saí pela sacada, apoiando as mãos na marquise.
– EU AMO HARPERADDAMS! – Gritei, ouvindo sua gargalhada alta. – EU AMO MINHA MELHOR AMIGA! – Ela apertou as mãos no rosto. – EU TRANSEI COM MINHA MELHOR AMIGA!
– DANIEL! – Ela gritou junto e alguns gritos vieram das outras janelas, me fazendo rir.
– Viu?! Eles gostaram! – Virei para ela.
– Você é louco! – Ela me puxou pela camiseta, me fazendo rir.
– Eu amo você, Harper Addams. – Apoiei as mãos em seus ombros, segurando seu rosto e ela me apertou pela cintura. – E agora, para mim, é o suficiente. – Ela sorriu.
– É mais do que suficiente, Daniel Ricciardo. – Sorri com ela.
– Com o tempo, os problemas vão vir, eu sei. Mas vamos lidar da mesma forma que lidamos todos esses anos, juntos. – Ela assentiu com a cabeça.
– É perfeito. – Ela sorriu. – Eu te amo, Daniel. – Sorri.
– Eu te amo, Harper. – Falei, ouvindo-a rir e eliminei a distância, colando nossos lábios.
Harper
Tirei os ovos da panela com a ajuda de uma pseudo-escumadeira que Danny tinha na cozinha e coloquei em cima das duas torradas. Voltei para o molho hollandaise, batendo com o garfo com força, já que Daniel não tem um fouet também. Quando o molho finalmente deu ponto, meu braço doía com o movimento constante. Fazia tempos que eu não fazia isso.
Peguei uma colher limpa, experimentando um pouco do molho e despejei uma colher em cada prato de croque madame, vendo-o escorrer pelo ovo poché, sem estourar a gema. Deixei a panela perto da pia e destaquei alguns papéis toalha, dobrando-o de forma que ficasse uma abertura e limpei os dois pratos, tirando a sujeira da borda. Joguei o papel no lixo e virei o rosto para a porta.
– Ah, merda! Daniel! – Me assustei com ele apoiado no batente da porta. – Há quanto tempo você está aí?
– Desde que você começou a fazer os ovos. – Ele disse e ri fracamente.
– Merda! Você me assustou. – Falei rindo e ele entrou na pequena cozinha de seu apartamento, me puxando pela cintura.
– Você fica no seu mundo enquanto está cozinhando, baby. – Ri fracamente, passando as mãos em seus ombros.
– Eu gosto disso. – Falei, colando minha barriga na dele.
– Eu sei. – Ele deu um beijo em minha bochecha. – Por isso eu quero que você abra seu restaurante. – Sorri.
– Eu vou! – Falei firme. – Só mais meio ano, baby. – Apertei meus braços em seu corpo, colando minha testa na dele. – Depois prometo que vou atrás disso.
– Nós vamos atrás disso, eu vou te ajudar… – Ele afundou o rosto em meu pescoço.
– Eu tenho uma longa lista de coisas para fazer antes do lugar em si. – Ele deu um beijo no local.
– Muito grande? – Ele perguntou, me fazendo rir.
– Eu já te falei sobre isso. Eu me especializar antes… – Suspirei quando senti sua língua deslizando pelo local. – É o principal.
– E agora? – Sua voz saiu abafada, suas mãos subiram pelas minhas costas.
– Agora? – Ri fracamente, sentindo a blusa enrolar na barriga.
– É… Agora… – Sua respiração saiu forte em meu pescoço e sua mão desceu pela minha bunda.
– Eu gostaria de comer o café da manhã que eu fiz com tanto amor e carinho para nós… – Sussurrei, mas sabia que ele não estava ouvindo. – Daniel…
– Eu estou ocupado agora. – Ri fracamente, sentindo seus lábios em minha orelha, depois em minha bochecha.
– Ah, estou vendo… – Virei o rosto, deslizando meu nariz no dele e ri quando ele colou nossos lábios. – Daniel!
– O quê? – Ele afastou o rosto rapidamente. – O lanche pode esperar, meu sexo matinal não… – Ri com ele.
– Ah, seu sexo matinal? – Subi as mãos para seus cabelos. – Não na minha cozinha, baby.
– Sua cozinha? – Ele ergueu o rosto, me fazendo rir.
– Já tomei posse. Por sinal, precisamos comprar algumas coisas para cá, bater molho hollandaise no garfo não é fácil. – Ele riu fracamente. – Não espere que eu tenha muita participação na diversão. – Ele abriu um largo sorriso.
– Hum… Então você está liberando meu sexo matinal? – Ele puxou a regata do meu pijama para cima, me fazendo rir.
– Daniel! – O repreendi, vendo-o rir.
– O quê? Você liberou! – Ele ergueu as mãos em redenção.
– Não na cozinha! – Falei firme. – É um lugar sagrado para mim.
– Sagradamente delicioso! – Ele falou, me puxando pela cintura.
– Fora da minha cozinha. – Falei séria, puxando-o pelo elástico da calça, fazendo-o rir.
– Ah, como você é chata! – Ele disse dramático, me pegando no colo, me fazendo gritar quando ele me jogou em seu ombro.
– DANIEL! – Gritei, rindo com ele, sentindo uma mão me segurar pela dobra do joelho e a outra dava tapinhas em minha bunda. – Daniel Joseph Ricciardo! – Falei, rindo. – Se você não me colocar no chão, eu vou abaixar suas calças e morder sua bunda! – Ele gargalhou alto.
– Eu vou tirar as calças logo, mas estou pensando do que eu acho dessa mordida aí. – Ri fracamente. – Eu quero morder sua bunda, mas…
– Ah… DANIEL! – Gritei quando ele me jogou para frente novamente e caí com força na cama, vendo-o se colocar em cima de mim.
– Acho que podemos testar a mordida na bunda. Nunca tentei antes. – Ele apoiou os braços na cama, enroscando as pernas na minha.
– Já falei o quão ridículo você é? – Apoiei a mão em seu rosto, acariciando sua barba.
– Umas 200 mil vezes, mas nunca é o suficiente! – Ele disse, rindo.
– Então vou dizer mais uma vez…
– Não vai! – Ele me cortou, colando nossos lábios novamente.
Suas mãos foram para minhas costas, me apertando com firmeza, fazendo seu peito colar no meu e fechei meus braços em seu pescoço antes de nossas línguas se encostarem. Nossas bocas se chocavam diversas vezes de forma desajeitada. Minhas mãos desceram pelas suas costas antes de subir para sua nuca novamente, enrolando os dedos em seus cabelos.
Ele subiu as mãos pelo meu corpo, deslizando até a lateral do meu corpo e subiu pelos meus braços. Ele ergueu meus braços acima da cabeça e nossas mãos se entrelaçaram. Ele colou nossos lábios mais algumas vezes, me fazendo rir.
– O que está planejando, Daniel? – Ele riu, roçando seu nariz no meu.
– Eu quero fazer esse Daniel sumir e trazer o Dan para a conversa… – Ri fracamente, fazendo um bico, colando nossos lábios rapidamente.
– É melhor você começar a fazer algo, então, porque eu realmente estou com fome. – Ele riu fracamente.
– Sabe de uma coisa? Eu também. – Ele disse com seu sorriso sacana. – E não é comida. – Ri alto, jogando a cabeça para trás.
– Ah, Daniel… – Falei, rindo, parando quase imediatamente quando seus lábios foram para meu pescoço. – Ah, merda, eu te odeio…
– É… Eu sei. – Ele pressionou os lábios em meu pescoço, dando fortes sugadas e fechei minhas mãos, sentindo-o colocar uma força a mais para me manter parada. – Não tente…
– Ah! – Bufei em um suspiro.
Seus lábios desceram para meu peito, dando curtos beijos, até lamber entre meus seios. Fechei os olhos, soltando um longo suspiro. Ele se movimentou, se sentando em cima de mim e segurou meus pulsos com uma mão só. Seus olhos acompanharam os meus e eu queria tirar esse sorriso sacana no soco.
Sua mão livre deslizou pela lateral do meu corpo, desde a linha do umbigo, até meus seios e, quando tentei forçar as mãos, ele segurou com a outra, dando um riso sarcástico. Ele deslizou o corpo em direção ao meu rosto e deslizou seu nariz e lábios pela minha bochecha, fazendo minha respiração sair fraca. Ele deslizou uma mão pela lateral de meu braço, o que eu senti cócegas na parte interna do braço, até ele parar na lateral de meus seios.
Ele fechou a mão em meus seios, me fazendo suspirar quando ele tocou o mamilo já sensível e meus olhos se fecharam quase no automático. O dedo de Danny começou a brincar com meu mamilo, fazendo minha barriga se contrair. Um gemido escapou de meus lábios quando senti seus lábios tomarem conta e impulsionei as mãos novamente, a qual ele apertou com firmeza.
– Relaxa, baby… – Ele sussurrou e mordiscou meu mamilo, fazendo uma arfada escapar de meus lábios.
Os beijos e mordidas dele começaram a ficar constantes e foi a vez das minhas pernas ficarem nervosas, fazendo meus dedos dos pés se mexerem conforme a excitação aumentava. Sua mão livre apertava minha cintura e tinha certeza de que meus seios teriam uma marca roxa amanhã com a força que ele usava para sugá-los.
– Merda, Dan… – Soltei um suspiro, sentindo os movimentos pararem e abri os olhos. – Por que parou? – Perguntei, vendo o sorriso em seu rosto.
– O Dan veio para conversa. – Ele disse rindo, soltando minhas mãos e neguei com a cabeça.
– Você é ridículo! – Falei, apoiando os antebraços na cama.
– E você me ama! – Ele disse rindo e ergui uma mão para seu rosto, colando nossos lábios por curtos segundos.
– Não deixe um homem fazer o trabalho de uma mulher. – Mordisquei seu lábio inferior. – Agora deita!
– Ah, eu gosto da Harper mandona. – Ele riu, se deitando de barriga para cima e passei as pernas em volta de seu corpo. – Vai morder minha bunda? – Sorri.
– Se você gosta desse tipo de coisa… – Dei de ombros.
– Eu gosto de morder sua bunda… – Sorri.
– Vai… Vamos ser um casal que sabe do que o outro gosta… O que você quer que eu faça contigo? – Inclinei meu rosto para frente e ele suspirou.
– Ah… Essa pergunta é perigosa. – Rocei meus lábios nos dele, dando curtos beijos em seus lábios entreabertos.
– Vai… Fala comigo! – Dei um beijo nele. – Creio que essa é a única coisa que eu ainda não sei sobre você. – Ele riu fracamente. – Diga-me o que você sempre quis que a Jemma fizesse contigo e ela nunca teve coragem… – Sussurrei, observando seus olhos se revirarem com a possibilidade.
– Você é má… – Ele disse, me fazendo rir.
– Só tentando te fazer feliz… – Deslizei os lábios pelo seu rosto, deixando curtos beijos.
– Ela era meio careta…
– Hum… Em que sentido? – Beijei seu pescoço, ouvindo-o suspirar.
– Ela nunca passava… – Ele suspirou. – Da cintura para baixo. – Ergui o rosto para o dele.
– Você quer dizer… – Franzi a testa. – Nunca? – Ergui o corpo.
– Nunca. – Ele disse rindo e meu olhar não poderia estar mais confuso.
– Ok, agora eu fiquei confusa! Como vocês dois namoraram duas vezes? – Ele suspirou.
– Bem… Eu estava…
– A pergunta foi retórica! Eu realmente não quero saber! – Falei rindo e ele me acompanhou. – E nem quero perder o clima. – Beijei seu rosto. – Acho que agora entendo por que você fica tão tenso durante o sexo. – Deslizei a mão pela sua barriga.
– Eu não fico. – Ele disse rapidamente. – Fico?
– Uhum… – Beijei seu pescoço e minha mão encontrou o elástico de seu moletom. – Relaxa, ok?! – Minha mão entrou em sua calça e logo em sua cueca, fazendo-o soltar um suspiro talvez alto demais e abri um largo sorriso.
Encontrei seu pênis, sentindo-o firme dentro da cueca e acariciei-o devagar, sentindo a respiração de Danny escapar de meu rosto e fiquei imaginando se Dan tinha tido um blowjob alguma vez em sua vida. Imagina um adolescente sem um blowjob ou até um handjob, fala sério! Não sei se as duas italianas que ele namorou brevemente chegaram nesse ponto, mas pensando que ele ficou mais dois anos com Jemma e fazia mais um que ele estava solteiro, ele deveria estar surtando.
– Respira, Dan, respira… – Falei baixo, sentindo que estava sem movimento dentro da boxer. – Me dá cinco segundos…
– O que você vai fazer? – Ele perguntou, erguendo o rosto e colei meus lábios nos dele rapidamente antes de me afastar. – Harper?
Levantei de cima dele e saí da cama. Fui até a frente da cama novamente e puxei suas calças pela barra, vendo-o me ajudar na cintura antes de eu puxar o resto para baixo. Sua ereção estava mais visível pela boxer e foi até ela que fui em seguida. Puxei no elástico, puxando mais devagar para baixo, vendo seu pênis e ri fracamente. Eu não era a maior expert no assunto, mas já tinha dado um ou dois blowjobs na minha vida.
– Relaxa, Dan… – Falei baixo, subindo na cama novamente e ele jogou a cabeça para trás, suspirando.
– Já falei que te amo? – Ri fracamente, levando a mão para seu pênis.
– Já… Já sim! – Sorri, acariciando a base de seu pênis, ouvindo-o suspirar. – Relaxa, baby… Pensa em coisas boas.
– Melhores do que isso? – Ele disse, me fazendo sorrir e abaixei o rosto até seu pênis.
Minha mão subiu até sua glande, descendo novamente e mantive o movimento algumas vezes antes de levar meus lábios até seu pênis, dando um curto beijo na cabecinha. O suspiro de Dan foi alto, me fazendo sorrir e abocanhei mais fundo, sentindo o corpo dele se contrair abaixo de mim.
– Porra, Harper! – Ele suspirou e toquei seu pênis com a língua, começando a sugá-lo devagar.
Minha mão direita segurou seu pênis enquanto a outra mantinha a mão firme em sua coxa. Os lábios deslizaram devagar pela extensão do seu pênis, tentando ir o mais fundo possível, mas eu não tinha tanta prática e Danny tem um bom tamanho.
Meus lábios deslizavam pelo seu pênis, fazendo os suspiros de Danny se misturarem com alguns dos meus gemidos. Senti sua mão em minha cabeça, puxando parte dos meus cabelos, formando um rabo de cavalo fraco em meus cabelos e consegui ter mais agilidade nos movimentos, fazendo o suspiro de Danny ficar mais alto.
– Porra, Harp… Oh, Harper! – Ele suspirou alto.
Notei que sua mão foi apertando em meus cabelos e sua barriga se contraiu quase a zero. Sabia que o orgasmo estava perto, então movimentei meus lábios mais rápido, deslizando a língua pela extensão de seu pênis.
– AH! – Danny soltou um longo suspiro, soltando meus cabelos e senti seu gosto em minha boca.
Afastei minha boca de seu pênis em um estalo, mas continuei movimentando a mão em seu pênis, vendo o gozo sair em grossas gotas. Danny suspirava ainda, com as mãos acima de sua cabeça e soltei seu pênis segundos depois. Subi meu corpo para o seu, sentando em seu quadril e suas mãos subiram pelas minhas coxas.
– Eu te amo… – Ele disse em um sussurro e ri fracamente.
– Ainda bem que dizemos antes, imagina dizer no calor do momento? – Coloquei meu cabelo atrás da orelha e inclinei meu corpo no seu.
– Seria honesto do mesmo jeito. – Ele disse e segurei sua nuca, colando os lábios nos dele.
– Você está feliz? – Perguntei, ouvindo-o rir.
– Eu sou o homem mais feliz do mundo, Harper! – Rimos juntos.
– Podemos tentar o que você quiser, Daniel. Acho que temos intimidade o suficiente para isso. – Ele riu.
– Acho que sim. – Ele riu fracamente. – Ah, cara! Isso foi bom. – Sorri. – Acho que precisamos de uma camisinha agora, não?! – Ri fracamente.
– Talvez você queira descansar um pouco. – Falei, apoiado a cabeça em seu peito, deslizando-o devagar. – E provavelmente vou ter que trabalhar mais um pouco em você para continuarmos isso… – Vi seu pênis murcho, me fazendo rir fracamente.
– Ah, merda… – Ele suspirou e dava para ouvir seu coração batendo forte.
– Relaxa, baby. – Ri fracamente. – Acho que nunca te vi agitado assim…
– Porque eu acho que nunca estive. – Ergui meu rosto.
– Você é um corredor de Fórmula Um, Daniel! – Falei, vendo-o rir.
– Para você ver. – Ele disse em um suspiro e ri fracamente.
– Descansa, baby, temos alguns dias para brincar ainda. – Falei antes de deitar a cabeça em seu peito novamente.
– Você já pensou que isso aconteceria um dia? – Ele perguntou, fazendo carinho em minha cabeça.
– O quê? – Perguntei, rindo. – Chupar seu pênis?
– É… – Ele disse rindo e sorri.
– Nunca! – Falei, rindo com ele.
Spielberg, Austria
Daniel
– Ah, terra firme! – Ri quando Harper saiu do avião.
– Ah, dramática! – Disse, colocando minha mochila nas costas.
– Dramática? DRAMÁTICA? – Ela tirou os cabelos do rosto após pegar sua mochila. – Isso sacode mais do que pipoca! – Ri alto.
– Adoro suas metáforas. – Falei e ela revirou os olhos.
– Por que você faz isso? – Ela socou meu ombro, me fazendo reclamar e ouvi a risada de Christian e Max logo atrás.
– Eu não fiz nada! – Falei, rindo!
– Nem sacudiu tanto assim, Harper! – Christian disse, colocando sua mochila nas costas.
– Sacudiu sim. – Maria sussurrou ao passar por mim.
– Ah, mas pelo menos a exposição foi legal, vai! – Falei, passando o braço pelos seus ombros.
– Sim, estava muito legal, até você me colocar em um avião velho para andar 250 quilômetros! Dava para ter ido de carro! – Puxei-a para perto, dando um beijo em sua cabeça. – Desgruda! – Ela tirou meu braço, me fazendo rir.
– Ah, parece que alguém está irritada! – Abracei-a pela cintura, colando os lábios em seu pescoço, andando com ela pela pista do aeroclube de Spielberg.
– Me solta! – Ela pediu, rindo. – Daniel, me solta!
– Não solto! – Falei, dando vários beijos e ela passou a mão em meus cabelos.
– Danny! – Ela disse em um gemido, puxando os fios, me fazendo rir.
– Ok, parei! – Dei um último beijo em seu pescoço antes de tirar os braços de seu corpo.
– O que você tem agora? – Ela perguntou e me coloquei ao seu lado.
– Agora? Vamos para o hotel. – Falei.
– Hotel? – Ela virou para mim. – Pensava que ficaríamos no motorhome na Áustria. – Ela disse, procurando pela minha mão e ri fracamente.
– Ah, o hotel é o motorhome, não se preocupe! – Falei, entrelaçando os dedos e ela riu fracamente.
– Acho que vou aceitar o convite da Maria e ficar no hotel junto do pessoal. – Ela disse, rindo.
– E perder a chance de dormir comigo em um lugar bem pequeno e apertado? – Abracei-a com o outro braço, dando um beijo em sua cabeça e ela riu fracamente.
– Mesmo com os maiores espaços, a gente consegue ficar juntinhos… – Ela disse, virando o rosto para mim.
– Eca! Eu vou vomitar. – Ergui o rosto, vendo Max do outro lado, me fazendo rir.
– Não se preocupe, um dia você vai encontrar alguém. – Falei. – Talvez não tão bonita, gata e talentosa… – Harper riu, me empurrando pelo peito e minha risada ficou alta. – Mas você encontra alguém.
– Ah, obrigado, cara! Muito generoso da sua parte. – Max disse rindo e virou para Harper. – O que você fez com ele? Ele já era feliz, mas agora…
– Ah, cara, você não tem ideia! – Falei dramático, vendo Harper apertar as mãos no rosto e ri alto.
– Eu prefiro não saber. – Max disse, rindo.
– EI, VOCÊ TRÊS! EU QUERO DESCANSAR! – Christian gritou da van e estiquei a mão para Harper para andarmos a passos rápidos até a van.
Fui o último a entrar, puxando a porta e toda a equipe presente em uma ação da Red Bull em Salzburg, onde tem o Museu da Aviação, conhecido como Hangar 7, estava lá dentro. Lá fizemos todo o tour e demos entrevistas para falar da próxima corrida que é conhecida como a “home race” da Red Bull.
Eu estava empolgado! Meu aniversário é no sábado e queria finalmente sair desse meio da tabela e estourar, talvez a agitação da home race e do meu aniversário sejam os estímulos necessários para voltar a entrar nos eixos. Bom, isso e talvez um estímulo de Harper.
Ah, cara! Eu sou oficialmente o homem mais feliz do mundo. Como é bom não precisar trabalhar sozinho para se satisfazer, cara!
Harper é perfeita!
Eu já achava isso antes quando éramos amigos, mas agora? Oh, merda! Eu amo ela.
Sempre achei que Harper e Jemma diferentes em vários sentidos, mas agora? Ah, cara! Harper consegue deixar Jemma no chão até no sexo. Agora posso dizer que estou em um lugar onde me sinto completo em todas as áreas.
Chegamos no Red Bull Ring e as folhagens de sempre ocupavam boa parte do espaço, forma ideal de esconder os motorhomes das equipes. Entramos na área deles até parar na destinada para Red Bull. Descemos todos juntos, pegando as bagagens e Maria me passou o tradicional briefing antes de liberar as chaves do motorhome.
– Tem certeza de que não quer ir para o hotel? – Maria perguntou para Harper.
– Eu estou bem. – Ela disse e virei para ela.
– Você pode ir, Michael está lá. – Falei e ela riu fracamente.
– Eu estou bem, Danny! – Ela disse, rindo. – Você disse que a cama é de casal e que o sofá-cama é ótimo. – Ela deu de ombros.
– Se comportem, hein?! – Maria disse. – Não quero ninguém cansado e, muito menos, outras pessoas reclamando do barulho.
– Não se preocupe, sabemos ser discretos! – Dei um largo sorriso e Maria olhou fixo em meus olhos, indicando seus olhos com os dedos e virou para os meus, me fazendo rir.
– Nos comportaremos, Maria. Não se preocupe. – Harper disse, me beliscando, me fazendo rir.
– Boa noite, senhores. Aproveite. – Ela disse, virando de costas.
– Você é casada, certo? – Falei mais alto.
– Daniel! – Harper me repreendeu.
– Eu não sei, ela pode se divertir também! – Falei, sentindo Harper me bater e Maria somente revirou os olhos antes de se virar com um sorriso no rosto.
– Vai, abre aí! – Ela disse e fui até a porta do motorhome, abrindo-a e indiquei para Harper entrar antes, vendo as luzes se acenderem aos poucos.
– Eu não sei por que você reclama, isso é maior do que o apartamento de Mônaco. – Harper disse, me fazendo rir e entrei logo atrás dela, fechando a porta e trancando.
– É bom, a gente só fala na piada. – Dei de ombros.
– É o mesmo motorhome da Espanha? – Ela perguntou, andando pelo local.
– Eu acho que sim… – Falei, estranhando a pergunta.
– Onde você ficou com aquela mulher? – Ela cruzou os braços.
– Ah, agora, entendi! – Ri fracamente, deixando minha mochila no sofá-cama.
– Eu falo sério, Daniel! – Me aproximei dela, puxando-a pela cintura.
– Não foi nada, baby. – Dei um beijo em sua bochecha. – Eu fui um idiota, eu não deveria ter feito aquilo…
– Eu não estou falando disso, só estou perguntando onde vocês ficaram… – Ela disse, mantendo a feição séria.
– No sofá. – Indiquei. – Mas eu nem tirei minha roupa.
– Fez muito bem! – Ela me empurrou pelo ombro. – Eu vou ficar no quarto. – Ela disse, me fazendo sorrir.
– E você acha que ficaria onde? – Apertei minhas mãos novamente, dando outro beijo em seu rosto. – Vai… Me dá um sorriso. – Dei um beijo em seus lábios. – Hum… Podemos nos divertir… – Ela se desmanchou ao sorrir e a acompanhei. – Hein?!
– Você é idiota. – Ela disse, subindo as mãos para meus ombros.
– Eu sei, um idiota que te ama! – Ela sorriu e pressionamos nossos lábios em um longo tocar.
– Eu tenho que ir ao banheiro. – Ela disse, me fazendo rir e soltei-a antes de ela entrar no espaço.
Voltei para a sala, me sentando no sofá e me livrei dos sapatos e das meias, e liguei a televisão. Zapeei os canais até encontrar um de esportes e encontrei o Sky Sports da Austrália, vendo um pódio acontecendo e demorou alguns segundos para eu perceber que era o MotoGP.
– Ei, Jack venceu! – Falei mais alto para que Harper ouvisse.
– Quem? – Ela perguntou, saindo secando as mãos com uma toalha.
– Jack, de casa! – Falei, indicando a TV e Jack Miller, australiano de Townsville, ganhou no circuito holandês.
– Ah, isso é legal! – Harper se aproximou e puxei-a para meu colo, abraçando-a pela barriga quando ela sentou em minha perna.
A cerimônia havia acabado de começar, então o inglês Scott Redding subiu, depois o espanhol Marc Márquez e por último Jack. Os prêmios foram entregues e logo o champanhe foi jogado para os ares, me fazendo rir.
– Ah, cara! Saudade de fazer isso. – Falei e Harper virou o rosto para mim, dando um beijo em minha bochecha.
– Em breve, baby! – Ela disse, rindo. – E ele vai fazer o shoey!* – Ela disse rindo e vi Jack tirar sua sapatilha e colocar champanhe nela antes de beber. – Ah, eca! – Ela disse, me fazendo rir.
– Ah, cara, eles são loucos. – Harper esticou as pernas, me abraçando pelos ombros e amparei-a com a mão nas suas costas.
– Você deveria fazer isso, sabe? – Ela disse, e ergui o olhar para ela. – É, quando você vencer de novo.
– Ah, qual é, Harper! Fórmula Um é esporte para rico, nunca que eles aceitariam isso. – Ela riu fracamente.
– Talvez seja por isso que você deva fazer. – Ela disse, séria. – Quebrar o sistema. – Ela disse dramática, me fazendo rir.
– Ah, cara. Nem vem… – Ri com ela. – Será? – Virei para ela.
– Ninguém vai falar que você não pode fazer. O que te impede? – Ela deu de ombros.
– Você beberia do seu sapato? – Perguntei e ela ponderou com a cabeça.
– Bem, acho que o problema não é beber do seu sapato, é beber do seu sapato depois de duas horas de prova no calor. Vocês suam demais. – Ri fracamente. – Apesar que não deve dar tempo de a bebida pegar o gosto, talvez o cheiro…
– Você acha que daria certo? – Perguntei, vendo-a rir e ela beijou meu rosto antes de se levantar.
– Por que não? – Ela disse rindo, pegando a toalha de mão novamente. – Posso tomar banho antes? Eu estou cansada.
– Claro, baby. Vai lá! – Falei e ela deu uma piscadela antes de ir até sua mala.
– O que vamos jantar? Você quer sair? – Ela perguntou e ri fracamente.
– Estamos na Áustria, baby! Eu quero schnitzel. – Ela riu fracamente.
– Podemos ir. Mas você sabe que schnitzel, nada mais é, do que bife à milanesa, né?! E dá para você comer em qualquer lugar. – Ela deu de ombros e lhe mostrei a língua.
– Nerd! – Falei, ouvindo-a rir antes de mexer em sua mala.
Ri fracamente, olhando para a TV novamente, vendo a entrevista de Jack com o sapato em mãos e ri fracamente. Será? O shoey é uma ação comum entre australianos em qualquer tipo de esportes, mas nunca pensei em fazer isso na Fórmula Um, especialmente pelo tipo de esporte que é, mas talvez esteja na hora de reduzir um pouco os protocolos engessados do esporte. Mas para isso eu preciso voltar a vencer.
*O Shoey é uma tradição australiana, Daniel diz que teve a ideia com esse pódio do Jack na MotoGP.
Capítulo 23
Perth, Austrália, 2006
– Filha, você vai querer que eu te leve? Ou combinou com alguém? – Helena parou na porta do quarto de Harper, vendo-a distraída com um papel.
– Sim, vou! Vou encontrar a Déborah e o pessoal lá. – Harper disse.
– Ok, não demore! Eu e seu pai vamos aproveitar e sair para jantar.
– Tudo bem! – Harper disse, virando para o papel em sua frente, onde ela formava uma de suas milhares rosas vermelhas. Um talento descoberto há pouco tempo. Uma forma de matar a ansiedade.
– Já decidiu qual vestido vai? – Sua mãe perguntou e Harper suspirou, virando para os dois vestidos em cabides.
– O azul, talvez. – Harper disse, pensativa. – É mais discreto.
– Por isso mesmo acho que deveria ir com o vermelho. É o último dia, está na hora de minha menina se destacar, não? – Harper riu.
– É, talvez. – Harper riu, ouvindo a campainha.
– HELENA, A CAMPAINHA! – Alex gritou.
– Ah, um segundo! Tira esses bobs do cabelo. – Helena disse antes de sair do quarto de Harper e a menina se distraiu, finalizando a pintura do desenho com o lápis de cor vermelho.
Helena passou pelo corredor de casa, vendo Alex ocupado com a louça do lanche da tarde que ele e Harper fizeram e foi até a porta. Ela checou pelo olho mágico, se surpreendendo com quem encontrou.
– Alex! – Helena o chamou. – Olha isso! – Ela disse e o marido estranhou a ação da esposa, antes de ela abrir a porta. – Surpresa te ver aqui, Daniel. – Ela falou, vendo o menino com um terno claramente maior do que seu corpo, os cachos grandes em sua cabeça e as mãos em frente ao corpo.
– Talvez eu esteja um pouco atrasado. – Ele disse, pressionando os lábios.
– É… Um pouco. – Helena deu um sorriso. – Soube da sua experiência de quase morte. – Ela deu espaço para o menino entrar.
– É… Se não fosse a Harper lá, eu não estaria aqui hoje… – Ele deu um sorriso.
– Veio falar com ela?
– Se vocês deixarem. – Helena riu, abraçando o garoto.
– Isso já demorou muito mais do que devia. – Helena disse baixo e ele sentiu seu corpo relaxar com o abraço da melhor amiga de sua mãe.
– Bom te ver aqui, garoto. – Alex disse da área da cozinha, fazendo-o sorrir.
– É bom voltar. – Ele sorriu.
– Você sabe o caminho. – Helena disse e o garoto assentiu com a cabeça.
Ele entrou devagar, apesar do local não ter mudado nada, se sentiu incomodado em estar ali. Parecia calçar um sapato antigo que não usava faz tempo. Era confortável, mas não pertencia mais à ali. Ele passou pelo corredor e parou em frente à pequena porta.
Apesar de a casa não ter mudado, o quarto de Harper tinha mudado completamente. Vários pôsteres de bandas e artistas adolescentes bonitos ocupavam as paredes, dividindo o espaço com medalhas e troféus de cricket, além de bonitas fotos de comida. A cama agora estava encostada na parede, a escrivaninha em frente à porta, onde Harper estava, e a parte do lado direito tinha o grande armário embutido, com dois vestidos pendurados.
– Eu gosto do vermelho. – Daniel disse, tentando tornar esse momento menos incômodo do que praticou em casa com seus pais e sua irmã.
Harper achou que seus ouvidos tivessem lhe enganado, mas quando virou o rosto para a porta, realmente não esperava o ex-melhor amigo ali. Ele usava a roupa para formatura, o que a Harper achou engraçado a mistura do paletó grande, cachos quase formando um black power em sua cabeça, além do recém-colocado brinco na orelha que era maior e mais brilhante do que todos os que Harper usava.
– Você colocou um brinco? – Harper comentou e ele riu fracamente. Claro que Harper seguiria dali. – O que está fazendo aqui? – Ela perguntou sem rodeios, fechando o roupão que usava.
– Vim te levar para a formatura. – Ele disse e Harper virou as pernas para o lado, franzindo a testa.
– Achei que fosse com a Jemma. – Ela disse.
– Ela vai ter que encontrar outra pessoa, agora que eu terminei com ela. – Ela assentiu com a cabeça e o garoto entrou no quarto devagar, observando as conquistas de Harper no cricket. Eram mais do que ele esperava.
– Hum… – Ela disse, perdida de como agir.
– Você salvou minha vida, Harper. – Ele disse e ela suspirou.
– Você faria o mesmo. – Ela disse, apoiando o novo desenho no quadro imantado e colocou alguns imãs para mantê-lo preso.
– Não aja como se não fosse grande coisa, Harper. – Ele disse, fazendo-a suspirar.
– Eu não fiz nada mais do que a minha obrigação, Daniel. – Ela suspirou alto.
– Não era sua obrigação, Harper. Não é sua obrigação há mais de três anos e ainda assim você se lembrou da minha alergia, se lembrou do que minha mãe te ensinou e me salvou. – Ela se levantou.
– Eu estou feliz que você está bem. – Ela pressionou os lábios. – De verdade. – Ele assentiu com a cabeça.
– Belo desenho. – Ele indicou a rosa vermelha.
– É… – Ela suspirou. – A única coisa que eu sei desenhar. – Ela pressionou os lábios, cruzando os braços em frente ao corpo. – Sabe… Eu só não entendo uma coisa. – Ela disse e Daniel já esperava por isso. – Por que eu tive que salvar sua vida? Por que eu tive que lembrar de algo de 10 anos para usar? – A raiva foi aparecendo na voz de Harper.
– Ela não sabia. – Daniel disse.
– Vocês namoraram por três anos e você nunca achou que fosse importante falar isso para ela? – Ela franziu o rosto em desgosto. – Uau! Ela deveria ser boa mesmo no que fazia. – Ela falou irritada, pegando o vestido azul só de birra antes de seguir para o banheiro ao lado.
– Harper! – Ele suspirou, seguindo-a e deu de cara na porta fechada e Harper a travou, respirando fundo. – Harp…
Ela tentou fazer com que as lágrimas não manchassem a maquiagem que ela usava. Não era uma grande maquiagem, mas ela não queria ter que fazer de novo, não era muito boa nisso. Ela tirou os bobs do cabelo, vendo seus cachos se transformarem em ondas mais bonitas, antes de vestir o vestido azul. Enquanto isso Daniel pensava no que queria falar.
– Eu sei que eu errei, Harp. Muito, na verdade. – Ele suspirou. – Eu não sei exatamente o que eu deveria me desculpar, eu estava apaixonado por ela, de verdade. – Harper ouvia tudo com calma. – Mas a gente não deveria ter se afastado ou parado de se falar. – Ela suspirou, apoiando as mãos na pia. – Eu sinto sua falta. Sinto ter minha amiga por perto… – Ele suspirou. – Eu tenho tanto para te contar… Eu ouvi algumas coisas de você e nem sabia…
– Muita coisa muda em três anos, Daniel. – Harper disse, engolindo em seco.
– Eu sei, mas queria estar ao seu lado nessas mudanças. Queria que tivesse ao meu lado e… – Ela abriu a porta, fazendo o garoto quase cair dentro do banheiro.
– Você que me afastou. – Ela disse.
– Eu não quero brigar, não, mas sabemos que isso não é verdade. – Ele disse e a menina desviou dele e ele se surpreendeu ao ver Harper diferente do uniforme da escola ou do cricket, Harper tinha crescido e virado uma linda mulher. De verdade agora. – Você me afastou! E me derrubou, de verdade.
– E você não veio atrás de mim! – Ela falou, irritada. – Para ajudar me deixou plantada no cinema! – Ela disse, suspirando.
– Eu sei, eu senti muito! – Ele suspirou. – Eu fiquei irritado com nosso distanciamento, mas depois eu só senti sua falta.
– Você não ligou! – Ela disse mais alto! – Ou mandou mensagem!
– Eu sei! Eu sei! – Ele suspirou.
– E você sabe que eu não iria atrás de você. Você sabe que eu…
– É orgulhosa para caramba! – Ele a cortou, fazendo-a dar um curto sorriso. – Eu sei que eu deveria ter vindo antes. Eu errei! – Ele suspirou. – Ver você e o pessoal nas sextas, ver você seguindo na sua vida, suas conquistas… Gostos que eu nem sabia que tinha… Me dava sempre muita saudade de me aproximar de novo.
– E ainda assim não fez… – Ela suspirou. – O que você está fazendo aqui, Danny? De verdade. – Ela cruzou os braços.
– Eu quero pedir desculpas. – Ele suspirou. – Dizer que sinto sua falta, voltar à fazer parte da sua vida e, se você quiser, te levar para formatura. – Ela pressionou os lábios. – Eu sinto falta da minha melhor amiga. – Harper puxou a respiração fundo, olhando para Daniel.
Muito mudou em três anos. Apesar do terno e da gravata, coisa que era difícil ver em Daniel, Harper percebeu pelo passar dos anos que ele estava maior. A carreira dele estava indo devagar, mas constante, então ele havia focado mais no treino físico, deixando-o mais magro e mais forte. Harper poderia dizer quase bonito, mas os cabelos e o brinco a faziam mudar de ideia.
– Você… – Harper suspirou. – A gente não vai mais poder fugir das coisas… – Ela se incluiu na culpa. – Se algo acontecer de novo…
– Vamos lidar com isso juntos. Como amigos fazem. – Ele segurou as mãos dela. – Eu não consigo viver sem você, Harp. – Ele suspirou e ela deu um curto sorriso. – Você não é só minha amiga, você é minha irmã. – Ela pressionou os lábios. – E irmãos, mesmo bravos com o outro, não se afastam. – Ela assentiu com a cabeça. – Amigos para sempre, Harper. – Ela pressionou os lábios.
– Amigos para sempre, Danny. – Ela suspirou, puxando a respiração. – Eu não deveria chorar. – Ela disse com a voz baixa, passando a mão delicadamente onde as lágrimas caíram.
– Não chore! Eu odeio te ver chorar! – Ele a abraçou apertado pela cintura, também sentindo os olhos cheios de lágrimas com o alívio em seu corpo, e ela apoiou a cabeça em seu ombro.
– Eu senti falta disso. – Ela fungou forte.
– Eu também. – Ele disse, suspirando com o cheiro de baunilha em seu nariz.
Lembranças vieram à tona em sua cabeça e só agora ele percebeu o cheiro do perfume de Harper. Sempre gostou, mas nunca realmente se importou, agora que sentia falta dela, o cheiro se tornou sua melhor memória dela.
– Ok, chega! Chega! – Ela disse, se afastando e passou as mãos no rosto, secando as lágrimas. – Eu vou colocar meus sapatos. – Ela disse e foi até a cama, pegando seu All-Star preto surrado.
– Vai de tênis? – Ele perguntou.
– Não posso ficar mais alta que você nas fotos, né?! – Ela disse, fazendo-o rir.
– Agradeço isso. – Ele disse, se aproximando da parede de Harper, vendo-as diversas rosas espalhadas pelas paredes. – Pelo menos teve algo positivo nesses anos…
– Qual? – Ela perguntou, franzindo os olhos enquanto amarrava os tênis.
– Eu não sou mais virgem. – Ela revirou os olhos, abaixando o rosto novamente. – Muito cedo para piadas? – Ele perguntou e ela suspirou.
– Não, mas acho que chegou um momento das nossas vidas que não precisamos saber tudo sobre o outro. – Ela disse, se levantando e ajeitando a saia do vestido.
– Mas contávamos tudo para o outro. – Ele disse e ela se olhou no espelho.
– Quando tínhamos 13 anos. Isso faz quase quatro anos, Danny. – Ela disse, ajeitando as alças do vestido. – Muito mudou desde lá. – Ela disse e ele se colocou atrás dela, olhando-a pelo espelho. Talvez fosse pelo cricket e treino constante, mas Harper tinha um corpo bonito e o decote do vestido mostrava que os seios haviam crescido desde a última vez que trocaram um abraço de verdade.
– É, eu consigo ver. – Ele disse, fazendo-a sorrir. – Você está bonita, Harp. – Ele disse.
– Obrigada. – Ela suspirou.
– Merda! Eu deveria ter comprado uma flor… – Ele disse.
– Não se preocupe. – Harper foi até a mesa, pegando uma caixa transparente com um bracelete em forma de flor. – Minha mãe comprou… Você pode colocar.
– Vai ser um prazer. – Ele disse, pegando a caixa e abriu-a, pegando o bracelete e Harper lhe esticou o braço esquerdo para ele deslizar o elástico. – Está perfeito.
– Sim… – Ela sorriu. – Agora sim.
– Pronta? – Ele perguntou, esticando a mão para ela.
– Sim. – Ela a segurou e ambos sorriram.
Eles chegaram juntos à sala, fazendo os pais de Harper sorrirem e abraçarem eles com animação. Helena logo aproveitou o momento para tirar a maior quantidade de fotos que a câmera digital permitia. O sorriso no rosto de ambos podia ser da felicidade de terem conseguido se formar na escola, mas eles sabiam que tinham muito mais. Eram amigos de novo e, apesar de tantos anos, eles conseguiram agir como se nada tivesse mudado.
Daniel os levou até a formatura, sob protestos de Alex, já que ainda não tinha carta de motorista, mas pensando nas licenças que ele tinha para as diversas competições, talvez fosse o suficiente, menos se a polícia os parasse, mas não foi necessário.
Quando ambos entraram no salão de festas, eles viraram o assunto da festa. Tanto para os amigos, quanto para Jemma que não se conformava pelo término do relacionamento. Quem saberia que ele tinha alergia severa a pistache? Ele nunca comentou nada! As opiniões ficaram divididas do que é que estava acontecendo entre eles, mas isso não tirou a diversão de ambos. Além disso, algo que todos sabiam é que quando Daniel e Harper se juntavam, nada os separaria e, dessa vez, eles sabiam que ficariam juntos para sempre.
Só não sabiam ainda das condições desse “para sempre”.
Spielberg, Áustria, 2016 – Sexta-feira
Harper
– Ei, esperou demais? – Danny apareceu.
– Não, eu acompanhei um pouco. – Me desencostei da parede.
– Estava falando com o Dani! – Ele disse e vi Kvyat saindo da sala de coletiva junto de outros pilotos e ele deu um rápido aceno de mão e retribuí.
– Ele está bem? – Perguntei, andando ao seu lado e Maria estava um pouco atrás de nós.
– Sim, sim… Dani é bom, só foi rebaixado e isso não é nada legal. – Ele disse, rindo, passando o braço em meus ombros e abracei-o pela cintura.
– E como você está? Ouvi o que você disse. – Virei o rosto para ele.
– Sobre o quê? – Ele franziu a testa e toquei seu boné, virando-o para o lado.
– Tudo, na verdade. – Ri fracamente. – Sobre o contrato, expectativa de carreira, sobre assistir pornografia com a internet lenta do camping. – Ele riu, me fazendo sorrir.
– É, está tudo bem, baby! – Ele disse e segurei sua mão caída em meus ombros.
– Vai, me fala! Que papo é esse de pergunta de contrato? – Virei o rosto para ele. – Você não me falou nada disso. Achei que os boatos tinham acabado depois de Mônaco.
– É… É só… – Ele negou com a cabeça e parei de andar, me colocando em sua frente.
– Daniel…
– Não é nada, Harper! Relaxa. – Apoiei as mãos em sua cintura.
– O que é? – Perguntei e ele suspirou.
– Depois de Mônaco, o Glenn acabou dando uma sondada em outras equipes e pode ser que eu tenha algumas ofertas. – Ele deu de ombros.
– Daniel! – Falei firme. – Isso é importante.
– Não é importante, porque eu não estou interessado nisso para agora. – Ele falou firme. – Tenho mais dois anos no meu contrato e vou cumprir. Depois eu penso. – Ele suspirou. – Podemos ir agora?
– Não acredito que não me contou. – Neguei com a cabeça.
– Não é nada, baby! Se a ideia fosse real, eu já teria falado contigo. Logo tem as férias de meio de ano e eu precisaria decidir agora. Eu não estou pensando sobre isso. – Mordisquei os lábios. – E você não faça isso, ou vou denunciar nosso relacionamento aqui, na porta da coletiva de imprensa. – Ele falou mais baixo e ri fracamente.
– Só me fala, ok?! Não quero saber que não seja para agora, mas pode ser para daqui dois anos. – Falei firme. – E chega de resolvermos essas coisas sozinhos.
– Entendido, baby! – Ele disse, pressionando os lábios rapidamente em minha testa, me fazendo bufar. – Agora vamos? – Suspirei, virando para o caminho novamente, seguindo ao seu lado e ele passou os braços em meus ombros e me empurrou com o quadril para andarmos.
– Precisamos subir ladeira ainda, galera! – Maria disse e segui com Daniel.
– Estamos indo! – Danny disse e ela foi um pouco mais à frente.
– A pergunta sobre seu aniversário me fez pensar um pouco do nosso ensino médio. Antes de você se mudar para Itália… – Comentei, abraçando-o pela cintura. – Em todos os seus sonhos, você realmente acreditou que estaria aqui hoje? – Perguntei.
– Olha, eu lutei muito para estar aqui, então posso ser um idiota e dizer que sim. – Ri fracamente. – Mas tem uma coisa que eu nunca pensei que aconteceria nesses 10 anos. – Ele disse.
– O quê? – Franzi a testa.
– Nós. – Ele sorriu para mim e ri fracamente. – Depois que nos ajeitamos, sabia que ficaríamos juntos para sempre. – Ele me apertou perto de si. – Mas a gente nunca sabe como a vida vai seguir, né?! Sabemos que quando envelhecemos as coisas mudam. – Entramos no motorhome da Red Bull.
– Sim, claro. – Falei, soltando-o devagar para subir as escadas à minha frente e ele só parou quando chegou à porta de seu vestiário.
– Mas agora, eu consigo ver que estamos bastante perto de isso realmente acontecer. – Dei um curto sorriso. – E acho que é a única coisa que eu nunca planejei para mim, mas a que está me deixando mais feliz. – Ri fracamente, abraçando-o pela cintura.
– Eu gosto do Danny romântico. – Ele segurou meu rosto.
– E eu amo você! – Ele falou antes de colar nossos lábios, me fazendo rir.
– Eu amo você. – Falei, sorrindo.
– Daniel! – Maria o chamou, me fazendo suspirar.
– Vai! Aproveitamos esse amor todo depois! – Falei, ouvindo-o rir e entramos em seu vestiário e vi a pilha de macacões e fechei a porta para ele começar a se trocar.
– Por que um novo macacão? – Perguntei, vendo-o puxar a camiseta pela gola, jogando-a para o lado.
– Aqui é a home race da Red Bull, eles sempre inventam algo. Toma cuidado que capaz de você inventar também. – Ele disse rindo e tirou as calças, jogando em minha direção e ri fracamente antes de dobrá-la, vendo-o colocar a segunda pele.
– Espero que não, está quente para caramba.
– Bom para uma coisa. – Ele disse safado e neguei com a cabeça. Ele subiu o macacão pelo corpo e comecei a rir antes mesmo de ele ser fechado.
– Oh, meu Deus! – Falei, rindo. – Ah, Daniel!
– Ah, é legal! – Ele disse, rindo, se olhando no espelho.
– É… Não! – Neguei com a cabeça. A roupa tinha uma estampa de uma tradicional roupa austríaca. – Ah, baby!
– Estou gato, vai! – Fiz uma careta.
– É… Eu prefiro sem! – Falei me levantando e beijei sua bochecha. – Vamos!
Ele finalizou de calçar seus sapatos e logo saímos, ouvindo a risada de alguns funcionários do motorhome, já que Max também já estava lá com seu novo macacão temático. A risada aumentou quando Danny apareceu, fazendo-os pressionarem os lábios incrivelmente encabulados pelas risadas, mas Danny sempre saía bem nessas coisas.
Quem parou de rir quando chegamos no topo do Red Bull Ring e encontramos o restante da produção, fui eu. Quatro grid girls estavam lá com a tradicional roupa austríaca também. Mark, um dos fotógrafos da equipe, os organizou junto delas e minha cara de desgosto ficou muito na cara quando elas apoiaram as mãos neles. Elas podiam fazer o que quisessem com o Max, mas não precisavam ficar tocando no Daniel.
– Elas precisam ficar tocando? – Sussurrei para Maria, ouvindo-a rir.
– É só o ombro! – Maria disse, rindo.
– Estão tocando! – Falei, revirando os olhos.
– Por que você não aproveita a vista, enquanto isso? – Ela disse e bufei, desviando o rosto da cena, ouvindo as direções dos fotógrafos e algumas risadinhas, inclusive de Daniel.
Estávamos literalmente no lugar mais alto em volta do circuito. Dava para vê-lo lá de baixo pequeno, como se fosse uma rua de brinquedo. Aqui em cima o clima estava um pouco mais frio, mas calmo. Uma boa forma de fugir da bagunça e correria lá de baixo. Um acampamento aqui longe de todo mundo me parecia uma ótima ideia.
– Ei, gatinha! – Virei o rosto para trás, vendo que eles haviam terminado e Danny se aproximava.
– Ei. – Falei.
– Vem sempre aqui? – Ri fracamente.
– Na verdade não. – Falei, apertando os braços cruzados.
– Que cara é essa, hein?! – Ele me abraçou pela cintura.
– Precisa dessa colação aí? – Falei e ele riu fracamente.
– Hum, alguém está com ciúmes… – Ele aproximou o rosto do meu e desviei, sentindo seus lábios em minha bochecha. – Eu gosto da Harper ciumenta.
– Nem vem com essa. – Falei.
– Ah, qual é, baby. São só algumas fotos. – Ele continuou dando beijos em meu rosto.
– Não precisava ficar tocando. – Falei firme. – E não faça isso, alguém pode ver. – Falei, ouvindo-o rir.
– Estamos literalmente no meio do nada. – Ele disse, rindo. – E se elas virem, vão saber que meu coração já está tomado. – Ele disse e suspirei. – Vamos, baby… – Ele deslizou os beijos para meu pescoço, me fazendo rir. – Hein? – Suspirei.
– Daniel… – Segurei seu rosto, ouvindo-o rir e ergui o olhar para ele.
– Mostre a elas que eu sou seu. – Ele sussurrou, me fazendo rir.
– Você é metido demais, sabia? – Falei.
– Sabia e você me ama desse jeito. – Ele sorriu convencido e ri fracamente. – Vai, um beijo… É meu aniversário amanhã. – Neguei com a cabeça.
– Comemoraremos amanhã. – Falei, dando um curto beijo em seus lábios, mas suas mãos apertaram em minha cintura, me puxando para si e, quando percebi, meus braços já tinham subido para meus ombros e ele me puxava para si, fazendo isso ser muito mais do que só um selinho.
JULHO
Sábado
Daniel
– Parabéns para você… – Ouvi um sussurro em meu ouvido. – Parabéns para você… – Suspirei ao sentir o beijo em minha orelha. – Parabéns, baby. – Sorri, sentindo o carinho em meu peito. – Parabéns para você. – Senti um beijo próximo a minha boca, me fazendo rir.
– Eu ainda não abri meus olhos, mas já sei que é o melhor aniversário de todos. – Ouvi sua risada baixa e seus lábios deslizaram pela minha bochecha.
– Feliz aniversário, baby. – Senti suas pernas passarem pelo meu corpo e abri os olhos devagar. Ela ainda estava pelada pela noite passada, inclinada em minha direção e me fez suspirar ao sentar em meu quadril.
– Ah, baby… – Suspirei, subindo minhas mãos pelas suas pernas.
– Ainda temos alguns minutos para o despertador, mas achei que você poderia aproveitar seu presente um pouco. – Ela falou próximo ao meu ouvido e ri fracamente.
– O que comprou para mim? – Perguntei baixo, sentindo seus lábios descerem pelo meu pescoço.
– É difícil comprar algo para quem tem tudo. – Ela deslizou os lábios pelo meu peito, me fazendo suspirar. – Então eu me mantive no básico. – Ela disse, deslizando os lábios pelo meu peito e as mãos pelos meus braços, fazendo meu corpo se arrepiar só na expectativa.
– Ah é?! – Suspirei quando seus lábios desceram pela minha barriga.
– Uhum… – Ela suspirou, passando a língua em minha barriga, se aproximando da minha virilha e contive um gemido. – Relaxa, baby. – Ela disse baixo antes de sentir sua respiração em meu pênis.
– Ah, merda… – Soltei em um suspiro, apertando as mãos no lençol de baixo do colchão.
Ela deslizou o corpo pelas minhas pernas antes de começar a distribuir curtos beijos na extensão de meu pênis e acariciar minhas bolas, me fazendo suspirar. Suas mãos me tocavam delicadamente, mas o corpo ainda tensionado do sono fazia com que tudo fosse mais forte do que era.
Harp deslizou a mão em meu pênis, acariciando-o devagar e soltei um suspiro alto quando ela colocou sua boca e meus olhos se reviraram com os movimentos. Sua outra mão me acariciou na coxa e minha cabeça foi para trás automaticamente.
– Ah, merda… – Suspirei, apertando uma mão em seus cabelos, sentindo seus lábios deslizarem devagar com mais agilidade em meu pênis. – Ah, cara, eu te amo! – Falei em um suspiro. – Eu estou quase lá… – Sussurrei, sentindo-a deslizar mais devagar e dar curtos beijos na cabecinha. – Não para, baby…
– Eu quero me divertir também. – Ela sussurrou, me fazendo abrir os olhos. – Onde você deixou as camisinhas?
– Eu não estou conseguindo processar agora. – Falei, ouvindo-a rir e ela deslizou o corpo do meu, fazendo o colchão afundar ao meu lado e a vi se esticar até a prateleira do lado e mexer em algo antes de se colocar em cima de mim novamente. – Rápido, baby… – Suspirei.
Fechei os olhos por alguns segundos e logo senti as mãos de Harper em meu pênis novamente, deslizando a camisinha e reabri os olhos quando suas mãos apertaram meu peito. Seu rosto estava perto do meu e uma mão foi para sua nuca e outra para a base de suas costas, colando seu corpo no meu e nossos lábios se colaram com urgência.
Nossas línguas se encontraram com pressa e suas mãos foram para as laterais do meu corpo, deslizando-as devagar. Nossos narizes tocaram algumas vezes e minha respiração falhou quando ela tocou meu pênis novamente. Meus olhos focaram nos seus e percebi o sorriso em seus lábios. Ela guiou o pênis até sua entrada e apertei minhas mãos em sua cintura.
Ela mordiscou o lábio quando meu pênis deslizou com facilidade dentro dela e soltei um suspiro. Ela inclinou o corpo em minha direção e nossos lábios se tocaram por rápidos segundos. Desci minhas mãos para suas pernas e firmei os pés na cama para começar a fazer movimentos de vai e vem.
Eu já estava perto do orgasmo quando ela parou os movimentos, então não foi difícil voltar para lá novamente, ainda mais com seus lábios deslizando pelo meu rosto e seus seios pressionados em meu peito.
– Harp… – Sussurrei. – Eu estou quase lá. – Minha voz saiu falha.
– Tente aguentar um pouco mais, baby. – Ela sussurrou, erguendo o corpo e ela se apoiou no teto próximo de sua cabeça. – Devagar, baby…
Suspirei quando ela começou a movimentar seu quadril comigo. Foi como se o que ela tivesse falado teve efeito rebote, e a vista de seus seios se movimentando comigo só fez meu pênis apertar cada vez mais forte e minha respiração saiu pesada. Meus olhos se fecharam por alguns segundos, me fazendo abri-los novamente quando um toque alto começou.
– Porra! – Suspirei. – Meu despertador.
– Merda. – Ela passou as mãos nos cabelos e inclinou seu corpo no meu também, se esticando para pegar meu celular. – É seu chefe. – Ela me indicou a tela e vi o nome de Helmut Marko.
– Porra! Ele é inconveniente para um caralho. – Falei em um suspiro. – Bloqueia e joga longe.
Ela fez o que eu pedi, fazendo o som cessar e meus braços a apertaram com força, deslizando pela sua bunda, apertando seus glúteos com força. Não consegui aguentar mais do que três estocadas até aquela descarga elétrica gostosa passar pelo meu corpo, me fazendo suspirar. Harper apoiou as mãos em meu peito, rebolando devagar em meu pênis antes de ela suspirar alto.
– Merda. – Ela suspirou, erguendo os olhos para mim.
– Eu te amo. – Falei e ela sorriu, colando nossos lábios rapidamente.
– Eu também te amo, baby. – Ela acariciou meu rosto. – Feliz aniversário.
– Melhor aniversário de todos. – Falei, ouvindo-a rir. Ela acariciou meus cabelos, colando nossos lábios e minhas mãos apertaram sua cintura para um beijo longo, mas calmo.
– Ah, eu estou cansada. – Ela saiu de cima de mim, soltando um suspiro e se deitou ao meu lado novamente. – Eu estou pronta para dormir de novo. – Ela colocou as mãos embaixo do seu travesseiro e passei o braço em sua cintura, colando meu corpo no seu.
– Dia corrido, baby. – Falei, dando curtos beijos em seu rosto e ela sorriu.
– Ah, eu sei. – Ela suspirou. – Você vai querer jantar fora para comemorar? – Ela apoiou a mão em minha nuca e dei curtos beijos em seu rosto.
– Hum, acho que eu prefiro jantar aqui dentro mesmo. – Falei, passando a mão em sua cintura.
– Ah, é? O quê? Schnitzel? – Ela disse sonolenta e ri fracamente.
– Você de novo. – Ela riu. – Acabei de ter meu café da manhã dos campeões, posso ter meu jantar dos campeões também.
– Acho que eu não posso fazer uma revisão sobre isso. – Sorri.
– Melhor não. – Colei meus lábios nos seus e fui interrompido pelo telefone de novo. – Ah, caralho! – Procurei o celular e vi o nome de Helmut de novo. – Ah, que mala! – Falei, suspirando, mas coloquei o celular na orelha. – Ei, Helmut.
– Ei, Daniel! Feliz aniversário. – Ele disse e revirei os olhos.
– Obrigado, obrigado. – Cocei a cabeça, virando o corpo para a beirada da cama.
– Te acordei? – Ele perguntou.
– Não, estava me exercitando. – Falei e Harper riu fracamente, afundando o rosto no travesseiro.
– Bom, bom! Vamos fazer um bom fim de semana para nossos torcedores, sim?!
– Sim, claro! Pode deixar! – Falei.
– Te vejo no paddock daqui a pouco.
– Claro! – Falei, desligando o telefone e bufei. – Eu podia denunciar ele sobre relacionamento invasivo entre chefe e empregado. – Harper riu e virei o rosto para ela, vendo-a de bruços na cama.
– Se exercitando, hum?! – Ela perguntou e ri fracamente.
– Não deixa de ser verdade. – Dei de ombros e inclinei meu corpo perto do seu, colando nossos lábios e deslizei a mão para sua bunda, apertando-a fortemente, deslizando a mão entre as nádegas e ela suspirou. – Eu estou pronto para a próxima, falando nisso.
– Temos tempo? – Ela perguntou e ri fracamente.
– Eu faço termos. – Falei e ela riu.
– Se livra dessa camisinha e pega outra, aniversariante. – Ri fracamente e não pensei duas vezes antes de seguir até o banheiro.
Harper
– Ah, lá vai de novo. – Bufei ao ver as grid girls com roupa de austríacas se aproximarem novamente.
– Hum, alguém está enciumada! – Michael falou ao meu lado e só me contive em revirar os olhos.
– Ela é tonta! – Maria disse, rindo. – Daniel está praticamente de quatro por ela e ela fica com ciúmes de grid girls, fala sério! – Ela falou mais baixo, se afastando de nós e meus olhos se reviraram novamente.
– Ela não mentiu, sabe? – Michael disse e bufei baixo.
– Eu sei, mas elas não precisam ficar colando neles, tocando e… Argh! – Bufei, cruzando os braços.
Danny estava conversando com Christian e Helmut quando as grid girls apareceram e percebi que elas carregavam um bolo com algumas velas e algumas decorações que não dava para ver no fundo da garagem.
– Zum Geburtstag viel Glück! Zum Geburtstag viel Glück! – Eles começaram a cantar parabéns em alemão, fazendo a garagem começar a aplaudir e me obriguei a fazer isso de forma bem desanimada. – Zum Geburtstag liebe Daniel! Zum Geburtstag viel Glück!
– Espero que não tenha pistache nesse bolo. – Bufei.
– Ah, por favor. Tenho trauma da última vez até hoje. – Ele disse e não contive em rir fracamente. Não tinha graça nenhuma, mas tive meu momento de surto logo que voltamos a nos falar, perguntando um milhão de vezes se as coisas tinham pistache quando saíamos para jantar. Quem me vê calma hoje, não tem ideia.
– Faça um discurso, Daniel! – Christian disse e Daniel roubou um pedaço de chocolate do bolo.
– Ah, cara! Só quero agradecer a toda a equipe por tudo, por isso. Fico muito feliz! – Ele disse e nos aplaudimos.
– A família dele ligou? – Michael perguntou e assenti com a cabeça.
– Sim, eles nos atrapalharam. – Falei, rindo e Michael riu mais alto, me fazendo sorrir. – Da segunda vez… Na primeira foi o Marko…
– Um pouco inconveniente. – Michael disse.
– Um pouco? Não era nem oito da manhã. – Falei, ouvindo-o rir e pressionei os lábios ao ver as duas grid girls, além de Christian e Marko, se juntarem para uma foto e fiquei feliz das mãos de Daniel não estarem abraçando-as. Só faltava essa.
– Obrigada, meninas! Obrigada! – Maria disse e suspirei, desviando meu rosto.
– Quer bolo? – Michael perguntou.
– Um pedaço bem grande. – Falei, ouvindo-o rir e ele foi em direção ao bolo que tinha sido colocado em uma mesa e o vi comentar algo com Daniel antes de ir para o bolo.
Daniel virou para mim e dei um curto sorriso que deve ter só deixado óbvio o desgosto em meu rosto e ele veio em minha direção, tentando desviar de algumas pessoas para chegar mais rápido em mim.
– Ei, gatinha. Vem sempre aqui? – Ele brincou e respirei fundo.
– Venho! – Falei e ele riu fracamente.
– Eu amo a Harper ciumenta, mas você sabe que não tem motivo, né?! – Suspirei.
– Parece que eles fazem de propósito. – Sussurrei, ouvindo-o rir.
– Não é. – Ele disse, me puxando pela cintura e o segui para dentro do corredor da garagem, saindo das possíveis câmeras que já estavam em volta para a classificatória em alguns minutos. – Mulheres, carros, home race, é sempre assim. Não tem nada a ver com você, baby. – Ele me colou na parede quando ficamos escondidos.
– Vai ser sempre assim? – Bufei.
– Na Áustria é sempre assim, e acaba batendo com meu aniversário. – Ele segurou meu rosto e desviei-o, mantendo virado para outro lado. – Vamos… Olha para mim, baby! – Ele apoiou os braços ao lado de meu corpo e colou os lábios em meu rosto. – Vamos… Quem me deu o melhor presente de todos? – Suspirei. – Quem vai passar a noite comigo de novo? – Ele desceu os lábios pelo meu pescoço. – Quem é que está me fazendo o homem mais feliz do mundo? – Suas mãos me apertaram pela cintura, me fazendo suspirar. – Hein?!
– Eu te odeio. – Falei, virando o rosto para ele.
– E eu te amo para caramba. – Ele disse, puxando minha cintura para ele, fazendo meu corpo dar um tranco.
Observei seus olhos mais escuros dessa vez e ele deu um sorriso antes de eu colar nossos lábios. Suas mãos me apertaram com força, escorando meu corpo na parede e minha mão foi para sua nuca. Nossas línguas se encontraram com pressa e suas mãos deslizaram pelo meu corpo, apertando minha bunda com força. Subi minha mão para seus cabelos, puxando-os com força e ele suspirou.
Minhas mãos deslizaram pelo seu corpo, procurando por alguma abertura, mas a textura fina me lembrava que ele estava de macacão, me fazendo suspirar frustrada. Ele deslizou os lábios pela minha bochecha, dando beijos em meu rosto e me fazendo suspirar.
– Procurando por algo? – Ele sussurrou em meu ouvido e ri fracamente.
– Sim. – Suspirei, olhando em seus olhos. – Uma abertura. – Ele sorriu, mordiscando meu lábio inferior, puxando-o para si e colou nossos lábios novamente em alguns selinhos.
– Mais tarde. – Ele sorriu. – Adoraria transar com você agora, mas melhor não. – Rimos juntos e passei a mão em seu rosto.
– Depois? – Sugeri e ele ponderou com a cabeça.
– Podemos tentar. – Ele disse, me fazendo rir. – Eu gosto da Harper ciumenta, mas não tem motivo, ok?! – Ele acariciou meu rosto. – Eu gosto do que temos. – Assenti com a cabeça e ele colou nossos lábios e segurei seu rosto, acariciando-o.
– Vai. Você tem a classificatória ainda. – Falei e ele me beijou rapidamente mais uma vez antes de se afastar.
– Terminamos isso mais tarde. – Ele disse, dando uma piscadela e assenti com a cabeça, vendo-o ir para a parte da frente da garagem.
Mordisquei, meu lábio inferior e passei as mãos nos cabelos. Precisei refazer o rabo de cavalo para abaixar os fios e voltei logo em seguida para a garagem, vendo Danny já se arrumando para entrar no carro e percebi alguns olhares sobre mim.
– Até esquentou, viu?! – Maria sussurrou ao meu lado e senti meu rosto esquentar. – Espero que tenha deixado ele mais calmo. – Ela disse e pressionei os lábios, erguendo o rosto para Michael e ele ria de mim.
– Quem diria, hein?! – Ele comentou e dei uma cotovelada nele. – Ai! – Ele reclamou, me fazendo sorrir e ele esticou o prato com um pedaço generoso de bolo.
– Alguém viu? – Perguntei.
– A TV? Não. Só o pessoal do lado de cá inteiro. – Ele indicou o lado direito da garagem e ergui o rosto para alguns mecânicos que já tinham desviado os olhos.
Enquanto eu comia, Danny finalizou as preparações e logo a classificatória começou. Danny conseguiu o décimo melhor tempo na Q1 com 1:07:500, nada do que esperávamos para o fim de semana de seu aniversário. Nasr, Ericsson, Kvyat, Haryanto, Palmer e Magnussen foram os primeiros eliminados.
Depois Danny seguiu para a Q2 e conseguiu abaixar seu tempo para 1:06:840, ficando em quinto lugar, me deixando um pouco mais feliz. A segunda parte eliminou Perez, Sainz, Alonso, Grosjean, Wehrlein e Gutiérrez. Na terceira parte, Danny acabou cravando só o sétimo melhor tempo, largando atrás de Hamilton, Rosberg, Hulkenberg, Vettel, Button e Kimi, e na frente de Bottas, Verstappen e Massa.
É, provavelmente não vai ser o fim de semana que esperávamos.
Domingo
Daniel
Passei meus braços pelos de Harper, colando meus lábios em seu pescoço e ela deu um gemido, me fazendo sorrir. Desci os beijos pelos seus ombros enquanto levava uma mão para sua cintura e outra para seus cabelos.
– Bom dia, baby. – Falei, ouvindo-a suspirar.
– Já? – Ela gemeu e ri fracamente.
– Já sim. É dia de corrida. – Falei e ela virou o corpo na cama, ajeitando o edredom em cima de seu corpo e meus dedos deslizaram pela sua cintura, colando seu corpo no meu.
– Hum… – Ela suspirou e deixei um beijo em sua bochecha e um selinho em seus lábios. – É sua culpa, Daniel. – Ri fracamente.
– O que eu fiz agora? – Perguntei, sentindo suas pernas se enroscarem nas minhas.
– Você me deixou preguiçosa. – Sorri, dando outro beijo em seu rosto.
– Não me importo em ser culpado nisso. – Falei e ela passou a mão em minha barriga, inclinando sobre meu corpo e passei as mãos em seus cabelos, jogando-os para trás.
– O que aconteceu conosco, hum? – Ri fracamente. – Seis meses atrás isso nunca aconteceria. Provavelmente estaríamos dormindo juntos, mas devidamente vestidos. – Sorri, colando nossos lábios.
– Nos apaixonamos, baby. – Falei. – E eu acho que nos prefiro agora do que antes. – Ela sorriu, finalmente abrindo os olhos sonolentos.
– Nada realmente mudou da nossa antiga versão, Danny. – Ela disse, subindo a mão para meu peito. – Agora a gente só tem outros tipos de brincadeiras. – Rimos juntos e ela apoiou a cabeça em meu ombro.
– Ah, eu amo essas brincadeiras. – Ela riu e deu um beijo em meu pescoço.
– Só faz um mês, mas acho que estamos conseguindo lidar com os dois… – Ela me abraçou. – Esse relacionamento e nossa amizade… – Ela deu outro beijo, me fazendo sorrir.
– Fico feliz em saber que você não era ciumenta só na amizade. – Ela riu e virei o rosto para ela, vendo-a me observar.
– Culpada! – Ela disse, rindo. – Me desculpa, ok?! Mas me irrita eles colocando mulheres com você só para promoção. É ridículo.
– Eu adoro você ciumenta, mas não vai ser nenhuma grid girl que vai me tirar de você, ok?! Acredite quando eu digo que nunca me envolvi com grid girls. – Falei e ela franziu os olhos. – É sério! Elas não falam, não riem, não respondem, é difícil…
– Então você já tentou… – Ela se debruçou sobre mim, me fazendo rir.
– Eu já tive meus momentos, baby. – Ela riu. – Mas agora eu estou apaixonado… Pela mulher que fez parte da minha vida por 24 dos meus 27 anos, mas ok! – Ela sorriu.
– E agora estou com um homem mais velho, é sexy. – Ela beijou meu pescoço e ergui o rosto, rindo fracamente.
– Por três meses, baby. – Ela riu, fazendo sua risada bater em meu pescoço.
– Ainda assim. – Ela ergueu o rosto, dando um curto selinho em meus lábios. – Você vai ter um ano a mais do que eu pelos próximos três meses e eu vou tirar onda sempre que possível. – Sorri, acariciando seu rosto.
– Contando que eu possa ficar com essa novinha aqui, então. – Ela riu e nossos lábios se tocaram mais uma vez, terminando em um sorriso.
– Eu vou ao banheiro. – Assenti com a cabeça e ela pulou meu corpo para sair da cama e observei-a pegar as roupas jogadas pelo chão antes de sumir pelas escadas do motorhome.
Ri fracamente, abrindo um sorriso e peguei meu celular. Desbloqueei-o, limpei as notificações e dei aquelas respostas genéricas para minha mãe e Michael. Ergui meu corpo na cama, coçando a cabeça e tirei o edredom de meu colo. Desci pelas escadas, apoiando as mãos na parede e encontrei minhas roupas e de Harper jogadas no sofá. Peguei minha mochila, pegando uma boxer limpa e a vesti. Peguei outra camiseta e coloquei pela cabeça.
Fui até a máquina de café e fiz primeiro o café com leite e canela de Harper, depois troquei as cápsulas e fiz o meu descafeinado, apoiando ambas as xícaras na bancada. O banheiro se abriu novamente e Harper saía do mesmo só de calcinha enquanto amarrava os cabelos.
– Viu?! Eu consigo me acostumar a isso. – Falei e ela riu fracamente.
– Acho que já me acostumei. – Ela passou os braços pela minha cintura e acariciei seu rosto. – Bastante. – Sorri.
– Baby. – Falei e nossos lábios se tocaram rapidamente. – Deixa eu escovar dentes. – Ela assentiu com a cabeça e nos afastamos. – Fiz seu café!
– Obrigada… – Ela disse antes de eu entrar no banheiro.
Fui direto para o vaso sanitário e mijei. Depois me apoiei na pia para escovar os dentes, fazer gargarejo e ficar pronto para dar mais alguns beijos na minha gata. Ri com esse pensamento, mas nada tiraria minha felicidade. Quando finalizava de escovar, ouvi algumas batidas no motorhome.
– Daniel! – Ouvi a voz de Maria e abri a porta, vendo Harper colocar uma blusa rapidamente.
– É Maria! – Comentei e ela assentiu a cabeça antes de se esconder atrás da porta e abri-la devagar.
– Bom dia, casal! – Maria disse e, também, me escondi atrás da porta para observá-la. – Vim trazer a roupa do dia. Para vocês dois! Nos vemos no paddock. – Ela disse, entregando dois protetores de vestido para Harper e depois duas caixas de sapato.
– Bom dia. – Harper disse e Maria puxou a porta. – Obrigada… – Harper disse aleatoriamente, me fazendo rir e seguei a escova antes de deixar em cima na pia. – O que é isso?
– Roupas comemorativa. Home race. – Suspirei. – Tenha medo! – Falei e ela riu. Ela apoiou os dois protetores nos armários da área da cozinha e abriu o primeiro, revelando uma camisa social branca, bermudas de couro estilo alemão e meias verdes combinando. – Viu?! Tenha medo.
– Oh, meu Deus! – Ela disse, rindo e peguei-o.
– Eu vou vestir isso no banheiro. – Falei e ela riu.
Voltei para o banheiro e ri com a roupa. Ela não era tão desconfortável, mas o tecido da bermuda era pesado. Ao menos era só para fazer uma firula com a imprensa, até meio-dia eu me livraria disso e trocaria pelo macacão. Coloquei as meias verdes, subindo-as até o joelho e abri a porta do banheiro novamente.
– Eu vou matar a Maria! – Harper disse, se virando para mim e gargalhei ao vê-la com a roupa típica alemã, igualzinho as roupas das grid girls nesse fim de semana.
Um vestido azul escuro com uma camiseta de mangas bufantes branca por baixo, além do avental branco na frente. Em sua mão ainda tinha uma tiara de flores que não combinavam com a cara que ela fazia.
– Tá uma gracinha, Harper! – Ela revirou os olhos.
– Não! Eu estou igual a elas! – Ela disse, me fazendo rir.
– Mais bonita. – Me aproximei dela, pegando a tiara de sua mão e coloquei em sua cabeça.
– Eu pareço uma criança de 12 anos. Na verdade, não. Com 12 anos eu já tinha crescido, com oito. – Rimos juntos e ela segurou seus cabelos para eu amarrar a tiara.
– Quer fazer suas tranças? – Ela riu fracamente, virando o rosto para mim.
– Não exagera. – Ela disse e passei meus braços pela sua cintura.
– Você está linda, baby. – Rocei meus lábios nos seus e ela riu fracamente. – Minha boneca alemã.
– Não começa. – Ela disse, rindo. – Ou vamos começar a falar de você e não está legal. – Ri fracamente.
– É, eu pareço aqueles velhos, falta só a caneca de cerveja e a barriga. – Ela riu fracamente, apoiando a mão em minha barriga.
– Sem barriga. – Ela disse e nossos lábios se tocaram levemente. – Continue sexy para mim, ok?! – Sorri.
– Pode deixar! – Ela riu, se afastando, seguindo até o sofá.
– Tem seu sapato também! – Ela me estendeu uma caixa e se sentou no sofá, pegando a outra. – Como eles sabem meu número? – Ela checou a sola do sapato e ri fracamente.
– Aquele contrato que você assinou no começo do ano para me acompanhar. – Falei. – Eu dei todas as informações para eles. – Ela riu.
– Eu vou matar Maria. – Ela disse, rindo, colocando os sapatos estilo de boneca e me sentei ao seu lado.
– Fica feliz que é só isso, poderia ser pior. – Ela riu. – Pensa bem, dá para gente se divertir e tirar umas fotos.
– Aposto que mais do que só algumas. – Ela virou o rosto para mim. – Só espero que não esfrie. – Ri fracamente.
– Eu te esquento. – Ela riu.
– Durante a corrida? – Dei de ombros.
– Te levo dentro do cockpit. – Falei e ela riu.
– É, claro! – Ela sorriu e pressionei meus lábios em sua bochecha antes de abrir a caixa de sapatos, encontrando o típico sapato preto.
Harper
Ah, se arrependimento matasse!
Sabe o que é ter todas as pessoas do paddock olhando para você? É exatamente o que aconteceu hoje!
Tudo bem que isso acontecia um pouco por eu andar ao lado do Danny, mas agora elas estavam olhando diretamente para mim! Tudo por causa dessa roupa idiota. Para ajudar minha felicidade, a temperatura tinha caído e eu estou tremendo de frio dentro da garagem. Se eu estivesse de calça jeans e o casaco da Red Bull, isso não estaria acontecendo.
A minha felicidade é que todo mundo da Red Bull, com exceção dos mecânicos que já estão prontos para o pit stop, estão com essa roupinha ridícula. Os homens com a roupa igual de Danny e Max, o que me fez gargalhar muito quando Christian e Helmut apareceram na garagem assim, e as meninas igual a mim como Maria, algumas meninas da engenharia e do marketing.
Na verdade, a única pessoa que não estava com essas roupas, era o chefão da Red Bull. Hoje tive o prazer de conhecê-lo. Prazer de verdade! O Dietrich Mateschitz*, que Danny havia me contado que estava na corrida de Barcelona – é, aquela mesma –, é uma pessoa muito simpática e divertida. Danny me apresentou para ele como sua amiga, tivemos aquele básico “amigos mesmo?” e Danny acabou dando de ombros, dando um beijo em minha bochecha, fazendo-o rir. Trocamos algumas palavras sobre os motivos de eu não ter aparecido antes e nos separamos. Mas já são muito mais palavras do que eu troquei com Helmut desde que cheguei aqui.
Por causa do frio, me despedi de Danny na garagem hoje. O grid estava aquela loucura e eu sentia falta do sol que estava ontem. Eu estava quase arranjando uma dessas meias verdes iguais dos meninos para mim. Não combinaria com o look, mas eu ainda estou preferindo meu conforto.
– Checagem de rádio, Daniel! – Simon disse e pressionei as mãos uma na outra.
– Tu-u-u-udo certo. – Danny respondeu e suspirei.
– 30 segundos para as luzes. – Simon disse e suspirei.
Fiz um sinal da cruz discreto e apertei as mãos próximo à boca. As luzes se acenderam, liberando a volta de apresentação, mas depois de toda reorganização do grid, as luzes foram se acendendo uma por uma até apagarem.
Os carros se espalharam pela pista e tive a impressão de ver Danny ganhando uma ou duas posições, mas algumas curvas depois, ele continuava em quinto lugar, o que ele reduziu duas posições por penalidades de Nico e Seb. Ao final da primeira volta, ele já estava em sexto e os carros o deixavam para trás. Inicialmente pensei que podia ser alguma impressão, mas ele continuou caindo até estar em oitavo na sétima volta.
– Galera… – Ouvi sua voz. – Eu estou lento nas retas…
– Um momento, cara, vamos checar! – Simon disse e suspirei, mordiscando a ponta do dedo.
– Meu ritmo está lento. – Danny disse.
A movimentação começou na garagem e no pit wall e as vozes tanto de Simon como de Christian vazavam para mim, mas não sabia se Danny ouvia da mesma forma. Só na décima segunda volta que Simon falou novamente.
– O problema parece ter sido resolvido, pressione agora! – Ele disse firme.
– Entendido.
E Danny realmente tinha entendido.
A recuperação dele foi quase imediata, ele passou Bottas e foi subindo de posições até chegar em quinto. Na décima quinta volta, ele veio para o pit stop, trocando os pneus médios por macios. Logo em seguida veio Max e fez o mesmo. Max saiu em quinto e Danny se estagnou em sexto.
Na vigésima terceira volta, ele apareceu novamente após passar Kimi e sabia como ele estava feliz por isso. Ao menos ele voltou para quinto lugar e era quase o começo da prova novamente.
Tudo estava indo bem, até Vettel bater sozinho na vigésima sétima volta. Vettel, que era o líder da corrida. De repente, tudo mudou. O safety car foi para a pista e os pilotos vieram em debandada para os pits. No replay deu para ver um estouro em seu pneu traseiro direito fez o carro girar e bater de frente na barreira.
O safety car ficou na pista até a trigésima primeira volta, liberando a volta logo em seguida. Após a saída de Vettel, Danny conseguiu uma posição e a manteve quando foi dado a largada novamente.
As duas Mercedes e as duas Red Bulls lideravam a corrida, mas Danny claramente tinha dificuldades para se afastar de Kimi que vinha logo atrás. Passou 20 voltas depois da saída do safety car da pista e parecia que o finlandês só ficava mais perto dele, enquanto Danny não conseguia se aproximar de Max que se mantinha em terceiro lugar.
Na quinquagésima quinta volta, Hamilton saiu para fazer pit stop e acabou caindo para terceira posição. Rosberg e Max ficaram à sua frente, mas ele saiu antes de Danny e Kimi, deixando-os bem próximos. Na volta seguinte, foi a vez de Rosberg fazer seu pit stop e ele saiu atrás de Max que agora ficou na liderança.
– Merda… – Sussurrei, pressionando os lábios.
Max é um cara legal, a questão não é essa, mas vê-lo se dando bem nessas corridas estava me irritando. Por que Danny não estava tendo essa mesma sorte? O que estava faltando para isso dar certo?
Ainda bem que eu não falei em voz alta, mas na quinquagésima oitava volta, Kimi conseguiu acabar com a distância para Danny e o passou, deixando-o em quinto agora. Isso basicamente acabou com o clima do lado de cá da garagem, enquanto o lado do Max parecia bem empolgado, mas tinha 12 voltas para o fim.
Na sexagésima primeira volta, foi a vez de Danny vir para o pit stop e ele acabou perdendo a quinta posição para Button ao sair. Durante a corrida, Nico conseguiu passar Max, mas parecia que Max estava tentado a conseguir seu espaço de volta, mas o alemão não daria com tanta facilidade.
As duas Mercedes e Max corriam pelas três primeiras posições, agora Kimi havia ficado um pouco para trás, Button mais e Danny pior ainda. Na sexagésima terceira volta, Hamilton também passou Max, deixando-o em terceiro e as duas Mercedes lideraram novamente. A vantagem é que Danny parecia caçar Jenson agora e esperava que conseguisse.
Faltando seis voltas para o fim, Massa, Hulkenberg e Alonso precisaram abandonar a corrida. Os dois primeiros por problemas nos freios, já Alonso foi por bateria. Foi aí também que Danny conseguiu voltar para quinto lugar, me fazendo aplaudir por isso junto dos mecânicos. Não era perfeito, mas era alguns pontos a mais.
Faltando duas voltas para o final, Perez acabou rodando, aparentemente sozinho, dando bandeira amarela. Na volta final, algo louco aconteceu e Hamilton acabou batendo em Rosberg, fazendo-o perder sua asa dianteira e isso fez com que Max ficasse em segundo e Kimi em terceiro. Nico veio em quarto e Danny em quinto.
Enquanto eu tentava entender o que aconteceu nesse final, os mecânicos dos dois lados saíram correndo para as grades e eu suspirei. Travada no meu lugar. Senti uma mão em meu ombro e ergui o rosto para Michael.
– Você está bem? – Suspirei.
– Eu não sei. – Dei de ombros. – Max mereceu, aparentemente. Não foi decisão de equipe. – Tirei os fones da orelha, colocando-o na bancada.
– Aonde vai? – Michael perguntou.
– Até ele. – Falei, dando a volta pela garagem e suspirei quando o vento bateu em meu corpo e senti falta de um casaco agora.
Corri em direção a garagem da FIA, vendo o paddock começar a encher novamente com equipes, mecânicos e até alguns pilotos que já saíam da garagem. Suspirei quando Danny saiu da garagem e vi que ele não estava chateado. O som dos meus sapatos boneca ficou mais alto e vi um sorriso aparecer em seu rosto quando ele me viu.
– Baby… – Ele falou fracamente e abracei-o, passando os braços em seus ombros.
– Oi, baby. – Falei fracamente. – Como você está? – Acariciei os cabelos de sua nuca.
– Eu estou bem, prometo. – Ele disse com um sorriso no rosto. – O carro não estava respondendo, ficar em quinto foi sorte. – Suspirei.
– Tem certeza?
– Sim, eu tenho. Não se preocupe, baby. Hoje eu estou bem. – Ele pressionou os lábios em minha testa e sorri. – Eu tenho algumas entrevistas para fazer, depois podemos voltar para o motorhome e ficar lá antes de ir para Londres.
– Vamos amanhã? – Perguntei, passando as costas das mãos em sua testa, secando um pouco do suor.
– Sim, a corrida já é no próximo domingo. – Assenti com a cabeça. – Tenho uns eventos lá, dá para você ir comigo…
– Posso trabalhar. – Falei, ouvindo-o rir.
– É… Isso também. – Rimos juntos.
– Vamos continuar nossos planos, ok?!
– Não dizendo para não continuar seus planos, só dizendo que você pode ir comigo. – Ele deu de ombros e ri fracamente.
– Eu preciso realmente trabalhar, baby. – Ri fracamente. – Apesar de querer muito ficar presa no motorhome com você novamente.
– Muito melhor que trabalhos e eventos. – Neguei com a cabeça e dei um beijo em sua bochecha.
– Você está ficando mal-acostumado e me deixando mal-acostumada. – Ele riu fracamente.
– Culpado! – Ele disse, beijando minha cabeça, me fazendo sorrir. – Agora vamos, Maria está me dando o olhar.
– Olhar de tia Grace? – Perguntei e ela riu fracamente.
– Esse mesmo. – Ele riu.
– Vamos sair daqui antes que achem que você está ficando com uma grid girl. – Falei, ouvindo-o gargalhar ao meu lado.
– Já falei como você está lindinha assim? – Ri fracamente.
– Já. – Revirei os olhos. – Mas estou com frio também. – Ele riu.
– Vou terminar isso daqui e a gente logo volta para o motorhome e eu te aqueço de novo. – Ri fracamente, empurrando-o em direção à Maria, ouvindo-o rir. – Você quer, vai! – Ele falou mais alto, me fazendo rir.
– Cala a boca, Daniel! – Falei, rindo.
*Dietrich Mateschitz: fundador da Red Bull e criador das áreas esportivas da empresa. Faleceu em 2022.
Silverstone, Inglaterra
Daniel
– Mentira! – Falei, rindo. – Quando vai ser isso?
– A gravação vai ser na semana depois do GP. Tem um intervalo entre Inglaterra e Hungria, eles vão fazer a gravação aí. – Maria disse, me fazendo rir.
– Cara, um programa com o James Corden. Isso é demais! – Falei, rindo.
– Achamos que seria sua cara. – Ela disse, rindo. – É gravado como programa de auditório, então pode levar a Harper e seus amigos, se quiser. – Ri fracamente.
– Eles vão adorar tirar uma com a minha cara! – Falei.
– Até eu. – Ela sorriu e ri fracamente.
– Tem algo mais que eu precise fazer agora? – Perguntei.
– Não, vai descansar. Aproveita com sua garota. – Ela disse e sorri. – Você está feliz, certo?
– Muito! – Falei, rindo. – Nunca pensei que minha felicidade estava literalmente comigo esse tempo todo. – Ela sorriu.
– Você sabia sim, só não sabia que podia se divertir com ela. – Ri fracamente.
– É, isso também. – Sorri. – Sei lá, eu nunca me senti assim antes. – Suspirei. – E eu namorei a Jemma duas vezes…
– A Jemma não era a garota para você. Ela gostava de você sim, mas gostava mais ainda da atenção que isso dá… – Ela indicou o acampamento de motorhomes. – A Harper já não se importa com isso. Ela quer ficar contigo e é o suficiente. – Assenti com a cabeça. – Ela já queria ficar só contigo antes, agora mais ainda.
– Obrigado por dar uma folga nisso…
– Como eu falei desde o começo, Daniel, não é folga, ela só não fez nada para eu encher o saco. Eu ou o restante da equipe… – Assenti com a cabeça. – Aproveita, ok?!
– Valeu. Eu vou… – Indiquei a porta e ela assentiu com a cabeça.
– Nos vemos amanhã.
– Até! – Acenei antes de empurrar a porta do motorhome.
Vi Maria seguir até o seu antes de encostar a porta e senti a temperatura de dentro bem mais quente que a de fora. Percebi uma pequena caixa perto da pia e vi um bilhete colado na tampa: “Achei que sentiria fome. Harp ❣️”. Sorri e abri, vendo um tipo de torta britânica, mas feita com linguiça. Peguei um pedaço, colocando na boca e me sentei no sofá para me livrar do relógio e das sapatilhas.
Me levantei novamente e fui mordendo pedaços da torta enquanto me livrava do macacão e depois da segunda pele de calça e blusa. Fui até minha mochila, peguei a calça de moletom e a camiseta de pijama, vestindo-as e parei perto da pia para terminar a torta em mais algumas mordidas.
Perdi mais alguns minutos no banheiro antes de estar pronto para realmente dormir. Desliguei as luzes da entrada do motorhome e subi as escadas até o quarto. Harper dormia no lado extremo da cama e seu notebook e óculos estavam colocados no que seria o meu lado. Peguei-os com cuidado e deixei na outra sala. Puxei um pouco da coberta para me deitar ao seu lado.
Ela usava um pijama de mangas compridas e tinha os cabelos bagunçados no travesseiro. Passei a mão neles, jogando-os para trás e ajeitei a coberta em meu corpo antes de abraçar Harper e deixar um beijo em sua bochecha.
– Hum… – Ela resmungou e sorri, dando outro beijo. – Baby? – Sorri.
– Sim, sou eu. Acabei de chegar. – Dei outro beijo em sua bochecha, deslizando meu nariz pelo local e ela virou o rosto devagar para mim.
– Como foi lá? – Ela falou sonolenta, se espreguiçando e virando o corpo de frente para mim e apertei minha mão em suas costas e outra embaixo do travesseiro.
– Tudo certo, chato e entediante. – Ela riu fracamente. – E você?
– Tudo bem… – Ela suspirou, aproximando o rosto do meu e nossas pernas se entrelaçaram. – Eu tirei a estrela de um restaurante. – Ri fracamente.
– Uh, malvada. – Deslizei meus lábios nos seus, ouvindo-a rir em slow motion.
– É… – Ela suspirou, se aninhando em meu peito e abracei-a perto de mim. – Não gostei muito de fazer isso, mas é…
– Volta a dormir, baby. – Dei um beijo em sua cabeça, suspirando com o cheiro de seus cabelos.
– Uhum… – Ela suspirou e senti sua mão em minha barriga. – Como vai ser amanhã?
– Eu tenho algumas entrevistas de manhã, aquecimento, mas nada no circuito.
– Uhum… – Ela resmungou e ri fracamente, reconhecendo a Harper amiga nessa preguiça. – Janta comigo?
– É claro que sim, baby. Almoço também. – Ela ergueu o rosto para mim, com os olhos entreabertos.
– É? – Assenti com a cabeça.
– É! – Sorri, acariciando seu rosto. – Sou seu amanhã. – Ela sorriu, colando nossos lábios por alguns segundos.
– Já disse que te amo? – Ela falou e assenti com a cabeça.
– Já, mas sempre gosto de ouvir. – Nossos lábios se pressionaram por alguns segundos e ela abaixou o rosto novamente, se aninhando em meu peito. Fechei os braços em volta de seu corpo, acariciando suas costas e sabia que logo teria uma das melhores noites da minha vida.